SERMÃO 135

Sobre o luto pelos mortos

“Agora, porém, que está morto, por que jejuaria eu?” — no funeral de um jovem amigo, Wesley ensina a esperança que consola e modera o luto cristão.

2Sm 12.23, NAA ⏱ 11 min de leituraMorte, juízo e eternidade

“Agora, porém, que está morto, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-lo voltar? Eu irei a ele, porém ele não voltará para mim.”

(2Sm 12.23, NAA)

Antes de ler

Este é um dos primeiros sermões de John Wesley, pregado em 1726, muitos anos antes de sua experiência de Aldersgate. O jovem Wesley procura demonstrar que o luto excessivo é inútil e incompatível com a esperança cristã, embora reconheça a legitimidade das lágrimas e da dor natural da separação.

Algumas afirmações refletem a filosofia moral de seu período e poderão parecer severas diante da complexidade do processo de luto. A tristeza pela perda de alguém não é falta de fé. Cada pessoa vive o luto de maneira diferente e necessita de tempo, acolhimento, cuidado pastoral e, em alguns casos, acompanhamento profissional.

Wesley também pressupõe que os mortos permanecem conscientes e felizes enquanto aguardam a ressurreição. Essa compreensão é preservada por fidelidade ao original. A ênfase central do sermão é a esperança da ressurreição, quando a morte será definitivamente vencida e o povo de Deus será reunido.

— Bispo Ildo Mello

Texto:

Pregado em Epworth, em 11 de janeiro de 1726, no funeral de John Griffith, um jovem que demonstrava grande esperança.

A decisão de um homem sábio e bom, que acabava de recuperar o uso equilibrado da razão e da virtude depois da profunda amargura experimentada enquanto aguardava, hora após hora, a morte de um filho amado, está resumida nestas poucas, mas fortes palavras. Enquanto a criança ainda vivia, Davi havia jejuado, chorado, passado a noite deitado no chão e recusado não somente o consolo, mas até o alimento necessário. Esperava que Deus demonstrasse misericórdia naquela situação, assim como fizera em outras ocasiões, e anulasse a justa sentença pronunciada.

Quando a sentença foi executada e a criança morreu, Davi se levantou e trocou de roupa. Antes, porém, adorou seu grande Senhor, reconhecendo, sem dúvida, a moderação da severidade divina e confessando, com gratidão e humildade, a obrigação que possuía para com Deus, porque não havia sido destruído, embora tivesse sido disciplinado por sua mão pesada. Depois, entrou em casa e comportou-se com a serenidade e a disposição habituais.

A razão dessa extraordinária transformação em seu comportamento — que surpreendeu aqueles que não compreendiam os princípios pelos quais agia — é explicada aqui com grande brevidade, mas com linguagem belíssima, força de pensamento e energia de expressão: “Agora, porém, que está morto, por que jejuaria eu? Poderei eu fazê-lo voltar? Eu irei a ele, porém ele não voltará para mim.”

“Com qual finalidade”, diz aquele que aceita com resignação a perda sofrida, “continuaria jejuando agora que a criança morreu? Por que acrescentaria tristeza à tristeza? Sendo voluntária, essa nova tristeza somente aumentaria a aflição que já enfrento. Não seria igualmente inútil para ele e para mim? Minhas lágrimas ou queixas possuem poder para colocar novamente sua alma na habitação enfraquecida e abandonada? Mesmo que possuísse o poder de escolher, desejaria ele trocar as regiões felizes que atualmente possui por esta terra de preocupações, dores e misérias?

“Que pensamento inútil! Ele nunca poderá e nunca desejará voltar para mim. Que este seja meu consolo, meu consolo permanente, quando a tristeza pesar sobre mim: dentro de pouco tempo — muito pouco tempo — irei até ele! Logo despertarei deste longo sonho da vida, que rapidamente terminará. Então voltarei a vê-lo. Contemplarei novamente aquele a quem amo e o amarei com amor perfeito, com afeição sincera e elevada, ainda desconhecida até mesmo pelo coração de um pai neste mundo. Então o Senhor Deus enxugará todas as lágrimas dos meus olhos, e a ausência e a tristeza desaparecerão para sempre!”

As consequências inúteis e prejudiciais e a natureza pecaminosa da tristeza excessiva pelos mortos podem ser facilmente deduzidas da primeira parte dessa reflexão. Na segunda parte, encontramos os motivos mais fortes para lutarmos contra ela: remédio perfeitamente apropriado à enfermidade, consideração que, devidamente aplicada, não deixará de impedir essa tristeza excessiva ou de libertar-nos desse verdadeiro sofrimento.

A tristeza, de modo geral, é mãe de tanto mal e ocasião de tão pouco bem para a humanidade que poderíamos perguntar como encontrou lugar em nossa natureza. Na realidade, não foi criada por Deus, mas pelo próprio ser humano. Deus poderá permiti-la, mas jamais foi o autor do mal. A tristeza e o pecado nasceram na mesma hora, assim como chegará o momento em que seremos libertos de ambos. Nenhum deles existia antes que a natureza humana fosse corrompida, e nenhum permanecerá quando ela for restaurada à sua antiga perfeição.

Na condição presente, porém, o Ser plenamente sábio, que sabe extrair o bem do mal, mostrou-nos uma maneira pela qual essa fraqueza universal poderá contribuir grandemente tanto para nossa virtude quanto para nossa felicidade. A tristeza que nos conduz ao arrependimento e procede de séria consciência de nossas faltas não deve ser lamentada, pois aqueles que semeiam com lágrimas colherão com alegria.

Limitando-nos à presente ocasião, percebemos que a tristeza não prejudica necessariamente nossa razão imperfeita, mas poderá auxiliá-la. A dor, seja física, seja mental, atua mais rapidamente do que a reflexão e grava mais profundamente na memória as circunstâncias que a acompanham.

Pela própria natureza da tristeza — inquietação da mente diante da percepção de algum mal presente —, parece que seu surgimento em nós, em qualquer situação diferente do pecado, deve-se inteiramente à falta de discernimento. Algum daqueles acontecimentos que as pessoas chamam de desgraças — como a humilhação, a pobreza, a perda da vida ou até a perda de amigos — constitui verdadeiro mal? Estão tão distantes disso que, caso ousemos acreditar no Criador, frequentemente são bênçãos reais. Todas essas coisas cooperam para nosso bem.

Por isso, nosso Senhor nos ordena que, até mesmo quando nos sobrevém a perda mais severa — a perda da reputação —, caso seja por uma boa causa, como sempre deveria ser, nos alegremos e exultemos.

O que demonstra plenamente o absurdo de praticamente toda nossa tristeza, exceto aquela produzida pelas próprias faltas, é que sua causa já pertence ao passado antes mesmo de a tristeza começar. Fazer voltar aquilo que já aconteceu é completamente impossível e está além até mesmo do exercício da onipotência, pois aquilo que aconteceu não pode deixar de ter acontecido. Aqueles que gostam da infelicidade — caso existam pessoas assim — poderão entregar a mente a semelhante inquietação inútil.

Aqueles, porém, que desejam a felicidade terão cuidado para não alimentar paixão que não é desejável em si mesma nem serve a qualquer finalidade boa, presente ou futura.

Caso alguma espécie dessa paixão inútil seja particularmente mais inútil do que as demais, é aquela experimentada quando lamentamos excessivamente os mortos. Destruímos a saúde do corpo, enfraquecemos as capacidades da mente e nada recebemos em troca dessas bênçãos valiosas. Sacrificamos nosso bem presente sem perspectiva alguma de vantagem futura, sem possibilidade de trazer os mortos novamente para cá ou de beneficiá-los no lugar onde se encontram.

Assim como o luto excessivo oferece pequena demonstração de sabedoria, oferece demonstração ainda menor de amor pelos mortos. Lamentar a felicidade de outra pessoa e chorar porque todas as lágrimas foram enxugadas de seus olhos é característica da inveja, e não do amor. Deveria perturbar-nos, a nós que nos chamamos seus amigos, o fato de um viajante cansado finalmente ter chegado ao lar desejado? Antes, choremos por nós mesmos, que ainda não possuímos essa felicidade e para quem aquele descanso ainda aparece somente como esperança.

Nosso Deus é bondoso e misericordioso. Conhecendo aquilo que existe no ser humano e sabendo que a paixão, depois de vencer a razão, sempre assume a aparência da própria razão, acrescentou a autoridade de seus mandamentos infalíveis às orientações naturais de nosso entendimento, para que não fôssemos enganados por essa aparência.

Nosso discernimento talvez estivesse tão obscurecido pela paixão que considerássemos razoável entregar-nos a tristeza ilimitada ao nos separarmos de alguém amado. A revelação, porém, declara que todos os acontecimentos da vida devem ser suportados com paciência e moderação. Caso contrário, colocamos sobre a própria alma peso maior do que as circunstâncias exteriores conseguiriam colocar sem nossa cooperação.

Devemos suportá-los com humildade, porque, diante da justiça de Deus, poderíamos esperar aflição muito maior; e com submissão, porque sabemos que tudo aquilo que acontece coopera para nosso bem. Mesmo que não cooperasse, não somos capazes de lutar contra aquele que é mais forte do que nós e, portanto, não deveríamos provocá-lo.

Paulo nos adverte expressamente contra essa falta, que é incompatível com essas virtudes e, por isso, implicitamente proibida nos mandamentos que as ordenam: ele não deseja que permaneçamos ignorantes a respeito daqueles que dormem nem que nos entristeçamos como aqueles que não possuem esperança. Caso creiamos que Jesus morreu e ressuscitou, também devemos crer que Deus levará com ele aqueles que dormiram em Jesus. Por isso, devemos consolar uns aos outros com essas palavras (1Ts 4.13-14,18).

Essas são, realmente, as únicas palavras capazes de oferecer consolo permanente a um espírito ferido por semelhante acontecimento. Por que eu seria tão irracional e tão pouco amoroso a ponto de desejar que uma alma atualmente feliz retornasse a mim, a esta habitação de pecado e miséria? Sei que chegará o tempo — e já se aproxima — em que, apesar do grande abismo estabelecido entre nós, abandonarei estas correntes e irei até ela.

Não sou capaz de retratar com cores apropriadas aquilo que esse jovem era, nem desejo tentar fazê-lo. O principal — ou pelo menos o mais comum — argumento em favor dos elogios elaborados aos mortos, que durante muitos anos prevaleceram entre nós, é que não poderia existir suspeita de bajulação. Todos sabemos, porém, que o púlpito foi utilizado com tanta frequência para essas finalidades servis que já não consegue realizá-las.

As pessoas consideram que as coisas ditas nessas ocasiões são simples formalidades; que o trabalho do pregador consiste em descrever a beleza do retrato, e não sua verdadeira aparência; e que, desde que o quadro esteja bem pintado, pouco importa com quem se pareça. Em resumo, sua tarefa seria demonstrar a própria inteligência, e não a generosidade do amigo, atribuindo-lhe todas as virtudes que conseguir imaginar.

Essa é, de fato, finalidade evidentemente alcançada por esses elogios inoportunos. É difícil compreender qual outra utilidade possuem. Celebrar as ações daquele que morreu não lhe oferece benefício, pois ele possui o reconhecimento de Deus, de seus santos anjos e da própria consciência. Também oferece pouquíssimo benefício aos vivos, pois aquele que deseja um modelo encontrará muitos apresentados como tais nas Sagradas Escrituras.

Seria necessário alguém levantar-se dentre os mortos para instruí-lo, enquanto Moisés, os Profetas e o bendito Jesus continuam apresentados diante de seus olhos nas páginas eternas? É certo que aquele que não imitar esses exemplos não será convertido, ainda que alguém literalmente ressuscite dentre os mortos.

Que seja suficiente cumprir meu último dever para com ele — esteja agora pairando sobre estas regiões inferiores ou já recolhido às habitações da glória eterna —, dizendo em poucas palavras simples, semelhantes às suas e sempre agradáveis a ele, que foi para seus pais filho afetuoso e obediente; para seus conhecidos, companheiro sincero, alegre e bondoso; e para mim, amigo fiel e aprovado.

Diante de semelhante perda, quando considerada sem suas circunstâncias consoladoras, quem poderia condenar aquele que derrama uma lágrima? A emoção terna de um coração derretido pela afeição, quando recorda os diversos momentos agradáveis que fugiram para nunca mais retornar, autoriza certo grau de tristeza. A fraqueza humana também não permitirá que até uma pessoa conhecida apenas superficialmente se despeça pela última vez sem alguma dor.

Quem, então, consegue imaginar, muito menos descrever, a forte emoção e os movimentos secretos da alma experimentados pelos pais nessa ocasião? Certamente, ninguém além daqueles que também são pais; exceto, talvez, as poucas pessoas que experimentaram o poder da amizade, pois, deste lado da sepultura, a natureza humana não conhece vínculo mais próximo, terno ou forte.

Quando esses laços sagrados são rompidos, podemos permitir, sem culpa, alguma dor de despedida. A dificuldade consiste em colocar-lhe fim tão rapidamente quanto a razão e a religião nos ordenam.

O que poderá oferecer-nos alívio suficiente depois de ruptura que deixou no coração vazio tão doloroso? O que, além da reflexão anteriormente mencionada, que nunca poderá ser repetida com frequência exagerada: também estamos caminhando para a pessoa que partiu. Passarão apenas alguns anos — talvez algumas horas —, que logo terminarão, e não somente esse, mas todos os demais desejos serão satisfeitos. Então trocaremos a sombra brilhante do prazer experimentado neste mundo por felicidade sincera, substancial e permanente.

Com essa consideração profundamente gravada na mente, é muito melhor, como observa Salomão, ir à casa onde existe luto do que à casa onde existe festa. A casa de festa envolve a alma, enfraquece nossa resolução e nos deixa expostos aos ataques. A casa de luto nos adverte a recuperar o discernimento, permanecer vigilantes e cultivar aquela firmeza nobre e aquela seriedade de espírito que não poderá ser abalada por qualquer golpe comum.

Essas situações naturalmente nos levam a considerar profundamente que a próxima convocação poderá ser nossa. Como a morte é o fim de todas as pessoas, sem exceção, é tempo de aqueles que vivem levarem isso a sério.

Caso, em algum momento, estejamos em perigo de ser dominados por contemplarmos demoradamente o lado sombrio dessa realidade, sofrendo de maneira que nos torne incapazes de cumprir os deveres da vida ou prejudique nossas capacidades físicas ou mentais — atitude que, como já foi demonstrado, é absurda, inútil e pecaminosa —, voltemo-nos imediatamente para o lado luminoso.

Reflitamos, com gratidão e humildade, que nosso tempo passa como sombra. Quando despertarmos deste sonho momentâneo, contemplaremos com maior clareza aquele último Dia, no qual nosso Redentor estará sobre a terra; quando este corpo corruptível se revestirá de incorruptibilidade e este corpo mortal se revestirá de imortalidade; e quando cantaremos, juntamente com os coros unidos dos seres humanos e dos anjos: “Onde está, ó morte, a sua vitória? Onde está, ó morte, o seu poder?”

Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.

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