SERMÃO 136
Sobre corromper a palavra de Deus
“Não somos mercadores da palavra de Deus” — contra o uso interesseiro e diluído das Escrituras: pregar toda a verdade, com sinceridade, diante de Deus.
“Não somos, como tantos outros, mercadores da palavra de Deus.”
(2Co 2.17, NAA)Antes de ler
Este sermão pertence ao início do ministério de John Wesley. Seu tema é a integridade da pregação. Corromper a Palavra significa misturá-la com invenções humanas, interpretá-la contra seu contexto ou esconder as partes que confrontam os pecados dos ouvintes.
O termo grego utilizado por Paulo poderá significar comercializar, adulterar ou negociar desonestamente uma mercadoria. Wesley relaciona essa prática ao pregador que procura benefício próprio, aprovação, dinheiro ou prestígio em vez do bem espiritual das pessoas.
A fidelidade, porém, não autoriza agressividade, humilhação ou manipulação. O próprio Wesley afirma que a verdade deve ser apresentada com toda a mansidão permitida pelo assunto. A pregação cristã deve unir coragem, clareza, sinceridade, amor e responsabilidade diante de Deus.
— Bispo Ildo Mello
Pregado aproximadamente no ano de 1728.
1. Muitas pessoas observaram que coisa alguma contribui mais para o sucesso de um pregador entre seus ouvintes do que a opinião geral de que ele é sincero. Nada concede maior força à sua persuasão; nada desperta maior atenção nos ouvintes nem maior disposição para aproveitarem aquilo que escutam.
Quando realmente acreditam que o pregador não possui outra finalidade ao falar além daquela que apresenta abertamente, e que está disposto a permitir que enxerguem todos os passos utilizados para alcançar essa finalidade, naturalmente desenvolvem forte convicção tanto de que o objetivo procurado é bom quanto de que o método utilizado para alcançá-lo também é bom.
2. A questão é esta: como levaremos os ouvintes a possuir semelhante convicção? Como faremos com que percebam nossa sinceridade, caso não a observem por si mesmos?
Uma maneira adequada, embora comum, é declará-la com franqueza e clareza. Existe algo nessas declarações, quando procedem do coração, que penetra profundamente no coração das outras pessoas.
Aqueles que possuem alguma generosidade de espírito praticamente se sentem obrigados a acreditar nelas. Até mesmo aqueles que não acreditam consideram prudente não revelar sua incredulidade, pois existe conhecida regra: quanto mais honesta uma pessoa é, menos inclinada fica a suspeitar da outra.
A consequência é clara: aquele que, sem provas, suspeita da sinceridade do próximo oferece provável demonstração de que julga o coração alheio pela falsidade existente no próprio coração.
3. Não seríamos tentados a suspeitar da integridade de alguém que, sem provas, suspeitasse da falta de integridade de outra pessoa que declarou de maneira clara e aberta os princípios pelos quais age?
Certamente, somente aquele que corrompe pessoalmente a Palavra de Deus ou deseja que ela seja corrompida poderia suspeitar levianamente de que Paulo agisse assim ou de que qualquer pessoa depois dele utilizasse de maneira falsa sua generosa declaração:
“Não somos como muitos que corrompem a Palavra de Deus. Pelo contrário, falamos com sinceridade, da parte de Deus, na presença de Deus e em Cristo.”
4. O apóstolo, assim como seus seguidores na pregação do evangelho, não deseja que os ouvintes dependam exclusivamente de suas palavras. Posteriormente, apela às próprias ações para confirmá-las.
Aqueles que conseguem imitá-lo nessa questão não necessitam implorar que as pessoas acreditem em sua sinceridade.
Caso nossas obras, assim como nossas palavras, carreguem a marca da sinceridade, as duas falarão de maneira tão clara e vigorosa que toda pessoa sem preconceito compreenderá que falamos em Cristo com sinceridade e que, ao fazê-lo, reconhecemos estar diante daquele Deus cuja missão recebemos.
5. Aqueles que o apóstolo acusa da prática contrária — a corrupção da Palavra de Deus — parecem ter sido judeus que reconheciam Jesus como o Cristo e seu evangelho como divino, mas o adulteravam, misturando-o com a Lei de Moisés e com as próprias tradições.
Ao agirem assim, sua principal finalidade era obter lucro por meio de Cristo. Consequentemente, precisavam esconder tanto o objetivo procurado quanto os meios utilizados para alcançá-lo.
Ao contrário, aqueles que desejam o bem da humanidade não possuem razão alguma para esconder suas intenções.
Caso o benefício que procuramos ao falar seja exclusivamente nosso, frequentemente será de nosso interesse mantê-lo escondido. Caso o benefício procurado seja o bem dos outros, sempre será de nosso interesse torná-lo público.
Também é de interesse nosso e das outras pessoas tornar públicos os sinais pelos quais poderá ser claramente reconhecido quem corrompe a Palavra de Deus e quem a prega com sinceridade.
AS MANEIRAS DE CORROMPER A PALAVRA DE DEUS
1. O primeiro e principal sinal daquele que corrompe a Palavra de Deus é introduzir nela misturas humanas, sejam os erros das outras pessoas, sejam as fantasias produzidas pela própria mente.
Fazer isso é corrompê-la no mais elevado grau: misturar aos oráculos de Deus sonhos impuros, apropriados somente à boca do diabo!
Apesar disso, isso aconteceu com tanta frequência que praticamente nenhuma opinião errada foi inventada ou recebida sem que as Escrituras fossem citadas para defendê-la.
2. Quando o engano era evidente demais, e o texto citado parecia claramente contrário à opinião defendida ou inteiramente sem relação com ela, normalmente recorria-se a um segundo método de corrupção: misturar a Palavra com falsas interpretações.
Isso acontece algumas vezes quando as palavras são citadas incorretamente; outras vezes, quando são citadas corretamente, mas recebem sentido errado — interpretação forçada, artificial ou alheia à intenção do escritor na passagem da qual foram retiradas.
Tal interpretação poderá até ser contrária à intenção do escritor naquela mesma passagem ou àquilo que ele afirma em outra parte de seus escritos.
Isso é facilmente realizado. Qualquer passagem poderá ser distorcida quando citada isoladamente, sem os versículos anteriores ou posteriores.
Por esse meio, poderá parecer possuir determinado sentido quando, depois de observarmos aquilo que vem antes e depois, ficará evidente que significa exatamente o contrário.
Por não observarem isso, pessoas desprevenidas ficam sujeitas a ser levadas por todo vento de doutrina quando caem nas mãos daqueles que possuem maldade e habilidade suficientes para adulterar aquilo que pregam e acrescentar ocasionalmente comentário plausível, a fim de torná-lo mais facilmente aceitável.
3. Uma terceira espécie daqueles que corrompem a Palavra de Deus — embora em grau menor do que os anteriores — é formada por aqueles que não acrescentam alguma coisa ao texto, mas retiram alguma coisa dele.
Retiram seu espírito ou sua substância ao procurarem profetizar exclusivamente coisas agradáveis. Por isso, disfarçam e suavizam aquilo que pregam, a fim de adaptá-lo ao gosto dos ouvintes.
Para realizarem isso com maior facilidade, normalmente abandonam as partes que não admitem semelhante disfarce.
Lavem as mãos diante daqueles textos difíceis que não se curvam à sua finalidade ou que confrontam claramente os pecados predominantes no lugar em que se encontram.
Substituem-nos por textos mais suaves e maleáveis, que possuem menor possibilidade de causar desagrado.
Nenhuma palavra deverá ser pronunciada sobre a tribulação e a angústia anunciadas contra os pecadores em geral; muito menos sobre o juízo definitivo que, caso Deus seja verdadeiro, aguarda determinadas práticas conhecidas pelos próprios pregadores.
Essas questões delicadas não poderão ser tocadas sem perigo por aqueles que procuram conquistar a aprovação das pessoas. Caso sejam mencionadas, isso precisa acontecer com cuidado extremo e com alguma explicação preparada para retirar sua força.
Esses pregadores, porém, podem atacar com segurança aqueles que estão fora de seu alcance ou pecados que supõem não serem praticados por nenhum dos ouvintes.
Ninguém fica pessoalmente incomodado ao ouvir a condenação de práticas com as quais não possui envolvimento.
Quando, porém, o golpe atinge diretamente sua situação, alcançando o próprio pecado, então, caso não fique convencido, ficará descontente, irritado e impaciente.
Esses são os métodos daqueles que corrompem a Palavra, agindo diante das pessoas, e não diante de Deus.
Deus examina o coração e não aceitará serviço no qual somente os lábios estejam envolvidos. As palavras desses pregadores não correspondem aos seus pensamentos. Na realidade, não seria conveniente que correspondessem, pois, caso sua verdadeira intenção aparecesse, ela impediria o sucesso de seus planos.
É verdade que pretendem realizar bem por meio do evangelho de Cristo, mas desejam fazer bem a si mesmos, e não aos outros.
Ao contrário, aqueles que utilizam sinceridade na pregação do evangelho procuram o próprio bem dentro do bem das outras pessoas.
Sua sinceridade e o fato de falarem como mensageiros enviados por Deus, conscientes de estar diante dele, aparecem claramente na oposição direta entre sua prática e a prática daqueles que escondem suas intenções.
COMO OS PREGADORES SINCEROS ANUNCIAM A PALAVRA
1. Considerem, primeiramente, que não pregam a própria palavra, mas a Palavra daquele que os enviou.
Pregam-na pura e sem mistura.
Não somente declaram, mas realmente acreditam que, “se alguém acrescentar alguma coisa à Palavra de Deus, Deus acrescentará sobre ele as pragas escritas nela”. Por isso, temem acrescentar-lhe até mesmo a menor coisa.
Vocês recebem deles o evangelho talvez de maneira menos elegante, mas honesta e exatamente como ele é, sem mistura de erro que o contamine nem interpretação incorreta que o torne confuso.
2. Explicam a Palavra da maneira mais natural e evidente, por meio daquilo que vem antes e depois da passagem examinada.
Comentam-na pelo método mais seguro e menos sujeito ao erro ou à corrupção: apresentam passagens paralelas que expressam a mesma verdade com maior clareza.
3. Em seguida, possuem tanto cuidado para não retirar coisa alguma da Palavra quanto para não acrescentar-lhe coisa alguma.
Reconhecendo diante de quem permanecem, não se atrevem a dizer menos nem mais do que aquilo que Deus lhes confiou.
À medida que surgem ocasiões apropriadas, precisam publicar tudo aquilo que está contido nos oráculos de Deus.
Não importa se essas coisas são agradáveis ou desagradáveis, pois são inquestionavelmente verdadeiras e úteis.
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a educação na justiça”: seja para ensinar aquilo em que devemos crer ou aquilo que devemos praticar, seja para convencer-nos do erro ou corrigir o pecado.
Sabem que nada nela é desnecessário no que diz respeito à fé ou à prática. Por isso, pregam todas as suas partes, embora apresentem com maior frequência e especificidade aquelas especialmente necessárias no lugar onde se encontram.
Estão tão distantes de evitar a denúncia de algum pecado porque ele está na moda e recebe aprovação no lugar em que a providência os colocou que, exatamente por essa razão, testemunham contra ele com maior zelo.
Também estão tão distantes de evitar a recomendação de alguma virtude porque ela deixou de ser valorizada e é desprezada no lugar em que se encontram que, justamente por essa razão, recomendam-na com maior vigor.
4. Finalmente, aqueles que falam com sinceridade e diante daquele que os enviou demonstram isso pela maneira como falam.
Falam com clareza e coragem e não procuram disfarçar sua doutrina para ajustá-la ao gosto das pessoas.
Procuram apresentá-la sempre sob sua verdadeira luz, seja agradável, seja desagradável.
Não querem e não se atrevem a suavizar uma advertência de modo a retirar-lhe a força, nem a apresentar o pecado com cores tão suaves que diminuam sua verdadeira gravidade.
Isso não significa que deixem de escolher a mansidão quando ela provavelmente produzirá resultado.
Embora conheçam “o temor do Senhor”, preferem “persuadir as pessoas”.
Utilizam e amam utilizar esse método com aqueles que estão dispostos a ser persuadidos. Com aqueles que não estão, são obrigados, caso desejem permanecer fiéis, a adotar caminho mais severo.
Os que insultam responderão por seus insultos. Isso não prejudica os pregadores fiéis. Caso sejam censurados por sua fidelidade, aqueles que os censuram prestarão contas disso.
Os ouvintes precisam ajustar-se à Palavra. Nesse sentido, a Palavra não deve ser ajustada aos ouvintes.
O pregador seria igualmente culpado caso caísse na submissão servil de um lado ou na severidade inflexível do outro.
A EVIDÊNCIA DA SINCERIDADE
1. Caso tenhamos anunciado a Palavra de Deus — a Palavra genuína e pura de Deus, e somente ela; caso não lhe tenhamos atribuído interpretação forçada, mas compreendido as expressões conhecidas em seu sentido comum e evidente e, quando fossem menos conhecidas, explicado as Escrituras pelas próprias Escrituras; caso tenhamos anunciado toda a Palavra conforme surgiram as oportunidades, especialmente as partes que pareciam mais apropriadas para confrontar algum pecado socialmente aceito ou incentivar a prática de alguma virtude desprezada; e caso tenhamos realizado isso com clareza e coragem, embora com toda a mansidão e gentileza permitidas pela natureza do assunto —, então creiam em nossas obras, caso não creiam em nossas palavras; ou, antes, creiam nas duas reunidas.
Isso é tudo aquilo que um pregador consegue realizar e toda a evidência que poderá ou necessitará apresentar sobre suas boas intenções.
Não existe outra maneira de demonstrar que fala com sinceridade, como mensageiro enviado pelo Senhor e diante dele.
Caso, depois de tudo isso, ainda existam pessoas que não acreditem que trabalhamos em favor delas, e não de nós mesmos; que nossa primeira intenção ao falar consiste em mostrar-lhes o caminho da felicidade e afastá-las da estrada larga que conduz à destruição, estamos livres do sangue dessas pessoas. A responsabilidade permanece sobre a própria cabeça delas.
Assim declara o Senhor, que nos colocou como sentinelas sobre a alma de nossos compatriotas e irmãos:
“Se você advertir o perverso para que se converta de seu caminho” — muito mais quando utilizamos todos os métodos possíveis para convencê-lo de que a advertência procede de Deus —, “e ele não se converter de seu caminho” — o que certamente não fará caso não acredite que falamos seriamente —, “ele morrerá em sua iniquidade, mas você livrou a sua alma.”
Tradução em português atual a partir do original em domínio público (ed. Thomas Jackson, 1872), realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas conforme a NAA. Igreja Metodista Livre do Brasil.