Documento fundador · 1742
“Não que eu já o tenha alcançado.”
Filipenses 3.12
Quando o apelido “metodista” começou a circular pela Inglaterra, era um insulto — um nome dado por escárnio a um punhado de jovens de Oxford disciplinados demais para o gosto da época. Em 1742, Wesley resolveu responder à pergunta que todos faziam: afinal, o que é um metodista? A resposta dele surpreende. Não está em opiniões, nem em palavras próprias, nem em costumes exteriores. Está em um coração no qual o amor de Deus foi derramado, que ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Leia este texto como um espelho, e não como um distintivo. Wesley não quer nos separar dos demais cristãos — pelo contrário, ele faz questão de dizer que essas marcas são apenas o velho e simples cristianismo. Que a leitura nos leve menos a defender um rótulo e mais a desejar o que ele descreve.
— Bispo Ildo Mello
1. Desde que o nome apareceu no mundo, muitos têm ficado sem saber o que é um metodista: quais os princípios e a prática dos que assim são chamados, e quais as marcas que distinguem esta seita “contra a qual em toda parte se fala”.
2. E como em geral se acreditava que eu seria capaz de dar o relato mais claro dessas coisas — por ter sido um dos primeiros a quem se deu esse nome, e a pessoa por quem os demais eram tidos como conduzidos —, fui instado, de toda maneira e com a maior insistência, a fazê-lo. Cedo enfim à contínua importunação de amigos e de inimigos, e dou agora o relato mais claro que posso, na presença do Senhor e Juiz do céu e da terra, dos princípios e da prática pelos quais os que se chamam metodistas se distinguem dos demais.
3. Digo os que se chamam metodistas, pois é bom que se note: este não é um nome que eles tomam para si, mas um que lhes foi pregado por censura, sem sua aprovação ou consentimento. Foi dado, a princípio, a três ou quatro rapazes em Oxford, por um estudante de Christ Church — seja aludindo à antiga escola de médicos assim chamados, que ensinavam curar quase todas as doenças por um método específico de dieta e exercício, seja por observarem neles um método de estudo e de conduta mais regular do que era comum na idade e na posição deles.
4. Eu me alegraria — tão pouco ambiciono estar à frente de qualquer seita ou partido — se o próprio nome nunca mais fosse mencionado, mas ficasse sepultado no esquecimento eterno. Mas, se isso não pode ser, ao menos que os que o usarem saibam o sentido da palavra que empregam. Não fiquemos sempre lutando no escuro. Venham, e olhemo-nos face a face. E talvez alguns de vocês, que odeiam aquilo que me chamam, amem aquilo que sou pela graça de Deus; ou antes, aquilo que “procuro alcançar, se é que também posso alcançar aquilo para o qual fui alcançado por Cristo Jesus”.
1. As marcas que distinguem um metodista não são suas opiniões, de espécie alguma. Concordar com este ou aquele esquema de religião, abraçar um conjunto particular de ideias, adotar o parecer de um homem ou de outro — tudo isso está inteiramente fora do ponto. Portanto, quem quer que imagine que um metodista é um homem desta ou daquela opinião, ignora grosseiramente a questão inteira: erra por completo a verdade. Cremos, de fato, que “toda a Escritura é inspirada por Deus”, e nisto nos distinguimos de judeus, muçulmanos e descrentes. Cremos que a palavra escrita de Deus é a única e suficiente regra da fé e da prática cristã, e nisto nos distinguimos fundamentalmente dos que são da Igreja de Roma. Cremos que Cristo é o eterno e supremo Deus, e nisto nos distinguimos dos socinianos e arianos. Mas quanto a todas as opiniões que não atingem a raiz do cristianismo, pensamos e deixamos pensar. De modo que, sejam elas quais forem, certas ou erradas, não são marca que distinga um metodista.
2. Tampouco o são palavras ou expressões de qualquer tipo. Não colocamos a nossa religião, nem parte alguma dela, no apego a um modo peculiar de falar, a um conjunto singular ou incomum de expressões. As palavras mais óbvias, simples e comuns, com que nosso sentido possa ser transmitido, preferimo-las às outras, tanto nas ocasiões ordinárias quanto quando falamos das coisas de Deus. Nunca, portanto, de propósito nos desviamos do modo mais usual de falar, a não ser quando exprimimos verdades da Escritura com palavras da Escritura — o que, presumimos, nenhum cristão condenará. Nem fazemos questão de usar certas expressões bíblicas com mais frequência do que outras, exceto as que os próprios escritores inspirados usam mais. De modo que é erro tão grosseiro colocar as marcas de um metodista em suas palavras quanto em suas opiniões.
3. Também não desejamos ser distinguidos por ações, costumes ou usos de natureza indiferente. Nossa religião não consiste em fazer o que Deus não ordenou, ou em abster-se do que ele não proibiu. Não consiste na forma da nossa roupa, na postura do corpo ou na cobertura da cabeça; nem em abster-se do casamento, ou de comidas e bebidas, que são todas boas se recebidas com gratidão. Portanto, nenhum homem que saiba o que afirma fixará aqui a marca de um metodista — em ações ou costumes puramente indiferentes, não determinados pela palavra de Deus.
4. Nem, por fim, se distingue ele por pôr todo o peso da religião numa única parte dela. Se disseres: “Sim, distingue-se, pois pensa que ‘somos salvos somente pela fé’” — respondo: não entendeste os termos. Por salvação ele entende a santidade do coração e da vida. E afirma que ela brota somente da verdadeira fé. Pode até um cristão apenas de nome negá-lo? Será isto tomar uma parte da religião pelo todo? “Anulamos, então, a lei pela fé? De modo nenhum! Antes, estabelecemos a lei.” Não colocamos o todo da religião (como muitos fazem, bem o sabe Deus) nem em não fazer mal, nem em fazer o bem, nem em usar as ordenanças de Deus. Não, nem em tudo isso junto; pois sabemos por experiência que um homem pode empenhar-se nisso por muitos anos e, ao fim, não ter religião alguma, nada mais do que tinha no começo. Muito menos numa só dessas coisas; ou, quem sabe, num fragmento de uma delas — como aquela que se julga virtuosa só porque não é prostituta, ou aquele que sonha ser honesto apenas porque não rouba nem furta. Guarde-me o Senhor, Deus dos meus pais, de uma religião tão pobre e faminta como essa! Se fosse esta a marca de um metodista, eu preferiria ser um judeu, um muçulmano ou um pagão sincero.
5. “Qual é, então, a marca? Quem é um metodista, segundo o teu próprio relato?” Respondo: um metodista é aquele em cujo coração “o amor de Deus foi derramado pelo Espírito Santo que lhe foi dado”; aquele que “ama o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e com todas as suas forças”. Deus é a alegria do seu coração e o desejo da sua alma, que constantemente clama: “A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra nada mais desejo além de ti. Meu Deus e meu tudo! Tu és a força do meu coração e a minha herança para sempre!”
6. Por isso ele é feliz em Deus — sim, sempre feliz —, tendo em si “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”, que transborda a sua alma de paz e alegria. Tendo o “perfeito amor” agora “expulsado o medo”, ele “se alegra sempre”. “Alegra-se no Senhor continuamente”, em “Deus, seu Salvador”, e no Pai, “por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem recebeu agora a reconciliação”. Havendo achado “a redenção pelo sangue dele, o perdão dos seus pecados”, não pode senão alegrar-se sempre que olha para trás, para o horrível abismo do qual foi livrado; quando vê “todas as suas transgressões apagadas como a névoa, e as suas iniquidades como a densa neblina”. Não pode senão alegrar-se sempre que olha para o estado em que agora se encontra: “justificado gratuitamente e tendo paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo”. Pois “quem crê tem o testemunho” disto “em si mesmo”, sendo agora filho de Deus pela fé. “Porque é filho, Deus enviou ao seu coração o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!” E “o próprio Espírito testifica com o seu espírito que ele é filho de Deus”. Alegra-se também sempre que olha para diante, “na esperança da glória que há de ser revelada”; sim, essa sua alegria é plena, e todos os seus ossos clamam: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua muita misericórdia, me regenerou para uma viva esperança — para uma herança incorruptível, sem mácula, que não se pode murchar, guardada nos céus para mim!”
7. E aquele que tem esta esperança, assim “cheia de imortalidade, em tudo dá graças”, sabendo que isto (seja o que for) “é a vontade de Deus em Cristo Jesus a seu respeito”. Dele, portanto, recebe de bom grado todas as coisas, dizendo: “Boa é a vontade do Senhor”; e, quer o Senhor dê, quer tire, igualmente “bendiz o nome do Senhor”. Pois “aprendeu a viver contente em toda e qualquer situação”. Sabe “tanto estar humilhado como ter abundância. Em toda parte e em todas as coisas, está instruído tanto a fartar-se como a passar fome, tanto a ter em abundância como a padecer necessidade”. Seja na tranquilidade ou na dor, na doença ou na saúde, na vida ou na morte, ele dá graças, do fundo do coração, Àquele que ordena tudo para o bem; sabendo que, assim como “toda boa dádiva vem do alto”, também nada senão o bem pode vir do Pai das luzes, em cujas mãos entregou por inteiro o seu corpo e a sua alma, como nas mãos de um Criador fiel. Por isso, de “nada” anda ansioso ou inquieto, tendo “lançado sobre Ele toda a sua ansiedade, porque Ele tem cuidado dele”, e, “em tudo”, descansando nele depois de “apresentar-lhe os seus pedidos com ações de graças”.
8. Pois, de fato, ele “ora sem cessar”. É-lhe dado “orar sempre e nunca desanimar”. Não que esteja sempre na casa de oração, embora não perca ocasião de estar ali. Nem está sempre de joelhos, ainda que muitas vezes o esteja, ou prostrado por terra diante do Senhor, seu Deus. Nem sempre clama a Deus em alta voz, ou o invoca com palavras: pois muitas vezes “o Espírito intercede por ele com gemidos inexprimíveis”. Mas, em todo tempo, a linguagem do seu coração é esta: “Ó resplendor da glória eterna, para ti está o meu coração, ainda que sem voz, e o meu silêncio te fala.” E esta é a verdadeira oração, e só esta. Seu coração está sempre elevado a Deus, em todo tempo e em todo lugar. Nisto ele nunca é impedido, muito menos interrompido, por pessoa ou coisa alguma. No recolhimento ou em companhia, no descanso, no trabalho ou na conversa, o seu coração está sempre com o Senhor. Quer se deite, quer se levante, Deus está em todos os seus pensamentos; anda continuamente com Deus, tendo o olhar amoroso da mente sempre fixo nele, e em toda parte “vendo Aquele que é invisível”.
9. E, enquanto assim exercita sempre o seu amor a Deus — orando sem cessar, alegrando-se sempre e em tudo dando graças —, este mandamento está escrito no seu coração: “que aquele que ama a Deus ame também o seu irmão”. E, por isso, ama o próximo como a si mesmo; ama todo homem como à própria alma. O seu coração está cheio de amor por toda a humanidade, por todo filho “do Pai dos espíritos de toda carne”. Que alguém não lhe seja conhecido pessoalmente não é obstáculo para o seu amor; nem tampouco o é saber que se trata de alguém que ele não aprova, ou que paga com ódio a sua boa vontade. Pois ele “ama os seus inimigos”; sim, e os inimigos de Deus, “os maus e os ingratos”. E, se não estiver em seu poder “fazer o bem aos que o odeiam”, nem por isso deixa de orar por eles, ainda que continuem a rejeitar o seu amor e a “maltratá-lo e persegui-lo”.
10. Pois ele é “puro de coração”. O amor de Deus purificou o seu coração de toda paixão vingativa, da inveja, da malícia e da ira, de todo temperamento cruel ou afeto maligno. Limpou-o do orgulho e da altivez de espírito, dos quais só vem a contenda. E agora ele se “revestiu de terna misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade”, de modo que “suporta e perdoa, se tem queixa contra alguém, assim como também Deus, em Cristo, lhe perdoou”. E, de fato, todo motivo possível de contenda, da parte dele, está inteiramente cortado. Pois ninguém pode tirar-lhe o que ele deseja, visto que ele “não ama o mundo, nem” coisa alguma “que há no mundo”, estando agora “crucificado para o mundo, e o mundo para ele”, morto a tudo o que há no mundo — “à concupiscência da carne, à concupiscência dos olhos e à soberba da vida”. Pois “todo o seu desejo é para Deus e para a lembrança do seu nome”.
11. De acordo com esse seu único desejo, é o único propósito da sua vida: “não fazer a própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou”. Sua única intenção, em todo tempo e em todas as coisas, é não agradar a si mesmo, mas Àquele a quem a sua alma ama. Ele tem um olhar simples. E, porque “o seu olho é simples, todo o seu corpo é cheio de luz”. Onde o olhar amoroso da alma está continuamente fixo em Deus, ali não pode haver treva alguma, “mas tudo é luz, como quando o brilho intenso de uma candeia ilumina a casa”. Deus, então, reina sozinho. Tudo o que há na alma é santidade ao Senhor. Não há um só movimento no seu coração que não seja segundo a vontade dele. Todo pensamento que se levanta aponta para Ele, e está em obediência à lei de Cristo.
12. E a árvore se conhece pelos frutos. Pois, assim como ama a Deus, também guarda os seus mandamentos — não apenas alguns, ou a maioria, mas todos, do menor ao maior. Não se contenta em “guardar toda a lei e tropeçar num só ponto”, mas tem, em todos os pontos, “uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens”. Tudo o que Deus proibiu, ele evita; tudo o que Deus ordenou, ele faz, seja isso pequeno ou grande, difícil ou fácil, agradável ou penoso à carne. Ele “corre pelo caminho dos mandamentos de Deus”, agora que pôs o seu coração em liberdade. É a sua glória fazê-lo; é a sua coroa diária de alegria “fazer a vontade de Deus na terra, assim como se faz no céu” — sabendo que este é o mais alto privilégio “dos anjos de Deus, dos que se distinguem em força, cumprir os seus mandamentos e obedecer à voz da sua palavra”.
13. Todos os mandamentos de Deus, pois, ele guarda, e isso com todas as suas forças. Porque a sua obediência é proporcional ao seu amor, a fonte de onde ela flui. E, portanto, amando a Deus de todo o coração, serve-o com todas as forças. Continuamente apresenta a sua alma e o seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, dedicando-se por inteiro e sem reservas — tudo o que tem e tudo o que é — à glória dele. Todos os talentos que recebeu, emprega-os constantemente segundo a vontade do seu Senhor: toda potência e faculdade da alma, todo membro do corpo. Outrora os “entregou ao pecado” e ao diabo, “como instrumentos de injustiça”; mas agora, “estando vivo dentre os mortos, entrega-os” todos “como instrumentos de justiça a Deus”.
14. Por consequência, tudo o que faz, faz para a glória de Deus. Em todas as suas ocupações, de todo tipo, ele não apenas visa a isto (o que está implícito em ter um olhar simples), mas de fato o alcança. Seus afazeres e descansos, tanto quanto as suas orações, servem todos a este grande fim. Quer esteja sentado em casa, quer ande pelo caminho, quer se deite, quer se levante, ele promove, em tudo o que fala ou faz, o único negócio da sua vida. Quer vista a roupa, quer trabalhe, quer coma e beba, quer se recreie de um trabalho excessivo, tudo tende a promover a glória de Deus, pela paz e pela boa vontade entre os homens. A sua regra única e invariável é esta: “Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.”
15. Nem os costumes do mundo o impedem de “correr a carreira que lhe está proposta”. Ele sabe que o vício não perde a sua natureza por mais que se torne moda, e lembra que “cada um há de dar conta de si mesmo a Deus”. Não pode, portanto, “seguir a multidão para fazer o mal”. Não pode “viver em luxo todos os dias”, nem “fazer provisão para a carne no tocante às suas concupiscências”. Não pode “ajuntar tesouros na terra”, tanto quanto não pode acolher fogo no peito. Não pode “enfeitar-se”, sob pretexto algum, “com ouro ou vestes custosas”. Não pode participar de qualquer diversão, nem lhe dar apoio, que tenha a mínima tendência a algum vício. Não pode “falar mal” do próximo, tanto quanto não pode mentir, seja por Deus, seja pelos homens. Não pode dizer uma palavra cruel de ninguém, pois o amor guarda a porta dos seus lábios. Não pode proferir “palavras ociosas”: nenhuma “conversa corrompida” sai da sua boca, mas somente a que é “boa para a edificação” e “própria para transmitir graça aos que a ouvem”. E “tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama”, nisto ele pensa, e disto fala, e assim age, “adornando em tudo o evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”.
16. Por fim: conforme tem tempo, ele “faz o bem a todos” — a vizinhos e estranhos, amigos e inimigos —, e isso de todo modo possível. Não só aos corpos, “alimentando os famintos, vestindo os nus, visitando os enfermos e os presos”, mas muito mais se empenha em fazer o bem às almas, na medida da capacidade que Deus lhe dá: em despertar os que dormem na morte; em levar os despertados ao sangue que reconcilia, para que, “sendo justificados pela fé, tenham paz com Deus”; e em animar os que já têm paz com Deus a abundar cada vez mais em amor e em boas obras. E está disposto a “gastar-se e ser gasto” nisto, até “ser derramado como oferta sobre o sacrifício e serviço da fé deles”, para que todos “cheguem à medida da estatura da plenitude de Cristo”.
17. Estes são os princípios e as práticas da nossa seita; estas são as marcas de um verdadeiro metodista. Só por estas é que os que, por escárnio, assim são chamados desejam ser distinguidos dos demais. Se alguém disser: “Ora, estes são apenas os princípios comuns e fundamentais do cristianismo!” — tu o disseste; é isso mesmo que quero dizer; é a pura verdade; sei que não são outros; e prouvera a Deus que tanto tu como todos os homens soubessem que eu, e todos os que seguem o meu juízo, recusamos veementemente ser distinguidos dos demais por qualquer coisa que não sejam os princípios comuns do cristianismo — o simples e antigo cristianismo que ensino, renunciando e detestando toda outra marca de distinção. E quem quer que seja aquilo que prego (seja ele chamado como for, pois os nomes não mudam a natureza das coisas), esse é cristão, não só de nome, mas de coração e de vida. Está conformado, por dentro e por fora, à vontade de Deus revelada na palavra escrita. Pensa, fala e vive segundo o método traçado na revelação de Jesus Cristo. Sua alma foi renovada à imagem de Deus, em justiça e em toda a verdadeira santidade. E, tendo a mente que houve em Cristo, anda como também Cristo andou.
18. Por estas marcas, por estes frutos de uma fé viva, é que procuramos distinguir-nos do mundo incrédulo — de todos aqueles cuja mente ou cuja vida não estão segundo o evangelho de Cristo. Mas dos cristãos de verdade, de qualquer denominação que sejam, desejamos ardentemente não nos distinguir em nada; nem de qualquer um que sinceramente busque aquilo que sabe ainda não ter alcançado. Não: “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” E rogo-vos, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que de modo algum estejamos divididos entre nós. Está reto o teu coração, como o meu está com o teu? Não pergunto mais nada. Se está, dá-me a tua mão. Por opiniões, ou por termos, não destruamos a obra de Deus. Amas e serves a Deus? Basta. Dou-te a mão direita da comunhão. Se há alguma consolação em Cristo, algum conforto de amor, alguma comunhão do Espírito, algum entranhado afeto e misericórdia, esforcemo-nos juntos pela fé do evangelho, andando de modo digno da vocação a que fomos chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-nos uns aos outros em amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz; lembrando que há um só corpo e um só Espírito, como também fomos chamados numa só esperança da nossa vocação; “um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por todos e em todos”.
Tradução para o português a partir da edição de Thomas Jackson, The Works of John Wesley (1872), domínio público. As citações bíblicas foram vertidas em português atual. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.