SERMÃO 128

A graça livre

“Aquele que não poupou o seu próprio Filho” — a graça de Deus é livre para todos e em todos, não limitada por decretos de predestinação.

Rm 8.32, NAA ⏱ 25 min de leituraSalvação e graça

“Aquele que não poupou o seu próprio Filho, mas por todos nós o entregou, será que não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?”

(Rm 8.32, NAA)

Antes de ler

“A Graça Livre” é uma das exposições mais vigorosas da soteriologia arminiana de John Wesley. O sermão foi escrito contra a doutrina da predestinação incondicional, especialmente contra a ideia de que Deus tenha decretado antecipadamente a salvação de alguns e a condenação inevitável dos demais.

Wesley sustenta que a graça é livre em todos — porque não depende de mérito ou capacidade humana — e livre para todos — porque Cristo morreu por toda a humanidade e Deus deseja que todas as pessoas sejam salvas. A salvação poderá ser resistida, pois aqueles que perecem rejeitam a graça e o chamado divino.

A linguagem contra a predestinação é extremamente severa. Wesley chega a afirmar que essa doutrina, levada às suas consequências lógicas, representa Deus de maneira pior do que o diabo. Sua crítica dirige-se ao sistema doutrinário, e não necessariamente à experiência cristã de todas as pessoas reformadas. No prefácio, ele pede que qualquer resposta seja apresentada com amor e mansidão.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Pregado em Bristol, no ano de 1740.

AO LEITOR

Somente a mais forte convicção de que aquilo que apresento aqui é “a verdade que há em Jesus”, e também de que sou indispensavelmente obrigado a declarar essa verdade ao mundo inteiro, poderia levar-me a opor-me publicamente às opiniões de pessoas que respeito por causa do trabalho que realizam. Que eu seja encontrado aos pés delas no Dia do Senhor Jesus!

Caso alguém acredite possuir o dever de responder a este sermão, apresento somente um pedido: que tudo aquilo que fizer seja realizado com amor e espírito de mansidão. Que a própria discussão demonstre que vocês se revestiram, como eleitos de Deus, de profunda misericórdia, bondade e paciência, para que ainda se possa dizer: “Vejam como esses cristãos amam uns aos outros!”

ADVERTÊNCIA

Como foi publicado contra este sermão um folheto intitulado “A Verdadeira Graça Livre”, informo ao seu autor que não poderei responder-lhe enquanto ele não demonstrar maior seriedade. Não me atrevo a falar sobre “as coisas profundas de Deus” com o espírito de um lutador ou de um ator de teatro.

1. Como Deus ama livremente o mundo! Quando ainda éramos pecadores, “Cristo morreu pelos ímpios”. Quando estávamos mortos em nossos pecados, Deus “não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós”. E como, juntamente com ele, nos concede livremente todas as coisas! Verdadeiramente, a GRAÇA LIVRE é tudo em todos!

2. A graça ou o amor de Deus, do qual procede nossa salvação, é LIVRE EM TODOS e LIVRE PARA TODOS.

3. Primeiramente, é livre em todos aqueles a quem é concedida. Não depende de capacidade ou mérito humano, nem mesmo em pequeno grau, no todo ou em parte. Não depende, de maneira alguma, das boas obras ou da justiça daquele que a recebe; de qualquer coisa que tenha realizado ou de qualquer qualidade que possua. Não depende de seus esforços, de suas boas disposições, de seus bons desejos, propósitos ou intenções, pois todas essas coisas procedem da graça livre de Deus. São apenas os rios, e não a fonte. São os frutos da graça livre, e não sua raiz. Não são a causa, mas os efeitos. Todo bem existente no ser humano ou realizado por ele possui Deus como autor e realizador. Assim, sua graça é livre em todos, não dependendo de qualquer capacidade ou mérito humano, mas somente de Deus, que nos entregou livremente seu Filho e, juntamente com ele, nos concede livremente todas as coisas.

4. A graça, porém, é livre PARA TODOS, assim como é livre EM TODOS. Algumas pessoas respondem: “Não. É livre somente para aqueles que Deus ordenou para a vida, e eles formam apenas pequeno rebanho. Deus ordenou a maior parte da humanidade para a morte, e a graça não é livre para essas pessoas. Deus as odeia e, antes que nascessem, decretou que morreriam eternamente. Decretou isso de maneira absoluta, porque esse foi seu prazer, sua vontade soberana.

“Consequentemente, nasceram para esta finalidade: serem destruídas no corpo e na alma. Crescem debaixo da maldição irrevogável de Deus, sem qualquer possibilidade de redenção, pois qualquer graça que Deus lhes conceda serve apenas para aumentar, e não impedir, sua condenação.”

5. Isso é aquilo que se chama decreto da predestinação. Talvez eu ouça alguém dizer: “Essa não é a predestinação que sustento. Sustento somente a eleição da graça. Não creio em coisa além disto: antes da fundação do mundo, Deus elegeu determinado número de pessoas para serem justificadas, santificadas e glorificadas.

“Todas elas serão salvas, e ninguém além delas. Deus deixa o restante da humanidade entregue a si mesmo. Essas pessoas seguem as imaginações do próprio coração, que são continuamente más; tornam-se cada vez piores e, finalmente, são punidas justamente com a destruição eterna.”

6. Essa é toda a predestinação que você sustenta? Considere: talvez não seja. Você não acredita que Deus as tenha ordenado exatamente para essa situação? Caso acredite, sustenta todo o decreto anteriormente descrito.

Você não acredita que Deus endurece o coração daqueles que perecem? Não acredita que endureceu literalmente o coração de Faraó e o levantou ou criou para essa finalidade? Isso resulta exatamente na mesma coisa. Caso acredite que Faraó ou qualquer outra pessoa foi criada com a finalidade de ser condenada, sustenta tudo aquilo que foi dito a respeito da predestinação.

Nem sequer seria necessário acrescentar que Deus confirma o decreto — considerado imutável e irresistível — endurecendo o coração dos vasos de indignação que o próprio decreto anteriormente preparou para a destruição.

7. Talvez você não creia nem mesmo nisso. Não sustenta decreto algum de reprovação. Não pensa que Deus tenha decretado a condenação de pessoa alguma ou que endureça alguém e irresistivelmente o prepare para a condenação. Diz apenas: “Deus decretou eternamente que, estando todas as pessoas mortas em pecado, diria a alguns dos ossos secos: ‘Vivam!’, mas não diria isso aos outros.

“Consequentemente, alguns receberiam vida, enquanto os outros permaneceriam mortos. Uns glorificariam Deus por meio de sua salvação, e outros, por meio de sua destruição.”

8. Não é isso aquilo que você chama de eleição da graça? Caso seja, apresento uma ou duas perguntas. Alguma pessoa não eleita dessa maneira é salva ou alguma vez foi salva desde a fundação do mundo? É possível alguém ser salvo sem ter sido eleito dessa maneira?

Caso responda “não”, você permanece exatamente no mesmo lugar. Não avançou nem a largura de um fio de cabelo. Continua acreditando que, por causa de decreto divino imutável e irresistível, a maior parte da humanidade permanece morta sem qualquer possibilidade de redenção, pois ninguém além de Deus consegue salvá-la, e Deus não deseja fazê-lo.

Você acredita que ele decretou absolutamente não salvá-la. O que é isso além de decretar sua condenação? Na realidade, é exatamente a mesma coisa. Caso você esteja morto e seja completamente incapaz de conceder vida a si mesmo, e Deus tenha decretado absolutamente conceder vida somente a outras pessoas, e não a você, decretou absolutamente sua morte eterna. Você foi destinado de maneira absoluta à condenação.

Assim, embora utilize palavras mais suaves, seu significado é exatamente o mesmo. O decreto divino da eleição da graça, segundo sua descrição, não significa coisa diferente daquilo que outros chamam de decreto de reprovação.

9. Chame-o pelo nome que desejar — eleição, preterição, predestinação ou reprovação —, o resultado final é o mesmo. O significado de todos esses termos seria este: em virtude de decreto divino eterno, imutável e irresistível, uma parte da humanidade é salva infalivelmente, e o restante é infalivelmente condenado. É impossível que alguém do primeiro grupo seja condenado ou que alguém do segundo seja salvo.

10. Caso seja assim, toda pregação é inútil. É desnecessária para os eleitos, porque serão infalivelmente salvos, com ou sem pregação. Portanto, a finalidade da pregação — salvar almas — não se aplica a eles.

A pregação também é inútil para os não eleitos, pois não podem ser salvos. Com ou sem pregação, serão infalivelmente condenados. Portanto, a finalidade da pregação também não se aplica a eles. Nos dois casos, nossa pregação é inútil, assim como é inútil o ato de vocês ouvirem.

11. Esta é, então, prova clara de que a doutrina da predestinação não é doutrina de Deus: ela anula uma ordenança divina, e Deus não está dividido contra si mesmo.

A segunda prova é que essa doutrina possui tendência direta para destruir a santidade, finalidade de todas as ordenanças de Deus.

Não afirmo que nenhuma pessoa que sustenta essa doutrina seja santa, pois Deus possui profunda misericórdia daqueles que inevitavelmente ficaram presos em erros de qualquer espécie. Afirmo que a própria doutrina — segundo a qual toda pessoa foi eleita ou não eleita desde a eternidade, sendo inevitável que uma seja salva e a outra condenada — possui tendência evidente para destruir a santidade em geral.

Ela elimina completamente as primeiras motivações para buscarmos a santidade, apresentadas tão frequentemente nas Escrituras: a esperança da recompensa futura e o temor do castigo, a esperança do céu e o temor da condenação.

A declaração de que uns irão para o castigo eterno e outros para a vida eterna não motiva a lutar pela vida aquele que acredita que seu destino já foi decidido. Segundo seu entendimento, não seria razoável lutar, caso acredite ter sido destinado de maneira imutável à vida ou à morte.

Você dirá: “Mas ele não sabe se seu destino é a vida ou a morte.” Isso não resolve a questão. Caso uma pessoa enferma saiba que inevitavelmente morrerá ou inevitavelmente se recuperará, embora não saiba qual das duas coisas acontecerá, não existe razão para tomar medicamento algum.

Poderá dizer — como já ouvi alguns afirmarem, tanto em relação a enfermidades físicas quanto espirituais: “Caso eu tenha sido ordenado para a vida, viverei. Caso tenha sido ordenado para a morte, morrerei. Portanto, não preciso preocupar-me.”

Assim, essa doutrina possui tendência direta para fechar a própria porta da santidade, impedindo as pessoas sem santidade de se aproximarem dela ou lutarem para entrar.

12. Essa doutrina possui igualmente tendência direta para destruir diversos aspectos específicos da santidade, entre eles a mansidão e o amor, especialmente o amor pelos inimigos, pelas pessoas más e ingratas.

Não afirmo que ninguém que sustenta essa doutrina possua mansidão ou amor, pois tão grande quanto o poder de Deus é sua misericórdia. A doutrina, porém, possui tendência natural para inspirar ou aumentar uma disposição severa e impetuosa, inteiramente contrária à mansidão de Cristo. Isso aparece especialmente quando seus defensores são contrariados nesse ponto.

Ela também inspira naturalmente desprezo ou frieza contra aqueles que supostamente foram rejeitados por Deus.

“Eu, porém”, você diz, “não considero pessoa alguma especificamente reprovada.” Você quer dizer que não faria isso caso conseguisse evitá-lo. Algumas vezes, porém, não consegue deixar de aplicar sua doutrina geral a determinadas pessoas. O inimigo das almas fará essa aplicação por você. Você sabe quantas vezes isso aconteceu.

“Mas rejeitei o pensamento com horror.” É verdade, assim que conseguiu. Enquanto isso, porém, como ele tornou seu espírito amargo e severo! Você sabe perfeitamente que aquilo que sentia por aquele pobre pecador, que suspeitava ter sido odiado por Deus desde a eternidade, não era o espírito de amor.

13. Em terceiro lugar, essa doutrina possui tendência para destruir o consolo da religião e a felicidade do cristianismo. Isso é evidente em relação a todos aqueles que acreditam ter sido reprovados ou apenas suspeitam ou temem que isso tenha acontecido. Todas as grandes e preciosas promessas estão perdidas para eles e não lhes oferecem raio algum de consolo. Não sendo eleitos de Deus, acreditam não possuir parte alguma nelas.

Isso se torna barreira eficaz contra qualquer consolo ou felicidade, até mesmo naquela religião cujos caminhos foram destinados a ser agradáveis e cujas veredas conduzem à paz.

14. Quanto a vocês que acreditam ser eleitos de Deus, em que consiste sua felicidade? Espero que não seja simples concepção intelectual, crença especulativa ou opinião de qualquer espécie, mas a experiência da presença de Deus no coração, produzida pelo Espírito Santo; o testemunho do Espírito divino juntamente com o seu espírito de que são filhos de Deus.

Essa experiência, também chamada “plena certeza da fé”, é o verdadeiro fundamento da felicidade cristã. Implica realmente plena certeza de que todos os pecados passados foram perdoados e de que atualmente somos filhos de Deus. Não implica necessariamente, porém, certeza absoluta de nossa perseverança futura. Não afirmo que as duas coisas nunca se encontrem reunidas, mas que uma não está necessariamente incluída na outra. Muitas pessoas possuem a primeira sem possuir a segunda.

15. A experiência demonstra que esse testemunho do Espírito é muito prejudicado por essa doutrina. Isso acontece não somente com aqueles que, acreditando ser reprovados, afastam de si o testemunho, mas até com pessoas que experimentaram essa boa dádiva e logo a perderam, voltando às dúvidas, aos temores e a uma escuridão terrível.

Apelo a todos vocês que sustentam essa doutrina: respondam diante de Deus e do próprio coração. Não experimentam frequentemente o retorno das dúvidas e dos temores a respeito da eleição ou da perseverança?

Caso perguntem: “Quem não experimenta isso?”, respondo: pouquíssimas pessoas que sustentam essa doutrina deixam de experimentá-lo, mas muitas — muitíssimas — que não a sustentam, em diversas partes da terra, desfrutam do testemunho contínuo do Espírito e da luz permanente da face de Deus desde o momento em que creram, durante muitos meses ou anos, até hoje.

16. A certeza da fé desfrutada por essas pessoas exclui toda dúvida e temor. Exclui toda espécie de dúvida e temor a respeito da perseverança futura, embora não seja propriamente, como já foi dito, certeza daquilo que acontecerá no futuro, mas daquilo que existe atualmente.

Para sustentar-se, essa certeza não necessita da crença especulativa de que todo aquele que foi destinado para a vida precisa necessariamente viver, pois é produzida hora após hora pelo poderoso poder de Deus, “pelo Espírito Santo que nos foi dado”.

Portanto, essa doutrina não procede de Deus, porque possui tendência para impedir, caso não destruir, essa grande obra do Espírito Santo, da qual nasce o principal consolo da religião e a felicidade do cristianismo.

17. Como é desconsolador o pensamento de que milhares e milhões de pessoas, antes que praticassem qualquer ofensa ou pecado, teriam sido irrevogavelmente destinadas ao sofrimento eterno! Como deve ser especialmente doloroso para aqueles que se revestiram de Cristo, que estão cheios de misericórdia, ternura e compaixão e poderiam até desejar sofrer em favor de seus irmãos!

18. Em quarto lugar, essa doutrina desconsoladora possui tendência direta para destruir nosso zelo pelas boas obras.

Isso acontece, primeiramente, porque possui tendência natural — segundo aquilo que já foi observado — para destruir nosso amor pela maior parte da humanidade, isto é, pelas pessoas más e ingratas. Tudo aquilo que diminui o amor necessariamente diminui nosso desejo de praticar o bem em favor delas.

Acontece, em segundo lugar, porque elimina uma das mais fortes motivações para todas as obras de misericórdia física, como alimentar os famintos, vestir aqueles que não possuem roupas e coisas semelhantes: a esperança de salvar da morte sua alma.

Qual seria o benefício de aliviar as necessidades temporais daqueles que estariam inevitavelmente caminhando para a destruição eterna?

“Corra, porém, e retire-os do fogo.” Segundo sua doutrina, isso é impossível. Foram destinados a ele desde a eternidade, antes de terem praticado bem ou mal.

Você acredita que a vontade de Deus é que morram. “Quem poderá resistir à sua vontade?”

“Não sei”, você dirá, “se essas pessoas são eleitas.” O que isso modifica? Caso saiba que pertencem necessariamente a um ou ao outro grupo — eleitas ou não eleitas —, todo seu trabalho seria inútil.

Em qualquer caso, seus conselhos, advertências e exortações seriam tão desnecessários quanto nossa pregação. São desnecessários para os eleitos, pois serão infalivelmente salvos sem eles. São inúteis para os não eleitos, pois serão infalivelmente condenados com ou sem eles.

Portanto, de acordo com seus princípios, você não poderia trabalhar de maneira coerente pela salvação deles. Consequentemente, esses princípios possuem tendência direta para destruir seu zelo pelas boas obras, especialmente a maior delas: salvar almas da morte.

19. Em quinto lugar, essa doutrina não possui apenas tendência para destruir a santidade cristã, a felicidade e as boas obras. Possui também tendência direta e evidente para derrubar toda a revelação cristã.

O ponto que os incrédulos modernos mais sábios procuram demonstrar com maior dedicação é que a revelação cristã não é necessária. Sabem perfeitamente que, caso consigam demonstrar isso, a conclusão será clara: “Caso não seja necessária, não é verdadeira.”

Vocês, porém, entregam exatamente esse ponto fundamental. Supondo-se aquele decreto eterno e imutável, uma parte da humanidade precisaria ser salva ainda que a revelação cristã não existisse, e a outra precisaria ser condenada apesar da existência da revelação.

O que mais desejaria um incrédulo? Vocês lhe concedem tudo aquilo que pede. Tornando o evangelho desnecessário para todos os grupos humanos, abandonam toda a causa cristã. “Não anunciem isso em Gate”, para que os filhos da incredulidade não triunfem!

20. Essa doutrina, além de derrubar direta e evidentemente toda a revelação cristã, produz o mesmo resultado fazendo com que a revelação contradiga a si mesma.

Ela está fundamentada em interpretações de algumas passagens — sejam muitas, sejam poucas — que contradizem diretamente todas as demais e, na realidade, todo o propósito e a direção geral das Escrituras.

Por exemplo, os defensores dessa doutrina interpretam a expressão “Amei Jacó, porém rejeitei Esaú” como se Deus tivesse literalmente odiado Esaú e todos os reprovados desde a eternidade.

O que poderia contradizer mais diretamente não apenas todo o propósito das Escrituras, mas também todas as passagens que declaram expressamente: “Deus é amor”?

Novamente, deduzem das palavras “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” que Deus ama somente algumas pessoas, isto é, os eleitos, e possui misericórdia apenas deles. Isso contradiz diretamente toda a direção das Escrituras e esta declaração específica: “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias permeiam todas as suas obras.”

Novamente, deduzem de passagens como “não depende de quem quer ou de quem corre, mas de Deus, que usa de misericórdia” que ele demonstra misericórdia somente àqueles que escolheu desde a eternidade.

Quem, porém, está respondendo contra Deus agora? Vocês contradizem todos os oráculos divinos, que declaram: “Deus não trata as pessoas com parcialidade” e “para com ele não há acepção de pessoas”.

Da passagem segundo a qual os filhos ainda não haviam nascido nem praticado bem ou mal, e Rebeca recebeu a declaração “o mais velho será servo do mais jovem”, vocês concluem que nossa eleição não depende, em nenhum sentido, da presciência divina.

Todas as Escrituras, porém, contradizem diretamente essa interpretação, especialmente estas declarações: “Eleitos segundo a presciência de Deus” e “aos que de antemão conheceu, também os predestinou”.

21. “O mesmo Senhor de todos é rico em misericórdia para com todos os que o invocam.” Vocês, porém, afirmam: “Não. Ele é rico somente para aqueles por quem Cristo morreu. E estes não são todos, mas apenas alguns escolhidos dentre o mundo, pois Cristo não morreu por todos, mas somente por aqueles que foram escolhidos nele antes da fundação do mundo.”

Toda a direção do Novo Testamento contradiz diretamente essa interpretação, assim como estas passagens: não devemos destruir, por causa do alimento, “aquele por quem Cristo morreu” — prova de que Cristo morreu não somente por aqueles que são salvos, mas também por aqueles que poderão perecer.

Ele é “o Salvador do mundo”; “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”; “a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro”; “o Salvador de todos”; aquele que “deu a si mesmo em resgate por todos” e “experimentou a morte por todos”.

22. Caso perguntem: “Por que, então, todas as pessoas não são salvas?”, toda a Lei e o testemunho respondem:

Primeiramente, não é por causa de decreto divino nem porque Deus tenha prazer em sua morte. O Senhor declara não possuir prazer na morte daquele que morre. Qualquer que seja a causa de sua perdição, não poderá ser a vontade divina, caso os oráculos de Deus sejam verdadeiros, pois declaram que ele “não deseja que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” e “deseja que todos sejam salvos”.

Em segundo lugar, as Escrituras declaram a razão pela qual todos não são salvos: não desejam ser salvos. Nosso Senhor afirma expressamente: “Vocês não querem vir a mim para ter vida.” O poder do Senhor está presente para curá-los, mas recusam a cura. Rejeitam contra si mesmos o propósito misericordioso de Deus, assim como fizeram seus antepassados obstinados.

Por isso, permanecem sem desculpa. Deus desejava salvá-los, mas eles recusaram a salvação. Esta é a condenação: “Quantas vezes eu quis reunir vocês, mas vocês não quiseram!”

23. Desse modo, essa doutrina possui clara tendência para derrubar toda a revelação cristã, fazendo-a contradizer a si mesma e oferecendo a determinadas passagens interpretação que contradiz todas as demais e toda a direção das Escrituras. Essa é prova abundante de que ela não procede de Deus.

Isso, porém, ainda não é tudo. Em sétimo lugar, é doutrina cheia de blasfêmia; blasfêmia tão grave que eu temeria mencioná-la, caso a honra de nosso Deus bondoso e a causa de sua verdade não me obrigassem a falar.

Em defesa da causa divina e movido por sincera preocupação com a glória de seu grande nome, mencionarei algumas das terríveis blasfêmias contidas nessa doutrina.

Primeiramente, porém, preciso advertir cada pessoa que me ouve: quando responder diante de Deus no grande Dia, não me acuse — como alguns fizeram — de blasfemar, simplesmente porque menciono a blasfêmia das outras pessoas.

Quanto mais entristecidos estiverem por aqueles que blasfemam, maior deve ser o amor que demonstram por eles. Que o desejo do coração e sua oração contínua sejam: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!”

24. Depois dessa advertência, deve-se observar que essa doutrina representa nosso bendito Senhor, “Jesus Cristo, o Justo”, “o Filho unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade”, como hipócrita, enganador das pessoas e alguém sem sinceridade comum.

Não se pode negar que ele fala em toda parte como alguém que deseja que todas as pessoas sejam salvas. Portanto, dizer que não deseja a salvação de todos significa apresentá-lo como hipócrita e dissimulado.

Não se pode negar que as palavras cheias de graça pronunciadas por ele contêm convites para todos os pecadores. Afirmar que não pretendia salvar todos os pecadores significa apresentá-lo como alguém que engana profundamente as pessoas.

Vocês não podem negar que ele afirma: “Venham a mim todos vocês que estão cansados e sobrecarregados.”

Caso digam que ele chama pessoas que não podem vir; que sabe serem incapazes de vir; que poderia capacitá-las, mas não deseja fazê-lo, como seria possível descrever insinceridade maior?

Vocês o apresentam zombando de criaturas incapazes, oferecendo aquilo que nunca pretende conceder. Descrevem-no dizendo uma coisa e querendo dizer outra, fingindo possuir amor que não possui.

Aquele “em cuja boca não se achou engano” é apresentado como cheio de falsidade e destituído da sinceridade comum, especialmente quando, aproximando-se de Jerusalém, chorou sobre ela e disse: “Quantas vezes eu quis reunir seus filhos, mas vocês não quiseram!”

Caso digam que eles queriam, mas ele não queria, representam-no — o que ninguém deveria suportar ouvir — derramando lágrimas falsas sobre pessoas que ele próprio havia destinado à destruição!

25. Essa blasfêmia deveria fazer os ouvidos de todo cristão estremecerem. Ainda existe, porém, outra consequência. Assim como essa doutrina honra o Filho, honra também o Pai.

Destrói todos os atributos divinos de uma só vez. Derruba sua justiça, misericórdia e verdade. Sim, representa o Deus santíssimo como pior do que o diabo: mais falso, mais cruel e mais injusto.

Mais falso, porque o diabo, embora seja mentiroso, nunca declarou: “Desejo que todos sejam salvos.”

Mais injusto, porque nem mesmo o diabo poderia praticar, caso desejasse, a injustiça que essa doutrina atribui a Deus, ao afirmar que ele condena milhões ao fogo preparado para o diabo e seus anjos por permanecerem num pecado que não conseguem evitar por falta da graça que Deus decidiu não lhes conceder.

Mais cruel, porque aquele espírito infeliz procura descanso e não encontra. Sua própria miséria inquieta torna-se espécie de tentação para que tente os outros.

Deus, porém, repousa em seu lugar elevado e santo. Supor que, por simples decisão e vontade, sendo perfeitamente feliz, ele condene suas criaturas, contra a vontade delas, à miséria eterna significa atribuir-lhe crueldade que não conseguiríamos atribuir nem mesmo ao grande inimigo de Deus e da humanidade.

Significa representar o Deus Altíssimo — quem possui ouvidos, ouça! — como mais cruel, falso e injusto do que o diabo.

26. Essa é a blasfêmia claramente contida no terrível decreto da predestinação. Aqui permaneço. Nessa questão confronto cada um de seus defensores.

Vocês representam Deus como pior do que o diabo: mais falso, mais cruel e mais injusto.

“Mas provaremos isso por meio das Escrituras.” Parem! O que provarão por meio das Escrituras? Que Deus é pior do que o diabo? Isso não poderá acontecer. Independentemente daquilo que as Escrituras provem, jamais provarão semelhante coisa. Seja qual for o verdadeiro significado de determinada passagem, não poderá ser esse.

Perguntam: “Qual é, então, seu verdadeiro significado?” Caso eu responda: “Não sei”, vocês nada terão conquistado, pois existem muitas passagens cujo sentido completo nem vocês nem eu conheceremos antes que a morte seja absorvida pela vitória.

Sei, porém, que seria melhor afirmar que determinada passagem não possui sentido algum do que atribuir-lhe semelhante sentido. Independentemente de seu significado, não poderá declarar que o Deus da verdade seja mentiroso. Não poderá afirmar que o Juiz de toda a terra seja injusto.

Passagem alguma poderá significar que Deus não seja amor ou que sua misericórdia não alcance todas as suas obras. Portanto, independentemente de qualquer outra coisa que uma passagem demonstre, nenhuma passagem poderá provar essa predestinação.

27. Essa é a blasfêmia pela qual — embora ame as pessoas que a defendem — abomino a doutrina da predestinação.

Caso pudéssemos admiti-la por um único momento — chamem-na de eleição, reprovação ou qualquer outro nome, pois o resultado é o mesmo —, alguém poderia dizer ao nosso adversário, o diabo:

“Insensato, por que continua rugindo? Sua tentativa de apanhar almas é tão desnecessária e inútil quanto nossa pregação.

“Você não ouviu que Deus retirou seu trabalho de suas mãos e o realiza com muito maior eficácia? Você, juntamente com todos os principados e poderes, consegue apenas atacar-nos de maneira à qual ainda podemos resistir. Deus, porém, segundo essa doutrina, conseguiria destruir irresistivelmente o corpo e a alma.

“Você consegue somente seduzir. Os decretos imutáveis de Deus, deixando milhares de almas na morte, obrigam-nas a continuar no pecado até caírem na destruição.

“Você tenta. Deus, segundo essa concepção, força-nos à condenação, pois não conseguimos resistir à sua vontade.

“Insensato, por que continua procurando a quem devorar? Não ouviu que, segundo essa doutrina, Deus seria o leão devorador, destruidor das almas e assassino da humanidade?

“Moloque fazia somente crianças passarem pelo fogo, e aquele fogo logo se apagava. Depois que o corpo mortal era consumido, seu sofrimento terminava.

“Deus, porém, segundo dizem, por decreto eterno estabelecido antes que praticassem bem ou mal, faria não apenas crianças pequenas, mas também seus pais, passarem pelo fogo que jamais se apaga, simplesmente porque essa seria sua vontade.”

28. Como o inimigo de Deus e da humanidade se alegraria caso essas coisas fossem verdadeiras! Como levantaria a voz e declararia:

“Voltem às suas tendas, Israel! Fujam da presença desse Deus, para que não sejam completamente destruídos! Para onde, porém, fugirão? Para o céu? Ele está ali. Para as profundezas? Também está ali. Não poderão fugir de um tirano onipresente e todo-poderoso.

“Quer fujam, quer permaneçam, tomo o céu, seu trono, e a terra, lugar de seus pés, como testemunhas contra vocês: perecerão eternamente.

“Cante, ó abismo, e alegre-se, você que está debaixo da terra! Deus, o Deus poderoso, falou e destinou milhares de almas à morte, desde o nascer até o pôr do sol!

“Aqui, ó morte, está seu poder! Não poderão escapar, pois a boca do Senhor falou.

“Aqui, ó sepultura, está sua vitória! Nações ainda não nascidas, antes de praticarem bem ou mal, foram destinadas a jamais contemplar a luz da vida.

“Cantem juntas as estrelas da manhã que caíram com Lúcifer! Alegrem-se todos os filhos do inferno! O decreto foi estabelecido, e quem poderá anulá-lo?”

29. Sim, o decreto foi estabelecido, e isso aconteceu antes da fundação do mundo.

Qual decreto? Este:

“Colocarei diante dos filhos dos seres humanos a vida e a morte, a bênção e a maldição. A alma que escolher a vida viverá, e a alma que escolher a morte morrerá.”

Esse decreto, segundo o qual “aos que Deus de antemão conheceu, também os predestinou”, existia realmente desde a eternidade.

Esse decreto, segundo o qual todos os que permitem que Cristo lhes conceda vida são “eleitos segundo a presciência de Deus”, permanece firme como a Lua e como a fiel testemunha no céu. Quando o céu e a terra passarem, ele não passará, pois é tão imutável e eterno quanto o ser do Deus que o estabeleceu.

Esse decreto oferece o mais forte incentivo para sermos abundantes em todas as boas obras e em toda santidade. É fonte de alegria, felicidade e grande consolo permanente.

É digno de Deus e inteiramente coerente com todas as perfeições de sua natureza. Oferece-nos a mais elevada compreensão de sua justiça, misericórdia e verdade. Toda a revelação cristã, tanto em seu conjunto quanto em cada uma de suas partes, concorda com ele.

Moisés e todos os profetas, nosso bendito Senhor e todos os apóstolos dão testemunho disso.

Moisés declara em nome do Senhor: “Hoje coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolham, pois, a vida, para que vocês e seus descendentes vivam.”

Ezequiel declara: “A pessoa que pecar morrerá. O filho não carregará a culpa do pai. A justiça do justo estará sobre ele, e a perversidade do perverso estará sobre ele.”

Nosso bendito Senhor declara: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba.”

Paulo afirma: “Deus ordena que todas as pessoas, em todos os lugares, se arrependam.” Todas, em todos os lugares, sem exceção de lugar ou pessoa.

Tiago declara: “Se alguém necessita de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos dá livremente, e lhe será concedida.”

Pedro afirma: “O Senhor não deseja que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.”

João declara: “Se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai; ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro.”

30. Ouçam isso, vocês que se esquecem de Deus! Não poderão atribuir sua morte a ele!

O Senhor pergunta: “Tenho eu algum prazer na morte do perverso?” E chama: “Arrependam-se e abandonem todas as transgressões, para que a iniquidade não se torne sua ruína. Livrem-se de todas as transgressões. Por que morreriam? Não tenho prazer na morte daquele que morre. Portanto, convertam-se e vivam!”

“Por minha vida”, declara o Senhor, “não tenho prazer na morte do perverso, mas em que ele se converta do seu caminho e viva. Convertam-se, convertam-se dos seus maus caminhos! Por que morreriam?”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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