SERMÃO 117

Sobre conhecer Cristo segundo a carne

“A ninguém conhecemos segundo a carne” — o que significa conhecer a Cristo pelo Espírito, e não apenas exteriormente.

2Co 5.16, NAA ⏱ 11 min de leituraEspírito Santo e certeza

“Assim, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne. E, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo.”

(2Co 5.16, NAA)

Antes de ler

Neste sermão, Wesley defende a plena divindade de Cristo e critica duas formas de “conhecê-lo segundo a carne”. A primeira é considerá-lo apenas ser humano ou ser divino inferior ao Pai. A segunda é dirigir-se a Cristo com linguagem que Wesley considerava excessivamente íntima, sentimental ou romântica, incompatível com a reverência devida a Deus.

Alguns exemplos utilizados pertencem a debates cristológicos e hinológicos do século XVIII. Sua crítica alcança socinianos, arianos, Isaac Watts, hinos morávios e até composições de Charles Wesley, embora John afirme amar e respeitar esses autores.

O leitor contemporâneo poderá considerar excessiva a preocupação de Wesley com palavras como “querido Senhor”. O valor permanente do sermão encontra-se no chamado para unir amor fervoroso e santo temor: Jesus é verdadeiramente humano, mas também é o Filho eterno, digno da mesma honra e adoração oferecidas ao Pai.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

1. Há muito tempo desejo encontrar alguma coisa escrita de maneira clara e compreensível sobre estas palavras. Trata-se, sem dúvida, de assunto muito importante, que alcança profundamente a natureza da religião. Apesar disso, que tratado possuímos em língua inglesa sobre ele? Talvez exista algum, mas nenhum chegou ao meu conhecimento, nem sequer um único sermão.

2. O apóstolo introduz a questão de modo muito solene. Traduzidas literalmente, suas palavras seriam: “Ele morreu por todos, para que aqueles que vivem” — todos os que vivem sobre a terra — “já não vivam para si mesmos”, procurando a própria honra, vantagem ou prazer, “mas para aquele que por eles morreu”, em justiça e verdadeira santidade. “Assim, a partir deste momento, nós que o conhecemos pela fé não conhecemos ninguém segundo a carne”: nem os demais apóstolos, nem vocês, nem qualquer outra pessoa. Essa expressão incomum, da qual depende toda a doutrina, parece significar que não consideramos pessoa alguma segundo sua condição anterior: país, riqueza, poder ou sabedoria. Consideramos todas as pessoas somente segundo sua condição espiritual e sua relação com o mundo futuro.

“Sim, ainda que tenhamos conhecido Cristo segundo a carne” — e os apóstolos certamente o haviam conhecido dessa maneira, contemplando-o e amando-o como ser humano com afeição natural —, “agora já não o conhecemos assim.” Já não o conhecemos como simples homem por seu rosto, aparência, voz ou maneira de conversar. Já não pensamos nele apenas como ser humano nem o amamos exclusivamente nesse caráter.

3. O significado dessa expressão fortemente figurada parece ser este: desde o momento em que somos recriados em Cristo Jesus, não pensamos, falamos ou agimos em relação ao nosso bendito Senhor como se fosse simples homem. Já não utilizamos expressão alguma a respeito de Cristo que não possa ser aplicada a ele não apenas como ser humano, mas como aquele que é “Deus sobre todos, bendito para sempre”.

4. Talvez, para colocar a questão sob luz mais clara e ao mesmo tempo proteger-nos de erros perigosos, seja apropriado mencionar algumas pessoas que, da maneira mais evidente, conhecem Cristo segundo a carne. Entre as primeiras, podemos colocar os socinianos, aqueles que claramente negam “o Senhor que os comprou”; não apenas deixam de reconhecer que ele é o Deus supremo, mas negam que seja Deus de alguma maneira.

Creio que o mais importante representante dessa posição surgido na Inglaterra, pelo menos durante o século de Wesley, foi homem de grande conhecimento e capacidades incomuns: o doutor John Taylor, durante muitos anos pastor em Norwich e posteriormente presidente da Academia de Warrington. Não se pode negar que trata nosso Senhor com muita cortesia. Dirige-lhe palavras bastante respeitosas, chamando-o de “personagem muito digno” e “homem de virtude perfeita”.

5. Depois deles, encontram-se os arianos. Não desejo colocá-los na mesma categoria dos socinianos, pois existe diferença considerável entre eles. Os primeiros negam que Cristo seja Deus em qualquer sentido; os últimos não fazem isso, mas somente negam que seja o grande Deus. Reconhecem e até afirmam que seja um deus inferior. Isso, porém, produz inconveniente particular: destrói completamente a unidade divina. Caso exista um Deus grande e um deus pequeno, precisam existir dois deuses.

Deixando isso e permanecendo na questão diante de nós: todos aqueles que falam de Cristo como inferior ao Pai, ainda que minimamente, sem dúvida o conhecem segundo a carne, e não como “o resplendor da glória do Pai e a expressão exata de seu ser”, aquele que sustenta todas as coisas no céu e na terra “pela palavra de seu poder”, a mesma palavra poderosa pela qual antigamente chamou todas elas à existência.

6. Alguns representantes dessa posição chegaram a reivindicar para sua opinião o grande e bondoso doutor Watts, citando como prova a bela reflexão publicada em suas obras póstumas. Pessoas imparciais, porém, não aceitarão a reivindicação sem provas mais fortes do que aquelas apresentadas até agora. Mesmo que esteja livre dessa acusação, não se encontra igualmente livre de conhecer Cristo segundo a carne em outro sentido.

Eu não percebia isso e lia todas as suas obras com praticamente a mesma admiração, quando uma pessoa de profunda piedade e discernimento observou casualmente que alguns dos hinos publicados em suas Horae Lyricae, dedicados ao amor divino, eram, segundo sua expressão, “excessivamente amorosos e mais apropriados a um apaixonado dirigindo-se a outro ser mortal do que a um pecador dirigindo-se ao Deus Altíssimo”. Pergunto-me se existem outros escritores que, embora creiam na divindade de Cristo, falam da mesma maneira pouco cuidadosa.

7. Poderíamos afirmar que os hinos publicados por outro grande homem já falecido, cuja memória amo e estimo, estão livres desse defeito? Não estão cheios de expressões que sugerem fortemente conhecer Cristo segundo a carne? Sim, em alguns casos de maneira mais grosseira do que qualquer coisa anteriormente publicada na língua inglesa.

É lamentável que expressões pouco apropriadas apareçam em muitos hinos verdadeiramente espirituais! Quantas vezes, no meio de versos excelentes, inserem-se linhas que desonram aquilo que vem antes e depois! Por que todas as composições daquele livro não poderiam ser não somente tão poéticas, mas também tão racionais e bíblicas quanto reconhecidamente são muitas delas?

8. Entre cinquenta e sessenta anos antes, pela bondosa providência de Deus, meu irmão e eu conhecemos os chamados Irmãos Morávios durante a viagem para a América. Rapidamente percebemos qual era seu espírito, pois vinte e seis deles viajavam no mesmo navio. Não desenvolvemos apenas grande consideração, mas forte afeição por eles. Conversávamos diariamente e os consultávamos em todas as ocasiões. Traduzi muitos de seus hinos para uso de nossas congregações.

Como não me atrevia a seguir pessoa alguma de modo implícito, não aceitei tudo aquilo que se encontrava diante de mim. Selecionei os hinos que considerei mais bíblicos e apropriados à experiência cristã saudável. Não tenho certeza, porém, de ter empregado cuidado suficiente para retirar toda palavra ou expressão imprópria, especialmente aquelas que poderiam aproximar-se de intimidade excessiva, pouco apropriada à boca de um verme da terra quando se dirige ao Deus do céu.

Procurei especialmente, em todos os hinos dirigidos ao nosso bendito Senhor, evitar expressões sentimentais e falar com ele como o Deus Altíssimo, “igual ao Pai em glória e coeterno em majestade”.

9. Algumas pessoas provavelmente pensarão que fui escrupuloso demais em relação a determinada palavra que nunca utilizo pessoalmente, em verso ou prosa, na oração ou na pregação, embora seja frequentemente empregada pelos teólogos modernos tanto da Igreja Romana quanto das Igrejas da Reforma. Refiro-me à palavra “querido”. Muitos dizem frequentemente, pregando, orando ou agradecendo: “Querido Senhor” ou “Querido Salvador”. Meu irmão também utilizou a mesma palavra em muitos de seus hinos, até o fim da vida.

Não posso, porém, perguntar: isso não constitui intimidade excessiva com o grande Senhor do céu e da terra? Existe passagem das Escrituras, no Antigo ou no Novo Testamento, que justifique essa maneira de falar? Algum escritor inspirado a utiliza, até mesmo nas partes poéticas das Escrituras?

Talvez alguém responda: “Sim, Paulo fala do ‘querido Filho de Deus’.” Respondo, primeiramente, que isso não alcança a questão, pois a palavra traduzida por “querido” não é dirigida a Cristo, mas pronunciada a respeito dele. Portanto, não serve como precedente ou justificativa para nos dirigirmos a ele desse modo. Em segundo lugar, não é a mesma expressão. Traduzida literalmente, a frase não diz “seu querido Filho”, mas “o Filho de seu amor” ou “seu Filho amado”.

Continuo, portanto, em dúvida de que algum escritor inspirado tenha dirigido essa palavra ao Pai ou ao Filho. Por isso, aconselho todos os amantes da Bíblia, caso utilizem a expressão, a empregá-la com grande moderação, visto que as Escrituras não oferecem mandamento nem precedente para ela. Certamente, “se alguém fala”, seja na pregação, seja na oração, “fale de acordo com os oráculos de Deus”.

10. Não utilizamos frequentemente essa expressão não bíblica a respeito de nosso bendito Senhor também em conversas particulares? Nesse caso, não somos ainda mais inclinados a falar sobre ele como simples homem? Particularmente quando descrevemos seus sofrimentos, como facilmente caímos nisso! Devemos agir com cuidado, pois não existe espaço aqui para a satisfação de uma imaginação exaltada.

Algumas vezes, quase hesitei em cantar, até no meio de excelente hino de meu irmão: “Aquele rosto querido e desfigurado”, ou a forte expressão: “Derrama teu sangue quente sobre meu coração”, para que isso não parecesse fazer-nos esquecer de que falamos daquele “homem que é meu companheiro, diz o Senhor dos Exércitos”. Embora ele tenha se humilhado, assumido a forma de servo e sido encontrado em figura humana; embora tenha sido obediente até a morte, e morte de cruz, recordemos sempre que “não considerou ser igual a Deus coisa da qual deveria abrir mão”. Que nosso coração continue clamando: “Tu és extremamente glorioso; estás revestido de majestade e honra!”

11. Algumas pessoas talvez tenham medo de que evitar essas expressões exaltadas, ou até restringi-las cuidadosamente, diminua o fervor de nossa devoção. É possível que diminua ou impeça alguma forma de fervor que tenha sido confundida com devoção.

Talvez impeça gritos exagerados, manifestações desordenadas, repetição das mesmas palavras vinte ou trinta vezes, saltos e movimentos corporais descontrolados, tanto de homens quanto de mulheres, de maneira ofensiva não apenas à religião, mas à decência comum. Nunca, porém, diminuirá ou impedirá a verdadeira devoção bíblica. Antes, fortalecerá a oração corretamente dirigida àquele que, embora fosse verdadeiramente humano, era verdadeiramente Deus; que, embora tenha nascido de mulher para redimir a humanidade, era “Deus desde a eternidade e para todo o sempre”.

12. Ninguém deve imaginar que conhecer Cristo segundo a carne — considerá-lo simples homem e, consequentemente, utilizar em público ou em particular linguagem apropriada a semelhante concepção — seja coisa indiferente ou de pequena importância. Pelo contrário, essa intimidade imprópria com Deus, nosso Criador, Redentor e Governante, naturalmente produz frutos profundamente maus.

Isso acontece não apenas naqueles que falam, mas também nos que os ouvem. Possui tendência direta de diminuir a reverência delicada devida ao Senhor e Governante. Enfraquece imperceptivelmente:

O temor silencioso que não ousa mover-se E todo o tranquilo céu do amor.

É impossível acostumar-nos a essa intimidade imprópria e indecorosa com nosso Criador e, ao mesmo tempo, conservar percepção viva daquilo que é retratado nestas solenes linhas:

Escurecidas por excessivo brilho, suas vestes aparecem, Mas ainda ofuscam o céu; os serafins mais brilhantes Não se aproximam sem cobrir os olhos com as asas.

13. Todo cristão sensato não desejaria experimentar continuamente amor por seu Redentor — sabendo que é Deus, assim como ser humano — unido ao temor dos anjos? Essa não é justamente a disposição que o piedoso doutor Watts expressa nestas linhas?

Tua misericórdia jamais se afastará Das pessoas de coração sincero; Salvas as almas cujo amor humilde Se encontra unido ao santo temor.

14. Não recomendo uma oração fria, morta e formal, da qual sejam excluídos o amor, o desejo, a esperança e o temor. Parece que essa era a “maneira tranquila e sem perturbação de orar”, tão fortemente recomendada pelo falecido bispo Hoadly e que, durante alguns anos, produziu intensa controvérsia no mundo religioso.

Não seria provável que o bem-intencionado bispo tivesse encontrado alguns místicos ou quietistas, como Madame Guyon ou o arcebispo Fénelon de Cambrai, e, sem possuir experiência dessas coisas, construído teoria própria semelhante à deles? É certo, porém, que nada se encontra mais distante da apatia do que a devoção verdadeira e bíblica. Ela desperta, exercita e oferece pleno espaço a todas as paixões mais nobres, excluindo somente aquelas que são descontroladas, irracionais e indignas da humanidade.

15. Como explicaremos, então, que tantos homens santos, de afeições verdadeiramente elevadas, incluindo o piedoso Tomás de Kempis, tenham utilizado com tanta frequência essa maneira de falar e essas expressões sentimentais, visto que não podemos duvidar de que fossem verdadeiramente piedosos? Reconhecemos que eram. Não reconhecemos, porém, que seu julgamento fosse sempre igual à sua piedade.

Por isso, suas afeições realmente boas ultrapassaram um pouco os limites da razão e os conduziram a uma maneira de falar não autorizada pelos oráculos de Deus. Estes certamente constituem o verdadeiro padrão tanto de nossos afetos quanto de nossa linguagem.

Algum dos santos antigos falou dessa maneira, seja no Antigo, seja no Novo Testamento? Daniel, “homem muito amado”, dirigiu-se assim a Deus? Ou “o discípulo a quem Jesus amava”, que sem dúvida amava o Mestre com a afeição mais intensa, deixou-nos exemplo de dirigir-se dessa maneira a ele, até mesmo quando se encontrava às portas da glória? Suas palavras finais não foram sentimentais, mas solenes: “Vem, Senhor Jesus!”

16. O resumo de tudo é este: devemos “honrar o Filho assim como honramos o Pai”. Devemos oferecer-lhe a mesma adoração que oferecemos ao Pai. Devemos amá-lo de todo o coração e de toda a alma e consagrar tudo aquilo que possuímos e somos, tudo aquilo que pensamos, falamos e fazemos, ao DEUS TRINO, Pai, Filho e Espírito Santo, para todo o sempre!

Plymouth-Dock, 15 de agosto de 1789.

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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