Sobre a santidade · 1725–1777
“Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração… e o teu próximo como a ti mesmo.”
Mt 22.37,39 — o texto em que Wesley funda toda a doutrina
O que Deus pode de fato realizar no coração de um cristão nesta vida? Foi a essa pergunta que Wesley voltou por mais de cinquenta anos, e nestas páginas ele conta, quase como um diário, como chegou àquilo que chamou de perfeição cristã. O nome assusta à primeira vista, mas Wesley o define com simplicidade: é o amor de Deus enchendo o coração e governando toda a vida — aquele amor que, como diz Paulo, “é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi outorgado” (Rm 5.5). É, nas suas palavras, “pureza de intenção, dedicar toda a vida a Deus”. Não é a perfeição dos anjos nem a de Adão antes da queda; é a perfeição própria de uma criatura redimida, que ainda depende de Cristo a cada instante.
Vale guardar, desde já, o que Wesley faz questão de repetir: essa perfeição não livra ninguém da ignorância, do erro de juízo, das fraquezas do corpo nem da tentação; não é um estado do qual não se possa cair; e nunca dispensa o sangue de Cristo nem o crescimento contínuo na graça. Ela é o amor tornado maduro — e, como tudo na vida cristã, é recebida pela fé, não conquistada por mérito. Aqui está o coração da nossa herança wesleyana: Deus não nos salva apenas do castigo do pecado, mas quer nos curar do seu poder, renovando-nos à sua imagem, que é amor.
Leia, pois, sem susto e sem pressa. Wesley escreve como quem presta contas, com datas, textos e cautelas, para que ninguém confunda o amor perfeito com uma pretensão orgulhosa de já não precisar de Deus.
— Bispo Ildo Mello
1. O que me proponho nestas páginas é dar um relato simples e claro dos passos pelos quais fui conduzido, ao longo de muitos anos, a abraçar a doutrina da perfeição cristã. Devo isso à parte séria da humanidade, aos que desejam conhecer toda “a verdade como ela está em Jesus” (Ef 4.21) — pois só esses se interessam por questões como esta. A eles quero declarar a coisa exatamente como é, procurando mostrar, período após período, tanto o que eu pensava quanto por que pensava assim.
2. No ano de 1725, aos vinte e três anos de idade, deparei com a obra do bispo Taylor, Regras e Exercícios de Santa Vida e Santa Morte. Ao ler várias partes desse livro, fiquei profundamente tocado, sobretudo pela seção que trata da pureza de intenção. No mesmo instante resolvi dedicar a Deus toda a minha vida — todos os meus pensamentos, palavras e ações —, plenamente convencido de que não há meio-termo: cada parte da minha vida (não apenas algumas) haveria de ser ou um sacrifício a Deus, ou a mim mesmo, isto é, na prática, ao diabo. Poderá alguma pessoa séria duvidar disso, ou encontrar um meio-termo entre servir a Deus e servir ao diabo?
3. Em 1726, deparei com a Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. A natureza e o alcance da religião interior, a religião do coração, apareceram-me então sob uma luz mais forte do que jamais antes. Vi que entregar a Deus até a minha vida inteira (supondo que isso fosse possível) e não ir além de nada me aproveitaria, se eu não lhe desse o coração — sim, todo o meu coração. Vi que “a simplicidade de intenção e a pureza de afeto”, um só propósito em tudo o que dizemos ou fazemos, e um só desejo governando todas as nossas disposições, são de fato “as asas da alma”, sem as quais ela jamais pode subir ao monte de Deus.
4. Um ou dois anos depois, caíram-me nas mãos os livros do sr. Law, A Perfeição Cristã e Um Sério Chamado. Convenceram-me, mais do que nunca, da absoluta impossibilidade de ser cristão pela metade; e resolvi, pela graça dele (de cuja absoluta necessidade eu tinha viva consciência), ser todo devotado a Deus, dar-lhe toda a minha alma, o meu corpo e os meus bens. Dirá algum homem ponderado que isso é levar as coisas longe demais? Ou que se deve menos do que isto Àquele que se deu a si mesmo por nós — dar-lhe a nós mesmos, tudo o que temos e tudo o que somos?
5. No ano de 1729, comecei não só a ler, mas a estudar a Bíblia, como a única norma de verdade e o único modelo de religião pura. Daí vi, em luz cada vez mais clara, a indispensável necessidade de ter “a mente que houve em Cristo” (Fp 2.5) e de “andar como ele andou” (1Jo 2.6) — de ter não apenas parte, mas toda a mente que houve nele, e de andar como ele andou não só em muitos ou na maioria dos aspectos, mas em tudo. E era assim que, naquele tempo, eu geralmente entendia a religião: um seguir uniforme a Cristo, uma inteira conformidade interior e exterior ao nosso Mestre. De nada eu tinha mais receio do que de dobrar essa regra à minha experiência, ou à de outros, permitindo-me a menor desconformidade para com o nosso grande Modelo.
6. No dia 1º de janeiro de 1733, preguei diante da Universidade, na igreja de Santa Maria, sobre “a circuncisão do coração”, sermão do qual dei este resumo:
É aquela disposição habitual da alma que, nas Escrituras Sagradas, se chama santidade, e que implica diretamente ser purificado do pecado, “de toda impureza da carne e do espírito” (2Co 7.1), e, por consequência, ser dotado das virtudes que houve em Cristo Jesus, sendo de tal modo renovado à imagem de Deus que nos torne “perfeitos como o nosso Pai celestial é perfeito” (Mt 5.48).
No mesmo sermão, observei:
“O amor é o cumprimento da lei” (Rm 13.10), “o fim do mandamento” (1Tm 1.5). Não é apenas o “primeiro e grande” mandamento (Mt 22.38), mas todos os mandamentos num só. Tudo o que é justo, tudo o que é puro, “se há alguma virtude, se há algum louvor” (Fp 4.8), tudo se resume nesta só palavra: amor. Nisto está a perfeição, a glória e a felicidade: a lei régia do céu e da terra é esta — “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de todas as tuas forças” (Mc 12.30). O único bem perfeito seja o vosso único fim último. Uma só coisa desejai por si mesma: a fruição Daquele que é tudo em todos. Uma só felicidade proponde à vossa alma: a união com Aquele que a fez, ter “comunhão com o Pai e com o Filho” (1Jo 1.3), estar “unido ao Senhor num só espírito” (1Co 6.17).
E concluí com estas palavras:
Eis a suma da lei perfeita, a circuncisão do coração. Que o espírito volte para Deus que o deu (Ec 12.7), com todo o cortejo dos seus afetos. Outros sacrifícios ele não quer de nós, mas o sacrifício vivo do coração, esse ele escolheu. Seja continuamente oferecido a Deus por meio de Cristo, em chamas de santo amor. E não se permita que criatura alguma reparta com ele esse lugar, pois é Deus zeloso: não dividirá o seu trono com outrem, reinará sem rival. Que ali não se admita propósito nem desejo algum senão o que tenha a Ele por objeto último. Este é o caminho em que outrora andaram aqueles filhos de Deus que, mesmo mortos, ainda nos falam: “Não desejes viver senão para louvar o seu nome; tendam todos os teus pensamentos, palavras e obras para a sua glória.” “Encha-se a tua alma de amor tão inteiro por Ele, que nada ames senão por amor dele.” “Tem pureza de intenção no coração, um olhar firme para a sua glória em todas as tuas ações.” Pois então — e não antes — está em nós “aquela mente que houve em Cristo Jesus” (Fp 2.5): quando, em cada movimento do coração, em cada palavra da língua, em cada obra das mãos, nada buscamos senão em relação a ele e em subordinação ao seu agrado; quando também nós nem pensamos, nem falamos, nem agimos para cumprir a nossa própria vontade, mas a vontade Daquele que nos enviou (Jo 6.38); quando, “quer comamos, quer bebamos, ou façamos qualquer coisa, tudo fazemos para a glória de Deus” (1Co 10.31).
Pode-se notar que este sermão foi o primeiro de todos os meus escritos que vieram a público. Era esta a visão da religião que eu então tinha, e que já naquele tempo não hesitei em chamar de perfeição. É a mesma visão que dela tenho agora, sem acréscimo nem diminuição de monta. E o que há aqui a que um homem de entendimento, que creia na Bíblia, possa objetar? Que poderia ele negar, sem contradizer abertamente a Escritura? Que poderia cortar, sem tirar da palavra de Deus?
7. Nesse mesmo sentimento permanecemos, meu irmão e eu (com todos aqueles jovens a quem, por escárnio, chamavam “metodistas”), até embarcarmos para a América, no fim de 1735. Foi no ano seguinte, estando eu em Savannah, que escrevi estes versos:
Haverá algo debaixo do sol
que dispute contigo o meu coração?
Ah! arranca-o dali, e reina sozinho,
Senhor de cada afeto que nele se move!
No começo de 1738, ao regressar de lá, o clamor do meu coração era:
Concede que nada em minha alma habite,
senão o teu puro amor, e nada mais!
Que o teu amor me possua por inteiro —
minha alegria, meu tesouro, minha coroa!
Afasta do meu peito os fogos estranhos;
que cada ato, palavra e pensamento seja amor!
Nunca soube de alguém que objetasse a isto. E, de fato, quem poderia? Não é esta a linguagem, não só de todo crente, mas de todo aquele que está verdadeiramente desperto? E o que escrevi, até hoje, que seja mais forte ou mais claro do que isto?
8. Em agosto seguinte, tive uma longa conversa com Arvid Gradin, na Alemanha. Depois que ele me relatou a sua experiência, pedi-lhe que me desse, por escrito, uma definição da “plena certeza da fé”, o que ele fez nestas palavras:
Repouso no sangue de Cristo; firme confiança em Deus e persuasão do seu favor; a mais alta tranquilidade, serenidade e paz de espírito, com a libertação de todo desejo carnal e a cessação de todos os pecados, até dos interiores.
Foi o primeiro relato que ouvi, da boca de algum homem vivo, daquilo que eu já havia aprendido por mim mesmo dos oráculos de Deus, e pelo que vinha orando (com o pequeno grupo dos meus amigos) e esperando havia vários anos.
9. Em 1739, meu irmão e eu publicamos um volume de Hinos e Poemas Sagrados. Em muitos deles declaramos os nossos sentimentos de modo forte e explícito. Assim, à página 24:
Desvia a corrente cheia da maré da natureza;
que todas as nossas ações se voltem
para ti, a sua fonte; teu amor, o guia;
tua glória, o fim.
A terra será então escada para o céu;
os sentidos apontarão o caminho;
as criaturas todas conduzirão a ti,
e tudo o que provarmos será Deus.
E ainda:
Senhor, arma-me com a força do teu Espírito,
pois sou chamado pelo teu grande nome;
em ti unam-se os meus pensamentos errantes,
de todas as minhas obras sê tu o alvo;
teu amor me acompanhe todos os meus dias,
e seja o meu único ofício o teu louvor.
E de novo:
Ávido por ti, eu peço e suspiro,
tão forte é o princípio divino
que me arrebata com doce constrangimento,
até que toda a minha alma consagrada seja tua —
mergulhada no mais fundo mar da Divindade,
e perdida na tua imensidão!
Mais uma vez:
Celestial Adão, ó vida divina,
muda a minha natureza na tua;
move-te e espalha-te por toda a minha alma,
aciona-a e enche-a por inteiro.
Seria fácil citar muitas outras passagens no mesmo sentido; mas estas bastam para mostrar, sem contradição possível, quais eram então os nossos sentimentos.
10. O primeiro tratado que escrevi expressamente sobre este assunto foi publicado no fim daquele ano. Para que ninguém se preconceituasse antes de lê-lo, dei-lhe o título neutro de O Caráter de um Metodista. Nele descrevi um cristão perfeito, colocando logo à frente: “Não que eu já a tenha alcançado” (Fp 3.12). Reproduzo parte dele sem alteração alguma:
Um metodista é aquele que ama o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. Deus é a alegria do seu coração e o desejo da sua alma, que continuamente clama: “A quem tenho eu no céu senão a ti? E na terra nada mais desejo além de ti” (Sl 73.25). Meu Deus e meu tudo! “Tu és a força do meu coração e a minha herança para sempre” (Sl 73.26). Ele é, portanto, feliz em Deus; sim, sempre feliz, pois tem nele “uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4.14), transbordando a sua alma de paz e alegria. O amor perfeito, tendo agora “lançado fora o medo” (1Jo 4.18), ele “se alegra sem cessar” (1Ts 5.16). Sim, a sua alegria é plena, e todos os seus ossos clamam: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, me regenerou para uma viva esperança, para uma herança incorruptível e incontaminável, reservada nos céus para mim” (1Pe 1.3-4).
E quem tem essa esperança, assim cheia de imortalidade, “em tudo dá graças” (1Ts 5.18), sabendo que isto, seja o que for, “é a vontade de Deus em Cristo Jesus” a seu respeito. Dele, portanto, recebe tudo com alegria, dizendo: “Boa é a vontade do Senhor”; e, quer ele dê, quer tome, igualmente bendiz o nome do Senhor (Jó 1.21). Na tranquilidade ou na dor, na doença ou na saúde, na vida ou na morte, dá graças do fundo do coração Àquele que tudo ordena para o bem, em cujas mãos entregou por inteiro o corpo e a alma, “como ao fiel Criador” (1Pe 4.19). Por isso “de nada anda ansioso” (Fp 4.6), tendo lançado “toda a sua ansiedade sobre aquele que dele cuida” (1Pe 5.7), e em tudo repousando nele, depois de lhe apresentar as suas petições “com ações de graças” (Fp 4.6).
Pois de fato ele “ora sem cessar” (1Ts 5.17); em todo tempo a linguagem do seu coração é esta: “A ti se dirige a minha boca, ainda que sem voz; e o meu silêncio te fala.” O seu coração se eleva a Deus em todo tempo e em todo lugar. Nisto nada o impede, muito menos o interrompe, seja pessoa, seja coisa. No retiro ou na companhia, no descanso, no trabalho ou na conversa, o seu coração está sempre com o Senhor. Quer se deite, quer se levante, “Deus está em todos os seus pensamentos” (Sl 139.2); anda continuamente com Deus, tendo o olhar amoroso da alma fixo nele, e vendo em toda parte “Aquele que é invisível” (Hb 11.27).
E, amando a Deus, “ama o seu próximo como a si mesmo” (Mc 12.31); ama cada ser humano como à sua própria alma. Ama os seus inimigos, sim, e até os inimigos de Deus. E, se não está em seu poder fazer o bem aos que o odeiam, nem por isso deixa de “orar pelos que” o maltratam e perseguem (Mt 5.44).
Pois ele é “puro de coração” (Mt 5.8). O amor purificou o seu coração da inveja, da malícia, da ira e de toda disposição maldosa. Limpou-o do orgulho, “de que só provém a contenda” (Pv 13.10); e agora ele se revestiu de “entranhas de misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão e longanimidade” (Cl 3.12). E, de fato, todo motivo possível de contenda, da parte dele, está cortado. Pois ninguém lhe pode tirar o que ele deseja, visto que “não ama o mundo, nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2.15); mas todo o seu desejo é para Deus e para a lembrança do seu nome.
De acordo com esse seu único desejo é o único propósito da sua vida: fazer, “não a sua própria vontade, mas a vontade Daquele que o enviou” (Jo 6.38). A sua única intenção, em todo tempo e lugar, não é agradar a si mesmo, mas Àquele a quem a sua alma ama. Tem os olhos limpos; e, porque o seu olhar é simples, “todo o seu corpo está cheio de luz” (Mt 6.22). Deus reina sozinho; tudo o que há na alma é santidade ao Senhor. Não há movimento em seu coração que não seja segundo a vontade dele. Todo pensamento que se levanta aponta para ele e está em obediência “à lei de Cristo” (Gl 6.2).
E “a árvore se conhece pelos frutos” (Mt 12.33). Pois, assim como ama a Deus, também “guarda os seus mandamentos” (1Jo 5.3); não apenas alguns, ou a maioria deles, mas todos, do menor ao maior. Não se contenta em guardar toda a lei e “tropeçar num só ponto” (Tg 2.10), mas em todos os pontos tem “uma consciência sem ofensa diante de Deus e dos homens” (At 24.16). Tudo o que Deus proibiu, ele evita; tudo o que Deus ordenou, ele faz. “Corre pelo caminho dos mandamentos” de Deus (Sl 119.32), agora que ele lhe pôs o coração em liberdade. É a sua glória e alegria fazê-lo; é a sua coroa diária de contentamento fazer a vontade de Deus na terra, como se faz no céu.
Todos os mandamentos de Deus ele guarda, e isso com todas as forças; pois a sua obediência é proporcional ao seu amor, a fonte de onde ela brota. E, portanto, amando a Deus de todo o coração, serve-o com todas as forças; apresenta continuamente a alma e o corpo “em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1), consagrando-se inteiramente e sem reservas, com tudo o que tem e tudo o que é, para a glória dele. Todos os talentos que possui, emprega-os constantemente segundo a vontade do seu Senhor — cada potência e faculdade da alma, cada membro do corpo.
Por consequência, “tudo o que faz, faz para a glória de Deus” (1Co 10.31). Em todas as suas ocupações de toda espécie, ele não só visa a isto — o que está implícito em ter o olhar simples —, mas de fato o alcança: os seus afazeres e os seus descansos, tanto quanto as suas orações, tudo serve a esse grande fim. Quer se assente em casa, quer ande pelo caminho (Dt 6.7), quer se deite, quer se levante, em tudo o que fala ou faz promove o único ofício da sua vida. Quer vista a roupa, quer trabalhe, quer coma e beba, quer se recreie de um trabalho excessivo, tudo tende a promover a glória de Deus, pela paz e boa vontade entre os homens. A sua única regra invariável é esta: “Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).
Nem os costumes do mundo o impedem de “correr a carreira que lhe está proposta” (Hb 12.1). Não pode, portanto, “ajuntar tesouros na terra” (Mt 6.19), assim como não pode meter fogo no peito. Não pode falar mal do próximo, tampouco pode mentir, seja por Deus, seja pelos homens. Não pode dizer palavra maldosa de ninguém, pois o amor guarda a porta dos seus lábios. Não pode dizer palavras vãs; “nenhuma palavra torpe” (Ef 4.29) sai da sua boca, nada que não seja bom para edificação. Mas “tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama” (Fp 4.8), ele pensa, fala e pratica, “adornando em tudo a doutrina de Deus, nosso Salvador” (Tt 2.10).
Estas são as próprias palavras com que, pela primeira vez, declarei amplamente o meu pensamento sobre a perfeição cristã. E não é fácil ver, primeiro, que este é exatamente o alvo que busquei desde 1725, e mais decididamente desde 1730, quando comecei a ser homo unius libri, “um homem de um só livro”, sem dar valor, em comparação, a nenhum outro que não a Bíblia? E não é fácil ver, segundo, que esta é exatamente a mesma doutrina que creio e ensino no dia de hoje, sem acrescentar um só ponto àquela santidade interior e exterior que eu defendia trinta e oito anos atrás? É a mesma que, pela graça de Deus, continuei a ensinar desde então até agora, como ficará claro a toda pessoa imparcial pelos extratos que virão adiante.
11. Não sei que algum escritor tenha feito objeção a esse tratado até o dia de hoje; e, por algum tempo, não encontrei muita oposição quanto a esse ponto, ao menos não de pessoas sérias. Mas, passado um tempo, levantou-se um clamor — e, o que um pouco me surpreendeu, entre homens religiosos, que afirmavam, não que eu expusesse mal a perfeição, mas que “não há perfeição na terra”; e mais, atacaram com veemência a mim e a meu irmão por afirmarmos o contrário. Mal esperávamos ataque tão rude vindo deles, sobretudo porque éramos claros quanto à justificação pela fé e cuidadosos em atribuir toda a salvação à pura graça de Deus. Mas o que mais nos surpreendeu foi ouvir que “desonrávamos a Cristo” — justamente por afirmar que ele “salva perfeitamente” (Hb 7.25), por sustentar que ele reinará sozinho em nossos corações e sujeitará todas as coisas a si mesmo.
12. Creio que foi no fim do ano de 1740 que tive uma conversa com o dr. Gibson, então bispo de Londres, em Whitehall. Perguntou-me o que eu entendia por perfeição. Disse-lhe sem disfarce nem reserva. Quando terminei de falar, ele disse: “Sr. Wesley, se é só isto que o senhor quer dizer, publique-o para todo o mundo. Se então alguém puder refutar o que diz, fique à vontade.” Respondi: “Assim farei, Excelência”; e, de fato, escrevi e publiquei o sermão sobre a perfeição cristã. Nele procurei mostrar, primeiro, em que sentido os cristãos não são perfeitos e, segundo, em que sentido o são.
Primeiro: em que sentido não são perfeitos. Não são perfeitos em conhecimento. Não estão livres da ignorância, nem tampouco do erro. Não devemos esperar que homem vivo algum seja infalível, assim como não esperamos que seja onisciente. Não estão livres de fraquezas, como a lentidão ou a debilidade do entendimento, a rapidez ou o peso irregular da imaginação; e, de outra espécie, a impropriedade da linguagem, a falta de graça na pronúncia — a que se poderiam somar mil defeitos sem nome, na conversa ou no comportamento. De fraquezas como essas ninguém está perfeitamente livre enquanto o seu espírito não voltar a Deus; nem podemos esperar, antes disso, ficar de todo livres da tentação, pois “o servo não é maior do que o seu senhor” (Mt 10.24). Também neste sentido não há perfeição absoluta na terra: não há perfeição de graus, nenhuma que não admita crescimento contínuo.
Segundo: em que sentido, então, são perfeitos? Note-se que não falamos agora dos recém-nascidos em Cristo, mas dos cristãos adultos. Ainda assim, mesmo os recém-nascidos em Cristo são perfeitos a ponto de não cometer pecado. Isso João afirma expressamente, e não se pode refutar com os exemplos do Antigo Testamento. Pois, ainda que os mais santos entre os antigos judeus às vezes tenham cometido pecado, daí não se pode inferir que todos os cristãos cometam e tenham de cometer pecado enquanto viverem.
Mas não diz a Escritura: “O justo peca sete vezes ao dia”? Não diz. Na verdade, diz: “O justo cai sete vezes” (Pv 24.16). Isso é bem diferente; pois, primeiro, as palavras “ao dia” não estão no texto; segundo, ali não se fala de cair em pecado, e sim de cair em aflição temporal.
Mas Salomão diz noutro lugar: “Não há homem que não peque” (1Rs 8.46). Sem dúvida era assim nos dias de Salomão; sim, e de Salomão a Cristo não houve homem que não pecasse. Mas, seja qual for o caso dos que estavam sob a lei, podemos afirmar com segurança, com João, que, desde que o evangelho foi dado, “aquele que é nascido de Deus não peca” (1Jo 3.9).
Os privilégios dos cristãos de modo algum se medem pelo que o Antigo Testamento registra dos que estavam sob a dispensação judaica; pois agora chegou a plenitude dos tempos, agora foi dado o Espírito Santo, agora a grande salvação de Deus é trazida aos homens pela revelação de Jesus Cristo. O reino dos céus está agora estabelecido na terra — e a respeito dele o Espírito de Deus declarou desde a antiguidade (tão longe está Davi de ser o padrão da perfeição cristã): “Naquele dia o que tropeçar entre eles será como Davi, e a casa de Davi será como o anjo do Senhor diante deles” (Zc 12.8).
Mas os próprios apóstolos cometeram pecado — Pedro, ao dissimular; Paulo, na acirrada discussão com Barnabé. Suponhamos que sim: você argumentará assim — “se dois dos apóstolos uma vez pecaram, então todos os demais cristãos, em todas as épocas, cometem e têm de cometer pecado enquanto viverem”? Não; Deus nos livre de falar assim. Nenhuma necessidade de pecar lhes foi imposta; a graça de Deus por certo lhes bastava. E basta para nós no dia de hoje.
Mas Tiago diz: “Todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2). É verdade; mas de quem se fala ali? Ora, daqueles “muitos mestres” a quem Deus não enviara — não do apóstolo, nem de qualquer cristão de fato. Que na palavra “nós”, usada por uma figura de linguagem comum a todos os escritos, o apóstolo não podia incluir a si mesmo nem a qualquer verdadeiro crente, vê-se, primeiro, pelo versículo 9: “Com ela bendizemos a Deus, e com ela maldizemos os homens.” Certamente não nós, apóstolos! Não nós, crentes! Segundo, pelas palavras que precedem o texto: “Meus irmãos, não sejais muitos mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo; porque todos tropeçamos em muitas coisas.” Nós, quem? Não os apóstolos nem os verdadeiros crentes, mas os que haviam de receber mais duro juízo por causa desses muitos tropeços. E, terceiro, o próprio versículo prova que “todos tropeçamos” não se pode dizer nem de todos os homens nem de todos os cristãos; pois logo em seguida se menciona um homem “que não tropeça” — em contraste declarado com o “nós” anterior — e a esse se chama “varão perfeito”.
Mas o próprio João diz: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos”; e: “Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1.8,10). Respondo: primeiro, o versículo 10 fixa o sentido do 8 — “dizer que não temos pecado” é explicado por “dizer que não pecamos”. Segundo, a questão em pauta não é se pecamos ou não no passado; e nenhum dos dois versículos afirma que pecamos, ou cometemos pecado, agora. Terceiro, o versículo 9 explica ambos: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). É como se dissesse: já afirmei que “o sangue de Cristo purifica de todo pecado”, e ninguém pode dizer “disso não preciso, não tenho pecado a purificar”. Se dissermos que não temos pecado, que não pecamos, enganamo-nos a nós mesmos e fazemos de Deus mentiroso; mas, se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo, não só para nos perdoar, mas também para nos purificar de toda injustiça, para que vamos e não pequemos mais. Em conformidade, pois, tanto com a doutrina de João quanto com todo o teor do Novo Testamento, fixamos esta conclusão: o cristão é perfeito a ponto de não cometer pecado.
Este é o glorioso privilégio de todo cristão, sim, ainda que seja apenas um recém-nascido em Cristo. Mas só dos cristãos maduros se pode afirmar que são perfeitos também num segundo sentido: livres de maus pensamentos e de más disposições. Primeiro, de pensamentos maus ou pecaminosos. De fato, de onde brotariam? “Do coração do homem”, se de algum lugar, “procedem os maus pensamentos” (Mc 7.21). Se, portanto, o coração já não é mau, então os maus pensamentos já não procedem dele, pois “a árvore boa não pode dar maus frutos” (Mt 7.18).
E, assim como são livres de maus pensamentos, também o são de más disposições. Cada um deles pode dizer, com Paulo: “Estou crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20) — palavras que descrevem claramente uma libertação tanto do pecado interior quanto do exterior. Isso se exprime negativamente — “já não vivo eu”, a minha natureza má, o corpo do pecado, está destruído — e positivamente: “Cristo vive em mim”, e portanto tudo o que é santo, justo e bom. Na verdade, esses dois — “Cristo vive em mim” e “já não vivo eu” — estão inseparavelmente ligados. Pois “que comunhão tem a luz com as trevas, ou Cristo com Belial?” (2Co 6.14-15).
Aquele, pois, que vive nesses cristãos “purificou os seus corações pela fé” (At 15.9), de tal modo que todo o que tem Cristo em si, “a esperança da glória”, “a si mesmo se purifica, como também ele é puro” (1Jo 3.3). É purificado do orgulho, pois Cristo era humilde de coração; é puro do desejo e da própria vontade, pois Cristo só desejava fazer a vontade do Pai; e é puro da ira, no sentido comum da palavra, pois Cristo era manso e humilde. Digo, no sentido comum da palavra; pois ele se ira contra o pecado, enquanto se entristece pelo pecador. Sente desagrado diante de toda ofensa a Deus, mas só terna compaixão pelo ofensor.
Assim Jesus salva o seu povo dos seus pecados — não só dos pecados exteriores, mas dos pecados do coração. “É verdade”, dizem alguns, “mas só na morte, não neste mundo.” Ora, João diz: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que tenhamos confiança no dia do juízo; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4.17). O apóstolo aqui, sem contestação possível, fala de si mesmo e de outros cristãos vivos, dos quais afirma abertamente que, não só na morte ou depois dela, mas neste mundo, são como o seu Mestre.
Em exato acordo com isto estão as suas palavras no primeiro capítulo: “Deus é luz, e não há nele treva alguma. Se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.5-7). E de novo: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” Ora, é evidente que o apóstolo fala aqui de uma libertação operada neste mundo, pois não diz que o sangue de Cristo purificará (na hora da morte ou no dia do juízo), mas que purifica, no tempo presente, a nós, cristãos vivos, de todo pecado. E é igualmente evidente que, se algum pecado permanece, não estamos purificados de todo pecado; se alguma injustiça permanece na alma, ela não está purificada de toda injustiça. E não diga ninguém que isso se refere apenas à justificação, ou à purificação da culpa do pecado: primeiro, porque isso seria confundir o que o apóstolo claramente distingue, ao mencionar antes “perdoar os pecados” e depois “purificar de toda injustiça”; segundo, porque isso seria afirmar a justificação pelas obras no sentido mais forte possível, tornando toda a santidade interior e exterior necessariamente anterior à justificação. Pois, se a purificação de que aqui se fala não fosse senão a da culpa, então não estaríamos purificados da culpa — isto é, não estaríamos justificados — a não ser sob a condição de andar “na luz, como ele na luz está”. Fica de pé, portanto: os cristãos são salvos neste mundo de todo pecado, de toda injustiça; são agora perfeitos, neste sentido, a ponto de não cometer pecado e de estar livres de maus pensamentos e más disposições.
Não podia deixar de ser que um discurso desse tipo, contradizendo diretamente a opinião predileta de muitos que eram tidos por outros — e talvez por si mesmos — como alguns dos melhores cristãos (quando, se essas coisas fossem assim, não seriam cristãos de modo algum), causasse não pouca ofensa. Muitas respostas ou reparos, portanto, eram de esperar; mas fui agradavelmente surpreendido: não sei que algum tenha aparecido; e assim segui tranquilo o meu caminho.
13. Não muito depois, creio que na primavera de 1741, publicamos um segundo volume de Hinos. Como a doutrina ainda era muito mal compreendida e, por consequência, mal representada, julguei necessário explicar ainda mais o ponto, o que se fez no prefácio, assim:
Este grande dom de Deus, a salvação das nossas almas, não é senão a imagem de Deus recém-gravada em nossos corações. É uma renovação dos crentes “no espírito da sua mente, à semelhança daquele que os criou” (Cl 3.10; Ef 4.23-24). Deus pôs agora “o machado à raiz da árvore” (Mt 3.10), “purificando os seus corações pela fé” (At 15.9) e limpando todos os pensamentos do seu coração pela inspiração do seu Santo Espírito. Tendo esta esperança, de que hão de ver a Deus como ele é, “a si mesmos se purificam, como também ele é puro” (1Jo 3.3), e são santos, como é santo aquele que os chamou, em todo o seu procedimento (1Pe 1.15). Não que já tenham alcançado tudo o que hão de alcançar, ou que já sejam, neste sentido, perfeitos. Mas cada dia avançam “de força em força” (Sl 84.7); contemplando agora, como por espelho, a glória do Senhor, “são transformados de glória em glória, na mesma imagem, pelo Espírito do Senhor” (2Co 3.18).
E “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17) — tal liberdade “da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2) que os filhos deste mundo não creem, ainda que se lha declare. O Filho libertou (Jo 8.36) os que assim são nascidos de Deus daquela grande raiz de pecado e amargura que é o orgulho. Sentem que “toda a sua suficiência vem de Deus” (2Co 3.5), que só ele está em todos os seus pensamentos e “opera neles tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13). Sentem que não são eles que falam, “mas o Espírito” do seu Pai “que fala” neles (Mt 10.20), e que tudo o que é feito por suas mãos, “o Pai que neles está, ele é quem faz as obras” (Jo 14.10). De modo que Deus é para eles tudo em todos, e eles nada são aos olhos dele. São livres da própria vontade, nada desejando senão a santa e perfeita vontade de Deus; não o suprimento na falta, não o alívio na dor (nota posterior de Wesley: isto é forte demais; o próprio Senhor desejou alívio na dor — pediu-o, mas com resignação: “Não como eu quero”, e sim “como tu queres”), nem a vida, nem a morte, nem criatura alguma, mas clamando continuamente no mais íntimo da alma: “Pai, faça-se a tua vontade.” São livres de maus pensamentos, de modo que não podem consenti-los, nem por um momento. Antes, quando um mau pensamento entrava, eles erguiam o olhar, e ele se esvaía. Mas agora ele não entra, pois não há lugar para isso numa alma cheia de Deus. São livres de divagações na oração: sempre que derramam o coração de modo mais imediato diante de Deus, não pensam em nada passado (nota posterior de Wesley: isto é forte demais; veja o sermão “Sobre os Pensamentos Errantes”), ausente ou por vir, mas só em Deus. No passado, tinham pensamentos errantes que se lhes disparavam e depois fugiam como fumaça; mas agora essa fumaça já não se levanta. Não têm medo nem dúvida, seja quanto ao seu estado em geral, seja quanto a qualquer ação particular (nota posterior de Wesley: muitas vezes é assim, mas só por um tempo). “A unção do Santo” (1Jo 2.20) os ensina a cada hora o que hão de fazer e o que hão de falar (nota posterior de Wesley: por um tempo pode ser assim, mas nem sempre); nem têm, portanto, necessidade de raciocinar sobre isso (nota posterior de Wesley: às vezes não têm; outras vezes têm). Num sentido, são livres das tentações; pois, embora inúmeras tentações voem à sua volta, não os perturbam (nota posterior de Wesley: às vezes não os perturbam; outras vezes sim, e gravemente). Em todo tempo as suas almas estão firmes e calmas, os seus corações estáveis e inabaláveis. A sua paz, correndo como um rio, “excede todo o entendimento” (Fp 4.7), e eles “se alegram com gozo inefável e cheio de glória” (1Pe 1.8). Pois “estão selados pelo Espírito para o dia da redenção” (Ef 4.30), tendo em si mesmos o testemunho de que lhes está guardada “a coroa da justiça, que o Senhor” lhes “dará naquele dia” (2Tm 4.8) (nota posterior de Wesley: nem todos os que são salvos do pecado; muitos deles ainda não a alcançaram).
Não que todos sejam filhos do diabo até serem assim renovados no amor; pelo contrário, todo aquele que tem firme confiança em Deus de que, pelos méritos de Cristo, os seus pecados estão perdoados, esse é filho de Deus e, se nele permanecer, herdeiro de todas as promessas. Nem deve, de modo algum, lançar fora a sua confiança, ou negar a fé que recebeu, por ela ser fraca, ou por ser “provada pelo fogo” (1Pe 1.7), de sorte que a sua alma esteja abatida “por meio de várias tentações” (1Pe 1.6).
Tampouco ousamos afirmar, como alguns têm feito, que toda essa salvação é dada de uma só vez. Há, de fato, tanto uma obra instantânea quanto uma obra gradual de Deus nos seus filhos; e não falta, bem o sabemos, uma nuvem de testemunhas que receberam, num só momento, ou um claro senso do perdão dos seus pecados, ou o testemunho permanente do Espírito Santo. Mas não conhecemos um só caso, em lugar algum, de pessoa que tenha recebido, num só e mesmo momento, a remissão dos pecados, o testemunho permanente do Espírito e um coração novo e puro.
Na verdade, como Deus há de operar, não sabemos dizer; mas a maneira geral pela qual ele opera é esta: os que outrora confiavam em si mesmos, tendo-se por justos, por ricos, abastados e sem falta de nada, são, pela aplicação da palavra pelo Espírito de Deus, convencidos de que são “pobres e nus” (Ap 3.17). Todas as coisas que fizeram lhes vêm à lembrança e se dispõem diante deles, de modo que veem a ira de Deus pairando sobre a sua cabeça e sentem que merecem a condenação do inferno. Na sua aflição clamam ao Senhor, e ele lhes mostra que tirou os seus pecados, e abre em seus corações o reino dos céus, “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). A tristeza e a dor fogem, e o pecado já “não tem domínio sobre eles” (Rm 6.14). Sabendo que são justificados gratuitamente pela fé no seu sangue, “têm paz com Deus por meio de Jesus Cristo” (Rm 5.1); gloriam-se “na esperança da glória de Deus” (Rm 5.2), e “o amor de Deus é derramado nos seus corações” (Rm 5.5).
Nessa paz permanecem por dias, semanas ou meses, e em geral supõem que já não conhecerão guerra; até que alguns dos seus velhos inimigos, os pecados que lhes eram mais caros, ou o pecado que “tão de perto os rodeava” (Hb 12.1) — talvez a ira ou o desejo —, os assaltem de novo e os apertem com força, para que caiam. Então surge o temor de que não perseverarão até o fim, e muitas vezes a dúvida se Deus não os teria esquecido, ou se não se enganaram ao pensar que os seus pecados estavam perdoados. Sob essas nuvens, sobretudo se raciocinam com o diabo, andam pranteando o dia todo. Mas raramente demora até que o seu Senhor responda por si mesmo, enviando-lhes o Espírito Santo para os consolar, para testemunhar continuamente com o seu espírito que são filhos de Deus. Então são de fato mansos, brandos e ensináveis, como uma criancinha. E só então veem o fundo do próprio coração (nota posterior de Wesley, de 1765: não é de admirar que, existindo este livro, publicado vinte e quatro anos atrás, alguém me queira sustentar na cara que isto é doutrina nova, que nunca antes ensinei?), que Deus antes não lhes quisera descobrir, para que a alma não desfalecesse diante dele. Agora veem ali todas as abominações escondidas, as profundezas do orgulho, da própria vontade e do inferno; e, contudo, permanece neles o testemunho: “És herdeiro de Deus, coerdeiro de Cristo, mesmo no meio desta prova de fogo” — o que continuamente aumenta tanto o forte senso que então têm da sua incapacidade de se ajudarem a si mesmos, quanto a fome inexprimível que sentem de uma plena renovação à imagem dele, “em justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.24). Então Deus atende ao desejo dos que o temem, e lhes dá um olhar simples e um coração puro; grava neles a sua própria imagem e inscrição; cria-os de novo em Cristo Jesus; vem a eles com o seu Filho e o seu bendito Espírito e, fixando morada em suas almas, os introduz “no repouso que resta para o povo de Deus” (Hb 4.9).
Aqui não posso deixar de observar, primeiro, que este é o relato mais forte que jamais demos da perfeição cristã — forte demais, na verdade, em mais de um ponto, como se nota nas observações anexadas; e, segundo, que não há nada que desde então tenhamos apresentado sobre o assunto, em verso ou em prosa, que não esteja, direta ou indiretamente, contido neste prefácio. De modo que, esteja certa ou errada a nossa doutrina de hoje, ela é a mesma que ensinamos desde o princípio.
14. Não preciso multiplicar citações do próprio volume para comprová-lo. Basta citar parte de um só hino, o último daquele volume:
Senhor, eu creio que resta um repouso,
conhecido de todo o teu povo;
um repouso onde reina o puro gozo,
e só a ti se ama;
um repouso em que todo o desejo da alma
está fixo nas coisas do alto;
onde a dúvida, a dor e o medo expiram,
lançados fora pelo amor perfeito.
Livres de todo mau impulso
(o Filho nos libertou),
sobre todos os poderes do inferno pisamos,
em gloriosa liberdade.
Seguros no caminho da vida, acima
da morte, da terra e do inferno nos erguemos;
achamos, quando aperfeiçoados no amor,
o paraíso que tanto buscamos.
Ah, que eu conheça agora esse repouso,
que eu creia e nele entre!
Agora, Salvador, concede-me o poder,
e faze-me cessar de pecar!
Tira do meu coração esta dureza,
remove esta incredulidade;
dá-me o repouso da fé,
o sábado do teu amor.
Vem, ó meu Salvador, vem depressa,
desce à minha alma!
Não te demores mais longe da tua criatura,
meu autor e meu fim.
A bem-aventurança que me preparaste,
não seja mais adiada;
vem, ó meu grandíssimo galardão,
para quem primeiro fui feito.
Vem, Pai, Filho e Espírito Santo,
e sela-me como tua morada!
Que tudo o que sou em ti se perca;
que tudo se perca em Deus!
Pode haver algo mais claro do que isto? Primeiro, que também aqui está uma salvação tão plena e alta quanto qualquer outra de que jamais falamos; segundo, que ela é apresentada como recebível pela simples fé, e impedida apenas pela incredulidade; terceiro, que essa fé — e, por consequência, a salvação que ela traz — é apresentada como dada num instante; quarto, que se supõe que esse instante pode ser agora, que não precisamos esperar mais um momento, que “agora”, o próprio agora, “é o tempo aceitável, agora é o dia” desta plena “salvação” (2Co 6.2). E, por fim, que, se alguém fala de outro modo, é essa pessoa quem traz doutrina nova entre nós.
15. Cerca de um ano depois, isto é, em 1742, publicamos outro volume de Hinos. Estando a controvérsia agora no auge, tratamos do assunto mais amplamente do que nunca. Por isso, boa parte dos hinos deste volume trata expressamente do tema — e assim faz também o prefácio, que, por ser breve, não será demais inserir por inteiro:
Primeiro. Talvez o preconceito geral contra a perfeição cristã venha, sobretudo, de uma compreensão equivocada da sua natureza. De boa vontade admitimos, e continuamente declaramos, que não há nesta vida perfeição que implique dispensa de fazer o bem e de participar de todas as ordenanças de Deus, nem liberdade da ignorância, do erro, da tentação e de mil fraquezas necessariamente ligadas à carne e ao sangue.
Assim, primeiro: não só admitimos, mas insistimos com ardor, que não há nesta vida perfeição que dispense alguém de participar de todas as ordenanças de Deus, ou de “fazer o bem a todos, enquanto temos tempo, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.10). Cremos que não só os recém-nascidos em Cristo, que há pouco acharam redenção no seu sangue, mas também os que cresceram até se tornarem “homens perfeitos” (Ef 4.13), estão indispensavelmente obrigados, tantas vezes quantas tiverem oportunidade, a “comer o pão e beber o vinho em memória dele” (1Co 11.24-25), a “examinar as Escrituras” (Jo 5.39), a — pelo jejum, tanto quanto pela temperança — “subjugar o corpo e reduzi-lo à servidão” (1Co 9.27) e, acima de tudo, a derramar a alma em oração, tanto em secreto quanto na grande congregação.
Segundo: cremos que não há nesta vida perfeição que implique inteira libertação, seja da ignorância ou do erro em coisas não essenciais à salvação, seja de múltiplas tentações, seja de inúmeras fraquezas com que o corpo corruptível mais ou menos oprime a alma. Não achamos fundamento algum na Escritura para supor que algum morador de uma “casa de barro” (Jó 4.19) esteja de todo isento de enfermidades do corpo ou da ignorância de muitas coisas, nem para imaginar que alguém seja incapaz de errar ou de cair em diversas tentações.
Mas quem, então, você entende por “alguém que é perfeito”? Entendemos aquele em quem está “a mente que houve em Cristo” (Fp 2.5), e que “anda como ele andou” (1Jo 2.6); “o que tem mãos limpas e coração puro” (Sl 24.4), ou que está “purificado de toda impureza da carne e do espírito” (2Co 7.1); um em quem “não há tropeço” (1Jo 2.10) e que, por isso, “não comete pecado” (1Jo 3.9). Para dizê-lo com mais precisão: entendemos, por essa expressão bíblica “homem perfeito”, aquele em quem Deus cumpriu a sua palavra fiel: “De todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos vos purificarei; também vos salvarei de todas as vossas impurezas” (Ez 36.25,29). Entendemos aquele a quem Deus “santificou plenamente em corpo, alma e espírito” (1Ts 5.23); aquele que anda “na luz, como ele na luz está, e nele não há treva alguma, tendo o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, o purificado de todo pecado” (1Jo 1.7).
Esse homem pode agora testemunhar a toda a humanidade: “Estou crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). É santo, como é santo aquele que o chamou (1Pe 1.15), tanto no coração quanto em todo o seu procedimento. Ama o Senhor, seu Deus, de todo o coração, e o serve com todas as forças. Ama o próximo, cada ser humano, como a si mesmo; sim, “como Cristo nos amou” (Jo 13.34) — e, em particular, os que o maltratam e perseguem, porque não conhecem nem o Filho nem o Pai. De fato, a sua alma é toda amor, cheia de “entranhas de misericórdia, de benignidade, mansidão, brandura e longanimidade” (Cl 3.12). E a sua vida corresponde a isso, cheia da “obra da fé, da paciência da esperança, do trabalho do amor” (1Ts 1.3). E tudo o que faz, “por palavra ou por obra, faz em nome” (Cl 3.17), no amor e no poder, “do Senhor Jesus”. Numa palavra, faz a vontade de Deus na terra, como se faz no céu.
Isto é ser homem perfeito: ser “santificado plenamente” (1Ts 5.23), ter um coração de tal modo em chamas com o amor de Deus (para usar as palavras do arcebispo Usher) que continuamente ofereça cada pensamento, palavra e obra como sacrifício espiritual, agradável a Deus por meio de Cristo; em cada pensamento do coração, em cada palavra da língua, em cada obra das mãos, anunciar o louvor daquele “que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). Oxalá tanto nós quanto todos os que buscam o Senhor Jesus com sinceridade sejamos assim “aperfeiçoados na unidade” (Jo 17.23)!
Esta é a doutrina que pregamos desde o princípio e que pregamos no dia de hoje. É verdade que, examinando-a sob todos os ângulos e comparando-a repetidas vezes com a palavra de Deus, de um lado, e com a experiência dos filhos de Deus, de outro, vimos mais fundo na natureza e nas propriedades da perfeição cristã. Mas não há contrariedade alguma entre os nossos primeiros e os nossos últimos sentimentos. A nossa primeira concepção dela era: ter “a mente que houve em Cristo” e “andar como ele andou” — ter toda a mente que houve nele e andar sempre como ele andou; por outras palavras, ser interior e exteriormente devotado a Deus, todo devotado no coração e na vida. E é a mesma concepção que dela temos agora, sem acréscimo nem diminuição.
16. Os hinos sobre o tema neste volume são numerosos demais para transcrever. Citarei apenas parte de três:
Salvador do pecado, espero provar
que Jesus é o teu nome que sara;
perder, quando aperfeiçoado no amor,
tudo o que tenho, ou posso, ou sou;
firmo-me na tua palavra fiel:
“O servo será como o seu Senhor.”
Cumpre em mim aquele bondoso fim
para o qual foi dada a tua preciosa vida;
resgata-me de toda iniquidade,
restaura-me e faze-me próprio para o céu.
Se não purgares cada mancha minha,
vão é o teu sofrimento e vã a minha fé.
Não morreste tu para que eu vivesse,
não mais para mim, mas para ti?
Para que corpo, alma e espírito eu desse
Àquele que a si mesmo se deu por mim?
Vem, então, meu Mestre e meu Deus,
toma o caro resgate do teu sangue.
Reivindica o teu servo peculiar,
por amor da tua verdade e misericórdia;
santifica em mim o teu glorioso nome;
toma-me como teu neste instante;
e muda-me e purifica-me por completo;
só teu eu viva e morra.
E ainda:
Escolhido do mundo, se agora estou de pé,
adornado de justiça divina;
se, trazido à terra prometida,
com razão chamo meu o Salvador —
derrama o Espírito santificador,
para saciar-me a sede e lavar-me;
agora, Salvador, desça a chuva bondosa,
e faze-me puro do pecado.
Purga-me de toda nódoa pecaminosa;
sejam lançados fora todos os meus ídolos;
limpa-me de todo mau pensamento,
de toda a imundície do eu e do orgulho.
O ódio da mente carnal
tira de uma vez da minha carne;
dá-me um coração terno, rendido,
e puro, e cheio de fé e amor.
Ah, que eu agora, do pecado liberto,
prove a tua palavra até o fim,
entre no teu repouso prometido,
a Canaã do teu amor perfeito!
Que eu alcance agora o cume da perfeição!
Que eu me reduza a nada;
seja menos que nada aos meus olhos,
e sinta que Cristo é tudo em todos.
Mais uma vez:
Senhor, eu creio: a tua obra de graça
é perfeita na alma;
puro é o coração que vê a tua face,
e o seu espírito é curado.
De toda enfermidade, pela tua palavra,
de toda doença imunda,
salvo e restaurado à perfeita saúde,
à perfeita santidade;
ele anda em gloriosa liberdade,
inteiramente morto ao pecado;
a Verdade, o Filho, o libertou,
e ele é livre de fato.
Por toda a sua alma brilham as tuas glórias,
a sua alma está toda renovada,
ornada de justiça divina,
vestida e cheia de Deus.
Este é o repouso, a vida, a paz,
que todo o teu povo experimenta;
o amor é o vínculo da perfeição,
e toda a sua alma é amor.
Ó alegre som da graça do evangelho!
Cristo há de aparecer em mim;
eu, sim, eu, verei a sua face,
serei santo aqui!
Ele visita agora a casa de barro,
sacode a sua futura morada;
ah, quisesses tu, Senhor, neste dia feliz,
entrar no teu templo!
Vem, ó meu Deus, revela-te a ti mesmo,
enche todo este imenso vazio;
só tu podes encher o meu espírito;
vem, ó meu Deus, meu Deus!
Cumpre, cumpre os meus largos desejos,
largos como a infinidade!
Dá, dá-me tudo o que a minha alma requer,
tudo, tudo o que há em ti!
17. Na segunda-feira, 25 de junho de 1744, teve início a nossa Primeira Conferência, estando presentes seis clérigos e todos os nossos pregadores. Na manhã seguinte, consideramos com seriedade a doutrina da santificação, ou perfeição. As perguntas feitas a respeito, e o essencial das respostas dadas, foram estas:
Pergunta. Que é ser santificado?
Resposta. É ser “renovado à imagem de Deus, em justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.24).
P. O que está implícito em ser um cristão perfeito?
R. Amar a Deus de todo o coração, de todo o entendimento e de toda a alma (Dt 6.5).
P. Isso implica que todo pecado interior é tirado?
R. Sem dúvida; ou como se poderia dizer que fomos “salvos de todas as nossas impurezas” (Ez 36.29)?
A nossa Segunda Conferência começou em 1º de agosto de 1745. Na manhã seguinte, falamos da santificação assim:
P. Quando começa a santificação interior?
R. No momento em que a pessoa é justificada. (Ainda assim, o pecado permanece nela — sim, a semente de todo pecado — até que seja plenamente santificada.) Desde então, o crente morre gradualmente para o pecado e cresce na graça.
P. Isso é dado, em geral, só pouco antes da morte?
R. É, para os que não o esperam mais cedo.
P. Mas podemos esperá-lo mais cedo?
R. Por que não? Pois, ainda que admitamos, primeiro, que a maioria dos crentes que até aqui conhecemos não foi assim santificada senão perto da morte; segundo, que poucos daqueles a quem Paulo escreveu as suas cartas o eram àquele tempo; e, terceiro, que nem ele mesmo o era ao escrever as suas primeiras cartas — nada disso prova que não possamos sê-lo hoje.
P. De que maneira devemos pregar a santificação?
R. Quase nada aos que não avançam; aos que avançam, sempre em forma de promessa; sempre atraindo, mais do que empurrando.
A nossa Terceira Conferência começou na terça-feira, 13 de maio de 1746. Nela relemos com cuidado as atas das duas anteriores, para ver se algo poderia ser cortado ou alterado após reflexão mais madura; mas não vimos razão para mudar coisa alguma do que havíamos acordado.
A nossa Quarta Conferência começou na terça-feira, 16 de junho de 1747. Como estavam presentes várias pessoas que não criam na doutrina da perfeição, resolvemos examiná-la desde o fundamento. Para isso, perguntou-se:
P. Quanto concedem os nossos irmãos que de nós divergem quanto à inteira santificação?
R. Concedem, primeiro, que todos hão de ser inteiramente santificados na hora da morte; segundo, que, até lá, o crente cresce diariamente na graça, chegando cada vez mais perto da perfeição; terceiro, que devemos buscá-la continuamente e exortar todos os demais a fazê-lo.
P. E o que lhes concedemos nós?
R. Concedemos, primeiro, que muitos dos que morreram na fé — sim, a maior parte dos que conhecemos — não foram aperfeiçoados no amor senão pouco antes de morrer; segundo, que o termo “santificado” é continuamente aplicado por Paulo a todos os que eram justificados; terceiro, que, por esse termo sozinho, ele raramente, se é que alguma vez, quer dizer “salvo de todo pecado”; quarto, que, por consequência, não é próprio usá-lo nesse sentido sem acrescentar a palavra “plenamente”, “inteiramente” ou semelhante; quinto, que os escritores inspirados falam quase sempre dos que eram justificados, ou a eles, mas muito raramente dos que eram plenamente santificados, ou a eles (nota de Wesley: isto é, apenas a eles, com exclusão dos outros; mas, junto com os outros, falam-lhes quase o tempo todo); sexto, que, por consequência, nos convém falar quase sempre do estado de justificação, e mais raramente (nota de Wesley: mais raramente, admito; mas, ainda assim, em alguns lugares muito frequente, forte e explicitamente), ao menos em termos plenos e explícitos, da inteira santificação.
P. Qual é, então, o ponto em que nos dividimos?
R. É este: devemos esperar ser salvos de todo pecado antes da hora da morte?
P. Há alguma promessa clara da Escritura de que Deus nos salvará de todo pecado?
R. Há: “Ele redimirá Israel de todas as suas iniquidades” (Sl 130.8). Isso se exprime mais amplamente na profecia de Ezequiel: “Então, aspergirei água pura sobre vós, e ficareis purificados; de todas as vossas imundícies e de todos os vossos ídolos vos purificarei… e vos salvarei de todas as vossas impurezas” (Ez 36.25,29). Não há promessa mais clara. E a ela se refere claramente o apóstolo naquela exortação: “Tendo, pois, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza da carne e do espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Igualmente clara e expressa é aquela antiga promessa: “O Senhor, teu Deus, circuncidará o teu coração e o coração da tua descendência, para amares o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração e de toda a tua alma” (Dt 30.6).
P. Mas ocorre no Novo Testamento alguma afirmação equivalente a esta?
R. Ocorre, e posta nos termos mais claros. Assim, em 1João 3.8: “Para isto o Filho de Deus se manifestou: para destruir as obras do diabo” — as obras do diabo, sem limitação nem restrição; ora, todo pecado é obra do diabo. Paralela é a afirmação de Paulo: “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela… para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível” (Ef 5.25-27). No mesmo sentido está a sua afirmação em Romanos 8: “Deus enviou o seu Filho… para que a justa exigência da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.3-4).
P. O Novo Testamento oferece algum outro fundamento para esperar ser salvo de todo pecado?
R. Sem dúvida, tanto naquelas orações quanto naqueles mandamentos que equivalem às mais fortes afirmações.
P. Que orações você quer dizer?
R. Orações pela inteira santificação, que, se tal coisa não existisse, seriam mero escárnio de Deus. Tais são, em particular: primeiro, “Livra-nos do mal” (Mt 6.13); ora, quando isso é feito, quando somos livres de todo mal, não pode restar pecado. Segundo: “E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim… para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti… para que sejam perfeitos na unidade” (Jo 17.20-23). Terceiro: “…dobro os joelhos diante do Pai de nosso Senhor Jesus Cristo… para que… estando arraigados e alicerçados em amor, possais compreender, com todos os santos, qual seja a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.14ss). Quarto: “E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).
P. Que mandamento há no mesmo sentido?
R. Primeiro: “Sede vós perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial” (Mt 5.48). Segundo: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento” (Mt 22.37). Ora, se o amor de Deus enche todo o coração, não pode haver ali pecado.
P. Mas como se mostra que isso deve ser feito antes da hora da morte?
R. Primeiro, pela própria natureza de um mandamento, que não é dado aos mortos, mas aos vivos. Portanto, “amarás a Deus de todo o teu coração” não pode significar “farás isto quando morreres”, mas “enquanto viveres”. Segundo, por textos expressos da Escritura: “A graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos… sóbria, justa e piedosamente neste presente século, aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniquidade e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tt 2.11-14). E ainda: “…suscitou para nós plena e poderosa salvação… para conceder-nos que, libertados da mão de inimigos, o adorássemos sem temor, em santidade e justiça perante ele, todos os nossos dias” (Lc 1.69ss).
P. Há na Escritura algum exemplo de pessoas que tenham alcançado isto?
R. Sim: o apóstolo João, e todos aqueles de quem ele diz: “Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que tenhamos confiança no dia do juízo; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo” (1Jo 4.17).
P. Pode você apontar um exemplo desses agora? Onde está o que assim é perfeito?
R. A alguns que fazem essa pergunta poder-se-ia responder: se eu conhecesse um aqui, não lho diria, pois você não pergunta por amor. Você é como Herodes: só procura o menino para o matar. Mas, mais diretamente, respondemos: há muitas razões para que haja poucos, ou nenhum, exemplo indiscutível. Que inconvenientes traria isso à própria pessoa, posta como alvo para todos atirarem! E que inútil seria para os contestadores! Pois, “se não ouvem Moisés e os profetas”, Cristo e os seus apóstolos, “tampouco se deixarão persuadir, ainda que alguém dentre os mortos ressuscite” (Lc 16.31).
P. Não somos propensos a sentir um secreto desagrado por quem diga estar salvo de todo pecado?
R. É bem possível que sim, e por vários motivos: em parte, por zelo pelo bem das almas, que podem ser prejudicadas se essas pessoas não forem o que professam; em parte, por uma espécie de inveja implícita dos que falam de conquistas mais altas que as nossas; e, em parte, pela nossa natural lentidão e má disposição do coração para crer nas obras de Deus.
P. Por que não podemos continuar na alegria da fé até sermos aperfeiçoados no amor?
R. Por que não, de fato? Visto que a tristeza santa não apaga essa alegria; visto que, mesmo debaixo da cruz, mesmo quando participamos profundamente dos sofrimentos de Cristo, podemos “alegrar-nos com gozo inefável”.
Por esses extratos aparece de modo inegável não só qual era o meu juízo e o de meu irmão, mas o de todos os pregadores ligados a nós, nos anos de 1744, 45, 46 e 47. Nem me lembro de que, em qualquer dessas conferências, tenhamos tido uma só voz dissidente; mas, quaisquer que fossem as dúvidas de alguém ao nos reunirmos, todas se dissipavam antes de nos separarmos.
18. No ano de 1749, meu irmão imprimiu dois volumes de Hinos e Poemas Sagrados. Como não os vi antes de serem publicados, havia neles algumas coisas que eu não aprovava. Mas aprovei plenamente o essencial dos hinos sobre este ponto, alguns dos quais reproduzo em parte:
Vem, Senhor, manifesta-te aqui,
e destrói todas as obras do diabo;
agora, sem pecado, aparece em mim,
e enche-me de eterna alegria;
mostra a tua face bem-aventurada;
a tua presença é o dia perfeito.Vem depressa em meu socorro,
apodera-te do que é teu neste instante;
recolhe ao lar o meu espírito errante,
e guarda-o em perfeita paz.
Não mais permitido a vagar
por toda a terra afora,
prende o cativo do teu amor,
e encerra-me em Deus!Solta os teus cativos, concede-nos a tua paz;
e as nossas tristezas e pecados num instante hão de cessar.
Seja esse instante agora! Atende à nossa súplica,
tu, nosso presente Redentor e Consolador!Livra-me deste pecado que trago em mim;
seja agora quebrado o jugo;
faze-me teu para sempre.
Participante da tua perfeita natureza,
que eu seja, agora, em ti,
criatura nova e sem pecado.Converte-me, Senhor, e converte-me agora,
ao teu jugo curve-se o meu espírito;
concede-me agora achar a pérola
de uma mente mansa e tranquila.
Acalma, ó acalma o meu peito perturbado;
que eu alcance aquele segundo repouso:
que eu cesse para sempre das minhas obras,
aperfeiçoado na santidade.Vem nesta hora aceitável,
faze entrar o teu reino celestial!
Enche-nos do teu glorioso poder,
arrancando as sementes do pecado.Vem, ó amado Cordeiro, morto pelos pecadores,
traze a inundação que purifica;
aplica, para lavar toda mancha,
o teu sangue eficaz.
Ah, que ele penetre a nossa alma
tão fundo quanto o pecado que nos é inato;
faze inteiro todo espírito ferido,
e limpo todo leproso!Cativos da esperança, levantai-vos,
e vede aparecer o vosso Senhor;
eis que, nas asas do amor, ele voa,
e traz perto a redenção.
A redenção no seu sangue
ele vos chama a receber:
“Vinde a mim, o Deus que perdoa;
crede”, ele clama, “crede!”
Jesus, para ti olhamos,
até sermos salvos dos restos do pecado,
rejeitando o jugo do tirano que nos habita,
e lançando fora as suas cadeias.
A nossa natureza não terá mais
domínio sobre nós:
pela fé nos apossamos do poder
que há de salvar para sempre.Jesus, nossa vida, aparece em nós,
que cada dia morremos a tua morte;
revela-te como o consumador;
sopra o teu Espírito vivificador!
Desvenda o mistério oculto,
concede o segundo dom;
revela o teu glorioso ser em mim,
em todo coração que espera.Nele temos paz, nele temos poder!
Guardados pela sua graça em toda hora escura,
em toda tentação ele nos sustém, para provar
a sua plena salvação, a sua plenitude de amor.
Pronuncia a palavra alegre, e manda-nos ser livres!
Ah, não terás, Senhor, uma bênção para mim?
A paz que deste, concede-a neste instante,
e abre o teu céu, ó Amor, em meu coração!
Uma segunda edição desses hinos foi publicada em 1752, e isso sem outra alteração além da correção de alguns erros de impressão.
Estendi-me mais nestes extratos porque deles aparece, além de toda objeção possível, que até o dia de hoje tanto eu quanto meu irmão sustentamos: primeiro, que a perfeição cristã é aquele amor de Deus e do próximo que implica a libertação de todo pecado; segundo, que ela é recebida unicamente pela fé; terceiro, que é dada instantaneamente, num só momento; quarto, que devemos esperá-la, não na morte, mas a cada momento — que agora é o tempo aceitável, agora é o dia desta salvação.
19. Na Conferência do ano de 1759, percebendo o perigo de que uma diversidade de opiniões se insinuasse aos poucos entre nós, consideramos de novo, amplamente, esta doutrina; e pouco depois publiquei os Pensamentos sobre a Perfeição Cristã, com a seguinte advertência:
O tratado a seguir de modo algum se destina a satisfazer a curiosidade de ninguém. Não pretende provar a doutrina por extenso, contra os que a rejeitam e ridicularizam, nem responder às numerosas objeções que se lhe podem fazer, mesmo por parte de homens sérios. Tudo o que aqui pretendo é simplesmente declarar quais são os meus sentimentos sobre o assunto: o que a perfeição cristã, no meu entender, inclui e o que não inclui; e acrescentar algumas observações e orientações práticas. Como estes pensamentos foram, de início, dispostos em forma de pergunta e resposta, deixo-os na mesma forma. São exatamente os mesmos que sustento há mais de vinte anos.
P. Que é a perfeição cristã?
R. Amar a Deus de todo o coração, entendimento, alma e forças. Isso implica que nenhuma disposição má, nenhuma contrária ao amor, permanece na alma, e que todos os pensamentos, palavras e ações são governados pelo puro amor.
P. Você afirma que essa perfeição exclui toda fraqueza, ignorância e erro?
R. Afirmo continuamente o exato contrário, e sempre o fiz.
P. Mas como pode todo pensamento, palavra e obra ser governado pelo puro amor e, ao mesmo tempo, estar o homem sujeito à ignorância e ao erro?
R. Não vejo aqui contradição alguma: uma pessoa pode estar cheia de puro amor e ainda assim sujeita a errar. De fato, não espero ser livre de erros concretos enquanto este corpo mortal não se revestir da imortalidade. Creio que isso é consequência natural de a alma habitar em carne e sangue. Pois não podemos, agora, sequer pensar senão pela mediação desses órgãos corporais, que sofreram tanto quanto o resto da nossa estrutura; e daí não podemos evitar pensar errado às vezes, até que este corpo corruptível se revista da incorrupção. Podemos ir ainda mais longe: um erro de juízo pode ocasionar um erro na prática. Por exemplo: o engano do sr. De Renty quanto à natureza da mortificação, nascido de um preconceito de formação, ocasionou aquele erro prático de usar um cinto de ferro. E mil casos assim pode haver, mesmo nos que estão no mais alto estado de graça. Contudo, onde toda palavra e ação brota do amor, tal erro não é propriamente pecado. Ainda assim, não pode suportar o rigor da justiça de Deus, mas precisa do sangue que expia.
P. Qual foi o juízo de todos os nossos irmãos reunidos em Bristol, em agosto de 1758, sobre este ponto?
R. Foi expresso nestas palavras: primeiro, todo homem pode errar enquanto viver; segundo, um erro de opinião pode ocasionar um erro na prática; terceiro, todo erro desses é uma transgressão da lei perfeita; portanto, quarto, todo erro desses, não fosse o sangue da expiação, exporia à condenação eterna; quinto, segue-se que os mais perfeitos têm contínua necessidade dos méritos de Cristo, mesmo por suas transgressões concretas, e podem dizer, por si mesmos como por seus irmãos: “Perdoa-nos as nossas dívidas.”
Isso explica com facilidade o que de outro modo pareceria inexplicável: que os mesmos que não se ofendem quando falamos do mais alto grau de amor não suportam, contudo, ouvir falar em viver sem pecado. A razão é que sabem que todos os homens estão sujeitos a errar, tanto na prática quanto no juízo; mas não sabem, ou não observam, que isso não é pecado, se o amor é o único princípio da ação.
P. Mas, ainda assim, se vivem sem pecado, isso não exclui a necessidade de um Mediador? Ao menos, não é claro que já não precisam de Cristo no seu ofício sacerdotal?
R. Longe disso. Ninguém sente a sua necessidade de Cristo como estes; ninguém depende dele tão inteiramente. Pois Cristo não dá vida à alma à parte de si mesmo, mas nele e com ele. Por isso as suas palavras são igualmente verdadeiras de todos os homens, em qualquer estado de graça em que estejam: “Como o ramo de si mesmo não pode dar fruto, se não permanecer na videira, assim, nem vós o podeis dar, se não permanecerdes em mim… sem mim” (ou separados de mim) “nada podeis fazer” (Jo 15.4-5).
Em todo estado precisamos de Cristo nestes aspectos: primeiro, toda graça que recebemos é dom gratuito dele; segundo, recebemo-la como compra dele, apenas em consideração ao preço que pagou; terceiro, temos essa graça não só de Cristo, mas nele — pois a nossa perfeição não é como a de uma árvore, que floresce pela seiva tirada da própria raiz, mas, como se disse, como a de um ramo que, unido à videira, dá fruto, mas, separado dela, seca e murcha; quarto, todas as nossas bênçãos — temporais, espirituais e eternas — dependem da sua intercessão por nós, que é um ramo do seu ofício sacerdotal, de que, portanto, sempre precisamos igualmente; quinto, os melhores dos homens ainda precisam de Cristo no seu ofício sacerdotal, para expiar as suas omissões, as suas faltas, os seus erros de juízo e de prática e os seus defeitos de vária espécie. Pois tudo isso são desvios da lei perfeita e, por consequência, precisam de expiação. Contudo, que não são propriamente pecados, isso se vê das palavras de Paulo: “Aquele que ama… cumpriu a lei; porque o amor é o cumprimento da lei” (Rm 13.8,10). Ora, os erros, e todas as fraquezas que necessariamente decorrem do estado corruptível do corpo, de modo algum são contrários ao amor; nem, portanto, no sentido bíblico, pecado.
Para me explicar um pouco mais: primeiro, não só o pecado propriamente dito (isto é, a transgressão voluntária de uma lei conhecida), mas também o pecado impropriamente dito (isto é, a transgressão involuntária de uma lei divina, conhecida ou não) precisa do sangue que expia. Segundo, creio que não há nesta vida perfeição que exclua essas transgressões involuntárias, que julgo serem consequência natural da ignorância e dos erros inseparáveis da mortalidade. Terceiro, por isso, “perfeição sem pecado” é uma expressão que nunca uso, para não parecer que me contradigo. Quarto, creio que a pessoa cheia do amor de Deus ainda está sujeita a essas transgressões involuntárias. Quinto, você pode chamá-las de pecados, se quiser; eu não as chamo, pelas razões acima.
P. Que conselho você daria aos que as chamam de pecados e aos que não as chamam assim?
R. Os que não as chamam de pecados nunca pensem que eles, ou qualquer outra pessoa, estejam em tal estado que possam comparecer diante da justiça infinita sem um Mediador. Isso denotaria ou a mais profunda ignorância, ou a mais alta arrogância e presunção. E os que as chamam de pecados cuidem de não confundir esses defeitos com os pecados propriamente ditos. Mas como o evitarão? Como se distinguirão uns dos outros, se todos forem chamados indistintamente de pecados? Muito receio que, se admitíssemos que alguns pecados fossem compatíveis com a perfeição, poucos limitariam a ideia àqueles defeitos a respeito dos quais só a afirmação poderia ser verdadeira.
P. Mas como pode a sujeição ao erro coexistir com o amor perfeito? Quem é aperfeiçoado no amor não está, a cada momento, sob a sua influência? E pode algum erro brotar do puro amor?
R. Respondo: primeiro, muitos erros podem coexistir com o puro amor; segundo, alguns podem, por acidente, brotar dele — quero dizer, o próprio amor pode inclinar-nos ao erro. O puro amor ao próximo, nascido do amor de Deus, “não suspeita mal, tudo crê, tudo espera” (1Co 13.5,7). Ora, essa mesma disposição, sem desconfiança, pronta a crer e esperar o melhor de todos, pode fazer-nos julgar alguns melhores do que realmente são. Eis, pois, um erro manifesto, brotando por acidente do puro amor.
P. Como evitaremos pôr a perfeição alto demais ou baixo demais?
R. Atendo-nos à Bíblia, e pondo-a exatamente tão alto quanto a Escritura a põe. Ela não é nada mais alto nem mais baixo do que isto: o puro amor de Deus e do próximo; amar a Deus de todo o coração e a alma, e ao próximo como a nós mesmos. É o amor governando o coração e a vida, perpassando todas as nossas disposições, palavras e ações.
P. Suponhamos que alguém a tenha alcançado: você o aconselharia a falar disso?
R. A princípio, talvez mal conseguisse conter-se, tão quente estaria o fogo dentro dele, e o desejo de anunciar a bondade amorosa do Senhor o arrastaria como uma torrente. Mas depois poderia; e então seria aconselhável não falar disso aos que não conhecem a Deus (o mais provável é que só os provocasse a contradizer e blasfemar), nem a outros sem alguma razão particular, sem algum bem em vista. E deveria ter especial cuidado em evitar toda aparência de jactância, falando com a mais profunda humildade e reverência, dando toda a glória a Deus.
P. Mas não seria melhor calar-se de todo, não falar disso?
R. Pelo silêncio ele evitaria muitas cruzes, que natural e necessariamente sobrevêm quando alguém declara, mesmo entre crentes, o que Deus operou em sua alma. Se, pois, consultasse a carne e o sangue, calaria de todo. Mas isso não se poderia fazer com a consciência limpa, pois, sem dúvida, ele deve falar. Não se acende uma candeia para pô-la debaixo do alqueire (Mt 5.15), muito menos o faz o Deus todo-sábio. Ele não levanta tal monumento do seu poder e amor para escondê-lo de toda a humanidade; antes, o destina como bênção geral aos que são simples de coração. Deus não visa apenas a felicidade daquele indivíduo, mas o animar e encorajar outros a buscar a mesma bênção. A sua vontade é que “muitos o vejam, e temam, e confiem no Senhor” (Sl 40.3). E nada debaixo do céu aviva mais os desejos dos que são justificados do que conversar com aqueles que creem ter experimentado uma salvação ainda mais alta. Isso põe tal salvação bem diante dos seus olhos e aumenta a sua fome e sede dela — vantagem que se perderia por completo, se o que assim foi salvo se sepultasse no silêncio.
P. Mas não há como evitar essas cruzes que costumam cair sobre os que falam de ter sido assim salvos?
R. Parece que não se podem evitar de todo, enquanto tanto da natureza velha permanece mesmo nos crentes. Mas algo se poderia fazer, se o pregador, em cada lugar, primeiro, falasse francamente com todos os que assim se expressam e, segundo, se esforçasse por impedir o tratamento injusto ou rude daqueles a favor de quem há prova razoável.
P. Que é prova razoável? Como podemos saber com certeza quem foi salvo de todo pecado?
R. Não podemos saber com infalibilidade quem foi assim salvo (nem sequer quem foi justificado), a menos que aprouvesse a Deus dotar-nos do dom miraculoso de discernir os espíritos. Mas cremos que a qualquer homem razoável bastariam estas provas, deixando pouca margem para duvidar da verdade ou da profundidade da obra: primeiro, se tivéssemos clara evidência do seu comportamento exemplar por algum tempo antes da suposta mudança — o que nos daria razão para crer que ele não “mentiria por Deus”, mas diria nem mais nem menos do que sente; segundo, se desse um relato distinto do tempo e do modo em que a mudança se operou, “com linguagem sadia e irrepreensível” (Tt 2.8); terceiro, se se mostrasse que todas as suas palavras e ações posteriores são santas e irrepreensíveis. Em suma: primeiro, tenho ampla razão para crer que esta pessoa não mente; segundo, ela testemunha diante de Deus: “Não sinto pecado algum, mas só amor; oro, alegro-me e dou graças sem cessar; e tenho um testemunho interior tão claro de que fui plenamente renovado quanto de que fui justificado.” Ora, se nada tenho a opor a esse testemunho claro, devo, com razão, crer nele.
De nada vale objetar: “Mas sei de várias coisas em que ele se engana por completo.” Pois já se admitiu que todos os que estão no corpo estão sujeitos a errar, e que um erro de juízo pode às vezes ocasionar um erro na prática — ainda que se deva ter grande cuidado em não fazer mau uso dessa concessão. Por exemplo: mesmo alguém aperfeiçoado no amor pode enganar-se a respeito de outra pessoa e julgá-la, em certo caso, mais ou menos culpada do que realmente é; e daí falar-lhe com mais ou menos severidade do que a verdade exige. E, nesse sentido (ainda que não seja o sentido primário de Tiago), “todos tropeçamos em muitas coisas” (Tg 3.2). Isso, portanto, não é prova alguma de que a pessoa que assim fala não seja perfeita.
P. Mas não é prova se ele se sobressalta ou se perturba com um ruído, uma queda ou algum perigo súbito?
R. Não é; pois pode-se estremecer, tremer, mudar de cor ou perturbar-se de outro modo no corpo, enquanto a alma repousa calma em Deus e permanece em perfeita paz. Sim, a própria mente pode ficar profundamente aflita, sobremaneira triste, perplexa e oprimida de peso e angústia, até à agonia, enquanto o coração se apega a Deus por amor perfeito e a vontade lhe está inteiramente rendida. Não foi assim com o próprio Filho de Deus? Suporta algum filho de homem a aflição, a angústia, a agonia que ele sustentou? E, contudo, ele “não conheceu pecado”.
P. Mas pode alguém de coração puro preferir um alimento saboroso a um insípido, ou usar algum prazer dos sentidos que não seja estritamente necessário? Se sim, em que diferem dos outros?
R. A diferença, ao tomar um alimento agradável, é esta: primeiro, não precisam dessas coisas para serem felizes, pois têm dentro de si uma fonte de felicidade — veem e amam a Deus; por isso se alegram sempre e em tudo dão graças. Segundo, podem usá-las, mas não as buscam. Terceiro, usam-nas com parcimônia, e não pela coisa em si. Posto isto, respondemos diretamente: tal pessoa pode usar um alimento saboroso sem o perigo que ronda os que não são salvos do pecado. Pode preferi-lo a um insípido, ainda que igualmente saudável, como meio de aumentar a gratidão, com o olhar posto unicamente em Deus, “que tudo nos concede rica e abundantemente para nosso deleite” (1Tm 6.17). Pelo mesmo princípio, pode cheirar uma flor, comer um cacho de uvas ou ter qualquer outro prazer que não diminua, mas aumente, o seu deleite em Deus. Portanto, tampouco podemos dizer que alguém aperfeiçoado no amor seja incapaz de casar-se e de tratar de negócios do mundo; se para isso fosse chamado, seria mais capaz do que nunca, por poder fazer tudo sem pressa nem aflição, sem distração de espírito.
P. Mas, se dois cristãos perfeitos tivessem filhos, como poderiam estes nascer em pecado, se não havia pecado nos pais?
R. É caso possível, mas não provável; duvido que jamais tenha ocorrido ou venha a ocorrer. Mas, deixando isso de lado, respondo: o pecado me é transmitido, não pela geração imediata, mas pelo meu primeiro pai. “Em Adão todos morreram”; “pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores” (Rm 5.19) — todos os homens, sem exceção, que estavam em seus lombos quando ele comeu o fruto proibido. Temos disso uma notável ilustração na horticultura: enxertos numa macieira brava dão fruto excelente; mas semeie os caroços desse fruto, e o que sairá? Produzem maçãs tão bravas quanto as que já se comeram.
P. Mas o que faz o perfeito mais do que os outros, mais do que os crentes comuns?
R. Talvez nada — assim pode a providência de Deus tê-lo cercado por circunstâncias exteriores. Talvez nem tanto, embora deseje e anseie “gastar-se e deixar-se gastar” por Deus; ao menos exteriormente: não fala tantas palavras nem faz tantas obras. Tampouco o próprio Senhor falou tantas palavras ou fez tantas — nem tão grandes — obras quanto alguns dos seus apóstolos (Jo 14.12). Mas e daí? Isso não prova que ele não tenha mais graça; e é por esta que Deus mede a obra exterior. Ouçam-no: “Em verdade vos digo que esta pobre viúva deu mais do que todos” (Lc 21.3). Em verdade, este pobre homem, com as suas poucas palavras entrecortadas, disse mais do que todos. Em verdade, esta pobre mulher, que deu um copo de água fria, fez mais do que todos. Ah, deixai de “julgar segundo a aparência”, e aprendei a “julgar segundo a reta justiça” (Jo 7.24)!
P. Mas não é prova contra ele o fato de eu não sentir poder algum nas suas palavras ou na sua oração?
R. Não é; pois talvez a culpa seja sua. É pouco provável que você sinta ali algum poder, se algum destes estorvos estiver no caminho: primeiro, a sua própria morte de alma — os fariseus mortos não sentiram poder algum nem nas palavras “daquele que falava como nunca homem falou” (Jo 7.46); segundo, a culpa de algum pecado não arrependido pesando na consciência; terceiro, qualquer espécie de preconceito contra ele; quarto, o não crer você que seja alcançável o estado que ele professa; quinto, a má vontade em pensar ou reconhecer que ele o alcançou; sexto, o supervalorizá-lo ou idolatrá-lo; sétimo, o supervalorizar a si mesmo e ao seu próprio juízo. Se for esse o caso, que admira que você não sinta poder algum no que ele diz? Mas outros não o sentem? Se o sentem, o seu argumento cai por terra. E, se não o sentem, não estarão também no caminho deles alguns desses estorvos? Você teria de estar certo disso antes de erguer sobre isso qualquer argumento; e, ainda assim, o seu argumento não provaria mais do que isto: que graça e dons nem sempre andam juntos.
“Mas ele não corresponde à minha ideia de um cristão perfeito.” E talvez ninguém jamais tenha correspondido ou venha a corresponder. Pois a sua ideia pode ir além do que a Escritura diz, ou ao lado disso; pode incluir mais do que a Bíblia inclui, ou, ao menos, algo que ela não inclui. A perfeição bíblica é o puro amor enchendo o coração e governando todas as palavras e ações. Se a sua ideia inclui algo a mais ou algo diverso, não é bíblica; e então não admira que um cristão biblicamente perfeito não lhe corresponda. Temo que muitos tropecem nesta pedra: incluem, na sua ideia do perfeito, tantos ingredientes quantos lhes apraz — não segundo a Escritura, mas segundo a própria imaginação —, e logo negam que alguém o seja, se não corresponde a essa ideia imaginária. Tanto mais cuidado devemos ter em manter sempre diante dos olhos o relato simples e bíblico: o puro amor reinando sozinho no coração e na vida — nisto consiste toda a perfeição bíblica.
P. Quando pode uma pessoa julgar que a alcançou?
R. Quando, depois de plenamente convencida do pecado que traz consigo — por uma convicção muito mais profunda e clara do que a que experimentou antes da justificação — e depois de ter experimentado uma gradual mortificação dele, experimenta uma morte total ao pecado e uma inteira renovação no amor e na imagem de Deus, de modo a alegrar-se sempre, a orar sem cessar e a dar graças em tudo. Não que “sentir só amor e nenhum pecado” seja prova suficiente: vários experimentaram isso por um tempo antes de a sua alma ser plenamente renovada. Ninguém, portanto, deve crer que a obra está feita, enquanto não se acrescentar o testemunho do Espírito, atestando a sua inteira santificação tão claramente quanto a sua justificação.
P. Mas de onde vem que alguns imaginam estar assim santificados quando, na verdade, não estão?
R. Vem disto: não julgam por todas as marcas precedentes, mas ou por parte delas, ou por outras que são ambíguas. Mas não conheço caso de pessoa que atenda a todas e ainda assim se engane nesta matéria; creio que não pode haver nenhum no mundo. Se um homem for profunda e plenamente convencido, depois da justificação, do pecado que traz consigo; se então experimentar uma gradual mortificação do pecado e, depois, uma inteira renovação à imagem de Deus; se a essa mudança — imensamente maior do que a operada quando foi justificado — se acrescentar um testemunho claro e direto da renovação, julgo tão impossível que esse homem se engane nisto quanto que Deus minta. E, se alguém que sei ser homem veraz me testemunha essas coisas, não devo, sem alguma razão suficiente, rejeitar o seu testemunho.
P. Essa morte ao pecado e renovação no amor são graduais ou instantâneas?
R. Uma pessoa pode estar morrendo por algum tempo; contudo, propriamente falando, não morre senão no instante em que a alma se separa do corpo — e nesse instante começa a viver a vida da eternidade. Do mesmo modo, pode estar morrendo para o pecado por algum tempo; contudo, não está morta para o pecado senão quando o pecado se separa da sua alma — e nesse instante vive a vida plena do amor. E, assim como a mudança que sofremos quando o corpo morre é de espécie diversa, e infinitamente maior do que qualquer outra antes conhecida — tal que até então é impossível concebê-la —, assim a mudança operada quando a alma morre para o pecado é de espécie diversa, e infinitamente maior do que qualquer outra, e do que ninguém pode conceber até experimentá-la. Ainda assim, ele continua a crescer na graça, no conhecimento de Cristo, no amor e na imagem de Deus — e o fará não só até a morte, mas por toda a eternidade.
P. Como devemos esperar essa mudança?
R. Não em indiferença descuidada nem em inatividade preguiçosa, mas em obediência vigorosa e universal, num zeloso guardar de todos os mandamentos, em vigilância e esforço, negando a nós mesmos e tomando cada dia a nossa cruz, bem como em oração fervorosa, jejum e assídua participação em todas as ordenanças de Deus. E, se alguém sonha em alcançá-la por outro caminho (ou em conservá-la, uma vez alcançada, mesmo recebida na mais larga medida), engana a própria alma. É verdade que a recebemos pela simples fé; mas Deus não dá — nem dará — essa fé, a menos que a busquemos com toda a diligência, no caminho que ele ordenou. Isso pode satisfazer os que perguntam por que tão poucos receberam a bênção. Pergunte antes quantos a buscam por este caminho, e terá resposta suficiente. Falta, sobretudo, a oração. Quem persevera nela? Quem luta com Deus por esta mesma coisa? Assim, “nada tendes, porque não pedis”, ou porque “pedis mal” (Tg 4.2-3) — a saber, que sejais renovados antes de morrer. Antes de morrer! Isso o contentará? Não; peça antes que seja feito agora, hoje, enquanto se chama “hoje”. Não chame a isto “marcar hora a Deus”: certamente o hoje é tempo dele, tanto quanto o amanhã. Apressa-te, ó homem, apressa-te!
Rompa a tua alma em forte desejo
de provar a bem-aventurança perfeita;
arda todo o teu coração anelante
por dissolver-se no amor!
P. Mas não podemos permanecer em paz e alegria até sermos aperfeiçoados no amor?
R. Certamente podemos; pois o reino de Deus não está dividido contra si mesmo; portanto, não se desanimem os crentes de “alegrar-se sempre no Senhor” (Fp 4.4). E, contudo, podemos sentir dor pela natureza pecaminosa que ainda resta em nós. É bom termos um senso agudo disso e um veemente desejo de sermos livres dela. Mas isso só deve incitar-nos a fugir, a cada momento, com mais zelo para o nosso poderoso Auxiliador, e a “avançar mais decididamente para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3.14). E, quando mais abunda o senso do nosso pecado, muito mais deve abundar o senso do amor dele.
P. Como devemos tratar os que pensam ter alcançado?
R. Examine-os com franqueza e exorte-os a orar com fervor, para que Deus lhes mostre tudo o que há em seu coração. As mais fervorosas exortações a abundar em toda graça, e as mais fortes advertências para evitar todo mal, são dadas, por todo o Novo Testamento, aos que estão no mais alto estado de graça. Mas isso se deve fazer com a maior ternura, sem aspereza, dureza ou azedume. Devemos cuidadosamente evitar até a aparência de ira, rispidez ou desprezo. Deixe-se a Satanás tentar assim, e aos seus filhos clamar: “Examinemo-lo com afrontas e tormentos, para que conheçamos a sua mansidão e provemos a sua paciência.” Se são fiéis à graça recebida, não correm perigo de perecer por isso — não, ainda que permaneçam nesse engano até o seu espírito voltar a Deus.
P. Mas que mal pode fazer tratá-los com aspereza?
R. Ou estão enganados, ou não. Se estão, isso pode destruir-lhes a alma — o que não é impossível, nem sequer improvável: pode de tal modo enraivecê-los ou desanimá-los que afundem e não se levantem mais. Se não estão enganados, isso pode entristecer aqueles a quem Deus não entristeceu, e fazer grande mal à nossa própria alma. Pois, sem dúvida, “quem lhes toca, toca, por assim dizer, a menina do olho de Deus” (Zc 2.8). Se estão de fato cheios do seu Espírito, portar-se com eles de modo rude ou desdenhoso é não pequeno agravo ao Espírito da graça. Além disso, com isso alimentamos e aumentamos em nós as suspeitas maldosas e muitas más disposições. Para citar só uma: que presunção é esta, erguer-nos em inquisidores-gerais, em juízes peremptórios nestas coisas profundas de Deus! Estamos qualificados para o cargo? Podemos determinar, em todos os casos, até onde chega a fraqueza — o que pode e o que não pode ser atribuído a ela; o que pode, em todas as circunstâncias, coexistir com o amor perfeito, e o que não pode? Podemos precisar como isso influenciará o olhar, o gesto, o tom de voz? Se podemos, sem dúvida “nós é que somos o povo, e conosco morrerá a sabedoria” (Jó 12.2).
P. Mas, se eles se ofendem por não crermos neles, isso não é prova plena contra eles?
R. Depende de como é essa ofensa: se ficam irados, é prova contra eles; se ficam entristecidos, não é. Devem entristecer-se, se descremos de uma obra real de Deus e, com isso, nos privamos do proveito que dela poderíamos receber. E é fácil confundir essa tristeza com ira, pois as expressões exteriores de ambas são muito parecidas.
P. Mas não é bom descobrir os que imaginam ter alcançado quando não alcançaram?
R. É bom fazê-lo por um exame brando e amoroso. Mas não é bom triunfar mesmo sobre esses. É extremamente errado, ao encontrar tal caso, alegrar-se como quem achou grande despojo. Não devíamos antes entristecer-nos, comover-nos profundamente, deixar correr lágrimas dos olhos? Eis alguém que parecia prova viva do poder de Deus para “salvar perfeitamente” (Hb 7.25); mas, ai, não é como esperávamos — foi “pesado na balança e achado em falta” (Dn 5.27)! E isto é motivo de alegria? Não devíamos antes alegrar-nos mil vezes mais, se nada achássemos senão puro amor?
“Mas ele está enganado.” E daí? É um engano inofensivo, enquanto ele nada sente senão amor no coração. É um engano que em geral denota grande graça, alto grau tanto de santidade quanto de felicidade. Isto deveria ser motivo de real alegria para todos os que são simples de coração — não o engano em si, mas a altura de graça que por um tempo o ocasiona. Alegro-me de que esta alma esteja sempre feliz em Cristo, sempre cheia de oração e de ação de graças. Alegro-me de que não sinta disposição alguma impura, mas só o puro amor de Deus continuamente. E hei de alegrar-me, se o pecado está apenas suspenso, até que seja de todo destruído.
P. Não há, então, perigo algum em um homem ser assim enganado?
R. Não, no tempo em que não sente pecado algum. Havia perigo antes, e haverá de novo, quando ele entrar em novas provas. Mas, enquanto nada sente senão amor animando todos os seus pensamentos, palavras e ações, não corre perigo; não só é feliz, mas está seguro, “à sombra do Onipotente” (Sl 91.1); e, pelo amor de Deus, permaneça nesse amor o mais que puder. Entretanto, você fará bem em adverti-lo do perigo que virá, se o seu amor esfriar e o pecado reviver — o perigo de lançar fora a esperança, supondo que, por ainda não ter alcançado, jamais alcançará.
P. Mas e se ninguém ainda a alcançou? E se todos os que assim pensam estão enganados?
R. Convença-me disso, e não a pregarei mais. Mas entenda-me bem: não firmo doutrina alguma sobre esta ou aquela pessoa. Esta, ou qualquer outro homem, pode estar enganado, e nem por isso me abalo. Mas, se ninguém ainda foi feito perfeito, então Deus não me enviou a pregar a perfeição. Ponha um caso paralelo: por muitos anos preguei que “há uma paz de Deus que excede todo o entendimento” (Fp 4.7). Convença-me de que essa palavra caiu por terra, que em todos estes anos ninguém alcançou essa paz, que não há testemunha viva dela no dia de hoje — e não a pregarei mais. “Ah, mas várias pessoas morreram nessa paz.” Talvez sim; mas quero testemunhas vivas. Não posso, de fato, ter certeza infalível de que esta ou aquela pessoa seja testemunha; mas, se tivesse certeza de que não há nenhuma, teria de abandonar esta doutrina. “Você me entende mal: creio que alguns que morreram nesse amor o desfrutaram muito antes de morrer.” Mas eu não tinha certeza de que o testemunho anterior deles era verdadeiro senão algumas horas antes de morrerem. Você não tinha, então, certeza infalível; e uma certeza razoável poderia ter tido antes — tal certeza que poderia ter avivado e consolado a sua própria alma, e servido a todos os demais fins cristãos. Certeza assim qualquer pessoa sincera pode ter, havendo alguma testemunha viva, conversando uma hora com ela no amor e no temor de Deus.
P. Mas que importa se alguém a alcançou ou não, visto que tantas Escrituras testemunham a seu favor?
R. Se eu me convencesse de que ninguém na Inglaterra alcançou o que foi tão clara e fortemente pregado por tantos pregadores, em tantos lugares e por tanto tempo, ficaria claramente convencido de que todos havíamos entendido mal o sentido daquelas Escrituras; e, portanto, dali em diante, eu também teria de ensinar que “o pecado permanecerá até a morte”.
20. No ano de 1762, houve grande crescimento da obra de Deus em Londres. Muitos que até então não se importavam com nada disso foram profundamente convencidos do seu estado perdido; muitos acharam redenção no sangue de Cristo; não poucos desviados foram restaurados; e um número considerável de pessoas creu que Deus os havia salvado de todo pecado. Prevendo com facilidade que Satanás procuraria semear joio no meio do trigo, esforcei-me muito por adverti-los do perigo, sobretudo quanto ao orgulho e ao fanatismo. E, enquanto permaneci na cidade, tive razão para esperar que se mantivessem humildes e sóbrios. Mas quase logo que parti, irrompeu o fanatismo. Dois ou três começaram a tomar as próprias imaginações por impressões de Deus, e daí a supor que jamais morreriam; e estes, empenhando-se em levar outros à mesma opinião, causaram muito alarido e confusão. Pouco depois, as mesmas pessoas, com mais algumas, caíram em outros excessos, imaginando que não podiam ser tentadas, que não sentiriam mais dor, e que tinham o dom da profecia e do discernimento de espíritos. Ao voltar a Londres, no outono, alguns deles se deixaram repreender; mas outros já estavam acima de toda instrução. Nesse meio-tempo, uma enxurrada de censuras caiu sobre mim de quase todos os lados: dos próprios, porque eu os continha a toda hora; e de outros, porque, diziam, eu não os continha. Ainda assim, a mão do Senhor não se deteve: cada vez mais pecadores eram convencidos, alguns se convertiam a Deus quase diariamente, e outros eram capacitados a amá-lo de todo o coração.
21. Por essa época, um amigo, de certa distância de Londres, escreveu-me o seguinte:
Não te alarmes demais por Satanás semear joio no meio do trigo de Cristo. Sempre foi assim, sobretudo em qualquer notável derramamento do seu Espírito; e sempre será, até que ele seja acorrentado por mil anos. Até então, sempre há de macaquear e tentar contrariar a obra do Espírito de Cristo. Um efeito triste disso tem sido que um mundo, sempre adormecido nos braços do maligno, ridiculariza toda obra do Espírito Santo.
Mas que podem fazer os verdadeiros cristãos? Ora, se quiserem agir de modo digno de si mesmos, devem: primeiro, orar para que toda alma enganada seja libertada; segundo, esforçar-se por reconduzi-los com espírito de mansidão; e, por fim, ter o maior cuidado, tanto pela oração quanto pela vigilância, para que o engano dos outros não lhes diminua o zelo em buscar aquela santidade universal de alma, corpo e espírito, “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). É verdade que essa nova criatura completa é pura loucura para um mundo louco. Mas é, apesar disso, a vontade e a sabedoria de Deus. Que todos nós a busquemos!
Mas alguns que sustentam esta doutrina em toda a sua extensão são, com demasiada frequência, culpados de limitar o Todo-Poderoso. Ele dispensa os seus dons exatamente como lhe apraz; portanto, não é sábio nem modesto afirmar que a pessoa deva ser crente por certo tempo antes de ser capaz de receber alto grau do Espírito de santidade. O método habitual de Deus é uma coisa, mas o seu soberano beneplácito é outra. Ele tem sábias razões, tanto para apressar quanto para retardar a sua obra. Às vezes vem de súbito e inesperadamente; às vezes, só depois de o havermos esperado por muito tempo.
De fato, tem sido minha opinião, por muitos anos, que uma grande causa de os homens progredirem tão pouco na vida divina é a sua própria frieza, negligência e incredulidade — e falo aqui de crentes. Que o Espírito de Cristo nos dê reto juízo em tudo e nos encha “de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19), para que sejamos “perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.4).
22. Por essa mesma época, cinco ou seis fanáticos sinceros predisseram que o mundo acabaria no dia 28 de fevereiro. Opus-me a eles imediatamente, por todos os meios possíveis, em público e em particular. Preguei expressamente sobre o assunto, tanto em West-Street quanto em Spitalfields. Adverti a sociedade uma e outra vez, e falei em particular com quantos pude; e vi o fruto do meu trabalho. Fizeram pouquíssimos adeptos — creio que mal uns trinta em toda a nossa sociedade. Ainda assim, fizeram muito alarido, deram grande ocasião de escândalo aos que cuidavam de aproveitar ao máximo toda ocasião contra mim, e aumentaram muito tanto o número quanto a ousadia dos que se opunham à perfeição cristã.
23. Algumas perguntas, então publicadas por um desses, levaram um homem simples a escrever o seguinte:
Questões, humildemente propostas aos que negam ser a perfeição alcançável nesta vida.
1. Não foi dada, sob o Evangelho, medida maior do Espírito Santo do que sob a dispensação judaica? Se não, em que sentido o Espírito “não fora ainda dado, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo 7.39)?
2. Aquela glória “que se seguiria aos sofrimentos de Cristo” (1Pe 1.11) era uma glória externa, ou interna — isto é, a glória da santidade?
3. Ordenou-nos Deus, em algum lugar da Escritura, mais do que nos prometeu?
4. As promessas de Deus a respeito da santidade hão de cumprir-se nesta vida, ou só na futura?
5. Está o cristão sob outras leis que não as que Deus promete “escrever em nossos corações” (Jr 31.33; Hb 8.10)?
6. Em que sentido “a justa exigência da lei se cumpre nos que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.4)?
7. É impossível a alguém, nesta vida, amar a Deus de todo o coração, entendimento, alma e forças? E está o cristão sob alguma lei que não se cumpra nesse amor?
8. A saída da alma do corpo efetua a sua purificação do pecado que a habita?
9. Se sim, então não é outra coisa — e não o sangue de Cristo — que a “purifica de todo pecado” (1Jo 1.7)?
10. Se o sangue dele nos purifica de todo pecado enquanto a alma e o corpo estão unidos, não é nesta vida?
11. Se é quando essa união cessa, não é na vida futura? E não é tarde demais?
12. Se é na hora da morte, em que situação está a alma, quando não está nem no corpo nem fora dele?
13. Ensinou-nos Cristo, em algum lugar, a orar pelo que ele nunca pretende dar?
14. Não nos ensinou a orar: “Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”? E não se faz ela perfeitamente no céu?
15. Se sim, não nos ensinou a orar pela perfeição na terra? E não pretende, então, concedê-la?
16. Não orou Paulo segundo a vontade de Deus, ao orar que os tessalonicenses fossem “santificados em tudo” e conservados (neste mundo, não no futuro, a menos que ele estivesse orando pelos mortos) “irrepreensíveis em corpo, alma e espírito, para a vinda de Jesus Cristo” (1Ts 5.23)?
17. Você deseja sinceramente ser livre, nesta vida, do pecado que o habita?
18. Se deseja, não foi Deus quem lhe deu esse desejo?
19. Se foi, tê-lo-ia dado para zombar de você, sendo impossível que jamais se cumprisse?
20. Se você não tem sinceridade sequer para desejá-lo, não está discutindo “coisas altas demais” para você?
21. Você chega a orar a Deus que “purifique os pensamentos do seu coração”, para que você o ame perfeitamente?
22. Se você nem deseja o que pede, nem crê que seja alcançável, não ora “como ora o insensato”?
Deus te ajude a considerar estas perguntas com calma e imparcialidade!
24. No fim deste ano, Deus chamou a si aquela luz ardente e resplandecente, Jane Cooper. Como ela foi testemunha da perfeição cristã tanto em vida quanto na morte, não será nada estranho ao assunto acrescentar um breve relato do seu falecimento, com uma das suas próprias cartas, que contém uma narrativa simples e singela do modo como aprouve a Deus operar aquela grande mudança em sua alma:
2 de maio de 1761.
Creio que, enquanto houver memória em mim, a gratidão há de permanecer. Desde que o senhor pregou sobre Gálatas 5.5, vi com clareza o verdadeiro estado da minha alma. Aquele sermão descreveu o meu coração e o que ele precisava ser: verdadeiramente feliz. O senhor leu a carta do sr. M., e ela descrevia a religião que eu desejava. Desde então o prêmio apareceu à vista, e fui capacitada a correr resolutamente atrás dele. Fui mantida em vigília e oração, ora em muita angústia, ora em paciente expectativa da bênção. Por alguns dias, antes de o senhor deixar Londres, a minha alma se firmou numa promessa que me foi aplicada na oração: “O Senhor, a quem buscais, virá subitamente ao seu templo” (Ml 3.1). Cri que viria, e que se assentaria ali “como fogo de ourives”. Na terça-feira após a sua partida, achei que não conseguiria dormir, a menos que ele cumprisse a sua palavra naquela noite. Nunca senti como então a força destas palavras: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus” (Sl 46.10). Tornei-me nada diante dele e desfrutei de perfeita calma na alma. Não sabia se ele havia destruído o meu pecado; mas desejava saber, para poder louvá-lo. Contudo, logo senti o retorno da incredulidade e gemi, oprimida. Na quarta-feira fui a Londres e busquei o Senhor sem cessar. Prometi que, se ele me salvasse do pecado, eu o louvaria. Poderia abrir mão de todas as coisas, contanto que ganhasse a Cristo. Mas achei que todos esses argumentos nada valiam, e que, se ele me salvasse, teria de ser gratuitamente, por amor do seu próprio nome. Na quinta-feira fui tão tentada que pensei em destruir-me, ou em nunca mais conversar com o povo de Deus; e, contudo, não tinha dúvida do seu amor que perdoa; mas era pior que a morte amar ao meu Deus, e não ao meu Deus somente. Na sexta-feira a minha angústia se aprofundou. Tentei orar e não consegui. Fui à sra. D., que orou por mim e me disse que era a morte da natureza velha. Abri a Bíblia e caí em: “…os medrosos e os incrédulos terão a sua parte no lago que arde com fogo e enxofre” (Ap 21.8). Não pude suportá-lo. Abri de novo, em Marcos 16.6-7: “Não vos assusteis; buscais a Jesus, o Nazareno… ide, dizei a seus discípulos… que ele vai adiante de vós para a Galileia; lá o vereis.” Fiquei animada e capacitada a orar, crendo que veria a Jesus em casa. Voltei naquela noite e encontrei a sra. G. Ela orou por mim; e o predestinariano não teve outro argumento senão: “Senhor, tu não fazes acepção de pessoas.” Ele provou que não faz, abençoando-me. Num instante fui capacitada a lançar mão de Jesus Cristo e achei a salvação pela simples fé. Ele me assegurou que “o Senhor, o Rei, estava no meio de mim, e que eu não veria mais o mal” (Sf 3.15). Então bendisse Aquele que me havia visitado e redimido, e se tornara para mim “sabedoria, justiça, santificação e redenção” (1Co 1.30). Vi Jesus “totalmente desejável” (Ct 5.16) e soube que ele era meu em todos os seus ofícios. E, glória a ele, agora reina em meu coração sem rival. Não acho outra vontade senão a dele. Não sinto orgulho, nem afeto algum que não esteja posto nele. Sei que é pela fé que estou firme, e que a vigília e a oração hão de ser a guarda da fé. Estou feliz em Deus neste momento, e creio para o próximo. Muitas vezes li o capítulo que o senhor menciona (1Coríntios 13) e comparei com ele o meu coração e a minha vida. Ao fazê-lo, sinto as minhas faltas e a necessidade que tenho do sangue que expia. Contudo, não me atrevo a dizer que não sinto uma medida do amor ali descrito, embora ainda não seja tudo o que hei de ser. Desejo perder-me “naquele amor que excede todo o entendimento”. Vejo que “o justo viverá pela fé”; e a mim, que sou “o menor de todos os santos”, foi dada esta graça. Se eu fosse um arcanjo, cobriria o rosto diante dele, e deixaria que o silêncio proclamasse o seu louvor!
O relato seguinte é dado por alguém que foi testemunha ocular e auricular do que narra:
No início de novembro, ela parecia ter um pressentimento do que lhe estava para acontecer, e costumava cantar estas palavras: “Quando a dor prevalecer sobre esta carne fraca, arma o meu peito de paciência de cordeiro.” E, quando me mandou avisar que estava doente, escreveu no bilhete: “Sofro a vontade de Jesus. Tudo o que ele envia é adoçado pelo seu amor. Estou tão feliz como se ouvisse uma voz dizer: ‘Por mim esperam os meus irmãos mais velhos, e os anjos me acenam, e Jesus me manda vir!’”
Ao dizer-lhe eu: “Não posso escolher por você a vida ou a morte”, ela respondeu: “Pedi ao Senhor que, se fosse da sua vontade, eu morresse primeiro. E ele me disse que você me sobreviveria, e que você fecharia os meus olhos.” Quando percebemos que era varíola, disse-lhe: “Minha querida, você não vai se assustar se lhe dissermos qual é a sua doença?” Ela disse: “Não posso assustar-me com a vontade dele.”
A doença era pesadíssima sobre ela; mas tanto mais se fortalecia a sua fé. Na terça-feira, 16 de novembro, disse-me: “Estive adorando diante do trono de modo glorioso; a minha alma foi de tal modo introduzida em Deus!” Perguntei: “O Senhor lhe deu alguma promessa particular?” “Não”, respondeu ela; “foi tudo aquele sagrado temor que não ousa mover-se, e todo o silencioso céu do amor.”
Na quinta-feira, ao perguntar eu: “Que tem a me dizer?”, ela respondeu: “Nada, senão o que você já sabe: Deus é amor.” Perguntei: “Tem alguma promessa particular?” Respondeu: “Não me parece precisar de nenhuma; posso viver sem. Morrerei como um punhado de deformidade, mas hei de encontrá-los toda gloriosa; e, entretanto, ainda terei comunhão com o seu espírito.”
O sr. M. perguntou qual era, a seu ver, o caminho mais excelente para andar, e quais os seus principais estorvos. Ela respondeu: “O maior estorvo vem, em geral, da constituição natural. A minha era ser reservada, muito quieta, sofrer muito e falar pouco. Alguns podem julgar mais excelente um caminho, e outros, outro; mas o que importa é viver na vontade de Deus. Nos últimos meses, quando me tenho dedicado particularmente a isso, tenho sentido tal direção do seu Espírito, e ‘a unção que recebi do Santo’ de tal modo me ‘ensinou de todas as coisas’, que não precisei que homem algum me ensinasse, senão como essa unção ensina” (1Jo 2.27).
Na sexta-feira de manhã disse: “Creio que vou morrer.” Então sentou-se na cama e disse: “Senhor, eu te bendigo, porque estás sempre comigo, e tudo o que tens é meu. O teu amor é maior do que a minha fraqueza, maior do que o meu desamparo, maior do que a minha indignidade. Senhor, tu dizes à corrupção: ‘Tu és minha irmã!’ E glória a ti, ó Jesus, tu és o meu Irmão. Que eu compreenda, com todos os santos, o comprimento, a largura, a profundidade e a altura do teu amor! Abençoa estes” (alguns dos presentes); “sejam eles, a cada momento, exercitados em tudo como tu queres que sejam.”
Algumas horas depois, parecia que as agonias da morte estavam justamente sobre ela; mas o seu rosto estava cheio de sorrisos de triunfo, e ela batia palmas de alegria. A sra. C. disse: “Minha querida, você é ‘mais que vencedora’ pelo sangue do Cordeiro.” Ela respondeu: “Sim, ah, sim, doce Jesus! Ó morte, onde está o teu aguilhão?” Ficou então como que adormecida por algum tempo. Depois, esforçou-se por falar e não conseguiu; contudo, testemunhou o seu amor apertando a mão de todos os que estavam no quarto.
O sr. W. chegou então. Ela disse: “Senhor, eu não sabia se viveria para vê-lo. Mas alegro-me de que o Senhor me tenha dado esta oportunidade, e também forças para lhe falar. Amo-o. O senhor sempre pregou a doutrina mais estrita, e eu amava segui-la. Continue assim, agrade ou desagrade a quem for.” Ele perguntou: “Você crê agora que está salva do pecado?” Ela disse: “Sim; não tenho tido dúvida disso por muitos meses. As dúvidas que tive foram por não permanecer na fé. Agora sinto que ‘guardei a fé’, e ‘o perfeito amor lança fora todo o medo’. Quanto ao senhor, o Senhor me prometeu que ‘as suas últimas obras excederiam as primeiras’, embora eu não viva para ver. Tenho sido, estes seis meses, uma grande fanática, como dizem; mas nunca vivi tão perto do coração de Cristo em toda a minha vida. O senhor, meu caro, deseja consolar o coração de centenas seguindo aquela simplicidade que a sua alma ama.”
A uma pessoa que recebera o amor de Deus sob a sua oração, ela disse: “Sinto que não segui ‘fábulas engenhosamente inventadas’, pois estou tão feliz quanto se pode viver. Avance você, e não pare aquém do alvo.” À srta. M. disse: “Ame a Cristo; ele a ama. Creio que a verei à direita de Deus; mas, ‘assim como uma estrela difere de outra estrela em glória, assim também será na ressurreição’. Peço-lhe, na presença de Deus: encontre-se comigo naquele dia, toda gloriosa por dentro. Evite toda conformidade com o mundo. Você foi despojada de muitos dos seus privilégios. Sei que serei achada irrepreensível. Trabalhe você para ser achada por ele em paz, sem mácula.”
No sábado de manhã, orou mais ou menos assim: “Sei, meu Senhor, que a minha vida só é prolongada para fazer a tua vontade. E, ainda que eu nunca mais coma ou beba” (não engolira nada por quase vinte e oito horas), “faça-se a tua vontade. Estou disposta a ser mantida assim por um ano inteiro: ‘nem só de pão viverá o homem’. Louvo-te por não haver ‘nem sombra de queixa nas nossas ruas’. Nesse sentido, não sabemos o que significa doença. De fato, Senhor, ‘nem a vida, nem a morte, nem as coisas presentes, nem as por vir’, não, nem criatura alguma nos separará do teu amor por um só momento. Abençoa estes, para que nada falte em suas almas. Creio que nada faltará. Oro com fé.”
No domingo e na segunda-feira esteve delirante, mas lúcida por momentos. Ficou então bem claro que o seu coração ainda estava no céu. Alguém lhe disse: “Jesus é o nosso alvo.” Ela respondeu: “Tenho um só alvo; sou toda espiritual.” A srta. M. disse-lhe: “Você habita em Deus.” Ela respondeu: “Inteiramente.” Uma pessoa lhe perguntou: “Você me ama?” Ela disse: “Ah, eu amo a Cristo; amo o meu Cristo.” A outro disse: “Não ficarei muito tempo aqui; Jesus é precioso, muito precioso de fato.” Disse à srta. M.: “O Senhor é muito bom; ele guarda a minha alma acima de tudo.” Nas quinze horas antes de morrer, esteve em fortes convulsões; os seus sofrimentos foram extremos. Alguém disse: “Você é ‘aperfeiçoada por meio dos sofrimentos’.” Ela disse: “Cada vez mais.” Depois de ficar quieta por algum tempo, disse: “Senhor, tu és forte!” Então, após uma pausa considerável, proferiu as suas últimas palavras: “O meu Jesus é tudo em tudo para mim: glória a ele pelo tempo e pela eternidade.” Depois disso, ficou imóvel por cerca de meia hora, e então expirou sem um suspiro ou gemido.
25. No ano seguinte, crescendo ainda o número dos que criam estar salvos do pecado, julguei necessário publicar, principalmente para uso deles, os Novos Pensamentos sobre a Perfeição Cristã:
P. 1. Como é Cristo “o fim da lei para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10.4)?
R. Para entender isto, é preciso entender de que lei se fala aqui; e esta, a meu ver, é: primeiro, a lei mosaica, toda a dispensação mosaica, de que Paulo fala continuamente como uma só, embora contenha três partes — a política, a moral e a cerimonial; segundo, a lei adâmica, dada a Adão na inocência, propriamente chamada “a lei das obras”. Esta é, em substância, a mesma lei angélica, comum a anjos e homens. Exigia que o homem usasse, para a glória de Deus, todas as potências com que foi criado. Ora, ele foi criado livre de qualquer defeito, seja no entendimento, seja nos afetos. O seu corpo não era então peso para a mente; não a impedia de apreender tudo com clareza, julgar com verdade e raciocinar com retidão, se é que raciocinava. Digo, se raciocinava, pois talvez não o fizesse: talvez não precisasse de raciocínio, até que o corpo corruptível oprimisse a mente e lhe debilitasse as faculdades nativas. Talvez, até então, a mente visse toda verdade que se lhe oferecia tão diretamente quanto o olho vê agora a luz. Por consequência, essa lei, proporcionada às suas potências originais, exigia que ele sempre pensasse, sempre falasse e sempre agisse com exatidão em cada ponto. E ele era bem capaz de fazê-lo; e Deus não podia deixar de exigir o serviço que ele era capaz de prestar. Mas Adão caiu, e o seu corpo incorruptível tornou-se corruptível; e, desde então, é peso para a alma e estorva as suas operações. Por isso, agora, nenhum filho de homem consegue, em todo tempo, apreender com clareza ou julgar com verdade. E, onde o juízo ou a apreensão erram, é impossível raciocinar com retidão. Portanto, é tão natural ao homem errar quanto respirar, e ele não pode viver mais sem um do que sem o outro. Por consequência, nenhum homem é capaz de cumprir o serviço que a lei adâmica exige. E nenhum homem é obrigado a cumpri-lo; Deus não o exige de ninguém, pois Cristo é o fim da lei adâmica, tanto quanto da mosaica. Pela sua morte, pôs fim a ambas; aboliu tanto uma quanto a outra, quanto ao homem; e a obrigação de observar qualquer delas se desvaneceu. Nem homem algum vivo está mais obrigado a observar a lei adâmica do que a mosaica (nota de Wesley: quero dizer, ela não é condição nem da salvação presente nem da futura). No lugar dela, Cristo estabeleceu outra, a saber, a lei da fé. Não todo o que pratica, mas todo o que crê recebe agora a justiça, no pleno sentido da palavra: é justificado, santificado e glorificado.
P. 2. Estamos, então, mortos para a lei?
R. Estamos mortos para a lei, “pelo corpo de Cristo” dado por nós (Rm 7.4) — tanto para a lei adâmica quanto para a mosaica. Somos de todo livres dela pela sua morte, expirando essa lei com ele.
P. 3. Como, então, não estamos “sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo” (1Co 9.21)?
R. Estamos sem aquela lei; mas daí não se segue que estejamos sem lei alguma, pois Deus estabeleceu outra em seu lugar, a lei da fé; e todos estamos sob esta lei, para com Deus e para com Cristo — tanto o nosso Criador quanto o nosso Redentor exigem que a observemos.
P. 4. É o amor o cumprimento desta lei?
R. Sem dúvida. Toda a lei sob a qual agora estamos é cumprida pelo amor (Rm 13.9-10). A fé que atua, ou é animada, pelo amor é tudo o que Deus agora exige do homem. Ele pôs (não a sinceridade, mas) o amor no lugar da perfeição angélica.
P. 5. Como é o amor “o fim do mandamento” (1Tm 1.5)?
R. É o fim de todo mandamento de Deus. É o alvo visado pelo todo e por cada parte da instituição cristã. O fundamento é a fé, que purifica o coração; o fim, o amor, que conserva uma boa consciência.
P. 6. Que amor é este?
R. Amar o Senhor, nosso Deus, de todo o coração, entendimento, alma e forças; e amar o próximo, cada ser humano, como a nós mesmos, como à nossa própria alma.
P. 7. Quais são os frutos, ou propriedades, deste amor?
R. Paulo no-lo informa largamente (1Co 13). O amor “é sofredor”: suporta todas as fraquezas dos filhos de Deus, toda a maldade dos filhos do mundo, e isso não só por um pouco de tempo, mas por quanto tempo Deus quiser; em tudo vê a mão de Deus e a ela se submete de boa vontade. Ao mesmo tempo, “é benigno”: em tudo, e depois de tudo o que sofre, é suave, brando, terno, bondoso. “O amor não é invejoso”: exclui do coração toda espécie e grau de inveja. Não “trata com leviandade”, de modo violento e obstinado, nem profere juízo precipitado ou severo. “Não se porta com indecência”, não é rude, não age fora do seu caráter. “Não busca” o seu próprio descanso, prazer, honra ou proveito. “Não se irrita”, expele do coração toda ira. “Não suspeita mal”, lança fora todo ciúme, desconfiança e prontidão em crer o mal. “Não se alegra com a injustiça”, sim, chora com o pecado ou a loucura dos seus mais amargos inimigos. Mas “se regozija com a verdade”, com a santidade e a felicidade de cada filho de homem. O amor “tudo sofre”, de ninguém fala mal; “tudo crê” do que possa favorecer o bom nome de outrem; “tudo espera”, quanto possa atenuar as faltas que não se podem negar; e “tudo suporta”, quanto Deus possa permitir, ou homens e demônios possam infligir. Esta é a lei de Cristo, a lei perfeita, “a lei da liberdade” (Tg 1.25). E esta distinção entre a “lei da fé” (ou do amor) e a “lei das obras” não é distinção sutil nem desnecessária: é simples, fácil e inteligível a qualquer entendimento comum. E é absolutamente necessária para evitar mil dúvidas e temores, mesmo nos que de fato “andam em amor”.
P. 8. Mas não “tropeçamos todos em muitas coisas”, sim, os melhores de nós, mesmo contra esta lei?
R. Num sentido, não o fazemos, enquanto todas as nossas disposições, pensamentos, palavras e obras brotam do amor. Mas, noutro sentido, o fazemos, e o faremos, mais ou menos, enquanto permanecermos no corpo. Pois nem o amor nem “a unção do Santo” nos tornam infalíveis; portanto, por inevitável defeito de entendimento, não podemos deixar de errar em muitas coisas. E esses erros frequentemente ocasionarão algo de errado, seja na nossa disposição, seja nas palavras, seja nas ações. Por avaliar mal o caráter de alguém, podemos amá-lo menos do que ele realmente merece; e, pelo mesmo erro, somos inevitavelmente levados a falar ou agir, com respeito a essa pessoa, de modo contrário a esta lei, num ou noutro dos pontos acima.
P. 9. Não precisamos, então, de Cristo, mesmo por esse motivo?
R. Os mais santos dos homens ainda precisam de Cristo como seu Profeta, como “a luz do mundo”. Pois ele não lhes dá luz senão de momento a momento: no instante em que se retira, tudo são trevas. Ainda precisam de Cristo como seu Rei, pois Deus não lhes dá um estoque de santidade; mas, se não recebem um suprimento a cada momento, nada resta senão impureza. Ainda precisam de Cristo como seu Sacerdote, para expiar as suas próprias coisas santas. Pois até a santidade perfeita só é aceitável a Deus por meio de Jesus Cristo.
P. 10. Não podem, então, os melhores dos homens fazer sua a confissão do mártir moribundo: “Em mim mesmo não sou senão pecado, treva, inferno; mas tu és a minha luz, a minha santidade, o meu céu”?
R. Não exatamente. Mas os melhores dos homens podem dizer: “Tu és a minha luz, a minha santidade, o meu céu. Pela minha união contigo, estou cheio de luz, de santidade e de felicidade. Mas, se fosse deixado a mim mesmo, não seria senão pecado, treva, inferno.” Mas, prosseguindo: os melhores dos homens precisam de Cristo como seu Sacerdote, sua Expiação, seu Advogado junto ao Pai; não só porque a continuação de toda bênção sua depende da sua morte e intercessão, mas também por ficarem aquém da lei do amor. Pois todo homem vivo fica aquém dela. Vós, que sentis só amor, comparai-vos com a descrição anterior. Pesai-vos nesta balança, e vede se não estais em falta em muitos pontos.
P. 11. Mas, se tudo isso é compatível com a perfeição cristã, então tal perfeição não é a liberdade de todo pecado; pois “o pecado é a transgressão da lei”, e os perfeitos transgridem a própria lei sob a qual estão. Além disso, precisam da expiação de Cristo, e ele não é expiação senão do pecado. É, então, própria a expressão “perfeição sem pecado”?
R. Não vale a pena disputar sobre isso. Mas observe em que sentido essas pessoas precisam da expiação de Cristo. Não precisam que ele as reconcilie de novo com Deus, pois já estão reconciliadas. Não precisam que ele lhes restaure o favor de Deus, mas que o continue. Ele não lhes obtém perdão de novo, mas “vive sempre para interceder por elas”; e “por uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10.14). Por não considerarem devidamente isto, alguns negam precisar da expiação de Cristo — pouquíssimos, na verdade; não me lembro de ter achado cinco deles na Inglaterra. Entre os dois, eu antes abriria mão da perfeição; mas não precisamos abrir mão de nenhuma das duas. A perfeição que sustento — o amor que “se alegra sempre, ora sem cessar e em tudo dá graças” — é bem compatível com ela; se alguém sustenta uma perfeição que não o é, que cuide disso.
P. 12. A perfeição cristã implica, então, algo mais do que a sinceridade?
R. Não, se por essa palavra você entende o amor enchendo o coração, expelindo o orgulho, a ira, o desejo e a própria vontade; alegrando-se sempre, orando sem cessar e em tudo dando graças. Mas duvido que muitos usem “sinceridade” nesse sentido. Por isso, penso que a palavra antiga é a melhor. Uma pessoa pode ser sincera e ainda ter todas as suas disposições naturais — orgulho, ira, cobiça, vontade própria. Mas ela não é perfeita enquanto o seu coração não for purificado disso e de todas as suas demais corrupções. Para esclarecer um pouco mais este ponto: conheço muitos que amam a Deus de todo o coração. Ele é o seu único desejo, o seu único deleite, e são continuamente felizes nele. Amam o próximo como a si mesmos. Sentem um desejo tão sincero, fervoroso e constante da felicidade de cada homem — bom ou mau, amigo ou inimigo — quanto da sua própria. Alegram-se sempre, oram sem cessar e em tudo dão graças. As suas almas sobem continuamente a Deus, em santa alegria, oração e louvor. Isto é um fato; e é uma experiência simples, sã e bíblica. Mas até essas almas habitam num corpo em ruínas, e de tal modo são por ele oprimidas que nem sempre podem exercer-se como quereriam, pensando, falando e agindo com exatidão. Por falta de melhores órgãos corporais, às vezes hão de pensar, falar ou agir de modo errado — não por defeito de amor, mas por defeito de conhecimento. E, enquanto assim for, apesar desse defeito e de suas consequências, elas cumprem a lei do amor. Contudo, como, mesmo nesse caso, não há plena conformidade com a lei perfeita, também os mais perfeitos, por isso mesmo, precisam do sangue da expiação, e podem propriamente dizer, por si como por seus irmãos: “Perdoa-nos as nossas dívidas.”
P. 13. Mas, se Cristo pôs fim àquela lei, que necessidade há de expiação por transgredi-la?
R. Observe em que sentido ele lhe pôs fim, e a dificuldade se desfaz. Não fosse o mérito permanente da sua morte e a sua contínua intercessão por nós, aquela lei ainda nos condenaria. Deles, portanto, ainda precisamos por toda transgressão dela.
P. 14. Mas pode alguém que está salvo do pecado ser tentado?
R. Pode; pois Cristo foi tentado.
P. 15. No entanto, aquilo que você chama de tentação, eu chamo de corrupção do meu coração. E como você distinguirá uma da outra?
R. Em alguns casos é impossível distinguir sem o testemunho direto do Espírito. Mas, em geral, pode-se distinguir assim: alguém me elogia — eis uma tentação ao orgulho; mas, no instante, a minha alma se humilha diante de Deus, e não sinto orgulho algum, do que estou tão certo quanto de que orgulho não é humildade. Um homem me golpeia — eis uma tentação à ira; mas o meu coração transborda de amor, e não sinto ira alguma, do que posso estar tão certo quanto de que amor e ira não são a mesma coisa. Uma mulher me solicita — eis uma tentação à luxúria; mas, no instante, recuo, e não sinto desejo nem luxúria alguma, do que posso estar tão certo quanto de que a minha mão está fria ou quente. Assim é, se sou tentado por um objeto presente; e o mesmo se dá se, estando ele ausente, o diabo me traz à mente um elogio, uma injúria ou uma mulher: no instante, a alma repele a tentação e permanece cheia de puro amor. E a diferença é ainda mais clara quando comparo o meu estado presente com o passado, em que eu sentia tanto a tentação quanto a corrupção.
P. 16. Mas como você sabe que está santificado, salvo da corrupção que lhe é inata?
R. Não posso sabê-lo de outro modo senão como sei que sou justificado: “Nisto conhecemos que somos de Deus” — num sentido e no outro — “pelo Espírito que ele nos deu” (1Jo 3.24). Conhecemo-lo pelo testemunho e pelo fruto do Espírito. Primeiro, pelo testemunho: assim como, quando fomos justificados, o Espírito testemunhou com o nosso espírito que os nossos pecados estavam perdoados, assim, quando fomos santificados, ele testemunhou que eles foram tirados. É verdade que o testemunho da santificação nem sempre é claro no início (como tampouco o da justificação), nem depois é sempre o mesmo, mas, como o da justificação, ora mais forte, ora mais fraco; sim, e às vezes é retirado. Contudo, em geral, este último testemunho do Espírito é tão claro e tão firme quanto o primeiro.
P. 17. Mas que necessidade há dele, visto que a santificação é uma mudança real, e não apenas relativa, como a justificação?
R. Mas o novo nascimento é apenas uma mudança relativa? Não é ele também uma mudança real? Portanto, se não precisamos de testemunho da nossa santificação por ser ela mudança real, pela mesma razão não precisaríamos de nenhum de que somos nascidos de Deus, ou de que somos filhos dele.
P. 18. Mas a santificação não brilha por sua própria luz?
R. E o novo nascimento não brilha também? Às vezes brilha, e assim a santificação; outras vezes não. Na hora da tentação, Satanás encobre a obra de Deus e injeta várias dúvidas e raciocínios, sobretudo nos que têm entendimento muito fraco ou muito forte. Em tais momentos há absoluta necessidade daquele testemunho, sem o qual a obra da santificação não só não se poderia discernir, mas não poderia mais subsistir. Não fosse por isso, a alma não poderia então permanecer no amor de Deus, muito menos alegrar-se sempre e em tudo dar graças. Nessas circunstâncias, portanto, um testemunho direto de que somos santificados é necessário no mais alto grau. “Mas não tenho testemunho de que estou salvo do pecado, e, contudo, não tenho dúvida disso.” Muito bem: enquanto não tiver dúvida, basta; quando a tiver, precisará daquele testemunho.
P. 19. Mas que Escritura menciona tal coisa, ou dá razão para esperá-la?
R. Aquela Escritura: “Não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que conheçamos o que por Deus nos foi dado gratuitamente” (1Co 2.12). Ora, certamente a santificação é uma das coisas que “por Deus nos foram dadas gratuitamente”; e não se pode apontar razão alguma para excetuá-la, quando o apóstolo diz que “recebemos o Espírito” para este mesmo fim: para que conheçamos o que assim nos foi dado. Não está o mesmo implícito naquela conhecida Escritura: “O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16)? Testifica ele isso apenas aos que são filhos de Deus no sentido mais baixo? Não; mas também aos que o são no sentido mais alto. E não testifica que o são nesse sentido mais alto? Que razão temos para duvidar? E se alguém afirmasse (como muitos de fato o fazem) que esse testemunho pertence só à mais alta classe de cristãos? Não responderia você: “O apóstolo não faz restrição; logo, sem dúvida, pertence a todos os filhos de Deus”? E a mesma resposta não vale, se alguém afirmar que pertence só à classe mais baixa? Considere também 1João 5.19: “Sabemos que somos de Deus.” Como? “Pelo Espírito que ele nos deu.” Sim, por isso conhecemos que ele permanece em nós. E que fundamento temos, na Escritura ou na razão, para excluir daqui o testemunho, tanto quanto o fruto, do Espírito? Por isso, também, conhecemos que somos de Deus, e em que sentido o somos; quer sejamos crianças, jovens ou pais, conhecemo-lo do mesmo modo. Não que eu afirme que todos os jovens, ou mesmo os pais, tenham esse testemunho a cada momento. Pode haver interrupções do testemunho direto de que são assim nascidos de Deus; mas essas interrupções são mais raras e mais breves à medida que crescem em Cristo; e alguns têm o testemunho tanto da sua justificação quanto da sua santificação, sem interrupção alguma — o que presumo que mais poderiam ter, se andassem humilde e estreitamente com Deus.
P. 20. Não podem alguns deles ter um testemunho do Espírito de que não cairão finalmente de Deus?
R. Podem. E essa persuasão, de que nem a vida nem a morte os separará dele, longe de ser prejudicial, pode em certas circunstâncias ser extremamente útil. A estes, portanto, de modo algum devemos entristecer, mas encorajar com ardor a “reter firme até o fim o princípio da sua confiança”.
P. 21. Mas têm alguns um testemunho do Espírito de que nunca mais pecarão?
R. Não sabemos o que Deus possa conceder a algumas pessoas em particular; mas não achamos, na Escritura, descrito nenhum estado geral do qual não se possa recair no pecado. Se houvesse algum estado em que isso fosse impossível, seria o dos que são santificados, que são pais em Cristo, que se alegram sempre, oram sem cessar e em tudo dão graças; mas não é impossível a estes recair. Os que são santificados ainda podem cair e perecer (Hb 10.29). Até os pais em Cristo precisam daquela advertência: “Não ameis o mundo” (1Jo 2.15). Os que se alegram, oram e dão graças sem cessar podem, contudo, “extinguir o Espírito” (1Ts 5.16ss). Sim, até os que estão “selados para o dia da redenção” podem ainda “entristecer o Espírito Santo de Deus” (Ef 4.30). Ainda que, portanto, Deus possa dar tal testemunho a algumas pessoas em particular, não se deve esperá-lo entre os cristãos em geral, não havendo Escritura em que fundar tal expectativa.
P. 22. Por que “fruto do Espírito” podemos conhecer que “somos de Deus”, mesmo no sentido mais alto?
R. Pelo amor, pela alegria, pela paz, sempre permanentes; pela invariável longanimidade, paciência e resignação; pela brandura, que triunfa sobre toda provocação; pela bondade, doçura, suavidade e ternura de espírito; pela fidelidade, simplicidade e sincera piedade; pela mansidão, calma e equilíbrio de espírito; pela temperança, não só na comida e no sono, mas em todas as coisas naturais e espirituais.
P. 23. Mas que há de tão grande nisso? Não temos tudo isso quando somos justificados?
R. Como assim — total resignação à vontade de Deus, sem mistura alguma de vontade própria? Brandura, sem o menor toque de ira, mesmo no instante em que somos provocados? Amor a Deus, sem o mínimo amor à criatura, senão nele e por ele, excluindo todo orgulho? Amor ao próximo, excluindo toda inveja, todo ciúme e todo juízo precipitado? Mansidão, que mantém toda a alma inviolavelmente calma? E temperança em todas as coisas? Negue, se quiser, que alguém jamais tenha chegado a isso; mas não diga que todos os que são justificados chegam.
P. 24. Mas alguns que foram há pouco justificados chegam. Que dirá, então, desses?
R. Se de fato chegam, direi que estão santificados, salvos do pecado naquele momento, e que nunca precisam perder o que Deus lhes deu, nem sentir pecado de novo. Mas certamente esse é um caso de exceção. É diferente com a generalidade dos que são justificados: sentem em si, mais ou menos, orgulho, ira, vontade própria, um coração inclinado a recair; e, até que gradualmente mortifiquem isso, não estão plenamente renovados no amor.
P. 25. Mas não é este o caso de todos os que são justificados? Não morrem eles gradualmente para o pecado e crescem na graça, até que, na morte ou pouco antes dela, Deus os aperfeiçoe no amor?
R. Creio que este é o caso da maioria, mas não de todos. Deus costuma dar um tempo considerável para que os homens recebam luz, cresçam na graça, façam e sofram a sua vontade, antes de serem justificados ou santificados; mas nem sempre se atém a isso: às vezes “abrevia a sua obra”, faz a obra de muitos anos em poucas semanas — talvez numa semana, num dia, numa hora. Justifica ou santifica tanto os que nada fizeram ou sofreram quanto os que não tiveram tempo de um crescimento gradual em luz ou em graça. E não pode ele fazer o que quer do que é seu? “Será mau o teu olho porque ele é bom?” (Mt 20.15). Não é preciso, portanto, afirmar repetidamente, e provar com quarenta textos, que a maioria dos homens é aperfeiçoada no amor só por fim, que há uma obra gradual de Deus na alma, ou que, em geral, é longo o tempo — mesmo muitos anos — antes que o pecado seja destruído. Tudo isso sabemos; mas sabemos igualmente que Deus pode, com o consentimento do homem, “abreviar a sua obra” em qualquer grau que lhe apraz, e fazer num momento a obra habitual de muitos anos. Assim o faz em muitos casos; e, contudo, há uma obra gradual, tanto antes quanto depois daquele momento. De modo que um pode afirmar que a obra é gradual, e outro, que é instantânea, sem contradição alguma.
P. 26. Entende Paulo, por “selados com o Espírito”, algo mais do que “renovados no amor”?
R. Talvez num lugar (2Co 1.22) não entenda tanto; mas noutro (Ef 1.13) parece incluir tanto o fruto quanto o testemunho, e isso em grau mais alto do que o que experimentamos mesmo quando somos primeiramente “renovados no amor”: Deus nos “sela com o Espírito da promessa”, dando-nos “a plena certeza da esperança” — tal confiança de receber todas as promessas de Deus que exclui a possibilidade de duvidar; “com aquele Santo Espírito”, gravando em nossos corações, por uma santidade universal, toda a imagem de Deus.
P. 27. Mas como podem os que assim estão selados “entristecer o Espírito Santo de Deus”?
R. Paulo o diz muito particularmente: primeiro, por uma conversa que não é proveitosa, não é para edificação, não é apta a “ministrar graça aos que ouvem”; segundo, por recair na amargura ou na falta de bondade; terceiro, pela cólera, pelo desagrado duradouro ou pela falta de coração compassivo; quarto, pela ira, por mais depressa que passe — pela falta de perdoar imediatamente uns aos outros; quinto, pela gritaria, pelo falar alto, áspero e rude; sexto, pela maledicência, pela murmuração, pela intriga — por mencionar sem necessidade a falta de um ausente, ainda que do modo mais brando.
R. (continuação da 28) Alguns faltam em temperança. Não usam de modo constante aquela espécie e medida de alimento que sabem, ou poderiam saber, que mais conviria à saúde, à força e ao vigor do corpo; ou não são temperantes no sono, não se atendo rigorosamente ao que é melhor para o corpo e a mente — de outro modo, deitar-se-iam e se levantariam cedo, e a hora fixa; ou ceiam tarde, o que não é bom nem para o corpo nem para a alma; ou não usam nem jejum nem abstinência; ou preferem (todas essas, formas de intemperança) a pregação, a leitura ou a conversa que lhes dá alegria e consolo passageiros, em vez da que traz a tristeza segundo Deus, ou a instrução na justiça. Tal alegria não é santificada; não tende à crucificação do coração, nem nela termina. Tal fé não se centra em Deus, mas antes em si mesma. Até aqui tudo é claro. Creio que você tem fé, amor, alegria e paz. Contudo, você, que particularmente está em causa, sabe, cada qual por si, que está em falta nos aspectos acima: falta em longanimidade, brandura ou bondade; em fidelidade, mansidão ou temperança. Não briguemos, pois, de um lado nem de outro, por palavras. Na coisa, estamos de claro acordo. Você não tem o que eu chamo de perfeição; se outros quiserem chamá-lo assim, que o façam. De todo modo, retenha firme o que tem e ore com ardor pelo que não tem.
P. 29. Podem os que são perfeitos crescer na graça?
R. Sem dúvida podem, e isso não só enquanto estão no corpo, mas por toda a eternidade.
P. 30. Podem cair dela?
R. Estou bem certo de que podem; a realidade dos fatos põe isso fora de discussão. Antes pensávamos que quem era salvo do pecado não podia cair; agora sabemos o contrário. Estamos cercados de casos de pessoas que há pouco experimentaram tudo o que entendo por perfeição. Tinham tanto o fruto do Espírito quanto o testemunho; mas perderam agora ambos. Nem ninguém permanece firme por virtude de algo implícito na natureza desse estado. Não há altura ou força de santidade da qual seja impossível cair. Se há alguns que não podem cair, isso depende inteiramente da promessa de Deus.
P. 31. Podem os que caem desse estado recuperá-lo?
R. Por que não? Temos também disso muitos casos. Sim, é coisa comuníssima as pessoas perdê-lo mais de uma vez, antes de nele se firmarem. É, portanto, para guardar os que são salvos do pecado de toda ocasião de tropeço que dou os conselhos seguintes. Mas antes falarei com clareza a respeito da própria obra. Tenho esta obra recente por obra de Deus, provavelmente a maior que há agora sobre a terra. Contudo, como todas as outras, também esta vem misturada com muita fragilidade humana. Mas essas fraquezas são bem menores do que se poderia esperar, e deveriam ter sido alegremente suportadas por todos os que amam a justiça e a buscam. Que tenha havido uns poucos homens fracos e de cabeça exaltada não é censura à obra em si, nem justo motivo para acusar uma multidão de homens sóbrios, que são exemplos de estrita santidade. Contudo (bem ao contrário do que devia ser), a oposição é grande e os apoios, poucos. Com isso, muitos são impedidos de buscar a fé e a santidade pelo falso zelo de outros, e alguns que a princípio começaram a correr bem se desviam do caminho.
P. 32. Qual é o primeiro conselho que você lhes daria? (Os conselhos que se seguem foram publicados em tratado separado, em 1762, sob o título “Cautelas e Orientações dadas aos que mais professam nas Sociedades Metodistas”, com o lema: “Ponde de lado as falsas testemunhas, mas retende para sempre a verdade.” Destinavam-se a guardar o povo contra os extravios prejudiciais de George Bell e seus amigos. — Nota do editor.)
R. Vigie e ore continuamente contra o orgulho. Se Deus o expulsou, veja que ele não entre mais: é tão perigoso quanto o desejo. E você pode escorregar de volta a ele sem perceber, sobretudo se pensa que não há perigo disso. “Mas eu atribuo tudo o que tenho a Deus.” Pois pode fazê-lo e, ainda assim, ser orgulhoso. Pois é orgulho não só atribuir a nós mesmos algo que temos, mas também pensar que temos o que na verdade não temos. O sr. L., por exemplo, atribuía a Deus toda a luz que tinha, e nisso era humilde; mas pensava ter mais luz do que qualquer homem vivo, e isso era orgulho palpável. Assim, você atribui a Deus todo o conhecimento que tem, e nesse aspecto é humilde. Mas, se pensa que tem mais do que realmente tem, ou se pensa que é de tal modo ensinado por Deus que já não precisa do ensino dos homens, o orgulho está à porta. Sim; você precisa ser ensinado, não só pelo sr. Morgan, uns pelos outros, pelo sr. Maxfield, ou por mim, mas pelo mais fraco pregador de Londres — sim, por todos os homens. Pois Deus envia por quem quer enviar. Não diga, portanto, a nenhum que queira aconselhá-lo ou repreendê-lo: “Você é cego; não pode me ensinar.” Não diga: “Isto é a sua sabedoria, a sua razão carnal”; mas pese a coisa com calma diante de Deus. Lembre-se sempre: muita graça não implica muita luz. Nem sempre andam juntas. Assim como pode haver muita luz onde há pouco amor, também pode haver muito amor onde há pouca luz. O coração tem mais calor do que o olho, e, contudo, não pode ver. E Deus sabiamente temperou entre si os membros do corpo, para que nenhum diga a outro: “Não preciso de ti.” Imaginar que ninguém pode ensiná-lo senão os que estão eles mesmos salvos do pecado é um erro muito grande e perigoso. Não lhe dê lugar por um momento; ele o levaria a mil outros erros, e isso sem remédio. Não; o domínio não se funda na graça, como falavam os insensatos da época passada. “Obedeça e respeite os que estão sobre você no Senhor”, e não pense que sabe melhor do que eles. Conheça o lugar deles e o seu, sempre lembrando: muito amor não implica muita luz. Não observar isso levou alguns a muitos erros, e ao menos à aparência de orgulho. Ah, evite a aparência e a coisa! Haja em você “aquele sentimento humilde que houve em Cristo Jesus”, e “revistam-se todos de humildade”. Que ela não só o encha, mas o cubra por inteiro. Que a modéstia e a desconfiança de si apareçam em todas as suas palavras e ações. Que tudo o que você fala e faz mostre que você é pequeno, baixo, ínfimo e vil aos seus próprios olhos. Como um exemplo disso, esteja sempre pronto a reconhecer qualquer falta em que tenha caído. Se em algum momento pensou, falou ou agiu mal, não hesite em admiti-lo. Nunca sonhe que isso prejudicará a causa de Deus; não, antes a favorecerá. Seja, pois, aberto e franco quando lhe imputarem algo; não procure evadir-se nem disfarçar, mas deixe que apareça tal como é, e assim você não estorvará, mas adornará, o evangelho.
P. 33. Qual é o segundo conselho?
R. Guarde-se daquela filha do orgulho, o fanatismo. Ah, mantenha-se à maior distância dele! Não dê lugar a uma imaginação aquecida. Não atribua às pressas as coisas a Deus. Não suponha facilmente que sonhos, vozes, impressões, visões ou revelações venham de Deus. Podem vir dele. Podem vir da natureza. Podem vir do diabo. Portanto, “não creias em todo espírito, mas prova os espíritos, se são de Deus” (1Jo 4.1). Prove tudo pela palavra escrita, e curve-se tudo diante dela. Você corre perigo de fanatismo a cada hora, se se afastar por pouco que seja da Escritura — sim, ou do sentido simples e literal de qualquer texto, tomado em conexão com o contexto. E também corre, se despreza ou tem em pouca conta a razão, o conhecimento ou o saber humano; cada um deles é excelente dom de Deus e pode servir aos mais nobres fins. Aconselho-o a nunca usar as palavras “sabedoria”, “razão” ou “conhecimento” como injúria. Pelo contrário, ore para que você mesmo abunde nelas cada vez mais. Se você se refere à sabedoria mundana, ao conhecimento inútil, ao raciocínio falso, diga-o; e jogue fora a palha, mas não o trigo. Uma via geral para o fanatismo é esperar o fim sem os meios: esperar, por exemplo, o conhecimento sem examinar as Escrituras e consultar os filhos de Deus; esperar força espiritual sem oração constante e vigilância firme; esperar qualquer bênção sem ouvir a palavra de Deus a toda oportunidade. Alguns ignoraram esse ardil de Satanás. Deixaram de examinar as Escrituras. Diziam: “Deus escreve toda a Escritura no meu coração; portanto, não preciso lê-la.” Outros achavam que não tinham tanta necessidade de ouvir, e assim afrouxaram na frequência à pregação da manhã. Ah, sirva de advertência a vocês, os que nisso estão envolvidos! Vocês escutaram a voz de um estranho. Voltem depressa para Cristo e mantenham-se “no bom e velho caminho, uma vez entregue aos santos” — o caminho de que até um pagão deu testemunho: que “os cristãos se levantavam cedo, cada dia, para cantar hinos a Cristo como Deus”. O próprio desejo de “crescer na graça” pode, às vezes, ser uma via para o fanatismo. Como nos leva continuamente a buscar nova graça, pode levar-nos, sem que percebamos, a buscar algo mais de novo, além de novos graus de amor a Deus e ao próximo. Assim levou alguns a buscar, e a imaginar que haviam recebido, dons de espécie nova, depois de um coração novo, como: o amar a Deus com toda a mente; com toda a alma; com todas as forças; a unidade com Deus; a unidade com Cristo; ter a vida escondida com Cristo em Deus; estar morto com Cristo; ressuscitar com ele; assentar-se com ele nos lugares celestiais; ser elevado ao seu trono; estar na Nova Jerusalém; ver descer o tabernáculo de Deus entre os homens; estar morto para todas as obras; não estar sujeito à morte, à dor, à tristeza ou à tentação. Um fundamento de muitos desses enganos é tomar cada aplicação nova e forte de qualquer dessas Escrituras ao coração por um dom de espécie nova, sem saber que várias dessas Escrituras ainda não se cumpriram, que a maioria das outras se cumpre quando somos justificados, e o restante, no momento em que somos santificados. Resta apenas experimentá-las em graus mais altos: é tudo o que temos a esperar. Outro fundamento destes, e de mil enganos, é não considerar a fundo que o amor é o mais alto dom de Deus — o amor humilde, brando e paciente; que todas as visões, revelações e manifestações são coisas pequenas em comparação com o amor; e que todos os dons acima mencionados são, ou o mesmo que ele, ou infinitamente inferiores a ele. Seria bom que você se compenetrasse bem disto: “o céu dos céus é o amor”. Não há nada mais alto na religião; não há, com efeito, nada mais. Se você procura algo que não seja mais amor, está olhando para longe do alvo, está saindo do caminho régio. E, quando você pergunta a outros: “Recebeu esta ou aquela bênção?”, se entende algo que não seja mais amor, entende errado; está tirando-os do caminho e pondo-os numa pista falsa. Firme, pois, no coração que, desde o momento em que Deus o salvou de todo pecado, você não deve visar a nada mais senão a mais daquele amor descrito em 1Coríntios 13. Não pode ir mais alto do que isto, até ser levado ao seio de Abraão. Digo mais uma vez: guarde-se do fanatismo. Tal é imaginar que você tem o dom de profetizar, ou de discernir os espíritos — o que não creio que nenhum de vocês tenha, não, nem jamais teve. Guarde-se de julgar as pessoas certas ou erradas pelos seus próprios sentimentos. Esse não é o modo bíblico de julgar. Ah, apegue-se “à lei e ao testemunho”!
P. 34. Qual é o terceiro?
R. Guarde-se do antinomismo — de “anular a lei”, ou qualquer parte dela, “pela fé”. O fanatismo leva naturalmente a isso; de fato, mal se podem separar. Ele pode insinuar-se em mil formas, de modo que nunca é demais vigiar contra ele. Cuidado com tudo, seja em princípio, seja em prática, que tenha alguma tendência a isso. Até aquela grande verdade, de que “Cristo é o fim da lei”, pode arrastar-nos a ele, se não considerarmos que ele adotou cada ponto da lei moral e o enxertou na lei do amor. Guarde-se de pensar: “Porque estou cheio de amor, não preciso ter tanta santidade. Porque oro sempre, não preciso de hora marcada para a oração particular. Porque vigio sempre, não preciso de exame de consciência particular.” Antes, “engrandeçamos a lei” — toda a palavra escrita — “e a tornemos gloriosa”. Seja esta a nossa voz: “Prezo os teus mandamentos mais do que o ouro e as pedras preciosas. Ah, quanto amo a tua lei! É a minha meditação o dia todo.” Guarde-se dos livros antinomistas, particularmente das obras do dr. Crisp e do sr. Saltmarsh: contêm muitas coisas excelentes, e é isso que os torna mais perigosos. Ah, seja advertido a tempo! Não brinque com o fogo; não ponha a mão “na cova do basilisco”. Suplico-lhe: guarde-se da intolerância sectária. Que o seu amor e a sua beneficência não se restrinjam apenas aos metodistas, assim chamados; muito menos àquela pequeníssima parte deles que parece renovada no amor, ou aos que creem no relato de vocês. Ah, não faça disto o seu “xibolete”! Guarde-se do quietismo, do cessar, em sentido errado, das próprias obras. Para citar um caso entre muitos: “Você recebeu”, diz um, “uma grande bênção; mas começou a falar dela, e a fazer isto e aquilo, e assim a perdeu. Deveria ter ficado quieto.” Guarde-se da autoindulgência — sim, de fazer dela uma virtude, rindo-se da abnegação, do tomar cada dia a cruz, do jejum ou da abstinência. Guarde-se da censura — de julgar ou chamar “cegos, mortos, caídos ou inimigos da obra” os que de algum modo se opõem a você, seja no juízo, seja na prática. Mais uma vez, guarde-se do “só a fé” mal entendido, que só clama “Crê, crê!” e condena como ignorantes ou legalistas os que falam de modo mais bíblico. Em certas ocasiões, de fato, pode ser certo tratar só do arrependimento, ou só da fé, ou inteiramente da santidade; mas, em geral, o nosso chamado é anunciar “todo o conselho de Deus” e profetizar “segundo a proporção da fé”. A palavra escrita trata de toda a justiça e de cada um dos seus ramos, descendo aos mais miúdos: ser sóbrio, cortês, diligente, paciente, honrar a todos. Assim também o Espírito Santo opera o mesmo em nossos corações, não apenas criando desejos de santidade em geral, mas inclinando-nos fortemente a cada graça particular, levando-nos a cada parte individual de “tudo o que é amável”. E isso com toda a propriedade; pois, assim como pelas obras se aperfeiçoa a fé, também o completar ou destruir a obra da fé, e o gozar do favor ou sofrer o desagrado de Deus, dependem muito de cada ato singular de obediência ou desobediência.
P. 35. Qual é o quarto?
R. Guarde-se dos pecados de omissão; não perca oportunidade de fazer o bem de qualquer espécie. Seja zeloso das boas obras; não omita de boa vontade nenhuma obra, seja de piedade, seja de misericórdia. Faça todo o bem que puder aos corpos e às almas dos homens. Em particular: “Repreende sem falta o teu próximo, e não sofras pecado sobre ele.” Seja ativo. Não dê lugar à indolência nem à preguiça; não dê ocasião a que digam: “Sois ociosos, sois ociosos.” Muitos o dirão ainda; mas que todo o seu espírito e comportamento desmintam a calúnia. Esteja sempre ocupado; não perca um retalho de tempo; “recolha os fragmentos, para que nada se perca”. E “tudo quanto a tua mão encontrar para fazer, faze-o com todas as tuas forças”. Seja “tardio para falar” e cauteloso ao falar. “Na multidão de palavras não falta pecado.” Não fale muito, nem por muito tempo de cada vez. Poucos conseguem conversar com proveito por mais de uma hora. Mantenha-se à maior distância da conversa fiada piedosa, da fofoca religiosa.
P. 36. Qual é o quinto?
R. Guarde-se de desejar coisa alguma senão a Deus. Agora você não deseja mais nada; todo outro desejo foi expulso; veja que nenhum entre de novo. “Conserva-te puro”; que o teu olho permaneça simples, e todo o teu corpo estará cheio de luz. Não admita desejo de alimento saboroso, nem de qualquer outro prazer dos sentidos; nenhum desejo de agradar aos olhos ou à imaginação com algo grandioso, novo ou belo; nenhum desejo de dinheiro, de louvor ou de estima, nem de felicidade em criatura alguma. Você pode trazer de volta esses desejos; mas não precisa; não precisa senti-los mais. Ah, “permaneça firme na liberdade com que Cristo o libertou”. Seja exemplo para todos de negar a si mesmo e de tomar cada dia a sua cruz. Que vejam que você não dá valor a nenhum prazer que não o aproxime de Deus, nem se importa com nenhuma dor que o aproxime; que você visa unicamente a agradar a ele, seja fazendo, seja sofrendo; que a linguagem constante do seu coração, quanto ao prazer ou à dor, à honra ou à desonra, à riqueza ou à pobreza, é: “Tudo me é igual, contanto que eu no meu Senhor possa viver e morrer!”
P. 37. Qual é o sexto?
R. Guarde-se da divisão, de fazer rasgo na Igreja de Cristo. Aquela desunião interior — “os membros deixando de ter cuidado uns dos outros” (1Co 12.25) — é a própria raiz de toda contenda e de toda separação exterior. Guarde-se de tudo o que tende a isso. Guarde-se de um espírito divisor; fuja de tudo o que tenha o menor aspecto disso. Portanto, não diga: “Eu sou de Paulo, ou de Apolo” — justamente o que ocasionou a divisão em Corinto. Não diga: “Este é o meu pregador, o melhor da Inglaterra. Dai-me a ele, e ficai com todos os demais.” Tudo isso tende a gerar ou fomentar divisão, a desunir os que Deus uniu. Não despreze nem rebaixe nenhum pregador; não exalte nenhum acima dos demais, para não prejudicar a ele e à causa de Deus. Por outro lado, não pese demais sobre ninguém por causa de alguma incoerência ou imprecisão de expressão; não, nem por alguns enganos, ainda que fossem reais. Do mesmo modo, se você quer evitar a divisão, observe toda regra da Sociedade e das Bandas por dever de consciência. Nunca falte à reunião da sua Classe ou Banda; nunca se ausente de qualquer reunião pública. Estes são os próprios nervos da nossa Sociedade; e tudo o que enfraquece, ou tende a enfraquecer, o nosso apreço por eles, ou a nossa exatidão em frequentá-los, fere a própria raiz da nossa comunidade. Como diz alguém: “Essa parte da nossa economia — as reuniões semanais e privadas para oração, exame e exortação particular — tem sido o maior meio de aprofundar e confirmar cada bênção recebida pela palavra pregada, e de difundi-la a outros que não podiam frequentar o ministério público; ao passo que, sem essa ligação e convívio religiosos, as mais ardentes tentativas, pela simples pregação, mostraram-se de nenhum uso duradouro.” Não acalente um só pensamento de separar-se dos seus irmãos, concordem ou não as opiniões deles com as suas. Não sonhe que alguém peca por não crer em você, por não aceitar a sua palavra, ou que esta ou aquela opinião seja essencial à obra, e que ambas devam ficar ou cair juntas. Guarde-se da impaciência com a contradição. Não condene nem pense mal dos que não conseguem ver como você vê, ou que julgam ser seu dever contradizê-lo, seja em coisa grande, seja pequena. Temo que alguns de nós tenham pensado mal de outros só por nos contradizerem no que afirmávamos. Tudo isso tende à divisão; e, por tudo o que é dessa espécie, ensinamos a eles uma lição má contra nós mesmos. Ah, guarde-se da suscetibilidade, da irritabilidade, de não suportar que lhe falem, de sobressaltar-se à menor palavra e de fugir dos que não recebem sem contestação o que eu ou outro dissemos! Espere contradição e oposição, além de cruzes de várias espécies. Considere as palavras de Paulo: “…vos foi concedido, em relação a Cristo” — por amor dele, como fruto da sua morte e intercessão por vós — “não somente crer nele, mas também padecer por ele” (Fp 1.29). Foi concedido! Deus lhe dá essa oposição ou censura; é um novo sinal do seu amor. E você renegará o Doador, ou desprezará o seu dom, tendo-o por infortúnio? Não dirá antes: “Pai, chegou a hora de seres glorificado; agora dás ao teu filho sofrer algo por ti: faze de mim segundo a tua vontade”? Saiba que essas coisas, longe de serem estorvos à obra de Deus ou à sua alma (a não ser por culpa sua), não só são inevitáveis no curso da Providência, mas proveitosas, sim, necessárias, para você. Portanto, receba-as de Deus (não do acaso) com boa vontade e gratidão. Receba-as dos homens com humildade, mansidão, docilidade, brandura e doçura. Por que não haveria de ser suave até a sua aparência e o seu modo exterior? Lembre-se do que se dizia de lady Cutts: “Do imperador romano Tito se dizia que ninguém saía descontente da sua presença; mas dela se podia dizer que ninguém ia descontente a ela, tão certos estavam todos da acolhida bondosa e favorável que dela receberiam.” Guarde-se de tentar os outros a separar-se de você. Não dê ofensa que possa ser evitada; veja que a sua prática seja em tudo condizente com a sua profissão, “adornando a doutrina de Deus, nosso Salvador”. Seja particularmente cuidadoso ao falar de si mesmo: você não deve, de fato, negar a obra de Deus; mas fale dela, quando for chamado a isso, do modo mais inofensivo possível. Evite toda palavra pomposa e grandiloquente; na verdade, não precisa dar-lhe nome geral algum — nem perfeição, nem santificação, nem “segunda bênção”, nem “ter alcançado”. Fale antes das particularidades que Deus operou em você. Você pode dizer: “Em tal tempo senti uma mudança que não sei exprimir; e, desde então, não senti orgulho, nem vontade própria, nem ira, nem incredulidade, mas só uma plenitude de amor a Deus e a toda a humanidade.” E responda com modéstia e simplicidade a qualquer outra pergunta simples que lhe façam. E, se algum de vocês, em qualquer tempo, cair do que agora é, se voltar a sentir orgulho, ou incredulidade, ou qualquer disposição de que agora está livre, não a negue, não a esconda, não a disfarce de modo algum, sob pena da sua alma. Em todo caso, vá a alguém em quem possa confiar e diga exatamente o que sente. Deus o capacitará a dizer uma palavra a tempo, que será saúde para a sua alma. E, por certo, ele de novo lhe erguerá a cabeça e fará regozijar-se os ossos que foram quebrados.
P. 38. Qual é o último conselho que você lhes daria?
R. Seja exemplar em tudo, particularmente nas coisas exteriores (como no vestir), nas pequenas coisas, no modo de gastar o seu dinheiro (evitando toda despesa desnecessária), numa seriedade profunda e constante, e na solidez e utilidade de toda a sua conversa. Assim você será “uma luz que brilha em lugar escuro”. Assim crescerá cada dia na graça, até que “vos seja amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor Jesus Cristo”.
A maioria dos conselhos anteriores é fortemente reforçada nas reflexões que se seguem, as quais recomendo à sua profunda e frequente consideração, logo depois das Sagradas Escrituras:
O mar é excelente figura da plenitude de Deus, e da do bendito Espírito. Pois, assim como todos os rios voltam ao mar, também os corpos, as almas e as boas obras dos justos voltam a Deus, para ali viver no seu eterno repouso. Ainda que todas as graças de Deus dependam da sua pura generosidade, ele costuma prendê-las às orações, às instruções e à santidade daqueles com quem convivemos; por atrações fortes, embora invisíveis, atrai algumas almas por meio do seu convívio com outras. As afinidades formadas pela graça superam de longe as formadas pela natureza. Os verdadeiramente devotos mostram que as paixões brotam tão naturalmente do amor verdadeiro quanto do falso, tão profundamente sensíveis são eles aos bens e males daqueles a quem amam por amor de Deus. Mas isso só pode ser compreendido pelos que entendem a linguagem do amor. O fundo da alma pode estar em repouso, mesmo enquanto estamos em muitas perturbações exteriores, assim como o fundo do mar está calmo enquanto a superfície é fortemente agitada. Os melhores auxílios para o crescimento na graça são os maus-tratos, as afrontas e as perdas que nos sobrevêm. Devemos recebê-los com toda a gratidão, como preferíveis a todos os outros, quando não fosse senão por isto: que a nossa vontade não tem parte neles. O modo mais pronto de escapar dos nossos sofrimentos é estar disposto a que durem quanto Deus quiser. Se sofremos a perseguição e a aflição do modo devido, alcançamos maior medida de conformidade com Cristo pelo bom aproveitamento de uma dessas ocasiões do que poderíamos alcançar apenas imitando a sua misericórdia em muitas boas obras. Uma das maiores provas do amor de Deus aos que o amam é enviar-lhes aflições, com graça para suportá-las. Mesmo nas maiores aflições, devemos testemunhar a Deus que, recebendo-as da sua mão, sentimos prazer no meio da dor, por sermos afligidos por Aquele que nos ama e a quem amamos. O modo mais pronto de que Deus se vale para atrair um homem a si é afligi-lo naquilo que ele mais ama, e com boa razão, e fazer essa aflição nascer de alguma boa ação feita com olhar simples; porque nada lhe pode mostrar mais claramente a vaidade do que há de mais amável e desejável no mundo.
A verdadeira resignação consiste numa completa conformidade a toda a vontade de Deus, que quer e faz tudo (exceto o pecado) o que acontece no mundo. Para isso, temos apenas de abraçar todos os acontecimentos, bons e maus, como vontade dele. Nas maiores aflições que podem sobrevir aos justos, seja do céu, seja da terra, eles permanecem imóveis em paz e perfeitamente submissos a Deus, por um interior e amoroso olhar para ele, que reúne num só todas as potências da alma. Devemos sofrer com quietude tudo o que nos sobrevém, suportar os defeitos dos outros e os nossos, confessá-los a Deus na oração secreta, ou “com gemidos inexprimíveis”; mas nunca dizer uma palavra áspera ou rabugenta, nem murmurar ou queixar-nos, e sim estar de todo dispostos a que Deus nos trate do modo que lhe apraz. Somos os seus cordeiros e, portanto, devemos estar prontos a sofrer, até a morte, sem queixa. Devemos suportar os que não podemos corrigir, e contentar-nos em oferecê-los a Deus. Isto é verdadeira resignação. E, visto que ele levou sobre si as nossas fraquezas, bem podemos suportar uns as dos outros por amor dele. Abandonar tudo, despojar-se de tudo, para buscar e seguir Jesus Cristo nu até Belém, onde nasceu; nu até o pretório, onde foi açoitado; e nu até o Calvário, onde morreu na cruz — isto é mercê tão grande, que nem a coisa, nem o conhecimento dela é dado a alguém senão pela fé no Filho de Deus.
Não há amor de Deus sem paciência, nem paciência sem humildade e doçura de espírito. A humildade e a paciência são as provas mais seguras do crescimento do amor. Só a humildade une a paciência ao amor, sem o que é impossível tirar proveito do sofrimento, ou mesmo evitar a queixa, sobretudo quando julgamos não ter dado motivo ao que os homens nos fazem sofrer. A verdadeira humildade é uma espécie de aniquilamento de si mesmo; e este é o centro de todas as virtudes. Uma alma que voltou a Deus deve estar atenta a tudo o que lhe é dito sobre a salvação, com o desejo de aproveitá-lo. Dos pecados que Deus perdoou, nada reste senão uma humildade mais profunda no coração, e uma disciplina mais estrita nas palavras, nas ações e nos sofrimentos.
Suportar os homens, e sofrer os males com mansidão e silêncio, é a suma da vida cristã. Deus é o primeiro objeto do nosso amor; o seu ofício seguinte é suportar os defeitos dos outros. E devemos começar a praticá-lo dentro da nossa própria casa. Devemos exercer o nosso amor principalmente para com os que mais chocam o nosso modo de pensar, ou o nosso temperamento, ou o nosso saber, ou o desejo que temos de que os outros sejam tão virtuosos quanto queremos ser nós mesmos.
Deus dificilmente dá o seu Espírito, mesmo aos que estabeleceu na graça, se eles não o pedirem em toda ocasião, não uma vez só, mas muitas. Deus nada faz senão em resposta à oração; e mesmo os que se converteram a ele sem orar por isso (o que é raríssimo) não o fizeram sem as orações de outros. Toda nova vitória que uma alma ganha é efeito de uma nova oração. Em toda ocasião de inquietação, devemos recolher-nos à oração, para dar lugar à graça e à luz de Deus, e então formar as nossas resoluções, sem nos afligirmos com o êxito que possam ter. Nas maiores tentações, um só olhar para Cristo, e o simples pronunciar do seu nome, basta para vencer o maligno, contanto que se faça com confiança e calma de espírito. O mandamento de Deus de “orar sem cessar” funda-se na necessidade que temos da sua graça para conservar a vida de Deus na alma, que não pode subsistir um só momento sem ela, assim como o corpo não pode sem o ar. Quer pensemos em Deus, ou lhe falemos, quer ajamos ou soframos por ele, tudo é oração, quando não temos outro objeto senão o seu amor e o desejo de lhe agradar. Tudo o que um cristão faz, mesmo comer e dormir, é oração, quando é feito com simplicidade, segundo a ordem de Deus, sem acrescentar-lhe nem tirar-lhe nada por escolha própria. A oração continua no desejo do coração, ainda que o entendimento esteja ocupado com coisas exteriores. Nas almas cheias de amor, o desejo de agradar a Deus é uma oração contínua. Assim como o furioso ódio que o diabo nos tem se chama “o rugido do leão”, também o nosso veemente amor se pode chamar “clamor por Deus”. Deus só requer dos seus filhos adultos que o seu coração seja verdadeiramente purificado, e que lhe ofereçam continuamente os desejos e votos que naturalmente brotam do amor perfeito. Pois esses desejos, sendo os genuínos frutos do amor, são as mais perfeitas orações que dele podem brotar.
Mal se pode conceber quão estreito é o caminho por onde Deus conduz os que o seguem, e quão dependentes dele devemos ser, a menos que faltemos à nossa fidelidade para com ele. Mal se pode crer de quão grande consequência, diante de Deus, são as menores coisas, e que grandes inconvenientes às vezes se seguem às que parecem faltas leves. Assim como um pouquinho de pó desregula um relógio, e o menor grão de areia turva a nossa vista, também o menor grão de pecado que há sobre o coração estorva o seu reto movimento para Deus. Devemos estar na igreja como os santos estão no céu, e em casa como os mais santos estão na igreja; fazendo o nosso trabalho em casa como oramos na igreja, adorando a Deus do fundo do coração. Devemos trabalhar continuamente por cortar todas as coisas inúteis que nos rodeiam; e Deus costuma podar as superfluidades da nossa alma na mesma proporção em que nós podamos as do corpo. O melhor meio de resistir ao diabo é destruir tudo o que de mundo resta em nós, para erguer para Deus, sobre as suas ruínas, um edifício todo de amor. Então começaremos, nesta vida fugaz, a amar a Deus como o amaremos na eternidade. Mal concebemos quão fácil é roubar a Deus o que lhe é devido, na nossa amizade com as pessoas mais virtuosas, até que elas nos sejam arrancadas pela morte. Mas, se essa perda produz tristeza duradoura, isso é prova clara de que tínhamos antes dois tesouros, entre os quais dividíamos o coração.
Se, depois de havermos renunciado a tudo, não vigiarmos incessantemente e não suplicarmos a Deus que acompanhe a nossa vigilância com a sua, seremos de novo enredados e vencidos. Assim como os ventos mais perigosos podem entrar por pequenas frestas, também o diabo nunca entra de modo mais perigoso do que por pequenos incidentes despercebidos, que parecem nada e, contudo, insensivelmente abrem o coração a grandes tentações. É bom renovar-nos, de tempos em tempos, examinando de perto o estado da nossa alma, como se nunca o houvéssemos feito; pois nada conduz mais à plena certeza da fé do que manter-nos, por esse meio, na humildade e no exercício de todas as boas obras. À vigilância e à oração contínuas deve-se acrescentar a ocupação contínua. Pois a graça foge do vazio, como a natureza; e o diabo enche tudo o que Deus não enche. Não há fidelidade como a que deve haver entre um guia de almas e a pessoa por ele dirigida. Devem continuamente olhar-se um ao outro em Deus, e examinar-se de perto, se todos os seus pensamentos são puros e todas as suas palavras dirigidas com discrição cristã. Os demais assuntos são apenas coisas dos homens; mas estas são, de modo peculiar, coisas de Deus.
As palavras de Paulo — “Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo” — mostram-nos a necessidade de olhar para Deus nas nossas boas obras, e até nos nossos mais miúdos pensamentos, sabendo que nenhum lhe é agradável senão os que ele forma em nós e conosco. Daí aprendemos que não podemos servi-lo, a menos que ele use a nossa língua, as nossas mãos e o nosso coração, para fazer por si mesmo e pelo seu Espírito tudo o que quer que façamos. Se não fôssemos de todo impotentes, as nossas boas obras seriam propriedade nossa; ao passo que agora pertencem inteiramente a Deus, porque procedem dele e da sua graça; e, ao levantar as nossas obras e torná-las todas divinas, ele se honra em nós por meio delas. Uma das principais regras da religião é não perder ocasião de servir a Deus. E, visto que ele é invisível aos nossos olhos, havemos de servi-lo no próximo, o que ele recebe como se fosse feito a ele mesmo em pessoa, de pé, visivelmente, diante de nós. Deus não ama os homens inconstantes, nem as boas obras interrompidas. Nada lhe agrada senão o que tem semelhança com a sua própria imutabilidade. Uma atenção constante à obra que Deus nos confia é sinal de piedade sólida. O amor jejua quando pode, e quanto pode. Leva a todas as ordenanças de Deus e ocupa-se em todas as obras exteriores de que é capaz. Voa, por assim dizer, como Elias sobre a planície, para achar Deus no seu santo monte. Deus é tão grande que comunica grandeza à menor coisa que se faz a seu serviço. Felizes os que adoecem, sim, ou perdem a vida, por terem feito uma boa obra. Deus muitas vezes oculta a parte que os seus filhos têm na conversão de outras almas. Contudo, pode-se afirmar com ousadia que a pessoa que por muito tempo geme diante dele pela conversão de outra, quando essa alma se converte a Deus, é uma das principais causas disso. A caridade não se pode praticar bem, a não ser que, primeiro, a exerçamos no momento em que Deus dá a ocasião; e, segundo, nos recolhamos logo depois para oferecê-la a Deus por humilde ação de graças. E isso por três razões: primeira, para lhe restituir o que dele recebemos; segunda, para evitar a perigosa tentação que nasce da própria bondade dessas obras; terceira, para nos unirmos a Deus, em quem a alma se expande na oração, com todas as graças que recebemos e as boas obras que fizemos, a fim de tirar dele nova força contra os maus efeitos que essas mesmas obras podem produzir em nós, se não usarmos os antídotos que Deus ordenou contra esses venenos. O verdadeiro meio de nos enchermos de novo das riquezas da graça é assim despojar-nos delas; e, sem isso, é extremamente difícil não desfalecer na prática das boas obras. As boas obras não recebem a sua última perfeição senão quando, por assim dizer, se perdem em Deus. É uma espécie de morte para elas, semelhante à do nosso corpo, que não alcançará a sua vida mais alta, a sua imortalidade, senão quando se perder na glória da nossa alma, ou antes, de Deus, de que será cheio. E é só o que tinham de terreno e mortal que as boas obras perdem por essa morte espiritual. O fogo é o símbolo do amor; e o amor de Deus é o princípio e o fim de todas as nossas boas obras. Mas a verdade supera a figura; e o fogo do amor divino tem esta vantagem sobre o fogo material: pode reascender à sua fonte, e levar consigo até lá todas as boas obras que produz. E, por esse meio, evita que sejam corrompidas pelo orgulho, pela vaidade ou por qualquer mistura má. Mas isso não se pode fazer senão fazendo essas boas obras morrer, de modo espiritual, em Deus, por uma profunda gratidão, que mergulha a alma nele como num abismo, com tudo o que ela é, e toda a graça e as obras que a ele deve; uma gratidão pela qual a alma parece esvaziar-se delas, para que voltem à sua fonte, como os rios parecem querer esvaziar-se quando se derramam, com todas as suas águas, no mar. Quando recebemos algum favor de Deus, devemos recolher-nos, se não ao nosso quarto, ao nosso coração, e dizer: “Venho, Senhor, restituir-te o que me deste; e de bom grado abro mão disso, para entrar de novo no meu próprio nada. Pois que é a mais perfeita criatura, no céu ou na terra, diante de ti, senão um vazio capaz de ser cheio de ti e por ti — como o ar, que, vazio e escuro, é capaz de ser cheio da luz do sol, que a retira cada dia para a devolver no dia seguinte, não havendo no ar nada que se aproprie dessa luz ou lhe resista? Ah, dá-me a mesma facilidade de receber e restituir a tua graça e as tuas boas obras! Digo tuas, pois reconheço que a raiz de que brotam está em ti, e não em mim.”
26. No ano de 1764, ao rever todo o assunto, anotei a suma do que havia observado nas seguintes proposições breves:
1. Existe algo como a perfeição, pois ela é mencionada repetidas vezes na Escritura.
2. Não é tão cedo quanto a justificação, pois os justificados devem “avançar para a perfeição” (Hb 6.1).
3. Não é tão tarde quanto a morte, pois Paulo fala de homens vivos que eram perfeitos (Fp 3.15).
4. Não é absoluta. A perfeição absoluta não pertence ao homem, nem aos anjos, mas só a Deus.
5. Não torna o homem infalível: ninguém é infalível enquanto permanece no corpo.
6. É “sem pecado”? Não vale a pena disputar por um termo. É “salvação do pecado”.
7. É “o amor perfeito” (1Jo 4.18). Esta é a sua essência; as suas propriedades, ou frutos inseparáveis, são: alegrar-se sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças (1Ts 5.16ss).
8. É suscetível de crescimento. Longe de estar num ponto indivisível, ou de ser incapaz de aumento, quem foi aperfeiçoado no amor pode crescer na graça muito mais depressa do que antes.
9. É passível de ser perdida, de que temos numerosos casos. Mas só disso nos convencemos plenamente há cinco ou seis anos.
10. É constantemente precedida e seguida por uma obra gradual.
11. Mas é, em si mesma, instantânea ou não? Ao examinar isto, vamos passo a passo. Uma mudança instantânea foi operada em alguns crentes: ninguém o pode negar. Desde essa mudança, eles gozam de amor perfeito; sentem isto, e só isto; alegram-se sempre, oram sem cessar e em tudo dão graças. Ora, é tudo o que entendo por perfeição; logo, são testemunhas da perfeição que prego. “Mas em alguns essa mudança não foi instantânea”: eles não perceberam o instante em que se operou. Muitas vezes é difícil perceber o instante em que um homem morre; e, contudo, há um instante em que a vida cessa. E, se alguma vez o pecado cessa, tem de haver um último momento da sua existência e um primeiro momento da nossa libertação dele. “Mas, se têm esse amor agora, hão de perdê-lo.” Podem; mas não precisam. E, quer o percam, quer não, têm-no agora; experimentam agora o que ensinamos. São agora todo amor; alegram-se, oram e louvam sem cessar. “Contudo, o pecado está apenas suspenso neles; não está destruído.” Chame-o como quiser. Eles são todo amor hoje, e não se preocupam com o amanhã. “Mas esta doutrina tem sido muito abusada.” Também a da justificação pela fé. Mas isso não é razão para abrir mão nem desta nem de qualquer outra doutrina bíblica. Ao “lavar o filho”, como diz alguém, jogue fora a água, mas não jogue fora o filho. “Mas os que pensam estar salvos do pecado dizem que não precisam dos méritos de Cristo.” Dizem justamente o contrário. A sua linguagem é: “A cada momento, Senhor, preciso do mérito da tua morte!” Nunca antes tiveram convicção tão profunda e inexprimível da necessidade de Cristo em todos os seus ofícios como têm agora. Portanto, todos os nossos pregadores devem fazer questão de pregar a perfeição aos crentes constante, forte e explicitamente; e todos os crentes devem atender a esta única coisa, e continuamente agonizar por ela.
27. Fiz agora o que me propus. Dei um relato simples e claro do modo como recebi pela primeira vez a doutrina da perfeição, e do sentido em que a recebi, e em que a recebo e ensino até o dia de hoje. Declarei o todo e cada parte do que entendo por aquela expressão bíblica. Pintei-a por inteiro, sem disfarce nem véu. E pergunto agora a qualquer pessoa imparcial: que há aqui de tão assustador? De onde vem todo esse clamor que, por estes vinte e tantos anos, se levantou por todo o reino, como se todo o cristianismo estivesse destruído e toda a religião arrancada pela raiz? Por que o próprio nome de “perfeição” foi lançado fora da boca dos cristãos, sim, execrado e abominado, como se contivesse a mais perniciosa heresia? Por que os que a pregam têm sido vaiados como cães raivosos, mesmo por homens que temem a Deus, e até por alguns dos seus próprios filhos, que eles, sob Deus, haviam gerado pelo evangelho? Que razão há para isso, ou que pretexto? Razão, razão sólida, não há nenhuma; é impossível que haja. Mas pretextos, sim, e em grande abundância. De fato, há motivo para temer que, com alguns dos que assim nos tratam, seja mero pretexto, não mais que uma máscara, do princípio ao fim. Queriam, buscavam, ocasião contra mim; e aqui acharam o que buscavam. “Esta é a doutrina do sr. Wesley! Ele prega a perfeição!” Prega, sim; mas ela não é dele mais do que é sua, ou de qualquer outro que seja ministro de Cristo. Pois é a doutrina dele, peculiar e enfaticamente dele: é a doutrina de Jesus Cristo. As palavras são dele, não minhas: Esesthe oun teleioi, hōsper ho patēr hymōn ho en tois ouranois teleios esti — “Sede vós, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai celestial” (Mt 5.48). E quem diz “não sereis”, ou ao menos “não sereis, até que a vossa alma se separe do corpo”? É a doutrina de Paulo, de Tiago, de Pedro e de João; e não é do sr. Wesley senão como é a de todo aquele que prega o evangelho puro e inteiro. Digo-lhe, tão claramente quanto posso, onde e quando achei isto. Achei-o nos oráculos de Deus, no Antigo e no Novo Testamento, quando os li sem outro intento ou desejo senão salvar a minha própria alma. Mas, de quem quer que seja esta doutrina, pergunto-lhe: que mal há nela? Olhe-a de novo; examine-a por todos os lados, com a mais atenta consideração. Sob um aspecto, é pureza de intenção, dedicar toda a vida a Deus; é dar a Deus todo o coração; é um só desejo e propósito governando todas as nossas disposições; é consagrar a Deus, não parte, mas toda a nossa alma, corpo e bens. Sob outro aspecto, é ter toda a mente que houve em Cristo, capacitando-nos a andar como ele andou; é a circuncisão do coração de toda impureza, interior e exterior; é a renovação do coração em toda a imagem de Deus, à plena semelhança daquele que o criou. Sob ainda outro, é amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos. Ora, tome-a sob o aspecto que quiser (pois não há diferença de monta), e esta é toda e a única perfeição — como uma série de escritos prova de modo cabal — que eu creio e ensino há quarenta anos, de 1725 a 1765.
28. Que esta perfeição apareça agora na sua forma natural, e quem poderá dizer uma só palavra contra ela? Ousará alguém falar contra amar o Senhor, nosso Deus, de todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos? Contra uma renovação do coração, não só em parte, mas em toda a imagem de Deus? Quem abrirá a boca contra ser purificado de toda impureza da carne e do espírito, ou contra ter toda a mente que houve em Cristo e andar em tudo como ele andou? Que homem, que se diga cristão, tem a ousadia de objetar a consagrar a Deus, não parte, mas toda a alma, o corpo e os bens? Que homem sério se oporia a dar a Deus todo o coração, e a ter um só propósito governando todas as disposições? Digo de novo: que esta perfeição apareça na sua própria forma, e quem lutará contra ela? É preciso disfarçá-la antes de poder combatê-la. É preciso cobri-la primeiro com uma pele de urso, ou nem as feras do povo se deixarão induzir a rasgá-la. Mas, façam elas o que fizerem, não lutem mais os filhos de Deus contra a imagem de Deus. Não digam os membros de Cristo coisa alguma contra ter toda a mente que houve em Cristo. Não se oponham os que estão vivos para Deus a dedicar-lhe toda a vida. Por que haveis vós, que tendes o amor dele derramado no coração, de resistir a dar-lhe todo o coração? Não clama tudo o que há dentro de vós: “Ah, quem ama, poderá amar o bastante?” Que pena que os que desejam e se propõem agradar-lhe tenham qualquer outro propósito ou desejo! E muito mais, que temam como engano fatal, sim, abominem como abominação a Deus, ter este único desejo e propósito governando cada disposição! Por que haveriam os homens devotos de recear consagrar a Deus toda a alma, o corpo e os bens? Por que haveriam os que amam a Cristo de ter por erro condenável pensar que podemos ter toda a mente que houve nele? Admitimos, sim, sustentamos, que somos justificados gratuitamente pela justiça e pelo sangue de Cristo. E por que vos irritais tanto contra nós por esperarmos ser também santificados plenamente pelo seu Espírito? Não esperamos favor algum, nem dos servos declarados do pecado, nem dos que têm apenas a forma de religião. Mas até quando vós, que adorais a Deus em espírito, que sois “circuncidados com a circuncisão não feita por mãos”, poreis em ordem de batalha contra os que buscam uma inteira circuncisão do coração, que têm sede de ser purificados “de toda impureza da carne e do espírito” e de “aperfeiçoar a santidade no temor de Deus”? Somos vossos inimigos por esperarmos plena libertação daquela “mente carnal que é inimizade contra Deus”? Não; somos vossos irmãos, vossos colaboradores na vinha do nosso Senhor, vossos companheiros no reino e na paciência de Jesus. Ainda que isto confessemos (se nisso somos loucos, suportai-nos como loucos): esperamos, sim, amar a Deus de todo o coração, e ao próximo como a nós mesmos. Sim, cremos que ele, neste mundo, de tal modo purificará os pensamentos do nosso coração, pela inspiração do seu Santo Espírito, que o amaremos perfeitamente e dignamente engrandeceremos o seu santo nome.
Ocorreram-me esta manhã alguns pensamentos a respeito da perfeição cristã, e do modo e do tempo de recebê-la, que creio ser útil registrar.
1. Por perfeição entendo o amor humilde, brando e paciente a Deus e ao próximo, governando as nossas disposições, palavras e ações. Não incluo nela a impossibilidade de cair, seja em parte, seja de todo. Por isso, retrato várias expressões dos nossos Hinos, que em parte exprimem, em parte insinuam, tal impossibilidade. E não faço questão do termo “sem pecado”, embora não me oponha a ele.
2. Quanto ao modo: creio que esta perfeição é sempre operada na alma por um simples ato de fé; por consequência, num instante. Mas creio numa obra gradual, tanto antes quanto depois daquele instante.
3. Quanto ao tempo: creio que esse instante é, em geral, o instante da morte, o momento antes de a alma deixar o corpo. Mas creio que pode ser dez, vinte ou quarenta anos antes. Creio que costuma ser muitos anos depois da justificação; mas que possa ser dentro de cinco anos ou cinco meses depois dela, não conheço argumento conclusivo em contrário. Se tem de ser muitos anos depois da justificação, gostaria de saber quantos. Pretium quotus arroget annus? — “Quantos anos dão sanção aos nossos versos?” E quantos dias, ou meses, ou mesmo anos pode alguém admitir entre a perfeição e a morte? Quão longe da justificação há de estar, e quão perto da morte?
Londres, 27 de janeiro de 1767.
Tradução para o português a partir de A Plain Account of Christian Perfection (1725–1777), na edição de Thomas Jackson, The Works of John Wesley (vol. 11), domínio público. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Edição em português: Bispo José Ildo Swartele de Mello.