SERMÃO 69

A imperfeição do conhecimento humano

Pregado em Bristol, 5 de março de 1784.

1Co 13.9, NAA ⏱ 21 min de leituraDeus, criação e providência

“Em parte, conhecemos.”

(1Co 13.9, NAA)

Antes de ler

Este é um sermão de humildade intelectual — um antídoto poderoso contra a arrogância do saber. Wesley parte de uma verdade paulina que a nossa era de informação precisa reaprender: por mais que o desejo de conhecer não tenha limites, o nosso conhecimento os tem, e bem mais estreitos do que os doutos gostam de admitir. Ele percorre três domínios, mostrando em cada um quão pouco sabemos: as obras da criação (de Deus mesmo, dos astros, da luz, do ar, da terra, dos seres vivos e do nosso próprio corpo e alma); as obras da providência (por que Deus levanta e derruba nações, prospera uns e aflige outros); e as obras da graça (por que o Espírito age em tempos e modos tão diversos). A conclusão não é ceticismo, mas adoração: nós conhecemos em parte, e a parte que ignoramos deve nos lançar aos pés de Deus.

Três observações. Primeira, sobre a linguagem: ao tratar dos povos não europeus, Wesley usa termos e generalizações do seu tempo, hoje reconhecidamente etnocêntricos — leia-os com esse filtro. Mas note também o que raramente se destaca: aqui pulsa a compaixão angustiada de Wesley, e o seu horror explícito ao tráfico de escravos ("rebanhos desses pobres, vendidos como gado na mais vil escravidão") — ele foi, de fato, um dos primeiros abolicionistas. Segunda, e muito nossa: no §4 da terceira parte, ao enfrentar por que uns encontram a Deus depressa e outros esperam anos, Wesley crava — isto "de modo algum pode dever-se a algum decreto absoluto que destine um, antes de nascer, à glória eterna, e outro ao fogo eterno". Não é a predestinação que explica o mistério, mas a nossa ignorância diante da sabedoria insondável de Deus. Terceira, guarde as três lições do fim: humildade, fé e resignação — a última sendo a mesma que o próprio Cristo aprendeu no Getsêmani: "Pai, não como eu quero, mas como tu queres."

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. O desejo de conhecer é um princípio universal no homem, fixado na sua natureza mais íntima. Não é variável, mas constante em toda criatura racional, a não ser enquanto suspenso por algum desejo mais forte. E é insaciável: “o olho não se farta de ver, nem o ouvido se enche de ouvir”, nem a mente com grau algum de conhecimento que nela se possa infundir. E foi plantado em toda alma humana para excelentes propósitos: destina-se a impedir que descansemos em coisa alguma aqui embaixo; a elevar os nossos pensamentos a objetos cada vez mais altos, cada vez mais dignos da nossa consideração, até ascendermos à Fonte de todo conhecimento e de toda excelência, o Criador sapientíssimo e clementíssimo.

2. Mas, embora o nosso desejo de conhecer não tenha limites, o nosso conhecimento os tem. Está, de fato, confinado dentro de limites muito estreitos — muito mais estreitos do que a gente comum imagina, ou os homens de saber estão dispostos a reconhecer. É forte indício (visto que o Criador nada faz em vão) de que haverá algum estado futuro de existência, em que aquele desejo agora insaciável será satisfeito, e não haverá mais tão imensa distância entre o apetite e o seu objeto.

3. O conhecimento presente do homem está exatamente adaptado às suas necessidades presentes. Basta para nos advertir e nos preservar da maioria dos males a que agora estamos expostos, e para nos prover do necessário neste nosso estado infantil de existência. Sabemos o bastante da natureza e das qualidades sensíveis das coisas que nos rodeiam, na medida em que servem à saúde e à força do corpo; sabemos como obter e preparar o alimento, que roupa nos convém, como construir e mobiliar as nossas casas — sabemos exatamente o que conduz a viver com conforto neste mundo. Mas de inumeráveis coisas acima, abaixo e ao redor de nós, mal sabemos mais do que existem. E nesta nossa profunda ignorância se vê tanto a bondade quanto a sabedoria de Deus, que cerceia o nosso conhecimento por todos os lados, de propósito para “esconder do homem a soberba”.

4. É por isso que, pela própria constituição da sua natureza, os mais sábios dos homens “conhecem apenas em parte”. E quão assombrosamente pequena parte conhecem, seja do Criador, seja das suas obras! Este é um tema muito necessário, mas muito desagradável, pois “o homem vão presume ser sábio”. Reflitamos nele por um momento. E que o Deus de sabedoria e amor abra os nossos olhos para discernir a nossa própria ignorância!

I. Quão pouco conhecemos das obras da criação

1. Comecemos pelo próprio grande Criador. Quão assombrosamente pouco conhecemos de Deus! Quão pequena parte da sua natureza conhecemos, dos seus atributos essenciais! Que noção podemos formar da sua onipresença? Quem é capaz de compreender como Deus está neste e em todo lugar, como enche a imensidão do espaço? Se os filósofos, ao negar a existência do vácuo, quisessem dizer apenas que não há lugar vazio de Deus, que cada ponto do espaço infinito está cheio de Deus, por certo ninguém o poria em dúvida. Mas ainda assim, admitido o fato, que é a onipresença? O homem não é mais capaz de compreendê-la do que de abarcar o universo.

2. A imensidão de Deus os próprios pagãos não hesitavam em exprimir: “Todas as coisas estão cheias de Deus” — o equivalente à sua própria declaração: “Porventura não encho eu o céu e a terra?, diz o Senhor.” Quão belamente o salmista o ilustra! “Para onde fugirei da tua presença? Se subo ao céu, lá estás; se faço a minha cama no abismo, lá também estás. Se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins do mar, ainda ali a tua mão me haverá de guiar, e a tua destra me susterá.” Mas, entretanto, que noção podemos formar, seja da sua eternidade, seja da sua imensidão? Tal conhecimento é maravilhoso demais para nós; não o podemos atingir.

3. Um segundo atributo essencial de Deus é a eternidade. Ele existia antes de todo tempo. Talvez mais propriamente devêssemos dizer: ele existe de eternidade a eternidade. Mas que é a eternidade? Um autor célebre diz que a eternidade divina é “a posse completa e simultânea de uma vida sem fim”. Mas quão mais sábios ficamos por esta definição? Sabemos exatamente tanto quanto antes. “A posse completa e simultânea!” Quem pode conceber o que isto significa?

4. Se, de fato, Deus tivesse estampado (como alguns sustentaram) uma ideia de si mesmo em toda alma humana, certamente teríamos entendido algo destes, como dos seus outros atributos; pois não se pode supor que ele nos tivesse impresso uma ideia falsa ou imperfeita de si. Mas a verdade é que homem algum jamais achou tal ideia estampada na sua alma. O pouco que sabemos de Deus (exceto o que recebemos pela inspiração do Santo) não o colhemos de nenhuma impressão interior, mas o adquirimos gradualmente de fora. “As coisas invisíveis de Deus”, se de algum modo são conhecidas, “conhecem-se pelas coisas que foram feitas” — não pelo que Deus escreveu no nosso coração, mas pelo que escreveu em todas as suas obras.

5. Daqui, pois, das suas obras, particularmente as da criação, havemos de aprender o conhecimento de Deus. Mas não é fácil conceber quão pouco sabemos até destas. Comecemos pelas que estão distantes. Quem sabe até onde se estende o universo? Quais são os seus limites? Tudo o que há além das estrelas fixas está de todo oculto aos filhos dos homens. E que sabemos das estrelas fixas? Quem lhes conta o número, mesmo daquela pequena porção que, pela sua luz mesclada, forma o que chamamos “Via Láctea”? E quem sabe para que servem? Quem sabe o que são os cometas? São planetas ainda não formados, ou planetas destruídos por uma conflagração? Quem pode dizer o que é o sol? O seu uso conhecemos; mas quem sabe de que substância é composto? Aliás, ainda não somos capazes de determinar se é fluido ou sólido! Quem sabe a distância exata do sol à terra? Alguns astrônomos estão persuadidos de que é de cem milhões de milhas; outros, de que é só oitenta e seis; homens igualmente grandes dizem que não passa de cinquenta; alguns, de doze. Tão pouco sabemos até deste glorioso luzeiro, o olho e a alma do mundo inferior! E outro tanto dos planetas que o rodeiam; sim, do nosso próprio satélite, a lua. Alguns, de fato, descobriram rios e montanhas no seu globo manchado; sim, marcaram todos os seus mares e continentes! Mas, afinal, nada sabemos ao certo do assunto.

6. Cheguemos, porém, às coisas mais próximas de casa, e perguntemos que conhecimento temos delas. Quanto sabemos daquele maravilhoso corpo, a luz? Como nos é comunicada? Flui num fluxo contínuo do sol? A luz gravita ou não? Atrai ou repele outros corpos? Está sujeita às leis gerais que valem para toda outra matéria, ou é um corpo de gênero único, de todo diferente de toda outra matéria? Mil outras perguntas se poderiam fazer sobre este ponto, que nenhum homem vivo pode responder.

7. Mas por certo entendemos o ar que respiramos e que nos cerca por todos os lados. Por aquela admirável propriedade da elasticidade, ele é a mola geral da natureza. Mas é a elasticidade essencial ao ar e dele inseparável? Ora, provou-se há pouco, por inúmeras experiências, que o ar pode ser fixado — isto é, despojado da sua elasticidade — e depois restituído a ela. Quem sabe por que poder o orvalho, a chuva e todos os outros vapores sobem e descem no ar?

8. Desçamos agora à terra que pisamos, e que Deus deu especialmente aos filhos dos homens. Entendem-na os filhos dos homens? Suposto o globo terrestre com sete ou oito mil milhas de diâmetro, quanto dele conhecemos? Talvez uma ou duas milhas da sua superfície — até aí penetrou a arte do homem. Mas quem nos pode informar o que jaz abaixo da região das pedras, dos metais, dos minerais? Esta é apenas uma fina crosta, que guarda proporção pequeníssima com o todo. Quem nos pode dar notícia das partes internas do globo? De que se compõem? Há ali um fogo central, um grande reservatório? Ou está o grande abismo ainda contido nas entranhas da terra? Quem o viu? Quem o pode dizer? Quem pode dar satisfação sólida a um investigador racional?

9. Quanto da própria superfície do globo ainda nos é de todo desconhecido! Quão pouco sabemos das regiões polares, ao norte ou ao sul! Quão pouco daquelas vastas regiões, o interior da África ou da América! Muito menos sabemos o que se contém no largo mar, o grande abismo que cobre parte tão extensa do globo. Quão pouco sabemos das coisas que estão em terra firme e caem diretamente sob a nossa vista! Considere até os metais ou as pedras mais simples: quão imperfeitamente conhecemos a sua natureza e as suas propriedades! Qual é a diferença específica entre o ouro e a prata, entre o estanho e o chumbo? Tudo é mistério para os filhos dos homens.

10. Passemos ao reino vegetal. Quem pode demonstrar que a seiva, em algum vegetal, faz uma circulação regular pelos seus vasos, ou que não a faz? Quem pode apontar a diferença específica entre um tipo de planta e outro, ou a peculiar conformação interna das suas partes componentes? Aliás, que homem vivo entende a fundo a natureza e as propriedades de uma só planta debaixo do céu?

11. Quanto aos animais: os chamados animais microscópicos são animais reais ou não? Quão totalmente ignorantes são os mais sagazes dos homens quanto a todo o assunto da geração — mesmo a geração dos homens! No livro do Criador, de fato, foram todos os nossos membros escritos, “os quais dia a dia se formavam, quando nenhum deles havia ainda”; mas por que meio se comunicou o primeiro movimento ao ponto que começa a pulsar? Quando, e como, foi o espírito imortal sobreacrescentado ao barro insensível? É tudo mistério; e só podemos dizer: “De modo assombrosamente maravilhoso fui formado.”

12. Quanto aos insetos, muitas são as descobertas feitas recentemente. Mas quão pouco é tudo o que se descobriu, em comparação com o que fica por descobrir! Quantos milhões deles, pela sua extrema pequenez, escapam de todo às nossas indagações! Temos conhecimento mais completo dos peixes? Grande parte, se não a maior parte, dos habitantes das águas nos está de todo oculta. Com as aves estamos um pouco mais familiarizados — e, de fato, é só um pouco. Quão pouco sabemos das feras! Não sabemos de onde surgem os diferentes temperamentos e qualidades, não só em espécies diferentes, mas em indivíduos da mesma espécie; sim, frequentemente nos que provêm dos mesmos pais. Serão meras máquinas? Então são incapazes de prazer ou dor; não teriam sentido algum, nem veriam, nem ouviriam. Mas tudo isto, como mostram as experiências diárias, é de todo contrário aos fatos.

13. Pois bem; mas, se nada mais conhecemos, não conhecemos ao menos a nós mesmos, o nosso corpo e a nossa alma? Que é a nossa alma? É um espírito, sabemos. Mas que é um espírito? Aqui paramos de todo. E onde está alojada a alma? Na glândula pineal, em todo o cérebro, no coração, no sangue, em alguma parte do corpo, ou (se alguém pode entender esses termos) “toda no todo, e toda em cada parte”? Como está a alma unida ao corpo — um espírito a um torrão? Qual é a cadeia secreta e imperceptível que os acopla? Pode o mais sábio dos homens dar resposta satisfatória a qualquer destas simples perguntas? E, quanto ao próprio corpo, quão pouco sabemos! Que é a carne? Como age um músculo? De que é o nervo? Como age — por vibração ou por transmissão dos espíritos animais? Quem sabe o que são os espíritos animais? Que é o sono? Em que consiste? Que é o sonhar? Como distinguimos os sonhos dos pensamentos da vigília? Duvido que homem algum o saiba. Ó, quão pouco sabemos, mesmo acerca de toda a criação de Deus!

II. E das obras da providência

1. Mas não estaremos mais familiarizados com as suas obras de providência do que com as da criação? É um dos primeiros princípios da religião que o seu reino domina sobre tudo; de modo que podemos dizer com confiança: “Ó Senhor, Soberano nosso, quão magnífico é o teu nome em toda a terra!” É ideia pueril supor que o acaso governa o mundo, ou tem parte no seu governo — não, nem sequer naquelas coisas que, à vista comum, parecem perfeitamente casuais. “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão.” O próprio bendito Mestre pôs esta questão além de toda dúvida: “Nem um pardal”, diz ele, “cai em terra sem o consentimento do Pai de vocês, que está nos céus. Sim, até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados.”

2. Mas, embora estejamos bem cientes desta verdade geral, de que todas as coisas são governadas pela providência de Deus, quão assombrosamente pouco sabemos dos particulares contidos sob este geral! Quão pouco entendemos do seu agir providencial, seja quanto às nações, seja quanto às famílias, seja quanto aos indivíduos! Há alturas e profundidades em tudo isto que o nosso entendimento de modo algum pode sondar. Podemos compreender apenas uma pequena parte dos seus caminhos agora; o resto conheceremos depois.

3. Mesmo quanto a nações inteiras, quão pouco compreendemos do agir providencial de Deus para com elas! Quantas nações do mundo oriental um dia floresceram, para terror de todos ao redor, e agora foram varridas da face da terra, e a sua memória pereceu com elas! Nem foi diferente no ocidente. Também na Europa lemos de muitos reinos grandes e poderosos, dos quais só restam os nomes: o povo se desvaneceu, como se nunca tivesse existido. Mas por que aprouve ao Governador todo-poderoso do mundo varrê-los com a vassoura da destruição, não o podemos dizer — sendo os que os sucederam, muitas vezes, pouco melhores que eles.

4. E não é só quanto às nações antigas que as dispensações providenciais de Deus nos são de todo incompreensíveis: as mesmas dificuldades ocorrem agora. Não sabemos explicar o seu presente agir para com os habitantes da terra. Sabemos que “o Senhor é bondoso para com todo homem, e a sua misericórdia está sobre todas as suas obras”. Mas não sabemos como conciliar isto com as presentes dispensações da sua providência. Neste dia, não está quase toda parte da terra cheia de trevas e de habitações de crueldade? Ó mistério da providência!

5. E quem se importa com os milhares, as miríades, se não os milhões, dos desventurados africanos? Não são rebanhos inteiros desses pobres — seres humanos, ainda que não os tratem como racionais! — continuamente levados ao mercado e vendidos, como gado, na mais vil escravidão, sem esperança alguma de libertação senão pela morte? Ó Pai das misericórdias! São estas as obras das tuas próprias mãos, o resgate do sangue do teu Filho?

6. Quão pouco melhor é o estado, civil ou religioso, dos pobres indígenas americanos — isto é, os miseráveis restos deles, pois em algumas províncias não sobrou um só para respirar! Em Hispaniola, quando os cristãos ali chegaram pela primeira vez, havia três milhões de habitantes. Mal doze mil deles agora sobrevivem. E em que condição estão estes, ou os outros indígenas ainda espalhados pela América do Sul ou do Norte? Religião, não têm nenhuma; nenhum culto público de espécie alguma! Deus não está em todos os seus pensamentos. E, por isso, vão diminuindo diariamente.

7. Contudo, os habitantes da Europa não estão em condição tão deplorável. Estão em estado de civilização; têm leis úteis e são governados por magistrados; têm religião; são cristãos. Receio, porém, que, chamem-se cristãos ou não, muitos deles não tenham muita religião. E “Deus amou” estes “de tal maneira que deu o seu Filho, o seu unigênito Filho, para que não pereçam, mas tenham a vida eterna”? Então por que estão assim? Ó maravilha acima de todas as maravilhas!

8. Não há algo igualmente misterioso na dispensação divina quanto ao próprio cristianismo? Quem pode explicar por que o cristianismo não se espalhou tão longe quanto o pecado? Por que o remédio não é enviado a todo lugar onde a doença se encontra? Mas, ai! Não o é: “a sua voz” ainda não “saiu por toda a terra”. O veneno está difundido por todo o globo; o antídoto não é conhecido nem em uma sexta parte dele. Aliás, como é que a sabedoria e a bondade de Deus permitem que o próprio antídoto seja tão gravemente adulterado, não só nos países católicos romanos, mas em quase toda parte do mundo cristão? Tão adulterado que retém pouca, ou nenhuma, da sua virtude original. Em consequência disto, mal se acha mais misericórdia ou verdade entre os cristãos do que entre os pagãos. Aliás, afirmou-se, e receio que com verdade, que muitos chamados cristãos são muito piores que os pagãos que os rodeiam. Ó, quem pode compreender isto? Não atenta nisto aquele que é mais alto que o mais alto?

9. Igualmente incompreensíveis para nós são muitas das dispensações divinas quanto a famílias particulares. Não conseguimos de modo algum compreender por que ele eleva alguns à riqueza, à honra e ao poder, e por que, entretanto, abate outros com a pobreza e várias aflições. Alguns prosperam maravilhosamente em tudo o que empreendem, e o mundo se derrama sobre eles; enquanto outros, com todo o seu labor, mal conseguem o pão de cada dia. E talvez a prosperidade e o aplauso permaneçam com os primeiros até a morte, enquanto os últimos bebem o cálice da adversidade até o fim da vida — embora nenhuma razão nos apareça, seja para a prosperidade de um, seja para a adversidade do outro.

10. Tampouco conseguimos explicar as dispensações divinas quanto aos indivíduos. Não sabemos por que a sorte deste homem foi lançada na Europa, e a daquele nos ermos da América; por que um nasce de pais ricos ou nobres, e outro de pais pobres; por que os pais de um são fortes e sadios, e os de outro fracos e doentios — em consequência do que ele arrasta uma existência miserável todos os dias da sua vida, exposto à necessidade, à dor e a mil tentações de que não acha modo de escapar. Quantos são, desde a mais tenra infância, cercados de tais circunstâncias que parecem não ter possibilidade alguma de ser úteis a si ou aos outros! Ó Deus, quão insondáveis são os teus juízos! Profundos demais para serem sondados pela nossa razão; e os teus modos de executar esses conselhos, impossíveis de rastrear pela nossa sabedoria!

III. E das obras da graça

1. Somos capazes de esquadrinhar as suas obras de graça mais do que as de providência? Nada é mais certo do que “sem santidade ninguém verá o Senhor”. Por que é, então, que tão vasta maioria da humanidade está, tanto quanto podemos julgar, cortada de todos os meios, de toda possibilidade de santidade, desde o ventre materno? Que possibilidade há, por exemplo, de que um habitante das terras mais remotas, se ali vive e morre, jamais saiba o que significa santidade, ou, por consequência, jamais a alcance? Dir-se-á, talvez: “Ele pecou antes de nascer, num estado pré-existente; por isso foi posto aqui em situação tão desfavorável.” Respondo: suposto tal estado pré-existente, isto que você chama de segunda prova não é prova alguma. Assim que ele nasce, está absolutamente sob o poder dos seus pais e parentes, que, desde a primeira aurora da razão, o criam na mesma ignorância e barbárie que a deles. Não tem, por assim dizer, chance alguma. Que prova tem, então? Mas como pode ser este o caso de tantos milhões de almas que Deus fez? Não és tu o Deus “de todos os confins da terra, e dos que estão longe, no mar”?

2. Peço que se observe que, se isto for transformado numa objeção contra a revelação, é uma objeção que vale tanto contra a religião natural quanto contra a revelada. Se fosse conclusiva, não nos empurraria para o deísmo, mas para o ateísmo puro. Concluiria não só contra a revelação cristã, mas contra a própria existência de um Deus. E, contudo, não vejo como possamos evitar a sua força, senão resolvendo tudo na insondável sabedoria de Deus, junto com uma profunda convicção da nossa ignorância e da nossa incapacidade de sondar os seus conselhos.

3. Mesmo entre nós, tão favorecidos acima destes — a quem foram confiados os oráculos de Deus, cuja palavra é lâmpada para os nossos pés e luz para os nossos caminhos —, ainda há muitas circunstâncias nas suas dispensações que estão acima da nossa compreensão. Não sabemos por que ele nos permitiu andar tanto tempo nos nossos próprios caminhos, antes de sermos convictos do pecado; ou por que se serviu deste ou daquele instrumento, e deste ou daquele modo. Não sabemos por que ele nos permitiu esperar tanto antes de revelar o seu Filho no nosso coração.

4. É, sem dúvida, prerrogativa peculiar de Deus reservar “os tempos e as épocas no seu próprio poder”. E não podemos dar razão alguma de por que, de duas pessoas igualmente sedentas de salvação, uma é logo recebida no favor de Deus, e a outra deixada a lamentar por meses ou anos. Uma, assim que clama a Deus, é atendida e cheia de paz e alegria no crer; outra o busca, ao que parece com o mesmo grau de sinceridade e fervor, e, contudo, não o acha, nem consciência do seu favor, por semanas, meses ou anos. Sabemos bem que isto não pode de modo algum dever-se a algum decreto absoluto, que destine um, antes de nascer, à glória eterna, e o outro ao fogo eterno; mas não sabemos qual seja a razão disso. Basta que Deus a saiba.

5. Há, igualmente, grande variedade no modo e no tempo de Deus conceder a sua graça santificadora, pela qual capacita os seus filhos a dar-lhe todo o coração — variedade que de modo algum sabemos explicar. Não sabemos por que a concede a alguns antes mesmo de a pedirem; a alguns depois de a buscarem por poucos dias; e, no entanto, permite que outros crentes a esperem talvez vinte, trinta ou quarenta anos; e a outros, até poucas horas, ou mesmo minutos, antes de o seu espírito voltar a ele. Deus, sem dúvida, tem razões para as várias circunstâncias que acompanham o cumprimento daquela grande promessa — “Circuncidarei o teu coração, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma” —, mas essas razões estão em geral ocultas aos filhos dos homens. Mais uma vez: alguns dos que são capacitados a amar a Deus de todo o coração retêm a mesma bênção, sem interrupção, até serem levados ao seio de Abraão; outros não a retêm, embora não tenham consciência de haver entristecido o Espírito Santo de Deus. Também isto não entendemos: nisto não “conhecemos o pensamento do Espírito”.

IV. As lições

1. Várias lições valiosas podemos aprender de uma profunda consciência desta nossa ignorância. Primeiro, podemos aprender daqui uma lição de humildade: não “ter de nós mesmos”, particularmente quanto ao nosso entendimento, “conceito mais alto do que convém”, mas “conceito equilibrado” — plenamente convencidos de que não somos suficientes, por nós mesmos, para pensar um só bom pensamento; de que estaríamos sujeitos a tropeçar a cada passo, a errar a cada momento da vida, não fosse termos “uma unção do Santo”, que “permanece em nós”; não fosse aquele que conhece o que há no homem socorrer as nossas fraquezas; não fosse “haver um espírito no homem, e a inspiração do Todo-Poderoso o fazer entendido”.

2. Daqui podemos aprender, segundo, uma lição de fé, de confiança em Deus. Uma plena convicção da nossa própria ignorância pode ensinar-nos uma plena confiança na sabedoria dele. Pode ensinar-nos (o que nem sempre é tão fácil quanto se poderia imaginar) a confiar no Deus invisível para além do que dele podemos ver! Pode ajudar-nos a aprender aquela difícil lição de “destruir os raciocínios e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo”. Há, no presente, dois grandes obstáculos a formarmos juízo reto do agir de Deus para com os homens. O primeiro é que há inumeráveis fatos relativos a cada homem que não sabemos nem podemos saber. O outro é que não podemos ver os pensamentos dos homens, mesmo quando conhecemos as suas ações; e, sem isto, mal podemos julgar das suas ações exteriores. Conscientes disto, “nada julguemos antes do tempo”, quanto às suas dispensações providenciais, até que ele traga à luz “as coisas ocultas das trevas” e manifeste “os desígnios do coração”.

3. Da consciência da nossa ignorância podemos aprender, terceiro, uma lição de resignação. Podemos ser instruídos a dizer, em todos os tempos e em todos os casos: “Pai, não como eu quero, mas como tu queres.” Esta foi a última lição que o nosso bendito Senhor (como homem) aprendeu enquanto esteve na terra. Não pôde ir além de “Não como eu quero, mas como tu queres”, até inclinar a cabeça e entregar o espírito. Sejamos também nós, nisto, feitos conformes à sua morte, para que conheçamos todo o “poder da sua ressurreição”!

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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