SERMÃO 91

Sobre a caridade

Sem amor, nada sou: o dom mais excelente, examinado à luz de 1Coríntios 13.

1Co 13.1–3, NAA ⏱ 23 min de leituraVida cristã prática

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, isso de nada me adiantará.”

(1Co 13.1–3, NAA)

Antes de ler

O título original deste sermão é On Charity. Wesley, porém, dedica boa parte de sua introdução a explicar que a palavra grega agápē significa propriamente “amor”. Segundo ele, a substituição de “amor” por “caridade” em antigas traduções inglesas levou muitas pessoas a reduzir o ensino de 1 Coríntios 13 à prática de dar esmolas. Nesta tradução, o título tradicional é preservado, mas a palavra “amor” é usada no corpo do sermão, em harmonia com a argumentação de Wesley e com a NAA.

Wesley ensina que o amor apresentado por Paulo é, diretamente, o amor ao próximo, mas um amor que somente pode nascer do amor a Deus e da fé em Cristo. Não se trata necessariamente de aprovação ou prazer diante do caráter de todas as pessoas, mas de benevolência: desejar sinceramente o bem de todo ser humano, inclusive dos inimigos.

O sermão também insiste que eloquência, conhecimento bíblico, fé extraordinária, obras de misericórdia e até o sofrimento por causa da consciência não podem substituir o amor humilde, manso e paciente. Algumas referências históricas e interpretações pessoais pertencem ao contexto de Wesley e são mantidas com fidelidade.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Sabemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus” e, por isso, é verdadeira e correta a respeito de todas as coisas. Sabemos também que existem algumas passagens das Escrituras que se apresentam de maneira mais imediata à consciência de todas as pessoas.

Podemos colocar entre elas a passagem diante de nós. Pouquíssimas pessoas fazem objeção a ela. Pelo contrário, a maioria apela prontamente para suas palavras.

Nada é mais comum do que encontrar até mesmo pessoas que negam a autoridade das Escrituras afirmando:

“Esta é a minha religião: aquilo que está descrito no capítulo treze da Primeira Carta aos Coríntios.”

Até mesmo um judeu, o doutor Nunes, médico espanhol que naquela época estava estabelecido em Savannah, na Geórgia, costumava dizer com grande entusiasmo:

“Paulo de Tarso foi um dos melhores escritores que já li. Gostaria que o capítulo treze de sua Primeira Carta aos Coríntios fosse escrito com letras de ouro. Gostaria também que cada judeu o carregasse consigo por onde quer que fosse.”

Ele julgava — e nesse aspecto certamente julgava corretamente — que esse único capítulo continha toda a verdadeira religião.

Ele contém “tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável”. Caso exista alguma virtude ou alguma coisa digna de louvor, tudo está contido nele.

Para percebermos isso com a maior clareza possível, podemos considerar:

I. O que é o amor mencionado aqui;

II. Quais são as coisas geralmente colocadas no lugar dele;

III. Que nenhuma dessas coisas, nem todas reunidas, pode suprir a ausência do amor.

1. Devemos considerar, primeiramente, o que é esse amor. Qual é sua natureza e quais são suas características?

A palavra utilizada por Paulo é agápē, correspondendo exatamente à palavra inglesa comum love, “amor”. Assim era traduzida em todas as antigas versões inglesas da Bíblia.

A palavra “amor” aparecia na Bíblia de William Tyndale, que, suponho, tenha sido a primeira tradução inglesa de toda a Bíblia. Também aparecia na Bíblia publicada pela autoridade do rei Henrique VIII.

Da mesma maneira, foi utilizada em todas as edições da Bíblia publicadas sucessivamente na Inglaterra durante os reinados de Eduardo VI, da rainha Elizabeth e do rei Tiago I.

A palavra também se encontra nas Bíblias do reinado de Carlos I, creio que até o fim daquele reinado.

As primeiras Bíblias que encontrei nas quais a palavra foi alterada foram aquelas impressas por Roger Daniel e John Field, impressores do Parlamento, em 1649.

Parece provável, portanto, que a mudança tenha sido realizada durante as sessões do chamado Parlamento Longo. Provavelmente foi naquele período que a palavra latina “caridade” foi colocada no lugar da palavra inglesa “amor”.

Essa mudança foi realizada numa hora infeliz. Seus maus efeitos permanecem até hoje.

Eles podem ser observados não apenas entre os pobres e sem instrução. Milhares de homens e mulheres comuns não compreendem a palavra “caridade” mais do que compreenderiam o original grego.

O mesmo erro lamentável, porém, espalhou-se entre pessoas educadas e instruídas.

Milhares delas foram enganadas pela palavra e imaginam que a caridade mencionada neste capítulo se refere principalmente, se não inteiramente, a ações exteriores e significa pouco mais do que dar esmolas.

Ouvi muitos sermões sobre esse capítulo, especialmente diante da Universidade de Oxford. Não ouvi mais do que um no qual seu significado não fosse completamente deturpado.

Caso a antiga e apropriada palavra “amor” tivesse sido preservada, não haveria espaço para essa interpretação equivocada.

2. Mas de que espécie de amor o apóstolo fala ao longo de todo o capítulo?

Muitas pessoas de grande instrução e piedade entendem que seja o amor de Deus.

Depois, porém, de ler todo o capítulo inúmeras vezes e considerá-lo sob todos os aspectos, estou completamente convencido de que Paulo está falando diretamente do amor ao próximo.

Creio que todo aquele que considerar cuidadosamente todo o desenvolvimento de seu argumento ficará plenamente convencido disso.

Deve-se reconhecer, porém, que se trata de um amor ao próximo que somente pode nascer do amor de Deus.

E de onde procede o amor de Deus?

Somente daquela fé que é produzida pela atuação de Deus. Aquele que a possui recebe uma evidência direta de que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (2 Coríntios 5.19).

Quando isso é particularmente aplicado ao seu coração, de modo que possa dizer com humilde confiança:

“Esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2.20),

então, e somente então, “o amor de Deus é derramado em seu coração”.

Esse amor o constrange suavemente a amar todos os filhos dos seres humanos com o amor mencionado aqui.

Não necessariamente com amor de estima ou satisfação, pois não pode existir semelhante amor por aqueles que, ainda que não sejam seus inimigos pessoais, são inimigos de Deus e da própria alma.

Trata-se, porém, de amor de benevolência: uma terna boa vontade para com todas as almas que Deus criou.

3. Pode-se perguntar:

“Caso não exista verdadeiro amor ao próximo além daquele que nasce do amor de Deus, e caso o amor de Deus não proceda de outra fonte senão da fé no Filho de Deus, não se segue que todo o mundo pagão esteja excluído de qualquer possibilidade de salvação?

Essas pessoas estão excluídas da fé, pois a fé vem pelo ouvir, e como ouvirão se não há quem pregue?”

Respondo que as palavras de Paulo, pronunciadas em outra ocasião, são aplicáveis aqui:

“Tudo o que a lei diz, aos que vivem na lei o diz” (Romanos 3.19).

Da mesma maneira, a sentença “quem não crê será condenado” é pronunciada a respeito daqueles aos quais o evangelho é pregado.

Ela não diz respeito aos outros, e não somos chamados a determinar coisa alguma a respeito da condição final deles.

Podemos deixar ao próprio Deus, Juiz de todos, a decisão sobre como se agradará em tratá-los.

Isto, porém, sabemos: ele não é somente o Deus dos cristãos, mas também o Deus dos pagãos.

Ele é rico em misericórdia para com todos os que o invocam de acordo com a luz que possuem.

Em todas as nações, aquele que teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele.

4. Voltemos ao assunto. Essa é a natureza do amor de que o apóstolo fala.

Quais são suas características, os frutos inseparáveis dele?

O apóstolo enumera muitas. As principais, porém, são estas.

Primeiramente, “o amor não se ensoberbece” (1 Coríntios 13.4).

A medida do amor corresponde à medida da humildade.

Nada humilha tão profundamente a alma quanto o amor. Ele expulsa todos os pensamentos elevados que produzem orgulho, toda arrogância e toda opinião exagerada sobre nós mesmos.

Torna-nos pequenos, pobres, insignificantes e desprezíveis aos próprios olhos.

Humilha-nos tanto diante de Deus quanto diante das pessoas.

Faz com que estejamos dispostos a ser os menores de todos e os servos de todos.

Ensina-nos a dizer:

“Um grão de poeira num raio de sol é pequeno, mas eu sou infinitamente menor na presença de Deus.”

5. Em segundo lugar, “o amor não se irrita”.

Nossa tradução inglesa atual diz: “não se irrita facilmente”. Mas como a palavra “facilmente” entrou ali?

Não existe sequer uma pequena indicação dela no texto. As palavras do apóstolo são simplesmente: ou paroxýnetai, “não se irrita”.

Não seria provável que a palavra tivesse sido acrescentada pelos tradutores para desculpar Paulo, temendo que sua prática parecesse contradizer sua doutrina?

Lemos em Atos 15.36 e nos versículos seguintes:

“Alguns dias depois, Paulo disse a Barnabé: Vamos voltar e visitar os irmãos em todas as cidades nas quais anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão.

Barnabé queria levar também João, chamado Marcos. Paulo, porém, não achava justo levar aquele que os havia abandonado na Panfília e não os acompanhara no trabalho.

Houve entre eles tamanho desentendimento que se separaram. Barnabé, levando Marcos consigo, navegou para Chipre. Paulo escolheu Silas e partiu, recomendado pelos irmãos à graça do Senhor. Passou pela Síria e pela Cilícia, fortalecendo as igrejas.”

6. Ao ler essas palavras, alguém não imaginaria que ambos estavam igualmente irritados, que Paulo estava tão exaltado quanto Barnabé e demonstrava a mesma falta de amor?

O texto, porém, não diz coisa alguma dessa espécie. Isso ficará claro caso consideremos primeiramente a causa da discussão.

Quando Paulo propôs que voltassem a visitar os irmãos em todas as cidades nas quais haviam pregado a Palavra, os dois estavam de acordo.

“Barnabé queria levar também João”, por ser ele filho de sua irmã, sem receber ou pedir a opinião de Paulo.

“Paulo, porém, não achava justo levar aquele que os havia abandonado na Panfília” — fosse por preguiça, fosse por medo — “e não os acompanhara no trabalho.”

Sem dúvida, Paulo julgou corretamente. A razão estava do seu lado.

As palavras seguintes significam literalmente: “E houve um acesso de ira.”

O texto não diz que a ira estava em Paulo. Provavelmente estava somente em Barnabé, que substituiu a falta de razão pela paixão.

Por isso, separaram-se.

Barnabé, decidido a seguir a própria vontade, fez aquilo que seu sobrinho havia feito anteriormente: abandonou o trabalho, levou Marcos consigo e navegou para Chipre.

Paulo, porém, continuou seu trabalho, “recomendado pelos irmãos à graça de Deus”, recomendação pela qual Barnabé aparentemente não esperou.

Paulo passou pela Síria e pela Cilícia, fortalecendo as igrejas.

Em todo o relato, não parece que Paulo tenha cometido falta alguma, experimentado alguma disposição ou pronunciado alguma palavra contrária à lei do amor.

Portanto, não tendo cometido falta, não necessitava de desculpa.

7. Certamente, aquele que está cheio de amor é “manso para com todos”.

Instrui com mansidão aqueles que se opõem àquilo que ele mais ama: a verdade de Deus ou a santidade sem a qual ninguém verá o Senhor.

Não sabe se Deus poderá conduzi-los ao conhecimento da verdade.

Por mais que seja provocado, não retribui mal por mal nem insulto por insulto.

Pelo contrário, abençoa aqueles que o amaldiçoam e faz o bem aos que o maltratam e perseguem.

Não se deixa vencer pelo mal, mas vence sempre o mal com o bem.

8. Em terceiro lugar, “o amor é paciente”.

Não suporta apenas algumas ofensas, acusações e injustiças, mas todas as coisas que Deus permite que seres humanos ou espíritos malignos lhe causem.

O amor arma a alma com paciência inviolável.

Não se trata de uma paciência estoica, rígida e insensível, mas de uma paciência flexível como o ar, que não oferece resistência ao golpe e, por isso, não sofre dano.

Aquele que ama a humanidade recorda-se daquele que sofreu por nós, deixando-nos exemplo para seguirmos os seus passos.

Consequentemente, caso seu inimigo tenha fome, ele lhe dá de comer. Caso tenha sede, dá-lhe de beber.

Fazendo isso, amontoa sobre a cabeça dele brasas de amor capaz de derreter seu coração.

Muitas águas não podem apagar esse amor, nem as inundações da ingratidão podem afogá-lo.

1. Devemos perguntar, em segundo lugar, quais são as coisas que geralmente se supõe poderem ocupar o lugar do amor.

A primeira é a eloquência: a capacidade de falar bem, especialmente a respeito de assuntos religiosos.

As pessoas geralmente se inclinam a pensar bem daquele que fala bem.

Caso alguém fale correta e fluentemente sobre Deus e as coisas de Deus, quem poderia duvidar de que esteja no favor de Deus?

Também é natural que essa pessoa pense bem de si mesma e possua a mesma opinião favorável que os outros possuem sobre ela.

2. As pessoas que refletem mais profundamente, porém, não ficam satisfeitas com isso.

Não se contentam com uma torrente de palavras. Preferem o pensamento à conversa e julgam que alguém que conhece muito é muito superior a alguém que fala muito.

É certo que o conhecimento é excelente dom de Deus, especialmente o conhecimento das Sagradas Escrituras, nas quais estão contidas todas as profundezas do conhecimento e da sabedoria divina.

Por isso, geralmente se imagina que uma pessoa possuidora de muito conhecimento, especialmente conhecimento das Escrituras, não apenas esteja no favor de Deus, mas desfrute um grau elevado desse favor.

3. Pessoas de reflexão ainda mais profunda costumam dizer:

“Não atribuo importância a nenhum outro conhecimento, mas somente ao conhecimento de Deus pela fé.

A fé é o único conhecimento de grande valor diante de Deus.

Somos salvos pela fé, somente pela fé. Essa é a única coisa necessária.

Aquele que crê, e somente ele, será salvo eternamente.”

Existe muita verdade nisso.

É indiscutivelmente verdadeiro que somos salvos pela fé. Consequentemente, aquele que crê será salvo, e aquele que não crê será condenado.

4. Algumas pessoas, porém, dirão com o apóstolo Tiago:

“Mostre-me essa sua fé sem as obras” — caso consiga, embora isso seja realmente impossível — “e eu, com as obras, lhe mostrarei a minha fé” (Tiago 2.18).

Muitos são levados a pensar que as boas obras, as obras de piedade e misericórdia, possuem importância muito maior do que a própria fé e suprirão a ausência de qualquer outra qualificação para o céu.

Parece que esse é o pensamento geral não apenas dos membros da Igreja de Roma, mas também dos protestantes; não apenas dos superficiais e irrefletidos, mas também dos membros sérios de nossa própria Igreja.

5. Não se pode negar que nosso Senhor disse:

“Pelos frutos vocês os conhecerão” (Mateus 7.20).

Por meio das obras, conhecemos aqueles que creem e aqueles que não creem.

Pode-se questionar, porém, se não existe prova ainda mais segura da sinceridade da fé do que as próprias obras: nosso sofrimento voluntário por causa da justiça.

Isso aconteceria especialmente quando, depois de suportar humilhações, dor e perda de amigos e bens, alguém entregasse a própria vida, submetendo-se a uma morte vergonhosa e dolorosa, em vez de abandonar a fé e a boa consciência por negligenciar um dever conhecido.

6. É apropriado observar aqui, primeiramente, a bela progressão existente na enumeração das diferentes coisas que alguns daqueles chamados cristãos — e geralmente considerados assim — realmente imaginam poder suprir a ausência do amor.

Paulo começa pelo ponto mais baixo, falar bem, e avança passo a passo. Cada ponto se eleva acima do anterior até chegar ao mais elevado de todos.

Um passo acima da eloquência está o conhecimento.

A fé está um passo acima do conhecimento.

As boas obras estão acima dessa fé.

Acima até mesmo das boas obras está o sofrimento por causa da justiça.

Nada existe acima disso, a não ser o amor cristão: o amor ao próximo procedente do amor de Deus.

7. Pode ser apropriado observar, em segundo lugar, que tudo aquilo que é considerado religião em qualquer parte do mundo cristão — seja realmente uma parte da religião, seja apenas insensatez, superstição ou perversidade — pode ser colocado, sem grande dificuldade, sob um desses pontos.

Tudo aquilo que é considerado religião por protestantes ou católicos romanos, mas não é verdadeira religião, está incluído numa dessas cinco categorias.

Façam a experiência quantas vezes desejarem com qualquer coisa impropriamente chamada de religião e perceberão que essa regra permanece sem exceção.

1. Devo agora, em terceiro lugar, demonstrar a todos os que possuem ouvidos para ouvir e não endurecem o coração contra a convicção que nenhuma dessas cinco qualificações, nem todas reunidas, possui valor algum diante de Deus sem o amor anteriormente descrito.

Para tornar isso tão claro quanto possível, podemos considerá-las uma a uma.

Primeiramente:

“Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos”; ainda que fale com eloquência jamais encontrada entre os seres humanos sobre a natureza, os atributos e as obras de Deus, tanto na criação quanto na providência; ainda que, nesse aspecto, não seja inferior aos maiores apóstolos, pregando como Pedro e orando como João; caso o amor humilde, manso e paciente não seja a disposição dominante da minha alma, não sou melhor, no julgamento de Deus, do que um bronze que ressoa ou um címbalo que produz barulho.

Portanto, a mais elevada eloquência, seja na conversa particular, seja no ministério público, e os maiores talentos para a pregação ou a oração, caso não estejam unidos à humilde, mansa e paciente submissão, poderão conduzir-me mais profundamente à condenação, mas não me aproximarão um único passo do céu.

2. Um exemplo simples poderá ilustrar isso.

Conheci, entre cinquenta e sessenta anos atrás, um jovem que, durante vários anos, nunca procurou convencer alguém a respeito de alguma verdade religiosa sem conseguir convencê-lo.

Também nunca procurou persuadir alguém a iniciar alguma prática religiosa sem conseguir persuadi-lo.

E daí?

Todo aquele poder de convencimento e toda aquela força de persuasão, caso não estivessem unidos à mansidão, humildade, submissão e amor paciente, não o qualificariam para desfrutar de Deus mais do que uma voz clara ou uma bela aparência.

Pelo contrário, poderiam proporcionar-lhe um lugar ainda mais severo no castigo futuro.

3. Em segundo lugar:

“Ainda que eu tenha o dom de profetizar”, de anunciar acontecimentos futuros que nenhuma criatura poderia prever; “ainda que conheça todos os mistérios” da natureza, da providência e da Palavra de Deus; ainda que possua todo o conhecimento das coisas divinas e humanas já alcançado por qualquer mortal; ainda que possa explicar as passagens mais misteriosas de Daniel, Ezequiel e Apocalipse; caso não possua humildade, mansidão e submissão, nada sou diante de Deus.

Pouco antes do fim da última guerra em Flandres, alguém que veio daquela região nos contou uma história muito extraordinária.

Não sabia o que pensar sobre ela e esperei até que John Haime retornasse. Eu não podia duvidar de sua sinceridade nem de seu entendimento.

Este foi o relato apresentado por ele:

“Jonathan Pyrah era membro de nossa sociedade em Flandres. Eu o conhecia havia vários anos e sabia que era homem de conduta irrepreensível.

Certo dia, foi convocado para comparecer diante do conselho dos oficiais-generais.

Um deles perguntou:

’O que é isto que ouvimos a seu respeito? Dizem que você se tornou profeta e anuncia a queda da sanguinária Casa de Bourbon e da orgulhosa Casa da Áustria. Ficaríamos satisfeitos caso fosse realmente profeta e suas profecias se cumprissem.

Mas que sinal nos dará para nos convencer de que é profeta e de que suas previsões se realizarão?’

Ele respondeu prontamente:

’Senhores, ofereço-lhes um sinal. Amanhã, ao meio-dia, haverá uma tempestade de trovões e relâmpagos como nunca experimentaram desde que chegaram a Flandres.

Ofereço-lhes um segundo sinal. Embora nenhum de vocês espere semelhante acontecimento e agora não exista indicação alguma disso, dentro de três dias haverá um confronto geral com os franceses.

Ofereço-lhes um terceiro sinal. Receberei ordem para avançar na primeira linha. Caso seja falso profeta, morrerei na primeira descarga; caso seja verdadeiro profeta, receberei apenas um ferimento na parte inferior da perna esquerda.’

Ao meio-dia do dia seguinte, houve uma tempestade de trovões e relâmpagos como nunca haviam experimentado em Flandres.

No terceiro dia, contrariamente a toda expectativa, aconteceu a batalha geral de Fontenoy.

Ele recebeu ordem para avançar na primeira linha e, na primeira descarga, recebeu exatamente o ferimento previsto.”

4. Apesar disso, nada disso lhe trouxe benefício para a felicidade temporal ou eterna.

Quando a guerra terminou, retornou à Inglaterra, mas a história havia chegado antes dele.

Como consequência, foi chamado pela condessa de St—s e por várias outras pessoas de posição elevada, que desejavam ouvir diretamente de seus lábios relato tão extraordinário.

Ele não conseguiu suportar tamanha honra. Sua mente ficou inteiramente perturbada.

Em pouco tempo, perdeu completamente a razão.

Permanecia assim quando este sermão foi escrito, vivendo, segundo penso, em Wibsey Moorside, a poucos quilômetros de Leeds. Posteriormente, morreu.

5. Que proveito teria alguém em possuir “todo o conhecimento”, até mesmo aquele infinitamente superior a todos os outros, o conhecimento das Sagradas Escrituras?

Cerca de vinte anos atrás, conheci um jovem tão profundamente familiarizado com a Bíblia que, caso lhe perguntassem a respeito de alguma palavra hebraica do Antigo Testamento ou grega do Novo Testamento, depois de uma pequena pausa, ele não apenas dizia quantas vezes a palavra aparecia na Bíblia, mas também qual era seu significado em cada passagem.

Seu nome era Thomas Walsh. Seu diário, escrito por ele mesmo, ainda existe.

Nunca havia encontrado antes semelhante mestre no conhecimento bíblico e não espero encontrar outro.

Apesar disso, caso, com todo esse conhecimento, estivesse destituído de amor; caso fosse orgulhoso, irado ou impaciente, ele e todo o seu conhecimento teriam perecido juntos, tão certamente quanto nasceu.

6. “Ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes.”

A fé capaz de fazer isso não pode ser fruto de uma imaginação vazia, o sonho de uma pessoa perturbada ou um sistema de opiniões.

Precisa ser verdadeira obra de Deus. Caso contrário, não poderia produzir semelhante efeito.

Apesar disso, caso essa fé não atue pelo amor; caso não produza santidade universal, humildade, mansidão e submissão, de nada me aproveitará.

Essa é uma verdade tão certa quanto qualquer outra anunciada em todos os oráculos de Deus.

Toda fé existente, que já existiu ou que algum dia poderá existir, caso esteja separada da terna benevolência para com todo filho dos seres humanos — amigo ou inimigo, cristão, judeu, considerado herege ou pagão —, separada da mansidão para com todas as pessoas, da submissão em todos os acontecimentos e do contentamento em todas as condições, não é a fé de um cristão e não terá valor algum diante de Deus.

7. Ouçam isto todos vocês que são chamados metodistas!

Vocês, mais do que todas as pessoas vivas, estão envolvidos nessa questão.

Falam constantemente sobre a salvação pela fé e estão corretos ao fazer isso.

Todos vocês sustentam que a pessoa é justificada pela fé, independentemente das obras da lei.

Não poderiam agir de outra maneira sem abandonar a Bíblia e trair a própria alma.

Insistem que somos salvos pela fé. E, sem dúvida, somos.

Considerem, porém, que, por maior que seja nossa fé e por mais forte que seja, ela jamais nos salvará da condenação se não nos salvar agora de todas as disposições profanas: do orgulho, da ira e da impaciência; de toda arrogância, altivez e espírito dominador; da fúria, amargura, descontentamento, murmuração, irritação e mau humor.

Seremos as pessoas mais indesculpáveis de todas se, depois de sermos tantas vezes advertidos contra esse forte engano, continuarmos alimentando alguma dessas disposições, elogiando a nós mesmos e sonhando que estamos no caminho do céu.

8. Em quarto lugar:

“Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres”; ainda que divida todas as minhas propriedades, imóveis e demais posses em pequenas parcelas — esse é o significado próprio da palavra original — e as distribua cuidadosamente àqueles que considero os destinatários mais apropriados; caso eu seja orgulhoso, irado ou descontente, caso permita alguma dessas disposições, qualquer bem que possa fazer aos outros não fará bem algum à minha própria alma.

Como essa condição é lamentável!

Quem não lamentaria que pessoas tão generosas perdessem todo o seu trabalho?

É verdade que muitas delas recebem uma recompensa neste mundo, caso não antes, pelo menos depois da morte.

Recebem funerais caros e grandiosos.

Recebem monumentos de mármore de trabalho extraordinário.

Recebem epitáfios escritos com grande elegância, exaltando suas virtudes até os céus.

Talvez recebam discursos anuais em sua homenagem, transmitindo a memória delas às gerações futuras.

Isso aconteceu com muitos fundadores de instituições religiosas, faculdades, abrigos e organizações de caridade.

É uma regra aceita que ninguém pode exagerar no louvor ao fundador de sua instituição, faculdade ou hospital.

Que recompensa pobre, porém, é essa!

Aumentará o consolo ou o sofrimento deles — supondo, como necessariamente devemos, caso não tenham morrido na fé, que estejam debaixo do juízo divino?

Que acusações e dolorosas censuras essas homenagens não ocasionariam por parte de seus companheiros de condenação!

Que fossem sábios!

Que todos aqueles que possuem zelo pelas boas obras as colocassem no lugar apropriado!

Que não imaginassem que elas podem suprir a ausência das disposições santas, mas cuidassem para que procedessem dessas disposições!

9. Como essa declaração deve parecer estranha aos ouvidos da maioria daqueles que, pela cortesia da Inglaterra, são chamados cristãos!

Ainda mais estranha, porém, é a afirmação apresentada pelo apóstolo em último lugar:

“Ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, isso de nada me adiantará.”

Ainda que, em vez de negar a fé, cometer um pecado conhecido ou negligenciar um dever conhecido, eu me submeta voluntariamente a uma morte cruel; ainda que entregue o corpo para ser queimado; caso esteja debaixo do domínio do orgulho, da ira ou da irritação, isso de nada me adiantará.

10. Talvez isso possa ser ilustrado por meio de um exemplo.

Possuímos um relato extraordinário nos escritos do doutor Geddes, especialista em direito civil e enviado da rainha Ana à corte de Portugal durante a parte final de seu reinado.

Ele esteve presente num daqueles chamados autos de fé, nos quais a Inquisição Romana executava pessoas condenadas como hereges.

Um daqueles que seriam executados havia permanecido confinado nas prisões da Inquisição e não via o sol havia muitos anos.

O dia estava claro e ensolarado.

O homem olhou para cima e exclamou, surpreso:

“Como alguém que contempla essa luz gloriosa pode adorar outro ser além do Deus que a criou?”

Um religioso que estava próximo ordenou que o impedissem de falar novamente.

O que aquele pobre homem experimentou interiormente naquele momento?

Caso tenha dito no coração, embora não pudesse expressá-lo com os lábios:

“Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”,

sem dúvida os anjos de Deus estavam prontos para levar sua alma ao seio de Abraão.

Caso, porém, em vez disso, tenha alimentado ressentimento no coração, embora não pudesse expressá-lo com a língua, não afirmarei que sua alma tenha entrado no paraíso, ainda que seu corpo tenha sido destruído por causa de sua confissão.

11. O resumo de tudo aquilo que observamos é este:

Independentemente daquilo que eu fale, conheça, creia, faça ou sofra, caso não possua a fé que atua pelo amor, produzindo amor a Deus e a toda a humanidade, não estou no caminho estreito que conduz à vida, mas na estrada larga que conduz à destruição.

Em outras palavras:

Independentemente da eloquência que possua; do conhecimento natural ou sobrenatural; da fé que tenha recebido de Deus; das obras de piedade ou misericórdia que pratique; dos sofrimentos que suporte por causa da consciência, mesmo que resista até a morte; todas essas coisas reunidas, por mais elogiadas que sejam pelas pessoas, não terão valor diante de Deus, a menos que eu seja manso e humilde de coração e possa dizer em todas as coisas:

“Não seja como eu quero, mas como tu queres.”

12. Concluímos de tudo isso — e nunca será possível insistir excessivamente nisso, porque o mundo inteiro se posiciona no sentido contrário — que a verdadeira religião, em sua própria essência, não é coisa alguma inferior às disposições santas.

Consequentemente, toda outra religião, qualquer que seja seu nome, pagã, muçulmana, judaica ou cristã; católica romana ou protestante, luterana ou reformada; sem essas disposições, é mais leve do que a própria vaidade.

13. Portanto, toda pessoa que possui uma alma a ser salva deve cuidar para assegurar esse único ponto.

Com toda a sua eloquência, conhecimento, fé, obras e sofrimentos, deve conservar firmemente essa única coisa necessária.

Aquele que, por meio do poder da fé, perseverar até o fim no amor humilde, manso e paciente, somente ele, pelos méritos de Cristo, herdará o Reino preparado desde a fundação do mundo.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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