Tratado doutrinário · 1752
“Para que, na altura deste grande argumento, eu afirme a eterna Providência e justifique diante do ser humano os caminhos de Deus.”
Epígrafe de Wesley, versos de John Milton
Pode Deus, desde a eternidade e sem levar em conta a fé de ninguém, ter escolhido uns poucos para a salvação e deixado todos os demais destinados à perdição? Foi a essa doutrina — a predestinação incondicional, com a sua contraparte, a reprovação — que Wesley respondeu em 1752. O título já anuncia o tom: nada de gritaria, mas um exame sereno. Ele cita com honestidade as próprias confissões calvinistas, reconhece o que há de verdadeiro na experiência da graça e, então, pergunta com calma se aquela conclusão faz justiça ao que a Escritura revela sobre o amor, a justiça e a sinceridade de Deus.
Este é o coração da nossa herança arminiana-wesleyana: Cristo morreu por todos, a graça é oferecida a todos e pode ser resistida, e a eleição de Deus leva em conta a fé. Um cuidado ao ler: afirmar que a graça é para todos não é dizer que todos serão salvos. Wesley não é universalista — ele insiste que a salvação é recebida pela fé, e que os que finalmente rejeitam a graça se perdem. Leia, pois, como uma súplica bíblica e serena em favor de um Deus cujo amor não exclui ninguém de antemão.
— Bispo Ildo Mello
1. Creio que muitos dos que hoje vivem a fé que age pelo amor conseguem lembrar de algum momento em que o poder do Altíssimo agiu sobre eles de forma marcante — quando a voz do Senhor abateu os montes, partiu as rochas e derramou com força o seu amor em seus corações, pelo Espírito Santo que lhes foi dado. Naquele instante, é certo, eles não tinham como resistir à graça de Deus. Deter aquela torrente que tudo arrastava estava tão fora do seu alcance quanto conter as ondas do mar com as mãos ou fazer o sol parar no meio do céu.
2. E os filhos de Deus podem perceber, o tempo todo, como o amor dele os conduz de fé em fé; com que ternura ele cuida de suas almas; com que carinho os traz de volta quando se desviam e depois firma os seus passos para que não escorreguem. Não há como não notar quão relutante ele é em deixá-los abandonar o seu serviço — e como, apesar da teimosia da vontade e do descontrole das paixões deles, ele segue na sua obra, vencendo e para vencer, até pôr todos os inimigos debaixo dos seus pés.
3. Quanto mais essa obra avança em seus corações, com mais fervor eles clamam: “Não a nós, Senhor, mas ao teu nome dá a glória, por amor da tua misericórdia e da tua verdade!” Convencem-se cada vez mais fundo de que é pela graça que somos salvos, e não por obras, para que ninguém se glorie; de que não somos perdoados e aceitos por Deus por causa de nada que tenhamos feito, mas única e exclusivamente por causa de Cristo — do que ele fez e sofreu por nós. E têm a mesma certeza de que a condição dessa aceitação é somente a fé, esse dom de Deus antes do qual nenhuma boa obra é possível — nenhuma que não traga em si a marca do pecado.
4. A partir daí, como é fácil um crente concluir, com base no que experimentou na própria alma, que a verdadeira graça de Deus sempre age de modo irresistível em todo crente! Que Deus há de levar até o fim a obra que começou, de modo que nenhum crente pode cair da graça! E, por fim, que a razão de Deus dar isso só a alguns, e não a outros, é esta: que, por sua própria vontade, sem levar em conta a fé nem as obras deles, ele os predestinou de forma absoluta e incondicional para a vida, antes mesmo da fundação do mundo!
5. Em sintonia com isso, a Confissão de Fé Protestante, redigida em Paris em 1559, diz o seguinte:
Cremos que, da corrupção e da condenação geral em que todos os homens estão mergulhados, Deus retira aqueles que, no seu conselho eterno e imutável, elegeu pela sua própria bondade e misericórdia, em nosso Senhor Jesus Cristo, sem considerar as suas obras, deixando os demais na mesma corrupção e condenação. (Artigo 12.)
6. No mesmo sentido falam os teólogos holandeses reunidos em Dort, em 1618:
Visto que, no correr do tempo, Deus concedeu a fé a uns e não a outros, isso procede do seu decreto eterno, pelo qual ele abranda o coração dos eleitos e deixa os não eleitos na sua maldade e dureza. É aqui que aparece a diferença posta entre homens igualmente perdidos: o decreto de eleição e de reprovação. A eleição é o decreto imutável de Deus pelo qual, antes da fundação do mundo, ele escolheu em Cristo, para a salvação, um número determinado de homens. (…) Nem todos são eleitos; a alguns Deus, no seu imutável beneplácito, decretou deixar na miséria comum, sem lhes conceder a fé salvadora, mas, abandonando-os aos seus próprios caminhos, ao fim condená-los e puni-los para sempre, pela sua incredulidade e pelos seus demais pecados. E este é o decreto da reprovação. (Artigo 6 e seguintes.)
7. A Confissão de Fé publicada pela Assembleia de teólogos ingleses e escoceses, em 1646, diz o mesmo:
Deus, desde toda a eternidade, ordenou de modo imutável tudo o que acontece. Pelo decreto de Deus, para a manifestação da sua glória, alguns homens e anjos estão predestinados para a vida eterna, e outros preordenados para a morte eterna. (…) Os que, dentre a humanidade, estão predestinados para a vida, Deus os escolheu em Cristo, antes da fundação do mundo, para a glória eterna, sem qualquer previsão de fé ou de boas obras. Quanto ao restante da humanidade, aprouve a Deus, para a glória do seu poder soberano sobre as criaturas, deixá-lo de lado e destiná-lo à desonra e à ira. (Capítulo 3.)
E não menos claras são as palavras de Calvino, nas suas Institutas: “Nem todos os homens são criados para o mesmo fim; uns são preordenados para a vida eterna, outros para a condenação eterna. Assim, conforme cada um foi criado para um destino ou para o outro, dizemos que foi eleito — isto é, predestinado para a vida — ou reprovado — isto é, predestinado para a condenação.” (Cap. 21, seç. 1.)
8. É verdade que há quem afirme o decreto de eleição, mas não o de reprovação: sustentam que Deus, por um decreto positivo e incondicional, escolheu alguns para a vida e a salvação, mas negam que ele tenha, por decreto semelhante, destinado o restante à perdição. É a esses que quero me dirigir primeiro. E rogo a vocês, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que elevem o coração a ele e lhe peçam que os livre de toda ideia preconcebida, dos preconceitos herdados desde a infância e de tudo o que possa impedir a luz de Deus de brilhar em suas almas. Pesemos estas coisas com calma e honestidade, na balança do santuário; e que tudo se faça em amor e na mansidão que vem da sabedoria, como convém a quem luta sob um só Capitão e humildemente espera ser, com ele, coerdeiro da glória que há de ser revelada. Estou convencido de que é com o coração sincero que vocês defendem o decreto da eleição incondicional — a mesma sinceridade com que rejeitam e abominam o da reprovação incondicional. Mas considerem, eu lhes peço, se são coerentes consigo mesmos; considerem se essa eleição pode existir separada da reprovação, se uma não implica a outra, de modo que, ao sustentar uma, vocês tenham de sustentar as duas.
9. Que este foi o juízo dos que mais a fundo pensaram sobre a natureza desses decretos — a Assembleia de teólogos ingleses e escoceses, as Igrejas Reformadas da França e dos Países Baixos, e o próprio Calvino — fica claro, sem qualquer margem para dúvida, pelas suas próprias palavras. “Da corrupção geral”, diz a Igreja Francesa, “ele retira aqueles que elegeu, deixando os demais na mesma corrupção, segundo o seu decreto inabalável.” “Pelo decreto de Deus”, dizem os teólogos ingleses e escoceses, “alguns estão predestinados para a vida eterna, outros preordenados para a morte eterna.” “Deus, de uma vez por todas”, diz Calvino, “determinou, por um decreto eterno e imutável, a quem daria a salvação e a quem destinaria à perdição.” E note-se: Calvino fala com absoluto desdém dos que tentam separar uma coisa da outra, afirmando a eleição sem a reprovação. “Muitos”, diz ele, “como que para desculpar a Deus, admitem a eleição e negam a reprovação. Mas isso é tolo e pueril. Pois a eleição não se sustenta sem a reprovação. A quem Deus deixa de lado, esse ele reprova. É uma e a mesma coisa.” (Institutas, l. 3, c. 23, seç. 1.)
10. Talvez, pensando melhor, você descubra que é dessa mesma opinião. É bem possível que você também creia na reprovação, sem se dar conta. Você não crê que Deus, tendo feito um vaso para honra, fez outro para desonra eterna? Não crê que os homens que transformam a graça do nosso Deus em libertinagem já haviam sido, de antemão, destinados por Deus a essa condenação? Não pensa que foi exatamente para isso que Deus levantou o Faraó — para mostrar o seu poder soberano na destruição dele? E que o “amei a Jacó, mas aborreci a Esaú” se refere ao destino eterno de ambos? Ora, então você crê, sim, na reprovação absoluta, e tem Esaú e o Faraó como exemplos dela, junto com todos aqueles vasos feitos para desonra, aqueles homens destinados de antemão à condenação.
11. Para deixar isso ainda mais claro, basta responder a uma pergunta: alguém que não seja eleito chega a ser salvo? É possível que alguém não eleito seja salvo? Se você responde que não, acabou a dúvida: você abraça, juntas, a eleição e a reprovação. Confirma as palavras de Calvino, de que, sem a reprovação, a própria eleição não se sustenta. Admite — ainda que antes não percebesse — que a quem Deus não elege, esse ele reprova. Veja se é possível, em algum caso concreto, separar uma da outra. Tome um daqueles que se supõe não eleitos, alguém a quem Deus não escolheu para a vida e a salvação. Pode esse homem ser salvo do pecado e do inferno? Você responde: não. Por quê? Porque não é eleito. Porque Deus decretou de forma imutável salvar um certo número de almas, e não mais, e ele não está entre elas. A esse Deus decretou deixar de lado, entregá-lo à destruição eterna — e, em consequência desse decreto irresistível, o homem se perde para sempre. Ah, irmãos, como é pequena a diferença entre isso e uma reprovação escancarada!
12. Deixe-me pedir que você tome esse caso como se fosse o seu. No meio da vida, estamos na morte; a sua alma está morta enquanto você vive, se vive no pecado, se não vive para Deus. E quem pode livrá-lo do corpo desta morte? Somente a graça de Deus em Jesus Cristo, nosso Senhor. Mas — segundo essa doutrina — Deus decretou dar essa graça apenas a outros, e não a você; deixá-lo na incredulidade e na morte espiritual e, por essa mesma incredulidade, puni-lo com a morte eterna. Bem podes então clamar, até a garganta secar: “Miserável homem que sou!” Pois um decreto imutável e irresistível se ergue entre ti e a simples possibilidade de salvação. Vai agora e descobre como cortar o fio de cabelo que separa “ser reprovado” de “não ser eleito”; como apartar a reprovação, no seu sentido mais efetivo, da eleição incondicional!
13. Reconheça, então, que você crê na reprovação. Assuma-o à luz do dia. Para ser coerente consigo mesmo, você tem de afirmar abertamente que, sem a reprovação, essa eleição não se sustenta. Você sabe que não se sustenta. Sabe que, se Deus fixou um decreto de que somente estes homens serão salvos, nesse decreto está claramente implícito que todos os demais serão condenados. Se Deus decretou que esta parte da humanidade, e não mais, viverá eternamente, você não pode deixar de ver que aí mesmo está decretado que a outra parte jamais verá a vida. Ah, sejamos honestos uns com os outros! O que de fato cremos, professemos abertamente. E, se a reprovação for a verdade, ela suportará a luz — pois a palavra do nosso Deus permanece para sempre.
14. Então, sem atenuar de um lado nem exagerar do outro, olhemos para esta doutrina — chame-a como quiser — nua e na sua cor natural. Antes de lançados os alicerces do mundo, Deus, por sua pura vontade e prazer, fixou um decreto a respeito de todos os seres humanos que viriam a nascer até o fim do mundo. Esse decreto era imutável da parte de Deus e irresistível da parte do homem. E nele ficou ordenado que uma parte da humanidade seria salva do pecado e do inferno, e todo o restante deixado para perecer para todo o sempre, sem socorro e sem esperança. Que nenhum desses recebesse a graça — a única capaz de livrá-los de habitar entre as chamas eternas — Deus decretou por esta única razão: porque assim lhe aprouve; e com este fim: mostrar o seu poder glorioso e a sua soberania sobre toda a terra.
15. Ora, refletindo bem, você consegue crer nisso? Talvez diga: “Não penso a respeito.” Isso não resolve. Você não só pensa a respeito (ainda que de forma confusa), como também fala a respeito, toda vez que fala de eleição incondicional. Não pensa nisso? Como assim? Nunca pensa em Esaú ou no Faraó? Ou, de modo geral, num certo número de almas que só a elas Deus decretou salvar? Pois é justamente nesse pensamento que a reprovação se esconde; ela entrou no seu coração no exato momento em que aquele entrou; fica enquanto aquele fica; e você não consegue enunciar aquele pensamento sem falar de reprovação. É verdade que ela vem coberta de folhas de figueira, de modo que um olhar desatento pode não percebê-la ali. Mas, se você observar com atenção, a eleição incondicional não aparece sem o pé fendido da reprovação.
16. Mas as Escrituras não falam de eleição? Dizem que Paulo era um vaso eleito, escolhido; e falam de grande número de pessoas como eleitas segundo a presciência de Deus. Não se pode, portanto, negar que exista algo chamado eleição. E, se existe, o que significa? Vou dizer com toda a clareza e simplicidade. Creio que costuma significar uma destas duas coisas. Primeira: a designação divina de certas pessoas para realizar determinada obra no mundo. Essa eleição eu tenho não só por pessoal, mas por absoluta e incondicional. Foi assim que Ciro foi eleito para reconstruir o templo, e Paulo, com os doze, para pregar o evangelho. Mas não encontro nisso nenhuma ligação necessária com a felicidade eterna. Aliás, é evidente que não há: pois quem é eleito nesse sentido ainda pode se perder eternamente. “Não vos escolhi a vós, os doze?”, diz o Senhor; e, no entanto, “um de vós é um diabo”. Judas, como se vê, foi eleito tanto quanto os demais; contudo, a sua sorte é com o diabo e os seus anjos.
17. Creio que eleição significa, em segundo lugar, a designação divina de certas pessoas para a felicidade eterna. Mas creio que essa eleição é condicional, tanto quanto a reprovação que se lhe opõe. O decreto eterno a respeito de ambas está, para mim, expresso naquelas palavras: “Quem crê será salvo; quem não crê será condenado.” E esse decreto, sem dúvida, Deus não mudará, e o homem não pode resistir. Segundo ele, todos os verdadeiros crentes são chamados de eleitos na Escritura, assim como todos os que persistem na incredulidade são, enquanto isso durar, propriamente reprovados — isto é, não aprovados por Deus e sem discernimento das coisas do Espírito.
18. Ora, Deus, para quem tudo está presente ao mesmo tempo, que vê toda a eternidade num só olhar, chama as coisas que não são como se já fossem; as que ainda não existem, como se já existissem. Foi assim que chamou Abraão de pai de muitas nações antes mesmo de Isaque nascer. E assim Cristo é chamado o Cordeiro morto desde a fundação do mundo, embora, de fato, só tenha sido morto milhares de anos depois. Do mesmo modo, Deus chama os verdadeiros crentes de eleitos desde a fundação do mundo, embora só viessem a ser, de fato, eleitos ou crentes muitas eras mais tarde, cada um na sua geração. Foi só então que passaram a ser, de fato, eleitos: quando se tornaram filhos de Deus pela fé. Então é que foram, realmente, escolhidos e tirados do mundo — eleitos, diz Paulo, “mediante a fé na verdade”; ou, como diz Pedro, “eleitos segundo a presciência de Deus, na santificação do Espírito”.
19. Nessa eleição eu creio tão firmemente quanto creio que a Escritura vem de Deus. Mas a eleição incondicional eu não posso crer — não só porque não a encontro na Escritura, mas também (deixando de lado todo o resto) porque ela implica necessariamente a reprovação incondicional. Mostre-me uma eleição que não implique reprovação, e de bom grado a aceitarei. À reprovação, porém, jamais poderei consentir, enquanto crer que a Escritura é de Deus, pois ela é de todo irreconciliável com o sentido e o teor tanto do Antigo como do Novo Testamento. Ah, quisera Deus conceder-me o desejo do meu coração: que a sua mente estivesse agora livre, calma e aberta à luz do seu Espírito! Considere sem parcialidade como é possível conciliar a reprovação com os seguintes textos.
“Porque deste ouvidos à tua mulher e comeste da árvore de que eu te ordenara que não comesses, no suor do rosto comerás o teu pão” (Gn 3.17): a maldição vem sobre ti e sobre a tua descendência, não por causa de algum decreto absoluto meu, mas por causa do teu pecado. “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, porém, não procederes bem, o pecado jaz à porta” (Gn 4.7): só o pecado, não o decreto de reprovação, impede que sejas aceito. “Sabe que o Senhor, teu Deus, é Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos, e que retribui na face aos que o odeiam, para os destruir. Se, pois, ouvirdes estes juízos, e os guardardes, e os cumprirdes, o Senhor, teu Deus, te guardará a aliança que jurou a teus pais” (Dt 7.9,12). “Eis que hoje ponho diante de vós a bênção e a maldição: a bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus; e a maldição, se não obedecerdes” (Dt 11.26-28). “Vê que hoje ponho diante de ti a vida e o bem, a morte e o mal… escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Dt 30.15ss). “O Senhor está convosco, enquanto estais com ele; se o buscardes, ele se deixará achar; se o deixardes, ele vos deixará” (2Cr 15.1,2). “Depois de tudo o que nos sobreveio por causa das nossas más obras… tornaríamos nós a violar os teus mandamentos…? Não te indignarias tu contra nós até de todo nos consumires?” (Ed 9.13,14). “Eis que Deus é poderoso e a ninguém despreza” (Jó 36.5) — poderia então reprovar alguém? “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” (Sl 145.9).
“Convertei-vos pela minha repreensão; eis que derramarei sobre vós o meu Espírito. Visto que eu clamei, e recusastes; estendi a mão, e não houve quem desse atenção… também eu me rirei na vossa desgraça… Então clamarão a mim, mas eu não responderei; de madrugada me buscarão, mas não me acharão” (Pv 1.23ss). Por quê? Por causa do meu decreto? Não; mas “porque aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor”. “Estendi as mãos o dia todo a um povo rebelde, que anda por caminho não bom… Todos vos encurvareis à matança, porque, quando chamei, não respondestes” (Is 65.2ss). “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará (eternamente) a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o Senhor. Não desejo antes que ele se converta dos seus caminhos e viva?” (Ez 18.20,23). “Todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia” (Mt 7.26): ora, ele não teve como evitá-lo, se para isso fora destinado. “Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com pano de saco e cinza” (Mt 11.20ss). E se não eram eleitas? E se os de Betsaida tivessem sido eleitos, não se teriam arrependido também? “Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão, porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Mt 12.41): mas de que valeria isso, se os de Nínive fossem eleitos e esta geração não? “A vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não. Pois ao que tem (isto é, usa o que tem) se lhe dará… mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado” (Mt 13.11,12). Os convidados “não eram dignos” (Mt 22.8) e foram excluídos das bodas do Cordeiro. Por quê? Porque “não quiseram vir” (Mt 22.3). O capítulo 25 inteiro de Mateus pede — e recompensará — a sua consideração mais séria. Se você conseguir conciliar a reprovação incondicional com ele, conseguirá conciliá-la com Ezequiel 18. “O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram (ou escolheram) mais as trevas do que a luz” (Jo 3.19). “Como podeis crer, vós que aceitais glória uns dos outros e não buscais a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). Observe a razão por que não podiam crer: não está em Deus, mas neles mesmos. “O teu dinheiro pereça contigo!… Tu não tens parte nem sorte neste ministério, porque o teu coração não é reto diante de Deus. Arrepende-te, pois, dessa tua maldade e roga ao Senhor para que, se possível, te seja perdoado o pensamento do teu coração” (At 8.20ss): de modo que Pedro não fazia a menor ideia de uma reprovação absoluta, nem no caso de Simão, o mágico. “São indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus… por isso, Deus os entregou à imundícia… pois eles mudaram a verdade de Deus em mentira… por causa disso, Deus os entregou a paixões infames… e, como não se importaram em reconhecer a Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm 1.20ss). “Os que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. E por isso Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos os que não creram na verdade; antes, tiveram prazer na injustiça” (2Ts 2.10ss).
20. Como conciliar a reprovação com os textos que declaram a vontade de Deus de que todos sejam salvos? “A tantos quantos encontrardes, convidai para as bodas” (Mt 22.9). “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). “Quando chegou perto e viu a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah, se reconhecesses também tu, ao menos neste dia, o que é para a tua paz!” (Lc 19.41ss). “Digo estas coisas para que sejais salvos” (Jo 5.34) — e ele o diz aos que o perseguiam e procuravam matá-lo (v.16), de quem se queixa: “Não quereis vir a mim para terdes vida” (v.40). “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há… a todos concede vida, respiração e tudo mais; e de um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da terra… para que buscassem a Deus” (At 17.24ss). Note: este foi o propósito de Deus ao criar todas as nações. “Assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para a condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida” (Rm 5.18). “O mesmo é o Senhor de todos, rico (em misericórdia) para com todos os que o invocam” (Rm 10.12). “Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2.3,4). “Que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos que creem” (1Tm 4.10) — isto é, intencionalmente de todos, e efetivamente dos que creem. “Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a todos concede liberalmente e nada lhes lança em rosto” (Tg 1.5). “O Senhor é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). “Nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o Filho para ser o Salvador do mundo” (1Jo 4.14).
21. E como conciliar a reprovação com os textos que declaram que Cristo veio salvar todos, que morreu por todos, que expiou por todos — inclusive pelos que ao fim se perdem? “O Filho do Homem veio salvar o que estava perdido” (Mt 18.11), sem restrição alguma. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). “Deus enviou o seu Filho ao mundo para que o mundo fosse salvo por ele” (Jo 3.17). “Eu não vim (agora) para julgar o mundo, e sim para salvar o mundo” (Jo 12.47). “Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu” (Rm 14.15). “Por causa do teu conhecimento, perece o irmão fraco, por quem Cristo morreu” (1Co 8.11). “Julgamos assim: que um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu” (2Co 5.14ss). Aqui você vê não só que Cristo morreu por todos, mas também o fim para que morreu por eles. “Cristo Jesus, que a si mesmo se deu em resgate por todos” (1Tm 2.6). “Vemos aquele que, feito por um pouco menor que os anjos, isto é, Jesus, provou a morte em favor de todos” (Hb 2.9). “Haverá também entre vós falsos mestres, que introduzirão dissimuladamente heresias destruidoras, negando até o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2Pe 2.1). Veja: ele comprou, resgatou, até os que perecem, os que trazem sobre si mesmos repentina destruição. “Se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados (nós, os eleitos segundo o conhecimento de Deus) e não somente pelos nossos, mas também pelos do mundo inteiro” (1Jo 2.1,2). Você bem percebe que estes são apenas uma pequena parte dos textos que se poderiam apresentar em cada um desses pontos. Mas bastam, e não pedem comentário: tomados no seu sentido claro, simples e óbvio, provam à saciedade que não há — nem pode haver — nada como uma reprovação incondicional.
22. Mas sejamos um pouco mais precisos. Como você poderia conciliar a reprovação com os textos que declaram a justiça de Deus? Cito um por todos: “Que quereis dizer com este provérbio, que se usa em Israel: os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; tanto a alma do pai como a do filho me pertencem; (e por mais que eu visite temporalmente os pecados dos pais nos filhos, esta visitação não vai além disso; mas) a alma que pecar, essa morrerá — pelo seu próprio pecado, e não pelo de outrem. Se um homem é justo e pratica o que é reto e justo… certamente viverá, diz o Senhor Deus. Se, porém, gerar um filho ladrão… este viverá? Não viverá… certamente morrerá. Contudo, vós dizeis: Por quê? Não leva o filho a iniquidade do pai? (Temporalmente leva, como no caso de Acã, de Corá e de mil outros; mas não eternamente.) Quando o filho pratica o que é reto e justo… certamente viverá. A alma que pecar, essa morrerá — morrerá a segunda morte. O filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre ele. Todavia, vós dizeis: O caminho do Senhor não é reto. Ouvi agora, ó casa de Israel: acaso, não é reto o meu caminho? Não são os vossos caminhos que são tortuosos? Desviando-se o justo da sua justiça e cometendo iniquidade, morrerá por ela. E, convertendo-se o perverso da sua perversidade e praticando o que é reto e justo, conservará em vida a sua alma. Portanto, eu vos julgarei, cada um conforme os seus caminhos, ó casa de Israel, diz o Senhor Deus. Convertei-vos e afastai-vos de todas as vossas transgressões, e a iniquidade não vos servirá de tropeço” (Ez 18.2ss). Em toda essa passagem, Deus se digna apelar ao próprio homem quanto à justiça do seu proceder. E bem pode apelar à nossa consciência, segundo o relato que aqui se dá — um relato que toda a arte humana jamais conseguirá conciliar com a reprovação incondicional.
23. Você pensa que desata o nó dizendo: “Ora, se Deus poderia com justiça ter passado por cima de todos os homens (fale claro: se Deus poderia com justiça ter reprovado todos os homens — pois dá no mesmo), então pode com justiça passar por cima de alguns; mas Deus poderia com justiça ter passado por cima de todos”? Tem certeza de que poderia? Onde está escrito? Não o encontro na palavra de Deus. Por isso o rejeito como uma afirmação ousada e sem fundamento, de todo desamparada pela Escritura. Se você disser: “Mas você sabe, na sua própria consciência, que Deus poderia com justiça ter passado por cima de você” — eu nego. Que Deus poderia, com justiça, por minha infidelidade à sua graça, ter-me abandonado há muito tempo, isso eu concedo; mas essa concessão pressupõe que eu tive aquela graça que, segundo você, o reprovado nunca teve. Além disso, ao fazer essa suposição sobre o que Deus poderia com justiça ter feito, você supõe que a justiça dele poderia estar separada dos seus demais atributos, em particular da sua misericórdia. Mas isso nunca foi, nem jamais será, nem sequer é possível que seja. Todos os seus atributos estão indissoluvelmente unidos; não podem ser separados, nem por um instante. Portanto, todo esse argumento se apoia numa suposição não só antibíblica, mas absurda e impossível.
24. Você dirá: “Não; mas é justo que Deus passe por cima de quem quiser, por causa da sua soberania; pois ele mesmo diz: Não me é lícito fazer o que quero do que é meu? E: Não tem o oleiro poder sobre o barro?” Respondo: a primeira dessas frases está na conclusão daquela parábola (Mt 20) em que o Senhor repreende os judeus por murmurarem contra Deus por dar aos gentios a mesma recompensa que a eles. É a um desses murmuradores que Deus diz: “Amigo, não te faço injustiça. Toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar a este último tanto quanto a ti.” E então: “Não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” Como se dissesse: Não posso dar o meu próprio reino a quem me apraz? Ficas irritado porque sou misericordioso? É, pois, inegavelmente claro que Deus não afirma aqui um direito de reprovar homem algum. Nada se fala aqui de reprovação, nem para o bem nem para o mal; não há a menor referência a ela. Este texto, portanto, nada tem a ver com a conclusão que se quis provar com ele.
25. Mas você acrescenta: “Não tem o oleiro poder sobre o barro?” Consideremos também o contexto dessas palavras. Elas estão no capítulo nono da Epístola aos Romanos — carta cujo propósito e intenção gerais são anunciar o eterno e imutável decreto de Deus: “Quem crê será salvo; quem não crê será condenado.” A justiça de Deus em condenar os que não creram, e a necessidade de crer para a salvação, o apóstolo prova largamente nos três primeiros capítulos, e a confirma no quarto pelo exemplo de Abraão. Na primeira parte do quinto e no sexto, descreve a felicidade e a santidade dos verdadeiros crentes. (A parte final do quinto é uma digressão sobre a extensão dos benefícios que fluem da morte de Cristo.) No sétimo, mostra em que sentido os que creem em Cristo estão livres da lei, e descreve a miserável escravidão dos que ainda estão debaixo dela — isto é, dos que estão de fato convictos do pecado, mas incapazes de vencê-lo. No oitavo, descreve de novo a feliz liberdade dos que verdadeiramente creem em Cristo e os anima a sofrer pela fé, entre outras razões, por esta em especial: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados (pela pregação da sua palavra) segundo o seu propósito” (v.28) — ou decreto, imutavelmente fixado desde a eternidade: “Quem crê será salvo.” “Porque os que de antemão conheceu (como crentes), também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho. E aos que predestinou, a esses também chamou, pela sua palavra; e aos que chamou, a esses também justificou (tomando aqui o termo no seu sentido mais amplo, incluindo também a santificação); e aos que justificou, a esses também glorificou.” Do fim desse capítulo em diante, ele anima fortemente todos aqueles em cujos corações o amor de Deus foi derramado a manter a boa esperança de que nenhum sofrimento jamais poderá separá-los do amor de Deus que está em Cristo Jesus.
26. Mas, como o apóstolo sabia quão profundamente os judeus se ofendiam com todo o teor da sua doutrina — e especialmente por ele afirmar (1) que os próprios judeus não podiam ser salvos sem crer em Jesus, e (2) que os gentios, crendo nele, podiam participar da mesma salvação —, ele lhes dedica o capítulo nono inteiro. Nele: (1) declara o terno amor que tinha por eles (v.1-3); (2) reconhece os grandes privilégios nacionais de que gozavam acima de qualquer povo debaixo do céu (v.4,5); (3) responde à grande objeção que faziam à sua doutrina, tirada da justiça de Deus para com os seus pais (v.6-13); (4) remove outra objeção, também tirada da justiça de Deus, entremeando o tempo todo fortes repreensões aos judeus por se orgulharem de privilégios que se deviam unicamente ao bom prazer de Deus, e não à bondade dos seus pais, tampouco à sua própria (v.14-23); (5) retoma e prova pela Escritura a sua afirmação anterior, de que muitos judeus se perderiam e muitos gentios seriam salvos (v.24-29); e, por fim, resume o sentido geral deste capítulo e, na verdade, de toda a epístola. “Que diremos, pois?” Qual é a conclusão de tudo, o resumo de tudo o que se disse? Que muitos gentios já participam da grande salvação e muitos judeus a perdem. Por quê? Porque não a quiseram receber pela fé. E quem não crê não pode ser salvo; ao passo que todo o que crê em Cristo, seja judeu, seja gentio, não será envergonhado (v.30-33).
27. As palavras “não tem o oleiro poder sobre o barro?” fazem parte da resposta de Paulo àquela objeção: a de que seria injusto Deus mostrar aos gentios a misericórdia que negava ao seu próprio povo. Primeiro ele simplesmente a nega, dizendo: “De modo nenhum!” Depois observa que, segundo as suas próprias palavras a Moisés, Deus tem o direito de fixar as condições sob as quais mostrará misericórdia — condições que nem a vontade nem o poder do homem podem alterar (Rm 9.15,16) — e de retirar a sua misericórdia dos que, como o Faraó, não se sujeitam a elas (Rm 9.17). E assim ele tem misericórdia de quem quer ter misericórdia, a saber, dos que verdadeiramente creem; e a quem quer, isto é, aos incrédulos obstinados, permite que se endureçam.
28. “Mas então”, dizem os objetores, “por que se queixa ele ainda dos que se endurecem? Pois quem resistiu à sua vontade?” (Rm 9.19). A essa distorção insolente do que dissera, o apóstolo primeiro dá uma severa repreensão; e então acrescenta: “Porventura, a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Por que me fizeste capaz de salvação apenas nessas condições?” Ninguém, de fato, resistiu a esta vontade de Deus: “Quem não crê será condenado.” Mas será isso motivo para acusar a sua justiça? Não tem o grande Oleiro poder sobre o seu barro para fazer, ou destinar, um tipo de vasos — a saber, os crentes — para honra, e os outros para desonra? Não tem ele o direito de distribuir honra e desonra eternas nas condições que lhe aprouver? Sobretudo, considerando a bondade e a paciência que mostra até para com os que não creem; considerando que, mesmo quando o provocaram a mostrar a sua ira e a dar a conhecer o poder da sua vingança, ainda assim ele suporta, com muita longanimidade, até aqueles vasos de ira que a si mesmos se prepararam para a destruição. Não há, pois, mais razão para replicar contra Deus por dar a conhecer a sua justiça sobre esses vasos de ira do que por dar a conhecer o seu amor glorioso sobre os vasos de misericórdia que de antemão preparou, pela fé, para a glória — a nós, a quem chamou não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios.
29. Falei mais longamente do que pretendia, para mostrar que nem o Senhor, na parábola já mencionada, nem Paulo, nestas palavras, tinham em vista o poder soberano de Deus como fundamento de uma reprovação incondicional. E cuide de não ir, nesse ponto, além do que eles autorizam. Toda vez que falar dessas coisas elevadas, procure falar como os oráculos de Deus. E, se assim fizer, jamais falará da soberania de Deus a não ser em conjunto com os seus demais atributos. Pois a Escritura em parte alguma fala desse atributo isolado, separado dos outros. Muito menos fala, em qualquer lugar, da soberania de Deus como se ela, sozinha, dispusesse do destino eterno dos homens. Não, não; nessa obra tremenda, Deus procede segundo as regras conhecidas da sua justiça e da sua misericórdia, mas nunca aponta a sua soberania como a causa de alguém ser punido com a destruição eterna.
30. Ora, então, você não está inteiramente fora do caminho? Não está na vereda que Deus revelou. Você põe a felicidade e a desgraça eternas sobre um fundamento antibíblico e apavorante. Tome o caso como seu: eis você, um pecador, convencido de que merece a condenação do inferno. A tristeza e o medo, por isso, encheram o seu coração. E como será consolado? Pelas promessas de Deus? Mas talvez você não tenha parte nelas, pois pertencem só aos eleitos. Pela consideração do seu amor e da sua terna misericórdia? Mas que são esses para você, se é um reprovado? Deus não o ama de modo algum; a você, como a Esaú, ele odiou desde a eternidade. Que fundamento, então, pode você ter para a menor sombra de esperança? Ora, é possível (é só o que resta) que a vontade soberana de Deus esteja do seu lado. Talvez Deus o salve, porque quer! Ah, que pobre alento para pecadores desesperados! Receio que a fé raramente venha por se ouvir algo assim.
31. A soberania de Deus, portanto, nunca deve ser trazida para passar por cima da sua justiça. E é esta a objeção contra a reprovação incondicional (consequência óbvia da eleição incondicional): ela contradiz de frente — na verdade, destrói por completo — o relato bíblico da justiça de Deus. Isso já ficou provado em geral; pesemos agora alguns pontos. Primeiro: a Escritura descreve Deus como o Juiz da terra. Mas como julgará Deus o mundo com justiça (ah, considere isto como na presença de Deus, com reverência e santo temor!), se houver algum decreto de reprovação? Nessa suposição, por que seriam condenados os que estão à sua esquerda? Por terem feito o mal? Não podiam evitá-lo. Nunca houve um momento em que pudessem. Deus, você diz, desde a antiguidade os destinou a essa condenação. E quem resistiu à sua vontade? Ele os entregou, você diz, à maldade, desde o ventre materno; entregou-os a uma mente reprovada antes mesmo de se apegarem ao peito da mãe. Irá ele, então, condená-los pelo que não podiam evitar? Irá o Justo, o Santo de Israel, sentenciar milhões de homens à dor eterna porque o sangue lhes corria nas veias? É verdade que isso eles poderiam ter evitado, pondo fim à própria vida. Mas teriam, assim, escapado do pecado? Não, sem aquela graça que — segundo você supõe — Deus determinara em absoluto jamais lhes conceder. E, no entanto, você o imagina lançando-os ao fogo eterno por não escaparem do pecado! Isto é, em bom português, por não terem a graça que Deus decretara que nunca teriam! Ah, estranha justiça! Que retrato você faz do Juiz de toda a terra!
32. Ou não serão antes condenados por não fazerem o bem, segundo aquelas palavras solenes do grande Juiz: “Apartai-vos de mim, malditos… porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber; sendo forasteiro, não me hospedastes; nu, e não me vestistes; enfermo e preso, e não me visitastes”? (Mt 25.41ss). “Então eles responderão.” Mas que resposta bem melhor você põe na boca deles! Segundo a sua suposição, não poderiam eles dizer (ah, pondere bem isto, com mansidão e temor): “Senhor, poderíamos ter feito a obra exterior; mas tu sabes que ela só teria aumentado a nossa condenação. Poderíamos ter alimentado o faminto, dado de beber ao sedento e vestido o nu. Mas todas essas obras, sem a tua graça especial — que nunca tivemos, nem podíamos ter, visto que decretaste desde a eternidade negá-la a nós —, não passariam de pecados reluzentes. Só teriam aquecido a fornalha do inferno sete vezes mais. Justo és tu, ó Senhor; ainda assim, deixa-nos discutir contigo. Ó, por que nos condenas por não fazer o bem? Era possível a nós fazer algo bom? Alguma vez abusamos do poder de fazer o bem? Nunca o recebemos, e tu o sabes. Irás tu, o Santo, o Justo, condenar-nos por não fazer o que nunca tivemos poder de fazer? Condenar-nos por não derrubar as estrelas do céu, por não segurar os ventos no punho? Pois era-nos tão possível fazer isto quanto qualquer obra aceitável aos teus olhos! Ó Senhor, corrige-nos, mas com juízo! E, antes de nos lançares no fogo eterno, deixa-nos saber como jamais nos foi possível escapar da condenação do inferno.”
33. Ou como poderiam eles ter escapado — suponha que você aponte isto como causa da condenação — do pecado interior, dos maus desejos, das disposições ímpias e dos afetos vis? Alguma vez foram capazes de livrar a própria alma, de se resgatar desse inferno interior? Se fossem, então o não fazê-lo poderia com justiça ser-lhes imputado, e os deixaria sem desculpa. Mas não era assim: nunca foram capazes de livrar a própria alma, nunca tiveram o poder de se resgatar das mãos desses inimigos do próprio peito. Esse talento nunca lhes foi posto nas mãos. Como, então, podem ser condenados por escondê-lo na terra, por não aproveitarem o que nunca tiveram? Quem é capaz de purificar um coração corrompido, de tirar o limpo do imundo? Será o homem, o mero homem, suficiente para isso? Não, certamente. Só Deus. Só a ele pode o de coração poluído dizer: “Senhor, se quiseres, podes purificar-me.” Mas, e se ele responder: “Não quero, porque não quero; continua imundo”? Irá Deus sentenciar esse homem ao abismo por causa de uma impureza da qual ele não podia salvar-se, e da qual Deus poderia tê-lo salvado, mas não quis? Em verdade, se um rei terreno executasse tal justiça sobre os seus súditos indefesos, seria de esperar que a vingança do Senhor logo o varresse da face da terra.
34. Talvez você diga: eles não são condenados pelo pecado atual, mas pelo pecado original. Que entende por esse termo? A corrupção interior da nossa natureza? Se é isso, já se falou dela antes. Ou você quer dizer o pecado que Adão cometeu no paraíso? Que este é imputado a todos os homens, admito; sim, e que, por causa dele, toda a criação geme e está em dores de parto até agora. Mas que alguém venha a ser condenado apenas por isto, não admito, enquanto não me mostrar onde está escrito. Traga-me prova clara da Escritura, e eu me submeto; até lá, porém, nego-o por completo.
35. Não deveria você antes dizer que a incredulidade é o pecado que condena? E que os que forem condenados naquele dia o serão porque não creram no nome do Filho unigênito de Deus? Mas podiam eles crer? Não era essa fé, ao mesmo tempo, dom e obra de Deus na alma? E não era um dom que ele decretara, desde a eternidade, nunca lhes conceder? Não era uma obra que ele, desde a antiguidade, imutavelmente determinara nunca realizar na alma deles? Serão esses homens condenados porque Deus não quis agir — porque não receberam o que Deus não quis dar? Poderiam eles soltar-se da mão direita dele, ou forçar a onipotência?
36. Há, ainda por cima, uma dificuldade peculiar aqui. Você diz que Cristo não morreu por esses homens. Mas, se é assim, era impossível, pela própria natureza da coisa, que jamais cressem para a salvação. Pois o que é a fé salvadora senão a confiança em Deus, por meio de Cristo, “que me amou e a si mesmo se entregou por mim”? Amou a ti, reprovado? Entregou-se por ti? Fora! Tu não tens nem parte nem sorte nisto. Tu, crer em Cristo — tu, espírito amaldiçoado, condenado antes mesmo de nasceres! Nunca houve objeto para a tua fé; nunca houve nada em que pudesses crer. O próprio Deus (assim você tem de falar, para ser coerente consigo mesmo), com toda a sua onipotência, não poderia fazer-te crer que Cristo expiou os teus pecados, a não ser que te fizesse crer numa mentira.
37. Se, pois, Deus é justo, no seu esquema não pode haver juízo vindouro. E podemos acrescentar: nem qualquer estado futuro, de recompensa ou de castigo. Pois, se tal estado existe, nele Deus retribuirá a cada um segundo as suas obras: “aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade, a vida eterna; mas, aos que não obedecem à verdade e obedecem à injustiça, indignação e ira, tribulação e angústia sobre toda alma humana que pratica o mal” (Rm 2.7ss). Mas como conciliar isto com o seu esquema? Você diz que o reprovado não pode senão fazer o mal, e que o eleito, a partir do dia do poder de Deus, não pode senão perseverar em bem fazer. Você supõe tudo isso imutavelmente decretado, de modo que Deus age de forma irresistível sobre um, e Satanás sobre o outro. Então é impossível a qualquer dos dois deixar de agir como age — ou melhor, deixar de ser movido do modo como é. Pois, falando com propriedade, nem de um nem de outro se pode dizer que age. Pode-se dizer que uma pedra age quando é atirada da funda? Ou uma bala, quando é lançada por um canhão? Tampouco se pode dizer que um homem age, se apenas é movido por uma força a que não pode resistir. Mas, se é assim, você não deixa lugar nem para recompensa nem para castigo. Será a pedra recompensada por subir da funda, ou castigada por cair? Será a bala recompensada por voar em direção ao sol, ou castigada por afastar-se dele? Tão incapaz de castigo ou de recompensa é o homem que se supõe impelido por uma força a que não pode resistir. A justiça não tem lugar em recompensar ou castigar meras máquinas, jogadas de um lado para outro por uma força externa. De modo que a sua suposição de que Deus ordenou desde a eternidade tudo o que se faria até o fim do mundo — assim como a de que Deus age irresistivelmente nos eleitos, e Satanás nos reprovados — destrói por completo a doutrina bíblica das recompensas e dos castigos, e também a de um juízo vindouro.
38. Vê-se como essa eleição que implica reprovação mal se ajusta ao relato bíblico da justiça de Deus. E ajusta-se melhor à sua verdade? Como você a conciliará com estas passagens tão claras? “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o Senhor Deus. Não desejo antes que ele se converta dos seus caminhos e viva? Lançai de vós todas as vossas transgressões… Por que morrereis, ó casa de Israel? Pois não tenho prazer na morte de ninguém que morre, diz o Senhor Deus; convertei-vos, pois, e vivei” (Ez 18.23ss). “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que ele se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que morrereis, ó casa de Israel?” (Ez 33.11).
39. Mas talvez você diga: esses textos devem ser limitados e explicados por outras passagens da Escritura, nas quais esta doutrina é afirmada tão claramente quanto aqui é negada. Respondo com toda a franqueza: se isso fosse verdade, teríamos de abandonar todas as Escrituras juntas, e os incrédulos não concederiam à Bíblia sequer o título, ainda que honroso, de “fábula engenhosamente inventada”. Mas não é verdade. Não tem sombra de verdade. É absoluta e notoriamente falso. Para arrancar pela raiz a reprovação, e todas as doutrinas que necessariamente se ligam a ela, Deus declara na sua palavra estas três coisas, e de modo explícito, com todas as letras: primeiro, “Cristo morreu por todos” (2Co 5.14) — a saber, por todos os que estavam mortos no pecado, como fixam o sentido as palavras seguintes; eis o fato afirmado. Segundo, “ele é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro” (1Jo 2.2), até de todos aqueles por quem morreu; eis a consequência de ter morrido por todos. E terceiro, “morreu por todos para que não vivessem mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu” (2Co 5.15), para que fossem salvos dos seus pecados; eis o propósito, o fim de ter morrido por eles. Agora, mostre-me os textos em que Deus declara, em termos igualmente expressos, que Cristo não morreu por todos, mas só por alguns; que Cristo não é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro; e que ele não morreu por todos, ao menos não com a intenção de que vivessem para aquele que por eles morreu. Mostre-me, digo, os textos que afirmem essas três coisas em termos igualmente expressos. Você sabe que não há nenhum. Nem é possível escapar à força dos que acima citei, a não ser suprindo em número o que falta em peso — amontoando uma porção de textos (embora nenhum deles atinja o ponto), com que os defensores dessa opinião ofuscam os olhos dos incautos e sobrecarregam o entendimento tanto de si mesmos quanto dos que os ouvem.
40. Prossigamos. Que ideia dá esta doutrina da sinceridade de Deus em mil declarações como estas? “Quem dera tivessem eles tal coração que me temessem e guardassem todos os meus mandamentos em todo o tempo, para que bem lhes fosse a eles e a seus filhos para sempre!” (Dt 5.29). “Mas o meu povo não me quis ouvir, e Israel não me obedeceu. Por isso, eu os entreguei à dureza do seu coração, para que andassem segundo os seus próprios conselhos. Ah, se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos! Em breve eu abateria os seus inimigos e voltaria a mão contra os seus adversários” (Sl 81.11ss). E, todo esse tempo, você supõe que Deus tinha imutavelmente ordenado que nunca houvesse tal coração neles — que jamais fosse possível ao povo sobre quem ele assim parecia lamentar-se escutá-lo ou andar nos seus caminhos! Como é claro e forte o raciocínio do Dr. Watts neste ponto: “É deveras muito difícil defender a sinceridade do bendito Deus, ou do seu Filho, nas suas ofertas universais de graça e salvação aos homens, e no envio de ministros com tais mensagens e convites para aceitar a misericórdia, se não houver ao menos um perdão e uma salvação condicionais providos para eles. Os seus ministros, é verdade, como não conhecem o desfecho das coisas, podem ser sinceros ao oferecer a salvação a todos, segundo a sua comissão geral: ‘Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.’ Mas como podem Deus ou Cristo ser sinceros ao enviá-los com essa comissão, para oferecer a sua graça a todos, se Deus não proveu tal graça para todos, nem sequer condicionalmente? É difícil supor que o grande Deus, que é a própria verdade e fiel em todos os seus atos, chame os homens que morrem a confiar num Salvador para a vida eterna, quando esse Salvador não tem a vida eterna a ele confiada para dar-lhes, caso façam o que ele exige. É difícil conceber como o grande Governador do mundo possa ser sincero ao convidar pecadores, que estão à beira do inferno, a lançar-se sobre uma palavra vazia de convite, mera sombra e aparência de sustento, se não há nada de real para ampará-los — nada senão palavras e convites vazios.”
41. O nosso bendito Senhor, sem sombra de dúvida, ordena e convida “todos os homens, em toda parte, a que se arrependam” (At 17.30). Ele chama a todos. Envia os seus embaixadores, em seu nome, “a pregar o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Ele mesmo “pregou liberdade aos cativos” (Lc 4.18), sem a menor insinuação de restrição ou limite. Mas, agora, de que maneira você o representa enquanto ele realiza essa obra? Você o imagina de pé, à porta da prisão, com as chaves na mão, convidando sem cessar os presos a saírem, ordenando-lhes que aceitem o convite, insistindo com todo motivo capaz de induzi-los a obedecer, juntando as mais preciosas promessas se obedecerem e as mais terríveis ameaças se não obedecerem — e, todo esse tempo, você o imagina inabalavelmente resolvido, dentro de si, a jamais abrir-lhes as portas! Isto enquanto ele brada: “Vinde, vinde, saí desse lugar mau; pois por que morrereis, ó casa de Israel?” “Por quê?”, poderia responder um deles. “Porque não temos como. Não podemos ajudar a nós mesmos, e tu não nos ajudas. Não está em nosso poder quebrar as portas de bronze, e não é do teu agrado abri-las. Por que morreremos? Havemos de morrer, porque não é da tua vontade salvar-nos.” Ai, meus irmãos, que espécie de sinceridade é essa que vocês atribuem a Deus, nosso Salvador?
42. Tão mal se ajustam a eleição e a reprovação à verdade e à sinceridade de Deus! Mas não se ajustam ainda pior ao relato bíblico do seu amor e da sua bondade — aquele atributo que Deus reivindica de modo tão especial, no qual se gloria acima de todos os outros? Não está escrito “Deus é justiça”, nem “Deus é verdade” (embora seja justo e verdadeiro em todos os seus caminhos), mas está escrito “Deus é amor” (1Jo 4.8) — amor em estado puro, sem limites; e não há fim para a sua bondade. O seu amor alcança até os que não o amam nem o temem. Ele é bom até para com os maus e ingratos; sim, sem exceção nem limite, para com todos os filhos dos homens. Pois “o Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras” (Sl 145.9). Mas como é Deus bom, ou amoroso, para com um reprovado, ou para com quem não é eleito? (Escolha o termo que quiser: pois, se só os eleitos incondicionais se salvam, dá exatamente no mesmo.) Você não pode dizer que é objeto do amor ou da bondade de Deus, quanto ao seu estado eterno, aquele que Deus criou — como diz Calvino, com todas as letras — in vitae contumeliam et mortis exitium, “para viver como um opróbrio e morrer eternamente”. Certamente ninguém pode imaginar que a bondade de Deus tenha algo a ver com o estado eterno desse homem. “Ainda assim, Deus é bom para com ele neste mundo.” Como? Se, por causa do decreto imutável de Deus, teria sido melhor para esse homem nunca ter nascido, se o seu próprio nascimento foi uma maldição, e não uma bênção? “Bem, mas ele desfruta agora de muitos dons de Deus, da natureza e da providência. Tem alimento e roupa e confortos de vários tipos. E não são grandes bênçãos?” Não, para ele não são. Pelo preço que terá de pagar por elas, cada uma é também uma maldição. Cada um desses confortos, por um decreto eterno, há de custar-lhe mil tormentos no inferno. Por cada instante de prazer que agora desfruta, ele há de sofrer os tormentos de mais de mil anos — pois a fumaça daquele poço que se lhe prepara sobe para todo o sempre. Deus sabia que este seria o fruto de tudo o que ele viesse a desfrutar, antes que o vapor da vida se dissipasse. E assim o quis. Foi esse mesmo o seu propósito ao lhe dar tais gozos. De modo que, com tudo isso (segundo o seu relato), ele está, na verdade, apenas cevando o boi para o matadouro. “Mas Deus lhe dá também graça.” Sim; mas que espécie de graça? Graça salvadora, você admite, ele não tem nenhuma. E a graça comum que tem não lhe foi dada com o intuito de salvar-lhe a alma, nem de lhe fazer bem algum, mas só para refreá-lo de prejudicar os eleitos. Longe de lhe fazer bem, essa graça também aumenta necessariamente a sua condenação. “E Deus sabe disso”, você diz, “e assim o quis; foi um dos grandes fins para os quais a deu!” Então eu quero saber: como é Deus bom, ou amoroso, para com esse homem, quer no tempo, quer na eternidade?
43. Tomemos um caso concreto. Eis aqui um homem reprovado desde toda a eternidade — ou, se você prefere dizê-lo de modo mais suave, alguém que não é eleito, a quem Deus decretou eternamente passar por cima. Nada tens, portanto, a esperar de Deus depois da morte, senão ser lançado no lago de fogo que arde com enxofre, tendo Deus consignado ao inferno a tua alma ainda não nascida, por um decreto irrevogável. E, desde o instante em que nasceste sob essa maldição, não podes ter paz; pois “não há paz para os perversos”, e é assim que estás condenado a permanecer, desde o ventre de tua mãe. Por isso, Deus te dá dos bens deste mundo de propósito para agravar a tua condenação. Dá-te agora bens ou amigos a fim de, mais tarde, amontoar mais brasas sobre a tua cabeça. Farta-te de alimento, engorda-te e faz-te de boa aparência, para fazer de ti um sacrifício mais vistoso à sua vingança. Bom caráter, generosidade, boa inteligência, saber variado, talvez eloquência — são as flores com que ele te adorna, pobre vítima, antes de te levar ao matadouro. Tens graça também! Mas que graça? Não a graça salvadora; essa não é para ti, mas só para os eleitos. A tua bem poderia chamar-se graça que condena, pois é assim não só no efeito, mas na intenção. Recebeste-a de Deus para esse mesmo fim: para que recebesses a condenação maior. Foi-te dada não para converter-te, mas só para convencer-te; não para te deixar sem pecado, mas sem desculpa; não para destruir, mas para armar o verme que nunca morre e atiçar o fogo que jamais se apagará.
44. Agora, peço-lhe que considere com calma: como é Deus bom, ou amoroso, para com esse homem? Não é este um amor que gela o sangue, que faz retinir os ouvidos de quem o escuta? E você pode crer que exista, na terra ou no inferno, um só homem capaz de dizer a Deus com verdade: “Assim me fizeste”? Pode pensar que o Deus amoroso e misericordioso alguma vez tratou assim uma alma que ele mesmo formou? Mas você tem de crer nisto, e crê, se crê na eleição incondicional; pois ela traz a reprovação no seu seio, e jamais estiveram — jamais poderão estar — separadas. Faça, pois, a sua escolha. Se, por amor à eleição, você engolir a reprovação, muito bem. Mas, se não consegue digeri-la, terá necessariamente de abrir mão da eleição incondicional.
45. Mas você não pode fazer isso, pois então seria chamado de pelagiano, de arminiano, e sabe-se lá o que mais. E você tem medo de nomes feios? Então ainda não começou a ser discípulo de Jesus Cristo. Não; não é esse o caso. Você teme, isto sim, que, se não sustentar a eleição, terá de sustentar o livre-arbítrio e, assim, roubar de Deus a glória da salvação do homem. Respondo: primeiro, muitos dos maiores defensores da eleição negam por completo essa consequência e não admitem que sequer o livre-arbítrio natural no homem seja incompatível com a glória de Deus. Afirmam, ao contrário, que todo homem vivo tem uma medida de livre-arbítrio natural. É o que diz a Assembleia de teólogos (e, com ela, o grosso dos calvinistas da Inglaterra e da Escócia): “Deus dotou a vontade do homem daquela liberdade natural que não é forçada nem, por uma necessidade absoluta da natureza, determinada a fazer o bem ou o mal” (Capítulo 9). E isso eles afirmam do homem já no seu estado decaído, antes mesmo de receber a graça de Deus. Segundo: eu, porém, não levo o livre-arbítrio tão longe (refiro-me às coisas morais). O livre-arbítrio natural, no estado atual da humanidade, eu não o reconheço; apenas afirmo que há uma medida de livre-arbítrio sobrenaturalmente restituída a todo homem, junto com aquela luz sobrenatural “que ilumina todo homem que vem ao mundo” (Jo 1.9). Mas, na verdade, seja isso natural ou não, para a sua objeção pouco importa; pois ela vale igualmente contra ambos, contra qualquer livre-arbítrio de qualquer espécie. A sua tese é esta: se o homem tem algum livre-arbítrio, Deus não pode ter toda a glória da sua salvação; ou: não serve tanto à glória de Deus salvar o homem como agente livre, posto em condição de concorrer com a graça, de um lado, e de resistir-lhe, de outro, quanto salvá-lo como agente necessário, por um poder ao qual ele não pode de modo algum resistir.
46. Quanto à primeira dessas afirmações — “se o homem tem algum livre-arbítrio, então Deus não pode ter toda a glória da sua salvação” —, é isto o que você quer dizer: se o homem tem algum poder de operar a própria salvação, então Deus não pode ter toda a glória? Se é isso, tenho de perguntar de novo: que entende por Deus ter toda a glória? Quer dizer que ele faz a obra inteira, sem qualquer concurso da parte do homem? Se é assim, a sua afirmação é: se o homem coopera de algum modo com Deus na obra da própria salvação, então Deus não faz a obra inteira sem que o homem coopere com ele. Verdadeiríssimo, certíssimo. Mas você não consegue ver como, ainda assim, Deus pode ter toda a glória? Ora, o próprio poder de cooperar com ele veio de Deus. Portanto, a ele é toda a glória. A própria experiência não lhe ensinou isso? Você não sentiu, muitas vezes, numa dada tentação, o poder tanto de resistir quanto de ceder à graça de Deus? E, quando cedeu, para cooperar com ele, não achou perfeitamente possível, ainda assim, dar-lhe toda a glória? De modo que tanto a experiência quanto a Escritura estão aqui contra você, e deixam claro a todo investigador imparcial que, embora o homem tenha liberdade para cooperar ou não com Deus, ainda assim Deus pode ter toda a glória da sua salvação.
47. Se, então, você diz: “Atribuímos só a Deus toda a glória da nossa salvação” — respondo: nós também. Se acrescenta: “Não; afirmamos que só Deus faz a obra inteira, sem que o homem coopere em nada” — num certo sentido, também admitimos isto. Admitimos que é obra só de Deus justificar, santificar e glorificar, e essas três coisas abrangem toda a salvação. Contudo, não podemos admitir que o homem só possa resistir e de modo algum cooperar com Deus; nem que Deus seja de tal modo o único operador da nossa salvação que exclua toda cooperação do homem. Isto eu não ouso dizer, pois não o posso provar pela Escritura; ao contrário, é frontalmente contrário a ela. Pois a Escritura é expressa: que (tendo recebido poder de Deus) devemos operar a nossa própria salvação (Fp 2.12); e que (depois de começada em nós a obra de Deus) somos cooperadores dele (2Co 6.1).
48. A sua objeção, posta de outra forma, é esta: “Não serve tanto à glória de Deus salvar o homem como agente livre, posto em condição de concorrer com a sua graça ou resistir-lhe, quanto salvá-lo como agente necessário, por um poder ao qual ele não pode de modo algum resistir.” Ah, quisera o Senhor responder por si mesmo! Que se levantasse e defendesse a sua própria causa! Que não mais permitisse que os seus servos, tão poucos como são, enfraquecessem as mãos uns dos outros e se cansassem não só com a contradição dos pecadores, mas até com a dos que, em certa medida, estão salvos do pecado! Ai de mim, que sou forçado a habitar em Meseque, entre os inimigos da paz! Trabalho pela paz; mas, quando falo dela, eles se preparam para a guerra (Sl 120.5ss).
49. Se assim tem de ser, então, olhemo-nos face a face. Em que serve mais à glória de Deus salvar o homem de modo irresistível do que salvá-lo como agente livre, por uma graça a que ele pode concorrer ou resistir? Receio que você tenha uma noção confusa e antibíblica da glória de Deus. Que entende por essa expressão? A glória de Deus, a rigor, é a sua gloriosa essência e os seus atributos, que existem desde a eternidade. E essa glória não admite acréscimo, sendo a mesma ontem, hoje e para sempre. Mas a Escritura muitas vezes fala da glória de Deus num sentido um pouco diferente, entendendo por ela a manifestação da sua glória essencial, do seu eterno poder e divindade, e dos seus gloriosos atributos — em especial da sua justiça, misericórdia e verdade. E é só nesse sentido que se diz que o homem promove a glória de Deus. Ora, este é o ponto que cabe a você provar: que manifesta mais claramente os gloriosos atributos de Deus — sobretudo a sua justiça, a sua misericórdia e a sua verdade — salvar o homem de modo irresistível do que salvá-lo por uma graça que está em seu poder tanto acatar quanto resistir.
50. Mas não imagine que eu seja tão insensato a ponto de discutir com você apenas esse ponto. Não vou agora disputar (embora se pudesse) se a salvação por graça irresistível — que de fato torna o homem uma simples máquina e, por consequência, incapaz de recompensa ou de castigo — manifesta, considerada à parte das suas consequências, mais ou menos a glória de Deus do que a salvação por uma graça a que se pode resistir. Não é isso; com a ajuda de Deus, tomarei todo o seu esquema em conjunto: graça irresistível para os eleitos, o que implica negar a graça salvadora a todos os demais; ou seja, eleição incondicional com a sua companheira inseparável, a reprovação incondicional. O caso é claramente este: você pode forçar-me, de um lado, a menos que eu me contradiga ou renegue os meus princípios, a admitir uma medida de livre-arbítrio em todo homem (embora não por natureza, como a Assembleia de teólogos); e eu posso forçá-lo, e a todo defensor da eleição incondicional, a menos que se contradiga ou renegue os seus princípios, a admitir a reprovação incondicional. Ponham-se, pois, frente a frente: o livre-arbítrio de um lado, a reprovação do outro; e vejamos qual é mais defensável — o esquema acompanhado do que você tem por absurdo, o livre-arbítrio, ou o esquema acompanhado do absurdo da reprovação. Vejamos (se aprouver ao Pai das luzes abrir os olhos do nosso entendimento) qual dos dois serve mais à glória de Deus, à exibição dos seus gloriosos atributos, à manifestação da sua sabedoria, justiça e misericórdia aos filhos dos homens.
51. Primeiro, a sua sabedoria. Se o homem é, em certa medida, livre; se, por aquela luz que ilumina todo homem que vem ao mundo (Jo 1.9), se põem diante dele a vida e a morte, o bem e o mal — então quão gloriosamente aparece a multiforme sabedoria de Deus em toda a economia da salvação do homem! Querendo que todos sejam salvos, mas não querendo forçá-los; querendo que os homens se salvem, mas não como árvores ou pedras, e sim como homens, criaturas racionais dotadas de entendimento para discernir o bem e de liberdade para aceitá-lo ou recusá-lo — como ele ajusta todo o plano das suas dispensações a esse seu propósito, ao conselho da sua vontade! O primeiro passo é iluminar o entendimento por aquele conhecimento geral do bem e do mal. A isso acrescenta muitas repreensões secretas, se agem contra essa luz; muitas convicções interiores, que não há homem na terra que não tenha sentido muitas vezes. Outras vezes, move suavemente a vontade, atrai e como que corteja os homens a andar na luz. Instila nos corações bons desejos, ainda que talvez não saibam de onde vêm. Até aqui ele procede com todos os filhos dos homens, sim, até com os que não têm o conhecimento da sua palavra escrita. Mas nisto, que campo de sabedoria se descortina, supondo o homem em algum grau um agente livre! Como cada parte se ajusta a este fim: salvar o homem como homem; pôr diante dele a vida e a morte, e então persuadi-lo (não forçá-lo) a escolher a vida. Segundo esse grande propósito de Deus, primeiro se lhe apresenta uma regra perfeita, para servir de lâmpada aos seus pés e de luz em todas as suas veredas. Ela lhe é oferecida em forma de lei, reforçada com as mais fortes sanções: as mais gloriosas recompensas para os que obedecem, as mais severas penas para os que a transgridem. Para reconduzir os transgressores, Deus usa toda sorte de meios; tenta cada acesso da alma. Ora apela ao entendimento, mostrando-lhes a insensatez dos seus pecados; ora aos afetos, ternamente queixando-se da ingratidão deles, e até condescendendo em perguntar: “Que mais poderia eu ter feito por vós (sem contrariar o meu propósito eterno de não vos forçar) que não fiz?” Entremeia ora ameaças — “Se não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis” (Lc 13.3) —, ora promessas — “Dos vossos pecados e das vossas iniquidades não me lembrarei mais” (Hb 8.12). Ora, que sabedoria se vê em tudo isto, se o homem pode de fato escolher a vida ou a morte! Mas, se todo homem é imutavelmente consignado ao céu ou ao inferno antes de sair do ventre materno, onde está a sabedoria de tratá-lo, em tudo, como se fosse livre, quando não o é? De que serve, de que pode servir toda essa dispensação de Deus a um reprovado? Que são promessas ou ameaças, apelos ou repreensões para ti, tição do inferno? Que são, na verdade (ah, meus irmãos, deixem-me falar, pois estou cheio de assunto!), senão farsa vazia, mera encenação, palavras que soam e nada significam? Ah, onde está (deixando de lado agora toda outra consideração) a sabedoria de tal proceder? A que fim serve todo esse aparato? Se você disser: “Para garantir a sua condenação” — ai, que necessidade havia disso, se ela já estava garantida desde a fundação do mundo? Julgue, pois, toda a humanidade qual dos dois relatos serve mais à glória da sabedoria de Deus!
52. Passemos à sua justiça. Ora, se o homem é capaz de escolher o bem ou o mal, então é objeto próprio da justiça de Deus, que absolve ou condena, recompensa ou castiga. Do contrário, não é. Uma simples máquina não pode ser absolvida nem condenada. A justiça não pode punir uma pedra por cair ao chão; nem, no seu esquema, um homem por cair no pecado. Pois ele não pode evitá-lo, tanto quanto a pedra, se está (no seu sentido) preordenado a essa condenação. Por que esse homem peca? Não pode deixar de pecar. Por que não pode deixar de pecar? Porque não tem graça salvadora. Por que não tem graça salvadora? Porque Deus, por seu próprio beneplácito, decretou eternamente não lha dar. Está ele, então, sob uma inevitável necessidade de pecar? Sim, tanto quanto a pedra de cair. Nunca teve mais poder de deixar o mal do que a pedra tem de flutuar no ar. E há de esse homem, por não fazer o que nunca pôde fazer, e por fazer o que nunca pôde evitar, ser sentenciado a ir para o fogo eterno, preparado para o diabo e os seus anjos? Sim, porque é a vontade soberana de Deus. Então você achou um novo Deus, ou fabricou um! Este não é o Deus dos cristãos. O nosso Deus é justo em todos os seus caminhos; não colhe onde não semeou. Só exige conforme o que deu; e, onde deu pouco, pouco se exige. A glória da sua justiça está nisto: recompensar cada um segundo as suas obras. Assim se mostra esse atributo glorioso, posto em evidência diante de homens e anjos, pois cada um é aceito conforme o que tem, e não conforme o que não tem. Este é o justo decreto que não pode ser mudado, nem no tempo nem na eternidade. Assim, um esquema dá à justiça de Deus toda a sua amplitude, deixa-a mostrar-se largamente em todos os seus ramos; o outro a reduz a mera sombra — sim, a nada absolutamente.
53. Igualmente “gloriosa” é a maneira como ela exibe o seu amor — supondo-o fixado num em cada dez das suas criaturas (não deveria eu antes dizer: num em cada cem?) e sem qualquer consideração pelos demais. Que pereçam sem misericórdia os noventa e nove reprovados; basta-lhe amar e salvar o único eleito. Mas por que terá misericórdia só destes e deixará todos aqueles à destruição inevitável? Porque quer — porque quer! Ah, quisera Deus conceder a vocês, que assim falam, a mansidão da sabedoria! Então eu perguntaria: que diria a voz unânime da humanidade a respeito do homem que agisse assim — que, podendo livrar milhões da morte com um só sopro da boca, se recusasse a salvar mais que um em cem, e dissesse: “Não quero, porque não quero!”? Como, então, você exalta a misericórdia de Deus, ao atribuir-lhe tal proceder? Que estranho comentário é este à sua própria palavra, de que “a sua misericórdia está sobre todas as suas obras”! Pensa fugir disso dizendo que a misericórdia dele mais se manifesta em salvar irresistivelmente os eleitos do que em dar a todos a possibilidade da salvação e a salvação efetiva aos que a aceitassem? Como assim? Prove-o, se puder. Apelo a toda mente imparcial: não é obviamente verdade o contrário? Não seria a misericórdia de Deus bem menos gloriosamente manifesta em salvar uns poucos pelo seu poder irresistível, deixando todo o resto sem socorro e sem esperança, a perecer para sempre, do que em oferecer a salvação a toda criatura, salvar de fato todos os que consentem e fazer pelos demais tudo o que a sabedoria infinita, o poder onipotente e o amor sem limites podem fazer, sem forçá-los a ser salvos — o que seria destruir a própria natureza que lhes deu? Apelo, digo, a toda mente imparcial, e à sua própria, se não estiver de todo cega pelo preconceito: qual dos dois relatos põe a misericórdia de Deus sob a luz mais favorável?
54. Talvez você diga: mas há outros atributos de Deus, a saber, a sua soberania, imutabilidade e fidelidade. Espero que você não os negue. Respondo: não, de modo algum. A soberania de Deus aparece: primeiro, em fixar desde a eternidade aquele decreto a respeito dos filhos dos homens — “Quem crê será salvo; quem não crê será condenado”; segundo, em todas as circunstâncias gerais da criação — no tempo, no lugar, no modo de criar todas as coisas, em determinar o número e as espécies de criaturas, visíveis e invisíveis; terceiro, em repartir os dotes naturais dos homens, estes a um, aqueles a outro; quarto, em dispor o tempo, o lugar e as demais circunstâncias externas (pais, parentes) que cercam o nascimento de cada um; quinto, em distribuir os vários dons do seu Espírito, para a edificação da sua Igreja; sexto, em ordenar todas as coisas temporais — saúde, fortuna, amigos, tudo aquém da eternidade. Mas, ao dispor os estados eternos dos homens (ressalvado apenas o que se observou no primeiro item), é claro que não é a soberania sozinha, mas a justiça, a misericórdia e a verdade que seguram as rédeas. O Governador do céu e da terra, o EU SOU, Deus sobre todos, bendito para sempre, não dá aqui passo algum senão como estas o dirigem e lhe preparam o caminho diante da face. Esta é a sua vontade eterna e irresistível, como no-la revelou pelo seu Espírito, declarando nos termos mais fortes, ajuntando o juramento à palavra e, porque não podia jurar por outro maior, jurando por si mesmo: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte de quem morre.” A morte de quem morre jamais poderá ser atribuída ao seu prazer ou à sua vontade soberana. Não; é impossível. Desafiamos toda a humanidade a trazer uma só prova bíblica clara do contrário. Você não pode trazer prova bíblica de que Deus alguma vez agiu, nem afirmação de que agirá, como mero soberano ao condenar eternamente qualquer alma que já tenha nascido ou venha a nascer no mundo.
55. Ora, você provavelmente está pensando em Esaú e no Faraó. Você toma então como verdade indiscutível que estes foram eternamente condenados pela mera vontade soberana de Deus? Tem certeza de que foram eternamente condenados? Nem sequer esse ponto é de todo certo. Não se afirma isso em parte alguma das Escrituras, e você teria trabalho para prová-lo. É verdade que a morte do Faraó foi um castigo de Deus; mas daí não se segue que tenha sido punido para sempre. E, se foi, não o foi pela mera vontade soberana de Deus, mas por causa da sua própria obstinação e impenitência. Disso Moisés nos dá relato detalhado. Assim lemos: “Vendo Faraó que havia trégua (depois de livre da praga das rãs), endureceu o coração e não lhes deu ouvidos” (Êx 8.15). Depois da praga das moscas: “Também desta vez endureceu Faraó o coração e não deixou ir o povo” (Êx 8.32). De novo: “Vendo Faraó que a chuva e a saraiva haviam cessado, tornou a pecar e endureceu o coração, ele e os seus servos” (Êx 9.34). Depois que Deus lhe deu todo esse tempo para se arrepender, e o interpelou pela sua obstinada impenitência com aquelas palavras solenes — “Até quando recusarás humilhar-te diante de mim?” (Êx 10.3) —, que admira que Deus então endurecesse o coração dele, isto é, permitisse que Satanás o endurecesse? Que admira que por fim retirasse de todo a sua graça amolecedora e o entregasse a uma mente reprovada?
56. O caso de Esaú é bem diferente, embora a sua conduta também seja repreensível em vários pontos. O primeiro foi vender o direito de primogenitura a Jacó (Gn 25.31ss). O seguinte, casar-se contra o consentimento do pai (Gn 26.34,35). Mas é bem provável que se tenha dado conta da sua falta, pois Isaque parece ter-se plenamente reconciliado com ele quando disse: “Meu filho, faze-me uma comida saborosa, para que a minha alma te abençoe antes que eu morra” (Gn 27.4). Nos versículos seguintes temos o relato de como foi suplantado pelo irmão Jacó. Ao ouvir isso de Isaque, “Esaú exclamou com grande e mui amargo brado e disse a seu pai: Abençoa-me também a mim, meu pai!” (Gn 27.34). Mas “não achou lugar de arrependimento”, diz o apóstolo, para recuperar a bênção, ainda que a buscasse com lágrimas (Hb 12.17). “Teu irmão”, disse Isaque, “tomou a tua bênção; eu o abençoei, e ele será abençoado.” De modo que toda a tristeza e as lágrimas de Esaú não puderam recuperar a primogenitura, nem a bênção a ela ligada. E, no entanto, há boas razões para esperar que Esaú (tanto quanto Jacó) esteja agora no seio de Abraão. Pois, embora por um tempo tenha odiado a Jacó, e depois viesse contra ele com quatrocentos homens, muito provavelmente com o intento de vingança, contudo, quando se encontraram, “Esaú correu-lhe ao encontro, e o abraçou, e, lançando-se-lhe ao pescoço, o beijou”. Tão a fundo Deus lhe havia mudado o coração! E por que duvidaríamos de que essa feliz mudança tenha perdurado?
57. Você não pode fundar objeção sólida contra isso nas palavras de Paulo aos Romanos: “Foi-lhe dito: O mais velho servirá ao mais moço; como está escrito: Amei a Jacó, mas aborreci a Esaú” (Rm 9.12,13). Pois é inegavelmente claro que ambas as passagens se referem, não às pessoas de Jacó e Esaú, mas aos seus descendentes: os israelitas, descendentes de Jacó, e os edomitas, descendentes de Esaú. Só nesse sentido é que o mais velho (Esaú) serviu ao mais moço — não em pessoa (pois Esaú nunca serviu a Jacó), mas na sua posteridade. A descendência do irmão mais velho serviu à descendência do mais moço. O outro texto a que o apóstolo se refere diz assim: “Amei a Jacó e aborreci a Esaú, e fiz dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto” (Ml 1.2,3). De quem era a herança que Deus assolou? Não a que Esaú desfrutou pessoalmente, mas a da sua posteridade, os edomitas, pelos seus enormes pecados, largamente descritos por vários dos profetas. Também aqui, portanto, não há exemplo algum de homem finalmente condenado pela mera vontade soberana de Deus.
58. Também admitimos a imutabilidade de Deus. “Nele não há mudança nem sombra de variação” (Tg 1.17). Mas você parece estar em erro também quanto a isto, por não observar o que a Escritura diz a respeito. A Escritura ensina, primeiro, que Deus é imutável quanto aos seus decretos. Mas que decretos? Os mesmos que ele mandou pregar a toda criatura: “Quem crê será salvo; quem não crê será condenado.” Ensina, segundo, que Deus é imutável quanto ao seu amor e ao seu ódio. Mas como? Observe bem isto, pois é o seu grande engano, e a raiz de quase todos os demais. Deus imutavelmente ama a justiça e odeia a iniquidade. Imutavelmente ama a fé e imutavelmente odeia a incredulidade. Por consequência, ama imutavelmente os justos e odeia os que praticam a iniquidade; ama imutavelmente os que creem e odeia os incrédulos voluntários e obstinados. De modo que o que a Escritura diz da imutabilidade de Deus quanto aos seus decretos é isto: ele decretou imutavelmente salvar os crentes santos e condenar os incrédulos obstinados e impenitentes. E, segundo a Escritura, a imutabilidade do seu afeto diz respeito, própria e primariamente, a disposições, e não a pessoas; e às pessoas (como Enoque, Noé, Abraão) apenas na medida em que essas disposições nelas se encontram. Ponha-se, pois, a imutabilidade de Deus sobre o pé certo; deixe-se a Escritura fixar os seus objetos, e ela provará a transubstanciação tão depressa quanto a eleição incondicional.
59. A fidelidade de Deus pode ser tida como um ramo da sua verdade. Ele cumprirá o que prometeu. Mas indaguemos dos oráculos de Deus: a quem foram feitas as promessas — as promessas de vida e imortalidade? A resposta é: a Abraão e à sua descendência, isto é, aos que andam nas pegadas daquela fé do seu pai Abraão. É aos que creem, como crentes, que se fazem as promessas do evangelho. A estes o Deus fiel se comprometeu a fazer o que disse. Ele cumprirá a sua aliança e a promessa que fez até mil gerações — cujo resumo é (como o declara expressamente o Espírito de Deus): “O Senhor dará graça (mais graça) e glória; e nenhum bem sonegará aos que vivem uma vida piedosa” (Sl 84.11).
60. Esta aliança de Deus eu entendo; mas ouvi falar de outra que não entendo. Ouvi dizer que Deus Pai fez uma aliança com o seu Filho, antes de o mundo existir, na qual o Filho concordou em sofrer tais e tais coisas, e o Pai em dar-lhe tais e tais almas como recompensa; que, por consequência disso, essas almas têm de ser salvas — só essas —, de modo que todas as demais têm de ser condenadas. Rogo-lhe: onde está isso escrito? Em que parte da Escritura se acha essa aliança? Bem poderíamos esperar que uma coisa de tal peso fosse revelada de modo bem expresso, com a máxima clareza e solenidade. Mas onde isso é feito? E, se não é feito, se não há tal relato em toda a Bíblia, com que mais nos havemos de admirar: de que algum homem sério proponha, ou de que milhares creiam, afirmação tão estranha, sem um só texto claro da Escritura que a sustente, de Gênesis ao Apocalipse?
61. Suponho que você não imagine que a simples palavra “aliança”, por mais vezes que ocorra na Escritura, seja prova de uma aliança como essa. A grande aliança que admitimos ali mencionada é uma aliança entre Deus e o homem, estabelecida nas mãos de um Mediador que “provou a morte por todos” e, assim, a adquiriu para todos os filhos dos homens. O seu teor (já tantas vezes mencionado) é este: “Todo o que crer até o fim, de modo a mostrar a sua fé pelas obras, eu, o Senhor, recompensarei eternamente essa alma. Mas todo o que não quiser crer e, por consequência, morrer nos seus pecados, eu o punirei com destruição eterna.”
62. Para examinar a fundo se esta aliança entre Deus e o homem é incondicional ou condicional, talvez seja preciso recuar até Abraão, o pai dos fiéis, e indagar que espécie de aliança foi a que Deus fez com ele, e se se aponta alguma razão para Deus abençoar de modo tão especial a Abraão, e a todas as nações da terra nele. A primeira menção da aliança entre Deus e ele está em Gênesis 15.18: “Naquele mesmo dia, fez o Senhor aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência dei esta terra.” Mas isso é relatado de modo bem mais explícito em Gênesis 17.1ss: “Apareceu o Senhor a Abrão e lhe disse: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito. Farei aliança entre mim e ti e te multiplicarei sobremaneira… Eis que a minha aliança é contigo, e serás pai de multidão de nações. Não te chamarás mais Abrão, mas Abraão será o teu nome… Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti e a tua descendência depois de ti, aliança perpétua, para ser o teu Deus e da tua descendência. Todo macho entre vós será circuncidado; isto será o sinal da aliança entre mim e vós. O incircunciso será eliminado; violou a minha aliança.” Vemos, pois, que esta aliança original, embora perpétua, era condicional, e a falha do homem na condição isentava a Deus.
63. Temos o relato que Paulo faz dessa aliança de Deus com Abraão no capítulo quarto da Carta aos Romanos (v.3ss): “Abraão”, diz ele, “creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça.” (Isto se deu um pouco antes de Deus estabelecer com ele a sua aliança, e está relatado em Gênesis 15.6.) “E recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que teve quando ainda incircunciso, para que fosse pai de todos os que creem, mesmo não sendo circuncidados, a fim de que também a eles a justiça fosse imputada; e pai da circuncisão para aqueles que não somente são circuncidados, mas também andam nas pegadas daquela fé que teve o nosso pai Abraão quando ainda incircunciso.” Ora, se estas palavras não exprimem uma aliança condicional, então nenhuma o faz.
64. A natureza e o fundamento dessa aliança de Deus com Abraão são explicados mais adiante: “Disse o Senhor: Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, visto que nele serão benditas todas as nações da terra? Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e à sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor, para praticarem a justiça e o juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que a seu respeito tem falado” (Gn 18.17ss). Diz Deus aqui “eu o farei porque quero”? Nada disso. A razão é apontada explicitamente: todas as nações serão benditas nele, porque ordenará a seus filhos, e eles guardarão o caminho do Senhor. A razão é posta ainda mais claramente no capítulo 22 (v.16ss): “Por mim mesmo jurei, diz o Senhor, porquanto fizeste isto e não me negaste o teu filho, o teu único filho, que deveras te abençoarei… e, na tua descendência, serão benditas todas as nações da terra” — isto é, o Messias virá de ti — “porquanto obedeceste à minha voz.” E ainda outra vez: “Apareceu o Senhor a Isaque e disse: Habita nesta terra, e serei contigo e te abençoarei… porque Abraão obedeceu à minha voz e guardou os meus mandados, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis” (Gn 26.2ss).
65. Essa aliança, feita a Abraão e à sua descendência, é mencionada de novo: “Chamou o Senhor a Moisés e disse: Assim falarás à casa de Jacó e anunciarás aos filhos de Israel: Vistes o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de águias e vos trouxe a mim. Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos” (Êx 19.3ss). No capítulo seguinte, Deus declara os termos da aliança que deviam guardar, nos dez mandamentos. E estes mesmos são chamados ora “a aliança”, ora “o livro da aliança”. Assim, depois que Deus acabou de falar ao povo, diz-se: “Moisés escreveu todas as palavras do Senhor e… tomou o livro da aliança e o leu diante do povo; e disseram: Tudo o que o Senhor falou faremos. Tomou Moisés o sangue (do holocausto), e o aspergiu sobre o povo, e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco a respeito de todas estas palavras” (Êx 24.4ss). Depois que o povo quebrou essa aliança adorando o bezerro de ouro, Deus a renova em Êxodo 34: “Disse o Senhor a Moisés: Escreve estas palavras, porque, segundo o teor destas palavras, fiz aliança contigo e com Israel… e escreveu nas tábuas as palavras da aliança, os dez mandamentos” (Êx 34.27,28).
66. Segundo o teor dessa aliança, feita a Abraão e à sua descendência, Deus depois declara: “Se andardes nos meus estatutos, e guardardes os meus mandamentos, e os cumprirdes, então estabelecerei a minha aliança convosco, e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. Mas, se não me ouvirdes, e não cumprirdes todos estes mandamentos, e violardes a minha aliança, então porei o meu rosto contra vós, e vingarei a quebra da aliança. Contudo, se confessarem a sua iniquidade e se humilhar o seu coração incircunciso, então me lembrarei da minha aliança com Jacó, e também da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão me lembrarei” (Lv 26.3ss). Por consequência, a aliança com Abraão, Isaque e Jacó era condicional, tanto quanto a que foi feita com a sua posteridade.
67. Mas não está a fidelidade de Deus comprometida a guardar de cair todos os que agora creem? Não posso afirmá-lo. Por maior que seja a certeza que Deus dê a determinadas almas, não encontro nas Escrituras promessa geral de que ninguém que uma vez creu venha a cair definitivamente. E, na verdade, esta é uma opinião tão agradável, tão do gosto da carne e do sangue, tão conforme ao que de natureza resta nos que provaram a graça de Deus, que não vejo senão o poderoso poder de Deus capaz de impedir quem a ouve de aderir a ela. Mas ainda lhe falta uma coisa para recomendá-la: uma prova bíblica clara e cogente. Argumentos tirados só da experiência jamais decidirão este ponto. Podem provar, quando muito, de um lado, que o nosso Senhor é sobremaneira paciente, particularmente avesso a que qualquer crente se perca; que suporta com longuíssima paciência todas as loucuras deles, esperando o momento de ser gracioso e de curar-lhes o desvio; e que de fato traz de volta muitas ovelhas perdidas que, ao juízo dos homens, pareciam irrecuperáveis. Mas nada disso equivale a prova convincente de que nenhum crente possa cair, ou caia, da graça. De modo que esse argumento, tirado da experiência, pesará pouco para os que creem na possibilidade de cair; e pesará tão pouco quanto para os que não creem. Pois, se você apresentar quantos exemplos quiser dos que um dia foram fortes na fé e agora estão mais perdidos do que nunca, eles escaparão dizendo: “Ah, mas hão de ser trazidos de volta; não morrerão nos seus pecados.” E, se de fato morrem nos seus pecados, nem assim avançamos, pois é fácil dizer: “Eram apenas hipócritas; nunca tiveram fé verdadeira.” Portanto, só a Escritura pode decidir esta questão; e a Escritura a decide tão plenamente que basta citar uns poucos textos, com breves reflexões sobre eles.
68. Que um verdadeiro crente — ou seja, alguém que é santo e justo aos olhos do próprio Deus — pode, ainda assim, cair definitivamente da graça, fica claro, primeiro, pela palavra de Deus por meio de Ezequiel: “Mas, desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo iniquidade… na sua iniquidade que cometeu morrerá” (Ez 18.24). Você objeta que este capítulo diz respeito única e exclusivamente à igreja e à nação judaicas? Respondo: prove isso. Enquanto não o provar, continuarei acreditando que muitas de suas partes dizem respeito a toda a humanidade. E se você disser que a justiça ali mencionada era apenas uma justiça exterior, sem princípio interior de graça ou santidade, pergunto: como conciliar isso com o versículo 31 — “Lançai de vós todas as vossas transgressões… e criai em vós um coração novo e um espírito novo”? Isso é uma justiça meramente exterior, sem nenhum princípio interior de graça ou santidade?
69. Você ainda acrescenta que, mesmo admitindo que o homem de quem se fala seja de fato justo, o que ali se diz é apenas uma suposição? Isso eu nego categoricamente. Releia o capítulo: verá que os fatos ali expostos não são meramente supostos, mas expressamente afirmados. E que a morte ali mencionada é a morte eterna fica claro no versículo 26: “Desviando-se o justo da sua justiça, e cometendo iniquidade, morrerá por ela” — eis a morte eterna. Se você insistir que as duas expressões significam a mesma coisa, e não duas mortes distintas, estará forçando o texto de modo palpável, obrigando o Espírito Santo a dizer um absurdo. Morrer “na” sua iniquidade, dizem, é o mesmo que morrer “por causa” dela. Então o texto diria: “Quando morrer nelas, morrerá nelas.” Que descoberta profunda! Mas você diz que não se pode entender como morte eterna, pois dela poderiam ser livres pelo arrependimento. E por que não poderiam, por um arrependimento como o do versículo 31, ser livres da morte eterna? Todo homem imparcial pensará o contrário do que você supõe, se ler com calma tanto o início — “Todas as almas são minhas… a alma que pecar, essa morrerá”, onde de modo algum admito que a morte da alma signifique apenas uma aflição temporal — quanto a conclusão: “Convertei-vos e vivei… por que morrereis, ó casa de Israel?” Fica de pé, portanto: quem é justo ao juízo do próprio Deus pode, ao final, cair da graça.
70. Em segundo lugar: quem tem a fé que produz uma boa consciência pode, ainda assim, cair definitivamente. Isso fica claro nas palavras de Paulo a Timóteo: “Milita a boa milícia, conservando a fé e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, naufragaram na fé” (1Tm 1.18-19). Observe: primeiro, esses homens já tiveram a fé que produz uma boa consciência — pois a tinham, do contrário não poderiam tê-la rejeitado. Segundo, naufragaram na fé, o que necessariamente implica a perda total e final dela. Você objeta: não; rejeitar a boa consciência não pressupõe que a tivessem, mas antes que não a tivessem. Isso é realmente surpreendente. E como você prova? Por Atos 13.46, onde Paulo diz aos judeus: “Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais… eis que nos voltamos para os gentios.” Veja, dizem, os judeus, que nunca tiveram o evangelho, são ditos rejeitá-lo. Como assim? Tem certeza de que nunca tiveram o que aqui são ditos rejeitar? De modo algum: o que rejeitaram, é inegável, tiveram-no até rejeitá-lo — a saber, a palavra de Deus pregada por Paulo e Barnabé. Esse exemplo, portanto, fala inteiramente contra você; prova exatamente o contrário daquilo para que foi citado. Você ainda objeta: os homens podem ter uma boa consciência, em certo sentido, sem fé verdadeira. Concedo, num sentido restrito e limitado; mas não uma boa consciência pura e simplesmente. E é dessa que o apóstolo fala, e que exorta Timóteo a reter firme — a menos que você imagine que “reter firme” também pressuponha que ele nunca a teve, ou que aqui “a fé” signifique apenas a doutrina da fé, do que eu gostaria de ver prova melhor. Fica de pé: quem tem a fé que produz uma boa consciência pode, ainda assim, cair ao final.
71. Em terceiro lugar: os que foram enxertados na boa oliveira — a Igreja espiritual e invisível — podem, ainda assim, cair definitivamente. Pois assim diz o apóstolo: “…alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeiro, foste enxertado no lugar deles… não te ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que te não poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas para contigo, a bondade de Deus, se permaneceres na sua bondade; de outra maneira, também tu serás cortado” (Rm 11.17ss). Observe aqui: primeiro, as pessoas a quem se fala estavam de fato enxertadas na oliveira. Segundo, essa oliveira não é apenas a Igreja exterior e visível, mas a invisível, composta de crentes santos — como diz o texto: “se o primeiro fruto é santo, também a massa o é; e, se a raiz é santa, também os ramos o são… por causa da incredulidade foram quebrados, e tu estás firme pela fé.” Terceiro, esses santos crentes ainda estavam sujeitos a ser cortados da Igreja invisível em que então se achavam enxertados. Quarto, não há aqui a mínima insinuação de que jamais fossem enxertados de novo. A isso você objeta: esta oliveira não é a Igreja invisível, mas só o estado visível da Igreja do evangelho. Você afirma; eu provo o contrário — que é a Igreja invisível, pois consiste de crentes santos, o que só da invisível se pode dizer. Você diz ainda que os judeus cortados nunca foram verdadeiros crentes em Cristo. Não estou falando dos judeus, mas dos gentios mencionados no versículo 22, aos quais Paulo exorta a permanecer na bondade de Deus; do contrário, diz ele, “serás cortado”. Ora, presumo que estes eram verdadeiros crentes em Cristo; e ainda assim estavam sujeitos a ser cortados. Você afirma que isso é apenas um corte do estado exterior da Igreja. Mas como prova? Construção tão forçada e artificial precisa de algum argumento que a sustente. E você diz que há forte indício de que serão enxertados de novo. Não; não que aqueles gentios que não permaneceram na bondade de Deus fossem reenxertados depois de uma vez cortados — disso não encontro o menor indício. “Todo o Israel será salvo”? Creio que sim; mas isso não implica o reenxerto desses gentios. Fica de pé: os que foram enxertados na Igreja espiritual e invisível podem, ainda assim, cair ao final.
72. Em quarto lugar: os que são ramos de Cristo, a videira verdadeira, podem ainda cair da graça. Pois assim diz o próprio Senhor: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele o corta… Eu sou a videira, vós, os ramos… Se alguém não permanece em mim, será lançado fora, como o ramo, e secará; e o ajuntam, lançam no fogo e o queimam” (Jo 15.1ss). Observe: primeiro, as pessoas de quem se fala estavam em Cristo, ramos da videira verdadeira. Segundo, alguns desses ramos não permanecem em Cristo, e o Pai os corta. Terceiro, os ramos que não permanecem são lançados fora, expulsos de Cristo e da sua Igreja. Quarto, não são apenas lançados fora, mas secam — logo, nunca são reenxertados. Quinto, não são apenas lançados fora e secos, mas lançados no fogo. E, sexto, são queimados. Impossível declarar em palavras mais fortes que os que são ramos da videira verdadeira podem, ao final, cair. Mas isso, você diz, é argumento a favor, não contra, a perseverança dos santos. Sim, argumento tão bom quanto as palavras de Paulo a Timóteo, já citadas. E como você o demonstra? Assim: há dois tipos de ramos em Cristo, a videira — um frutífero, outro infrutífero; um é eternamente escolhido, e esses permanecem nele e jamais se apartam. Ora, esse é justamente o ponto a provar; de modo que você, de imediato e diretamente, pede como certo o que está em questão. O outro tipo de ramo, você diz, são os que estão em Cristo só por profissão; entram nas igrejas, e assim são contados em Cristo, mas com o tempo secam — nunca tiveram dele vida, graça ou fruto. Você certamente não oferece isso como argumento! Está de novo tomando por certo o próprio ponto a provar. Você tentará mostrar que são ramos em Cristo os que dele nunca tiveram vida ou graça, porque das igrejas da Judeia e de Tessalônica se diz que estão “em Cristo”, ainda que nem todo membro estivesse salvificamente nele. Nego a consequência; ela jamais se sustenta, a menos que prove que aqueles mesmos judeus ou tessalonicenses que nunca tiveram dele vida ou graça são, ainda assim, chamados por nosso Senhor de ramos nele. Fica de pé: verdadeiros crentes, que são ramos da videira verdadeira, podem, ainda assim, cair ao final.
73. Em quinto lugar: os que conhecem a Cristo de modo tão eficaz que, por esse conhecimento, escaparam das corrupções do mundo, podem recair nelas e perecer para sempre. Pois assim diz o apóstolo Pedro: “Se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo (o único caminho possível de escapar delas), forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se-lhes o último estado pior do que o primeiro” (2Pe 2.20). Mas você diz, primeiro, que o conhecimento deles não era experimental. E como prova? “Porque, se o fosse, não poderiam tê-lo perdido.” Você pede de novo como certo o que está em questão. Segundo, que “escapar das corrupções do mundo” não significa mais do que uma reforma exterior. Como prova isso? Não visa a prova alguma; quem quiser conceder, que conceda. Terceiro, que essas pessoas nunca sofreram mudança alguma — não passavam de cães e porcos, tanto antes e depois quanto mesmo enquanto exteriormente se abstinham de grandes torpezas. Concedo que, antes e depois daquele tempo em que escaparam das corrupções do mundo, bem se poderiam chamar cães ou porcos por suas torpezas grosseiras; mas que merecessem tal nome durante aquele tempo, não posso conceder sem alguma prova. Fica de pé: os que, pelo conhecimento interior de Cristo, escaparam das corrupções do mundo podem recair nelas e perecer para sempre.
74. Em sexto lugar: os que veem a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo, e que foram feitos participantes do Espírito Santo, do seu testemunho e dos seus frutos, podem, ainda assim, cair de Deus a ponto de perecer para sempre. Pois assim diz o escritor aos Hebreus: “É impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo… e caíram, sejam outra vez renovados para arrependimento, visto que, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus e o expõem ao vitupério” (Hb 6.4-6). Não há de ver toda pessoa sem preconceito que as expressões aqui usadas são tão fortes e claras que não podem, sem grosseira e palpável distorção, referir-se a outros que não verdadeiros crentes? Mas o apóstolo, dizem, faz apenas uma suposição: “se caírem”. O apóstolo não faz suposição alguma; não há “se” no original. As palavras são Adunaton tous apax phōtisthentas — kai parapesontas; isto é, em bom português: “É impossível renovar de novo para arrependimento os que uma vez foram iluminados e caíram.” Você retruca: não; as palavras, ao pé da letra, diriam “os que uma vez foram iluminados, e eles caindo”, ou seja, “caso venham a cair” — o que, em bom português, é “se caírem”. Perdoe-me a franqueza. Mentirá alguém em favor de Deus? Ou você ou eu o fazemos; pois afirmo sem rodeios (e que todos os que sabem grego julguem entre nós) que as palavras no original não dizem “e eles caindo” — se fosse assim, teriam de estar no presente, kai parapiptontas, e não no indefinido (aoristo), kai parapesontas — mas que se traduzem “e caíram”, tão literalmente quanto a língua permite. Logo, não há aqui “se” algum, nem suposição alguma, mas simples declaração de um fato.
75. Mas por que você imagina que essas pessoas eram verdadeiros crentes? Porque todas as expressões, no seu sentido simples e natural, o implicam. “Foram uma vez iluminados” — expressão familiar ao apóstolo, e por ele jamais aplicada senão a crentes: “…o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo… vos dê… o espírito de sabedoria e de revelação… tendo iluminados os olhos do vosso entendimento, para que saibais qual seja a esperança da sua vocação…” (Ef 1.17ss); e ainda: “Deus, que disse que das trevas resplandecesse a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2Co 4.6). Dizer que “foram iluminados” significa apenas “foram batizados” ou “conheciam as doutrinas do evangelho” — não posso crer nisso enquanto você não me trouxer algumas passagens de Paulo em que a expressão evidentemente tenha um desses sentidos. Além disso: “provaram o dom celestial” e “se fizeram participantes do Espírito Santo” — assim como Pedro os une: “…seja batizado… para remissão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo” (At 2.38), pelo qual o amor de Deus foi derramado em seus corações, com todos os demais frutos do Espírito. A expressão “provaram o dom celestial” vem do salmista: “Provai e vede que o Senhor é bom” (Sl 34.8) — como se dissesse: estai tão certos do seu amor quanto de tudo o que vedes com os olhos, e seja a certeza dele doce à vossa alma como o mel à língua. Dizer que isso significa apenas que “tinham algumas noções do perdão e do céu, e algum desejo deles, e haviam recebido os dons extraordinários do Espírito” — você afirma, mas sem sombra de prova. Fica de pé: os que veem a luz da glória de Deus na face de Jesus Cristo, e foram feitos participantes do Espírito Santo, podem, ainda assim, cair de Deus a ponto de perecer para sempre.
76. Em sétimo lugar: os que vivem pela fé podem ainda cair de Deus e perecer para sempre. Pois assim diz o apóstolo: “O justo viverá da fé; e, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele” (Hb 10.38). O justo (o justificado, único de quem isso se pode dizer) viverá da fé — vive já agora a vida que está escondida com Cristo em Deus; e, se perseverar até o fim, viverá com Deus para sempre. “Mas, se ele recuar, diz o Senhor, a minha alma não tem prazer nele” — isto é, hei de rejeitá-lo de todo; e, de fato, o recuar de que aqui se fala é chamado, no versículo seguinte, “recuar para a perdição”. Você objeta: a pessoa que se supõe recuar não é a mesma que se diz viver pela fé. Respondo: primeiro, quem é ela, então? Pode alguém recuar da fé que nunca alcançou? Segundo, se o texto tivesse sido traduzido com fidelidade, não haveria pretexto para essa objeção. Pois o original diz: Ho dikaios ek pisteōs zēsetai kai ean huposteilētai — “se ho dikaios, o justo que vive pela fé (é o que a expressão necessariamente implica, não havendo outro sujeito para o verbo), recuar, a minha alma não tem prazer nele.” Você diz que a sua tradução também é imprecisa. Mostre-me, por favor, em quê. Concedo que ele pode recuar sem recuar para a perdição; mas então não é desse recuo que aqui se fala. “Contudo, é apenas uma suposição, que nada prova.” Observo que você toma como regra geral: “suposições não provam fatos”. Isso nem sempre é verdade; muitas vezes provam, sim. Se provam ou não em determinado texto, julga-se pela natureza da suposição e pelas palavras que a cercam. “Mas inserir ‘algum homem’ está de acordo com a construção gramatical.” Isso nego por inteiro; não há necessidade de tal inserção — o sujeito anterior basta. “Mas quem vive pela fé não pode recuar, pois ‘aos que justificou, a esses também glorificou’.” Isso prova apenas que todos os que são glorificados foram antes perdoados e santificados. “Mas Paulo diz: ‘Estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus; quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então também vós vos manifestareis com ele em glória’” (Cl 3.3-4). Certíssimo — se perseverardes até o fim. Todo o que crê nele até o fim jamais morrerá.
77. Mas, indo direto ao ponto: digo que este texto, longe de militar contra a perseverança, antes a estabelece grandemente. Você é muito infeliz na escolha dos textos com que quer firmar essa doutrina. Dois deles a “estabelecem” exatamente como este, já vimos. Ouçamos, pois, como você prova a perseverança a partir daqui. “Muito facilmente: há duas espécies de pessoas mencionadas — o que vive pela fé e o que recua para a perdição.” Ora, essa é justamente a questão. Não admito que duas pessoas sejam mencionadas no texto; mostrei que é uma só e a mesma, que um dia viveu pela fé e depois recua. Isto, porém, concedo: no versículo seguinte, mencionam-se duas espécies de crentes — os que recuam e os que perseveram. E admito que o apóstolo acrescenta: “Nós não somos dos que recuam para a perdição.” Mas o que você infere daí? Isso, longe de contradizer o que se observou, manifestamente o confirma: é mais uma prova de que há os que recuam para a perdição, ainda que estes não fossem desse número. Continuo a afirmar que o texto está bem traduzido, e provo assim: o original diz — “Eis que a sua alma se enche de orgulho, não é reta nele; mas o justo viverá pela sua fé” (Hc 2.4). A Septuaginta verte: Ean huposteilētai, ouk eudokei hē psychē mou en autō; ho de dikaios ek pisteōs mou zēsetai — “Se alguém recuar, a minha alma não tem prazer nele; mas o justo viverá pela minha fé”, isto é, pela fé em mim. Aqui, o homem que recua, na primeira parte, distingue-se do que vive pela fé, na segunda. “Mas o apóstolo cita o texto dessa tradução.” Verdade; mas ele não distingue o que recua do que vive pela fé — pelo contrário, inverte a ordem da frase, pondo a última parte primeiro. E assim, embora ao traduzir do grego da Septuaginta se tenha de inserir “um homem” (por não haver sujeito anterior), ao traduzir do apóstolo não há necessidade nem pretexto para inseri-lo, pois ho dikaios vem logo antes. Tal inserção, portanto, é violência palpável ao texto, que assim fica mal traduzido. Fica de pé: os que vivem pela fé podem ainda cair de Deus e perecer para sempre.
78. Em oitavo lugar: os que foram santificados pelo sangue da aliança podem cair a ponto de perecer para sempre. Pois de novo diz o apóstolo: “Se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários. Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profana o sangue da aliança com que foi santificado…?” (Hb 10.26-29). É inegavelmente claro: primeiro, que a pessoa aqui mencionada foi um dia santificada pelo sangue da aliança; segundo, que depois, por pecado conhecido e voluntário, pisou o Filho de Deus; terceiro, que com isso incorreu em castigo pior do que a morte — a saber, a morte eterna. Você diz: não; o antecedente imediato do pronome “foi santificado” é “o Filho de Deus”; logo foi Ele, não o apóstata, quem foi santificado (separado para o seu ofício sacerdotal) pelo sangue da aliança. Ou você esqueceu de olhar o original, ou a memória lhe falha. O Filho de Deus não é o antecedente imediato do pronome. As palavras são: “…aquele que pisar o Filho de Deus, kai to haima tēs diathēkēs koinon hēgēsamenos, en hō hēgiasthē?” Você vê que hēgēsamenos (aquele que teve por profana), e não huios (o Filho), é o antecedente imediato; por consequência, é o apóstata, e não o Filho de Deus, que aqui se diz santificado. “Se foi santificado, isso não se pode entender de santificação interior; logo, significa que ele dizia estar santificado, ou que fazia profissão exterior de religião.” Por que não se pode entender a palavra no seu sentido próprio e natural, de santificação interior? “Porque essa é obra do Espírito de Deus.” É justamente por isso que se deve entender de santificação interior; pois as palavras seguintes são: “…e fizer agravo ao Espírito da graça”, isto é, àquela graça pela qual uma vez foi santificado. Fica de pé: os que são santificados pelo sangue da aliança podem, ainda assim, perecer para sempre.
79. Se você imagina que esses textos não bastam para provar que um verdadeiro crente pode, ao final, cair, ofereço-lhe alguns mais, e peço que os pese com vagar: “Vós (cristãos) sois o sal da terra; mas, se o sal se tornar insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens” (Mt 5.13). “Ora, tendo o espírito imundo saído do homem (como sai de todo verdadeiro crente), anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei… e, entrando, habitam ali; e o último estado desse homem é pior do que o primeiro” (Mt 12.43-45). “E, então, muitos se escandalizarão… e o amor (para com Deus e o próximo) de muitos esfriará; mas aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24.10ss). “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o senhor pôs sobre os seus servos…? Mas, se aquele mau servo (por mais fiel e prudente que antes fosse) começar a espancar os seus conservos… o senhor o separará, e destinar-lhe-á a sua parte com os hipócritas” (Mt 24.45ss) — apóstatas, não melhores do que eles. “Olhai por vós, vós que credes, para que os vossos corações não venham a ficar sobrecarregados com os cuidados desta vida, e vos sobrevenha de improviso aquele dia” (Lc 21.34) — dando claramente a entender que, de outra forma, não seriam achados dignos de estar em pé diante do Filho do Homem. “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos; e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8.31-32). “Subjugo o meu corpo… para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado” (1Co 9.27). “Nossos pais… todos comeram de um mesmo alimento espiritual, e beberam de uma mesma bebida espiritual… e a rocha era Cristo. Mas Deus não se agradou da maior parte deles, pelo que foram prostrados no deserto. Ora, estas coisas nos foram feitas para exemplo… Aquele, pois, que cuida estar em pé, veja que não caia” (1Co 10.3ss). “E nós, cooperando com ele, também vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão” (2Co 6.1) — o que seria impossível, se ninguém que a tivesse pudesse perecer. “Da graça tendes caído” (Gl 5.4). “A seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos” (Gl 6.9) — portanto não ceifaremos, se desfalecermos. “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firme até ao fim o princípio da nossa confiança” (Hb 3.14). “Guardai-vos para que não sejais também arrebatados pelo engano dos homens perversos, e caiais da vossa firmeza” (2Pe 3.17). “Olhai por vós mesmos, para que não percamos o que temos ganho” (2Jo 8). “Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3.11). E, para concluir: “Assim vos fará também meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas” (Mt 18.35). Assim — como? Ele retirará o perdão que havia concedido, e vos entregará aos atormentadores.
80. “Então você faz a salvação condicional.” Não a faço condicional nem incondicional. Declaro apenas o que encontro na Bíblia, nem mais nem menos: que ela foi comprada para todo filho do homem e efetivamente concedida a todo o que crê. Se você chama isso de salvação condicional, foi Deus quem assim a fez desde o princípio do mundo, e assim a declarou, em muitas ocasiões e de diversas maneiras — outrora por Moisés e os profetas, e depois por Cristo e seus apóstolos. “Então nunca poderei ser salvo, pois não posso cumprir condição alguma; nada posso fazer.” Nem eu, nem homem algum debaixo do céu — sem a graça de Deus. “Mas tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13). E você também; e todo crente. E ele o tem fortalecido, e o fortalecerá mais e mais, se você não resistir voluntariamente até apagar o seu Espírito.
81. “Não; mas Deus há de operar em mim de modo irresistível, ou nunca serei salvo.” Devagar! Pese essa palavra. Você avança de novo uma doutrina sem um só texto claro que a sustente. Admito que Deus possa, em certos momentos, operar irresistivelmente em algumas almas; creio que o faz. Mas você pode inferir daí que ele sempre opera assim em todos os que se salvam? Ai, meu irmão, que espécie de conclusão é essa? E com que Escritura a provará? Onde, pergunto, está escrito que ninguém se salva senão por graça irresistível? Por graça todo-poderosa, concedo — por aquele poder ao qual todas as coisas são possíveis; mas mostre-me um só texto claro para isto: que toda graça salvadora é irresistível.
82. Esta doutrina não só carece de apoio na Escritura; é-lhe frontalmente contrária. Como você a conciliaria (para citar bem poucos exemplos) com os seguintes textos? “Enviou a chamá-los, e não quiseram vir” (Mt 22.3). “E não podia fazer ali obra alguma poderosa… e estava admirado da incredulidade deles” (Mc 6.5-6). “Estavam ali… fariseus, e a virtude do Senhor estava com ele para curar” (Lc 5.17) — e, no entanto, de fato não foram curados, como mostram as palavras seguintes. “Os fariseus e os doutores da lei rejeitaram, contra si mesmos, o conselho de Deus” (Lc 7.30). “Jerusalém, Jerusalém… quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos… e tu não quiseste!” (Lc 13.34). “O espírito é o que vivifica… as palavras que eu vos disse são espírito… mas há alguns de vós que não creem” (Jo 6.63ss) — logo, aquele Espírito não operou irresistivelmente. “Sempre resistis ao Espírito Santo; assim como o fizeram os vossos pais, também vós” (At 7.51). “…vós a rejeitais, e vos julgais indignos da vida eterna” (At 13.46). “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações. Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar do Deus vivo” (Hb 3.8,12). “Vede que não rejeiteis ao que fala” (Hb 12.25).
83. Dou-lhe apenas uma amostra das inúmeras Escrituras que se poderiam apresentar sobre este ponto. E por que você haveria de aferrar-se a uma opinião não só sem apoio, mas totalmente contrária à razão e à Escritura? Observe também que a doutrina da graça irresistível não deve ser considerada em si mesma — tampouco a da eleição incondicional ou a da perseverança final —, mas em sua conexão com a reprovação incondicional: aquela mó que pende do pescoço de toda a sua hipótese. Dirá você que se apega a ela por sua utilidade? Em que consiste essa utilidade? “Exalta a Deus e rebaixa o homem.” Em que sentido exalta a Deus? Deus, em si mesmo, está exaltado acima de todo louvor. Você quer dizer, suponho, que ela mostra aos outros quão altamente ele é exaltado em justiça, misericórdia e verdade. Mas já se demonstrou largamente o contrário: por várias considerações, ficou claro que Deus não é exaltado, mas antes desonrado, e no mais alto grau, ao supor-se que ele despreze a obra das suas próprias mãos — a imensa maioria das almas que fez. Quanto a rebaixar o homem: se você quer dizer que essa opinião de fato humilha os que a sustentam, temo que não. Não tenho observado (e tive larga ocasião de fazer a prova) que todos, ou mesmo a maioria dos que a sustentam, sejam mais humildes do que os demais. Nem, penso eu, você dirá que ninguém é humilde entre os que não a sustentam; de modo que ela não é meio necessário nem seguro de humildade. E, se às vezes o é, isso só prova que Deus pode tirar o bem do mal.
84. A verdade é que não é esta ou aquela opinião, mas o amor de Deus, e só ele, que humilha o homem. Basta que este seja derramado no seu coração, e ele se abomina no pó e na cinza. Assim que isso entra na alma, uma vergonha humilde lhe cobre o rosto. Àquele pensamento — “Quem é Deus? Que fez ele por mim?” — segue-se logo o outro: “Que sou eu?” E ele não sabe o que fazer, nem onde esconder-se, nem como abater-se o bastante diante do grande Deus de amor, de quem agora conhece que, assim como é a sua majestade, assim é a sua misericórdia. Quem já sentiu isto (seja qual for a sua opinião) que diga se então pôde gloriar-se a si mesmo, ou atribuir a si qualquer parte da sua salvação, ou a glória de uma só boa palavra ou pensamento. Apoie-se, pois, quem quiser, naquela cana quebrada em busca de humildade; mas que o amor de Deus humilhe a minha alma!
85. “Ora, é justamente isto que a recomenda: esta doutrina faz os homens amarem a Deus.” Respondo como antes: por acidente, pode fazê-lo, porque Deus é capaz de tirar o bem do mal. Mas você não dirá que todos os que a sustentam amam a Deus; logo, não é meio seguro para esse fim. Nem dirá que nenhum o ama entre os que não a sustentam; logo, também não é meio necessário. Aliás, quando você fala em fazer os homens amarem a Deus, não sabe o que faz: leva-os a perigo maior do que imagina. Quase inevitavelmente os induz a repousar naquela opinião, corta-os de uma verdadeira dependência da fonte de águas vivas e os fortalece a cavar para si cisternas rotas, que não retêm água (Jr 2.13).
86. Esta é a minha grande objeção à doutrina da reprovação — ou, o que dá no mesmo, da eleição incondicional. Que é um erro, disso tenho certeza; pois, se fosse verdadeira, toda a Escritura teria de ser falsa. Mas não é só por ser um erro que a combato com tanto empenho; é porque é um erro de consequências tão perniciosas para as almas dos homens, pois direta e naturalmente tende a estorvar a obra interior de Deus em cada uma de suas etapas.
87. Vejamos, por exemplo. Está um homem descuidado e indiferente, morto de todo em delitos e pecados? Exorte-o então (suponha que ele seja da sua opinião) a cuidar um pouco da sua alma imortal. “Eu, cuidar?”, diz ele. “De que serve o meu cuidado? O que tem de ser, será. Se sou eleito, hei de ser salvo; se não sou, hei de ser condenado.” E o raciocínio é tão justo e forte quanto óbvio e natural. Não adianta dizer que os homens podem abusar de qualquer doutrina — podem, sim; mas isto não é abusar da sua: é o uso simples e natural dela. As premissas não se podem negar (no seu esquema), e a conclusão é igualmente clara e inegável. Está ele um tanto sério e pensativo de vez em quando, embora em geral frio e morno? Insista com ele que avive o dom que nele há, que opere a sua salvação com temor e tremor (Fp 2.12). “Ai”, diz ele, “que posso eu fazer? Bem sabe você que o homem nada pode.” Se você responde: “Mas você não deseja a salvação; não está disposto a ser salvo”, ele retruca: “Pode ser; mas Deus me fará disposto no dia do seu poder.” E assim, à espera da graça irresistível, adormece mais fundo do que nunca. Veja-o de novo, quando enfim desperta do sono, quando, a despeito dos seus princípios, o temor e o tremor o assaltam, e um pavor horrível o domina. Como então consolará você quem está quase tragado pela tristeza excessiva? Se de algum modo, será aplicando as promessas de Deus. Mas contra elas ele está cercado por todos os lados. “Estas”, diz ele, “são de fato grandes e preciosas promessas; mas pertencem só aos eleitos. Portanto, nada são para mim: não sou desse número, e jamais poderei sê-lo, pois o seu decreto é imutável.” Já provou ele a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro? Justificado pela fé, tem paz com Deus? Então o pecado não tem domínio sobre ele. Mas, pouco a pouco, considerando que pode até cair feio, mas não pode cair de vez, deixa de vigiar-se como ao princípio; afrouxa aos poucos, até que, não muito depois, recai no pecado de que havia escapado. Assim que você percebe que ele foi de novo enredado e vencido, aplica-lhe as Escrituras que tratam desse estado; conjura-o a não endurecer mais o coração, para que o seu último estado não seja pior do que o primeiro. “Como pode ser?”, diz ele. “Uma vez na graça, sempre na graça; e tenho certeza de que um dia estive na graça. Você nunca me arrancará o meu escudo.” E assim ele peca e dorme, peca e dorme, até acordar no inferno.
88. Observar esses exemplos melancólicos dia após dia — este terrível estrago que o diabo faz das almas, sobretudo das que haviam começado a correr bem, por meio desta doutrina antibíblica — obriga-me a combatê-la pelo mesmo princípio por que me esforço em salvar almas da perdição. E não basta perguntar: “Não há também muitos que torcem a doutrina oposta para a própria perdição?” Se há, isso nada tem a ver com a questão; pois não é esse o caso aqui. Aqui não há torção alguma: a doutrina da predestinação absoluta leva naturalmente às câmaras da morte. Ponha-se um exemplo de cada lado, e a diferença é tão larga que até quem corre a lê. Eu digo: Cristo morreu por todos; provou a morte por todo homem, e quer que todos os homens sejam salvos. “Ah”, diz um ouvinte, “então posso ser salvo quando quiser; logo, posso pecar tranquilo mais um pouco.” Não; isso não decorre do que eu disse; as palavras foram torcidas para inferir o que não se segue. Você diz: Cristo morreu só pelos eleitos, e todos estes hão de ser salvos infalivelmente. “Ah”, diz um ouvinte, “então, se sou um dos eleitos, hei de ser salvo por força; portanto posso pecar tranquilo mais um pouco, pois a minha salvação não pode falhar.” Ora, isso decorre legitimamente do que você disse; as palavras não foram torcidas de modo algum — nada se infere além do que clara e inegavelmente se segue das premissas. E a mesma observação se pode fazer sobre cada artigo daquela doutrina. Todo ramo dela, como este (por mais que a sabedoria de Deus às vezes tire dela algum bem), tem uma tendência natural e genuína, sem torção alguma, a impedir ou estorvar a santidade.
89. Irmãos, mentiríeis vós em favor da causa de Deus? Estou persuadido de que não. Pensai, então, que, como sois, assim sou eu: falo a verdade, diante de Deus, meu Juiz. Não falo dos que foram criados nessa doutrina, mas dos que há pouco passaram para a vossa opinião. Muitos deles conheci; e, de todo esse número, não conheci um em cada dez em quem ela não produzisse rapidamente alguns dos efeitos acima nomeados, conforme o estado de alma em que então se achavam. E, entre todos, conheci um só que, após a mais atenta e imparcial observação, não deu mostras evidentes, dentro de um ano, de que o seu coração se havia mudado — não para melhor, mas para pior.
90. Bem sei que não vos é fácil crer nisto. Mas, creiais ou não, credes, tanto quanto eu, que “sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Não podemos, então, ao menos nisto nos unir — em declarar a natureza da santidade interior e testemunhar a todos a sua necessidade? Não podemos todos, ao menos até aí, unir-nos em arrancar as canas quebradas em que tantos repousam, sem santidade interior nem exterior, e nas quais vãmente confiam como se lhes suprissem o lugar? Quanto for possível, unamo-nos em destruir as obras do diabo e em levantar o reino de Deus sobre a terra, promovendo justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14.17). De qualquer opinião ou denominação que sejamos, ou servimos a Deus, ou servimos ao diabo. Se servimos a Deus, o que nos une é muito maior do que o que nos separa. Portanto, tanto quanto for possível, pondo de lado essa diferença, unamo-nos em destruir as obras do diabo, em trazer todos os que pudermos do poder das trevas para o reino do Filho amado de Deus (Cl 1.13). E ajudemo-nos uns aos outros a valorizar cada vez mais a gloriosa graça em que estamos firmes, e a crescer diariamente nessa graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo (2Pe 3.18).
Tradução para o português a partir da edição de Thomas Jackson, The Works of John Wesley (vol. 10, tratado de 1752), domínio público. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.