SERMÃO 46
O estado de deserto
Quando o crente perde a luz e a alegria da fé — e como sair desse deserto.
“Assim também agora vocês estão tristes. Mas eu os verei outra vez, e o coração de vocês ficará cheio de alegria, e ninguém poderá tirar essa alegria de vocês.”
(Jo 16.22, NAA)Antes de ler
Depois de experimentar o perdão, a paz e a alegria da salvação, alguns cristãos entram em um período de profunda escuridão espiritual. Perdem a certeza do amor de Deus, deixam de sentir alegria na oração e passam a temer que jamais tenham sido verdadeiramente alcançados pela graça.
Wesley chama essa condição de “estado de deserto”. Ele insiste, porém, que Deus não abandona arbitrariamente seus filhos nem retira sua presença simplesmente porque assim deseja. Em geral, a escuridão possui causas que precisam ser identificadas: pecados praticados, deveres negligenciados, orgulho, ira, desejos desordenados, preguiça espiritual, interpretações bíblicas equivocadas ou tentações inesperadas.
O tratamento deve corresponder à causa. Consolar alguém sem tratar o pecado pode apenas encobrir a ferida. Por outro lado, acusar quem está sofrendo por ignorância ou tentação pode aprofundar sua angústia. O cuidado espiritual exige verdade, discernimento, arrependimento, oração e confiança nas promessas de Deus.
— Bispo Ildo Mello
1. Depois de Deus realizar uma grande libertação em favor de Israel, retirando-o da casa da escravidão, o povo não entrou imediatamente na terra prometida aos seus antepassados.
Os israelitas se desviaram pelo deserto e foram submetidos a diversas tentações e aflições.
De maneira semelhante, depois de Deus libertar do domínio do pecado e de Satanás aqueles que o temem; depois de serem gratuitamente justificados por sua graça, mediante a redenção que há em Jesus, poucos entram imediatamente no descanso reservado ao povo de Deus.
Grande parte deles se desvia, em maior ou menor grau, do bom caminho no qual Deus os colocou.
Entram, por assim dizer, em um deserto vasto e inquietante, onde são tentados e atormentados de várias maneiras.
Por causa da semelhança com a experiência dos israelitas, essa condição tem sido chamada de estado de deserto.
2. É certo que as pessoas nessa condição merecem nossa mais profunda compaixão.
Sofrem de uma enfermidade grave e dolorosa, embora geralmente pouco compreendida. Exatamente por não ser bem compreendida, torna-se mais difícil encontrar o tratamento adequado.
Estando elas mesmas em escuridão, não conseguem entender corretamente a natureza da própria enfermidade.
Poucos de seus irmãos — e talvez poucos de seus orientadores espirituais — sabem qual é a doença ou como tratá-la.
Por isso, precisamos investigar:
I. Qual é a natureza dessa enfermidade.
II. Quais são suas causas.
III. Qual é sua cura.
I. A natureza do estado de deserto
1. Qual é a natureza dessa enfermidade na qual muitos caem depois de crer?
Em que ela consiste, e quais são seus verdadeiros sintomas?
Ela consiste propriamente na perda da fé que Deus havia produzido no coração.
Aqueles que estão no deserto já não possuem a evidência divina, a convicção satisfatória das coisas que não se veem, da qual anteriormente desfrutavam.
Já não possuem aquela demonstração interior do Espírito que antes os capacitava a dizer:
“Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim.”
(Gl 2.20, NAA)
A luz do céu já não brilha em seu coração. Eles já não contemplam aquele que é invisível.
A escuridão voltou a cobrir a alma, e os olhos do entendimento tornaram-se novamente obscurecidos.
O Espírito já não confirma ao espírito deles que são filhos de Deus. Já não atua no coração como Espírito de adoção, levando-os a clamar: “Aba, Pai!”
Não possuem mais confiança segura no amor de Deus nem liberdade para aproximar-se dele com santa confiança.
A expressão:
“Ainda que ele me mate, nele esperarei”
(Jó 13.15)
já não representa a linguagem do coração.
Foram privados da força e tornaram-se fracos e desanimados como os demais seres humanos.
2. Da perda da fé procede, em segundo lugar, a perda do amor.
O verdadeiro amor cristão cresce ou diminui juntamente com a fé viva e na mesma proporção.
Consequentemente, aqueles que perderam a fé também perderam o amor de Deus.
Já não podem dizer:
“Senhor, tu sabes todas as coisas; sabes que eu te amo.”
Não encontram felicidade em Deus como encontra todo aquele que realmente o ama.
Já não se alegram nele como anteriormente nem percebem a beleza de sua presença.
Antes, todo o desejo deles estava voltado para Deus e para a lembrança de seu nome. Agora, até os desejos se tornaram frios e sem vida, quando não foram completamente apagados.
À medida que o amor por Deus esfria, esfria também o amor pelo próximo.
Já não possuem o mesmo zelo pela salvação das pessoas nem o mesmo desejo intenso, ativo e perseverante de que sejam reconciliadas com Deus.
Não sentem a mesma compaixão pelas ovelhas perdidas nem a mesma misericórdia pelos ignorantes e desviados.
Anteriormente, tratavam todas as pessoas com bondade e corrigiam com mansidão aqueles que se opunham à verdade.
Quando alguém era surpreendido em alguma falta, procuravam restaurá-lo com espírito de mansidão.
Depois de algum tempo nessa condição, porém, a ira começa a recuperar sua força.
A irritação e a impaciência os atacam intensamente. E é bom que não cheguem algumas vezes a retribuir mal por mal e ofensa por ofensa.
3. Como consequência da perda da fé e do amor, segue-se, em terceiro lugar, a perda da alegria no Espírito Santo.
Quando desaparece a consciência amorosa do perdão, não pode permanecer a alegria que procedia dela.
Se o Espírito já não confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus, também desaparece a alegria que fluía desse testemunho interior.
Aqueles que antes se alegravam com alegria indescritível, na esperança da glória de Deus, agora perderam a esperança cheia de imortalidade e, consequentemente, a alegria produzida por ela.
Também perderam a alegria resultante da consciência do amor de Deus derramado no coração.
Quando a causa é retirada, desaparece o efeito. Quando a fonte é bloqueada, as águas vivas já não brotam para refrescar a alma sedenta.
4. Com a perda da fé, do amor e da alegria, une-se, em quarto lugar, a perda daquela paz que anteriormente excedia todo entendimento.
A doce tranquilidade da mente e a serenidade do espírito desaparecem.
Voltam as dúvidas dolorosas: se realmente cremos algum dia e, talvez, se algum dia chegaremos a crer.
Começamos a duvidar se realmente recebemos o testemunho do Espírito ou se enganamos a nós mesmos, confundindo a voz da natureza com a voz de Deus.
Talvez também duvidemos se algum dia voltaremos a ouvir sua voz e a encontrar favor diante dele.
Essas dúvidas são acompanhadas pelo medo servil, pelo medo que produz tormento.
Voltamos a temer a ira de Deus como antes de crermos.
Tememos ser expulsos de sua presença e afundamos novamente no medo da morte, do qual anteriormente havíamos sido completamente libertados.
5. Isso ainda não é tudo.
A perda da paz é acompanhada pela perda de poder.
Sabemos que todo aquele que tem paz com Deus por meio de Jesus Cristo possui poder sobre o pecado.
Quando perde a paz de Deus, perde também o poder sobre o pecado.
Enquanto a paz permanecia, também permanecia o poder, até mesmo sobre o pecado que mais facilmente o envolvia — relacionado à natureza, ao temperamento, à educação ou à profissão.
Possuía poder sobre as disposições e os desejos pecaminosos que anteriormente não conseguia vencer.
O pecado já não exercia domínio sobre ele. Agora, porém, ele já não exerce domínio sobre o pecado.
Pode lutar, mas não consegue vencer. A coroa caiu de sua cabeça.
Os inimigos voltaram a prevalecer e, em maior ou menor grau, o conduzem novamente à escravidão.
A glória partiu: o Reino de Deus que estava no coração.
Ele perdeu a justiça, assim como perdeu a paz e a alegria no Espírito Santo.
II. As causas do estado de deserto
1. Essa é a natureza daquilo que muitos chamam, corretamente, de estado de deserto.
Podemos compreendê-lo melhor investigando suas causas.
Elas são diversas. Contudo, não me atrevo a incluir entre elas a vontade arbitrária e soberana de Deus.
O Senhor se alegra com o bem-estar de seus servos e não sente prazer em afligir ou entristecer os filhos dos homens.
Sua vontade constante é nossa santificação, acompanhada de paz e alegria no Espírito Santo.
Essas coisas são dons gratuitos de Deus. E os dons de Deus, da parte dele, são irrevogáveis.
Ele não se arrepende daquilo que concedeu nem deseja retirá-lo.
Portanto, Deus nunca nos abandona arbitrariamente, como alguns dizem. Somos nós que o abandonamos.
1. Pecados praticados ou deveres negligenciados
2. A causa mais comum da escuridão interior é algum tipo de pecado.
É o pecado que geralmente produz essa combinação de culpa e sofrimento.
Em primeiro lugar, pode ser um pecado praticado.
Às vezes, uma única ação obscurece a alma em um momento, especialmente quando se trata de pecado conhecido, voluntário ou presunçoso.
Por exemplo, se alguém que caminhava na clara luz da presença de Deus se deixa dominar pela embriaguez ou pela imoralidade, não seria surpreendente se naquela mesma hora caísse em profunda escuridão.
É verdade que existem casos raríssimos em que Deus impede isso por uma manifestação extraordinária de sua misericórdia perdoadora, quase no mesmo momento.
Mas, normalmente, um abuso tão grave da bondade de Deus e uma ofensa tão evidente ao seu amor produzem separação imediata e escuridão que pode ser sentida.
3. Podemos esperar que esse caso não seja muito frequente.
Talvez não existam muitas pessoas que desprezem tanto as riquezas da bondade divina a ponto de se rebelarem abertamente contra Deus enquanto ainda caminham em sua luz.
Com muito mais frequência, a luz é perdida por causa de pecados de omissão.
A omissão não apaga o Espírito de maneira tão rápida, mas age gradual e lentamente.
O pecado deliberado pode ser comparado à água lançada sobre o fogo.
A negligência contínua é semelhante à retirada progressiva do combustível.
Muitas vezes, o Espírito amoroso repreende nossa negligência antes de se afastar.
Concede repetidas advertências interiores e sinais secretos antes de retirar suas influências.
Somente uma sequência de omissões, mantidas voluntariamente, costuma conduzir alguém à escuridão completa.
4. Talvez nenhum pecado de omissão produza essa condição com mais frequência do que a negligência da oração particular.
Nenhuma outra prática pode substituir a comunhão pessoal com Deus.
É evidente que a vida divina na alma não pode permanecer — muito menos crescer — se negligenciamos as oportunidades de conversar com Deus e derramar o coração diante dele.
Quando permitimos que os negócios, as companhias ou qualquer outra ocupação impeçam esses exercícios secretos da alma — ou nos façam realizá-los apressada e descuidadamente —, a vida espiritual certamente enfraquece.
Se interrompemos a oração durante muito tempo ou repetidamente, essa vida vai desaparecendo pouco a pouco.
5. Outro pecado de omissão que frequentemente conduz o crente à escuridão é negligenciar a responsabilidade de corrigir o próximo.
A Lei já ensinava:
“Você não deve deixar de repreender o seu próximo e, por causa dele, levar sobre si pecado.”
(Lv 19.17, NAA)
Se vemos nosso irmão cometendo uma falta e não o advertimos, permitimos que o pecado permaneça sobre ele.
Isso logo enfraquece nossa própria alma, pois nos tornamos participantes de sua culpa.
Ao negligenciarmos a correção, fazemos do pecado dele também nosso.
Vimos o perigo e não apresentamos advertência alguma.
Se ele perecer em sua iniquidade, Deus poderá exigir de nossas mãos a responsabilidade pelo silêncio.
Não é surpreendente que, entristecendo assim o Espírito, percamos a luz da presença divina.
2. Pecados interiores
6. Outra causa da perda da luz é permitir algum pecado interior.
Por exemplo, sabemos que todo aquele que é orgulhoso de coração é abominável diante do Senhor, mesmo quando o orgulho não se manifesta exteriormente.
Como é fácil uma alma cheia de paz e alegria cair nessa armadilha!
Como é natural imaginar que possui mais graça, sabedoria ou força do que realmente possui; pensar a respeito de si mesma além do que deveria; ou gloriar-se naquilo que recebeu como se não o tivesse recebido!
Deus resiste continuamente aos orgulhosos e concede graça aos humildes.
O orgulho certamente obscurece e pode destruir completamente a luz que anteriormente brilhava no coração.
7. O mesmo efeito pode ser produzido quando damos lugar à ira, independentemente da provocação ou da ocasião.
Isso acontece até quando a ira é encoberta com o nome de zelo pela verdade ou pela glória de Deus.
Todo zelo que não seja chama do amor é terreno, animal e demoníaco.
Não passa de ira pecaminosa.
Nada é mais contrário ao amor manso e bondoso de Deus do que essa disposição.
A ira pecaminosa e o amor divino não podem ocupar simultaneamente o mesmo coração.
Na proporção em que a ira prevalece, diminuem o amor e a alegria no Espírito Santo.
Isso pode ser observado especialmente quando nos ofendemos com irmãos ligados a nós por relacionamentos familiares, sociais ou religiosos.
Quando damos lugar ao ressentimento, ainda que por pouco tempo, perdemos as doces influências do Espírito Santo.
Em vez de corrigirmos os outros, destruímos a nós mesmos e nos tornamos presa fácil de qualquer inimigo que nos ataque.
8. Mesmo quando escapamos da armadilha da ira, podemos ser atacados por outro lado.
Quando a agressividade está adormecida e somente o amor parece estar desperto, podemos ser igualmente ameaçados pelos desejos desordenados, que também obscurecem a alma.
Esse é o resultado de todo desejo insensato e de toda afeição vaidosa ou descontrolada.
Se colocamos nossa afeição nas coisas da terra, em alguma pessoa ou coisa debaixo do sol; se desejamos algo separado de Deus e daquilo que conduz a ele; se procuramos felicidade na criatura, o Deus zeloso contenderá conosco, pois não admite rivais.
Se não ouvirmos sua advertência e não voltarmos para ele de todo o coração, continuaremos entristecendo-o com nossos ídolos.
Logo nos tornaremos frios, estéreis e secos, e o deus deste mundo cegará e obscurecerá nosso coração.
3. Preguiça espiritual
9. Isso pode acontecer mesmo quando não cedemos a um pecado específico.
É suficiente não despertarmos o dom de Deus existente em nós; não lutarmos continuamente para entrar pela porta estreita; não nos esforçarmos seriamente para alcançar o prêmio e tomar o Reino dos Céus com determinação.
Basta deixarmos de lutar para sermos vencidos.
Se nos tornarmos descuidados, desanimados, acomodados e preguiçosos, a escuridão natural logo retornará e cobrirá nossa alma.
A preguiça espiritual é suficiente para destruir a luz de Deus, talvez não tão rapidamente quanto um pecado escandaloso, mas com igual certeza.
10. Convém observar que a causa da escuridão nem sempre se encontra próxima.
O pecado que produziu a angústia atual pode ter sido praticado muitos dias, semanas ou meses antes.
O fato de Deus retirar agora a luz e a paz por causa de algo acontecido muito tempo atrás não demonstra severidade, mas paciência e misericórdia.
Durante todo aquele período, Deus esperou que reconhecêssemos, confessássemos e corrigíssemos o erro.
Como não fizemos isso, finalmente manifesta seu desagrado, buscando ainda conduzir-nos ao arrependimento.
4. Ignorância
1. Outra causa geral da escuridão é a ignorância, que também possui várias formas.
Se as pessoas não conhecem as Escrituras e imaginam que existem textos no Antigo ou no Novo Testamento ensinando que todos os crentes, sem exceção, precisam passar periodicamente pela escuridão espiritual, essa ignorância naturalmente produz a condição que esperam.
Como isso tem sido comum!
Poucos deixam de esperar por essa experiência.
Não é surpreendente, pois foram ensinados a esperá-la. Seus guias os conduzem nessa direção.
Não somente escritores místicos da Igreja Romana, mas também muitos escritores espirituais e experimentais de nossa própria tradição, ensinam com segurança que essa é uma doutrina bíblica indiscutível.
2. A ignorância a respeito da obra de Deus na alma também produz frequentemente essa escuridão.
Alguns imaginam que não devem caminhar sempre em uma fé luminosa; que essa seria apenas uma experiência inferior.
Conforme avançam espiritualmente, deveriam abandonar os consolos sensíveis e passar a viver por uma chamada “fé nua” — realmente nua, caso esteja despida do amor, da paz e da alegria no Espírito Santo!
Ensinam que um estado de luz e alegria é bom, mas que a escuridão e a secura seriam melhores.
Afirmam que somente por meio delas podemos ser purificados do orgulho, do amor ao mundo e do amor desordenado a nós mesmos.
Consequentemente, não deveríamos esperar nem desejar caminhar sempre na luz.
Essa é uma das razões pelas quais muitos piedosos vivem de maneira escura e sem consolo e rapidamente perdem a luz de Deus quando a recebem.
5. Tentações
1. Uma terceira causa geral da escuridão é a tentação.
Quando a luz do Senhor começa a brilhar sobre nossa cabeça, as tentações muitas vezes fogem e desaparecem completamente.
Tudo fica tranquilo dentro de nós e, às vezes, também ao nosso redor, enquanto Deus faz nossos inimigos viverem em paz conosco.
Nessa condição, é natural imaginarmos que nunca mais veremos guerra.
Existem casos em que essa tranquilidade dura semanas, meses ou até anos.
Normalmente, porém, acontece de outra maneira.
Depois de algum tempo, voltam os ventos, a chuva e as enchentes.
Aqueles que não conhecem o Pai nem o Filho e, por isso, odeiam seus filhos, manifestam novamente essa oposição quando Deus afrouxa os limites que os impediam.
Assim como aquele que nasceu segundo a carne perseguiu aquele que nasceu segundo o Espírito, assim continua acontecendo.
Ao mesmo tempo, o mal que ainda permanece no coração volta a se movimentar.
A ira e outras raízes de amargura procuram brotar novamente.
Satanás também lança seus dardos inflamados.
A alma precisa lutar não somente contra o mundo e a natureza humana, mas contra principados, potestades e forças espirituais do mal.
Quando tantos ataques acontecem simultaneamente e com grande violência, não é surpreendente que um crente fraco experimente tristeza e até mesmo escuridão.
Isso ocorre especialmente quando não estava vigiando, foi atacado em uma hora inesperada e imaginava que o dia mau jamais voltaria.
2. A força das tentações interiores aumenta muito quando anteriormente pensamos a respeito de nós mesmos além do que deveríamos, imaginando que já havíamos sido purificados de todo pecado.
Como é natural pensarmos assim durante o fervor do primeiro amor!
Estamos prontos a acreditar que Deus já completou em nós toda a obra da fé com poder; que, porque não sentimos pecado, não existe pecado dentro de nós e a alma é somente amor.
Quando um inimigo que imaginávamos não apenas derrotado, mas morto, volta a atacar violentamente, podemos ser lançados em grande tristeza e até em completa escuridão.
Isso acontece especialmente quando começamos a discutir com o inimigo, em vez de clamar imediatamente a Deus e lançar-nos pela fé simples sobre aquele que sabe libertar os seus da tentação.
III. A cura do estado de deserto
1. Qual é a cura dessa escuridão?
Supor que o tratamento seja idêntico em todos os casos é um erro grave e perigoso.
Apesar disso, essa suposição é comum até entre pessoas consideradas cristãs experientes e que se apresentam como guias espirituais.
Utilizam o mesmo remédio independentemente da causa da enfermidade.
Começam imediatamente a aplicar as promessas e, segundo dizem, “pregar o evangelho”.
Seu único objetivo é oferecer consolo.
Falam muitas coisas suaves e carinhosas sobre o amor de Deus pelos pecadores incapazes e sobre o poder do sangue de Cristo.
Isso é charlatanismo espiritual da pior espécie.
Ainda que não destrua o corpo das pessoas, pode contribuir para a destruição da alma.
Esses que cobrem a parede com argamassa fraca e distribuem promessas sem discernimento tratam como comum o sangue da aliança.
Aplicam de maneira indiscriminada as promessas de Deus a todas as pessoas.
Entretanto, a cura das enfermidades espirituais, assim como a das enfermidades físicas, precisa variar de acordo com suas causas.
A primeira tarefa é descobrir a causa. Ela apontará naturalmente para o tratamento.
1. Quando a causa é pecado
2. A escuridão é causada por algum pecado?
Qual pecado?
É algum pecado exterior?
Sua consciência acusa você de ter praticado algo que entristeceu o Espírito Santo?
Foi por isso que ele se afastou, levando consigo a alegria e a paz?
Como poderá esperar que elas retornem enquanto não abandonar aquilo que ofende a Deus?
O perverso precisa abandonar seu caminho. Os pecadores precisam purificar as mãos e afastar o mal de suas ações.
Então a luz poderá surgir da escuridão, e o Senhor voltará e perdoará abundantemente.
3. Caso, depois de exame cuidadoso, você não encontre nenhum pecado praticado que tenha produzido a nuvem sobre sua alma, investigue se existe algum pecado de omissão separando você de Deus.
Você deixa o pecado permanecer sobre seu irmão?
Corrige aqueles que pecam diante de você?
Participa fielmente das práticas instituídas por Deus, incluindo a oração pública, familiar e particular?
Se negligencia habitualmente algum desses deveres conhecidos, como pode esperar que a luz da presença divina continue brilhando?
Apresse-se em fortalecer aquilo que permanece, e sua alma viverá.
Hoje, quando ouvir a voz de Deus, complete pela graça aquilo que está faltando.
Quando ouvir atrás de você:
“Este é o caminho; ande por ele”
(Is 30.21, NAA)
não endureça o coração nem continue desobedecendo ao chamado celestial.
Enquanto o pecado de omissão ou de ação não for removido, todo consolo será falso e enganoso.
Será apenas cobrir superficialmente uma ferida que continua infectada por baixo.
Não espere paz interior enquanto não estiver em paz com Deus, e isso não acontecerá sem frutos dignos de arrependimento.
4. Talvez você não esteja consciente de nenhum pecado de omissão que esteja prejudicando sua paz e sua alegria no Espírito Santo.
Investigue então se existe algum pecado interior, alguma raiz de amargura brotando no coração.
A secura e a esterilidade da alma não seriam causadas pelo afastamento do Deus vivo?
O orgulho não se levantou contra você?
Você não pensou a respeito de si mesmo além do que deveria?
Não atribuiu a própria coragem, força ou sabedoria o sucesso recebido?
Não se gloriou naquilo que recebeu como se não tivesse recebido?
Não buscou ou desejou o elogio das pessoas?
Não sentiu prazer nele?
Caso tenha caído pelo orgulho, humilhe-se debaixo da poderosa mão de Deus, e ele o exaltará no tempo oportuno.
Você não deu lugar à ira?
Não se irritou por causa dos perversos ou sentiu inveja dos que praticam o mal?
Não se ofendeu com algum irmão, concentrando-se no pecado real ou imaginado dele e pecando contra a lei do amor?
Olhe para o Senhor para que sua força seja renovada.
Que toda dureza e frieza sejam eliminadas e que o amor, a paz e a alegria retornem juntos.
Seja bondoso e compassivo, perdoando os outros assim como Deus o perdoou em Cristo.
Você não deu lugar a algum desejo insensato ou afeição desordenada?
Como o amor de Deus poderá ocupar seu coração enquanto você não abandonar os ídolos?
Não se engane: Deus não pode ser zombado. Ele não habitará em um coração dividido.
Enquanto você acolher aquilo que rivaliza com Deus, não haverá espaço para a plenitude de sua presença.
Clame para que ele o capacite a abandonar o ídolo.
Lamente sua impotência e incapacidade e, tendo o Senhor como auxílio, entre pela porta estreita.
Retire todos os ídolos do santuário, e a glória do Senhor logo aparecerá.
2. Quando a causa é preguiça espiritual
5. Talvez seja exatamente a falta de esforço e a preguiça espiritual que mantenham sua alma na escuridão.
Você vive tranquilamente, sem guerra nas fronteiras, acomodado e despreocupado.
Continua realizando a mesma rotina de deveres exteriores e está satisfeito em permanecer assim.
Por que se surpreende ao perceber que sua alma está morta?
Desperte diante do Senhor!
Levante-se e sacuda o pó.
Lute com Deus pela grande bênção.
Derrame sua alma diante dele em oração e persevere continuamente.
Vigie!
Desperte do sono e permaneça desperto.
Caso contrário, ficará cada vez mais distante da luz e da vida de Deus.
3. Quando a causa está no passado
6. Se, depois de um exame completo e imparcial, você não percebe atualmente preguiça espiritual ou outro pecado interior ou exterior, recorde o passado.
Examine suas antigas disposições, palavras e ações.
Foram corretas diante do Senhor?
Converse com Deus em secreto e permaneça em silêncio diante dele.
Peça que examine profundamente seu coração e traga à memória aquilo que tenha ofendido sua santidade.
Se a culpa de algum pecado sem arrependimento permanece sobre a alma, você continuará em escuridão até que, renovado pelo arrependimento, seja novamente lavado pela fé na fonte aberta contra o pecado e a impureza.
4. Quando a causa é ignorância
7. O tratamento será inteiramente diferente quando a causa não for pecado, mas ignorância.
Talvez seja ignorância do significado das Escrituras, produzida por comentaristas que, embora instruídos em outros assuntos, não compreenderam corretamente essa questão.
Nesse caso, a ignorância precisa ser removida antes de desaparecer a escuridão resultante dela.
Precisamos mostrar o verdadeiro sentido dos textos que foram mal compreendidos.
8. Um desses textos é Isaías 50.10:
“Quem entre vocês teme o Senhor e ouve a voz do seu Servo? Aquele que anda em trevas, sem nenhuma luz, confie no nome do Senhor e se firme sobre o seu Deus.”
(Is 50.10, NAA)
Como podemos provar, pelo texto ou pelo contexto, que essa pessoa possuía luz anteriormente?
A passagem pode referir-se a alguém convencido do pecado, que teme o Senhor e ouve a voz de seu Servo, mas ainda não contemplou a luz da presença de Deus.
Mesmo nessa condição, deve confiar no nome do Senhor e apoiar-se nele.
O texto não prova que os crentes em Cristo precisam caminhar periodicamente em escuridão.
9. Outro texto usado para defender essa ideia é Oseias 2.14:
“Eis que eu a atrairei, e a levarei para o deserto, e lhe falarei ao coração.”
(Os 2.14, NAA)
Alguns concluem que Deus conduzirá todo crente ao deserto, a uma condição de morte e escuridão espiritual.
Entretanto, a passagem não fala necessariamente de crentes individuais. Refere-se claramente à nação judaica.
Mesmo que fosse aplicada às pessoas, seu sentido seria:
“Eu a atrairei com amor, convencerei do pecado e depois a consolarei por meio da misericórdia perdoadora.”
10. Um terceiro texto é o versículo utilizado como base deste sermão:
“Assim também agora vocês estão tristes. Mas eu os verei outra vez.”
(Jo 16.22, NAA)
Alguns entenderam que Deus necessariamente se afastaria de todos os crentes e que eles precisariam passar por um período de tristeza antes de receberem a alegria que ninguém poderia tirar.
O contexto mostra que Jesus falava pessoalmente aos apóstolos sobre acontecimentos específicos: sua morte e ressurreição.
Durante pouco tempo, não o veriam, enquanto estivesse no túmulo. Depois voltariam a vê-lo, quando ressuscitasse.
Eles chorariam enquanto o mundo se alegraria, mas a tristeza seria transformada em alegria.
Tudo isso se cumpriu literalmente na experiência dos apóstolos.
Não podemos extrair daí uma regra geral sobre a maneira como Deus trata todos os crentes.
11. Um quarto texto frequentemente citado é:
“Amados, não estranhem o fogo que surge no meio de vocês, destinado a prová-los.”
(1Pe 4.12, NAA)
Embora possa ser aplicado secundariamente às provações interiores, refere-se primariamente às perseguições e aos sofrimentos exteriores, especialmente ao martírio.
Portanto, não prova que todos os cristãos precisem passar pela escuridão espiritual.
12. Alguns perguntam:
“A escuridão não é mais proveitosa para a alma do que a luz? A obra de Deus não avança mais rapidamente durante o sofrimento interior? O crente não é purificado mais profundamente pela angústia do que pela paz contínua?”
Isso é ensinado por alguns autores místicos, mas não pelos oráculos de Deus.
As Escrituras não ensinam que a ausência de Deus aperfeiçoa melhor sua obra no coração.
Pelo contrário, a presença de Deus e a comunhão clara com o Pai e com o Filho realizam em uma hora mais do que sua ausência em longo período.
A alegria no Espírito Santo purifica a alma com muito mais eficácia do que a ausência dessa alegria.
A paz de Deus é o melhor meio de refinar a alma das afeições terrenas.
Abandonemos a ideia de que o Reino de Deus está dividido contra si mesmo; de que a paz e a alegria no Espírito Santo impedem a justiça; e de que somos salvos pela incredulidade em vez da fé, ou pelo desespero em vez da esperança.
13. Enquanto as pessoas acreditarem nessas ideias, provavelmente caminharão em escuridão.
O efeito não desaparecerá enquanto a causa não for retirada.
Contudo, não devemos imaginar que a luz voltará necessariamente no mesmo instante em que a ignorância ou o pecado forem removidos.
Como a luz é dom gratuito de Deus, ele pode restaurá-la no momento que considerar apropriado.
Quando a escuridão foi causada pelo pecado, não podemos exigir que a luz retorne imediatamente.
O pecado começou antes do castigo; portanto, o sofrimento pode permanecer durante algum tempo depois que o pecado termina.
Mesmo na ordem natural, uma ferida não pode ser curada enquanto a flecha permanece no corpo. Mas também não desaparece imediatamente depois que a flecha é retirada.
A dor pode continuar durante algum tempo.
5. Quando a causa são tentações inesperadas
14. Finalmente, quando a escuridão é produzida por muitas tentações fortes e inesperadas, a melhor maneira de removê-la e evitá-la é ensinar os crentes a sempre esperar tentações.
Vivem em um mundo mau, cercados por espíritos perversos, astutos e maliciosos, e possuem um coração capaz de todo mal.
Devem compreender que a obra completa da santificação não acontece necessariamente de uma só vez.
Quando creem pela primeira vez, são como crianças recém-nascidas, que precisam crescer gradualmente e podem esperar muitas tempestades antes de alcançar a plena maturidade de Cristo.
Acima de tudo, quando a tempestade chegar, não devem discutir com o diabo, mas orar.
Devem derramar a alma diante de Deus e apresentar-lhe sua aflição.
É principalmente a essas pessoas que devemos aplicar as grandes e preciosas promessas — e não aos ignorantes antes que sua ignorância seja removida, muito menos aos pecadores sem arrependimento.
Aos que estão sendo provados podemos anunciar amplamente e com amor a bondade de Deus, nosso Salvador, e suas misericórdias eternas.
Podemos falar sobre a fidelidade daquele cuja Palavra foi completamente provada e sobre o poder do sangue derramado para purificar de todo pecado.
Deus confirmará sua Palavra e retirará a alma da angústia.
Dirá:
“Levante-se, resplandeça, porque já vem a sua luz.”
(Is 60.1, NAA)
E essa luz, enquanto você andar humilde e intimamente com Deus, brilhará cada vez mais até ser dia perfeito.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.