O que Romanos 9 realmente ensina?
Eleição, misericórdia e a fidelidade de Deus às suas promessas — lendo Romanos 9 à luz dos capítulos 10 e 11.
Bispo Ildo Mello
As perguntas que nos guiam
Antes de discutir predestinação, é preciso ouvir a pergunta que Paulo de fato está respondendo. Quatro inquietações movem todo o bloco.
Se Jesus é o Messias…
…por que a maior parte de Israel não creu nele? Teria Deus voltado atrás em suas promessas?
Por que a Igreja é gentílica?
Em pouco tempo a Igreja passou a ser majoritariamente formada por gentios. Como explicar isso à luz do Antigo Testamento?
Rm 9 ensina predestinação?
O capítulo trata da eleição incondicional de indivíduos para a salvação ou a perdição — ou de outra coisa?
Há esperança para Israel?
O que acontecerá com o grande número de israelitas que hoje não creem em Cristo?
Como a igreja leu Romanos 9
Nenhum pai da igreja leu Rm 9 como eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição.
Em seus primeiros escritos sobre Romanos, o próprio Agostinho entendia a eleição com base na fé prevista por Deus.
A virada ocorre em Ad Simplicianum: eleição incondicional individual — uma leitura nova, não a herança da igreja.
A dupla predestinação explícita só aparece com Gottschalk (séc. IX) e é sistematizada por Calvino (séc. XVI).
Seis chaves para ler Romanos 9
Um texto difícil pede um método claro. Estas seis chaves acompanham toda a exposição.
A questão real
Identificar a pergunta que Paulo está de fato respondendo.
Bloco 9–11
Os capítulos 10 e 11 completam o argumento do capítulo 9.
A carta toda
Ler dentro da mensagem central de Romanos (1–4): a justiça pela fé.
Contexto do AT
Examinar o contexto original de cada citação que Paulo faz.
O claro ilumina o obscuro
Textos difíceis não podem contradizer o ensino dos textos claros.
O caráter de Deus
Nenhuma leitura pode transformar o Pai de Jesus num condenador arbitrário.
A palavra de Deus não falhou
O problema do capítulo não é “por que uns creem e outros não”, mas: se Israel rejeita o Messias, a promessa de Deus falhou? O ponto de partida decide tudo.
A pergunta que o calvinismo faz
“Por que alguns indivíduos creem e outros não?” A resposta inevitável é um decreto eterno e secreto que separou eleitos e réprobos — e desemboca no determinismo.
A pergunta que Paulo responde
“Se Israel não creu, a palavra de Deus falhou?” (Rm 9.6). Resposta: não — a salvação nunca foi por etnia nem por obras, mas pela fé (Rm 9.30-32).
A tese é a eleição corporativa e vocacional da nação de Israel para um papel na história (Rm 9.4-5) — não a eleição incondicional de indivíduos. E a promessa sempre passou por um afunilamento, sempre pela linha da fé:
Os quatro textos difíceis
A leitura calvinista se apoia em quatro versículos. Toque em cada um para ver a leitura determinista e a resposta no contexto.
Lido como ódio eterno a um bebê ainda não nascido, prova de reprovação individual incondicional.
- Paulo cita Malaquias 1.2-3, escrito séculos após a morte dos dois irmãos: ali “Jacó” e “Esaú” são as nações de Israel e Edom, não indivíduos.
- O oráculo original já falava de povos: “Duas nações há no seu ventre… e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23). O indivíduo Esaú jamais serviu ao indivíduo Jacó.
- “Desprezei” é o idiomatismo semítico de amar menos, preterir — o mesmo de Jesus em Lc 14.26. Foi Esaú quem desprezou a primogenitura (Gn 25.34; Hb 12.16).
- A base da eleição é a presciência: “aos que de antemão conheceu, também os predestinou” (Rm 8.29; 1Pe 1.2).
Lido como misericórdia restrita a poucos eleitos, escolhidos sem condição.
- O ponto não é restringir a misericórdia, mas ampliá-la, para abranger também os gentios, afirmando a liberdade de Deus para definir o modo de concedê-la: pela fé, não pela etnia ou pelas obras.
- O próprio bloco termina dizendo que Deus quer “mostrar a sua misericórdia a todos” (Rm 11.32) e é “rico para com todos os que o invocam” (Rm 10.12).
- Em 9.16, “querer e correr” é o esforço e o privilégio humanos (as obras, a etnia). O texto exclui o mérito — não a fé, que é o modo não meritório que a graça estabeleceu (Rm 4.16).
- A cruz é universal: “em resgate por todos” (1Tm 2.6); “pelos pecados de todo o mundo” (1Jo 2.2); “não quer que ninguém se perca” (2Pe 3.9).
Lido como endurecimento decretado desde a eternidade, unilateral e irresistível.
- O texto não diz que Deus endureceu Faraó desde sempre. Nas primeiras pragas, Faraó endurece o próprio coração (Êx 8.15, 32); só depois se diz que Deus o endureceu (Êx 9.12).
- O anúncio prévio (Êx 4.21) não é causa: Deus, que conhece o coração, declara de antemão como Faraó reagiria — como fez com a negação de Pedro (Mc 14.30).
- O endurecimento é entrega judicial (Rm 1.24, 26, 28). O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro.
- A ironia de Paulo: Israel repetia Faraó — “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51).
Lido como criaturas feitas por Deus para a perdição, sem escolha.
- Na Escritura, o barro nas mãos do oleiro é Israel, não cada alma individual (Is 29.16; 64.8; Jr 18.6).
- Em Jeremias 18“Não poderei eu proceder com vocês como fez este oleiro, ó casa de Israel? Como o barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos. No momento em que eu falar contra uma nação, para arrancar, derrubar e destruir, se essa nação se converter da sua maldade, eu me arrependerei do mal que pensava fazer-lhe. E, quando eu falar para edificar e plantar, se ela fizer o que é mau diante de mim, não obedecendo à minha voz, também eu me arrependerei do bem que havia falado.”Jr 18.6–10 · NAA, o destino do vaso muda conforme a resposta da nação: “se essa nação se converter… eu me arrependerei do mal” (Jr 18.7-8). Nínive comprova (Jn 3.10).
- Há aqui uma diferença fina, e é o próprio Paulo quem a faz. Sobre os “vasos de ira”, ele diz apenas que estão “prontos” para a destruição, sem dizer quem os deixou assim — no grego, a frase até permite entender que eles mesmos se prepararam. Já sobre os “vasos de misericórdia”, ele afirma com todas as letras que foi Deus quem os preparou de antemão para a glória. A conclusão salta aos olhos: Deus prepara pessoas para a glória; para a perdição, ninguém é preparado por Ele — é o próprio pecador que se endurece.
- As categorias se abrem: os de Éfeso eram “por natureza, filhos da ira” e foram vivificados (Ef 2.3-5). “Chamarei de meu povo ao que não era meu povo” (Rm 9.25).
Romanos 10 e 11 confirmam
Se o capítulo 9 ensinasse eleição incondicional, os capítulos 10 e 11 seriam incompreensíveis.
Romanos 10 — a fé vem pela pregação
- Paulo ora pela salvação de Israel (Rm 10.1) — ora-se pelos que podem ser salvos.
- O problema é “zelo sem entendimento” (Rm 10.2), não um decreto.
- A porta se escancara: “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10.13).
- A fé vem pela pregação, não por decreto secreto: “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17).
- A imagem final: “Todo o dia estendi as mãos a um povo desobediente” (Rm 10.21) — braços abertos, não decretos fechados.
Romanos 11 — nem total, nem definitiva
- A rejeição não é total: sobrevive um remanescente segundo a graça (Rm 11.5).
- A rejeição não é definitiva: “Será que tropeçaram para que caíssem? De modo nenhum!” (Rm 11.11).
- Na oliveira, a causa do corte é nomeada — e não é um decreto: “foram quebrados por causa da incredulidade” (Rm 11.20).
- A condição é explícita, dirigida aos vasos de misericórdia: “desde que você permaneça… do contrário, também você será cortado” (Rm 11.22).
- O desfecho: endurecimento “em parte” e “até que” (Rm 11.25); a misericórdia alcança a todos (Rm 11.32).
Um só argumento em três tempos
Rm 9 — o passado
A palavra de Deus não falhou: a promessa sempre correu pela linha da fé, não da carne. Eleição corporativa e vocacional.
Rm 10 — o presente
Israel tropeçou por incredulidade; a fé vem pela pregação, e “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”.
Rm 11 — o futuro
Rejeição parcial, temporária e reversível. Advertência aos enxertados, esperança aos cortados, misericórdia para todos.
Romanos 9 e a Parábola das Bodas
Jesus contou em parábola (Mt 22.1-14) o mesmo drama que Paulo explicou em doutrina. Os paralelos são ponto a ponto.
Eleição condicional
O que o texto NÃO ensina
- Eleição incondicional de indivíduos para salvação ou perdição.
- Endurecimento decretado desde a eternidade.
- Vasos criados para a destruição.
- Segurança incondicional dos “eleitos” — Rm 11.20-22 adverte o contrário.
O que o texto ensina
- Deus foi fiel: a promessa sempre correu pela fé, e o remanescente a comprova.
- A eleição do povo é vocacional e irrevogável (Rm 11.29).
- A participação de cada indivíduo é condicionada à fé perseverante (Rm 11.22-23; Jo 15.1-6; Mt 24.13).
- Deus tem misericórdia de todos os que o invocam (Rm 10.12-13) e quer a salvação de todos (1Tm 2.4).
Pois tal doutrina faria de Deus um condenador arbitrário — em nada parecido com o Jesus que chorou sobre Jerusalém: “quantas vezes quis eu… e vocês não quiseram!” (Mt 23.37). A salvação é oferecida a todos e recebida pelos que creem (Jo 1.12).
O que essa leitura muda na prática
Pregue a todos, com esperança real
A fé vem pelo ouvir (Rm 10.17). Nenhum ouvinte é um caso perdido por decreto — cada pregação é porta aberta.
Ore pelos endurecidos
Paulo orou pelos que tropeçaram (Rm 10.1). O endurecimento de hoje não é a sentença de amanhã (Rm 11.23).
Persevere na fé
“Desde que você permaneça” (Rm 11.22). A graça que nos enxertou nos sustenta — mas não dispensa a fé fiel até o fim (Mt 24.13).
Cultive humildade, não orgulho
“Não se glorie contra os ramos” (Rm 11.18). Diante de todo incrédulo, nossa postura é gratidão e temor, nunca soberba.
Teste o que você aprendeu
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida.
1. Qual é a verdadeira pergunta que Paulo responde em Romanos 9?
2. Em “Amei Jacó, porém desprezei Esaú” (Rm 9.13), Paulo cita Malaquias, onde “Jacó” e “Esaú” designam principalmente:
3. Sobre o endurecimento de Faraó (Rm 9.18), a leitura atenta de Êxodo mostra que:
4. A condicionalidade de Romanos 11.22 (“desde que você permaneça… do contrário, também você será cortado”) é dirigida a:
5. A eleição de Romanos 9 é:
Perguntas para reflexão
Com base em Romanos 10, explique por que a eleição de Romanos 9 não pode ser incondicional.
Como você explicaria, a um irmão preocupado, que Romanos 9 não ensina que Deus criou pessoas para o inferno?
Aprofunde o estudo
Para aprofundar: Jacó Armínio, Análise de Romanos 9 · John Wesley, Free Grace (1739) e Predestination Calmly Considered (1752) · Brian J. Abasciano, Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9 · William W. Klein, The New Chosen People · Ben Witherington III, Romans: A Socio-Rhetorical Commentary.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação. Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil.