SERMÃO 124
O tesouro celestial em vasos de barro
“Temos este tesouro em vasos de barro” — a fraqueza humana e o poder de Deus que resplandece exatamente nela.
“Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que se veja que a excelência do poder provém de Deus, não de nós.”
(2Co 4.7, NAA)Antes de ler
Wesley utiliza a imagem do tesouro em vasos de barro para explicar a convivência entre a graça de Deus e a fragilidade humana. O tesouro é a fé, a paz, a esperança, o amor e a renovação da imagem de Deus recebidos por aqueles que nasceram de novo. O vaso é o corpo mortal, sujeito à fraqueza, à enfermidade e à morte.
Algumas explicações sobre o cérebro, o corpo, os erros de julgamento e a origem das doenças refletem os conhecimentos científicos e médicos do século XVIII. Não devem ser utilizadas como diagnóstico ou como afirmação de que enfermidades físicas ou mentais sejam consequência direta de pecado pessoal. O princípio pastoral é que limitações físicas e intelectuais não anulam a realidade da graça.
Wesley também procura consolar aqueles que sofrem: a fraqueza humana impede a vanglória, ensina dependência de Deus e poderá ser utilizada por ele para formar humildade, perseverança e esperança.
— Bispo Ildo Mello
1. Durante quanto tempo o ser humano permaneceu como enigma para si mesmo! Durante quantas gerações as pessoas mais sábias foram inteiramente incapazes de explicar o mistério ou reconciliar as estranhas contradições existentes nele: a maravilhosa mistura de bem e mal, grandeza e pequenez, nobreza e degradação! Quanto mais profundamente consideravam essas coisas, mais se confundiam. Quanto maior era o esforço empregado para esclarecer o assunto, mais se perdiam em conjecturas inúteis e incertas.
2. Aquilo que toda a sabedoria humana foi incapaz de realizar foi, no devido tempo, realizado pela sabedoria de Deus. Quando Deus se agradou em oferecer relato sobre a origem das coisas e, particularmente, sobre a origem do ser humano, toda a escuridão desapareceu e uma luz clara brilhou. “Deus disse: Façamos o ser humano à nossa imagem.” E assim aconteceu. O ser humano foi criado à imagem de Deus. Por isso, podemos apresentar explicação clara e satisfatória sobre sua grandeza, excelência e dignidade. Entretanto, “o ser humano, estando em posição de honra”, não permaneceu nela, mas rebelou-se contra seu soberano Senhor. Por meio disso, perdeu completamente não apenas o favor, mas também a imagem de Deus. E “em Adão todos morreram”, pois o Adão caído gerou um filho à própria semelhança. Assim, podemos apresentar explicação clara e compreensível sobre a pequenez e a degradação do ser humano. Afundou abaixo até mesmo dos animais que perecem. A natureza humana atualmente não é apenas sensual, mas demoníaca. Em cada pessoa nascida no mundo existe aquilo que não se encontra em nenhum animal — pois nenhum animal caiu tão profundamente —: “a mentalidade da carne, que é inimizade”, inimizade direta, “contra Deus”.
3. Considerando essas duas realidades em conjunto — a criação e a queda do ser humano —, todas as aparentes contradições da natureza humana são fácil e completamente compreendidas. A grandeza e a pequenez, a dignidade e a degradação, a felicidade e a miséria de sua condição atual já não constituem mistério, mas são consequências claras de seu estado original e de sua rebelião contra Deus. Essa é a chave que abre todo o mistério e remove toda a dificuldade, mostrando aquilo que Deus criou inicialmente e aquilo em que o ser humano transformou a si mesmo. É verdade que poderá recuperar medida considerável “da imagem de Deus na qual foi criado”. Apesar disso, independentemente daquilo que recuperarmos, ainda “teremos este tesouro em vasos de barro”. Para compreendermos claramente essa realidade, podemos investigar, primeiro, qual é o “tesouro” que atualmente possuímos e, em segundo lugar, como “possuímos este tesouro em vasos de barro”.
1. Primeiramente, perguntemos: qual é o tesouro possuído pelos cristãos? Refiro-me aos crentes, pois é diretamente a respeito deles que o apóstolo fala. Parte desse tesouro eles possuem em comum com as demais pessoas, nos vestígios da imagem de Deus. Não podemos incluir nisso, primeiramente, um princípio imaterial, uma natureza espiritual, dotada de entendimento, afeições e certo grau de liberdade, possuindo capacidade de movimento próprio e até de governo próprio? Caso contrário, seríamos simples máquinas, pedaços de madeira e pedras. Em segundo lugar, não podemos incluir aquilo que geralmente é chamado de consciência natural, que implica algum discernimento da diferença entre o bem e o mal moral, acompanhado da aprovação de um e da desaprovação do outro por meio de uma voz interior que acusa ou defende? Independentemente de isso ser natural ou acrescentado pela graça de Deus, encontra-se pelo menos em pequeno grau em todo filho dos seres humanos. Alguma coisa semelhante existe em cada coração humano, pronunciando julgamento a respeito do bem e do mal, não somente entre cristãos, mas entre muçulmanos, pagãos e até entre os povos considerados mais rudimentares.
2. Não podemos acreditar que todos os cristãos, ainda que apenas nominalmente, possuam pelo menos algumas vezes algum desejo de agradar a Deus, assim como alguma luz sobre aquilo que realmente lhe agrada, e experimentem alguma convicção quando percebem que o desagradaram? Todos os filhos dos seres humanos possuem, em maior ou menor grau, alguma parte desse tesouro, mesmo quando ainda não conhecem Deus.
3. Não é, porém, a respeito dessas pessoas que o apóstolo fala nem esse é o tesouro que constitui o assunto de seu discurso. As pessoas das quais fala são aquelas que nasceram de Deus; aquelas que, “justificadas pela fé”, possuem agora redenção no sangue de Jesus, isto é, o perdão dos pecados; aquelas que desfrutam a paz de Deus que excede todo entendimento; cuja alma engrandece o Senhor e se alegra nele com alegria indescritível; e que sentem “o amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que lhes foi dado”. Este é, portanto, o tesouro recebido: fé produzida pela ação de Deus; paz que as coloca acima do medo da morte e as capacita a permanecer contentes em todas as circunstâncias; esperança cheia de imortalidade, mediante a qual já “experimentam os poderes do mundo que virá”; amor de Deus derramado no coração, juntamente com amor por todo filho dos seres humanos; e renovação de toda a imagem de Deus em justiça e verdadeira santidade. Esse é propriamente e diretamente o tesouro a respeito do qual o apóstolo fala.
1. Esse tesouro, embora seja de valor inestimável, “nós o temos em vasos de barro”. A expressão é perfeitamente apropriada, indicando tanto a fragilidade dos vasos quanto a natureza humilde do material do qual são formados. Refere-se diretamente àquilo que chamamos de louça, cerâmica, porcelana e coisas semelhantes. Como são frágeis e facilmente quebradas! Essa é exatamente a situação do cristão santo. Possuímos o tesouro celestial em corpos terrenos, mortais e corruptíveis. “Você é pó”, disse o justo Juiz à sua criatura rebelde, que até então era incorruptível e imortal, “e ao pó voltará.” Como o poeta pagão toca belamente nesse tema, embora misture luz e escuridão! Depois que o ser humano “roubou o fogo da habitação celestial” — que imagem do conhecimento proibido! —, aquele exército anteriormente desconhecido de doenças debilitantes, febres, enfermidades e dores de todas as espécies estabeleceu seu acampamento na terra. Até então, não conseguiriam entrar aqui mais facilmente do que conseguiriam invadir o céu. Todas prepararam o caminho para o último inimigo, a morte. Desde o momento em que aquela terrível sentença foi pronunciada, o corpo recebeu em si mesmo a sentença de morte, caso isso já não tivesse acontecido no momento em que nossos primeiros pais completaram sua rebelião comendo o fruto proibido. Não podemos imaginar que existisse naquele fruto alguma propriedade natural que semeou as sementes da morte no corpo humano, até então incorruptível e imortal? Seja como for, é certo que, desde aquele momento, “o corpo corruptível oprime a alma”. Isso não é surpreendente, pois a alma, durante sua união vital com o corpo, não consegue exercer suas operações a não ser em união com o corpo e seus órgãos.
2. Todos esses órgãos foram degradados e corrompidos pela queda humana muito além daquilo que conseguimos imaginar, incluindo o cérebro, do qual as operações da alma dependem de maneira mais direta. Consequentemente, caso esses instrumentos utilizados pela alma estejam desorganizados, a própria alma será impedida em suas operações. Ainda que o músico possua enorme habilidade, produzirá música ruim caso seu instrumento esteja desafinado. De um cérebro desorganizado — condição que Wesley acreditava existir, em maior ou menor grau, em todo filho dos seres humanos — surgirá necessariamente confusão na percepção, manifestando-se de milhares de maneiras; julgamento falso, como resultado natural; e conclusões erradas. Disso surgirão inúmeros enganos, apesar de toda a cautela que empregarmos. Enganos de julgamento frequentemente darão ocasião a enganos na prática. Naturalmente, poderão levar-nos a falar de maneira errada em algumas situações e agir de maneira errada em outras. Poderão produzir não somente palavras ou ações erradas, mas também disposições erradas. Caso eu julgue alguém melhor do que realmente é, provavelmente o amarei mais do que merece. Caso julgue outra pessoa pior do que realmente é, provavelmente a amarei menos do que merece. As duas disposições são inadequadas. Apesar disso, talvez não esteja em meu poder evitar completamente uma ou outra.
3. Essas são algumas das consequências inevitáveis de “possuir este tesouro em vasos de barro”. Não somente a morte e seus precursores — enfermidade, fraqueza, dor e milhares de limitações —, mas também o erro em dez mil formas estará sempre preparado para atacar-nos. Essa é a atual condição da humanidade! Essa é a condição das pessoas mais sábias! Senhor, “que é o ser humano para que ainda te lembres dele, ou o filho do homem para que o visites?”
4. Uma parte dessa grande verdade — que “o corpo corruptível oprime a alma” — é vigorosamente expressa nestes conhecidos versos de um antigo poeta, que fala sobre a alma humana:
Nela existe força ardente e origem celestial; Essas sementes do fogo do céu, Por sua força natural, subiriam à própria fonte, Caso os membros terrenos não impedissem seu voo E não limitassem sua subida às regiões da luz.
5. Suponhamos que o Criador plenamente sábio, por causa do pecado humano, tenha permitido que a alma das pessoas, de modo geral, fosse oprimida de maneira tão lamentável pelo corpo corruptível. Por que permite que o excelente tesouro confiado aos seus próprios filhos continue alojado nesses pobres vasos de barro? Essa pergunta não surgiria naturalmente em toda mente que reflete? Talvez sim. Por isso, o apóstolo apresenta imediatamente resposta completa: Deus fez isso “para que a excelência do poder proviesse de Deus e não de nós”; para que ficasse incontestavelmente claro a quem pertence esse poder extraordinário; para que nenhuma pessoa se glorie diante dele, mas todos aqueles que receberam o tesouro clamem continuamente: “Não a nós, Senhor, mas a ti seja o louvor, por causa do teu nome e da tua fidelidade.”
6. Sem dúvida, esse foi o principal propósito de Deus nessa maravilhosa disposição: humilhar o ser humano; fazê-lo e conservá-lo pequeno, pobre, humilde e sem importância aos próprios olhos. Independentemente do sofrimento que experimentemos por causa disso, somos amplamente recompensados caso ele seja meio de “esconder o orgulho do ser humano”, colocando-nos no pó exatamente quando enfrentamos maior perigo de sermos exaltados pelos excelentes dons de Deus. Sim, ainda que soframos por causa da morada humilde do espírito imortal; ainda que dores, enfermidades e inúmeras outras aflições que não enfrentaríamos de outra maneira nos ataquem por todos os lados e finalmente nos levem ao pó da morte, o que perderemos com isso? Perderemos? Não! “Em todas estas coisas somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” Venham, então, enfermidade, fraqueza, dor e todas aquelas coisas que as pessoas chamam de aflições! Não receberemos benefício infinito por meio delas, benefício para todo o sempre, visto que “estas leves e momentâneas tribulações produzem para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação”?
7. A consciência de nossa atual fraqueza não nos ensina eficazmente onde se encontra nossa força? Como proclama em voz alta: “Confiem no Senhor Deus, porque nele está a força eterna!” Confiem naquele que sofreu mil vezes mais do que vocês poderão sofrer! Não possui ele todo o poder no céu e na terra? Portanto, não importa que:
O tesouro celestial que atualmente possuímos Esteja numa frágil casa de barro! Ele nos salvará completamente E nos conservará até aquele Dia.
Potto, 17 de junho de 1790.
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.