Coletânea histórica · Tradução integral
Benjamin Titus Roberts, fundador da Igreja Metodista Livre · 1878
Sobre esta obra. Publicado em 1878, Fishers of Men (“Pescadores de Homens”) é um manual de evangelização e vida cristã em que B. T. Roberts examina o que constitui o verdadeiro êxito na obra de Deus. Em dezessete capítulos, ele trata da solidez na fé, do chamado para pregar, do batismo com o Espírito, da pregação, do amor, da fé, do sentimento religioso, da oração, do esforço pessoal, da cooperação, do estudo e da disciplina — sempre com a convicção de que “ganhar almas” é a obra mais importante confiada ao ser humano. Esta é a tradução integral do original, feita a partir da edição de 1878, em domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).
“Simão Pedro subiu ao barco e arrastou a rede para a terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes.” (Jo 21.11)
Quando se pode dizer que um pregador do Evangelho tem êxito na sua vocação? Dizemos do médico que ele tem êxito quando cura o paciente; do advogado, quando ganha a causa; do soldado, quando derrota o inimigo. Êxito, em qualquer empreendimento, é a realização próspera do objetivo do empreendimento.
O ministro de Jesus Cristo é um homem chamado por Cristo para fazer por Ele uma obra certa e definida. Que obra é essa? Temos a resposta nas palavras da inspiração: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.11-13).
São palavras abrangentes, carregadas de significado. Ensinam que o objetivo do ministério é preparar homens e mulheres para o Céu — para a morada eterna com o Deus de pureza e amor. Isso se faz convertendo pecadores a Deus e, depois, induzindo-os a prosseguir na fé, no amor, no conhecimento e na santidade até o fim da vida. Em tornar-se “pessoa madura, pela fé e pelo conhecimento do Filho de Deus” está implícita a libertação de toda disposição e afeição pecaminosa da alma e de todo apetite desordenado do corpo. Aquele em quem essa obra é feita pelo poder do Espírito de Deus torna-se um santo. Uma grande obra da graça foi operada nele — mas não está completa. O gênio do escultor aparece nos retoques finais que ele dá à figura de mármore; assim também a capacidade e a fidelidade do ministro do Evangelho se manifestam na maturidade de experiência e caráter cristãos a que chegam os que se põem sob a sua direção. Se o lavrador não der ao seu trigo o cuidado necessário para levá-lo até a colheita, o trabalho anterior se perde. O apóstolo escreve a alguns que haviam sido convertidos por seu intermédio, mas que tinham trocado a religião espiritual pela cerimonial: “Receio que o meu trabalho entre vocês tenha sido em vão” (Gl 4.11). Não bastava pertencer à igreja, num tempo em que ser cristão era o maior dos opróbrios. Não bastava observar todas as cerimônias, jejuns e festas da igreja: nada disso valia, enquanto lhes faltassem os frutos do Espírito.
O êxito de um ministro de Jesus Cristo não consiste, portanto, em atrair uma grande congregação — um incrédulo com o dom da eloquência pode fazer isso. Nem o seu êxito em construir templos, pagar dívidas da igreja e obter grandes contribuições para fins beneficentes atende à exigência da questão. Um homem de boa apresentação e boa capacidade administrativa, a quem Deus nunca chamou para a obra do ministério, pode fazer tudo isso. Tudo isso pode ser importante; mas não é a obra peculiar de alguém chamado por Deus para trabalhar pela salvação de almas.
Ministro bem-sucedido é o que tem êxito em salvar almas. Se falha nisso — não importa em que mais tenha êxito —, falha na única coisa importante. Está diante de Deus na mesma condição em que está, diante do povo, o general que treina, alimenta e manobra os seus homens, mas nunca vence uma batalha. Falha no essencial. Muitos fracassam por completo e são tidos por bem-sucedidos: obtêm bom nome entre os seus e nisso descansam. Um pode ter reputação de erudição, eloquência e piedade; outro pode ser estimado pela coragem e retidão com que declara as verdades impopulares do Evangelho; outro pode atrair atenção pelo fervor e pelo zelo. Mas, se falha em edificar o corpo de Cristo — isto é, em edificar a igreja pela conversão de pecadores e pelo aperfeiçoamento dos santos —, o seu ministério é um fracasso lamentável. Pense ele o que pensar, digam os homens o que disserem, Deus o registra como fracassado. O seu tempo é desperdiçado, o seu trabalho é perdido, as suas energias são dissipadas: ele erra o alvo principal. Não pode haver dúvida de que muitos que pensam ter êxito como ministros ficarão, eles próprios, fora do Céu. Enganam-se para a sua ruína eterna. É o que diz o nosso Senhor: “Muitos, naquele dia, hão de me dizer: ‘Senhor, Senhor! Não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres?’ Então lhes direi claramente: ‘Nunca conheci vocês. Apartem-se de mim, vocês que praticam o mal’” (Mt 7.22-23).
Mas este assunto deve ter aplicação mais ampla. Qual é o grande objetivo da vida para todo aquele que crê em Cristo? Ganhar riqueza ou renome? Certamente não. Essas coisas, em comparação com os interesses eternos, são ninharias. Não é só aos ministros, mas a todo crente, que Cristo diz: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde os ladrões escavam e roubam; mas acumulem para vocês tesouros no céu” (Mt 6.19-20). Eis uma proibição clara e um mandamento claro. Pode-se supor que obedece ao mandamento quem dedica a vida inteira a desobedecer à proibição? “Vocês não podem servir a Deus e às riquezas” (Mt 6.24). Aquele, pois, que dedica a vida a ajuntar dinheiro, ainda que nisso tenha êxito, fracassa no grande objetivo da vida. Perdendo a alma, perde tudo.
O sucesso de um homem, portanto, não se mede pelos milhões acumulados de ouro reluzente, sem valor algum naquela morada permanente em que ele passará a eternidade; não se mede pelos quilômetros de ferrovias, nem pelas fazendas, títulos e ações que chama de suas; não pelos exércitos que venceu ou pelas cidades que tomou; não pela estimativa que o mundo faz da sua grandeza, nem pelos louvores que prodigalizam ao seu nome — mas por uma vida de devoção a Deus; por ser instrumento, direta ou indiretamente, da conversão de muitos à justiça, os quais viverão como memoriais imperecíveis da sua fidelidade e sabedoria, quando os monumentos terrenos tiverem virado pó e a própria terra, com as suas obras, tiver sido consumida.
“Junto ao mar se acharão pescadores; desde En-Gedi até En-Eglaim haverá lugar para estender as redes. O seu peixe, segundo as suas espécies, será como o peixe do mar Grande, em multidão excessiva.” (Ez 47.10)
Nos empreendimentos desta vida, os homens são avaliados pelo seu sucesso. Washington triunfou numa rebelião contra a autoridade constituída — e é chamado patriota. Davis e Lee fracassaram — e são chamados rebeldes. Uma chuva repentina, que enche o rio e corta as comunicações, leva um general à derrota e à demissão por incompetência; a chegada inesperada de reforços na hora crítica torna outro vitorioso e o coroa herói. Uma guerra estrangeira imprevista faz de um especulador um rico e de outro um mendigo: um vai para o asilo de pobres, o outro é eleito prefeito. Assim os homens honram o sucesso, mesmo quando obtido sem mérito.
Na obra do Senhor, porém, o sucesso nunca vem por acaso. Nenhuma circunstância afortunada assegura a coroa da vida a quem não a busca. O filho do maior santo não herda, por nascimento natural, a herança celestial. É “aos que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” que Deus dará “a vida eterna” (Rm 2.7). Os que usam no Céu uma coroa resplandecente de joias obtiveram-na por esforços persistentes e bem dirigidos. Quem ganha almas trabalha por almas.
Nas coisas do mundo, os melhores esforços às vezes falham. Disse um observador rigoroso e de larga experiência: “Voltei e vi debaixo do sol que não é dos ligeiros a carreira, nem dos fortes a batalha, nem tampouco dos sábios o pão, nem ainda dos prudentes as riquezas, nem dos inteligentes o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso” (Ec 9.11). Nada é mais evidente do que isto: nas coisas temporais, o sucesso não é proporcional ao mérito. Foi o conhecimento disso que levou os antigos gregos e romanos a adorar a Fortuna como deusa, erguendo-lhe templos esplêndidos. Mas quem trabalha para Deus jamais perde o fruto do seu trabalho. O fracasso está claramente fora do alcance da possibilidade. No serviço dos homens, alguém pode ser privado da recompensa da sua labuta; um inseto insignificante, uma geada fora de hora podem frustrar as expectativas do lavrador mais sagaz e industrioso — mas, para quem trabalha como se deve na vinha de Cristo, a colheita é certa. Nada pode desapontá-lo. Deus lhe deu as mais fortes garantias de êxito: “Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é em vão” (1Co 15.58).
Quem falha em alcançar o objetivo de qualquer atividade terrena pode não ter culpa nenhuma. Mas, se o ministro de Jesus Cristo falha como ministro, a culpa é inteiramente sua. O seu êxito está garantido pelas promessas mais inequívocas: “Sigam-me, e eu os farei pescadores de gente” (Mt 4.19). Cristo não quis dizer que aquela seria uma vocação infrutífera — é uma promessa de sucesso. E, para pôr a coisa acima de qualquer dúvida, disse: “Não tenha medo; de agora em diante você será pescador de gente” (Lc 5.10). Ele avisou aos discípulos que as suas doutrinas seriam impopulares, que, ao desferir um golpe mortal no egoísmo humano, provocariam a mais profunda oposição; e, contudo, apesar de tudo, haveria tal fascínio divino acompanhando a pregação fiel da cruz, que os homens, em meio à própria hostilidade, seriam atraídos a Cristo — seriam alarmados, e ainda assim seriam apanhados. Diz o salmista: “Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes” (Sl 126.6). Isso, como qualquer um vê, refere-se aos esforços pela salvação de almas: do êxito de quem trabalha como se deve, não há dúvida. Ele voltará do grande campo da colheita não com desânimo, mas com júbilo; não tendo pisoteado o trigo, mas trazendo os seus feixes. Nesta passagem, como nas outras que citamos, as condições do êxito estão apenas na pessoa que trabalha. Nenhuma alusão se faz a circunstâncias favoráveis. Não se exige que não haja dificuldades a enfrentar, preconceitos a vencer, obstáculos a superar. Por mais estéril que seja o solo, por mais desfavorável a estação, ele trará os feixes de trigo maduro.
As condições do êxito estão ao alcance de todo ministro do Evangelho. Não se exige que seja homem de grande talento ou erudição. Quando o Salvador diz “sigam-me, e eu os farei pescadores de gente”, a condição é tal que todo aquele que ouve o chamado pode cumpri-la. Tudo o que se requer é o propósito inabalável, a fé que não vacila, o abandono de tudo por Cristo. Muitos podem ser incapazes de pregar o que se chama de grandes sermões; mas todos podem “sair andando e chorando, levando a preciosa semente”.
É dever, portanto, de todo ministro do Evangelho ter êxito em salvar almas. Se não tem, ou está fora do lugar, ou não preenche o seu lugar. A culpa é dele. Não deve atribuir o seu fracasso ao estado perverso das coisas: se tudo estivesse certo, não haveria necessidade de ministros. Não há pregação no Céu. É porque os homens são maus que precisam do Evangelho.
Diz o presidente Finney: “A falta de êxito num ministro (em igualdade de condições) prova: ou que ele nunca foi chamado a pregar e assumiu o ofício por conta própria; ou que foi mal preparado e nunca lhe ensinaram justamente as coisas que mais precisava saber; ou que, se foi chamado, é indolente ou mau demais para cumprir o seu dever.” E o Rev. A. B. Earle, evangelista bem-sucedido da Igreja Batista, diz: “Há anos digo aos pastores e às igrejas com que sou chamado a trabalhar que, se não houver avivamento, não me queixarei da igreja, mas tomarei a culpa principalmente para mim — crendo que, se eu estiver certo e tiver poder com Deus, os outros sentirão o poder, pecadores serão convertidos e haverá avivamento.”
Na obra ministerial, o êxito é um dever solene e imperativo. Se você falha, a culpa é sua. Se um ministro descobre que, com a máxima fidelidade, não consegue ter êxito, é porque errou de vocação: deve sair do caminho e deixar que um homem chamado por Deus tome o seu lugar. O seu fracasso é o do médico que perde o paciente que a perícia e o cuidado devidos teriam curado; o do general que sofre derrota quando devia ter vencido; o do piloto que afoga os passageiros confiantes que podia ter levado a salvo ao porto. Não é apenas um infortúnio — é um crime; um crime cujos resultados desastrosos duram tanto quanto a eternidade.
O povo deve cuidar para que os pregadores que sustenta façam a obra — não de oradores ou homens de negócios, mas de ministros de Jesus Cristo. Ninguém empregaria um médico, por mais pose que fizesse e por mais remédios que receitasse, se os seus pacientes nunca sarassem. Um advogado que falasse com eloquência e citasse história e poesia, mas perdesse as causas, ficaria sem clientes. Assim também os amigos de Jesus Cristo deveriam recusar-se a sustentar um ministro cujos ouvintes permanecem tão orgulhosos, mundanos e egoístas como sempre — ainda que admirem as suas maneiras elegantes e os seus discursos eloquentes. É heresia moderna a ideia de que um pregador deva ser sustentado simplesmente por ser pregador. Nos primeiros dias do cristianismo, até uma igreja decaída se recusava a isso: a igreja de Éfeso foi elogiada porque “pôs à prova os que se dizem apóstolos e não são, e descobriu que eles são mentirosos” (Ap 2.2). “Pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.16). Se os que ouvem regularmente um pregador não produzem os frutos do Espírito, o fracasso não é atenuado pelas grandes congregações que ele atrai, nem pelo grande salário que recebe. É crime contra a humanidade, é traição a Cristo, empregar um ministro que lisonjeia a vaidade e agrada o gosto literário dos seus ouvintes, mas os deixa seguir tranquilos para o inferno. Que importa que os bancos estejam alugados, as despesas pagas e a casa cheia, se os ouvintes permanecem todos destituídos da “santidade sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14)?
Cuide para que o seu dinheiro e a sua influência não sustentem pregadores desse tipo. Que eles abundariam nestes últimos tempos está claramente predito na Palavra: “E que, do meio de vocês mesmos, se levantarão homens falando coisas pervertidas para arrastar os discípulos atrás deles” (At 20.30). A muitos que pagam generosamente pelo sustento do Evangelho ainda cabe a interpelação de Deus: “Por que vocês gastam dinheiro naquilo que não é pão, e o seu suor naquilo que não satisfaz?” (Is 55.2). Por que você incentiva uma pregação que não salva a alma?
“Lancem a rede do lado direito do barco e acharão.” (Jo 21.6)
Os pescadores não são geralmente tidos como gente culta. E, no entanto, na sua atividade, são homens de ciência. Têm as suas teorias — não escritas, talvez —, mas as põem em prática com a mais estrita fidelidade. Vão buscar peixe onde há peixe. Usam, para apanhá-lo, os instrumentos que a experiência mostra serem os melhores. Não levam uma banda de música para capturar baleias, nem uma corneta para pescar arenques. Assim, quem quer pescar gente deve adotar as medidas próprias para pescar gente. Não basta desejar o êxito: é preciso usar os meios que o asseguram. Ele tem de lidar com a consciência e com a vontade — e ambas, quando pervertidas, dificilmente se movem na direção certa. Para movê-las, as grandes verdades essenciais à salvação do homem devem ser apresentadas com clareza e aplicadas com fidelidade. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).
Quem quer ser instrumento da salvação de pessoas deve, portanto, ele mesmo apegar-se às doutrinas salvadoras do Evangelho. A exortação que lhe cabe é: “Você, porém, fale o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1). Mas ninguém pode falar adequadamente daquilo que não entende. Os homens são salvos crendo na verdade: “Deus os escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2Ts 2.13).
É uma das heresias da época dizer que “não importa qual seja a doutrina de um homem, contanto que o seu coração esteja certo”. Mas aqui está a dificuldade: se a salvação vem pela fé na verdade, como pode o coração ficar certo pela fé em erros fundamentais? O “coração certo” a que esse dito se refere é o coração naturalmente amável e bondoso — não o coração certo aos olhos de Deus. Mera amabilidade não é cristianismo. Um pagão de bom gênio não é um cristão. O Evangelho não é apenas um sistema de ética nem um código de boas maneiras. O cristianismo tem doutrinas a serem cridas. “Em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens” (Mt 15.9). E diz o grande profeta de Israel: “O meu ensino cairá como chuva” (Dt 32.2).
Sem uma fé firme e inteligente nas doutrinas de Deus, quem tentar reformar os outros correrá tanto risco de ser desviado da verdade quanto tem chance de convertê-los. Uma jovem protestante, desejosa de fazer o bem, visitava uma família católica pobre para atender às suas necessidades materiais e espirituais. Encontrando ali o padre certo dia, disse-lhe, como quem se desculpa: “Não estou tentando ensinar as minhas doutrinas.” “E quais são, por favor, as suas doutrinas?”, perguntou o padre. A essa pergunta a jovem, embora mais inteligente que a média, não soube dar resposta satisfatória nem para si mesma. O resultado: como não tinha doutrinas que sustentasse com firmeza, o padre a instruiu nas dele — e teve a satisfação, não muitos meses depois, de recebê-la na Igreja Católica Romana.
Você entrará em contato com homens capazes e assertivos, em cujas mentes erros perigosos foram instilados desde a infância. Se a verdade não estiver entranhada no seu próprio ser, eles o abalarão e talvez o derrubem. Você precisa ser firme nas suas convicções; então a sua linguagem será firme. Precisa poder declarar com verdade: “Em verdade, em verdade lhe digo que nós dizemos o que sabemos” (Jo 3.11). Mas, se você mesmo está em dúvida sobre se está certo, será desencaminhado pelos que estão decididos nos seus erros. O navio à deriva é que desvia da rocha encravada. Os vacilantes cedem aos que têm convicções firmes. Os viajantes eruditos seguem o guia ignorante que, com evidente sinceridade, lhes garante conhecer cada palmo do terreno.
Quando o eloquente Apolo “foi instruído no caminho do Senhor, começou a falar ousadamente na sinagoga”. As declarações de muitos que pregam o Evangelho em frases açucaradas são fracas porque eles são fracos na fé. Muitos deixam de anunciar “todo o conselho de Deus” porque não têm as Escrituras em suficiente autoridade. Substituem o Evangelho do Filho de Deus pelo evangelho da conveniência. Nos pecados populares tocam de leve, quando tocam. E bom será se não pedirem desculpas por alguns dos piores inimigos que o cristianismo verdadeiro tem de enfrentar. Os seus convertidos tomam uma parte da religião pelo todo. Edificam com argamassa mal amassada — e o seu edifício não ficará de pé no dia da eternidade.
“Vá até o mar, lance o anzol, e o primeiro peixe que pescar, pegue-o.” (Mt 17.27)
Para ter êxito em qualquer atividade, é preciso dedicar-se a ela com propósito indiviso. Os antigos representavam a fortuna como uma deusa ciumenta: quem quisesse conquistá-la devia ser-lhe incansável na devoção. Quando as mãos estão ocupadas numa tarefa e a mente, ao mesmo tempo, debate se não deveria estar fazendo outra coisa, é provável que nada seja feito como se deve. Ninguém gosta de trabalhar para um patrão sem saber se é de fato o seu patrão.
Deus chama os seus trabalhadores para trabalharem para Ele. Diz o nosso Salvador: “Peçam, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Mt 9.38). A seara é do Senhor, e é prerrogativa dele enviar os seus trabalhadores. O apóstolo declara a sua missão divina: “De modo que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus estivesse suplicando por nosso intermédio: em nome de Cristo, pedimos que se reconciliem com Deus” (2Co 5.20). O governo escolhe os próprios embaixadores; ninguém assume esse serviço por achar-se qualificado e merecedor. Que absurdo, então, pensar que Deus deixa os seus embaixadores se autonomearem!
O apóstolo nos diz que não pregava o Evangelho por simples escolha: “Se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois sobre mim pesa essa obrigação; porque ai de mim se não pregar o evangelho!” (1Co 9.16). E ainda: “Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, porque me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12). Não foi o seu talento, nem a sua erudição, nem mesmo o seu amor pelas almas que o habilitou a pregar, mas o ter sido posto no ministério pela mão de Deus. Ele tinha certeza de estar no lugar certo. E declara que o seu chamado não era peculiar: todo verdadeiro ministro de Jesus Cristo se torna tal por designação de Deus. “Ninguém toma esta honra para si mesmo, mas somente aquele que é chamado por Deus, como foi o caso de Arão” (Hb 5.4). É do sacerdócio cristão que o apóstolo fala, e a sua linguagem não podia ser mais categórica: “ninguém” é expressão que não admite uma única exceção. Sob nenhum pretexto, portanto, pode alguém presumir-se ministro de Jesus Cristo sem ser divinamente chamado.
Vemos aqui a razão de tantos ministros serem inúteis no que toca à verdadeira obra do ministério: são intrusos. Escolheram o ministério como profissão, tal como se escolhe o direito ou a medicina para ganhar a vida. Desejam fazer o bem aos outros como meio de se beneficiarem a si mesmos. Pensam que, com o preparo e o estudo adequados, podem ajustar-se à demanda popular e obter um bom salário. Podem ter a sua recompensa. As igrejas estão, em geral, no estado predito pelo apóstolo: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, conforme as suas próprias paixões” (2Tm 4.3). Isto é: o povo, rejeitando as doutrinas abnegadas do Evangelho, mas ainda não disposto a rejeitar o cristianismo, estabelecerá escolas teológicas e levantará pregadores que preguem para agradá-lo. O povo de Deus precisa de discernimento espiritual para reconhecer como ministros os ministros do Senhor — e rejeitar todos os outros. Ainda há os que se chegam a quem tem influência no assunto e “se inclinam por uma moeda de prata e um pedaço de pão, dizendo: Coloque-me, peço-lhe, em algum dos cargos sacerdotais, para eu ter um pedaço de pão para comer” (1Sm 2.36).
É porque os nossos púlpitos estão cheios de pregadores feitos por homens que as nossas igrejas se tornaram, como disse Joseph McCreery, “como as pirâmides do Egito: ao mesmo tempo templo e túmulo, cheias de múmias espirituais assentadas em magnificência sardônica, enquanto a voz do pregador, em vez de ser a voz do Filho de Deus em poder de ressurreição, se reduz a um sussurro de réptil nessas habitações dos mortos”.
Quem é chamado por Deus prega com autoridade. As suas credenciais vêm do Céu, e todos os que entendem a língua podem lê-las. Ele pode dizer — não a convertidos a si mesmo ou às suas opiniões, mas a santos: “Vocês são o selo do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2). Os homens olham para ele e dizem no coração, com Cowper: “Ali está o mensageiro da verdade; ali está o legado dos céus. Divino o seu tema, sagrado o seu ofício, claras as suas credenciais. Por ele a lei violada troveja; e por ele, em acentos doces como os dos anjos, o Evangelho sussurra paz.” Um homem assim não se esquiva de declarar todo o conselho de Deus.
Gideon Ouseley foi um trabalhador notavelmente bem-sucedido naquele campo tão pouco promissor — a Irlanda, entre os católicos irlandeses. Depois de convertido, o seu coração se encheu de compaixão pelos milhões não salvos ao seu redor. Dos que pereciam parecia ouvir o clamor: “Venha e nos ajude.” No coração, o Espírito dizia: “Vá — vá por todo o mundo e pregue o Evangelho a toda criatura.” Mas era tal o senso da própria incapacidade que ele respondia: “Senhor, sou uma pobre criatura ignorante; como posso ir? Ah, Senhor Deus! Eu não sei falar, porque sou uma criança.” Então o Senhor parecia dizer-lhe: “Você não conhece a doença?” “Conheço, Senhor.” “Então vá e fale da doença e da cura.” “E assim”, contava ele, “com apenas estas duas coisas — o conhecimento da doença e o conhecimento da cura —, eu fui. Toda glória ao meu divino Mestre!”
Whitefield, num dos seus últimos sermões, conta quanto resistiu à ordenação prematura: “Orei mil vezes, até o suor cair do meu rosto como chuva, para que Deus, na sua infinita misericórdia, não me deixasse entrar no púlpito antes de me chamar e me impelir à sua obra. […] Eu disse: ‘Senhor, não posso ir; ficarei inchado de orgulho e cairei na condenação do diabo. Senhor, não me deixes ir ainda.’ […] Depois de todas as insistências dos meus amigos, estas palavras me vieram à mente: ‘Ninguém vos arrancará das minhas mãos.’ Vieram quentes ao meu coração. Então, e só então, eu disse: ‘Senhor, eu irei; envia-me quando quiseres.’” Na véspera da ordenação, retirou-se a uma colina perto da cidade e ali orou fervorosamente por cerca de duas horas. “E, quando o bispo pôs as mãos sobre a minha cabeça, se o meu coração vil não me engana, ofereci todo o meu espírito, alma e corpo ao serviço do santuário de Deus. […] Posso chamar o céu e a terra por testemunhas de que, quando o bispo impôs a mão sobre mim, entreguei-me para ser mártir daquele que pendeu da cruz por mim.” Tal foi o chamado — e a resposta — de um homem cuja carreira não teve paralelo desde os dias de São Paulo.
O falecido dr. J. W. Redfield foi um pregador maravilhosamente eloquente, fiel e bem-sucedido; multidões se converteram sob o seu trabalho. Ele atacava com severidade os pecados populares do seu tempo e insistia na obra mais profunda. Nas suas memórias conta que, desde a mais tenra infância, o acompanhava a forte impressão de que Deus o destinara ao ministério do Evangelho — e que era tão desagradável para ele esse pensamento, que guardou segredo até dos amigos mais próximos. Convertido após terrível luta, dizia: “Tão ardentemente eu desejava a salvação dos homens, que sentia que poderia dar a vida para levar salvação ao mundo.” Mas o chamado para pregar não parava de soar nos seus ouvidos. Certa noite de inverno, orou no bosque até as roupas congelarem no chão: “Na neve fria eu me ajoelhei e pleiteei com Deus, como um homem pleitearia pela vida […]. Tive tal senso da majestade tremenda e da aproximação de um Deus ofendido, que a agonia do corpo e da alma era tanta que senti que não poderia viver. Gritei: ‘Ó Deus, remove isto de mim, e irei imediatamente.’” Ainda assim duvidou; e por fim toda dúvida foi removida: “Senti-me então plenamente comprometido a fazer a vontade de Deus. A doçura e a calma sobrenaturais que tomaram posse do meu coração estavam além do poder das palavras.” Quando finalmente foi, multidões se converteram sob o seu trabalho — porque ele foi ao chamado de Deus.
E não são só os pregadores: todos os cristãos são chamados a trabalhar para ganhar almas para Cristo. Quando André passou um dia com Jesus, “encontrou primeiro o seu próprio irmão, Simão, e lhe disse: ‘Achamos o Messias!’ (que quer dizer Cristo). E o levou a Jesus” (Jo 1.41-42). É assim que os verdadeiros convertidos se multiplicam: tão logo alguém é salvo, procura trazer outro ao aprisco. E para isso tem a autoridade de Deus: “O Espírito e a noiva dizem: ‘Vem!’ Aquele que ouve, diga: ‘Vem!’” (Ap 22.17). Quem ouve — isto é, obedece à voz de Deus — tem o direito de convidar outros.
Um dos erros práticos mais nocivos do protestantismo é a ideia, tão prevalente, de que, para prestar serviço eficiente a Cristo, é preciso ser pregador credenciado do Evangelho e ter o pastorado de uma congregação. Grande engano. Muitos que sentem amor pelas almas tomam isso por chamado à pregação; entram no ministério, mantêm a posição à força de muito esforço, e fazem pouco bem — muitos fazem positivo dano. Os católicos romanos administram melhor essas coisas: se alguém deseja entregar-se a fazer o bem, a igreja encontra algo que ele possa fazer e o põe a fazê-lo, sob a sua autoridade e direção; assim emprega todo grau de talento e de cultivo. Mas os protestantes reconhecem, na prática, apenas uma classe autorizada de obreiros — os pregadores — e praticamente uma só ordem de pregadores — os pastores. Não foi assim que Cristo planejou. Ele chama outros para a sua obra, e quer que a Igreja reconheça o chamado.
“A uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres; depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas” (1Co 12.28). Não foi expediente temporário, mas arranjo permanente. Fique, pois, firmemente assentado no seu coração: qualquer obra que você empreenda para Deus é por designação dele. Então, se você cumprir o seu dever, o fracasso está fora de questão.
“Sigam-me, e eu os farei pescadores de gente.” (Mt 4.19)
A verdadeira religião tem o seu assento no coração. Diz Cristo: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3). Essa declaração aplica-se igualmente ao Reino no seu início e na sua glória. Quem não experimenta aquela mudança radical e espiritual implicada no “nascer de novo” não somente não pode ver o Céu, como não pode ter compreensão clara do que constitui um cristão. Ouvir a descrição de um país não é vê-lo. Quem ouviu pregações a vida inteira tem, ao converter-se, uma ideia da religião cristã diferente de tudo o que tivera antes. Ele está numa nova criação.
Há no cristianismo mais do que se pode colher de livros ou de mestres. Um cego pode aprender a teoria da luz; mas abram-se-lhe os olhos, e ele está num mundo novo. “Todos os seus filhos serão ensinados pelo SENHOR” (Is 54.13). Ainda que alguém tenha tido os melhores instrutores, se não foi ensinado pelo Senhor, não está preparado para ensinar a outros o caminho da salvação. O capitão que domina a navegação, ao aproximar-se de uma costa estranha, entrega o comando do navio ao prático que conhece o canal. Um homem sem letras que desfruta da religião é guia espiritual muito mais seguro do que um teólogo não convertido. Ninguém ensina o que não compreende. “Pois qual dos seres humanos sabe as coisas do ser humano, senão o espírito humano que nele está? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus” (1Co 2.11). Alguém pode ter toda a erudição do mundo; mas, destituído do Espírito de Deus, não pode compreender as coisas de Deus — e, se pensa que pode, tanto pior. “Ora, a pessoa natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2.14).
O homem natural pode aprender hebraico e grego, ciência, história, oratória e teologia; mas nenhuma soma de conhecimento desse tipo qualifica alguém para pregar o Evangelho ou trabalhar por almas. Com tudo isso, mas sem o Espírito, ele pode ser para o povo “como um cantor de belas canções, que toca bem um instrumento” (Ez 33.32) — mas não será como quem fala “em nome de Cristo” (2Co 5.20). Pode divertir; mas não convencerá do pecado. Pode tocar a sensibilidade; mas não despertará a consciência.
Diz Richard Baxter: “Pensais que serão zelosos e diligentes em salvar homens do inferno os que não estão sinceramente persuadidos de que há um inferno? Ou em levar homens ao Céu, os que não creem realmente que tal lugar existe? […] Confesso que jamais terá o meu consentimento para ser encarregado do cuidado de outros, a fim de velar por eles para a sua salvação, o homem que não cuida de si mesmo. Pensais ser provável que lute contra Satanás com todas as forças aquele que é servo dele? Fará grande dano ao reino do diabo quem é súdito desse reino? Será fiel a Cristo quem está em aliança com o inimigo dele? E este é o caso de todo homem não convertido, seja qual for o pano da sua batina. […] Que príncipe escolhe os amigos e servos voluntários do seu inimigo para conduzir os seus exércitos à guerra contra ele? É isto que faz de tantos pregadores do Evangelho inimigos da obra do Evangelho que pregam. Ó, quantos traidores assim tem havido na igreja de Cristo em todas as eras, que fizeram mais contra Ele sob as suas cores do que poderiam fazer em campo aberto! […] Considerai que o êxito dos vossos trabalhos depende da graça e da bênção do Senhor; e onde prometeu ele a sua assistência e bênção a homens ímpios? […] Aos seus servos fiéis ele prometeu estar com eles, pôr sobre eles o seu Espírito e a sua palavra na sua boca, e que Satanás cairia diante deles como relâmpago do céu. Mas onde há promessa semelhante aos ímpios?”
O dr. Judson, o apóstolo da Índia, diz: “Muitos cristãos passam todos os seus dias numa azáfama contínua de fazer o bem. Estão ocupados demais para encontrar o vale ou Beulá. Virtudes eles têm; mas estão cheios da vida e dos atrativos da natureza, e desconhecem as veredas da mortificação e da morte. Morramos o quanto antes, pelo processo que Deus designar. E, quando estivermos mortos para o mundo, para a natureza e para o eu, começaremos a viver para Deus.”
Ministros carentes de experiência religiosa não apenas não podem edificar os outros numa fé e numa santidade que não possuem: muito provavelmente rebaixarão ao seu próprio nível aqueles, sob o seu cuidado, que têm experiência mais profunda que a deles — ou, falhando nisso, os perseguirão e se oporão a eles.
Ministros sem Deus são a causa real do declínio da espiritualidade da igreja — e o têm sido em todas as eras. A luz mais pura, brilhando através de um meio colorido, torna-se colorida. Pregadores mundanos e acomodados promovem uma religião mundana. Podem multiplicar convertidos; mas os seus convertidos moldam a igreja mais do que a igreja os molda a eles. Constantino assegurou à igreja uma adesão maior do que a dos apóstolos; mas a igreja até hoje não se recuperou do espírito idólatra e das práticas pagãs que os seus convertidos introduziram. Foi nesse período que o culto aos santos, a doutrina do purgatório e o celibato dos sacerdotes tiveram início na igreja cristã — emprestados da Roma pagã. “Um enorme séquito de superstições diversas foi gradualmente substituindo a verdadeira religião e a piedade genuína”, diz Mosheim; “os ritos e instituições com que gregos, romanos e outras nações haviam testemunhado a sua veneração religiosa por divindades fictícias foram então adotados, com ligeiras alterações, pelos bispos cristãos e empregados no serviço do Deus verdadeiro. […] Vestes suntuosas, mitras, tiaras, círios, báculos, procissões, lustrações, imagens, vasos de ouro e prata e muitas outras circunstâncias de pompa viam-se igualmente nos templos pagãos e nas igrejas cristãs.”
As nossas denominações protestantes estão passando por transformação semelhante. O espírito mundano está rapidamente assumindo o controle. Para promover uma religião que tem na humildade uma das suas virtudes cardeais, erguem-se casas de culto em estilo tão magnífico e dispendioso que metade do gasto não serve a propósito algum, exceto satisfazer e encorajar o orgulho. Enquanto o Evangelho abomina as castas e oferece de graça as suas mais altas bênçãos aos pobres, nessas igrejas fazem-se concessões especiais aos ricos por causa da sua riqueza; e o direito de ocupar um assento no culto público é vendido por um preço que faz da frequência à igreja um luxo que os de poucos recursos não podem se permitir. Cristo não tolera rival. A sua linguagem é enfática ao extremo: “Se alguém vem a mim e não odeia o seu próprio pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.26). Mas esses pregadores populares encorajam os homens a crer que podem vir a Cristo sem abrir mão nem mesmo daquelas associações que, quando abertas com oração, proíbem que essa oração seja oferecida a Cristo ou em nome de Cristo! Assim, no lugar do cristianismo da Bíblia, promove-se uma religião para a qual o mundo contribui com a parte mais prática. Tal religião serve a alguns bons propósitos: promove, em certa medida, a educação, a humanidade, o refinamento. Mas também faz muitíssimo mal. Engana a muitos para a sua ruína eterna. Aquieta a consciência e embala as sensibilidades religiosas no sono. Pela familiaridade com as coisas divinas, endurece o coração das vítimas que ilude e as torna quase insensíveis às repreensões e advertências de Deus. Faz fariseus em vez de santos; encoraja o cobiçoso e o amante dos prazeres a agarrar-se aos seus ídolos; conduz os seus devotos à morte nas suas ilusões — e os deposita, por fim, no inferno.
Se você quer, portanto, ter êxito em salvar almas, precisa você mesmo ser salvo. Ao apontar o Céu aos outros, deve ir adiante deles na vereda que Deus traça. Deve testar pessoalmente os remédios que administra às almas enfermas. Rumo às pastagens a que quer conduzir o rebanho de Deus, deve seguir à frente, mostrando o caminho. Pode não ser culpa sua que os seus talentos não sejam maiores, nem mais extensa a sua erudição — mas não são essas as coisas principais para o êxito de quem trabalha para ganhar almas. A qualificação importante é a piedade pessoal. Se você não a tem no grau que o habilite a ser um guia da fé do povo de Deus, a culpa é sua. Só sua. As suas palavras, hoje tão sem poder, se saíssem de um coração todo em chamas com o amor de Deus, atrairiam a atenção e abririam caminho, queimando, até a consciência dos ouvintes. Enquanto você não sentir profundamente a sua necessidade, não buscará aquilo que é o único que pode supri-la. Todas as suas resoluções de fazer melhor serão inúteis enquanto você não se tornar melhor. Faça boa a árvore. Comece pelo lugar certo. Cuide de ter uma experiência religiosa clara e bem definida.
Alguns ministros dizem que não sabem quando os seus pecados foram perdoados. A forte probabilidade é que nunca tenham sido convertidos. São religiosos como são religiosas as pessoas criadas numa igreja de Estado. Podem ser zelosíssimos pela denominação; mas são estranhos à experiência cristã. Diz John Wesley: “Pode haver coisa mais absurda do que homens clamarem ‘A igreja! A igreja!’ e pretenderem ser zelosíssimos por ela e seus violentos defensores — quando eles mesmos não têm nela parte nem sorte, nem sabem, na verdade, o que é a igreja?” Um ministro pode ser zeloso pela sua igreja como o advogado é zeloso pelo cliente: porque ganha a vida assim e tem uma reputação a construir ou sustentar. Pode ser sincero e campeão da ortodoxia sem jamais ter sido convertido. Paulo diz que pode até ser mártir: “Ainda que eu entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará” (1Co 13.3).
John Wesley era homem tão capaz quanto qualquer outro de julgar o próprio estado religioso. Diz de si mesmo: “Cheguei a esse ponto durante muitos anos: usava de diligência para evitar todo mal e conservar a consciência limpa; remia o tempo, aproveitava toda oportunidade de fazer o bem a todos; usava constante e cuidadosamente todos os meios de graça públicos e privados; buscava uma seriedade constante de conduta em todo tempo e lugar; e Deus, diante de quem estou, é testemunha de que fazia tudo isso com sinceridade, com desígnio real de servir a Deus, com desejo cordial de fazer a sua vontade em todas as coisas. E, contudo, a minha consciência me dá testemunho, no Espírito Santo, de que todo esse tempo eu era apenas quase cristão.” Quantos dos nossos modernos estudantes de teologia podem dizer que são tão religiosos quanto era esse “quase cristão”?
E ainda: “Faz agora dois anos e quase quatro meses que deixei a minha terra natal para ensinar aos índios da Geórgia a natureza do cristianismo; mas o que aprendi eu mesmo nesse meio-tempo? Isto — o que eu menos suspeitava: que eu, que fui à América converter os outros, nunca fui eu mesmo convertido a Deus. […] Sabem eles de filosofia? Eu também sabia. De línguas antigas ou modernas? Eu também. São versados na ciência da divindade? Também eu a estudei por muitos anos. Falam com fluência das coisas espirituais? O mesmo fazia eu. São generosos em esmolas? Eis que eu dava todos os meus bens para alimentar os pobres. Dão do seu trabalho além dos seus bens? Eu trabalhei mais abundantemente que todos eles. Estão dispostos a sofrer pelos irmãos? Eu abri mão de amigos, reputação, conforto, pátria; pus a minha vida nas mãos, vagando por terras estranhas […]. Mas tudo isso (seja mais, seja menos, não importa) me torna aceitável a Deus? Tudo o que já fiz, sei, digo, dou ou sofro me justifica diante dele? […] De modo nenhum.” E acrescenta que tinha então “a fé de servo, mas não a de filho”.
Wesley foi educado para o ministério. Se tivesse recusado ceder às suas convicções, confessar a sua verdadeira condição e buscar uma mudança profunda de coração, poderia ter seguido em frente e se tornado um ministro respeitável — talvez um bispo da Igreja Oficial; mas o mundo jamais teria ouvido falar dele como o iniciador do maior movimento religioso da era. É por falta dessa experiência que tantos pregadores talentosos e instruídos estão, na realidade, fazendo tão pouco. Assumem uma congregação rica e estabelecida e, se, recorrendo à ajuda da política mundana, conseguem melhorar a condição financeira da igreja, o seu ministério é considerado bem-sucedido. Mas, se por meio dele não se salvam almas, Deus o conta como fracasso.
Insistimos, pois: os que trabalham por almas devem ser convertidos do mundo para Cristo. Deve operar-se neles, pelo Espírito de Deus, uma transformação tal que todos os que os conhecem vejam claramente a mudança. Devem ter todas as marcas e produzir todos os frutos de almas convertidas.
Mas devem ir além: devem ser inteiramente santificados a Deus. “Purifiquem-se, vocês que levam os utensílios do SENHOR” (Is 52.11). Como é o pecado que contamina, isso exige que estejam livres do pecado aqueles por meio de quem as águas da salvação são distribuídas a um mundo que morre. E isso está claramente prometido: “Vestirei de salvação os seus sacerdotes, e de júbilo exultarão os seus fiéis” (Sl 132.16). Ora, sob a dispensação cristã, todos os crentes são sacerdotes (1Pe 2.5). Vestir é pôr toda veste necessária: se os sacerdotes cristãos estão “vestidos de salvação”, estão redimidos de todo pecado. O seu cântico é: “Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6). Esse cântico de louvor sobe não só dos glorificados no Céu, mas dos santos na terra. Quem foi lavado dos seus pecados não pode ainda estar nos seus pecados: aqui na terra essa promessa se cumpre.
A pessoa convertida que cumpre o seu dever para com Deus e o próximo, conservando-se livre de condenação, prosseguirá para a plena salvação. “Se, porém, andamos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). “Andar na luz” é atender a tudo o que Deus requer de nós.
Samuel Rutherford, presbiteriano escocês nascido por volta de 1600, convertido já em idade madura, escreveu: “Não tenho língua nem pena para expressar a felicidade dos que estão em Cristo. […] Se alguém me tivesse jurado, eu não teria acreditado no que se pode encontrar em Cristo. […] A pior coisa de Cristo — a sua cruz dura, a sua cruz negra — é branca e formosa; e a cruz recebe de Jesus um lustre belo e um perfume suave.” E Edward Payson, por muitos anos pastor bem-sucedido em Portland, escreveu à mãe: “Nunca Deus me pareceu tão inexprimivelmente glorioso e amável como nestas últimas semanas. Ele é, de fato, tudo em todos. […] Nas mãos de Cristo jazo passivo e desamparado, e me espanto de ver como ele pode operar em mim. Ele faz tudo: sustém-me, leva-me adiante, opera em mim e por mim — enquanto eu nada faço; e, no entanto, nunca trabalhei tão depressa na minha vida.” No leito de morte, perguntado se estava resignado, respondeu: “Ó, isso é frio demais. Eu me alegro! Eu triunfo! […] Pareço estar nadando num rio de prazer que me leva à grande fonte.”
A experiência de tantos outros mostra que, se as almas convertidas avançarem como Deus conduz, ele lhes dará a plena salvação. O grande problema é que muitos dos que trabalham profissionalmente pelo bem espiritual dos outros nunca foram convertidos; e, dos que foram, muitos perderam o primeiro amor e se tornaram formalistas e fariseus. Fazemos bem em atender às palavras solenes: “Examinem-se a si mesmos, para ver se vocês estão na fé; ponham-se à prova” (2Co 13.5).
“Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra?” (Mt 7.10)
Não podemos comunicar aos outros o que nós mesmos não possuímos. Se o homem não fosse um ser caído, poderia ser salvo apenas pela verdade: bastaria conhecê-la. Mas isso não é suficiente. Poucos são os que fazem tão bem quanto sabem. “O julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más” (Jo 3.19). A razão por que os homens são condenados é que conhecem o que é certo e preferem o que é errado. Essa inclinação para o mal é vencida pelo Espírito Santo.
Um homem prega sermões sistemáticos, eloquentes, evangélicos. O povo ouve e admira; mas ninguém é salvo. Outro vai ao mesmo povo sem verdade nova, com pouco método no seu discurso simples e sem verniz, e com muitos traços censuráveis nas maneiras. Os exigentes se ofendem — e se convertem. Segue-se um avivamento grande e duradouro. O que faz a diferença? Um “ministra o Espírito” (Gl 3.5); o outro confia na apresentação lógica da verdade. Disse um pregador eloquente, ao fim de uma série de reuniões infrutífera: “Não consigo entender. Preguei estes mesmos sermões, na mesma ordem, em tal lugar, e houve duzentas conversões.” Da primeira vez, ele confiou no Espírito; da segunda, confiou nos sermões.
Desde as eras mais antigas, o delta do Nilo é famoso pela fertilidade; ali começou a civilização, e por milhares de anos os mesmos campos deram colheitas abundantes. A fertilidade inesgotável do solo deve-se à cheia anual do rio. Se o Nilo se mantém dentro das margens, serve perfeitamente à navegação — mas não capacita o solo a alimentar o povo: segue-se a fome. Assim na obra do Senhor: com as bênçãos ordinárias podemos viver em paz e cumprir os deveres com serena compostura; mas essa ausência de “exaltação”, que o mundo tanto elogia, não traz colheita de almas. Há muitos pregadores ortodoxos, íntegros, respeitáveis, que nunca fazem muito bem, porque são sempre excessivamente corretos. Nunca conhecem uma cheia. Para eles, o dia de Pentecostes nunca chega por completo. São bons argumentadores, belos oradores — mas sem poder para converter pecadores a Deus.
Os apóstolos haviam sido chamados por Cristo ao ministério; haviam sido plenamente instruídos pelo próprio Salvador em todas as doutrinas do Evangelho; o mundo perecia por falta das verdades que eles tinham ordem de proclamar; a grande comissão já lhes fora dada. E ainda assim foram retidos pela ordem do Senhor ressuscitado: “Permaneçam na cidade, até que do alto vocês sejam revestidos de poder” (Lc 24.49). Eles obedeceram. Esperaram, como sempre se deve esperar uma bênção: em oração fervorosa (At 1.14). No dia de Pentecostes, o Espírito veio sobre eles: “E apareceram, distribuídas entre eles, línguas como de fogo, e uma pousou sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo” (At 2.3-4). Agora estavam prontos para a obra. Pedro pregou a um auditório tão profundamente hostil quanto se possa imaginar — ao povo que havia crucificado o seu Mestre. E não amaciou o caso, nem pediu desculpas pela conduta perversa deles; acusou-os clara e repetidamente do seu crime: “vocês mataram, crucificando-o por meio de homens maus” (At 2.23); “Deus fez Senhor e Cristo a este Jesus que vocês crucificaram” (At 2.36). E, contudo, era tal o poder divino que acompanhava as suas palavras, que a convicção tomou o coração do povo: “Naquele dia foram acrescentadas quase três mil pessoas” (At 2.41).
Esse “poder do alto” é a grande qualificação essencial dos que querem trabalhar pela salvação dos outros. Nada pode tomar o seu lugar. Nenhum dom natural, nenhum grau de erudição pode substituí-lo. Eles têm a sua parte; mas a sua obra não é a obra do Espírito. Fogo só se acende com fogo. Assim o Espírito de Deus numa pessoa encontra o caminho para o coração de outra.
Precisamos do Espírito para apresentar ao povo o tipo de verdade adequado à sua condição espiritual. Isso vale tanto para o trabalho público quanto para o particular. Muitos parecem pensar que basta falar a verdade. Grande engano. No trato com as almas, requer-se não só a verdade, mas a verdade particular apropriada às necessidades presentes. Dá-se pouquíssima atenção à adequação — e, na cura de almas como na medicina, ela é tudo. Uma farmácia está cheia de remédios, cada um bom no seu lugar; mas o médico que apanhasse o primeiro frasco que lhe viesse à mão e o desse indiscriminadamente aos doentes teria mais chance de matar do que de curar. A intenção pode ser boa; a prática é má. Muitos sermões se perdem porque não atendem às necessidades de quem ouve. Ministros de capacidade e experiência pregam, muitas vezes, sermões sem a mais leve adequação às suas congregações: em tempo de avivamento, pregam de modo a acalmar, quando deviam alarmar.
Em nenhuma obra se exige perícia maior do que na cura de almas. Nem sempre se pode determinar o estado religioso de uma pessoa pela aparência: alguns que parecem indiferentes podem estar morrendo lentamente de desespero; outros parecem extraordinariamente maus porque vestem um ar de rebeldia para esconder a convicção. O estudo dos livros não qualifica ninguém para receitar às almas; a perícia para salvá-las não vem da experiência. Precisamos do Espírito Santo para apontar a doença e o remédio — ou trabalharemos a esmo, e aqueles por quem trabalhamos continuarão sem salvação. Onde devíamos despertar, encorajaremos almas iludidas a agarrar-se às suas falsas esperanças; onde devíamos “levantar os abatidos” e “firmar os joelhos vacilantes”, poremos sobre eles fardos pesados, difíceis de carregar.
“A persuasão não vem por esforço nem por arte; o estudo árduo jamais tornou o assunto mais claro: é a fonte viva no coração do pregador que envia as correntes que derretem o ouvinte arrebatado.”
Para ter discernimento espiritual, precisamos ter o Espírito. Sem ele, seremos como quem atira a esmo. Com ele, podemos entrar numa congregação estranha e apresentar as verdades que ela precisa ouvir; não precisaremos que ninguém nos conte a condição espiritual do povo — pregaremos por inspiração, não por informação. “Mas, se todos profetizarem, e entrar algum descrente ou não instruído, ele se sentirá convencido e julgado por todos; os segredos do seu coração se tornarão manifestos, e assim, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, declarando que Deus está de fato no meio de vocês” (1Co 14.24-25). Sob tal pregação, alguns ouvintes ficam com a impressão de que o pregador sabe tudo a respeito deles. Os golpes não são apenas fortes: são bem dirigidos. “Assim luto, não como desferindo golpes no ar” (1Co 9.26). Mas não se pode negar que muitos, no púlpito, “batem no ar”: não miram em nada; repetem o que ouviram de outros ou leram nos livros. Podem ser eloquentes, até instrutivos — mas apenas embalam os ouvintes no sono e os animam no caminho do inferno.
Quem prega “conforme o Espírito lhe concede que fale” tem uma mensagem direta de Deus. Enquanto declara a verdade, a consciência faz a aplicação e sussurra ao ouvinte: “Você é esse homem.” Pode ser jovem e sem letras; mas prevalece na batalha contra o pecado e sai exultando: “Bendito seja o SENHOR, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra” (Sl 144.1).
Precisamos do Espírito Santo para regular os nossos métodos de lidar com as almas. Na obra de salvar pessoas — em público ou em particular —, muito depende da maneira. Numa doença crítica, a enfermeira só fica atrás do médico: a eficácia do remédio depende muito de como é administrado. Assim também na distribuição das verdades de Deus. “Se eu dissesse a este povo”, comentou um pregador a outro, “as mesmas coisas que você diz, eles me expulsariam da cidade. E de você aceitam sem uma palavra.” Um falava com a ternura e a unção do Espírito Santo; o outro parecia dizer, pelas maneiras: “Vou dar-lhes o que merecem. Vocês vão ouvir a verdade, quer gostem, quer não.” É claro que só levantava oposição.
Alguns são profissionais nas maneiras. Certas coisas são esperadas deles, e o seu esforço é corresponder à expectativa: tanto serviço por tanto pagamento, e a principal ansiedade parece ser prestar o serviço de modo a garantir o pagamento. São sempre corretíssimos; manifestam um grau louvável de zelo — mas é fácil ver que é o zelo do advogado esforçando-se por ganhar os honorários. Não há preocupação profunda pelas almas, nenhuma simpatia transbordante pelos que perecem. O esforço é cumprir o dever — cumpri-lo fielmente, sem dar justo motivo de queixa. Isso está certo até onde vai; pode servir para assegurar posição e salário — mas não resulta na salvação de ninguém. Esses têm a sua recompensa: obtêm o que buscam, reputação e dinheiro. Mas serão pobres por toda a eternidade. O Espírito Santo tira o ar frio e profissional, tornando-nos fervorosos e simples de coração. Você parecerá importar-se mais com a salvação dos homens do que com pregar um bom sermão — porque preferirá mil vezes vê-los salvos a ouvir dizer que pregou um bom sermão.
Alguns são afetados nas maneiras: representam, com maior ou menor proficiência, um papel decorado. Fingem um patos que não sentem; têm lágrimas à disposição — mas, como gotas de chuva de um céu sem nuvens, essas lágrimas não penetram a superfície. Falta a simpatia real. Poucos se deixam enganar, e por pouco tempo. De todas as formas mortas, a forma do poder sem o poder é a mais ofensiva. Há beleza no movimento dos seres vivos; mas dificilmente há algo mais repulsivo do que os movimentos de um corpo morto galvanizado numa aparência de vida.
Outros são tão constrangidos nas maneiras que não conseguem exprimir adequadamente o que de fato sentem. Têm força, mas estão amarrados; têm experiência sólida, mas nenhuma liberdade de expressão. O que dizem é bom, mas dito de modo tão rígido que perde muito da força. Ora, o que corrige toda essa ineficácia de maneiras não é prática nem instrução — é o dom do Espírito Santo. Ele, tirando o medo do homem e dando-nos grande amor pelas almas, nos faz parecer, ao mesmo tempo, destemidos e mansos, fervorosos e naturais. Todas as artes de que a retórica e a elocução são mestras não passam do mais frágil substituto do Espírito Santo. Ele corrige as nossas maneiras corrigindo-nos. Faz bom o fruto fazendo boa a árvore.
Precisamos do Espírito Santo para dar unção às nossas palavras e torná-las eficazes na salvação de almas. Ele dá um poder que nada mais pode comunicar.
No acampamento de Black Creek, no verão de 1857, no condado de Allegany, Nova York, houve maravilhoso derramamento do Espírito. Muitos foram convertidos e muitos, santificados. Certo dia, numa reunião, vimos uma mulher profundamente comovida. Falamos com ela — e descobrimos que era surda e muda. Uma jovem fora vista conversando com ela por sinais: era a filha. Pedimos que perguntasse à mãe o que se passava. Ela perguntou — e ela própria caiu em pranto. A mãe, por sinais, respondera: “Quero tornar-me cristã e ir para o Céu.” Todos caímos de joelhos, e orou-se fervorosamente pela sua salvação. Logo a expressão de alegria no seu rosto anunciou que havia passado da morte para a vida. Na festa de amor do encerramento, ela tentou dar o seu testemunho. Já vimos congregações muito comovidas sob as palavras pesadas de corações carregados; mas nunca vimos uma tão sensivelmente tocada como quando aquela pobre mulher surda e muda se levantou e, com lágrimas escorrendo pelo rosto, a mão primeiro sobre o coração e depois apontada para o Céu, lutou para contar as grandes coisas que Deus fizera pela sua alma. Quase todos choraram. Não foi discurso eloquente que derreteu o coração daquela mulher — ela não ouviu nenhum; não foram palavras bem escolhidas que a fizeram alcançar outros corações — ela não pronunciou nenhuma. Foi, nos dois casos, o Espírito de Deus.
Diz Spurgeon, o célebre pregador inglês: “O Espírito Santo pode tornar a palavra tão eficaz hoje como nos dias dos apóstolos. Ele pode trazer às centenas e aos milhares tão facilmente como de um em um. A razão de não prosperarmos mais é que não temos o Espírito Santo conosco em força e poder, como nos primeiros tempos. Se tivéssemos o Espírito selando o nosso ministério com poder, pouco importaria o nosso talento. Os homens poderiam ser pobres e sem instrução, as suas palavras quebradas e sem gramática; poderiam faltar os períodos polidos de Hall ou os trovões gloriosos de Chalmers — mas, se o poder do Espírito os acompanhasse, o mais humilde evangelista seria mais eficaz que o mais douto dos teólogos ou o mais eloquente dos pregadores. É a graça extraordinária, não o talento, que ganha o dia. É de poder espiritual extraordinário que precisamos, não de poder mental extraordinário. O poder mental enche uma capela; o poder espiritual enche a igreja. O poder mental pode reunir uma congregação; o espiritual salva almas. Queremos poder espiritual. […] Ó Espírito do Deus vivo! Precisamos de ti. Tu és a vida, a alma, a fonte do êxito do teu povo. Sem ti, nada podem fazer; contigo, tudo podemos.”
O presidente Finney menciona um episódio ocorrido em New York Mills, que mostra como Deus pode operar por meio dos que estão cheios do Espírito mesmo quando nada dizem. Ao visitar uma fábrica, notou agitação entre as operárias. Numa das salas, uma jovem tecelã, ao vê-lo aproximar-se, tremia tanto que não conseguia emendar um fio partido. “Quando cheguei a uns três metros dela, olhei-a com solenidade. Ela percebeu, foi tomada de emoção, prostrou-se e caiu em pranto. A impressão pegou quase como pólvora e, em poucos momentos, quase todos na sala estavam em lágrimas. O sentimento espalhou-se pela fábrica toda. O proprietário, homem não convertido, vendo o estado das coisas, disse ao superintendente: ‘Pare a fábrica e deixe o pessoal cuidar da religião; é mais importante que as nossas almas sejam salvas do que a fábrica funcione.’ Fecharam-se as comportas; todos se reuniram num grande salão; e reunião mais poderosa eu quase nunca presenciei. O avivamento varreu a fábrica com poder espantoso e, em poucos dias, quase todos ali estavam convertidos.”
No verão de 1858, começamos a realizar reuniões no cais de Buffalo. As congregações eram grandes, ordeiras e atentas, embora compostas, em grande parte, de homens e mulheres tão depravados quanto a cidade podia fornecer. Logo o interesse cresceu tanto que sentimos necessidade de uma sala para reuniões de comunhão. O irmão T. S. LaDue foi conosco a um bar da rua Canal alugar o salão de danças do andar de cima para reuniões de oração. Conseguimos; as reuniões foram realizadas ali, e muitos pecadores se converteram — e a autenticidade da obra ficou provada por uma reforma duradoura de vida. Entre os convertidos estava uma jovem que mantinha um dos piores estabelecimentos daquela péssima vizinhança. Contou que estava no bar quando fomos alugar o salão. Não falamos com ela nem a notamos. Mas disse que viu que não éramos da classe de homens que costumava ir ali. Um tremor a tomou e, para sacudir o sentimento, soltou uma praga. Ainda assim, enquanto nos olhava, esperando que disséssemos algo que lhe desse oportunidade de nos insultar, tremeu mais do que nunca — e foi ao balcão pedir uma bebida. Daquele momento em diante, ficou sob tal convicção que não achou descanso. Logo se converteu e abandonou a vida viciosa. Viveu como cristã dedicada por vários anos e morreu em santo triunfo.
Não podemos exagerar a importância de termos o Espírito Santo. Para quem trabalha por almas, ele é tão indispensável quanto a umidade para o lavrador ou o fogo para o maquinista. Com os melhores talentos, educação, experiência e oportunidades, você pouco poderá fazer para levar almas ao Céu, se estiver destituído do Espírito. James Caughey era um pregador comum, cumprindo nomeações comuns com crédito comum. Entregou-se plenamente a Deus, buscou e obteve a plenitude do Espírito — e percorreu a Grã-Bretanha e a América como uma chama de fogo, trazendo dezenas de milhares de almas a Cristo.
Finney, falando dos avivamentos ocorridos sob o seu trabalho, diz: “Se eu perdesse, ainda que por um dia ou uma hora, o espírito de graça e de súplica, via-me incapaz de pregar com poder e eficácia ou de ganhar almas pela conversa pessoal. […] Repito com toda a ênfase: a diferença de eficácia entre os ministros não consiste tanto na diferença de dotes intelectuais quanto na medida do Espírito Santo de que desfrutam. Seja qual for a idade ou a erudição de um ministro, ele é uma criança em conhecimento espiritual, em experiência e em qualificações para o seu ofício, sem o batismo com o Espírito Santo. Mil vezes mais ênfase deveria ser posta nessa parte do preparo completo para o ministério do que se tem posto.”
O presidente Edwards, como pensador, teve poucos iguais. E, contudo, a sua confiança principal não estava na lógica nem na erudição, mas no Espírito Santo: “O nosso povo não precisa tanto de ter a cabeça abastecida quanto de ter o coração tocado; e necessita, acima de tudo, do tipo de pregação que tem a maior tendência de fazer isso.”
Não há pregador chamado por Deus para trabalhar por almas que o Espírito Santo não possa tornar eficaz. Não há discípulo de Cristo, de dons tão humildes, que o Espírito Santo não possa tornar útil. Você está convencido disso? Então seja este o seu primeiro empenho: “Encham-se do Espírito” (Ef 5.18). É um mandamento claro — podemos desprezá-lo e ficar inocentes? E está prometido na linguagem mais positiva e persuasiva: “Peçam, e lhes será dado” (Mt 7.7). “Mas posso eu reivindicar isso?” Pode — ainda que você tenha entristecido o Espírito mil vezes. Está acrescentado: “Pois todo o que pede recebe.” A única condição é pedir — mas pedir com sinceridade. Há duas maneiras de aumentar a força de uma queda d’água: levantar a represa ou rebaixar o canal. Pode não ser possível levantar a represa; mas você pode rebaixar o canal. Assim, você sempre descobrirá que, quanto mais fundo se humilhar, mais poder terá com Deus e com os homens. Obedeça ao Espírito, e mais do Espírito lhe será dado: “E nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que lhe obedecem” (At 5.32).
Não pode haver, portanto, desculpa possível para alguém estar destituído do Espírito. “Ora, se vocês, que são maus, sabem dar boas dádivas aos seus filhos, quanto mais o Pai celestial dará o Espírito Santo àqueles que lhe pedirem?” (Lc 11.13). Você não tem a quem culpar senão a si mesmo, se está sem aquela medida do Espírito Santo que o fará sábio em ganhar almas para Cristo. Se não tem o Espírito, é porque é orgulhoso demais para humilhar-se, egoísta demais para fazer o sacrifício necessário, ou indolente demais para pedir. Resolva que, custe o que custar, você terá toda qualificação de graça que Deus estiver disposto a dar para a sua obra.
E não se alarme se, ao ser batizado com o Espírito, você começar a sofrer perseguição. Muitos voltam atrás nesse ponto. Não têm certeza de que é perseguição: amigos calorosos se esfriam e dão a entender que o julgam exagerado, fanático. Eles ponderam, concluem que talvez seja isso, não vão adiante — e se acomodam numa formalidade respeitável. É o caso de milhares: a luz que havia neles tornou-se trevas, e com o tempo eles mesmos se tornam perseguidores do Espírito Santo na pessoa dos que o seguem. Para qualquer pessoa, em qualquer igreja, entregar-se a ser plenamente guiada pelo Espírito de Deus exige o espírito de mártir. Mas o tempo é curto; a eternidade está às portas. Não se preocupe com o que os inimigos digam de você. Mantenha-se em união estreita com o Senhor. Viva no Espírito, ande no Espírito — e a sua vida será eficaz, e o seu fim, triunfante.
“Está aí um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos.” (Jo 6.9)
Toda escola tem um currículo adaptado ao seu objetivo. Uma faculdade de medicina não exige dos seus alunos exames nas matérias que precisam dominar os que desejam ser advogados. Uma escola preparatória visa a que os seus alunos atendam aos requisitos da faculdade em que pretendem entrar.
O objetivo de levar os homens à conversão a Cristo é prepará-los para o Céu. Deus prescreveu as qualificações necessárias para a admissão no seu Santo Lugar. Essas qualificações, nenhum homem, por mais douto — nenhum grupo de homens, por mais respeitável —, pode alterar ou abreviar. Podemos declará-las; não podemos mudá-las. Pôr o padrão alto demais desanima; baixo demais, ilude e destrói. É difícil conceber dano maior que um homem possa causar do que embalar multidões no sono, para a sua ruína eterna.
Os pregadores estão tão sujeitos a desviar-se quanto qualquer outra classe de homens. E, quando se desviam no coração, tornam-se muitas vezes extremamente perigosos. Ficam mais sociáveis e complacentes do que nunca; mantêm uma observância decente das formas da religião; e põem o padrão de piedade tão baixo que agradam aos mundanos e amantes dos prazeres. Por isso, frequentemente têm mais adeptos pessoais do que quando desfrutavam da religião. A popularidade crescente os engana, enquanto eles enganam os outros. Mas diz o nosso Salvador: “Se um cego guiar outro cego, ambos cairão no buraco” (Mt 15.14). O enganado e o enganador perecerão juntos.
O bispo Hedding disse, em discurso à Conferência Genesee em 1842: “‘Examinai-vos a vós mesmos, se estais na fé’ é admoestação necessária tanto para ministros quanto para o povo. Os homens estão sujeitos a enganar-se quanto à própria conversão e a satisfazer-se com uma obra da imaginação em vez da obra do Espírito. Comparemos, pois, a nossa experiência com a Palavra de Deus e certifiquemo-nos de que somos verdadeiramente nascidos do Espírito. E há outro perigo: tendo sido realmente nascidos de Deus, podemos desviar-nos no coração, perder o Espírito que recebemos do Céu — e, retendo a forma, a moral e a profissão do cristianismo, persuadir-nos de que somos tão piedosos quanto quando estávamos aquecidos no primeiro amor.”
Embora um pregador possa, nos seus sermões, conservar a forma das sãs palavras, ele não imporá aos outros uma experiência de que não desfruta. Se lhe falta o conhecimento salvador da verdade, faltará também, em regra, aos seus convertidos. A água não sobe acima da sua fonte — nem acima do ponto mais alto do cano que a conduz.
O padrão corrente de piedade está, em muitos aspectos, abaixo do padrão bíblico. As pessoas se acostumam tanto a ele que, enquanto não se lhes chama a atenção para o fato, nem o percebem. Quanto mais baixo o padrão, melhor serve ao gosto pervertido. Daí que a pregação fiel da verdade, mesmo da maneira mais afetuosa, muitas vezes provoca a amarga oposição da gente religiosa. Mas quem quer fazer obra para a eternidade não deve, por isso, hesitar em insistir em tudo aquilo em que Deus insiste. O pintor tem o quadro na mente antes de pô-lo na tela: para alguém tornar-se santo, precisa ter uma ideia razoavelmente correta do que é ser santo.
Diz Finney: “Enquanto não removermos das mentes o erro comum de que o cristianismo corrente da igreja é o cristianismo verdadeiro, pouco progresso faremos na conversão do mundo.” E o bispo Foster, da Igreja Metodista Episcopal, declarou em discurso público: “Neste momento, quatro em cada cinco pessoas com o nome nos róis da igreja não estão fazendo nada — quase absolutamente nada. Quatro em cinco pouco contribuem para o tesouro da beneficência da igreja, e quatro em cinco nada fazem em trabalho pessoal por Cristo. Vão à igreja talvez uma vez por domingo, se o tempo não estiver ruim; e assim, pelas semanas, meses e anos afora, a bendita causa de Deus não fica nem um pouco mais forte, em número ou influência, pelo viver deles.” Ora, tais pessoas não podem estar em estado de salvação, pois Cristo diz: “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta espalha” (Mt 12.30). Precisam ser convertidas a Deus para serem salvas.
O bispo Peck, da mesma igreja, diz: “Há uma impressão geral de que muitos membros não são úteis, não são santos na vida, não são representantes dignos do cristianismo prático — são um fardo, e não uma ajuda, para a igreja. Mas não se vê a extensão do triste fato: os frios, mundanos e indiferentes no nosso meio são realmente uma grande maioria […]. A disciplina torna-se rara e, por fim, impossível. A tentativa de excluir até o incorrigível desperta surpresa e amarga oposição. Crimes suficientes para excluir um homem do reino da graça e da glória passam a ser considerados veniais; e os pastores e membros que tentam uma disciplina piedosa tornam-se os réus, os criminosos perseguidos.”
Não se suponha que, com tal estado de coisas, seja difícil ter um avivamento. Ao contrário: é fácil, quando o povo se acostuma a ele e é levado a pensar que aquilo, afinal, talvez seja religião verdadeira. Os homens são naturalmente religiosos, além de naturalmente egoístas. Persuada-os de que a religião pouco ou nada interferirá nos seus desejos egoístas, e estarão dispostos a tornar-se religiosos. Essa prontidão para ser religioso, quando se está persuadido de que a religião não interferirá nos apelos do egoísmo, explica o caráter avassalador dos avivamentos da moda. Todos admitem que é bom ter religião; e, quando ela não custa nenhuma abnegação, mas é posta a serviço do orgulho, por que não a teriam todos? Tal religião engana, mas não salva.
Como diz o presidente Olin: “A fé em Cristo e o recurso ao Evangelho em busca de perdão, pureza e vida eterna pressupõem submissão incondicional aos seus termos. Bem sei que uma multidão, mesmo de cristãos professos, começa e conduz o que se chama uma carreira religiosa num plano muito diferente. Eles é que dão a lei à religião. Retêm tantas indulgências e concedem tantos sacrifícios quantos convenham ao seu gosto. Fazem provisão para o orgulho, a ambição, a sensualidade e a vontade própria, e ‘se revestem do Senhor Jesus Cristo’ apenas na medida em que pensam que ele pode realçar da melhor maneira a sua própria púrpura e o seu linho fino.”
Que tal caminho é comuníssimo, ninguém pode negar. São esses os que engrossam a lista de convertidos quando não se insiste nem no arrependimento nem na separação do mundo, e se ensina ao povo que nada é necessário “senão crer”. Mas estão seguras essas pessoas? O eminente teólogo há pouco citado responde: “Tomo sobre mim advertir a todos os que desejam ser salvos por Cristo que se guardem de admitir qualquer motivo ou consideração mundana ou egoísta, seja qual for, na resolução desta grande questão entre Deus e as suas almas. […] Quem para a fim de indagar se ser cristão lhe custará sacrifícios, com alguma intenção de hesitar caso custe, já admitiu uma consideração inteiramente incompatível com tornar-se cristão. […] O Evangelho não admite compromisso aqui. Este é o seu ponto de honra, do qual não cederá um único iota.”
Persuadir o povo de que pode tornar-se cristão sem separar-se do mundo, sem abrir mão do que Deus manda abrir mão, é crueldade para com o homem e rebelião contra Deus. Algumas das mais severas denúncias da Bíblia são contra os falsos mestres. Quando o Senhor repreendeu os israelitas pela cobiça universal, acrescentou imediatamente, como causa daquele triste estado de coisas: “Desde o profeta até o sacerdote, todos praticam a falsidade. Curam superficialmente a ferida do meu povo, dizendo: ‘Paz, paz’, quando não há paz” (Jr 6.13-14). Este é o clímax da maldade. Cuide, pois, para que você, por consideração nenhuma, não ponha o padrão da experiência e da prática cristãs mais baixo do que a Bíblia o põe. Insistindo na submissão incondicional a Deus, você talvez tenha menos convertidos, mas terá mais estrelas na coroa do seu regozijo; talvez obtenha salário menor, mas será mais rico por toda a eternidade. A sua obra permanecerá. “Passem, passem pelas portas; preparem o caminho para o povo; aterrem, aterrem a estrada, limpem-na das pedras; arvorem a bandeira para os povos” (Is 62.10). Isto é: seja agressivo. Onde houver uma porta aberta, vá aos pecadores com a oferta de misericórdia. Remova toda pedra de tropeço, pela confissão, pela restituição, pela reforma de vida. Aponte com clareza o caminho santo. Mostre que Deus promete a todo cristão salvação do pecado. O resultado será que os que atenderem à sua mensagem serão chamados “Povo Santo” (Is 62.12).
Não importa a oposição que provoque: levante o padrão bíblico do cristianismo. Não iluda ninguém com a crença, hoje tão comum, de que quem abraça opiniões corretas está seguro. Como diz o dr. Judson: “Fiquemos certos de que nada, senão a fé real em Cristo, provada genuína por uma vida santa, poderá sustentar-nos no fim. A fé que consiste meramente na crença correta das doutrinas da graça e não impele a nenhuma abnegação — a fé que nos permite gastar todos os nossos dias servindo ao eu, contente com apenas abster-se dos pecados exteriores e cumprir os deveres ordinários da religião — não é fé nenhuma. Oh, é coisa solene morrer; coisa terrível entrar na eternidade e descobrir que estivemos nos enganando.”
Mas mais terrível ainda é fazer disso um negócio: enganar os outros — e ganhar a vida com esse negócio que condena almas! Melhor mendigar ou passar fome.
É porque as igrejas estão cheias de convertidos desse tipo que tantos membros proeminentes acabam grandes criminosos. Eram sinceros; mas nunca foram convertidos. Como diz Isaac Taylor: “Quando professos da religião são de repente achados em falta na integridade comum ou na virtude pessoal, o mundo não admite outra suposição senão a de que o faltoso sempre foi hipócrita — e a suposição, sem dúvida, às vezes não é errônea. Mas, com muito mais frequência, a queda surpreendeu a ele próprio não menos que aos outros; e não é, de fato, senão o desfecho natural de uma piedade fictícia que, embora se mantivesse inteira em circunstâncias ordinárias, cedeu necessariamente na hora da prova inusitada. A religião artificial não só deixa de comunicar à mente o vigor e a consistência da virtude verdadeira, como desvia a atenção daqueles princípios comuns de honra e integridade que levam os homens do mundo através das ocasiões difíceis.”
John Wesley diz dos que “se imaginam cristãos e não são”: “Estes abundam não só em todas as partes da nossa terra, mas na maior parte do mundo habitável. Que não são cristãos é claro e inegável, se cremos nos oráculos de Deus. Pois os cristãos são santos; estes são ímpios. Os cristãos amam a Deus; estes amam o mundo. Os cristãos são humildes; estes são orgulhosos. Os cristãos são mansos; estes são coléricos. Os cristãos têm a mente que havia em Cristo; estes estão à maior distância possível de Cristo. Por conseguinte, não são mais cristãos do que são arcanjos. E, contudo, imaginam-se cristãos — e sabem dar várias razões: são chamados assim desde que se lembram; foram batizados há muitos anos; abraçam as opiniões cristãs; usam os modos cristãos de culto, como os seus pais antes deles; vivem o que se chama uma boa vida cristã, como o resto dos vizinhos. E quem presumirá pensar ou dizer que esses homens não são cristãos? — embora sem um grão de fé verdadeira em Cristo ou de santidade real e interior; sem jamais terem provado o amor de Deus ou sido ‘feitos participantes do Espírito Santo’. Ah, pobres enganadores de si mesmos! Cristãos vocês não são.”
Mas é necessário não só levantar o padrão e alcançá-lo você mesmo: é preciso conduzir até ele um número suficiente para servir de modelo aos demais. Na promoção de um avivamento, esta é a primeira coisa a fazer. “Tal mãe, tal filha” (Ez 16.44). A igreja é a mãe; os convertidos, a filha. Se a igreja é orgulhosa e mundana, os seus convertidos o serão ainda mais. Quanto maior o número de pecadores trazidos a uma igreja assim, maior o dano. Há igrejas arruinadas por avivamentos: entra um grande número de convertidos que não confessaram nem abandonaram os seus pecados, mas tomaram por testemunho do Espírito a satisfação de terem dado um passo na direção certa. O grande esforço passa a ser conservá-los até se tornarem membros estabelecidos. O pregador precisa “profetizar coisas suaves”; os santos precisam ser cautelosos no testemunho; a própria verdade de que esses convertidos precisam para chegar à luz tem de ser suprimida — e assim a igreja inteira retrocede, para acalentar os que, desde o início, estavam apenas parcialmente despertados.
É grande ajuda para um avivamento que cada membro seja um cristão vivo. Assim deve ser: foi para isso que Cristo morreu. “Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.25-27). O pecado faz máculas; a negligência em ser renovado pelo Espírito faz rugas — a experiência fica velha e seca. Quando uma igreja santificada e purificada tem um avivamento, os convertidos saem claros e fortes.
O caminho para o inferno é tão direto de dentro da igreja quanto do mundo. Os pecadores dentro dela perecerão tão certamente quanto os de fora. O nosso alvo deve ser, com o apóstolo, “apresentar todo homem perfeito em Cristo Jesus” (Cl 1.28). Esperar que todos os membros se acertem com Deus antes de buscar a conversão de pecadores seria, na prática, não esperar conversão nenhuma. Mas Cristo diz: “Se dois de vocês, na terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus” (Mt 18.19). Dois é o menor número que pode concordar. Se você conseguir dois, de pleno acordo, num só lugar, certos com Deus e com os homens, pode esperar avivamento e êxito. Mas não passe a ideia de que julga certa a igreja quando sabe que ela está “conformada com o mundo”. Levante o padrão onde Deus o pôs; tome os que acolhem a luz e, quando eles obtiverem poder com Deus, use-os como a sua força de trabalho.
Diz Paulo dos santos: “Vocês são a nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos. Vocês são manifestamente uma carta de Cristo, produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito do Deus vivo” (2Co 3.2-3). Muitos que não leem a Bíblia leem os que professam ser cristãos. Cuide, pois, para que os que trabalham com você não contradigam a Bíblia, quando lidos — no espírito, no vestir, na vida. Faça as suas testemunhas concordarem. Você esperaria ganhar uma causa no tribunal se as suas próprias testemunhas se contradissessem abertamente no ponto em litígio? Na fundição, o maior cuidado é com o molde: se ele está errado, o trabalho se perde. Proteste quanto quiser — você e aqueles que você endossa como “cooperadores de Deus” serão tomados como o molde. Não há como impedir.
Em si mesmo, o simples fato de se fazerem convertidos por nosso intermédio não é evidência de que estejamos certos. O verdadeiro teste está, não no número deles, mas no caráter. Nas fábulas clássicas, conta-se que uma raposa zombou da leoa por ter apenas uma cria. A resposta da mãe do rei das florestas foi: “Uma — mas um leão.” Um convertido real vale mais, para todos os fins da religião cristã, do que mil que confundiram convicção com conversão, ou que foram convertidos apenas ao ministro ou à igreja, ou transformados em partidários inflamados e fanáticos ferozes. Quem alarga tanto a porta que os homens possam atravessá-la com as suas paixões e preconceitos — sem renunciar ao mundo, sem confessar os pecados, sem reparar os males feitos aos outros — não terá falta de discípulos neste mundo caído.
O caráter religioso dos convertidos participa em grande medida do caráter da igreja e do ministro que foram instrumentos da sua conversão. Se a igreja é corrupta, os convertidos serão corruptos. Se os membros mais velhos toleram a opressão, amam o dinheiro, o prazer, a moda e o vestuário, os convertidos logo aprenderão a superá-los em todas as indulgências viciosas. O chicote na mão do pai desviado torna-se escorpião na mão do filho degenerado. Cristo planejou que os seus discípulos fossem olhados: “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5.14). Mas para que serve uma luz, se não é para ser vista? Fruto nobre não cresce em planta degenerada; águas doces não emanam de fonte amarga; e convertidos humildes, devotados, tementes a Deus e zelosos raramente se encontram numa igreja morna.
De nada serve que os professos se reúnam e, com zelo afetado, tentem converter pecadores, se eles próprios não são salvos. Fracassam se não obtêm convertidos; e, se os obtêm, o fracasso é pior. Blocos de gelo congelados uns aos outros podem fazer vulto e brilhar ao sol — mas não passam de um iceberg; e, quanto maior, mais perigoso.
Os homens geralmente se convertem ao padrão de piedade sustentado na pregação que ouvem, no testemunho que escutam e na vida dos representantes de Cristo com quem convivem. Quão importante, pois, que a igreja seja pura! Foi esse o caminho do nosso Salvador: trabalhou com os seus discípulos até haver mudança completa no caráter deles, antes de enviá-los a converter os outros. Então a perseguição não os irou nem desanimou; o sucesso não os inchou; e os seus convertidos saíram semelhantes a eles.
Grande parte da pregação da Bíblia dirige-se aos professos filhos de Deus. Uma razão para isso, sem dúvida, é que o mundo aprenda, por meio deles, a verdadeira natureza da religião pura. Os cristãos são os representantes de Cristo na terra; importa que não o representem mal.
E não tome por certo, no seu zelo pela santidade como bênção distinta, que a igreja está em estado de salvação quando é evidente que a maioria dos membros perdeu o primeiro amor e está sob condenação. Isso se faz com frequência: exorta-se quem retrocedeu no coração e na vida a buscar a inteira santificação e, quase tão logo faz o esforço, é encorajado a crer que a obteve. O comprometer-se, ficando de pé ou cantando um verso, é tido por suficiente; é então constrangido a crer que recebeu a bênção e, embora não consciente de mudança alguma, é instruído a professá-la “pela fé”. Tal caminho é errado e, embora aparentemente muito bem-sucedido, opera dano no fim — tanto às pessoas quanto à causa de Deus. Mas, como não exige humildade, nem arrependimento, nem confissão de pecado, é extremamente popular. Muitos que, professando santidade, são incoerentes no andar diário, teriam sido um poder nos seus dias se, quando sob condenação por pecados cometidos e deveres negligenciados, tivessem, como primeiro passo, obedecido à instrução do Salvador: “Lembre-se, pois, de onde você caiu, arrependa-se” (Ap 2.5).
No reino de Cristo, quem é impedido de humilhar-se é privado da exaltação que certamente se segue. Nada traz tão certamente a bênção de Deus sobre a nossa alma como humilhar-nos diante dele; e nada nos humilha tanto quanto tomar sobre nós a culpa da nossa má conduta e confessá-la a ele e aos que sofreram com ela. A humildade é uma graça que nunca anda só: traz muitas outras no seu séquito. É a joia da coroa do cristão.
Encorajar a buscar santidade quem deveria buscar perdão rebaixa o padrão do cristianismo. Põe a inteira santificação no lugar que a justificação deveria ocupar e promove uma espécie sutil de universalismo, ao presumir que estão justificados, na igreja, os que não dão mais evidência de serem cristãos do que os morais e amáveis de fora dela. A tendência é apagar a distinção entre a igreja e o mundo, e fazer o cristianismo consistir numa aceitação descuidada das suas doutrinas, numa frequência ocasional aos seus ritos e numa observância decente das conveniências da vida civilizada.
“Eis que mandarei muitos pescadores, diz o SENHOR, e eles os pescarão.” (Jr 16.16)
A pregação é de instituição divina. O pregador jamais será substituído. Pela imprensa faz-se grande obra de publicação, explicação e defesa da verdade religiosa; mas a imprensa nunca poderá tomar o lugar do pregador vivo em fazer valer sobre o homem as reivindicações de Deus. A língua persuasiva, o olhar comovido, a emoção que se acende e a maneira fervorosa — tudo entra em requisição no esforço de converter pecadores à justiça. A promessa “eis que estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28.20) implica que o pregador há de continuar enquanto o mundo durar.
Há tanta pregação que aparentemente realiza tão pouco, que a tendência, mesmo entre os devotos, é subestimar a importância de pregar. O que se precisa é trazê-la de volta ao uso que Deus lhe ordenou: um meio de salvar pessoas. “Pois, visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação” (1Co 1.21). Mas, para alcançar esse fim, é preciso proclamar verdades que salvem as pessoas quando as abraçarem de coração.
Os homens são pecadores por natureza e por prática, inflados de presunção; e não há nada que os leve a “abominar-se e arrepender-se no pó e na cinza” em ouvir do púlpito dissertações que lisonjeiam a sua vaidade e servem ao seu orgulho. Se um homem quer ciência, sabe onde encontrar as suas verdades mais bem expostas do que você as pode expor. Ele pode ser mundano; mas vem à igreja com propósito bem diferente do de ser instruído em assuntos do mundo. Ele tem dor no coração: você pode curá-la? Não com exibições vaidosas de conhecimento. Ele tem, sob um exterior descuidado, pressentimentos temerosos da ira vindoura: você pode removê-los? Não com trocadilhos, figuras de linguagem ou mesmo silogismos.
A pregação, para promover a obra de Deus, deve ser bíblica. Um texto claro prova mais do que uma dúzia de argumentos. À lógica se responde com lógica; mas da Palavra de Deus não há apelação. A sua opinião não convencerá ninguém; as suas afirmações, por mais categóricas, não têm autoridade; os seus pensamentos podem ser profundos, mas ninguém espera ser condenado por não os receber. Um ASSIM DIZ O SENHOR, porém, prende a atenção, desarma a lógica e — se alguma coisa o fizer — põe o pecador de joelhos. Dissertações metafísicas podem confundir o intelecto; disquisições históricas podem instruir; floreios retóricos podem cativar a imaginação — mas a consciência permanecerá intocada. Dê ao povo a simples Palavra de Deus. Explique-a com clareza, aplique-a com fidelidade, com a autoridade do Céu e com a unção do Espírito Santo, e os homens estremecerão diante de você.
Se você é embaixador de Deus, fale como tal. O seu negócio não é dar curso às suas próprias opiniões, mas tornar conhecidas as exigências do seu Mestre. Não se levam homens à santidade por adulação. Você pode induzi-los a vir à igreja lisonjeando o seu orgulho; pode induzi-los a assumir a profissão de cristão persuadindo-os de que pouca ou nenhuma abnegação será exigida e de que tal passo será, sob todos os aspectos, grandemente vantajoso para eles. Mas que ganhou a causa de Cristo com o seu aparente sucesso? Você enganou almas — talvez para a sua ruína eterna. Fez hipócritas, não cristãos. Entregou Jesus nas mãos dos seus inimigos. “Quem quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). Você encheu a igreja de gente cuja amizade com o mundo não diminuiu um til — e ainda relata um avivamento glorioso! Avivamentos assim fizeram da igreja romana o que ela é, e estão a caminho de levar as igrejas protestantes a um formalismo bem menos respeitável que o dela, e igualmente condenatório.
Os mandamentos de Deus devem ser proclamados. Continuam obrigando. A lei moral nunca foi revogada. Os dez mandamentos, como expostos pelo nosso Salvador — alcançando os propósitos e pensamentos do coração —, permanecem em vigor. O seu vigor não se enfraquece com a idade, nem diminui com a distância. A sua exigência de obediência é tão imperativa hoje como quando foram proclamados entre os trovões e relâmpagos do monte Sinai.
Os homens devem ser levados a sentir que a lei de Deus os obriga, sem nenhuma consideração pelas suas profissões de fé. Os pecadores pensam que estão menos obrigados a obedecer a Deus porque não professam obedecer-lhe. Grande engano: é acrescentar rebelião à transgressão. E, no entanto, a pregação de hoje muitas vezes produz exatamente essa impressão. É preciso desfazê-la. Grave na consciência de todos que Deus deve ser obedecido; que a sua autoridade é suprema e se estende a todas as suas criaturas, dentro ou fora da igreja. Um rebelde não é menos rebelde por vangloriar-se da sua traição — nem a culpa do pecador diminui por ele gloriar-se da sua vergonha. É doloroso ver a cegueira até de cristãos inteligentes neste ponto: falam como se a medida do seu dever fossem as exigências da igreja a que pertencem, e não a Palavra de Deus. Cite-lhes mandamentos claros da Bíblia que violam habitualmente, e a resposta é: “Ah, a nossa igreja, ou o nosso ministro, não acha necessário ser rigoroso nesse ponto.” Que absurdo! A igreja é autoridade quando permite práticas que conflitam com a Palavra de Deus? A aprovação do seu ministro santifica um ato que o Todo-Poderoso proíbe? Precisamos de um avivamento do cristianismo protestante. As reivindicações de Deus devem ser sustentadas com todo o fervor e autoridade. Faça os pecadores sentirem que o perdão é dom gratuito, de grandeza sem limites, e que, ao buscar o Senhor, não fazem favor nenhum a ele — são eles os destinatários da graça mais espantosa. Se houver convertidos sob essa pregação, haverá forte probabilidade de serem convertidos a Deus, e não a você. Não precisarão de mimos, cargos e atenções para se manterem firmes. A religião de quem só é religioso se puder ter destaque e fazer prevalecer a própria vontade vale muito pouco — nada vale, no que toca à salvação da alma.
Deve-se ensinar aos homens que a lei de Deus pode ser obedecida. Foi feita para nós, não para anjos. Foi proclamada depois da queda; de modo que o nosso compassivo Pai celestial, ao promulgá-la, levou plenamente em conta a nossa condição decaída. Ele conhecia todas as nossas tentações, de dentro e de fora. Moldou as suas disposições à nossa condição como raça. Quando os homens se esforçam por mostrar que a lei de Deus é algo tão alto, maravilhoso e misterioso que ninguém jamais a guardou nem poderá guardá-la, estão na verdade argumentando — ainda que sem querer — que Deus é um grande tirano. Pois não é tirania promulgar leis que não podem, por possibilidade alguma, ser guardadas, e depois fixar as mais terríveis penalidades para a sua violação? Não é esse o caráter do nosso Pai celestial. Ele é justo e misericordioso; a sua lei é santa, justa e boa. A própria existência de um mandamento seu já é prova concludente de que ele pode ser obedecido por aqueles a quem foi destinado. Que os homens vejam que a lei de Deus pode e deve ser guardada — então poderão ser biblicamente convencidos do pecado. Os terrores do inferno os alcançarão; ver-se-ão em apuros e ficarão contentes de ser socorridos; não precisarão de muita persuasão para vir a Jesus. Só quando descobre que está doente é que o homem quer médico; só quando é morto pela lei é que buscará ser vivificado por Cristo. O seu clamor agoniado é: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Rm 7.24). Aceitarão então o Evangelho com a alegria com que o náufrago saúda o bote salva-vidas.
Para pregar a lei, temos pleno mandato no Novo Testamento. Diz o nosso Salvador: “Não pensem que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir” (Mt 5.17). Ora, deixar de pregar a lei como obrigatória é revogá-la. Paulo pregou claríssimamente a doutrina da salvação pela fé — e pergunta: “Será que, pela fé, anulamos a lei? De maneira nenhuma! Pelo contrário, confirmamos a lei” (Rm 3.31). Não pregar a lei é anulá-la: é assumir, na prática, a autoridade de revogá-la por inteiro. Tiago declara: “Qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). E o vidente do Apocalipse: “Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas” (Ap 22.14). A lei moral não foi revogada no Novo Testamento — foi repromulgada. Continua em pleno vigor. Os homens devem entender que têm de obedecer aos seus mandamentos ou sofrer as suas penalidades.
Precisamos de uma classe mais robusta de cristãos. Jamais a veremos, enquanto a lei de Deus não voltar a ser proclamada. Pregação sentimental faz cristãos sentimentais: servem para engrossar números e fazer vulto; mas, para povoar o Céu, não valem nada. De abnegação, nada sabem. Não suportam privações como bons soldados de Jesus Cristo, assim como uma criança não suporta os rigores de uma campanha militar. Ponha-os onde haja conflito entre os seus interesses mundanos e os mandamentos de Deus, e o eu leva invariavelmente a preferência. Não é dessa gente que se fazem mártires. Se você quer convertidos que não cedam a qualquer dificuldadezinha; que recusem conformar-se a costumes e modas contrárias à Palavra de Deus, por mais populares; homens e mulheres de princípio, com quem se possa contar numa emergência — proclame a lei de Deus e insista nas suas reivindicações.
Diz John Wesley: “Penso que o método certo de pregar é este: ao começarmos a pregar em qualquer lugar, após uma declaração geral do amor de Deus aos pecadores e da sua disposição de salvá-los, pregar a lei da maneira mais forte, mais cerrada e mais penetrante possível — apenas entremeando o Evangelho aqui e ali, e mostrando-o, por assim dizer, ao longe. Depois que mais e mais pessoas forem convencidas do pecado, podemos misturar mais e mais do Evangelho, a fim de gerar fé, a fim de erguer à vida espiritual aqueles que a lei matou. […] Pois os mandamentos são alimento, tanto quanto as promessas — alimento igualmente saudável, igualmente substancial. […] ‘A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos símplices. Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração; o mandamento do SENHOR é puro e ilumina os olhos. […] São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro fino; são mais doces do que o mel e o destilar dos favos’ (Sl 19.7-10). Não que eu aconselhe pregar a lei sem o Evangelho, tanto quanto não aconselho o Evangelho sem a lei. Sem dúvida, ambos devem ser pregados cada um por sua vez; sim, ambos de uma vez, ambos em um. Todas as promessas condicionais são exemplos disso: são lei e Evangelho misturados.”
A pregação deve deixar no ouvinte a impressão de que ele está obrigado a obedecer aos mandamentos de Deus — de que não pode desprezá-los impunemente. Não basta que ele creia que ser cristão lhe seria vantajoso; deve ser levado a ver que, se não o é, está em estado de rebelião contra Deus e justamente exposto à retribuição da lei violada. Foi esse tipo de pregação que fez os convertidos de Edwards tão diferentes dos convertidos de muitos evangelistas populares de hoje, como se tivessem abraçado uma religião inteiramente diversa: eram humildes e sérios; renunciaram ao mundo, ao seu orgulho, aos seus prazeres e às suas associações.
Mas, por mais que outros pervertam o Evangelho de Cristo, fazendo dele ministro do pecado e apresentando a expiação como substituta da vida santa para todos os que nela creem — por menos ênfase que os pregadores em geral deem aos mandamentos de Deus —, você não deve correr ao extremo oposto e negligenciar a pregação do Evangelho: explicar a natureza da salvação por Cristo e instar por uma adesão cordial às suas condições.
Não fale tão constantemente das glórias do Céu que o povo perca de vista que só se chega lá pelo caminho da cruz. Mas também não se demore tão exclusivamente nas condições, que os ouvintes concluam ser impossível a uma pessoa comum ser cristã, e que as vantagens mal compensam os sacrifícios. Você não pode apresentar o cristianismo sob luz atraente demais. Não o faça parecer uma necessidade pesada, um dever enfadonho. Não contradiga a Cristo: insista na verdade das suas palavras: “Pois o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve” (Mt 11.30). O sentido da palavra “evangelho” é boas-novas, alegres notícias. Apresente-o como mensagem de alegria. Se ele é luz na sua própria alma, abra as janelas e deixe-o iluminar as trevas lá fora. Se a Palavra é no seu coração “como fogo ardente, encerrado nos ossos”, abra as portas e comunique o calor às almas geladas ao redor.
Nenhuma quantidade de pregação franca reformará os homens, se não os levar a Cristo. Eles sabem que são escravos do pecado; o que não sabem é que há libertação. Você pode mostrar-lhes com toda a clareza que devem abandonar os maus hábitos — de nada valerá, se não os convencer de que há poder no Evangelho para quebrar todo grilhão da alma. Dizia Paley da pregação do seu tempo: “Pregamos moralidade até quase não restar um homem moral no reino.”
Chalmers, um dos maiores pregadores do seu século, conta num sermão o resultado de um experimento real, embora não planejado, que conduziu por mais de doze anos entre o seu povo: durante a maior parte desse tempo, discorria sobre a vileza da desonestidade, a vilania da mentira, as artes desprezíveis da calúnia — todas as deformidades de caráter que despertam a indignação natural do coração humano. “E o fato interessante é que, durante todo aquele período em que nada tentei contra a inimizade natural da mente contra Deus, enquanto Cristo mal era mencionado, eu certamente instava pelas reformas da honra, da verdade e da integridade entre o meu povo — mas nunca ouvi falar de uma única dessas reformas efetuada entre eles. Não tenho consciência de que toda a veemência com que urgia as virtudes da vida social tivesse o peso de uma pena sobre os hábitos morais dos meus paroquianos. E foi só quando fui impressionado pela total alienação do coração, em todos os seus desejos e afetos, para com Deus; foi só quando a reconciliação com Ele se tornou o objeto distinto e proeminente dos meus esforços ministeriais; foi só quando a oferta gratuita do perdão pelo sangue de Cristo foi urgida à sua aceitação […] — foi só então que ouvi falar de qualquer daquelas reformas subordinadas que antes eu fizera o objeto zeloso, mas, temo, último, das minhas primeiras ministrações. […] Vós ao menos me ensinastes que pregar a Cristo é o único modo eficaz de pregar a moralidade em todos os seus ramos.”
É da obra de Cristo em toda a dispensação do Evangelho que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lc 4.18-19). Examine esta passagem maravilhosa, item por item: a obra do ministro, como aqui exposta, recomenda-se à atenção favorável de todo aflito e angustiado — e estes compõem a massa da família humana. Vá a eles não só com um coração de simpatia, mas cheio de confiança de que você tem remédio para todos os seus males. Pode ser rejeitado a princípio; mas, se a sua própria alma está fora da prisão e você se alegra ao sol quente do amor de Deus, alguns, se você abrir a porta, sairão com você para a luz e se unirão a você nos cânticos de libertação.
“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê” (Rm 1.16). Salvação de quê? Responda o anjo do Senhor: “Ele será chamado pelo nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). A salvação do pecado não é privilégio especial de favorecidos: é “para todo aquele que crê”. Faça o povo ver que é isso que o Evangelho se propõe fazer. Ele não põe os homens a reformar-se pelos próprios esforços; oferece-lhes as influências graciosas do Espírito, para dar-lhes vitória sobre o pecado. “Porque o pecado não terá domínio sobre vocês; pois vocês não estão debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14).
Pregue, pois, este Evangelho de libertação. Não tente reformar os homens assaltando os seus pecados um por um; mas, quando os convencer da sua pecaminosidade, urja sobre eles a promessa: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Pode confiar neste tratamento: é sempre eficaz. Muitos pregadores que realmente querem fazer o bem fracassam por completo porque tentam consertar os homens atacando em detalhe cada coisa, pequena ou grande, que lhes parece errada. Trabalham com as almas como trabalharia com um varioloso o médico que aplicasse remédio a cada pústula da pele, em vez de tratar a doença de que a erupção é apenas um sintoma. “A lepra jaz bem no fundo.” O pecado não se cura com reforma exterior. Não é cura de superfície que se precisa, mas restauração da saúde do organismo inteiro — e isso o Grande Médico é capaz de efetuar. Vá a um mundo moralmente enfermo, deitado à beira da morte eterna, que os filósofos em vão tentaram reformar, que “muito padeceu nas mãos de muitos médicos e nada lhe aproveitou; antes, pelo contrário, foi piorando” — e assegure aos sofredores que Jesus é capaz de fazê-los completamente sãos.
Grande como é o dano de negligenciar a pregação da lei de Deus, maior ainda é o de negligenciar a pregação do Evangelho na sua plenitude e poder. Muitos ouvem a vida inteira o que se chama pregação evangélica sem formar uma ideia distinta do que o Evangelho se propõe fazer por eles nesta vida. Anos atrás passamos por uma região montanhosa da Pensilvânia onde a terra se comprava por dez dólares o acre. Depois, aquela mesma terra foi vendida por mais de mil dólares o acre. O que fez a diferença? A terra continuou áspera como sempre; mas os homens cavaram poços de trezentos metros, e “a rocha lhes derramava rios de azeite” (Jó 29.6). Assim este Evangelho que exige tanta abnegação dos que o abraçam, e parece tão pouco atraente à superfície, provará ser, quando você descobrir tudo o que há nele, o tesouro escondido no campo, “que um homem achou e escondeu; e, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo” (Mt 13.44).
“Faça-se ao largo, e lancem as redes para pescar.” (Lc 5.4)
Se, quando o filho pródigo caía em si, alguém lhe tivesse sido enviado da parte do pai, convidando-o a voltar, a coisa principal a influenciá-lo teria sido a mensagem. Contudo, enquanto ele estivesse indeciso, o caráter do mensageiro — e o zelo, ou a indiferença, com que entregasse a mensagem — poderia inclinar a balança.
Na pregação, o principal é o conteúdo e o estado religioso de quem o entrega. Mas a maneira de apresentar a verdade tem muito a ver com a sua aceitação ou rejeição. As mesmas coisas ditas por Whitefield e por outro homem qualquer afetariam de modo muito diferente uma congregação que não conhecesse a nenhum dos dois.
A pregação deve ser simples. O povo nunca deve ficar sem saber aonde o pregador quer chegar. As suas declarações devem ser claras: concorde ou não a congregação, que ninguém tenha dúvida do que ele quer dizer. Deve usar palavras que ele e os ouvintes entendam. Palavras grandes não fazem um grande sermão — e há pregadores que se tornam ridículos usando palavras cujo sentido desconhecem. Um reitor de faculdade foi pregar numa igreja normalmente atendida por estudantes. Uma senhora idosa, ao fim do culto, expressou-lhe a satisfação de ter conseguido entendê-lo: “Os estudantes usam palavras que não entendo. O senhor é tão erudito que pensei que não entenderia nada; mas entendi cada palavra.” O reitor respondeu: “Um dos objetivos da educação é capacitar-nos a tornar as coisas mais claras.” E dizia o arcebispo Leighton ao seu clero: “Quanta erudição, meus irmãos, é necessária para tornar as coisas simples!”
Macaulay foi um dos homens mais eruditos e dos críticos mais agudos do seu tempo. Diz ele que, na Inglaterra da segunda metade do século XVII, houve apenas duas grandes mentes criadoras: uma produziu o Paraíso Perdido; a outra, O Peregrino. Da obra do “funileiro iletrado” escreve: “O estilo de Bunyan é delicioso para todo leitor e inestimável como estudo para quem deseja obter amplo domínio da língua inglesa. O vocabulário é o vocabulário do povo comum. Não há uma expressão, excetuados alguns termos técnicos de teologia, que confundisse o mais rude camponês. Observamos várias páginas que não contêm uma única palavra de mais de duas sílabas. E, no entanto, nenhum escritor disse com mais exatidão o que queria dizer. Para a magnificência, para o patos, para a exortação veemente, para a disquisição sutil, para todo propósito do poeta, do orador e do teólogo, esse dialeto caseiro — o dialeto dos trabalhadores simples — foi perfeitamente suficiente.”
Use não só palavras simples: torne claro o seu sentido por ilustrações. Nisto, siga o exemplo de Cristo. Ele raramente apresentou a verdade em abstrato: deu-lhe um corpo que os homens pudessem ver e apanhar. Tome o Sermão do Monte: nem as proposições principais são afirmações sobre virtudes em particular — são sobre seres humanos em quem essas virtudes se encontram. Ele não diz “bem-aventurada é a pobreza de espírito”, mas “bem-aventurados os humildes de espírito”. Não diz “a verdade é conservadora”, mas, dos que a recebem e vivem: “Vocês são o sal da terra.” Os seus discursos mais curtos abundam em ilustrações.
Poucos conseguem prender a atenção de uma congregação com meras declarações da verdade; mas ilustrações oportunas despertam a atenção e fixam-se na memória. Para obtê-las, ande de olhos abertos. Quando vir algo que o interesse, pergunte-se: que verdade isto explica? Que aplicação posso fazer disto em benefício dos outros? Assim, aonde quer que vá, você poderá, se for devoto e ativo, recolher o melhor material para sermões — tanto mais forte por ser original. Ilustrações de segunda mão perdem muito da força.
A história, sagrada e profana, fornece ilustrações eloquentes da verdade de Deus. “Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritas como advertência para nós, para quem o fim dos tempos chegou” (1Co 10.11). A natureza de Deus não mudou: ele está tão disposto a recompensar a obediência e punir a desobediência como nos dias de Josué e Acã — apenas não o faz do mesmo modo. Estude, pois, a história sagrada, não apenas para conhecer os fatos, mas para aprender os princípios que os sustentam. Se quiser ensinar a verdade religiosa por referência às obras da natureza, seja fiel à natureza; se aludir a alguma arte ou ofício, esmere-se na exatidão; cite os seus textos de prova com precisão.
Mas um dos modos mais eficazes de ilustrar a verdade é a partir da sua própria experiência. Sei que isso quase saiu de moda — não porque tenhamos tanta humildade, mas porque temos tão pouca experiência. “Pois a boca fala do que está cheio o coração” (Mt 12.34). Isso vale para pregadores como para os demais. Se a nossa alma está cheia de alegria e paz, não podemos deixar de falar disso. Falamos da grandeza do amor divino “porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Em todos os outros assuntos, os homens falam do que sentem profundamente, sobretudo quando pode beneficiar os outros; por que não nos assuntos religiosos?
A pregação deveria, muito mais do que faz, tomar a forma de testemunho. “Vocês são as minhas testemunhas” (Is 44.8). Nem os profetas nem os apóstolos se envergonharam de testemunhar da própria experiência da graça divina ao recomendá-la aos outros. Diz o salmista: “Venham e ouçam, todos vocês que temem a Deus, e eu lhes contarei o que ele tem feito por minha alma” (Sl 66.16). Pedro e João: “Pois não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (At 4.20). Quando Paulo quer urgir a necessidade de morrer para o mundo, diz: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gl 2.19-20). Referências assim não só ilustram a verdade: levam-na com poder ao coração dos ouvintes.
Trabalhando na salvação de almas, você reunirá, se for observador, um acervo de fatos da experiência alheia que poderá usar com proveito — mas lembre-se de que as pessoas são extremamente sensíveis ao que se diz delas em público. Não faça ataques pessoais a ninguém, nem no púlpito, nem no altar. Jamais fale de alguém de modo calculado a expô-lo ao desprezo.
A pregação, para fazer bem, deve ser em estilo simples e sem afetação. Sermão não é oração acadêmica nem ensaio; vem do latim sermo: conversa, fala. Se você está no ministério apenas como profissão, não conseguirá ser simples, porque é um intruso: cairá na declamação, na leitura de ensaios ou — pior — numa simplicidade afetada. Mas, se está em fervor e ama as almas do povo, não deixará de falar de modo a ser entendido. Diz Lutero: “Quando estou no púlpito, considero quem são os meus ouvintes; e, porque a maior parte é gente simples e sem letras, prego o que penso que podem entender. Nisso ajo como a mãe bondosa que dá o peito ao filhinho faminto, alimentando-o com o próprio leite, e julgando isso melhor para a sua nutrição do que os xaropes mais doces e escolhidos da arte.” Usar de propósito “palavras altissonantes” para exibir erudição revela claramente a vaidade de um coração não santificado. E Wesley: “Destino verdade simples a gente simples; portanto, de propósito me abstenho de todas as especulações finas e filosóficas, de todos os raciocínios intrincados e, tanto quanto possível, até da aparência de erudição. Esforço-me por evitar todas as palavras que não sejam fáceis de entender, todas as que não se usam na vida comum.”
A pregação deve dirigir-se à consciência. A verdade pode ser claramente exposta; fatos e argumentos, apresentados; as Escrituras, explicadas — tudo isso é certo e próprio. Mas o pregador não deve parar aí. Por mais convencido que fique o entendimento, por mais comovidos os afetos, se além disso a consciência não for despertada, os ouvintes permanecerão como estavam. Quando os escribas e fariseus vieram apanhar o Salvador com uma questão da lei, ele, em poucas palavras, aplicou-lhes a lei de tal modo que, “ouvindo isto, foram saindo um por um, a começar pelos mais velhos” (Jo 8.9). Não houve dureza no que ele disse; não fez acusações — mas a flecha acertou o alvo. Paulo pregava do mesmo modo: “pela manifestação da verdade, nós nos recomendamos à consciência de todas as pessoas, diante de Deus” (2Co 4.2).
Todos os homens têm senso moral: distinguem o certo do errado. É principalmente isso que distingue o homem do bruto; é o poder mais alto que há no homem. Com a aprovação dessa faculdade nobilitante, suportamos privação, angústia e opróbrio, e triunfamos sobre tudo. Agindo contra a sua voz mansa e delicada, os mais ousados se tornam fracos e irresolutos. “Assim a consciência faz covardes de todos nós.”
Digam de você o que disserem os seus ouvintes, obrigue-os a dizer na honestidade do coração — ainda que os lábios declarem o contrário: “Aquele homem está certo.” Por mais que vocês divirjam nalguns pontos, há grandes verdades fundamentais em que concordam. Comece por aí. Toda demonstração de geometria começa com um axioma ou com uma proposição já provada; é a ordem natural. Se, porém, a primeira coisa que você faz é atacar os preconceitos do povo, você o põe imediatamente na defensiva: ou o abandonam, ou se põem a aparar os seus golpes. Será pobre consolação, na derrota, dizer: “Eles não suportam a verdade.” Aí é que se mostra a sua falta de perícia. O médico desiste do paciente porque ele não tolera pão e carne? A mãe deixa o bebê morrer de fome porque ele rejeita o leite mais rico? Assim, se o povo a quem você se dirige não suporta as verdades mais claras do Evangelho, há verdades religiosas em que ele crê: descubra quais são, e mostre-lhe a sua maldade em não viver à altura delas. Uma vez despertada a consciência adormecida, será comparativamente fácil conduzi-lo a toda a verdade. Foi o que fez Paulo com os atenienses idólatras: não pareceu atacar as suas superstições, mas pregou-lhes o Deus do céu como o seu “Deus desconhecido” (At 17.22-23). O carpinteiro não faz concessão quando põe na madeira resistente a ponta afiada do prego; se você tentar cravar o prego pela cabeça, não se queixe da madeira, ainda que machuque os dedos. “A verdade divina”, diz Andrew Fuller, “é como a bala encadeada: introduza um elo na alma, e ele arrasta todos os outros atrás de si.”
Os sentimentos podem ser profundamente comovidos por apelos patéticos; mas, se a consciência não for alcançada, nenhum bem permanente se efetuará. Um ministro pregou sobre a morte e os sofrimentos de Cristo. Homem de imaginação viva e profunda sensibilidade, pintou tão vividamente os sofrimentos de Cristo que o povo quase o via na cruz diante dos olhos. O pregador chorou de emoção; o povo chorou com ele. À saída da igreja, uma jovem elegante, os olhos nadando em lágrimas, tomou-lhe a mão e disse: “Oh, nunca me deleitei tanto na vida — nem mesmo num teatro!” Ele pregara à imaginação dela; ela pregou à consciência dele. Um ator no púlpito pode comover o povo como um ator no palco: pode encher a casa de admiradores — mas apenas os leva consigo para o inferno. A tendência de todo sermão deve ser fazer o povo odiar os próprios pecados e abandoná-los.
A pregação deve despertar a consciência com advertências frequentes das consequências terríveis de uma vida de pecado. Quando Paulo “dissertava sobre a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro, Félix ficou amedrontado” (At 24.25). O apóstolo nos assegura que era assim que pregava a Cristo: “o qual nós anunciamos, advertindo a todos e ensinando a todos, em toda a sabedoria” (Cl 1.28). Mas advertir é zombaria, se não há perigo. Se todo homem deve ser advertido, então todo homem está em perigo. Foi aos mais notáveis professos de piedade do seu tempo que João Batista bradou: “Raça de víboras, quem lhes ensinou a fugir da ira vindoura?” (Mt 3.7). Baseavam a confiança em serem filhos de Abraão — membros da igreja verdadeira, como tantos hoje —, mas ele lhes assegurou que isso não os salvaria: “O machado já está posto à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.10).
O Sermão do Monte do nosso Senhor abre com bênçãos, mas abunda em advertências. E somos por demais propensos a esquecer que foi aos seus próprios discípulos que o sermão foi pregado. Foi aos ouvidos dos seus amados seguidores que se proferiram estas advertências temíveis: “Se o seu olho direito faz você tropeçar, arranque-o e jogue-o fora; pois é melhor perder um dos membros do seu corpo do que o corpo inteiro ser lançado no inferno” (Mt 5.29). Estão os homens hoje em menos perigo do que então? Será porque os cristãos de hoje estão tão livres de tentação que tão raramente se ouvem do púlpito palavras de advertência solene? É porque covardes e acomodados somos demais nós, ministros, que as consciências do povo são embaladas no sono, e muitos avançam falando confiantes de ir para o Céu enquanto vivem segundo a carne — embora a Bíblia diga claramente que “os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus” (Gl 5.21).
A grande carência da igreja hoje são membros tementes a Deus e de consciência sensível. Mas eles serão ainda mais raros, se não houver reforma na pregação. O senso moral dos homens precisa ser despertado até tornar-se dolorosamente sensível ao menor desvio do que é reto — e o ministro deve dar o exemplo, podendo dizer com Paulo: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas na graça de Deus, temos vivido no mundo” (2Co 1.12).
Se quer que a sua pregação faça o máximo bem, seja afetuoso e fervoroso na maneira. Que não haja aparência de bronca: as reprovações mais agudas devem ser dadas em espírito bondoso. O dr. Redfield costumava dizer: “Nunca tome a espada nas próprias mãos.” Que o povo veja que a controvérsia não é entre você e ele, mas entre ele e Deus. Que os seus tons de voz, como as suas palavras, sejam os de quem sente bondade para com todos. Quando tentado a dizer algo duro, não só resista à tentação: use a linguagem mais afetuosa que a propriedade permitir. Não é a marreta, mas o sol, que amolece o chão gelado para receber o arado.
Desde o comecinho do culto, aja como quem está inteiramente em fervor. Não suba ao púlpito com ar indiferente e desleixado, como quem tem uma tarefa desagradável a cumprir e cujo principal estudo é despachá-la com o menor gasto possível de força. Não se poupe: lance a alma inteira na obra. Se quer que os ouvintes despertem para o fervor, você precisa estar em fervor — fogo se acende com fogo. Quem parece indiferente não pode acender entusiasmo nos outros. Se o povo dorme sob os seus apelos, é porque você mesmo não está acordado. Mas voz alta e gesticulação constante não transmitem, necessariamente, a impressão de fervor: o fervor pode ser fingido — e, onde o for, terá cara de coisa postiça. O melhor modo de parecer fervoroso é ser fervoroso e sincero. Nos seus tons mais baixos deve haver um ardor que só o Espírito Santo pode inspirar; este, ainda que desacompanhado das graças do treino acadêmico, abrirá caminho até o coração, quando todas as palavras estudadas da oratória caírem desatendidas sobre ouvidos admirados. O andar diário, a conversa, o vestir — tudo num ministro do Evangelho deve mostrar que ele está em fervor para chegar ao Céu e levar consigo quantos puder.
Diz Spurgeon: “Já leu um sermão de Whitefield? Você não o achará eloquente — não pode achá-lo. As expressões eram ásperas, muitas vezes toscas e desconexas. Onde estava, então, a sua eloquência? Não nas palavras que se leem, mas no tom em que as proferia, nas lágrimas que lhe corriam pelas faces, no derramar-se da sua alma. Era eloquente porque falava direto do coração — das profundezas mais íntimas do homem. Quando falava, via-se que queria dizer o que dizia. […] Quando você o ouvia pregar, não podia deixar de sentir que era um homem que morreria se não pudesse pregar. Ora, é justamente isso que falta a estes tempos. Onde, onde está agora o fervor? Nem no púlpito, nem no banco, na medida em que o desejamos; e é uma era triste, muito triste, esta em que se zomba do fervor, e em que o próprio zelo que deveria ser a característica proeminente do púlpito é tido por entusiasmo e fanatismo. Peço a Deus que nos faça a todos fanáticos assim.”
A pregação deve ser persuasiva. Se você não pode persuadir os homens a renunciar ao pecado e servir a Deus, muito menos poderá empurrá-los a isso. Diz Paulo: “Conhecendo o temor do Senhor, persuadimos as pessoas” (2Co 5.11). Persuadir — não tanger. Quantas vezes ele usa palavras como “rogar”, “suplicar”! Cultivemos esse espírito e esse estilo. Não serve de nada irritar-se com as pessoas porque não são salvas tão pronta e plenamente como deveriam. Que os homens não se submetam a Deus não é razão para nos endurecermos ou esfriarmos para com eles. Demos-lhes convite sobre convite, regra sobre regra, preceito sobre preceito.
O pregador deve manter-se fora de vista. O egotismo, ofensivo em toda parte, é mil vezes mais ofensivo no púlpito. (Não é egotismo, porém, contar com humildade e confiança o que Deus fez pela sua alma, a fim de atrair outros a ele para a mesma obra graciosa.) Não faça esforços de exibição. Se tem erudição, use-a para simplificar de tal modo a linguagem que todos o entendam. Se tem talentos, use-os para tornar a cruz de Cristo mais claramente visível aos ouvintes. Um cavalheiro letrado saiu da cidade para divertir-se pescando nos riachos da Escócia. Tinha uma vara patenteada e o equipamento mais aprovado e caro. Depois de horas pescando sem uma mordida sequer, embora visse que havia peixe em abundância, encontrou um menino do campo com uma varinha, um barbante e um alfinete torto por anzol — e uma longa fieira de peixes. Perguntou-lhe por que ele próprio nada apanhava. O menino, que o observava havia tempo, respondeu: “O senhor precisa ficar fora da vista.” É esse o segredo da pesca de homens, como da de trutas. Repetimos com ênfase: mantenha-se fora de vista. Levante a cruz. Pregue a Palavra. Mostre Cristo ao povo. Mande-o para casa falando dele, e não elogiando você.
Não pregue tempo demais. Por mais piedade que você tenha, por mais sãs que sejam as suas doutrinas, você cansará o povo com sermões longos. Paulo, num lugar onde só podia ficar pouco tempo, prolongou o discurso, na última noite, até a meia-noite — e mesmo esse longo sermão teve consequências fatais: o jovem Êutico, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar e foi levantado morto (At 20.9). Desde então, muitos têm sido mortos, espiritualmente, por “pregações longas” — e Paulo ressuscitou o rapaz, mas esses pregadores compridos geralmente deixam o povo morto. Não é necessário pôr todo o corpo da divindade, começando na queda e terminando na ressurreição, num único sermão. O povo pode ouvi-lo de novo. Em regra, sermões longos derrotam o objetivo do sermão, que é levar as almas para mais perto de Deus: deixam sensação de cansaço em vez de encorajamento. Metade de um sermão muitas vezes destrói o bem que a outra metade poderia fazer. A prancha que sustenta o náufrago, dobrada de peso, o leva ao fundo, se ele se agarrar a ela. A arma com carga excessiva fere quem atira. Quando você já não conseguir manter a atenção do auditório, pare. Ou, se vir que há almas despertadas a ponto de se comprometerem a buscar o Senhor — ou a plena salvação —, interrompa imediatamente e leve-as a agir. Quando a rede está cheia de peixes, tenha-se completado ou não o circuito planejado, puxe-a para a terra. Melhor estragar cem sermões do que perder uma alma.
“Ele os levará com anzóis, e o resto de vocês com arpões.” (Am 4.2)
Para pescar com anzol, é preciso ter bom gênio. À menor manifestação de impaciência, os peixes se vão. O anzol deve, pelo menos, parecer iscado: os peixes não estão muito alto na escala dos seres, mas não mordem o anzol nu.
Mesmo entre os mais ignorantes há muito discernimento. Uma criança, cercada de estranhos, escolhe por instinto, para amigo, aquele que ama crianças. Cuidamos de quem cuida de nós. Se você quer beneficiar o povo, precisa ter amor sincero pelas suas almas. “Não busco os bens de vocês, mas vocês mesmos” (2Co 12.14). Devemos, em toda a nossa conduta, deixar o povo ver que não é o seu dinheiro nem o seu louvor que desejamos, mas a salvação da sua alma. Isso deve transparecer em todas as nossas ações. As nossas repreensões mais agudas devem ser administradas no mais terno amor: “Não repreenda um homem idoso, mas exorte-o como a pai; aos moços, como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2). Pessoas de bom senso, mesmo destituídas de graça, geralmente recebem a reprovação administrada dessa maneira por alguém que as ama. O ferro mais duro, devidamente aquecido, molda-se facilmente ao martelo: que o sopro quente do afeto vá adiante dos seus golpes. Esteja pronto a qualquer sacrifício que o bem-estar espiritual do seu povo exigir; nunca deixe que o seu conforto ou o seu prazer o afastem de dever algum que você lhe deva.
Dificilmente fracassará o ministério de quem pode dizer ao seu povo o que o apóstolo disse: “Vocês e Deus são testemunhas do modo santo, justo e irrepreensível com que nos comportamos diante de vocês, que creem. E vocês sabem que tratamos cada um de vocês como um pai trata os seus filhos, exortando, consolando e admoestando, para viverem de modo digno de Deus, que os chama para o seu Reino e glória” (1Ts 2.10-12). Esse amor o guardará de tudo o que é áspero, duro ou arrogante; o fará paciente com as faltas dos que estão sob o seu cuidado e perseverante nos esforços para corrigi-las. “Antes, nos tornamos amáveis entre vocês, como a mãe que acaricia os próprios filhos; sentindo tanta afeição por vocês, tínhamos prazer em oferecer, não somente o evangelho de Deus, mas até a nossa própria vida, por vocês terem se tornado muito amados nossos” (1Ts 2.7-8).
Se alguns se desviarem, você não os abandonará com rótulos e desdém; sentirá que têm uma alma a salvar, irá atrás deles e, com as mais fervorosas súplicas, buscará trazê-los de volta a Cristo. Diz Bunyan: “Se alguns dos despertados pelo meu ministério depois retrocederam (e às vezes muitos retrocederam), posso dizer com verdade que a perda deles me pesou mais do que se os meus próprios filhos, gerados do meu próprio corpo, estivessem descendo à sepultura. […] O meu coração esteve tão envolvido na glória desta obra excelente, que me contei mais abençoado e honrado por Deus com ela do que se ele me tivesse feito imperador do mundo cristão ou senhor de toda a glória da terra sem ela.”
Se você tem esse amor pelo seu povo, ele o impelirá ao trato fiel com as suas almas. Para beneficiá-lo, você estará pronto, se necessário, a perder por algum tempo a sua boa vontade — sacrifício que os homens de Deus são chamados a fazer com frequência. Já os enganadores, que por interesse próprio fingem grande amor, terão o máximo cuidado de nada dizer, por mais necessário, que possa ofender. Como diz Cecil: “O amor de alguns homens é todo leite e brandura. Há tanta delicadeza e tanto melindre! Tocam com tal suavidade que, se o paciente se encolhe, não tocam mais. Os tempos são graves demais para tal disposição. […] Mas São Paulo uniu e fundiu o amor e o zelo. O zelo sozinho poderia degenerar em ferocidade; e o amor sozinho, em melindre; o apóstolo combinou as duas qualidades num feliz meio-termo.”
O amor não consiste na crença cega de que todos os que professam ser cristãos o são de fato. Não podemos crer nisso e crer na Bíblia. E, no entanto, é essa a ideia popular. Que um ministro cheio do Espírito de Cristo, com a máxima ternura, advirta os professos que não produzem os frutos do Espírito de que estão a caminho do inferno, e logo se espalha que lhe falta caridade. Mas podemos amar uma pessoa e não adverti-la de um perigo terrível a que sabemos que está exposta? Se você visse alguém tomando a estrada errada, o amor o levaria a dizer-lhe que vai na direção certa? Se visse um amigo nos primeiros estágios do cólera, iria, por amor, encorajá-lo a pensar que não é nada sério, até ser tarde demais para os remédios? Não é amor o que permite que os que estão sob a nossa influência sigam enganados, confiantes na sua salvação, quando, tão certo como Deus é verdadeiro, estão “no caminho largo que leva à perdição”. O amor impele aos esforços mais enérgicos para abrir-lhes os olhos antes que a corrida termine.
Mas, se é o amor que nos inspira quando falamos aos homens do perigo tremendo que os aguarda se não se arrependerem, tudo será feito em espírito de verdadeira compaixão; nada haverá que pareça satisfação em ver executada a sentença. Disse um ministro a McCheyne: “Preguei ontem sobre o castigo eterno.” “Espero”, respondeu o homem de Deus, “que tenha conseguido fazê-lo com grande ternura.”
O amor nos dará poder sobre os espíritos turbulentos. O primeiro acampamento que realizamos em Illinois foi perto da cidade de Aurora. Na abertura, alguns amigos queriam organizar uma força policial para manter a ordem. Dissemos-lhes que, se não nomeassem polícia até que a pedíssemos, nós nos responsabilizaríamos pela ordem. Concordaram. Fomos ao bosque e pleiteamos com o Senhor um batismo de amor pelos arruaceiros. Sentimos que a oração foi respondida. Foi uma reunião maravilhosa; não houve ocasião para polícia, e todas as noites a multidão deixava o terreno tão quieta como se tivesse ido a uma igreja. E o Rev. G. H. Humphrey, quando pastor da Primeira Igreja Presbiteriana de South Pittsburg, visitou todos os bares daquela parte da cidade e conversou francamente com os proprietários sobre o caráter do seu negócio e o perigo eterno a que se expunham — e convidou-os pessoalmente para um sermão que ia pregar aos donos de bares. O sermão foi fiel; mas ele mostrara tal interesse pelo bem deles, que todos o receberam com bondade.
Não que os homens não possam resistir a quem tem o amor mais puro: Cristo era o amor encarnado, e o povo clamou pelo seu sangue.
Por mais desinteressados que sejam os seus motivos e a sua conduta, quem trabalha pelo bem dos outros esperando gratidão pelos seus sacrifícios ficará amargamente desapontado. Onde merecia agradecimento, receberá às vezes censura. Mas o amor lhe dará paciência para suportar tudo sem queixa e perseverar até o fim. Ele “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Co 13.7). Sem uma medida incomum dessa graça, você se cansará de ser caluniado e perseguido — muitas vezes por aqueles por quem mais fez — e desistirá em desespero. Mas, inspirado pelo amor divino, poderá dizer: “Eu de boa vontade me gastarei e me deixarei gastar em favor de vocês. Se eu os amo cada vez mais, serei menos amado?” (2Co 12.15). Quem não espera retribuição daqueles a quem serve por amor de Cristo não se decepciona quando ela não vem.
Talvez nenhum homem tenha feito maiores sacrifícios pelos outros do que Moisés. Era filho adotivo da filha de um dos mais poderosos reis da terra, e “foi educado em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em palavras e obras” (At 7.22). Josefo diz que, já adulto, foi feito general do exército egípcio, que conduziu a batalha vitoriosa contra os etíopes. E, contudo, tal era a sua fé em Deus e o seu amor pelo seu povo, que, para conduzi-lo à liberdade, renunciou a todas essas honras. E aqueles a quem veio servir o receberam? Na primeira tentativa de libertá-los foi traído e obrigado a fugir para salvar a vida, e habitou quarenta anos na obscuridade. Por fim tirou-os da sua dura servidão; mas, à menor dificuldade, voltavam-se contra ele, murmurando: “Será que não havia sepulturas no Egito, para você nos tirar de lá e nos trazer para morrermos neste deserto?” (Êx 14.11). Como suportou Moisés tal tratamento? Exatamente como suportará todo ministro do Evangelho que ama as almas do povo: com serenidade e com esforços incansáveis pela sua salvação. E, quando a paciência do Deus longânimo parecia esgotada, Moisés lançou-se na brecha e clamou: “Ah! Este povo cometeu grande pecado, fazendo para si deuses de ouro. Agora, peço-te, perdoa o pecado deles; ou, se não, risca-me, peço-te, do livro que escreveste” (Êx 32.31-32). A paciência de Jó é proverbial; mas pensamos que a paciência de Moisés foi maior.
Se você empreender conduzir uma colônia ao Céu, terá provações semelhantes às de Moisés. Parecerá, às vezes, que todo o bem que você faz é servir de bode expiatório, carregando a culpa das faltas alheias. Isso é parte do serviço em que você está empenhado — tão necessária quanto qualquer outra. Suporte com paciência, e não se condene, a menos que Deus o condene. “Porque isto é graça: que alguém suporte tristezas, sofrendo injustamente, por motivo de sua consciência para com Deus. […] Se vocês fazem o bem e são afligidos por isso, suportando com paciência, isso é motivo de louvor diante de Deus. Pois é para isso mesmo que vocês foram chamados” (1Pe 2.19-21). Quando essas provas vierem, não se agite nem tente fugir. Fique firme. No fogo mais quente, diga com o poeta: “O calor da fornalha da dor estremece dentro de mim; o sopro de Deus atiça a chama; e todo o meu coração treme em angústia diante do brilho ardente. E, contudo, eu sussurro: como Deus quiser! — e no seu fogo mais quente fico quieto.”
Ser-lhe-á impossível alcançar êxito sem despertar em outros um espírito de inveja. “Moisés era um homem muito humilde, mais humilde do que todos os que havia sobre a terra” (Nm 12.3) — e, contudo, o próprio irmão e a própria irmã falaram contra ele. Nunca homem algum usou a autoridade com maior modéstia; mas “duzentos e cinquenta príncipes da congregação, membros do conselho, homens de renome” conspiraram contra ele (Nm 16.2). Você terá tudo contra si; mas, se se conservar no amor de Deus, ele o levará até o fim.
Amar o povo, porém, não obriga a ter comunhão com todos como cristãos só porque pertencem à igreja. Muitos parecem pensar que amor cristão e comunhão andam necessariamente juntos; alguns que professam grande caridade não hesitarão em declará-lo sem amor, se você não receber de coração na sua comunhão todos os que estão em boa situação nas igrejas evangélicas. Essa acusação parte do pressuposto de que falta de comunhão é falta de amor — pressuposto falso e perigoso. O amor depende da nossa própria condição religiosa; a comunhão leva em conta a condição do outro. Podemos ter amor por alguém — desejo real de promover o seu bem — seja qual for o seu estado. Mas não podemos, no coração, ter comunhão cristã com quem nos dá boas razões para crer que não é cristão. “Pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.16). Se, quando alguém vive em violação clara de mandamentos claros de Deus, ainda assim, por medo do opróbrio ou por não querer perder a sua amizade, lhe damos a nossa comunhão e agimos como se o julgássemos a caminho do Céu, enganamo-nos a nós mesmos e a ele — e isso não é amor, é egoísmo. Um inimigo declarado não poderia fazer-lhe o mal que assim lhe fazemos: estamos ajudando-o num autoengano que provavelmente será fatal aos seus interesses eternos. O amor, em tais circunstâncias, impele não só a recusar a comunhão, mas a dar advertência fiel. Por isso se diz dos verdadeiros servos de Deus que têm mau espírito, que são censores e caçadores de faltas. Em toda era, Acabe — que vive no esplendor, mantém a forma da religião, é liberal nas opiniões e tolerante nas práticas — diz a Elias, que não se acomoda para agradar ao rei: “É você, perturbador de Israel?” O mandamento, porém, é explícito: “E não sejam cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, denunciem-nas” (Ef 5.11). As trevas sempre pedem para serem reconhecidas como luz. O erro é muito amigável, se lhe permitem passar por verdade sem contestação. Os maus estão dispostos a dar aos bons o seu patrocínio e apoio, se puderem ter em troca a sua comunhão. Mas o dever é claro: não há comunhão entre a luz e as trevas. E o nosso dever neste ponto não muda pelo número dos que escolhem as trevas: devemos permanecer fiéis a Deus, ainda que permaneçamos sozinhos. A verdade sofre com esse espírito complacente dos seus devotos: se os que têm a luz andassem como filhos da luz, a luz se espalharia.
Não há sacrifício que não possamos fazer com alegria, se estamos cheios do amor de Cristo. Nenhum outro motivo de ação humana é tão forte e tão sustentador. O mundo terá de ceder diante daqueles que podem dizer de coração: “O amor de Cristo nos constrange” (2Co 5.14). Por mais vezes que sejam derrotados, triunfarão no fim. O amor de Cristo pode levar alguém a pregar o Evangelho sem salário, sem igreja que o apoie, em face da perseguição e da morte. Levou Paulo — que, tão logo levantava uma comunidade que o amava, deixava-a para levar o Evangelho a outro lugar. Onde encontrar expressão de devoção maior do que nas suas palavras de despedida à igreja de Éfeso? “Agora, constrangido pelo Espírito, vou para Jerusalém, sem saber o que ali me acontecerá, a não ser que o Espírito Santo, de cidade em cidade, me assegura que me esperam prisões e tribulações. Porém em nada considero a vida preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (At 20.22-24).
Há hoje quem tenha o mesmo espírito de devoção. Se chamados ao ministério, nenhuma autoridade de igreja ou de Estado os intimidará a pregar o evangelho da conveniência, nem a fome os fará calar. Os ditames da prudência mundana são vencidos por um amor a Cristo que tudo conquista. Em 1660, John Bunyan foi mandado à cadeia de Bedford por pregar o Evangelho. Era pobre; tinha esposa e quatro filhos pequenos a quem amava ternamente. Ali ficou, numa prisão imunda, doze anos, por amor de Cristo. À oferta de liberdade sob a condição de não pregar, deu esta nobre resposta: “Estou resolvido a ficar aqui até o musgo crescer sobre as minhas sobrancelhas, antes que consentir em não pregar o glorioso Evangelho do meu bendito Salvador.”
É esse o afeto que deve animar todo aquele que trabalha por almas. Então nenhuma dificuldade ou perigo o intimidará. Quem pode morrer por Cristo pode trabalhar por ele em qualquer esfera, por humilde que seja, com qualquer côngrua, por pequena que seja. Disse alguém que, saído de família nobre, foi pregar o Evangelho aos pagãos, dependendo para viver só do que o povo entre o qual trabalhava quisesse dar-lhe: “Nada tenho a acrescentar, senão que aqueles que saem para trabalhar pela salvação dos idólatras recebem do alto tais consolações que, se há na terra tal coisa como felicidade, ela é deles.”
“Isto fazendo, apanharam grande quantidade de peixes.” (Lc 5.6)
A batalha de Winchester, na nossa guerra civil, foi duramente disputada. As forças da União compunham-se de veteranos provados, conduzidos por oficiais valentes; mas, após horas de combate pesado, cederam. O seu general, que não esperava batalha tão cedo, estava a trinta quilômetros de distância. O rugir dos canhões anunciou-lhe o conflito. Esporeou o seu nobre cavalo e, em pouco mais de uma hora, coberto de poeira, o corcel negro branco de espuma, encontrou as suas tropas em retirada. Agitando a espada e bradando o grito de guerra, renovou o combate — e os vencidos ganharam vitória decisiva. Ele não trouxe reforço algum além de si mesmo; os mesmos homens que haviam lutado antes é que lutaram de novo; mas a confiança deles no seu general transformou a derrota em vitória.
Em todos os campos da vida, quem trabalha com resolução trabalha com esperança. Isso é especialmente verdadeiro na causa de Cristo. Os inimigos são visíveis; estão à mão; avultam à distância; entrincheiram-se em fortificações construídas com perícia consumada; armam emboscadas sob abrigos que pareciam prometer sombra e segurança. Quem vai à guerra contra o pecado não deve contar com um desfile de gala. O terreno será disputado palmo a palmo; as vitórias conquistadas terão de ser defendidas com vigilância que nunca se cansa; a batalha que você ganhou com tão duro combate será renovada contra você quando menos esperar; todo artifício conhecido da guerra, honrosa ou desonrosa, será empregado para assegurar a sua derrota final — e, se você não tiver certeza da justiça da sua causa e confiança sem limites no Capitão da sua salvação, você se renderá sem glória.
A verdadeira fé não conhece derrota. Triunfa em cada aparente desastre; dominada, vence; morta, revive; sepultada, ressuscita. As suas ideias de triunfo são muito diferentes das do mundo: ela vê motivo de exultação naquilo que uma religião mundana chamaria fracasso. Que se pensaria hoje de um homem que, correndo uma carreira como a de São Paulo, se declarasse vitorioso em cada batalha? Teria sorte se escapasse de ser trancafiado como louco. Em Damasco, os judeus armaram cilada para matá-lo; em Antioquia, os principais da cidade o expulsaram; em Listra, apedrejaram-no e o deixaram por morto; em Filipos, foi açoitado em público, lançado no cárcere interior e preso no tronco; em Tessalônica, assaltado e despachado de noite; em Corinto, espancado; em Éfeso, a cidade inteira se tumultuou por sua causa; em Jerusalém, mal escapou com vida. Mas leia o resumo que ele faz da própria experiência: “Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre os do meu povo, em perigos entre os gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez” (2Co 11.24-27).
Seria hoje considerada um sucesso uma vida assim? E, contudo, ele exclama, como se tivesse desfrutado prosperidade ininterrupta: “Graças a Deus, que em Cristo sempre nos conduz em triunfo” (2Co 2.14). Não diga que Paulo era um apóstolo inspirado: foi pela fé que ele se sustentou. Nós podemos ter essa fé — e precisamos tê-la, se queremos trabalhar com Cristo. A incredulidade paralisará todas as nossas energias; nos fará desfalecer.
A falta de fé em nós também enfraquecerá os que trabalham conosco. Isso vale especialmente para os ministros. Enquanto Moisés mantinha a mão erguida, Israel prevalecia; quando a deixava cair, prevalecia o inimigo. Um ministro desanimado, por melhor que seja em tudo o mais, fará dano: desalentará onde devia encorajar. Você pode dizer ao povo que siga em frente sem olhar para você — não adiantará. A ordem divina é: “imitem a fé que eles tiveram” (Hb 13.7). Muitos seguirão a sua fé, queira você ou não. Por isso, você precisa ser forte na fé, por eles e por você. “Fortaleçam as mãos cansadas e firmem os joelhos vacilantes. Digam aos desalentados de coração: Sejam fortes, não tenham medo. Eis o Deus de vocês… Ele vem para salvá-los” (Is 35.3-4). Mas de nada adiantará dizer isso aos outros, se você mesmo não crer. As promessas de êxito aos que fazem a obra do Senhor são claríssimas e abundantes. Se você não pode crê-las, não tem por que empreender a obra. Quem nada vê realizado como fruto das suas fadigas esmorece; mas, em vez de ceder ao desânimo, deve apurar a causa do seu insucesso, removê-la e entregar-se com energia e zelo renovados ao trabalho. De Deus — dizemo-lo com reverência — sempre se pode depender para a parte que ele prometeu.
Se você quer fazer com êxito a obra de Deus, precisa não só ser perdoado pela fé e santificado pela fé: precisa também viver pela fé. Se não, morrerá de morte espiritual. “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Creia na Palavra de Deus; apoie-se nela tanto quando promete bênçãos temporais quanto quando promete espirituais. Examine com cuidado se você sustenta o caráter daqueles a quem as promessas são feitas — e, se sustenta, aproprie-se delas com a mesma confiança com que se apropriaria de um maço de notas bancárias que soubesse ser seu. A própria riqueza material deve o seu valor, em grande parte, à fé: quando a confiança se abala, as casas de negócio desmoronam. Quem tem a maior fé em Deus é o homem mais rico. Na maior emergência, na crise mais avassaladora, pode-se contar com Deus. Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes: Deus cuidará do futuro. A ansiedade não nos alivia; todo o nosso planejar não nos livra de desastres — mas Deus pode levar-nos através deles, vitoriosos. Despeçamos os temores e confiemos naquele que diz: “De maneira alguma o deixarei, nunca jamais o abandonarei” (Hb 13.5).
A fé é essencial ao nosso êxito porque não só nos dá coragem, como traz em nosso auxílio o poder do Deus onipotente. Ela é para a alma o que a gravitação é para a terra: mantém-na movendo-se na sua órbita. É o elo que nos une ao poder que nos leva adiante. É uma ordem de saque contra os recursos ilimitados do Todo-Poderoso — que ele jamais deixa de honrar.
Quando alguém é inspirado pelo amor e pela esperança do êxito, e ao mesmo tempo sabe que a obra que faz terá o efeito mais salutar sobre os seus próprios interesses, emprega os melhores esforços de que é capaz. Homem desinteressadíssimo foi Moisés — e, contudo, dele se diz que “contemplava o galardão” (Hb 11.26). E isso se diz não em condenação, mas com aprovação. A longa linhagem dos notáveis que “confessaram que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” aspirava a uma pátria superior, isto é, celestial — e por isso “Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porque lhes preparou uma cidade” (Hb 11.16). Você pode ter pouca paga aqui; o salário pode ser pequeno, as acomodações pobres; como o seu Mestre, pode às vezes não ter onde reclinar a cabeça. Mas a fé em Deus não o deixará parar a olhar essas coisas, “sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança; pois vocês servem a Cristo, o Senhor” (Cl 3.24).
Em geral, dá-se pouquíssima atenção às recompensas que Cristo promete aos seus servos — e essas promessas deveriam ter força tremenda. Prevalece a noção de que, ganho o Céu, tudo está ganho. É um engano. Não se pense que não há distinção entre os que são finalmente salvos: todos são felizes, mas há graus de felicidade. Diz Paulo: “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, e outra a glória das estrelas; porque até uma estrela difere de outra estrela em glória. Assim também é a ressurreição dos mortos” (1Co 15.41-42). Entre a estrela mais pálida e o sol brilhando na sua força há diferença quase inconcebível — tão grande é a diferença entre os salvos. E essa diferença se baseia, não nos credos, nem nas profissões de fé, nem apenas na piedade, mas NAS OBRAS. Os homens são salvos pela fé; a fé em Cristo assegura o perdão de todas as ofensas passadas. Mas, para além de ganhar o Céu, as obras são recompensadas: “Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para dar a cada um segundo as suas obras” (Ap 22.12).
As recompensas que os homens concedem regulam-se pela posição que alguém ocupa. O soldado raso, que marcha com a sua carga pesada por estradas de lama, monta guarda à noite, dorme no chão e expõe a vida no campo de batalha, se sai ileso, é dispensado e esquecido; enquanto o general, que vive no luxo e dá ordens de lugar seguro, é elevado às mais altas posições. Mas no exército de Jesus não é assim. Os homens são recompensados pelo que fazem, não pelos cargos que porventura ocupem; pelos seus atos, não pelas suas profissões; não pelos dons recebidos, mas pela maneira como aproveitam as suas oportunidades. SEGUNDO AS SUAS OBRAS — palavras momentosas! Para que as nossas obras sejam recompensadas, devem partir de motivo reto. Feitas para o eu, terminam no eu. “Ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres… se não tiver amor, nada disso me aproveitará.” Quem constrói um templo para rivalizar com outra denominação não pode reclamar recompensa de Jesus, assim como não pode quem compra um cavalo para correr mais que o vizinho. Ações de igreja não beneficiarão ninguém no Céu mais do que ações de banco. O ministro que prega por salário tem a sua recompensa: não tem mais direito de cobrar de Jesus o pagamento do que o advogado ou o médico. O ministro tem direito ao sustento — isso está prometido: “o Senhor ordenou aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho” (1Co 9.14). Mas os ministros devem pregar para Jesus, e não para congregações, se querem que Jesus lhes pague.
Se queremos que Jesus nos recompense, devemos fazer a obra dele. A todo verdadeiro convertido ele diz: filho, vá trabalhar na minha vinha. Devemos trabalhar de joelhos, em oração fervorosa — há grande escassez desse tipo de trabalho, mas todos podem fazê-lo, e todos são chamados a ele. Devemos ser testemunhas de Jesus: contar o que sabemos do seu poder para salvar. Os que estão nos negócios devem fazer negócios para Deus: só os negócios que lhe agradam, e feitos com honestidade, dando do lucro tudo o que puderem para o bem. Pode-se trabalhar para Deus na lavoura ou na oficina tão bem quanto no púlpito. A obra de Jesus é evangelizar os pobres, não afagar o orgulho dos ricos; salvar os homens dos seus pecados, não encorajá-los a descansar seguros no pecado. “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente” (Jr 48.10) — isto é, superficialmente.
As maiores promessas são feitas aos que ganham almas para Cristo: “Os que forem sábios resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas, para todo o sempre” (Dn 12.3). De mil que labutam por algum objeto de ambição mundana, mal um alcança pleno êxito — e goza o benefício, no máximo, por poucos anos. O príncipe dos mercadores amassou fortuna, ergueu o seu palácio de mármore — e foi levado à estreita casa destinada a todos os viventes. Mas quem pode conceber adequadamente a duração expressa nas breves palavras “para todo o sempre”? Dinastias mudam, nações poderosas decaem, a própria terra e as suas obras podem ser queimadas — mas aquele que, nos poucos anos da sua provação, conduziu muitos à justiça brilhará em esplendor sem eclipse, joia no diadema do seu Deus.
Se você tem fé, ela será provada. Daniel era um homem muito amado do Senhor; as suas orações eram respondidas — e, contudo, a sua fé foi duramente provada às vezes. O livramento celestial não veio de imediato: o mensageiro enviado em seu auxílio disse que as suas palavras tinham sido ouvidas “desde o primeiro dia”, mas que o príncipe do reino da Pérsia lhe resistira vinte e um dias (Dn 10.12-13). Se Satanás pôde assim resistir a Daniel e retardar a resposta às suas orações, pode fazê-lo conosco. Ele interporá obstáculos e estorvará onde não puder derrotar; esgotará a sua paciência, se possível. Dificuldades imprevistas se apresentarão; mas não deixe a sua fé vacilar por causa delas. A fé foi projetada para vencer dificuldades. Deus pode operar diante dos obstáculos mais formidáveis tão bem quanto onde nada parece atravancar o caminho. Persista, e você vencerá. “Para a fé paciente, o prêmio é certo.” Nada é difícil para Deus. Se você tem a promessa da sua Palavra, jamais desespere — nem sequer duvide. As promessas de Deus podem ser lentas no cumprimento, mas são seguras. Um lavrador plantou um grande pomar de pereiras; cresciam bem, ano após ano, mas não davam fruto. Impacientando-se, cortou a maior parte delas, deixando só algumas. Para sua surpresa e mortificação, as que ficaram carregaram-se, logo no ano seguinte, do fruto mais delicioso. Um pouco mais de paciência lhe teria assegurado ampla recompensa por todo o trabalho. Assim é conosco, muitas vezes: desanimamos porque os resultados que antecipamos não aparecem de imediato, e o nosso trabalho se perde por falta de fé perseverante. Agarre-se à promessa de Deus até ver o seu cumprimento — porque a Palavra de Deus não pode falhar.
Se lhe falta fé, a deficiência não é constitucional, como a falta de talento: nasce de causas inteiramente ao seu alcance, e que você pode remediar. Crer é natural ao homem — os maiores incrédulos são muitas vezes extremamente crédulos. Se a incredulidade não fosse culpa, Cristo jamais teria repreendido por ela os seus discípulos: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram!” (Lc 24.25). O problema não estava na constituição mental, mas no coração. A outros ele louva pela fé: do centurião disse: “Nem mesmo em Israel achei fé como esta” (Lc 7.9). E que a incredulidade é voluntária fica acima de dúvida pelo fato de Cristo fazer dela o pecado que condena: “quem não crer será condenado” (Mc 16.16). Todo crente deve ir crescendo na fé (2Ts 1.3). E você não achará difícil crer, se cumprir as condições.
Crer é confiar no que outros declaram. Deus não mente — não são precisos argumentos para prová-lo. Mas muitas das instruções dadas aos que buscam a justificação e a santificação insinuam que a grande dificuldade desses buscadores é não crerem em Deus. A verdadeira dificuldade é outra: eles creem em Deus. Um réu diante do tribunal chorava amargamente. Um espectador, querendo consolá-lo, disse: “Não fique assim; o tribunal lhe fará justiça.” E o réu: “É disso que eu tenho medo!” Assim acontece com muitos que acham tão difícil crer: eles creem que Deus fará exatamente o que diz — e sabem que as suas promessas são condicionais. Quando Deus diz “saiam do meio deles, separem-se, diz o Senhor; não toquem em coisas impuras, e eu os receberei” (2Co 6.17), como pode crer que Deus o recebe alguém que permanece em jugo desigual? Instá-lo a crer nisso é instá-lo a crer numa mentira. O que se requer, em tal caso, é obediência a um mandamento claro de Deus — e então não haverá dificuldade em crer.
Diz Jesus: “Como podem vocês crer, se aceitam glória uns dos outros e não procuram a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). Aqui está a verdadeira dificuldade no caminho da fé: falta de consagração — de consagração total a Deus. A última coisa que os homens geralmente entregam é a sua reputação; agarram-se a ela mesmo quando bens e talentos já estão consagrados. E, contudo, ela deve ser entregue tão plenamente, que não só não busquemos a honra dos homens, mas nem a recebamos. Diz John Wesley: “Todo cristão verdadeiro é desprezado, onde quer que viva, pelos que não o são e sabem que ele o é […]. E, enquanto não for assim desprezado, nenhum homem está em estado de salvação — de sorte que, embora alguém possa ser desprezado sem ser salvo, ninguém pode ser salvo sem ser desprezado.” Quão contrário isso à doutrina hoje ensinada por muitos que se dizem seguidores de John Wesley — para os quais é preciso erguer templos esplêndidos, vestir roupas caras e sufocar toda explosão de emoção religiosa genuína, a fim de assegurar a honra dos homens!
Multidões falham da graça de Deus por crerem que estão aceitas quando não estão. Os seus mestres clamam “paz, paz”, quando Deus não falou paz; são curados superficialmente. Muito do ensino entre gente que se diz evangélica é pura heresia — universalismo disfarçado. Diz-se ao povo que Cristo morreu para salvá-lo e que tudo o que é necessário para ter as alegrias da salvação é crer nisso. O sentimento popular se expressa na estrofe tão cantada: “Nada, grande ou pequeno, me resta por fazer: Jesus morreu e pagou tudo — toda a dívida que devo.” Que um hino tão profundamente antibíblico alcance popularidade tão vasta é justa causa de alarme para todo amigo de Deus e dos homens. Arrepender-se e restituir é fazer alguma coisa — e coisa muitas vezes extremamente desagradável; e, contudo, tem de ser feita onde houver ocasião (e onde não há?), ou não podemos crer verdadeira e biblicamente.
Vá ao fundo. Arrependa-se no pó diante de Deus. Onde você lesou o próximo na reputação ou nos bens, faça restituição até onde possível. Onde tomou posição errada em relação à obra de Deus, confesse com franqueza. Saia de todas as associações íntimas e voluntárias com os mundanos. Em suma: obedeça honestamente a Deus, e você se espantará de ver quão prontamente desaparecem as suas dificuldades em crer. Enquanto você estiver consciente de desobedecer a Deus em algum ponto, ser-lhe-á impossível chegar-se a ele com confiança: “Se eu tivesse intenção de praticar o mal, o Senhor não me ouviria” (Sl 66.18).
O desânimo geralmente vem de nós mesmos, não das circunstâncias: não consegue lançar raízes num coração são. Você já leu em algum lugar que São Paulo se desanimou? Quando falsamente acusado, e a causa parecia perdida — “na minha primeira defesa, ninguém foi a meu favor; pelo contrário, todos me abandonaram” —, irritou-se ele com a covardia deles? Ele acrescenta: “Que isto não lhes seja imputado. Mas o Senhor esteve ao meu lado e me revestiu de forças. […] O Senhor me livrará também de toda obra maligna e me levará salvo para o seu Reino celestial” (2Tm 4.16-18). Já ouviu dizer que John Wesley se desanimou? Os irmãos se opuseram a ele, a esposa o atormentou, as igrejas se fecharam contra ele, muitas das suas sociedades retrocederam nas suas mãos — mas, diante de tudo, ele prosseguiu calmamente no seu trabalho até o fim.
“Não seja incrédulo, mas creia” (Jo 20.27). Procure em si mesmo a causa da sua falta de fé e, achando-a, remova-a. Assunto de que depende a nossa utilidade na causa de Cristo é assunto importante. Pela sua falta de fé, muitos podem prosseguir no pecado — muitos que você poderia ter sido instrumento de salvar. Mas, acima de tudo, a sua própria salvação é posta em perigo pela incredulidade: à medida que o seu apego a Cristo se afrouxa, a influência sedutora do mundo se insinua, o seu poder e a sua inclinação de resistir diminuem gradualmente — e, antes que você perceba, pode ser arrastado pela corrente da mundanidade que o afogará, por fim, na destruição e perdição.
“Os peixes do mar… tremerão diante da minha presença.” (Ez 38.20)
Nenhum movimento se torna grande e permanente enquanto não se apodera dos sentimentos dos homens. O intelecto pode ser informado e o juízo convencido, e os homens permanecerem passivos e quietos; mas, uma vez despertadas as emoções, segue-se a ação enérgica. Será por não saber que o comércio de bebidas embriagantes é negócio dos mais condenáveis que a maioria do nosso povo o cerca com as sanções da lei? Ou não será antes porque, acostumados a ele desde sempre, permanecem indiferentes? Mas desperte o povo para as suas enormidades, como no estado do Maine, e ele será posto fora da lei junto com os outros grandes crimes contra a humanidade. Será por não estar convencida da verdade do cristianismo que a maioria das pessoas se mostra tão indiferente às suas exigências? Noventa e nove em cada cem estão tão convencidas da verdade da Bíblia quanto de quaisquer outras verdades que as influenciam. Para levá-las a agir, é preciso que a sua consciência adormecida seja despertada e a sua sensibilidade, comovida.
Os homens devem sentir. Deus nos dá sensibilidade para que sintamos. É refinamento falso, ou processo criminoso, aquele pelo qual a sensibilidade fica tão dominada que, em circunstância nenhuma, se manifesta emoção alguma. É preciso um longo processo de endurecimento para levar alguém àquele estado terrível que as Escrituras descrevem como ter “a consciência cauterizada”, insensível. E, se alguma coisa deve comover os nossos sentimentos até o mais fundo, é a religião cristã.
Cada parte da natureza humana que pode ser movida por apelos inteligentes — o juízo, o senso do dever, os temores e as esperanças, os afetos e as simpatias, o amor à felicidade e o pavor do sofrimento, da exposição e da vergonha — todas são convocadas, da maneira mais forte, pelo evangelho de Cristo, para reconduzir os homens errantes à sua lealdade a Deus. Esses apelos deveriam despertar os mais descuidados e derreter os corações mais duros. Mas muitos não só resistem às exigências de Deus e ouvem os seus apelos com indiferença, quando não com desprezo secreto ou aberto, como ainda cobrem de epítetos injuriosos aqueles que agem como quem crê nas verdades tremendas que Deus revelou com tanta clareza.
Para ganhar o Céu, é preciso estar profundamente decidido. Diz o nosso Salvador: “o Reino dos Céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele” (Mt 11.12). O esforço violento é o mais alto grau da seriedade. Os “esforçados” — os que vivem habitualmente decididos — tomam o Reino mediante os empenhos mais estrênuos. Se queremos ganhar o Céu, precisamos, pois, empregar os esforços mais perseverantes e encorajar os outros a fazer o mesmo. Em qualquer departamento em que Cristo nos chame a trabalhar, devemos fazer a nossa obra com fidelidade e, com intensidade crescente de propósito de agradá-lo, avançar até alcançar o nosso lar celestial.
Não importa com que ímpeto o corredor comece a carreira: se desfalece antes de chegar ao fim, não ganha o prêmio. A praga que destrói o trigo às vésperas da colheita dourada não é menos danosa que a geada precoce que queima o broto tenro. O emigrante que, tendo atravessado a salvo os perigos do mar, é carregado à praia para morrer, falha nas suas visões douradas tanto quanto o que expirou na pátria no momento de embarcar. Assim, quem serve a Deus longa e fielmente, mas morre apóstata, perde o Céu tão certamente como se tivesse vivido no pecado todos os seus dias. “Mas, se o justo se desviar da sua justiça e cometer iniquidade, fazendo conforme todas as abominações que o ímpio faz, será que viverá? De todos os atos de justiça que tiver praticado não haverá lembrança; pela infidelidade que cometeu e pelo pecado que praticou, por causa deles morrerá” (Ez 18.24). Não diga que o texto fala do que confia na própria justiça — pois desse quanto antes se desvie da sua justiça espúria, melhor; se a ela se apegar, afundará na ruína.
Quem assim está decidido fará da religião o negócio da sua vida. Como a planta absorve do ar, da terra e da água só o que é essencial ao seu crescimento, deixando passar intactos os elementos nocivos, assim você fará cada ocorrência providencial contribuir para o seu crescimento na graça. Os seus sentimentos podem flutuar, mas a sua vida exterior apresentará ao mundo uma bela uniformidade. Você fará o que é reto em todos os tempos e em todas as circunstâncias — com a retidão inabalável daquele velho romano de quem um inimigo testemunhou que “seria mais fácil desviar o sol do seu curso do que Fabrício do caminho da honestidade”. Pode faltar-lhe o consolo; mas, em vez de negligenciar o quarto de oração, você o visitará mais vezes. As brasas do altar da família podem estar quase apagadas; você porá a lenha com mais cuidado e, com o sopro da oração, as reacenderá em chama.
As suas corrupções podem lutar duramente pelo domínio e, de fato, muitas vezes prevalecer; mas você lutará contra elas com mais vigor e clamará a Deus com mais insistência por socorro. Não está decidido a garantir a sua salvação aquele que, à primeira interrupção dos seus gozos, se torna descuidado e sem oração — e, com o tempo, imoral e ímpio.
Muitos, tão logo perdem o poder da piedade, julgam-se plenamente justificados em abandonar também a sua forma. Grande engano. Se um homem desmaia, cortar-lhe a cabeça não é o melhor modo de reanimá-lo. Se o seu fogo se apaga, você não aquecerá o quarto atirando fora a lenha e despejando água em cima. Assim, se os seus afetos espirituais esmorecem, use incessantemente os meios de graça. Não se dê descanso. Desperte-se para apoderar-se de Deus. “Fortaleça o restante que estava para morrer” (Ap 3.2).
Se você servir a Deus com essa seriedade, por princípio arraigado, ele não o deixará muito tempo sem alegria. Logo se introduzirá na sua religião um elemento sobrenatural: ela não será uma moralidade nua, frígida e cintilante como um iceberg. Diz Jesus: “Quem tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21).
Exatamente aqui você ficará exposto ao perigo oposto. Você se queixava da falta de sentimento; agora pode ter tanto que, se não for cuidadoso, entristecerá o Espírito Santo, cairá em trevas, e o seu último estado se tornará pior que o primeiro. Deus lhe deixará ver algo da magnitude dos seus interesses eternos; e, como diz o presidente Edwards, “as coisas eternas são tão grandes e de tamanha importância, que há grande absurdo em que os homens sejam apenas levemente movidos por elas”. O seu coração será agitado até o mais fundo. O mundo chamará isso de exaltação. O formalismo decretará que você está exaltado. E o diabo, aproveitando o momento propício, lhe sussurrará, do modo mais gentil: “Não seria isso mera emoção?” Você argumenta com ele. Ele é lógico astuto — tem a experiência de seis mil anos, e sabe usá-la. Vencido pelos seus sofismas, você admite que talvez fosse só emoção.
O código de costumes em vigor permite que as pessoas se exaltem por qualquer assunto, exceto a religião, sem perder prestígio. O editor de um jornal importante, descrevendo os efeitos produzidos numa reunião política pelo canto de uma canção partidária, escreve: “A audiência inflamou-se num verdadeiro furor e, quando as últimas palavras da estrofe final morreram num volume de som que fez tremer o próprio edifício, toda a assembleia se pôs de pé em massa e irrompeu em aclamações renovadas vez após vez, entre acenos de chapéus e lenços e demonstrações frenéticas de deleite.” Isso foi considerado inteiramente próprio. Os homens podem ficar “frenéticos” na política sem causar alarme nem condenação. Mas a emoção religiosa é declarada inconveniente no mais alto grau; todos se unem para aplicar-lhe os epítetos mais injuriosos. A piedade vital sempre teve de abrir caminho no mundo sob essa grande desvantagem. Os apóstolos foram chamados “tagarelas” e “loucos”; disseram que estavam “embriagados” e “fora de si”. Lutero foi tachado de herege; Wesley, Whitefield e os seus cooperadores, de fanáticos e entusiastas. A mesma arma ainda é manejada com sucesso pelo inimigo de toda justiça. Muitos, que o Espírito de Deus procura conduzir à plena liberdade do evangelho e a um vasto campo de utilidade, não fazem progresso considerável porque recuam diante dessa cruz. Perguntam, ansiosos, se não seria possível seguir o Senhor plenamente sem manifestações de emoção que lhes tragam o opróbrio do mundo. Alguns que levam o nome cristão — muitos que ocupam púlpitos cristãos — olham tais manifestações com suspeita, e não parecem tão aflitos com a indiferença e a mundanidade de tantos professos discípulos de Cristo quanto com o sentimento avassalador visto, às vezes, em uns poucos.
Este é, no tempo presente, o grande impedimento à obra de Deus. A oposição — bem-intencionada, talvez — de muitos na igreja de Cristo a toda manifestação incomum da influência do Espírito está hoje fazendo mais dano do que as cavilações do cético e os escárnios do profano. Diz o presidente Finney, homem de piedade e saber, cujos trabalhos por muitos anos foram grandemente abençoados na promoção de avivamentos, tanto na América quanto na Inglaterra: “Supus, e ainda suponho, que a grande razão por que os avivamentos não têm sido mais profundos, permanentes e subjugadores do pecado é que o Espírito não tem podido avançar além de certo limite na sua obra sem encontrar firme resistência da parte de multidões de professos crentes e ministros. Eles parecem, na sua incredulidade, ter prescrito certos limites dentro dos quais os avivamentos devem ser mantidos; formaram certas noções de ordem e se esforçaram por confinar o Espírito sempre que ele passasse para o que supõem ser as regiões da desordem. Quanto a mim, espero, tão logo a igreja o consinta e o ministério esteja pronto para abrir o caminho, avivamentos muito mais profundos, mais permanentes e mais subjugadores do pecado do que o mundo jamais viu. Assim terá de ser, se o mundo há de ser convertido.”
Embora o cristão decidido ande uniformemente com o Senhor pela fé, preservando inteira coerência de conduta, a profundidade das suas emoções variará. A continuidade das emoções avassaladoras que às vezes experimenta o inabilitaria para os deveres da vida e exauriria o seu corpo. Paulo jamais poderia ter pregado o evangelho se estivesse sempre tão arrebatado que não soubesse se estava “no corpo ou fora do corpo” (2Co 12.2-3).
A grandeza do perigo a que os pecadores estão expostos mostra que é próprio, tanto para eles quanto para os que trabalham pela sua salvação, manifestar às vezes a mais profunda emoção. Eles violaram deliberadamente a lei divina, que é santa, justa e boa; rejeitaram todas as ofertas de misericórdia; e Deus, que não pode mentir, disse: “E estes irão para o castigo eterno” (Mt 25.46). “A fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre, e não têm descanso, nem de dia nem de noite” (Ap 14.11). Vi certa vez um homem que ocupara alta posição na comunidade, mas que violara as leis do seu país e aguardava a sentença para a prisão do estado. Embora homem forte, soluçava alto e por alguns minutos não conseguiu dominar-se para falar. Ninguém que o visse teria julgado extravagante a sua grande dor. Haverá então quem julgue indevidamente exaltado o pecador — cujos crimes, aos olhos de Deus, são de tintura muito mais escura, e que está exposto a um destino infinitamente mais terrível — ao descobrir a sua culpa, ainda que venha a “gemer por causa da inquietação do coração” (Sl 38.8)?
Uma mãe idosa deixou o lar da sua mocidade e as sepulturas dos seus, e, com as mais ternas esperanças, cruzou o Atlântico em busca do filho nesta terra de fartura. Encontrou-o numa prisão! Eu a vi estender a mão através das grades de ferro e apertar a mão do filho amado, embora transviado; depois, virar-se e cair ao chão, com uma dor grande demais para palavras. Só um desalmado poderia ridicularizar a angústia daquele coração partido. Quem dirá, então, que é fanática a mãe cristã que, vendo o filho do seu afeto “já condenado” (Jo 3.18), clama a Deus “com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26) para que detenha a espada da justiça e envie mais uma vez, àquele coração obstinado, o Espírito que convence, a fim de persuadi-lo, se possível, a escapar da condenação? Não há dúvida de que o perigo do filho é real; logo, nenhuma ansiedade que ela sinta será maior do que o terrível da exposição justifica.
Mas preferimos deixar o presidente Edwards falar sobre este ponto. Ele era tão piedoso quanto douto. Diz dele o dr. Chambers: “Olhando para Edwards, contemplamos o mais filosófico dos teólogos e, ao mesmo tempo, o mais humilde e santo dos homens.” Robert Hall o declara um dos maiores homens do mundo. Pelos seus trabalhos, muitas almas foram conduzidas a Cristo; ele é boa autoridade em experiência cristã, e dificilmente alguém ousará acusar de fanatismo esse eminente teólogo e reitor. Diz Edwards: “Há um tipo particular de exercício e preocupação de espírito que tem dominado a muitos e escandalizado a alguns: a profunda aflição e angústia em que algumas pessoas têm estado pelas almas dos outros. Lamento que alguém nos obrigue ao trabalho, que parece tão desnecessário, de defender uma coisa destas. Permite-se aos homens, por princípio nenhum mais alto que a simples humanidade, ficarem profundamente preocupados ao ver outros em grande perigo de calamidade não maior que afogar-se ou queimar-se numa casa em chamas. Se assim é, sem dúvida se admitirá que, vendo-os em perigo de calamidade dez vezes maior, estejam ainda muito mais preocupados; e tanto mais, quanto maior for a calamidade. Por que, então, se haveria de julgar irrazoável, e olhar com olho tão desconfiado, como se procedesse de causa má, que as pessoas fiquem extremamente aflitas ao ver outros em grandíssimo perigo de sofrer o furor e a ira do Deus Todo-Poderoso? Além disso, há de se admitir que os que têm graus muito elevados do Espírito de Deus — que é espírito de amor — tenham muitíssimo mais amor e compaixão pelos semelhantes do que os movidos apenas pela humanidade comum. Por que estranhar que os que estão cheios do Espírito de Cristo sejam, no seu amor às almas, proporcionalmente semelhantes a Cristo — que teve por elas amor tão forte, e tal solicitude, que se dispôs a beber por elas as fezes do cálice do furor de Deus; e que, ao mesmo tempo que oferecia o seu sangue pelas almas, oferecia também, como seu sumo sacerdote, forte clamor e lágrimas, em extrema agonia, na qual a alma de Cristo esteve, por assim dizer, em trabalho de parto pelas almas dos eleitos? Tal espírito de amor e solicitude pelas almas foi o espírito de Cristo, e é o espírito da Igreja — por isso a Igreja, desejando e buscando que Cristo seja formado no mundo e nas almas dos homens, é representada em Apocalipse 12 como uma mulher que grita ‘com dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz’ (Ap 12.2). O espírito dos que têm estado em angústia pelas almas alheias não me parece diferente do espírito do apóstolo, que estava em trabalho de parto pelas almas e chegou a desejar ser anátema, separado de Cristo, por amor dos seus irmãos (Rm 9.3). E do salmista: ‘Apodera-se de mim grande indignação, por causa dos ímpios que abandonam a tua lei’ (Sl 119.53); ‘Rios de lágrimas correm dos meus olhos, porque os homens não guardam a tua lei’ (Sl 119.136). E do profeta Jeremias: ‘Ah! Minhas entranhas, minhas entranhas! Eu me contorço de dores. Ó paredes do meu coração! Meu coração se agita! Não posso me calar, porque você, ó minha alma, ouviu o som da trombeta, o alarido de guerra’ (Jr 4.19). Lemos de Mordecai que, ao ver o seu povo em perigo de destruição temporal, ‘rasgou as suas vestes, vestiu-se de pano de saco e de cinza, saiu pela cidade e clamou com grande e amargo clamor’ (Et 4.1). Por que, então, julgar fora de si as pessoas que não podem deixar de clamar ao considerar a miséria dos que caminham para a destruição eterna?”
“Vi”, diz Finney, “um homem com tanta força de intelecto e de músculo quanto qualquer outro da comunidade cair prostrado, absolutamente dominado pelos seus desejos inexprimíveis pelos pecadores. Sei que isso é pedra de tropeço para muitos; e sempre será, enquanto restarem na igreja tantos professos crentes cegos e entorpecidos. Mas não posso duvidar de que essas coisas são obra do Espírito de Deus. Oxalá toda a igreja pudesse ficar tão cheia do Espírito a ponto de estar em trabalho de parto na oração, até que uma nação nascesse num só dia.”
Deus não dá a ninguém esse trabalho de parto pelas almas continuamente, porque ninguém viveria sob ele; mas todo cristão sincero e verdadeiro o tem às vezes, e quem é guiado pelo Espírito terá dele tanto quanto puder suportar. Se você nunca o sentiu, não pode trabalhar com êxito pelas almas. Mais: tem boa razão para temer que ainda não se converteu a Deus e nunca teve o Espírito de Cristo. E diz o apóstolo: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse não é dele” (Rm 8.9).
O Espírito nos abre os olhos para a condição dos pecadores. Na sua luz, as ameaças de que a Bíblia está cheia se revestem de terror. Acaso, por algum ato de desobediência, nos pusemos ao alcance da artilharia do Sinai? Paira sobre nós a nuvem escura da vingança divina? A consciência da nossa condição não pode senão vir acompanhada da mais profunda angústia de espírito: a alma assim exposta anda de luto o dia todo, e os prazeres mais doces perdem os seus atrativos. Fomos resgatados da nossa condição perigosa pelo braço forte daquele que é poderoso para livrar? Vemos outros — estranhos, conhecidos, amigos, parentes — em perigo iminente da mesma destruição que há tão pouco nos ameaçava? Habita em nós o Espírito compassivo de Jesus? Então, quão natural, quão inevitável é que manifestemos, despertos para a condição dos pecadores, a mais profunda emoção!
“Se Cristo chorou por pecadores, ficarão secas as nossas faces? Que torrentes de dor penitente irrompam de todos os olhos.” “Ao testemunhar”, diz um célebre filósofo inglês, “primeiro as súplicas e lágrimas de um malfeitor convicto, condenado e arrependido, prostrado aos pés do seu soberano, e depois a exuberância da sua alegria e gratidão ao receber perdão e vida, ninguém abusaria tanto da linguagem a ponto de chamar de entusiástica a intensidade e o fervor dos sentimentos desse criminoso; pois, por mais fortes, e até ingovernáveis, que sejam essas emoções, são perfeitamente congruentes com a ocasião: não brotam de ilusão alguma, mas se justificam plenamente pela virada momentosa que…”
“…que se deu nos seus negócios: na hora anterior, ele não contemplava senão os horrores de uma morte ignominiosa; agora, a vida e as suas delícias estão diante dele. É verdade que nem todos os homens, na mesma circunstância, passariam pela mesma intensidade de emoção; mas todos, a menos que obstinados na maldade, experimentariam sentimentos da mesma qualidade. Assim, enquanto as circunstâncias reais em que todo ser humano se encontra diante do tribunal do Juiz Supremo forem claramente entendidas e devidamente sentidas, NÃO HÁ LUGAR PARA FANATISMO: tudo é real; nada é ilusório.”
O mendigo pode tornar-se milionário; o escravo, rei, com nações obedientes aos seus pés — mas essa melhora de condição é infinitamente menor do que a que o pecador experimenta quando é feito herdeiro de uma “herança que não se corrompe, não se macula e não murcha” (1Pe 1.4).
Júlia nasceu de pais respeitáveis e foi cuidadosamente criada nos primeiros anos. A mãe era mulher prudente e piedosa, mas morreu quando Júlia tinha apenas doze anos. O pai logo se entregou à bebida e ao jogo, e gastou todos os bens. A filha foi lançada no meio de companhias devassas e tornou-se viciosa e desregrada. Num acesso de embriaguez, casou-se com um sujeito imprestável e dissipado. Aos dezoito anos foi julgada por perjúrio, condenada e sentenciada a catorze anos na prisão de Sing Sing. Era naturalmente inteligente, ativa e enérgica, e as limitações da prisão tiveram sobre ela efeito pior do que teriam sobre um temperamento mais apático. Em um ou dois anos, a sua mente começou a ceder sob a pressão e acabou exibindo sinais de insanidade melancólica. O amigo Hopper teve com ela uma entrevista em Sing Sing e encontrou-a em profundo abatimento. Depois, ficou completamente transtornada e foi removida ao asilo de Bloomingdale. Ele e a esposa a visitaram ali e a encontraram num intervalo de lucidez. Levaram-na a passear pelos jardins, e ela gozou muitíssimo aquela pequena excursão. Mas, quando alguém do grupo observou que aquele era um lugar muito agradável, ela suspirou fundo e respondeu: “Sim, é um lugar agradável para quem pode deixá-lo. Mas correntes são correntes, ainda que feitas de ouro; e as minhas ficam mais pesadas a cada dia.”
O seu temperamento requeria liberdade, e se afligia e consumia sob a restrição. O amigo Hopper obteve permissão para que ela passasse um dia e uma noite na sua casa, na cidade. A visita mostrou-se benéfica e, pouco depois, foi repetida: ela passou vários dias com a família dele, conduzindo-se com a maior correção. Ele então requereu ao governador o perdão, que foi prontamente concedido, e em seguida providenciou-lhe um lar adequado. Quando tudo estava arranjado, o amigo Hopper foi ao asilo levar a notícia. Temendo emocioná-la demais, perguntou se ela gostaria de ir de novo à cidade passar uns quinze dias com a sua família. “Gostaria muito”, respondeu ela. Ele prometeu levá-la e acrescentou: “Talvez fiques mais do que duas semanas.” Por fim disse: “Pode ser que não precises voltar mais para cá.” Ela se levantou num salto e, fitando-o com intensa ansiedade, exclamou: “Fui perdoada? Fui perdoada?” “Sim, foste perdoada”, respondeu ele, “e vim levar-te para casa.” Ela caiu de volta no assento, cobriu o rosto com as mãos e chorou alto. Diz o amigo Hopper: “Foi a cena mais comovente que já testemunhei.” Obstinado, de fato, teria de ser o coração do homem capaz de ridicularizar a profunda emoção daquela filha da dor na sua hora de alegria.
Ora, tão grande quanto é a diferença entre uma eternidade na perdição e catorze anos de prisão, tanto maior é a ocasião de regozijo no caso de cada pecador a quem Deus diz, pelo Espírito Santo: os teus pecados, que são muitos, estão todos perdoados. Não lemos que algum daqueles eventos que se admite justificarem demonstrações tumultuosas de alegria entre os homens seja notado lá em cima; mas o nosso Salvador disse: “há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10). Quem, pois, pode assistir com indiferença, e criticar friamente, uma cena que envia estremecimentos de alegria por todas as fileiras das hostes angélicas, tem boa razão para concluir que o véu ainda está sobre o seu coração — que não tem senso justo nem próprio da magnitude das coisas eternas.
Bem pode dizer Isaac Taylor: “Quando aqueles cujo temperamento abomina os exercícios religiosos comentam com sarcasmo as loucuras, reais ou supostas, dos religiosos, há nessas críticas uma triste incoerência, como a que se vê quando os insanos fazem chacota macabra dos modos ou defeitos pessoais dos seus amigos e enfermeiros.”
A aplicação do argumento é fácil: eventos que afetam grandemente o nosso bem-estar temporal justificam a manifestação da mais profunda emoção; mas os nossos interesses temporais não suportam comparação com os eternos. Logo, o serviço de Deus — que afeta os nossos interesses eternos e os do nosso próximo — torna inteiramente própria a manifestação da mais profunda emoção.
Exemplos das Escrituras. Deus se manifestou a Moisés no monte Sinai, e “houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e um som muito forte de trombeta, de maneira que todo o povo que estava no arraial estremeceu” (Êx 19.16); e tão terrível era a visão, que Moisés disse: “Estou apavorado e trêmulo!” (Hb 12.21). Aqui está a emoção do temor manifestada em tremor. Também o pecador bem pode tremer quando os trovões da lei soam aos seus ouvidos.
Davi era homem de grande força de corpo e de mente. No auge do seu poder, não julgou depreciativo à sua dignidade de rei e profeta dar expressão pública aos mais altos transportes de alegria. Leia o relato de quando fez subir a arca do Senhor, da casa de Obede-Edom à cidade de Davi: “Davi dançava com todas as suas forças diante do SENHOR; e estava vestido de uma estola sacerdotal de linho. Assim, Davi, com todo o povo de Israel, fez subir a arca do SENHOR, em meio a gritos de alegria e ao som de trombetas. Quando a arca do SENHOR entrou na Cidade de Davi, Mical, filha de Saul, estava olhando pela janela e, vendo o rei Davi saltando e dançando diante do SENHOR, sentiu desprezo por ele no seu coração.” E saiu ao encontro de Davi com esta ironia: “Como o rei de Israel se distinguiu hoje, descobrindo-se diante das servas dos seus servos, como sem vergonha se descobre um homem qualquer!” Ao que Davi respondeu: “Foi diante do SENHOR… e ainda me tornarei mais desprezível do que isto e me humilharei aos meus próprios olhos” (2Sm 6.14-22). Não haverá hoje quem se unisse a Mical para dizer que o rei Davi se desonrou? Ninguém que pareça sentir, como ela, que lhe cabe sustentar a dignidade da igreja? Tomem aviso do exemplo dela, que carregou o seu opróbrio até o fim — enquanto Davi via cumprir-se a Escritura: “quem se humilha será exaltado” (Lc 14.11).
Jeremias afligia-se profundamente com a defecção dos mestres religiosos do povo, que divertiam os ouvintes com belas palavras e clamavam “paz, paz”, quando Deus não falara paz. Ouça-o exprimir a sua angústia: “Quanto aos profetas, o meu coração está quebrantado dentro de mim; todos os meus ossos estremecem. Sou como homem embriagado, como alguém vencido pelo vinho, por causa do SENHOR e por causa das suas santas palavras” (Jr 23.9). Ele sabia o que era carregar o fardo das almas.
Daniel não parece ter carecido de intelecto nem de coragem: a perspectiva de dormir numa cova de leões não o assustou. Mas, ao ver uma visão do Senhor, diz: “Não restou força em mim; o meu rosto mudou de cor e se desfigurou, e não me sobrou força alguma” (Dn 10.8). O seu assombro foi tão grande que o corpo não o suportou — caiu prostrado.
No dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos, houve tais manifestações de sentimento que os circunstantes só souberam explicá-las com a teoria: “Estão embriagados!” (At 2.13). E havia tal plausibilidade na objeção, que Pedro se sentiu obrigado a refutá-la com argumento formal: “Estes homens não estão embriagados, como vocês pensam, visto que é apenas a terceira hora do dia” (At 2.15).
Quando João, o revelador, viu o Filho do Homem no seu corpo glorificado, descreve assim o efeito que a visão lhe produziu: “Quando o vi, caí a seus pés como morto” (Ap 1.17).
E ele nos assegura que no Céu há a mais profunda emoção entre os adoradores que rodeiam o trono: “Saiu uma voz do trono, dizendo: Louvem o nosso Deus, todos os seus servos, os que o temem, os pequenos e os grandes. Então ouvi uma voz como a de numerosa multidão, como a de muitas águas e como a de fortes trovões, dizendo: Aleluia! Pois o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso, reina” (Ap 19.5-6). Se você não tem simpatia pelos que louvam o Senhor em alta voz no seu santuário aqui embaixo, como pensa que estará preparado para juntar-se, lá em cima, a esse poderoso tumulto de louvor?
Não se pode exigir prova bíblica mais abundante nem mais clara para estabelecer a proposição de que a religião da Bíblia é feita para comover os mais profundos sentimentos do homem. Se a religião é a mesma em todas as eras, e se, sob a dispensação cristã, o Espírito há de ser derramado mais abundantemente do que nunca, podemos esperar que os que se empenham com seriedade no serviço do Senhor manifestem, de tempos em tempos, a mais profunda emoção.
Exemplos da história da Igreja. Pergunta-se muitas vezes: se essa emoção profunda é essencial ao cristão decidido, por que não a vemos manifestada nas diferentes denominações? Respondemos: nós a vemos — entre os eminentemente piedosos de todas as denominações. Daremos tantos casos quantos os nossos limites permitirem.
Lutero, tendo ganhado a reputação de um dos homens mais doutos do seu tempo, foi despertado, por providências alarmantes, para a sua condição de pecador. Resolveu solenemente buscar a santidade com o mesmo ardor com que perseguira o saber. Por quase dois anos praticou as maiores austeridades e cumpriu os deveres mais humilhantes — mas não achava paz. Às vezes, as suas meditações sobre a justiça e a ira divinas despertavam nele tais terrores, que as forças do corpo lhe faltavam, e ele ficava imóvel como morto. Um dia foi encontrado no chão da cela, sem sinais de vida. “É em vão”, disse a Staupitz, “que faço promessas a Deus; o pecado é sempre mais forte do que eu.” Staupitz lhe disse que olhasse “para as feridas de Jesus Cristo, para o sangue que ele derramou por você; é ali que você verá a misericórdia de Deus”. Ele olhou; e as suas profundas emoções foram seguidas de paz de consciência e alegria no Espírito Santo. Sem esses profundos abalos de alma, Lutero jamais teria sido o reformador que foi.
A vida de Whitefield fornece outro exemplo da mais profunda emoção — primeiro de penitência, depois de alegria. Fosse superficial a sua conversão, o seu nome não teria passado à posteridade como o de um dos pregadores mais bem-sucedidos dos tempos modernos. Whitefield buscou o Senhor com seriedade: escolhia o prado da Christ Church como cenário, e uma noite de tempestade como hora, dos seus conflitos interiores; prostrava o corpo na terra nua; jejuou durante a Quaresma; expôs-se ao frio até as mãos começarem a enegrecer; e, por abstinência e lutas internas, emagreceu a ponto de mal poder subir as escadas. Por sete semanas padeceu grave enfermidade — na sua própria linguagem, “uma visitação gloriosa”, que lhe deu tempo e serenidade para registrar por escrito a confissão penitente dos pecados da mocidade, examinar o Novo Testamento e buscar, pela oração, sabedoria e paz. As bênçãos assim invocadas não lhe foram negadas. “A estrela da alva”, diz ele, “raiou no meu coração. O espírito de pranto me foi tirado. Por algum tempo eu não conseguia deixar de cantar salmos onde quer que estivesse, mas a minha alegria foi-se tornando mais firme. Assim terminaram os dias do meu pranto.” Daquele tempo em diante, Whitefield foi um cristão alegre e triunfante, e a palavra que pregava era em demonstração do Espírito e de poder.
O sr. Flavel foi ministro eminente da escola calvinista; os seus trabalhos foram grandemente abençoados, e as suas obras ainda são lidas com proveito pelos devotos de todas as denominações. Flavel relata o caso de um homem que conheceu, maravilhosamente dominado pelas consolações divinas — supõe-se que narra a própria experiência. Diz ele que, “viajando sozinho, com os pensamentos fixos nas grandes e assombrosas coisas do outro mundo, os seus pensamentos começaram a subir cada vez mais alto, como as águas na visão de Ezequiel, até se tornarem, por fim, uma torrente transbordante; tal era a intensidade da sua mente, tais os gostos arrebatadores das alegrias celestiais, e tal a plena certeza do seu quinhão nelas, que perdeu inteiramente toda vista e senso deste mundo e das suas preocupações; e por algumas horas não soube onde estava nem o que fazia; e, tendo perdido grande quantidade de sangue pelo nariz, achou-se tão fraco que isso o trouxe um pouco a si. Depois de lavar-se numa fonte e beber da água para refrigério, continuou até o fim da jornada, de trinta milhas, quase sem sentidos todo esse tempo; e diz que teve vários êxtases de considerável duração. O mesmo bendito estado se conservou toda aquela noite e, em grau menor, grande parte do dia seguinte; a noite passou sem um só instante de sono; e, contudo, ele declara que nunca teve na vida noite de descanso mais doce. A alegria do Senhor ainda o inundava, e ele parecia habitante de outro mundo. E costumou, por muitos anos, chamar aquele dia um dos dias do Céu; e professava ter entendido mais da vida do Céu por ele do que por todos os livros que jamais usou ou discursos que jamais ouviu a respeito.”
Nessas experiências profundas se acha o segredo da força daqueles velhos teólogos que abalaram o mundo nos seus dias, e cujas obras ainda exercem influência benigna por toda parte.
O avivamento ocorrido sob os trabalhos de Edwards caracterizou-se pelo sentimento mais intenso. Nenhuma fria e desalmada “profissão de fé” era considerada, naqueles dias, experiência suficiente para constituir o pecador filho de Deus. Ele registra, com aprovação, muitos casos de manifestação da mais profunda emoção: “As pessoas são primeiro despertadas com um senso da sua condição miserável por natureza e do perigo em que estão de perecer eternamente. Algumas tiveram tal senso do desagrado de Deus, e do grande perigo de condenação, que não podiam dormir à noite. Houve casos de pessoas com um senso tão grande do seu perigo e miséria quanto a sua natureza podia suportar — um pouco mais provavelmente as teria destruído.”
É claro que essa convicção profunda não se produzia na mente dos pecadores sem correspondente profundidade de emoção no coração dos crentes. Ele relata: “Algumas pessoas tiveram desejos tão ardentes de Cristo, que chegaram a tirar-lhes a força natural. Algumas ficaram tão dominadas pelo senso do amor moribundo de Cristo por criaturas tão pobres, miseráveis e indignas, que o corpo enfraqueceu. Várias tiveram um senso tão grande da glória de Deus e da excelência de Cristo, que a natureza e a vida pareceram quase afundar sob ele; e, com toda probabilidade, se Deus lhes tivesse mostrado um pouco mais de si, o seu corpo se teria dissolvido.”
Ele conta, com bastante extensão, a experiência de vários indivíduos cujas emoções foram, às vezes, avassaladoras. Só temos espaço para um breve resumo de uma delas: uma jovem de família sensata e equilibrada. Antes da conversão, era de conversa sóbria e inofensiva — pessoa quieta, calada, reservada. Foi despertada por algo que ouviu o irmão dizer sobre a necessidade de buscar com toda seriedade a graça regeneradora, junto com a notícia da morte de uma jovem. O seu grande terror, dizia, era “ter pecado contra Deus”. A sua aflição cresceu por três dias, até que (segundo disse) não via diante de si senão negridão de trevas, e a sua própria carne tremia por medo da ira de Deus. Em oração e leitura da Bíblia buscou o Senhor por alguns dias. Certa manhã, ao despertar, vieram-lhe à mente estas palavras: “o sangue de Jesus… nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7) — acompanhadas de um senso vivo da excelência de Cristo e da sua suficiência para satisfazer pelos pecados do mundo inteiro. A sua mente foi conduzida a tais contemplações de Cristo, que se encheu transbordantemente de alegria. Todo o dia seguinte sentiu uma doçura constante na alma, e teve a repetição das mesmas descobertas de Cristo por três manhãs seguidas. Certa manhã, no gozo de uma visão espiritual da glória e plenitude de Cristo, a sua alma se encheu de aflição pelas pessoas sem Cristo; sentiu forte inclinação de sair imediatamente a advertir os pecadores, e propôs ao irmão que a ajudasse a ir de casa em casa. Depois disso, ver três pessoas recém-convertidas entrando uma após outra pela porta a afetou tanto, e despertou tal amor por elas, que quase desmaiou; e, quando começaram a falar das coisas da religião, foi mais do que podia suportar — tiveram de parar por causa disso. Pouco depois, foi a uma reunião religiosa particular, com a mente cheia do senso da glória de Deus o tempo todo; terminado o exercício, alguns lhe perguntaram o que havia experimentado; ela começou a contar, mas o relato reavivou de tal modo o senso das mesmas coisas, que as forças lhe faltaram, e tiveram de deitá-la na cama. Depois, muito comovida, regozijava-se com estas palavras: “Digno é o Cordeiro que foi morto” (Ap 5.12). Perseverou até o fim e morreu triunfante. Edwards dá esse e outros casos semelhantes como espécimes das experiências dos que participaram daquele gracioso derramamento do Espírito Santo. Parece ter sido coisa comum entre eles as pessoas perderem as forças, como hoje se diz.
Diz ele: “É notável que, considerando em quantas multidões de casos, e em que grau, o corpo tem sido dominado ultimamente, as vidas das pessoas tenham sido preservadas, e os casos de perda da razão tenham sido tão poucos — e esses, talvez, todos de pessoas sob a desvantagem peculiar de uma constituição fraca e vaporosa. Uma mão divina, misericordiosa e cuidadosa, é bem manifesta nisso: em tantos casos em que o navio começou a afundar, foi sustentado e não afundou de todo. Os casos de perda da razão são tão poucos, que certamente não bastam para nos assustar, como se esta obra realizada no país não houvesse de ter influência benéfica — a menos que estejamos dispostos a juntar tudo o que pudermos para escurecê-la e pintá-la em cores apavorantes.”
Esse avivamento deve ter excedido de longe, nos seus efeitos sobre o corpo, qualquer dos ocorridos nos últimos anos entre qualquer denominação, para justificá-lo em dizer que “em multidões de casos o corpo foi dominado”. E, contudo, parece que ninguém morreu, e bem poucos se transtornaram. Edwards não tinha o hábito de usar, nas suas narrativas, a linguagem do exagero. “Estas coisas não começaram agora”, diz ele; “não são novas na sua espécie, mas da mesma natureza das que se acharam, e foram bem aprovadas, na Igreja de Deus, de tempos em tempos.”
“Temos um caso notável no sr. Bolton, aquele afamado ministro da Igreja da Inglaterra que, despertado pela pregação do famoso sr. Perkins, ministro de Cristo na Universidade de Cambridge, foi sujeito a terrores tais que o lançavam ao chão e o faziam bramir de angústia; e as dores do novo nascimento nele foram tais, que ficou pálido e sem sentidos, como morto. Na mesma página se relata o caso de outro, cujas consolações, sob o resplendor da presença de Deus, eram tão grandes que não podia conter-se de clamar em transporte, exprimindo em exclamações o grande senso que tinha da misericórdia perdoadora e a certeza do amor de Deus. E temos um caso notável na vida do sr. George Trosse, escrita por ele mesmo (que, de vida notoriamente viciosa e devassa, se tornou santo eminente e ministro do evangelho), de terrores ocasionados pelo despertar da consciência que dominaram o corpo a ponto de privá-lo, por algum tempo, do uso da razão.
“Sim, tais efeitos externos extraordinários de impressões interiores não se acharam apenas aqui e ali numa pessoa isolada: houve também tempos em que muitos foram assim afetados em certas partes da Igreja de Deus, e tais efeitos apareceram em congregações, em muitos ao mesmo tempo. Assim foi no ano de 1625, no oeste da Escócia, em tempo de grande derramamento do Espírito de Deus: era então frequente muitos serem tão extraordinariamente tomados de terror ao ouvir a Palavra, convencidos de pecado pelo Espírito de Deus, que caíam e eram carregados para fora da igreja — e depois se mostraram cristãos dos mais sólidos e fervorosos. Muitos na França ficaram tão maravilhosamente afetados com a pregação do evangelho, no tempo daqueles famosos teólogos Farel e Viret, que por algum tempo não conseguiam cuidar dos seus negócios seculares. Muitos, na Irlanda, em tempo de grande derramamento do Espírito no ano de 1628, ficaram tão cheios de consolações divinas e do senso de Deus, que faziam pouco uso de comida, bebida ou sono, e professavam não sentir necessidade deles.”
Edwards mostra, assim, que essas manifestações de emoção eram comuns entre os cristãos fervorosos. É claro que o diabo não ficou satisfeito: despertava-se atenção geral demais para a religião, e convertiam-se pecadores demais, para que ele se desse por contente. Ele instigou quantos pôde a falar contra esse caminho. Circularam livremente deturpações e exageros. Os ministros principais na promoção do avivamento foram acusados de considerar essas manifestações evidências certas de uma obra do Espírito — acusação gravíssima contra um ministro calvinista, pois, segundo a sua teoria, nenhuma soma de evidências antes da morte poderia dar certeza da conversão de alguém.
Edwards defende essas manifestações assim: “Outra coisa em que penso que alguns ministros têm sido injustiçados é serem muito censurados por darem tanto valor a clamores, desmaios e outros efeitos corporais, falando deles como sinais da presença de Deus e argumentos do sucesso da pregação. A esse respeito eu observaria, em primeiro lugar, que há muitas coisas, quanto a clamores, quedas etc., de que os ministros são acusados sem culpa. Alguns querem que eles falem dessas coisas como evidências certas de uma obra do Espírito de Deus no coração dos ouvintes, ou que estimem esses efeitos corporais, em si mesmos, como obra de Deus, como se o Espírito de Deus se apoderasse dos corpos dos homens e os agitasse; e alguns são acusados de fazer dessas coisas algo essencial, supondo que ninguém pode converter-se sem elas — mas eu nunca vi pessoa que sustentasse uma coisa ou outra. Quanto, porém, a falar de tais efeitos como sinais prováveis da presença de Deus e argumentos do sucesso da pregação, parece-me que não merecem censura, porque penso que de fato o são. Por isso, quando os vejo excitados pela pregação das importantes verdades da Palavra de Deus, aplicadas com argumentos e motivos próprios, não tenho escrúpulo em falar deles, alegrar-me com eles e bendizer a Deus por eles como tais; e por esta (a meu ver) boa razão: de tempos em tempos, mediante inquirição, exame e observação das consequências e dos frutos, tenho achado que são evidências de que as pessoas em quem esses efeitos aparecem estão sob a influência do Espírito de Deus. Clamores, do modo e nas circunstâncias em que os tenho visto, são para mim evidência da causa geral de que procedem tanto quanto a linguagem: aprendi o seu significado do mesmo modo que se aprende o significado da linguagem — pelo uso e pela experiência. Confesso que, quando vejo grande clamor numa congregação, do modo como o tenho visto, quando se lhes apresentam coisas dignas de os afetar grandemente, eu me alegro nisso muito mais do que numa mera aparência de atenção solene e numa demonstração de afeto por lágrimas; porque, onde houve esses clamores, tenho achado, de tempos em tempos, efeito muito maior e mais excelente.”
“A coisa mais especiosa que se alega contra esses efeitos extraordinários sobre o corpo é que o corpo se debilita e a saúde se prejudica, e que custa pensar que Deus, nas influências misericordiosas do seu Espírito sobre os homens, lhes feriria o corpo e prejudicaria a saúde. Mas, ainda que fosse bastante comum (o que não suponho) receberem as pessoas dano duradouro à saúde por impressões religiosas extraordinárias na mente, seria demais para nós determinar que Deus nunca trará uma calamidade exterior ao conceder um bem espiritual e eterno vastamente maior. Jacó, cumprindo o seu dever de lutar com Deus pela bênção, no mesmo ato em que recebeu de Deus a bênção sofreu da sua mão grande calamidade exterior: Deus lhe feriu o corpo de tal modo que nunca se recuperou enquanto viveu; deu-lhe a bênção, mas o despediu manquejando da coxa, e ele andou coxo o resto da vida. E isso não é mencionado como diminuição da grande misericórdia de Deus para com ele, quando Deus o abençoou e lhe chamou Israel, “porque, como príncipe, lutou com Deus e prevaleceu” (Gn 32.28). Não podemos determinar que Deus jamais dará a alguém tal descoberta de si mesmo que não só lhe enfraqueça o corpo, mas até lhe tire a vida. Teólogos muito doutos e judiciosos supõem que a vida de Moisés foi tirada dessa maneira, e o mesmo se tem suposto de outros santos. Se Deus dá grande aumento das descobertas de si mesmo e do amor a ele, o benefício é infinitamente maior que a calamidade, ainda que a vida fosse logo tirada. É fácil explicar, pela consideração da natureza das coisas divinas e eternas, da natureza do homem e das leis da união entre alma e corpo, como uma influência reta, um senso próprio e verdadeiro das coisas, pode ter tais efeitos sobre o corpo — mesmo os mais extraordinários, como tirar as forças corporais, lançar o corpo em grandes agonias e arrancar clamores altos.”
Demos extratos de escritores de outras denominações — e de propósito. O nosso objetivo foi mostrar que essas manifestações de sentimento religioso, ultimamente tão combatidas, foram comuns nos avivamentos profundos, entre as denominações que hoje estão mais livres delas. Só nos resta espaço para fortalecer a posição com breve referência aos escritores metodistas. Essas manifestações foram comuns entre eles, como denominação, desde o princípio; quase todos os seus livros de biografia e história abundam em relatos dos efeitos extraordinários produzidos sobre o corpo pelo derramamento do Espírito.
Diz Wesley: “Enquanto eu pregava em Newgate sobre as palavras ‘Quem crê tem a vida eterna’, fui insensivelmente levado, sem nenhum desígnio prévio, a declarar forte e explicitamente que Deus quer que ‘todos os homens sejam assim salvos’, e a orar que, ‘se esta não fosse a verdade de Deus, ele não permitisse que os cegos saíssem do caminho; mas, se fosse, desse testemunho da sua Palavra’. Imediatamente um, e outro, e mais outro caíram por terra; tombavam de todos os lados como fulminados. Uma clamou em alta voz. Suplicamos a Deus por ela, e ele converteu o seu peso em alegria. Estando outra na mesma agonia, clamamos a Deus também por ela, e ele falou paz à sua alma. À tarde, fui de novo impelido no espírito a declarar que ‘Cristo se deu em resgate por todos’. E, quase antes de lhe pedirmos que pusesse o seu selo, ele respondeu. Uma ficou tão ferida pela espada do Espírito, que se imaginaria que não poderia viver um momento; mas logo se mostrou a sua abundante bondade, e ela cantou em alta voz a sua justiça.”
“Muitos se ofenderam de novo, e na verdade muito mais do que antes. Pois na rua Baldwin a minha voz mal podia ser ouvida em meio aos gemidos de uns e aos gritos de outros, clamando àquele que é ‘poderoso para salvar’. Pedi a todos os sinceros de coração que suplicassem comigo ao Príncipe exaltado por nós, que ‘proclamasse libertação aos cativos’. E ele logo mostrou que ouviu a nossa voz. Muitos dos que estavam há muito em trevas viram raiar uma grande luz; e dez pessoas, soube depois, começaram então a dizer com fé: ‘Senhor meu e Deus meu!’ Um quacre que estava por perto, não pouco desgostoso com a ‘dissimulação daquelas criaturas’, mordia os lábios e franzia o cenho, quando caiu como fulminado. A agonia em que esteve era terrível de se ver. Rogamos a Deus que não lhe pusesse a loucura em conta. E ele logo levantou a cabeça e clamou em alta voz: ‘Agora sei que és um profeta do Senhor!’”
“Enquanto eu convidava com fervor todos os pecadores a ‘entrar no Santo dos Santos’ por este ‘novo e vivo caminho’, muitos dos ouvintes começaram a clamar a Deus com fortes brados e lágrimas. Alguns caíram, e não ficou neles força alguma; outros tremiam e estremeciam extraordinariamente; alguns eram sacudidos por uma espécie de movimento convulsivo em todas as partes do corpo, tão violento que muitas vezes quatro ou cinco pessoas não conseguiam segurar um deles. Já vi muitos ataques histéricos e epilépticos; mas nenhum se parecia com estes em muitos aspectos. Orei imediatamente para que Deus não permitisse que os fracos se escandalizassem. Mas uma mulher se escandalizou grandemente, certa de que eles poderiam evitar aquilo se quisessem — ninguém a persuadiria do contrário; e mal se afastou três ou quatro jardas, caiu também, em agonia tão violenta quanto os demais. Vinte e seis dos que assim foram afetados (a maioria dos quais, durante as orações feitas por eles, num momento ficaram cheios de paz e alegria) prometeram procurar-me no dia seguinte. Mas só dezoito vieram; e, conversando de perto com eles, achei razão para crer que alguns tinham ido para casa justificados. Os demais pareciam esperar pacientemente por isso.”
Não podemos deixar de dar, como espécime, alguns extratos do relato que Bangs faz de um maravilhoso avivamento ocorrido em 1775 e 1776. Ele cita, do diário de Asbury, a narrativa do rev. sr. Jarratt, ministro da Igreja da Inglaterra, que participou largamente daquele avivamento e contribuiu com os seus trabalhos para o seu avanço. Diz Jarratt: “Não tenho dúvida de que a obra ora em curso é genuína; contudo, houve circunstâncias que me desagradaram: clamores altos, tremores, quedas e convulsões. Mas estou mais reconciliado desde que li o presidente Edwards sobre esse ponto, o qual observa que, ‘onde quer que estas coisas mais aparecem, ali está sempre a obra maior e mais profunda’. Há outra coisa que me deu muita pena: o orar de vários ao mesmo tempo. Às vezes cinco ou seis, ou mais, oravam todos de uma vez, em várias partes da sala, pelas pessoas angustiadas; outros exortavam, de sorte que a assembleia parecia toda em confusão e, a quem visse de certa distância, pareceria mais uma turba de ébrios do que a adoração de Deus. Temi que não se estivesse fazendo tudo com decência e ordem. É verdade que o dr. Edwards defende isso também; mas eu ainda não estou satisfeito a respeito. Contudo, quando isso diminuía, a obra de convicção e conversão em geral diminuía também.”
Um dos seus correspondentes, pregador local, escreveu-lhe assim: “É comum entre nós homens e mulheres caírem como mortos sob uma exortação, mas muitos mais sob a oração — talvez vinte de uma vez. E alguns que não caíram por terra mostraram a mesma angústia, torcendo as mãos, batendo no peito e rogando que todos orassem por eles.”
O sr. Lee, num relato que faz de um avivamento em 1787, diz: “Centenas de crentes ficaram tão dominados pelo poder de Deus que caíram e jazeram desamparados no chão; e alguns continuaram nessa condição por tempo considerável, felizes em Deus além de toda descrição. Quando voltavam a si, era geralmente com altos louvores a Deus, e com lágrimas e expressões capazes de derreter o coração mais duro.” No dia seguinte, “enquanto os ministros pregavam, o poder do Senhor foi sentido entre o povo de tal maneira que bramavam e gritavam tão alto que o pregador não podia ser ouvido, e teve de parar. Muitas pessoas ricas, homens e mulheres, foram vistas deitadas no pó, suando e rolando no chão nos seus finos panos e sedas, clamando por misericórdia.”
Quanto mais valiosa uma moeda, mais sujeita a ser falsificada. Assim é com a religião — no todo e em todas as suas partes. Nunca ouvimos dizer que os incrédulos tenham sido enganados por quem se diz incrédulo; mas às vezes se descobre que professos cristãos são, na realidade, pecadores. Alguns que alegam ser governados pela integridade cristã carecem de honestidade comum. Aquele homem tão cavalheiresco, quieto e liberal, tão livre de qualquer coisa parecida com manifestações, foi claramente convicto de várias falsificações cometidas enquanto era superintendente da escola dominical e o membro mais proeminente da igreja em matéria financeira. Mas deixaremos de insistir na retidão como elemento essencial do caráter cristão porque alguns fingem tê-la sem a ter? Não há dúvida de que, quanto menos se fala nesse ponto, mais fácil é multiplicar convertidos.
Haja numa comunidade manifestações de sentimento religioso profundo e de fé robusta em Deus, e é provável que haja imitações. Diz Paulo que “o Reino de Deus” — a verdadeira religião na alma — “é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Imitam-se a justiça e a paz; por que não esperar que se imite a alegria? A única razão por que não há mais falsificação é haver tão pouco do genuíno. Quando Moisés operou os seus milagres diante de Faraó, os egípcios fizeram o mesmo, em escala menor, com os seus encantamentos. Nos dias de Jó, “num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se diante do SENHOR, Satanás também veio no meio deles” (Jó 1.6). Diz Paulo: “o próprio Satanás se disfarça em anjo de luz. Portanto, não é surpresa que os seus ministros também se disfarcem em ministros de justiça” (2Co 11.14-15). O homem que orou mais alto e mais longamente numa reunião de oração a que certa vez assistimos, ao voltar sozinho para casa naquela noite, furtou gado que pastava à beira do caminho, tocou-o a noite toda e o vendeu pela manhã. O homem mais perverso pode parecer o mais engajado na religião. Mas, por isso, haveremos de opor-nos a todas as manifestações do Espírito? Porque alguns que exultam nos cultos não vivem retamente em casa, deixaremos de insistir na “alegria no Espírito Santo” como parte essencial da verdadeira religião? Com a mesma propriedade poderíamos renunciar à integridade. E haveria razão ainda mais forte para renunciar à sã doutrina — pois até “os demônios creem e tremem” (Tg 2.19).
Contra o elemento sobrenatural do cristianismo levanta-se a mais forte oposição. Por isso, muitos que sentiram o seu poder estão prontos a ignorá-lo sob pretexto de aparência plausível. Assim foi nos dias de Paulo: “Será que vocês são assim tão insensatos que, tendo começado no Espírito, agora terminem na carne?” (Gl 3.3). Assim foi nos dias de Wesley. Diz ele: “Reunimo-nos em Fetter Lane para nos humilhar diante de Deus e reconhecer que ele justamente retirara de nós o seu Espírito, pelas nossas múltiplas infidelidades. Reconhecemos tê-lo entristecido pelas nossas divisões — um dizendo ‘eu sou de Paulo’, outro ‘eu sou de Apolo’ —, por nos inclinarmos de novo às nossas próprias obras e confiarmos nelas em vez de em Cristo, por descansarmos nesses pequenos começos de santificação que lhe aprouvera operar nas nossas almas e, acima de tudo, por blasfemarmos da sua obra entre nós, imputando-a à natureza, à força da imaginação e dos espíritos animais, ou até ao engano do diabo. Naquela hora achamos Deus conosco como no princípio. Alguns caíram prostrados por terra; outros irromperam, como de comum acordo, em alto louvor e ações de graças; e muitos testificaram abertamente que não houvera dia como aquele desde o primeiro de janeiro anterior.”
Devemos aprender a tirar o precioso do vil, para que sejamos “como a boca de Deus” para o povo (Jr 15.19). Devemos provar “os espíritos, para ver se eles procedem de Deus” (1Jo 4.1), para que não nos achemos “lutando contra Deus” (At 5.39).
O pé fendido não pode ficar escondido com sucesso por muito tempo. Se as manifestações físicas procedem do eu, ou de Satanás, com o tempo aparecerá um espírito autossuficiente, que se recusa a ser instruído ou repreendido; ou um espírito amargo, que trata como inimigos aqueles por quem não é recebido; ou um espírito ambicioso, que procura criar um partido para liderá-lo; ou um espírito indolente, que negligencia ganhar honestamente a vida pelo trabalho fiel; ou um evidente descuido dos deveres que nascem das relações estabelecidas da vida. Esses não são os frutos do Espírito, e a caridade não exige que você aja como se fossem.
Mas, se o Espírito que domina as forças físicas, ou excita manifestações incomuns, deixa aquele sobre quem opera mais humilde e ensinável, mais cuidadoso dos sentimentos alheios, mais atencioso e mais consciencioso no cumprimento dos deveres práticos de cada dia — então, se você não quer atrair sobre si a morte espiritual, não ouse opor-se a ele. “E não danifique o azeite e o vinho” (Ap 6.6).
“Por isso, oferece sacrifícios à sua rede e queima incenso à sua tarrafa; porque por elas se enriqueceu a sua porção, e se tornou farta a sua comida.” (Hc 1.16)
Os homens de sucesso confiam com demasiada frequência nos meios pelos quais o obtiveram. Muitos perdem Deus de vista e atribuem as suas realizações à própria perícia, coragem e prudência. Alguns ridicularizam a ideia de uma Providência soberana e confiam implicitamente na própria boa sorte. “Oferecem sacrifícios à sua rede” — adoram os meios pelos quais alcançaram o seu fim. Então Deus intervém, derrota os seus planos bem traçados e mantém viva na terra a lembrança de si mesmo.
“Falou o rei e disse: Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para a glória da minha majestade?” (Dn 4.30). Na mesma hora os juízos de Deus caíram sobre ele, e ele saiu, louco furioso, do meio dos homens para habitar com os animais — de um palácio para o ermo. Quando Napoleão estava para invadir a Rússia, um amigo procurou dissuadi-lo do empreendimento. Falhando o argumento, citou o provérbio: “O homem propõe, mas Deus dispõe.” Ao que Bonaparte respondeu, indignado: “Eu proponho e disponho.” Esse foi o ponto de virada da sua carreira: caiu tão depressa quanto subira.
As igrejas confiam num ministério instruído; por isso constroem seminários teológicos para prover-se de ministros, em vez de pedir “ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (Mt 9.38). Ministros que obtêm êxito com certos sermões, com reuniões prolongadas e com o emprego de medidas especiais passam a depender delas para o sucesso. Aos poucos, a igreja se torna uma organização mundana, governada pelas máximas da prudência mundana; e a religião que promove, uma mistura de sagacidade e orgulho mundanos com um reconhecimento meramente nominal da autoridade de Deus. A sua lei é posta de lado, por consentimento comum, quando entra em conflito com os clamores do egoísmo ou com as exigências imperiosas da moda.
A religião que dá vitória na vida, triunfo na morte e um lar no Céu é a obra de Deus no coração do homem. Quaisquer que sejam os outros meios empregados para produzir o resultado, ele é efetuado, em cada caso individual, em resposta à oração. Saulo de Tarso foi milagrosamente convencido de que Jesus era o Messias; mas, antes de ser convertido, disse-se dele: “ele está orando” (At 9.11). Os meios, em si mesmos, não são eficazes: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos” (Zc 4.6). Mas o Espírito é derramado em resposta à oração. Quando achamos algo prometido na Palavra de Deus, não devemos deixar de buscá-lo por estar prometido; devemos orar por ele exatamente por isso. “Assim diz o SENHOR Deus: Ainda quanto a isto serei consultado pela casa de Israel, para que eu faça isto por eles: vou multiplicá-los como um rebanho de homens” (Ez 36.37). A promessa é absoluta; mas o tempo do seu cumprimento depende das orações do seu povo. Assim Cristo prometeu aos discípulos o dom do poder — e por isso eles oraram por ele até a resposta vir.
Quem quer prevalecer com os homens precisa primeiro prevalecer com Deus. Jacó, depois de lutar a noite toda em oração, teve o mais amistoso encontro com o irmão mais poderoso, a quem havia gravemente lesado e a quem, portanto, temia com razão. Se queremos fazer obra eficaz para Cristo, precisamos saber orar no Espírito até que a graça divina derreta os corações obstinados. Antes de empreender a reconstrução dos muros derrubados de Jerusalém, diz Neemias: “sentei-me, chorei e lamentei por alguns dias; e estive jejuando e orando na presença do Deus dos céus” (Ne 1.4). Confessou os seus pecados e os do seu povo, buscou o socorro do Senhor e, à medida que Deus abria o caminho, pôs mãos à obra a que fora chamado. Quando Daniel quis entender os mistérios do reino de Deus, diz: “voltei o rosto ao Senhor Deus, para o buscar com oração e súplicas, com jejum, pano de saco e cinza. Orei ao SENHOR, meu Deus, confessei” (Dn 9.3-4).
A Bíblia abunda em ilustrações do fato de que Deus responde à oração em favor de outros — e por isso a requer: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças em favor de todas as pessoas” (1Tm 2.1).
Muitos que professam trabalhar para Cristo não aprenderam a orar. Têm ideia vaga e incorreta do que seja a oração. Dirigindo-se, na forma, ao trono da graça, na realidade se dirigem ao povo: oram para serem ouvidos pelos homens. Disse um dos jornais diários, a propósito de uma oração feita na dedicação de certas obras públicas: “Foi a mais eloquente oração jamais dirigida aos cidadãos de Boston.” Se você quer falar ao povo das perfeições do Todo-Poderoso — e, no melhor dos casos, o nosso conhecimento do Infinito há de ser extremamente limitado —, não o faça sob a forma de oração. Quando estamos morrendo de fome, não tente saciar-nos com erudição. Na oração pública, seja a boca dirigida a Deus em favor dos necessitados e sobrecarregados. Procure levar o povo com você ao propiciatório, e interceda em seu favor até que a bênção de Deus desça sobre cada alma que espera. Se você quer levar o povo a Deus, precisa primeiro levar Deus ao povo. Se falhar aqui, falhará por completo em fazer qualquer bem grande e permanente. O oleiro, ao fazer um vaso de barro, molha-o completamente e, de quando em quando, mergulha na água a mão que modela. O barro seco pode-se quebrar, mas não moldar. Você deve orar por chuva até a nuvem aparecer e o aguaceiro cair. Mas não pregue sermões nem exortações ao povo sob pretexto de orar — muito menos faça alusões maldosas que exponham alguém ao opróbrio. Quando orar, jamais retalie nem procure punir ninguém, mas “perdoem, se tiverem alguma coisa contra alguém, para que o Pai de vocês, que está nos céus, lhes perdoe as ofensas” (Mc 11.25).
De todos os exercícios da religião, a oração deveria ser o mais fervoroso. Seja qual for a ocasião, orações frias e formais são inteiramente sem desculpa: saem da cabeça de alguém cujo coração, no melhor dos casos, está morno. Não se devem estudar expressões elegantes nem tentar eloquência; em simplicidade e seriedade, os desejos da alma devem ser derramados aos ouvidos de um Deus que responde. Ora com fervor quem ora como se deve. “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8.26). Quem ora com sinceridade terá o auxílio do Espírito — mas este pode levá-lo a orar de maneira muito diferente da que pretendia. Muitos parecem pensar que podemos orar pelo que bem quisermos. Em orações meramente formais ou de cortesia, isso é fácil. Mas quem ora com a ajuda do Espírito é dirigido pelo Espírito, e não pelos homens, quanto ao que pedir. Já estivemos em reuniões onde pareciam considerar a oração como um pedido de mercadorias a um atacadista: quem dirigia a oração podia orar por qualquer pessoa ou coisa que lhe solicitassem, assim como o comerciante — e eram na maioria comerciantes — podia encomendar as mercadorias que os fregueses pedissem. O caso todo parecia uma transação comercial. Devemos orar pelos outros — o Pai-Nosso e muitas passagens das Escrituras nos ensinam isso; mas, ao fazê-lo, se oramos de verdade, devemos orar como o Espírito conduz. Uma reunião de oração conduzida segundo um programa previamente preparado é coisa fria: nem sequer há, em geral, o calor do atrito. “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). Em toda reunião que você fizer, cuide de ter a presença do Espírito do Senhor.
Fomos certa vez designados para uma igreja de vilarejo que declinara de cerca de trezentos membros para noventa. O declínio na piedade era em proporção ainda maior: bem poucos viviam em estado de justificação diante de Deus; alguns membros estavam em termos tão maus que não se falavam; e havia grande falta de confiança até na honestidade de alguns dos principais. Pregamos à igreja o mais incisivamente que pudemos por quase três meses, sem quebrantamento geral. Certo domingo à noite, na igreja, o fardo caiu sobre nós com poder avassalador, e ficamos com o rosto em terra, junto ao altar, por mais de uma hora — assim se disse —, lutando com Deus numa agonia de oração, com gemidos que não podiam ser proferidos. Parecia que morreríamos se não víssemos o povo salvo. Alguns, que nada sabiam do fardo pelas almas, tentaram cantar e mudar a ordem da reunião — mas não conseguiram. A reunião encerrou-se em profunda solenidade. Um avivamento irrompeu imediatamente, durante o qual muitos foram salvos, e a convicção se espalhou pelo vilarejo e pelos campos ao redor.
Você pode transmitir instrução sobre assuntos religiosos como o conferencista sobre assuntos científicos; pode mover os homens como o político os move com os seus apelos; mas, sem esse espírito de oração prevalecente, você não os verá, como resultado dos seus trabalhos, humilhar-se diante de Deus e buscar o seu reino e a sua justiça.
Um ministro moribundo disse: “Sinto-me feliz e seguro da minha salvação, como pobre pecador perdido, salvo pelo precioso sangue expiatório do Salvador.” Mas parecia haver algo pesando no seu espírito. Alguém perguntou: “Meu caro irmão, há alguma coisa que ainda o aflija?” O moribundo pôs a mão sob o travesseiro e tirou um papel em que estavam escritos os nomes de vinte e cinco homens importantes da sua paróquia, não convertidos, e disse com lágrimas: “Sim, há uma causa de ansiedade, e é esta: a salvação destes vinte e cinco homens. Tenho orado muito por eles, nome por nome. Se eu pudesse saber que serão convertidos, poderia dizer: ‘Senhor, agora despede em paz o teu servo, porque os meus olhos viram a tua salvação.’” Com esse grande fardo no coração, morreu. Algum tempo depois da sua morte, numa assembleia eclesiástica, perguntaram ao seu sucessor por aqueles homens. Com muita emoção, respondeu: “Irmãos, cada um daqueles vinte e cinco homens foi convertido. Cremos que se converteram em resposta à oração do nosso santo irmão.” “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tg 5.16).
Se queremos prevalecer com Deus, devemos perseverar na oração. Elias orou sete vezes antes que houvesse sinal de chuva. Deus quer os homens inteiramente decididos. Cristo orou no jardim em tal agonia de espírito, que o seu suor se tornou como grandes gotas de sangue. Diz Finney: “Conheci pessoas que oraram até ficarem molhadas de suor, no tempo mais frio do inverno. Conheci pessoas que oraram por horas, até as forças se exaurirem com a agonia da sua mente. Tais orações prevalecem com Deus.”
Há pouquíssima oração dessa espécie nos nossos dias. A tendência é levar as coisas com facilidade. Tal oração mataria instantaneamente muitos avivamentos modernos, conduzidos com pouca solenidade e nenhum trabalho de parto da alma. O Salvador nos ensina a perseverar na oração e a não nos acomodarmos quando a resposta tarda. Muito do que chamamos submissão é, na verdade, indiferença. “Jesus contou aos discípulos uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). Não desista porque a resposta não vem logo. Se o que você pede está de acordo com a vontade de Deus, insista em obter resposta. “Será que Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo a vocês que, depressa, ele lhes fará justiça” (Lc 18.7-8). Diz o bispo Hall: “Toda boa oração bate à porta do Céu por uma bênção; mas a oração importuna o atravessa e abre caminho até os ouvidos de Deus.”
Do douto e estudioso John Smith se disse “que havia resolvido pôr de lado, em grande parte, os outros estudos, para trabalhar na salvação das almas dos homens, por cujo bem sedentamente ansiava”. De John Welsh, homem piedoso, um puritano, registra-se que muitas vezes, nas noites mais frias do inverno, era encontrado chorando por terra e lutando com o Senhor em favor do seu povo. Dizia: “Tenho de responder pelas almas de três mil, e não sei como estão muitas delas.”
O falecido dr. J. W. Redfield foi um dos avivalistas mais bem-sucedidos dos tempos modernos. A obra de graça que acompanhava os seus trabalhos por toda parte era tão notável pela profundidade quanto pela extensão: onde quer que realizasse reuniões, a comunidade inteira era movida por um fervor religioso que tudo penetrava. Era pregador de maravilhosa clareza, profundidade e eloquência. Mas, se era convincente no argumento, vívido na descrição e persuasivo no apelo, era absolutamente avassalador na oração. Conduzia os que se uniam a ele por uma confissão que não deixava cobertura, orgulho nem justiça própria; uma consagração que abrangia o máximo de serviço que um ser humano pode prestar ao seu Criador; uma renúncia total a qualquer pretensão de usar faculdades e posses, exceto para a glória de Deus e o bem do homem; a disposição de aceitar qualquer posição, do asilo de pobres ao trono, que Deus designasse; uma prontidão para sofrer perseguição que fazia o opróbrio, a perda de posição, de bens e até da vida parecerem insignificantes demais para serem levados em conta em comparação com a glória que haveria de seguir-se; e uma fé em Cristo que confiava tão inteiramente na sua expiação, que o mais vil se sentia livre e plenamente absolvido — e no seu poder, que o mais fraco se sentia certo de um triunfo glorioso sobre todos os seus inimigos. Se a sua pregação derrubava todo apoio em que o homem, longe do seu Deus, costuma encostar-se, a sua oração parecia colocar sob os pés que afundavam promessas tão sólidas que sustentariam a pessoa ainda que céu e terra passassem. Se a sua pregação levava o pecador às profundezas do desespero, a sua oração o erguia à certeza arrebatadora de receber o amor que perdoa.
O rev. C. G. Finney fez, talvez, mais do que qualquer outro homem da sua geração pelo estabelecimento e difusão do cristianismo na sua pureza. Formado advogado, mas poderosamente convertido ainda jovem, começou de imediato a trabalhar pela salvação dos homens, com um êxito que assombrou a todos — e com uma fidelidade à verdade, uma ousadia, um desprezo dos velhos preconceitos que estorvavam a obra de Deus, e uma oposição aos pecados elegantes e sancionados pela igreja, que provocaram resistência até de homens de destaque e ministros da sua própria denominação. Mas ele atribuía o seu sucesso à oração prevalecente. Certa vez, quando a saúde cedera sob os trabalhos excessivos, fez uma viagem marítima; não obtendo, porém, o benefício esperado, ficou muito abatido diante da perspectiva sombria da obra a que dera a vida. Achava que a oposição aos avivamentos entristecera o Espírito; a sua saúde se quebrantara, e não conhecia outro evangelista para tomar o seu lugar; o jornal que haviam fundado, o New York Evangelist, parecia à beira da falência. Diz ele: “A minha alma estava em plena agonia. Passei quase o dia inteiro em oração no camarote, ou andando pelo convés em intensa agonia, diante do estado das coisas. De fato, sentia-me esmagado pelo fardo que pesava sobre a minha alma. Era o espírito de oração que estava sobre mim — o que muitas vezes eu já experimentara em espécie, mas talvez nunca em tal grau e por tanto tempo. Supliquei ao Senhor que prosseguisse com a sua obra e provesse para si os instrumentos necessários. Depois de um dia de luta e agonia indizíveis na minha mente, ao anoitecer o assunto se esclareceu para mim. O Espírito me ordenou crer que tudo sairia bem e que Deus ainda tinha uma obra para eu fazer; que eu podia descansar; que o Senhor levaria a sua obra avante e me daria forças para tomar nela a parte que ele desejasse. Mas eu não tinha a menor ideia de qual seria o curso da sua providência.”
No regresso a Nova York, para salvar o Evangelist da ruína, proferiu na sua igreja uma série de preleções sobre avivamentos, que o editor publicava. Novos assinantes chegavam à razão de sessenta por dia. As preleções saíram em livro, e doze mil exemplares se venderam tão depressa quanto podiam ser preparados. Circularam na Inglaterra, no Canadá, na Austrália e onde quer que se falasse a língua inglesa; um editor de Londres tirou oitenta mil exemplares; foram traduzidas para o francês, o alemão e o galês. Aonde quer que fossem, eram meio de promover avivamentos. “Mas”, diz esse homem de Deus, “isso não foi sabedoria de homem. Lembre-se o leitor daquele longo dia de agonia e oração no mar, para que Deus fizesse algo por levar avante a obra dos avivamentos e me habilitasse, se assim quisesse, a tomar um rumo que a ajudasse. Tive então a certeza de que as minhas orações seriam respondidas; e tenho considerado tudo o que desde então pude realizar como, num sentido muito importante, resposta às orações daquele dia. O espírito de oração veio sobre mim como graça soberana, concedida sem o menor mérito e a despeito de toda a minha pecaminosidade. Ele apertou a minha alma em oração até que pude prevalecer; e, pelas infinitas riquezas da graça em Cristo Jesus, tenho testemunhado por muitos anos os maravilhosos resultados daquele dia de luta com Deus.”
O dr. James C. Jackson, no Laws of Life, mostra a eficácia da oração num caso que caiu sob a sua própria observação. Foi numa colônia formada principalmente de gente vinda da Holanda — uma comunidade rural simples, de duzentas ou trezentas pessoas ao todo, que em geral professavam religião e pertenciam à Igreja Metodista Protestante.
“Vivia naquela vizinhança um homem intelectualmente tão dotado quanto qualquer outro dali. Era, por natureza, um homem notável; mas era uma criatura pobre, degradada e aviltada, porque era beberrão habitual. Pertencia à igreja e, entre a quinta-feira à noite de uma semana e a da seguinte, conforme as semanas passavam, esse homem tinha a sua farra — uma bebedeira completa —, ficando tão embriagado que precisava ser apanhado e carregado para casa, para a esposa entristecida e os filhos envergonhados. Passada a bebedeira, ia à reunião de oração em disposição muito humilde, rogava aos irmãos e irmãs que orassem por ele para que ficasse sóbrio e ‘perseverasse fiel até o fim’. Oravam por ele, repreendiam-no, criticavam-no, tratavam com ele; ele prometia emenda — e saía e se embriagava de novo. Assim a coisa foi por meses: ele se embriagando e confessando; eles o repreendendo, mas deixando-o na igreja, até que o caso se tornou escandaloso para os de fora, que zombavam dos membros pela incoerência de conservar tal homem no rol. Mas havia ali homens e mulheres muito fiéis, cuja previsão os levava a perceber que, se a igreja não era o lugar próprio para tal homem, então ele era de fato um pária, entregue de corpo e alma ao diabo. Por isso não queriam expulsá-lo, e esperavam que algum dia o poder de Deus viesse sobre ele e o transformasse.
“Numa certa tarde de domingo, creio eu, estando a casa de culto cheia, ao pôr do sol levantou-se uma moça de não mais de dezenove anos, que disse: ‘Tive uma visão de Deus; o meu senso interior foi avivado, e sou levada a levantar-me hoje e dizer que, como igreja, temos seguido um caminho inteiramente errado com relação ao nosso irmão transviado. Ele seguiu um caminho errado. Temos orado a Deus que fortaleça o nosso irmão para que possa vencer o seu vício degradante e tornar-se sóbrio. Trouxemos a pesar sobre ele todos os argumentos ao nosso alcance: apelamos ao seu amor à dignidade, ao amor à esposa e aos filhos, à necessidade de ser sóbrio para sustentá-los com conforto. Dissemos-lhe como desonrava a sua profissão cristã e feria a igreja. Toda consideração moral que pudemos alegar lhe foi apresentada, vez após vez, por quase todos nós. Ora, irmãos e irmãs, há uma coisa que não fizemos: não confessamos a nossa impotência para salvar este homem, nem a total incapacidade dele de salvar-se a si mesmo. Falamos exatamente como se ele pudesse pôr-se acima do poder dominador do seu apetite — e falhamos. Proponho um plano novo: que abramos aqui um espaço e convidemos este homem a vir para o centro; e que nós, que sentimos não ter força para ajudá-lo, insistamos em que ele confesse, não a nós, como costuma fazer, mas a Jesus, que é um pobre, miserável, perdido, degradado e aviltado desgraçado, vergonha de si mesmo e desonra desta igreja; e que se deite aqui com o rosto em terra e clame: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!”, “Senhor Jesus Cristo, salva-me, ou pereço!” Ajoelhados ao seu lado, façamos a mesma confissão a Cristo, e ponhamos todo o fardo de salvar este homem — tirando-o dos ombros dele e dos nossos — sobre Jesus, o nosso Mestre.’
“A assembleia bradou: ‘Amém! Amém!’ ‘É isso!’ ‘Glória a Deus!’ ‘Façam um círculo e deixem o irmão entrar!’ ‘Levemos todos este caso a Jesus!’ E levaram. Puseram-se de pé, formaram um círculo, e nele entrou aquele pobre irmão velho, de olhos avermelhados, decrépito, devasso; e caiu por terra, e eles se ajoelharam ao seu redor e clamaram a Jesus por socorro. Até então eu nunca testemunhara cena semelhante. Por vinte minutos foi como uma Babel — clamores e orações, agonias e gritos, choro e lamento; e então caiu sobre a casa uma quietude — parecia uma onda de paz. Primeiro um, depois outro se levantou e, sem uma palavra, apertaram-se as mãos, despediram-se e saíram tão solenes como se tivessem estado na presença de um morto. O último a levantar-se do chão foi o pobre beberrão. Foi para casa e, daquele dia até o dia da sua morte, nunca mais tocou numa gota de bebida. Recobrou o juízo perfeito e sustentou bem a família. Foi homem de maravilhosa atividade espiritual e esclarecida em toda boa palavra e obra; e, quando morreu, já velho, partiu de nós revestido das graças do Espírito.”
O fracasso dos obreiros cristãos é, na maioria dos casos, um fracasso na oração. A muitos falta a experiência pessoal da graça salvadora; a outros, sabedoria e prudência; a outros, coragem e fidelidade. Mas, se orassem como devem, seriam levados a ver as suas deficiências e a buscar supri-las.
Nada remove tão eficazmente os preconceitos, nem prepara tanto o povo para ouvir com candura a verdade, como uma oração humilde e crente, soprada das profundezas de um coração quebrantado ao ouvido de Deus. Se você é pregador, antes de subir ao púlpito, vá ao quarto de oração e pleiteie com Deus até que a nuvem da sua presença vá com você. Por mais fria que esteja a igreja, que a atmosfera do púlpito seja aquecida pelo sopro do Céu. Seja um homem de oração.
“Vá ao mar, jogue o anzol, e o primeiro peixe que fisgar, tire-o.” (Mt 17.27)
Pescar com anzol não requer ajuda de ninguém. Uma mão hábil, com anzol, linha e isca adequados, pode, onde há peixe em abundância, garantir boa provisão. Muitos tiram daí a maior parte do seu sustento.
Na obra do Senhor, apesar da importância da pregação, muito se pode fazer pelo esforço pessoal. Na guerra, as cidades geralmente não são tomadas só a tiros de canhão: para render a praça, o bombardeio deve ser seguido de um assalto vigoroso. Assim, a verdade proclamada na pregação, para alcançar o seu fim — a salvação da alma —, precisa ser levada ao coração e à consciência do ouvinte por apelo e direção pessoais. Muitos que foram tocados por um sermão ou exortação, mas não o bastante para agir, foram conduzidos a Cristo por alguém que lhes falou algumas palavras fervorosas, saídas de um coração cheio de solicitude pela sua segurança. Uma balança quase equilibrada vira-se com facilidade; assim, quem está “quase persuadido a tornar-se cristão” é plenamente persuadido pelo apelo pessoal de um coração amoroso.
É para que haja muitos preparados para esse trabalho pessoal que os ministros bem-sucedidos procuram, antes de tudo, levar os membros da igreja a um estado de avivamento. John Smith foi pregador notavelmente bem-sucedido da Igreja Wesleyana inglesa, há meio século. Diz o seu biógrafo: “A edificação dos crentes na santíssima fé era objeto principal do ministério do sr. Smith; mas ele nunca considerava esse trabalho verdadeiramente bem-sucedido, a não ser quando os seus resultados se mostravam na conversão de pecadores. Com justiça julgava de ordem muito baixa e duvidosa a edificação que não fosse acompanhada de um espírito de intercessão pelos que estão sem Deus, e das obras da fé e do labor do amor. Argumentava, com razão, que onde não há respostas à oração, o trono da graça não pode estar sendo muito ardentemente importunado; onde não há derramamento do Espírito, a promessa do Espírito não pode estar sendo muito resolutamente pleiteada; onde não há esforço pelos que perecem, não pode haver muito das entranhas de Jesus Cristo; e se uma sociedade cristã pode ser corretamente tida em alto e crescente estado de progresso onde a oração é fria e apressada, a fé fraca e o amor apático — não é preciso grande sagacidade para determinar.”
Muitos foram convertidos pelo esforço pessoal. Foi pelo testemunho da “menina” da sua esposa — cativa e escrava — que Naamã, o general sírio, foi encaminhado ao profeta e convertido à adoração do Deus verdadeiro.
Saulo de Tarso foi convencido de maneira sobrenatural; mas foi pela agência de Ananias, discípulo conhecido, que ele recobrou a vista e ficou “cheio do Espírito Santo” (At 9.17). A obra do Espírito nele foi do caráter mais poderoso; mas não se completou sem a intervenção da agência humana. Se fosse desígnio de Deus que os homens se convertessem sem o auxílio dos seus semelhantes, eis um caso em que isso pareceria mais provável. Até onde sabemos, nenhum mortal teve parte no seu despertamento: foi efetuado inteiramente pelo poder divino. A sua mente não fora voltada ao cristianismo pela leitura, nem por ouvir exposta a verdade como ela é em Jesus. Não estava em disposição de ouvir, se a oportunidade se apresentasse; ao contrário, estava cheio de furor, “respirando ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (At 9.1). “De repente, uma luz do céu brilhou ao seu redor, e ele, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9.3-4). Por que esse homem, assim ferido pelo poder de Deus, não foi logo convertido pelo mesmo poder? Sem dúvida, para nos ensinar que, na salvação do homem, o homem deve tomar parte ativa. Somos todos impotentes sem o auxílio do Espírito Santo — talento, saber, lógica, eloquência nada valem sem o seu poder; e, contudo, vemos que há na salvação das almas um trabalho que o Espírito Santo não costuma fazer senão em conexão com a agência de um crente.
A leitura da Palavra de Deus é importante meio de graça; muitos são convencidos lendo a Bíblia. O tesoureiro da rainha dos etíopes, homem de grande autoridade, foi despertado assim. Mas, para obter a luz necessária, não foi encaminhado a outras partes das Escrituras: Filipe, o evangelista, foi-lhe enviado e, convidado a subir ao carro com ele, “anunciou-lhe Jesus” (At 8.35). Ele deu ouvido atento às instruções, creu, foi batizado e seguiu o seu caminho cheio de alegria (At 8.38-39).
O apóstolo Paulo dava grande ênfase à pregação; apresenta-a como indispensável à obra de Deus. “Como invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” (Rm 10.14-15). Contudo, não confiava, para o êxito, apenas na pregação pública do evangelho. Aos presbíteros da igreja de Éfeso diz: “Vocês sabem como foi que me comportei entre vocês durante todo o tempo, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia, servindo ao Senhor com toda a humildade… jamais deixando de anunciar coisa alguma que fosse proveitosa, e de ensinar publicamente e também de casa em casa, testemunhando, tanto a judeus como a gregos, o arrependimento diante de Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.18-21).
Daqui se vê que o apóstolo não era só pregador laborioso e fiel: fazia também muito do que hoje se chama visitação pastoral. O pastor que falha nisso, por brilhante que seja no púlpito, falha no seu ministério: almas não são salvas pelos seus trabalhos. Pode, talvez, ter no começo um avivamento; mas, se não der atenção pessoal aos convertidos, eles retrocederão nas suas mãos. É impossível a um ministro manter o interesse religioso entre o seu povo, se não sente pelo bem-estar espiritual dele interesse bastante para visitá-lo nos lares. Como é possível, por qualquer tempo, adaptar os discursos públicos às necessidades de um povo, se o pregador não sabe quais são essas necessidades? E como pode conhecê-las tão bem quanto ouvindo-as deles mesmos? Se o pregador não se familiariza com o estado religioso do seu povo, emprestando ouvido paciente à história das suas dificuldades e tentações, a sua pregação será geral e vaga demais para fazer muito bem. Se não convive com o seu povo, mais valeria pouparem a despesa de sustentá-lo e porem um bom declamador para ler do púlpito, cada domingo, um sermão de Robert Hall, de Tillotson ou de Wesley — sermões que teriam mais probabilidade de atender às suas necessidades, pois foram escritos por homens vivos, para as necessidades espirituais do povo a quem foram pregados.
Mais pregadores fracassam por falta de visitação pastoral do que por falta de capacidade no púlpito. Por quinze anos, uma parte do nosso dever tem sido ouvir as queixas do povo contra os seus pregadores. Podemos afirmar com segurança que há dez queixas de falta de visitação pastoral para uma de falta de capacidade e fidelidade no púlpito.
A visita social, para o seu próprio prazer, não atende às exigências do caso. Pode aquietar a sua consciência e torná-lo aceitável a alguns; mas gozar a hospitalidade de amigos é coisa muito diferente de ensinar o povo “de casa em casa”. Qualquer pecador sabe sentar-se a um banquete e desfrutar uma visita com pessoas de gostos e maneiras afins. Quando estiver fazendo isso, não se iluda pensando que está cumprindo uma obrigação para com Cristo e as almas dos homens. Se você é pregador, deve visitar cada família que assiste à sua pregação — e ir também, com a oferta da salvação, aos que não se põem sob nenhuma instrução religiosa. O apóstolo não considerava cumprido o seu dever ensinando os cristãos de casa em casa: testificava “tanto a judeus como a gregos o arrependimento diante de Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21). Faça esse trabalho com ardente anseio pela salvação dos homens, e os resultados logo serão visíveis. Não passe por ninguém. Você não pode ir aonde o Espírito de Deus não tenha ido antes de você. Os mais degradados — e os mais aristocráticos — precisam da sua ajuda. Podem ser orgulhosos demais para pedi-la; mas, se você a oferecer “com toda a humildade”, os casos de rejeição serão raríssimos.
Quando for visitar uma família, converse separadamente com cada um que estiver acessível. Pode haver tantos estados religiosos quantos indivíduos. Não presuma que, porque os filhos são alegres, os pais são indiferentes; nem que os filhos não podem ter sentimento algum porque os pais negligenciam a salvação. Pode ser que, a alguém do lar mais indiferente, Deus o habilite a dizer uma palavra a tempo.
O seu êxito nesse trabalho dependerá em grande parte da sua ternura e simpatia de espírito. Não as finja quando não as sentir — mas, antes de sair, ore no seu quarto até o coração derreter-se de compaixão pelos não salvos. Não trabalhou em vão quem pode dizer a um povo entre o qual serviu: “Portanto, vigiem, lembrando-se de que, durante três anos, não cessei de advertir, com lágrimas, a cada um de vocês, noite e dia” (At 20.31). As censuras endurecem; as lágrimas derretem.
Disse David Cooper: “Eu tinha uma desavença com o vizinho da porta ao lado. Ele me ameaçara de violência se eu algum dia entrasse pela sua porta. Assim que fui plenamente salvo, fui para casa e contei à minha esposa. Deixei-a orando no quarto e, com o coração cheio de amor pelo vizinho que eu odiara, corri à casa dele. Eu devia estar com outra aparência, pois, quando estendi a mão, ele a tomou cordialmente; e, quando lhe pedi perdão, contei o que Deus fizera por mim e o convidei para uma reunião de oração na minha casa naquela noite, ele rompeu em lágrimas e disse: ‘Eu costumava sentir assim há muitos anos, mas hoje estou bem longe disso.’ Naquela mesma noite, porém, ele foi reconduzido aos braços amorosos do Salvador.”
Os ministros às vezes se desculpam dos esforços pessoais pela salvação das almas alegando timidez, ou falta de tempo ou de habilidade. Tais desculpas podem ser bem-intencionadas, mas são ilusórias. A pessoa mais tímida que já existiu, quando cheia do amor de Deus, tem prazer em falar desse amor aos outros. Os que são tímidos demais para falar aos vizinhos sobre a salvação das suas almas mostram-se bem prontos a conversar sobre outros assuntos que lhes interessam. Um ministro nunca dizer nada, na conversa particular, sobre aquilo que pretende advogar no púlpito mostra conclusivamente que não sente interesse real pelo assunto: ama a si mesmo, e não as almas dos seus semelhantes; trabalha pelo salário, e não constrangido pelo amor de Cristo. Você já conheceu político que só defendesse os seus princípios em discursos formais? Ora, ele fala de política aonde quer que vá. Assim, se você está cheio da religião de Jesus, terá algo a dizer em seu favor sempre que a ocasião se oferecer — e criará ocasião onde nenhuma parecer apresentar-se.
Quanto à falta de tempo: use o tempo que tem para fazer primeiro as coisas mais importantes. E que pode haver de mais importante do que salvar a própria alma, mediante esforços fervorosos por salvar as almas dos outros? Esforços públicos bem pagos, sozinhos, não satisfazem as exigências de Cristo. Uma criança precisa de mais cuidado, além das refeições regulares. Os rios são bons no seu lugar, mas não dispensam a necessidade das chuvas. A pregação é importante, mas nunca foi projetada para tomar o lugar do esforço pessoal pela salvação das almas.
John Wesley foi um dos maiores pregadores dos tempos modernos; muitos foram salvos sob a sua pregação. Mas ele viu a necessidade absoluta de dar instrução e conselho pessoais aos despertados, se quisesse colher o fruto dos seus trabalhos. Para efetuá-lo mais prontamente, instituiu as reuniões de classe, nas quais se podem dar a cada indivíduo, por sua vez, as direções que a sua condição espiritual parece exigir. Mas na reunião de classe só se alcançam alguns dos membros mais fervorosos da igreja: o grande mundo dos indiferentes fica de fora. Você deve esforçar-se por alcançá-los. Se não vierem a você, vá você a eles.
Carvosso era um simples lavrador inglês. A posição mais alta que ocupou na igreja foi a de dirigente de classe. Converteu-se pelas orações e esforços da irmã, que, tendo achado o Salvador enquanto trabalhava fora, caminhou doze milhas até a casa da mãe para advertir a família a fugir da ira vindoura. O irmão converteu-se claramente. Pouco depois buscou um coração puro e, em resposta a oração fervorosa, recebeu o pleno testemunho de que o sangue de Jesus o purificava de todo pecado. Andou na luz e, em poucos anos, começou a dirigir reuniões de oração. Alguns foram salvos. O seu alvo era ver almas justificadas e santificadas pelo exercício da fé presente em Cristo. Muitos foram salvos pelos seus trabalhos. Quando obteve, pela indústria e frugalidade, o estritamente suficiente, não o arriscou em especulação: retirou-se dos negócios e entregou-se por inteiro à obra de salvar almas — principalmente por esforços pessoais. O êxito que alcançou parece quase incrível nestes dias em que se depende tanto dos esforços organizados e públicos. Aonde quer que fosse, almas eram convertidas e santificadas pelos seus trabalhos; pecadores descuidados e endurecidos cediam às suas advertências fiéis e súplicas amorosas para buscar a salvação pelo arrependimento imediato e pela fé em Cristo.
Há alguns anos houve notável derramamento do Espírito entre os nativos do Ceilão, sob os trabalhos de missionários americanos. Diz o rev. sr. Winslow, um deles: “Houve poucos casos de convicção permanente em que as impressões religiosas não fossem cultivadas com muito trabalho paciente dos missionários ou dos seus auxiliares, conversando e orando a sós com os indivíduos. Foi essa aplicação repetida e pessoal da verdade que principalmente surtiu efeito.” Assim, para segurar o fruto dos avivamentos, as impressões produzidas em público devem ser acompanhadas de esforços pessoais.
Disse Henry Martyn, quando pensava em partir para missão estrangeira: “Se eu tivesse verdadeiro amor pelas almas, ansiaria e trabalharia pelos que me rodeiam, e depois pela conversão dos pagãos.” E muitas vezes redimia tempo do estudo, do recreio e do convívio dos amigos para entrar nas moradas da miséria, despertar o que dormia sem pensar, ou ministrar consolação ao penitente abatido.
James Brainard Taylor, quando estudante, disse: “Há agora muitas oportunidades de fazer o bem. De muitas choupanas humildes vem o chamado: ‘Passa cá e ajuda-nos.’ Resolvido: com o auxílio do Senhor, pensarei, falarei e agirei como indivíduo; pois como tal devo viver, como tal devo morrer, comparecer diante de Deus e ser condenado ou salvo para todo o sempre. Tenho esperado pelos outros; devo agir como se fosse o único a agir, e não esperar mais.”
Harlan Page era homem de talentos comuns e educação simples, marceneiro de ofício, dependente do trabalho diário para o sustento da família. Converteu-se aos vinte e três anos e, no leito de morte, disse: “Quando obtive esperança pela primeira vez, senti que devia trabalhar pelas almas. Orei ano após ano para que Deus me fizesse instrumento de salvação de almas.” Esse era o fardo do seu coração e o alvo da sua vida. Levou centenas a Cristo pela oração e pelo esforço pessoal. No trabalho, não deixava passar oportunidade de falar da salvação com aqueles com quem tinha contato. Terminado o dia de serviço, apressava-se para uma reunião, ou para conversar e orar com almas aflitas ou descuidadas. Sempre que via produzida uma impressão, acompanhava-a dia após dia, até a pessoa converter-se a Deus ou até sentir — o que era raro — que não havia esperança no caso.
Disse um pregador a respeito do sr. Page, depois da sua morte: “Fui induzido a trabalhar como professor na sua escola dominical e, embora eu estivesse então destituído de fé, ele me acolheu e ganhou a minha confiança e o meu amor. Muito cedo começou a falar comigo, com a maior ternura e solicitude aparentes, sobre a minha própria salvação. As suas palavras desceram fundo no meu coração. Eram palavras estranhas: pois, embora eu vivesse entre professos religiosos, ele foi o primeiro que, em nove ou dez anos, me tomou pela mão e perguntou com bondade: ‘Você é cristão? Pretende ser cristão? Por que não agora?’ Cada domingo seguinte o trazia a mim com indagações solícitas pela saúde da minha alma.” Quase como consequência natural, esse jovem logo se converteu.
Num lugar onde o sr. Page foi trabalhar no seu ofício — cinquenta e sete dias a setenta e cinco centavos por dia —, estabeleceu e manteve uma reunião de oração todas as quartas-feiras à noite, outra no domingo de manhã ao nascer do sol, escola dominical à tarde e reunião de novo à noite; visitou os doentes, os descuidados e os despertados; e tomou medidas para a formação de uma igreja e a colocação de um pastor. Lecionou numa escola por cinco invernos e noutra por dois. De cento e vinte e cinco alunos diferentes, cuja história depois se investigou, verificou-se que oitenta e quatro se haviam tornado cristãos, e seis, ministros do evangelho.
Em 1825 foi nomeado agente da Sociedade Americana de Tratados em Nova York. Uma consideração que o levou a mudar de campo de trabalho foi não conseguir lembrar-se de nenhum jovem, nos limites da congregação a que pertencera, a quem não houvesse falado seriamente, em pessoa ou por carta, sobre a sua salvação. Os seus trabalhos ali foram coroados com a conversão de muitos dos empregados da Casa de Tratados e Bíblias. Disse um dos seus associados: “Durante os nove anos em que trabalhamos juntos, não sei de uma só conversa com ele, longa o bastante para haver troca de pensamento e sentimento, em que eu não recebesse dele um impulso rumo ao Céu — um impulso adiante no dever para com Deus e as almas dos homens.”
Depois da morte desse homem de Deus, levantou-se por subscrição um fundo de dois mil dólares para socorro da sua família. Um mecânico, que deu dez dólares, contou que certa manhã, estando sentado sozinho na igreja, aonde chegara cedo, “entrou um homem simples e, sentando-se ao meu lado, depois de saudação bondosa, disse: ‘Confio que você ama o Salvador?’ A pergunta encheu-me os olhos de lágrimas no mesmo instante. A vida toda, em New Hampshire, haviam pregado para mim à distância; mas foi a primeira vez na vida que um cristão, com tanta bondade e franqueza, fez tal pergunta ao meu coração. Conversamos bastante. A seu pedido, dei-lhe o meu nome e endereço. No dia seguinte ele veio à minha oficina e me trouxe o tratado ‘O caminho da salvação’. Voltou vez após vez. Interessei-me por ele, no domingo seguinte entrei para a sua escola dominical, fui levado, como espero, a Cristo, e logo me uni à igreja.”
Não seria o mesmo grau de vida santa, de devoção à obra de salvar almas e de fé em Deus acompanhado, hoje, de resultados semelhantes? Então não diga que nada pode fazer porque a morte espiritual reina ao seu redor. Se o seu coração está cheio de amor por Cristo e de compaixão pelos semelhantes, você pode achar alguém a quem influenciar. Persevere nos seus esforços; use todos os expedientes próprios, em que o amor é tão fecundo, para ganhar homens para Deus.
Nesse trabalho você precisará de sabedoria celestial. Se se puser a ele apenas para cumprir o dever, falando de religião com os homens sem respeitar as conveniências reconhecidas da vida, fará mais mal do que bem. Se você mesmo é salvo e trabalha honestamente por salvar outros, mas não vê resultado, deve indagar com cuidado se não há algo errado na sua maneira de trabalhar. Não é verdade que devamos cumprir o dever, contentar-nos em nada ver feito e deixar os resultados com Deus. Não nos contentaríamos com isso na pesca nem na lavoura: buscaríamos os resultados desejados; não os obtendo de um modo, tentaríamos outro; se víssemos outros terem êxito onde falhamos, procuraríamos aprender o seu segredo e aproveitar o seu exemplo. Por que não na salvação de almas? Você não vai pescar só porque está desocupado: escolhe a hora em que julga que os peixes morderão a isca. Assim, para alcançar os homens, escolha a hora em que for maior a probabilidade de cederem à sua influência. Tempo, lugar e maneira — tudo deve ser levado em conta.
Não peça abruptamente a um estranho que lhe revele o seu estado espiritual. Mostre-lhe primeiro que você merece a sua confiança. Se parecer intrometido, os homens de bom senso o evitarão. Enquanto você não ganhar a confiança daqueles com quem conversa, de pouco adiantará instar com eles sobre as exigências de Cristo.
Evite espírito e maneira controversos. Não faça afirmações exageradas, quase certas de provocar oposição. Seja manso no espírito, cândido, sincero e comedido nas expressões, moderado na maneira. “O servo do Senhor não deve viver brigando, mas deve ser bondoso para com todos, apto para instruir, paciente. Deve corrigir com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele para fazerem a sua vontade” (2Tm 2.24-26). Pese estas palavras. Se você é “servo do Senhor”, elas se dirigem a você, e são imperativas: “não deve”, “deve ser”. Se você faz o que aqui se lhe diz que não deve fazer — se deixa de ser o que se lhe diz que deve ser —, não se admire de que, ao tentar salvar almas pelo esforço pessoal, colha fracassos tão aflitivos. Não desista em desespero: venha a Deus em busca das qualificações necessárias.
Cuide de não desanimar aqueles a quem quer ajudar. O que houver de bom neles, reconheça-o francamente antes de apontar as deficiências. A repreensão impelida pelo amor, e alada pelo louvor, atinge o alvo. Foi esse o caminho que o Salvador glorificado tomou com os pastores desviados das igrejas da Ásia: louvou-os pelo que era bom e censurou-os pelo que era mau; e em cada caso lhes mostrou o caminho do livramento. “Não quebrará o caniço rachado, nem apagará a torcida que fumega” (Is 42.3). Ainda que alguém, por quedas e fracassos repetidos, esteja a ponto de desistir de ser cristão, não lhe diga que, já que não tem graça bastante para salvá-lo, é melhor desistir. Embora a chama da devoção tenha morrido tão completamente que só reste um pouco de fumaça, não a pisoteie com indignação: ajude a soprá-la em chama.
Num exército, o soldado covarde ou incompetente, carregado pelos camaradas, pode entrar exultante na vitória; mas, no combate corpo a corpo, cada um se sustenta pelos próprios méritos. Assim, num avivamento, podem festejar a vitória os que pouco contribuíram para ganhá-la; mas, no esforço pessoal pelas almas, só tem êxito quem é impelido pela verdadeira graça no coração e guiado, no seu caminho, pela sabedoria que vem do alto.
“Então fizeram sinais aos companheiros do outro barco, para que fossem ajudá-los. Eles foram e encheram ambos os barcos, de modo que quase iam a pique.” (Lc 5.7)
Para apanhar peixes grandes, ou peixes pequenos em grande quantidade, vários homens precisam trabalhar juntos. O melhor pescador não tenta, sozinho, capturar baleias: os navios baleeiros são bem tripulados e sob disciplina estrita. Para recolher a rede que Simão lançou à ordem de Cristo, foram precisas as tripulações unidas de dois barcos.
Por pequena que seja a força de qualquer ser vivo, junte-se um número suficiente deles, e realizarão maravilhas. O gorgulho é um inseto quase invisível a olho nu; e, contudo, por anos devastou os melhores trigais de uma vasta região. As ilhas de coral do oceano Pacífico são construídas, desde o leito rochoso do mar, por pólipos — pequenos animais da ordem mais baixa. E algumas dessas ilhas têm cinquenta milhas de comprimento por vinte de largura. Esses animais aquáticos ergueram um recife-barreira ao longo das costas da Nova Caledônia por quatrocentas milhas, e outro que corre pela costa nordeste da Austrália. Esses montes foram construídos em meio às ondas e tempestades do oceano; e, em comparação com eles, os maiores monumentos da força física do homem — as muralhas da Babilônia, a Grande Muralha da China e as pirâmides do Egito — se reduzem à insignificância. Mostram-nos o que pode ser efetuado por quem labuta pacientemente, em conjunto, para a realização de um objetivo comum.
Se tão poderosas realizações podem ser efetuadas por animais sem inteligência, que não se poderia razoavelmente esperar dos cristãos, se trabalhassem juntos para edificar o reino de Deus entre os homens, com a energia incansável do Espírito Santo operando com eles? Foi sem dúvida em vista dessas possibilidades que o nosso Salvador orou tão fervorosamente para que os seus discípulos fossem unidos: “Pai santo, guarda-os em teu nome, que me deste, para que eles sejam um, assim como nós” (Jo 17.11). E de novo ora para que essa união se estenda: “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim por meio da palavra deles; a fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, que também eles sejam em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste” (Jo 17.20-21). É impossível conceber união mais íntima do que a que se pede nestas palavras. Cristo e o Pai sempre trabalharam juntos na mais completa harmonia; eram, em natureza e essência, um. Os crentes assim unidos jamais trabalharão uns contra os outros.
O maravilhoso avivamento do dia de Pentecostes foi resultado de um esforço unido. “Estavam todos reunidos no mesmo lugar” (At 2.1). Não faltou um só dos que deviam estar ali. Eram todos de um só coração; nenhuma divisão de sentimento estorvava as suas orações. E havia terreno de sobra para dissensão. Pouco antes da crucificação de Cristo, Pedro o negara. Jurar em vão é pecado grave; que alguém convertido o cometa mostra terrível estado de afastamento de Deus, e os cristãos naturalmente seriam lentos em devolver a confiança a tal pessoa. Mas Pedro não só praguejara e jurara: jurara que não conhecia a Cristo. Contudo, o seu arrependimento foi cordialmente aceito; e não parece que, na luta prolongada de oração pelo derramamento do Espírito, alguém tenha sugerido, como razão de a bênção não vir, que a confissão de Pedro não fora bastante pública e humilde. Tomé fora bem livre em exprimir a sua convicção de que Cristo não ressuscitara — e todos sabemos como a incredulidade retém a bênção de Deus. Mas ninguém repreendeu Tomé pela sua incredulidade. Não se punham a achar defeito uns nos outros. A sua fé e as suas orações unidas foram coroadas com a conversão de cerca de três mil almas.
Paulo compara a igreja ao corpo humano: “Assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também é Cristo” (1Co 12.12). Como os membros do corpo desempenham, cada um, as suas funções para o bem do todo, assim os cristãos, que formam o corpo de Cristo, devem trabalhar juntos, em harmonia, pelo avanço da sua causa. “Os olhos não podem dizer às mãos: Não precisamos de vocês; nem ainda a cabeça, aos pés: Não preciso de vocês” (1Co 12.21). O alvo desse belo capítulo é gravar nos cristãos — quaisquer que sejam os seus dons e a posição que ocupem na igreja — a importância de estarem unidos em espírito e de trabalharem juntos, com um só alvo e um só propósito: difundir o reino de Cristo na terra.
Não há vínculo de união como as influências subjugadoras do Espírito de Deus. Os corações, como o gelo, quando derretidos, correm juntos onde há oportunidade. Mas tal é a necessidade da união, que mesmo os que têm o Espírito não devem confiar apenas na sua tendência natural de unir todos os que o têm: devem fazer esforço positivo por manter a comunhão com os filhos de Deus. “Esforcem-se diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Há somente um corpo e um Espírito, como também vocês foram chamados numa só esperança da sua vocação” (Ef 4.3-4).
Se você quer, pois, ser pescador de homens, deve aprender a trabalhar em harmonia com os outros. Um ministro do evangelho, para ter êxito, precisa, ao menos em certo grau, da capacidade organizadora e diretiva de um general: deve traçar o plano da campanha e adestrar, disciplinar e dirigir as suas forças. Como a qualidade de um exército depende muito do seu general, assim a de uma igreja depende do seu ministro.
Para ter a cooperação dos outros, você precisa saber ceder às opiniões alheias tanto quanto comandar. Raros, de fato, são os homens que sempre fazem o que querem — e esses nunca se acham na igreja de Jesus Cristo. A lição da submissão é uma que todo seguidor dele, sem exceção, deve aprender. O bispo, o mais alto oficial da sua igreja, não deve ser “arrogante” (Tt 1.7). Essa qualificação é imperativa — pois, se for obstinado na própria vontade, dividirá e espalhará quando devia edificar a igreja de Deus. Pregadores de grande capacidade, de piedade inquestionável e rara diligência, mas que insistem em fazer tudo do seu jeito, geralmente têm bem pouco fruto a mostrar dos seus trabalhos. Para governar os outros, você deve governar-se a si mesmo. Não presuma que os que não concordam com você em tudo são contra você e contra a obra de Deus. Homens bons podem divergir no juízo. Paulo e Barnabé estavam entre os melhores dos homens, mas nem sempre viam as coisas do mesmo modo. “Paulo disse a Barnabé: Vamos visitar os irmãos em todas as cidades em que anunciamos a palavra do Senhor, para ver como estão. Barnabé queria levar também João, chamado Marcos. Mas Paulo não achava justo levar alguém que havia se afastado deles desde a Panfília, não os acompanhando no trabalho. Houve entre eles tal desavença, que acabaram se separando. Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre. Mas Paulo escolheu Silas e partiu, encomendado pelos irmãos à graça do Senhor” (At 15.36-40). Não parece que algum deles tenha agido com maldade no caso. Ambos tinham graça bastante para discordar e, ainda assim, prosseguir na obra do seu Mestre, sem voltar ao mundo nem à velha igreja judaica. Mas alguns, que se dizem cristãos, parecem incapazes de discordar dos seus conservos sem abandonar a Cristo. Se não podem fazer as coisas do seu jeito, não fazem nada pela causa de Deus. Esses ainda têm de aprender a primeiríssima lição do discipulado.
Para ter a cooperação dos outros, você deve guardar-se de um espírito ciumento. O louvor e a censura nem sempre são distribuídos com discernimento: alguns homens são superestimados, outros subestimados. Você pode ser dos últimos. Não desanime por isso. Vem o tempo em que cada um será recompensado “segundo as suas obras” (Ap 22.12). Você bem pode esperar. Trabalhe o melhor que puder e da melhor maneira, e deixe que outros recebam o crédito, se for preciso; não dê atenção a isso — tudo sairá certo no fim. Enquanto a pregação de outro for acompanhada de melhores resultados que a sua, não tema que ele o suplante no afeto do povo: antes, promova-o quanto puder. Você achará o que fazer. Se o seu coração está na obra, verá vários modos de ajudá-la.
Num acampamento onde havia abundância de excelente ajuda, dissemos a um ministro capaz e experiente, a quem não havíamos convidado a pregar, que ele estava fazendo mais com o seu canto do que possivelmente faria pregando. Não que a sua pregação não fosse interessante e instrutiva — mas o seu canto atendia, naquele momento, a uma necessidade que a pregação não atenderia. O êxito de uma reunião depende, muitas vezes, tanto de outras coisas quanto da pregação. Bons pregadores são mais numerosos que bons administradores. Não despreze os seus dons porque não são iguais aos dos outros; não tenha ciúme dos outros porque, em algum dom particular, o superem. Torne-se participante dos benefícios desse dom, dando-lhe a maior oportunidade possível de exercício e procurando extrair dele os melhores e maiores resultados. Você realizará muito mais pondo os outros a trabalhar do que tentando fazer tudo sozinho.
Em quase toda igreja há quem tenha dom especial de exortação ou de oração. Chame-o à atividade. Tanto quanto possível, use os dons, e também a graça, de todos quantos puder, para edificar o reino de Cristo. Se Deus lhe deu uma esposa cuja palavra é abençoada para a edificação do povo, encoraje-a a fazer todo o bem ao seu alcance. Aonde quer que tenha ido, o evangelho tem sido o amigo especial da mulher e melhorado grandemente a sua condição. Por que, então, não se lhe permitiria usar ao máximo a sua influência para difundir as suas bênçãos? Entendem mal as Escrituras os que pensam que elas ensinam que a mulher não pode empregar todos os métodos próprios ao homem para persuadir os outros a vir a Cristo.
Para assegurar a cooperação dos outros, você deve pedir — e estar disposto a receber — o conselho dos outros. Ser pregador e “guiado pelo Espírito” não significa saber tudo. Onde outros, além de você, estão envolvidos na ação a ser tomada, eles têm o direito de ser consultados. A sabedoria de todos é maior que a de um. Você sem dúvida receberá sugestões de valor prático; e aqueles que você chamou aos seus conselhos farão da obra uma causa comum, e o apoiarão com um ardor que não poderiam sentir se a sua conduta parecesse dizer: “Respondo somente a Deus. Não é da conta de vocês para onde ou como conduzo; vocês devem seguir.” Quaisquer boas qualidades que você tenha, com esse espírito lhe faltará apoio. Você pode dizer: “O povo não fica ao lado da verdade” — mas em grande parte é a sua má administração que faz com que não fique. Onde alguém age como quem pensa que pode levar tudo sozinho, os outros se inclinam a deixá-lo tentar. Ele repele, pela autossuficiência, os que teriam prazer em ajudar. Quem é verdadeiramente guiado pelo Senhor tem espírito humilde e ensinável, que o dispõe a aprender com os outros.
Moisés falou com Deus como nenhum outro homem jamais falou; as leis que estabeleceu, recebeu-as da boca de Deus. Quando o sogro viu que se podia, com vantagem, mudar o seu modo de administrar a justiça, deu a Moisés, sem ser solicitado, o seu conselho — e era sobre matéria acerca da qual Deus dava a Moisés plenas instruções. Mas Moisés não rejeitou o conselho por ser ensinado por Deus: “Moisés atendeu às palavras de seu sogro e fez tudo o que este lhe havia dito” (Êx 18.24).
Se você é pregador encarregado de uma igreja e tem uma junta oficial, consulte-a em todos os assuntos relativos à igreja — especialmente em tudo o que envolva despesa. Um pregador não tem o direito de contrair dívida para outros pagarem. Um bom entendimento no começo pouparia, muitas vezes, um sério desentendimento no fim. Tal é a natureza humana, que os homens muitas vezes resistem ao que sabem ser certo, sem razão melhor do que a que tiveram os homens de Israel para a sua revolta contra o rei — não terem sido consultados pelos homens de Judá: “Por que vocês nos desprezaram, não nos consultando primeiro sobre trazer de volta o nosso rei?” (2Sm 19.43). Você pode dizer que querer ser consultado em assuntos de interesse comum é fraqueza de que os cristãos deviam estar livres; mas, se não estão, é pior que fraqueza agir como se estivessem — e meter-se em apuros, e a causa de Deus em descrédito. E não é fraqueza: homens de quem se espera que gastem dinheiro e forças têm o direito de ser consultados, pessoalmente ou por seus representantes, quanto ao tempo, ao modo e ao objeto. “Não havendo sábia direção, o povo cai, mas na multidão de conselheiros há segurança” (Pv 11.14). “Com medidas de prudência você fará a guerra” (Pv 24.6).
Aconselhe-se com homens de idade, sabedoria e experiência, e não imite Roboão, filho de Salomão, para não perder, como ele, a maior parte do seu reino: “Porém ele desprezou o conselho que os mais velhos lhe tinham dado e tomou conselho com os jovens que haviam crescido com ele e o serviam” (1Rs 12.8).
Em suma: se você quer assegurar a cooperação dos outros na obra de Deus, precisa ser completamente salvo do egoísmo. Não deve ter fins pessoais a alcançar, nem objetivo egoísta a garantir. Se você trabalha com êxito pelas almas, você e os seus companheiros de trabalho devem estar unidos pelo amor constrangedor de Cristo.
É certo aceitar a ajuda dos não convertidos? Ao trabalhar pela causa de Deus, é certo pedir ou aceitar a ajuda dos não salvos — dos que nem sequer professam ser cristãos? É pergunta prática, e só pode ser respondida corretamente à luz das Escrituras.
Salomão solicitou a ajuda de Hirão, rei de Tiro, na construção do templo. Não conheço evidência de que Hirão fosse adorador do Deus verdadeiro. Era amigo de Davi e de Salomão; prestou a ajuda pedida, e não parece ter exigido pagamento além do alimento necessário ao sustento dos seus homens. As vinte cidades que Salomão depois lhe deu parecem ter sido dádiva voluntária — de sorte que não se poderia dizer, em sentido próprio, que Salomão comprou o material e alugou os operários de Hirão. O judaísmo era muito mais exclusivista que o cristianismo: dos judeus se exigia apenas conservar a sua religião; aos cristãos se ordena difundir o cristianismo. Se, pois, foi certo pedir material e trabalho para a construção do templo a Hirão, rei de uma nação idólatra, concluímos que é certo pedir a homens do mundo ajuda para construir igrejas cristãs.
Os anciãos dos judeus vieram a Cristo e lhe rogaram que curasse o servo de um centurião romano, que estava doente, à beira da morte. “Rogavam-lhe com instância: Ele é digno de que lhe faças isto, porque é amigo do nosso povo, e ele mesmo nos construiu a sinagoga” (Lc 7.4-5). Cristo não repreendeu os judeus por terem recebido de um soldado romano um lugar de culto; antes, curou logo o servo do centurião.
O Salvador encoraja a todos a fazer o bem aos seus discípulos, contanto que seja por motivo reto. “Quem recebe vocês, recebe a mim; e quem me recebe, recebe aquele que me enviou. Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa de profeta; quem recebe um justo, por ser justo, receberá a recompensa de justo. E quem der ainda que seja apenas um copo de água fria a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade lhes digo que de modo algum perderá a sua recompensa” (Mt 10.40-42). Nada se diz aqui sobre o caráter da pessoa que pratica o ato pelo qual a recompensa é prometida. Pode ser o maior pecador da terra: será recompensado por um ato específico, sem consideração do que mais tenha feito ou deixado de fazer. O motivo requerido não é de natureza geral, implicando disposição graciosa do coração; é um motivo pelo qual até um homem mau pode agir: receber — tratar com bondade e hospedar — um “justo” ou um “profeta”, um ministro do evangelho, simplesmente por ser justo ou ministro do evangelho. Quem o recebeu pode ter sido enganado — o ministro pode revelar-se indigno —, mas quem o recebeu porque levava o nome e tinha a aparência de ministro de Jesus Cristo de modo algum perderá a sua recompensa. Cumpriu as condições; Cristo empenhou a palavra de que será recompensado — e essa palavra será fielmente cumprida.
Não há indicação de qual será a recompensa; mas será amplíssima. Cristo não é mesquinho no cumprimento das suas promessas. “Deus, porém, com a sua destra, o exaltou a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e o perdão de pecados” (At 5.31). Ele dá como Príncipe; livra como Salvador. Sendo as bênçãos espirituais as maiores que um mortal pode ter, se aquele que dá dos seus bens por amor de Cristo quiser aceitá-las, receberá sem dúvida de Cristo, como Salvador, o perdão dos pecados e a adoção na família de Deus. Mas, ainda que continue no mal, terá de Cristo bênçãos temporais muito maiores do que as que concedeu.
São muitos os casos dos que deram o primeiro passo para Deus fazendo algo pela sua causa.
Anos atrás, quando o dr. Pitman realizava reuniões prolongadas na Filadélfia, a agitação era grande, e havia muita perturbação. Certa noite, ele pediu, do modo mais gentil, a um jovem atlético que o ajudasse a manter a ordem. O solicitado era carroceiro de ofício e chefe dos arruaceiros. Aceitou o encargo e cumpriu fielmente o dever; foi convencido do pecado e convertido, e tornou-se um dos pregadores mais bem-sucedidos e estimados da Filadélfia e de Nova York.
Contou o fazendeiro Alford — que, de escarnecedor e homem aparentemente endurecido contra toda influência religiosa, se tornara cristão devotado e pai zeloso da igreja: “A minha história merece ser contada, nem que seja só para mostrar a maravilhosa bondade de Deus para com um velho pecador como eu. Vocês sabem que sujeito improvável eu era para a graça trabalhar. Minha esposa ia todo domingo à escolinha onde se faziam as reuniões dominicais (não havia igreja aqui então), e eu vagava pelos campos no tempo seco e, quando chovia, lia o almanaque do lavrador e os jornais dentro de casa. Os meus dois meninos geralmente iam à reunião com a mãe; pois, embora eu desprezasse tais coisas, gostava demais da minha esposa para atormentá-la retendo os meninos em casa; além disso, ela tinha um jeito de usar a Bíblia, a pregação e coisas assim para fazê-los comportar-se como deviam.
“Pois bem, num sábado à noite ela lhes falava de um novo ministro que pregaria no dia seguinte. Chamava-se Clark, disse ela; estabelecera-se anos antes no lugar onde morava o irmão dela e o assistira no leito de morte. Ela o conhecera no funeral do irmão e o julgava pregador fora do comum, e esperava grande prazer em vê-lo e ouvi-lo no dia seguinte. Tudo isso ouvi com o meu descaso habitual. Mas, quando soube, na manhã seguinte, que a escolinha ardera até o chão durante a noite, senti alguma pena da decepção de Polly. Falávamos disso à mesa do café, e um dos meus meninos disse que o diácono Jones andara pela vizinhança (alguns eram membros da igreja) procurando um lugar para a reunião daquele dia numa casa particular, mas ninguém parecia disposto a ter o incômodo. Veio-me um pensamento: eu mostraria a eles que um homem sem nenhuma pretensão de religião era mais generoso e prestativo do que eles. Disse então à minha esposa: ‘Podem fazer a reunião hoje no meu celeiro novo; está limpo e é grande o bastante para a cidade inteira.’ Polly ergueu os olhos, radiante, disse que era uma ideia excelente e mandou Jamie correr para avisar o diácono. O bom velho morava sozinho numa cabana pequena e não tinha acomodações para coisa alguma, mas ficou contentíssimo com o celeiro. Enquanto os meninos corriam a aldeia dando aviso, o diácono e eu carregamos umas tábuas e as arrumamos como assentos.
“Pois era um bom lugar, e as reuniões se fizeram ali o verão todo. O sr. Clark, o velho conhecido da minha esposa, foi persuadido a ficar e pregar. Eu tinha certa curiosidade de ouvi-lo, e queria ver como ficaria uma reunião num celeiro. Então costumava esgueirar-me pela casa até uma grande macieira, de onde podia olhar e ouvir sem ser visto. Ouvi assim algumas verdades certeiras; mas fechei o coração contra elas o quanto pude.
“Num domingo de agosto, logo depois que o celeiro ficou cheio de feno e grão, a ponto de ser difícil abrir espaço para a reunião, ouvi por acaso o ministro orar para que o Senhor protegesse a farta colheita que eu ajuntara e me recompensasse pela bondade para com o seu povo, recolhendo-me ‘como trigo ao celeiro celestial’. Fiquei bastante tocado pela oração; e quando, naquela noite, caiu uma tempestade furiosa e dois celeiros da vizinhança foram consumidos por raios, enquanto o meu escapou ileso, as minhas emoções se aprofundaram em assombro. Senti-me envolvido pela presença de Deus. Ele parecia muito perto de mim. E, em vez de vir como vingador, para me pagar pelo meu longo desprezo e impiedade, apareceu-me como amigo bondoso, embora ofendido, esperando reconciliar-se e ansiando por abençoar-me. Entrei sozinho no celeiro e, escondendo o rosto, lancei-me de joelhos com o clamor: ‘Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!’ E ali ele me encontrou — o meu Salvador por tanto tempo negligenciado. Ali me mostrou o seu amor — amor tão grande que podia salvar o principal dos pecadores — e me deu fé para crer e aceitá-lo. Quando a igrejinha que construímos durante o verão ficou pronta e foi dedicada, eu — trazido assim à undécima hora, tição arrebatado do fogo — tive a permissão de oferecer-me publicamente ao Senhor. E logo os meus dois meninos, e não poucos vizinhos, me seguiram para dentro do reino.”
Apelar aos mundanos para que ajudem a sustentar a igreja por considerações mundanas — para satisfazer o orgulho ou o apetite — é grave injustiça aos homens e insulto a Cristo. É reencenar o crime de Esaú, “que, por causa de uma única refeição, vendeu o seu direito de primogenitura” (Hb 12.16). É ensinar os homens a desprezar Cristo, aceitando a satisfação momentânea do orgulho ou do apetite no lugar da recompensa que Cristo prometeu. É roubá-los daquilo em comparação com o qual o ouro não tem valor. É educar o povo a trabalhar com a mão de cristão e o coração de pagão. Para levantar dinheiro para o sustento do pregador, alugam-se ou vendem-se bancos — e a acepção de pessoas na casa de Deus se reduz a sistema. Em benefício das escolas dominicais promovem-se, sob os auspícios da igreja, festivais, loterias, jogos e teatros. Não faltam casos de arruinados na mesa de jogo que tomaram a primeira lição de jogo no festival da igreja.
Se, pois, você pede ajuda para o sustento ou a difusão do cristianismo, não alegue motivos senão cristãos; não empregue argumentos senão cristãos. “Quem contribui, que o faça com generosidade e simplicidade” (Rm 12.8) — que o faça simplesmente porque deve, e não em parte porque, fazendo-o, pode gozar boa companhia e sentar-se a um banquete suntuoso. Leve os homens maus a fazer todo o bem que puderem por respeito a Cristo e amor aos seus discípulos.
“Indo adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e o seu irmão João, que estavam no barco, com o pai, consertando as redes; e chamou-os.” (Mt 4.21)
As redes são os instrumentos com que se apanham os peixes, e é bem necessário que se mantenham em ordem: se estão rasgadas, os peixes escapam.
A verdade é o instrumento com que as almas são trazidas a Deus. “Vocês conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32). O erro escraviza; a verdade põe a alma em liberdade. Os homens se perdem pela rejeição persistente da verdade: “para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, mas tiveram prazer na injustiça” (2Ts 2.12).
A verdade pela qual os homens são salvos acha-se na Bíblia. “Todos os teus mandamentos são verdade” (Sl 119.151). Foram entregues de era em era e reunidos num só volume sagrado, que chegou até nós. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17).
Deus não faz revelação especial da sua vontade a cada indivíduo. A inspiração que ele promete é a que nos habilita a entender a Palavra escrita, e não a que a substituiria. “Quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele os guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e lhes anunciará as coisas que virão” (Jo 16.13).
Quem quer, pois, fazer a vontade de Deus e ensiná-la aos outros deve estudar a Bíblia, para entender qual é essa vontade e como aplicá-la corretamente a todas as várias relações da vida. “Vocês examinam as Escrituras, porque pensam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim” (Jo 5.39). Se você quer ganhar almas, o que quer que saiba ou deixe de saber, deve conhecer “as sagradas letras, que podem torná-lo sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2Tm 3.15). Para esse conhecimento não pode haver substituto. Nenhuma familiaridade com obras de história, filosofia, ciência ou mesmo teologia pode tomar o lugar de um conhecimento profundo da Palavra de Deus. Alguém pode ser formado por um colégio e por um seminário teológico e, ainda assim, não saber manejar “a espada do Espírito, que é a palavra de Deus” (Ef 6.17) — e, nesse caso, será superado, no conflito com o erro, por homens de muito menos conhecimento geral, mas familiarizados com a Bíblia. Poucos podem apreciar a força dos argumentos metafísicos; mas a Palavra de Deus traz autoridade. O mecânico não faz bem o seu trabalho se não sabe que ferramentas usar, como usá-las e onde encontrá-las quando necessárias. Assim, para edificar os outros na fé e na santidade, você deve saber que porção da Palavra de Deus se adapta ao caso de cada um. Para isso, deve familiarizar-se com todos os livros da Bíblia — pois quase cada capítulo contém alguma nova ilustração ou aplicação da verdade. “Procure apresentar-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2Tm 2.15). Para manejar bem a palavra da verdade, você deve conhecê-la bem no todo e em todas as partes. Suponha que você desse instruções a alguém que trabalhasse para você: ficaria satisfeito se ele deixasse de inteirar-se dessas instruções para estudar qualquer outra coisa, por importante que fosse? Assim, quem quer ser “aprovado diante de Deus” deve estudar a Palavra de Deus.
O povo antigo de Deus precisava de bem menos tempo que nós para aprender a sua lei, pois só uma pequena porção das Santas Escrituras fora então escrita. Mas exigia-se dele a máxima diligência, cedo e tarde, no estudo da lei de Deus. Devia ser o seu dever diário; devia empregar todo recurso para mantê-la diante da mente. “Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração. Você as inculcará a seus filhos, e delas falará sentado em sua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-se, e ao levantar-se. Também as amarrará como sinal na sua mão, e elas serão por frontal entre os seus olhos. E as escreverá nos umbrais de sua casa e nas suas portas” (Dt 6.6-9). Diz Josefo que as crianças judias deviam aprender as leis antes de tudo: “Aprendam também as crianças as leis, como a primeira coisa que se lhes ensina — o que será a melhor coisa que se lhes pode ensinar e a causa da sua futura felicidade.”
Embora a nossa tradução seja excelente, aconselharíamos a quem puder que estude as Santas Escrituras no original: assim beberá mais plenamente do seu sentido. Para uma pessoa de educação comum, aprender a fazê-lo não é tarefa tão grande quanto geralmente se imagina. Embora as letras e palavras hebraicas sejam todas diferentes das nossas, a construção da língua é simples e fácil de aprender. Quando estávamos na escola, o pregador metodista do lugar entrou na turma de hebraico. Bom pregador, era, porém, aprendiz lento de línguas; ajudávamos-lhe regularmente a preparar a lição. Estudou hebraico apenas um período letivo. Pouco depois, contudo, publicou num periódico da igreja uma série de artigos cheios de críticas hebraicas, e tão grande foi o crédito que ganhou, que o fizeram doutor em divindade. A língua grega é mais difícil de aprender que a hebraica. E, embora exija tempo aprender o sentido das diferentes palavras das Escrituras originais do Antigo e do Novo Testamento, qualquer pessoa comum pode obter, com três meses de estudo diligente, tal conhecimento do hebraico ou do grego que consiga, com a ajuda da gramática e do léxico, apurar a seu contento o sentido de qualquer texto numa dessas línguas originais. Quem o tentar com fidelidade considerará bem empregado o seu tempo.
O melhor método de estudar as Escrituras é questão em que as opiniões podem divergir. Recomendamos ler a Bíblia toda, cuidadosamente, em sequência — o que se pode fazer facilmente uma vez por ano. Porções dela — como o Sermão do Monte, alguns capítulos do Evangelho de João e das profecias de Isaías, e alguns Salmos — devem ser cuidadosamente decoradas e conservadas na memória: fornecerão alimento para a reflexão e material para pensamento e conversa proveitosos. Tome as doutrinas importantes do cristianismo e, com a ajuda de um índice bíblico e de uma concordância, veja o que a Bíblia diz a respeito delas. Aprenda, a ponto de repetir com exatidão, os textos-prova mais importantes e os lugares onde se acham. Assim você se tornará teólogo quase sem saber como, e será provido, do próprio arsenal do Céu, de armas de ataque e defesa. Satanás é bem versado nas Escrituras: cada um dos seus assaltos ao nosso Salvador veio apoiado num texto da Bíblia corretamente citado, mas erradamente aplicado. É esse um modo de guerra favorito, em que ele e os seus ministros são peritos. Você deve poder enfrentá-lo, como o nosso Salvador, com um “Também está escrito”, introduzindo citação apropriada da Palavra de Deus.
Para obter o entendimento correto de qualquer texto, você deve compará-lo com outras passagens que tratam do mesmo assunto. Se uma declaração geral numa passagem é qualificada por outra sobre o mesmo tema, a declaração geral deve ser tomada com a qualificação. Assim, o mandamento “Não mate” (Êx 20.13) é qualificado pela declaração “Quem derramar o sangue do ser humano, pelo ser humano o seu sangue será derramado” (Gn 9.6). As expressões figuradas devem ser explicadas pelas que, sobre o mesmo assunto, evidentemente se tomam em sentido literal. Não se deve levar uma figura longe demais, fazendo-a ensinar mais do que se pretendia. Toda doutrina deve apoiar-se em declarações claras da Bíblia, e todas as interpretações fantasiosas das Escrituras devem ser evitadas.
Mas, embora o conhecimento divino seja muito preferível quando não se pode ter outro senão à sua custa, o saber humano não deve, de modo algum, ser tido em pouco. Conhecer as ciências naturais ajuda muito a entender as Escrituras: a beleza e a força de muitas alusões e ilustrações bíblicas escapam a quem ignora a filosofia natural. O estudante cândido da natureza e da Bíblia dificilmente deixará de ver que o mesmo Deus é autor de ambas. Como diz o bispo Butler: “O todo da religião é, de ponta a ponta, crível; nem há, penso eu, coisa alguma relativa à dispensação revelada mais diferente da constituição e curso experimentados da natureza do que algumas partes da constituição da natureza o são de outras.” Os homens de ciência que rejeitam a Bíblia não se dão ao trabalho de estudá-la cuidadosa e candidamente — ou veriam que ela está em harmonia com a ciência. Diz Hugh Miller, da geologia, ciência em que era bem versado: “É verdadeiramente maravilhoso quão perfeitamente, no seu escopo geral, o registro revelado se encaixa no registro geológico.” E acrescenta que, juntando os dois registros — o revelado na Escritura e o revelado nas rochas, ambos emanados do mesmo grande Autor —, aprendemos que, em lenta e solene majestade, período sucedeu a período, cada um introduzindo uma cena de existência mais e mais alta, até que o homem responsável, “feito à imagem de Deus” e com domínio sobre todas as criaturas, entrou por fim num mundo amadurecido para recebê-lo; e que esta cena passageira, em que ele é a figura proeminente, não é a final da longa série, mas apenas a última das cenas preliminares — e que o período de que as eras passadas formam o imponente vestíbulo terá a perfeição por ocupante e a eternidade por duração.
A história também deve ser estudada, conforme o tempo e a oportunidade permitam. A mão de Deus pode ser vista na história da nossa raça; e um conhecimento profundo dela, e das profecias da Bíblia, demonstrará que essas predições só podem ter vindo da inspiração de um Ser onisciente. Não sabemos onde se possa achar epítome mais fiel e abrangente da história do mundo do que no capítulo sétimo das profecias de Daniel. Uma mente devota pode achar, na história de qualquer nação, razões para amar e servir a Deus.
A literatura, a matemática — em suma, todo ramo do conhecimento humano — podem ser usados com vantagem na obra de ganhar almas para Deus. O evangelho sempre foi amigo do saber, e quem quer trabalhar com êxito para difundir as suas bênçãos deve aproveitar as oportunidades de adquirir conhecimento útil. Mas, como todos os rios correm para o mar, de onde invisivelmente vieram, assim todo conhecimento deve reconduzir a alma a Deus, seu Autor. Quando John Selden, o mais douto dos juristas ingleses, estava para morrer, disse: “Percorri a maior parte do saber que há entre os filhos dos homens, e o meu gabinete está cheio de livros e manuscritos sobre vários assuntos; contudo, de todos esses livros e papéis não consigo lembrar uma só passagem em que possa descansar a minha alma, salvo uma das Sagradas Escrituras.”
Salmasius foi um dos homens mais doutos da era de Milton. Aos dez anos traduzia Píndaro e compunha versos gregos e latinos. Balzac o declarava infalível; e os curadores da Universidade de Leiden, da qual foi por muitos anos professor, declararam que “a sua universidade não podia passar sem Salmasius, como o mundo sem o sol”. E, contudo, esse grande homem disse no leito de morte: “Oh, perdi um mundo de tempo! Se mais um ano se acrescentasse à minha vida, seria gasto na leitura dos salmos de Davi e das epístolas de Paulo.”
John Wesley era homem de saber variado. Contudo, diz: “Quero saber uma coisa: o caminho para o Céu. O próprio Deus condescendeu em ensinar o caminho; para este exato fim veio do Céu. Ele o escreveu num livro! Oh, dá-me esse livro! A qualquer preço, dá-me o livro de Deus! Eu o tenho: aqui há conhecimento que me basta. Seja eu homo unius libri — homem de um livro só. Aqui estou, pois, longe dos caminhos atarefados dos homens; sento-me sozinho: só Deus está aqui. Na sua presença abro e leio este livro, para este fim: achar o caminho do Céu. Há dúvida quanto ao sentido do que leio? Algo parece obscuro ou intrincado? Levanto o coração ao Pai das luzes: Senhor, não é esta a tua palavra? ‘Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça a Deus’, que ‘dá a todos liberalmente e nada lhes censura’. Tu disseste: ‘Se alguém quiser fazer a tua vontade, conhecerá.’ Eu quero fazê-la: faze-me conhecer a tua vontade. Então busco e considero as passagens paralelas da Escritura, ‘comparando as coisas espirituais com as espirituais’. Medito nisso com toda a atenção e seriedade de que a minha mente é capaz. Se ainda resta dúvida, consulto os experimentados nas coisas de Deus, e também aqueles que, mortos, ainda falam pelos seus escritos. E o que assim aprendo, isso ensino.”
Se você quer estudar muito, terá de pôr-se a isso com determinação. Há tanto que interessa, tanto que ocupa a mente, que, se você não separar certas horas do dia para os seus livros e, em circunstâncias normais, não insistir em tê-las livres de interrupção, pouco realizará em matéria de estudo. Quaisquer que sejam os seus talentos naturais, se negligenciar o estudo, você se tornará intelectualmente indolente e incapaz de qualquer grande esforço mental. Embora no começo estudar possa ser trabalho duro, a mente, como o corpo, fortalece-se com o exercício, e o que era difícil no princípio torna-se fácil com a prática. Para um pregador ser estudioso, requerem-se diligência e perseverança. Se ele está inteiramente consagrado a Deus, pode, enquanto trabalha diariamente pela salvação das almas, acrescentar cada dia algo ao seu cabedal, de modo a tornar-se, com o tempo, erudito preciso e útil homem de Deus.
Em 27 de setembro de 1782, um jovem irlandês de dezoito anos saiu como pregador itinerante entre os metodistas da Inglaterra. Era pequeno para a idade, tinha os rudimentos das letras, estava profundamente convertido e ansiava por conhecer a Deus tal como revelado na Bíblia e nas suas obras. Estava inteiramente consagrado a fazer a vontade de Deus e nada buscava senão o favor de Deus e a salvação das almas. A oração era o seu exercício contínuo, e a Bíblia, o seu único livro: lia-a frequentemente de joelhos e muitas vezes a molhava de lágrimas. O seu circuito abrangia partes de três condados e tinha trinta e um pontos de pregação. Pregava todos os dias, leu a cavalo quatro volumes de história da igreja e começou o estudo do hebraico. Depois foi enviado a circuitos com quarenta compromissos; em onze meses pregou quatrocentos e cinquenta sermões. Percorrendo esses grandes circuitos, Adam Clarke lançou o fundamento de conhecimento tão extenso que o colocou nas fileiras dos homens mais doutos da Inglaterra. E jamais, por amor do estudo, abateu o seu zelo pela salvação das almas: em dezesseis anos pregou seis mil seiscentos e quinze sermões; durante os três anos em que esteve estacionado em Londres, caminhou mais de sete mil milhas para pregar o evangelho na cidade e nos arredores. Tornou-se tão famoso pelo saber, que as mais altas sociedades literárias se consideravam honradas com a sua adesão; universidades lhe conferiram os graus mais honrosos, e príncipes lhe prestaram homenagem. Em meio a todas essas honras, o seu zelo pela salvação das almas, e a sua simplicidade e fervor na pregação, jamais declinaram. O alvo de todos os seus estudos era ser pregador mais eficaz. Diz ele: “A única pregação que vale algo na conta de Deus, e que o fogo não consumirá, é a que trabalha por convencer o pecador dos seus pecados, levá-lo à contrição, convertê-lo deles, conduzi-lo ao sangue da aliança, para que a sua consciência seja purificada da culpa, e ao espírito de juízo e de fogo, para que seja purificado da sua infecção; e então edificá-lo nesta santíssima fé, levando-o a orar no Espírito Santo e a guardar-se no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna. Este é o sistema seguido pelos apóstolos, e é o único que Deus abençoará para a conversão dos pecadores. Falo pela experiência de quase cinquenta anos no ministério público da Palavra. Trabalhe por trazer pecadores a Deus, ainda que com isso você se leve à sepultura. Evite parafrasear um livro ou epístola inteira numa série de discursos: é tedioso e costuma produzir muitos dorminhocos.”
Nem todo pregador chegará a ser um Adam Clarke; mas raro é aquele a quem Deus chama a dedicar todo o tempo à obra do ministério que não possa, com a devida diligência, adquirir saber suficiente para pregar em qualquer lugar com aceitação.
Thomas Walsh nasceu e foi criado na Igreja Católica Romana, perto da cidade de Limerick, na Irlanda. Os pais eram papistas fanáticos. Despertado pelo Espírito de Deus para o senso da sua pecaminosidade, buscou descanso para a alma confessando-se ao padre, indo à missa e pelos vários métodos em uso naquela igreja. Não achando paz, foi persuadido pelo irmão — que fora destinado ao sacerdócio, mas renunciara ao papado por causa dos seus muitos erros — a estudar as Escrituras. Assim fez, e depois foi ouvir os metodistas pregarem. Foi profundamente despertado, solidamente convertido, claramente santificado — e logo depois, no seu vigésimo ano, começou a pregar. Era jovem sem polimento, com os rudimentos de uma educação, e cheio de amor ardente por Deus e pelas almas. Alguns se converteram quase imediatamente sob os seus trabalhos. Os padres levantaram perseguição contra ele, mas Deus lhe deu favor junto ao povo simples. Para alcançá-lo mais facilmente, estudou o Novo Testamento no irlandês nativo e pregava-lhe nessa língua expressiva. Tal era a sua crescente popularidade, que, para detê-la, um padre disse ao povo que “aquele Walsh, que algum tempo antes se tornara herege e andava pregando, morrera havia muito; e que quem então pregava daquela maneira era o diabo na sua figura”. Mas nada podia intimidá-lo. Por dois ou três anos percorreu a sua Irlanda natal, pregando nos montes, nas praças de mercado, nas estradas, nos comuns, em salas, em navios e onde quer que se pudesse reunir uma congregação — regularmente duas, e muitas vezes três vezes por dia. Em 1753 foi enviado a Londres. Pregava constantemente duas vezes ao dia, visitava as famílias e assistia aos doentes e moribundos. Em meio a todos esses trabalhos, achou tempo para tornar-se o melhor hebraísta do seu tempo. O amor às Escrituras levou-o a querer entendê-las nas línguas originais. Depois de adquirir algum conhecimento do Testamento grego, tomou algumas lições de hebraico com um judeu de Londres. Interessou-se profundamente por esse estudo, no qual cria ter especial assistência divina. No seu diário acha-se este registro: “20 de dezembro de 1756. Passei a manhã nos meus estudos, nos quais Deus grandemente me tem assistido e assiste. Há um ano, por esta época, eu não podia ler com certeza uma frase de hebraico, nem construir um versículo com desembaraço. Agora posso ler a minha Bíblia inteira e entendê-la quase tão bem como em latim ou inglês. Isto fez Deus, habilitando-me a ler a sua bendita Palavra na primeira e melhor das línguas. Oh, sejam todos os meus estudos e talentos devotados à sua glória!”
Como andava o tempo todo de lugar em lugar, trabalhando e vivendo principalmente entre os pobres, as suas oportunidades de estudo não eram o que consideraríamos as melhores. Mas dele se diz: “Prosseguia no seu trabalho quase igualmente, em todos os tempos e lugares, salvo quando a doença o impedia. Parecia tender espontaneamente para Deus. Sempre, depois de pregar, retomava imediatamente os estudos (trazia livros sempre consigo), e isso muitas vezes enquanto várias pessoas conversavam ou se ocupavam ao seu redor; ele prosseguia no trabalho como se estivesse recolhido num gabinete, procedendo segundo o sentimento de que não tinha outro negócio neste mundo senão orar, pregar, estudar e viver, em todo lugar e em tudo, para Deus.” No vigésimo oitavo ano de idade, após breve enfermidade, morreu exclamando: “Ele veio! Ele veio! O meu amado é meu, e eu sou dele — dele para sempre!”
A seu respeito escreveu John Wesley: “Conheci, há uns vinte anos, um jovem tão profundamente familiarizado com a Bíblia que, se lhe perguntassem por qualquer palavra hebraica do Antigo Testamento ou grega do Novo, dizia, após breve pausa, não só quantas vezes uma ou outra ocorria na Bíblia, mas também o que significava em cada lugar. Chamava-se Thomas Walsh. Tal mestre de conhecimento bíblico nunca vi antes, nem espero ver de novo.”
Não recomendamos a ninguém estudar e trabalhar tão duramente como esse homem de Deus — pois as suas fadigas excessivas provavelmente lhe encurtaram os dias; mas não há dúvida de que a maioria de nós poderia, sem prejudicar a saúde, aproveitar o seu exemplo.
Diz Charles G. Finney da sua formação: “Quando fui a Adams estudar direito, eu era quase tão ignorante de religião quanto um pagão. Fui criado, na maior parte, nos bosques; tinha pouquíssimo respeito pelo domingo e nenhum conhecimento definido da verdade religiosa.” Frequentou a escola comum até os quinze ou dezesseis anos; por volta dos vinte, dedicou-se ao magistério e, por duas temporadas, frequentou uma escola secundária, obtendo algum conhecimento de latim, grego e hebraico. “Mas”, diz ele, “nunca fui erudito clássico, nem jamais possuí tanto conhecimento das línguas antigas que me julgasse capaz de criticar com independência a nossa tradução inglesa da Bíblia.” A sua conversão foi clara e jubilosa; na mesma noite em que se converteu, recebeu o batismo do Espírito Santo, e na manhã seguinte foi chamado a pregar. Obedeceu de imediato ao chamado. Disse a um cliente que entrou no escritório para lembrá-lo de uma causa que devia defender naquela manhã: “Diácono B., recebi procuração do Senhor Jesus Cristo para advogar a sua causa, e não posso advogar a sua.” Imediatamente — naquele mesmo dia — irrompeu um avivamento sob os seus trabalhos. Por quarenta anos empenhou-se com êxito em promover avivamentos por todo este país e na Inglaterra. Contudo, achou tempo para estudar e tornou-se um dos primeiros teólogos do seu tempo. Tomou o Colégio de Oberlin na sua infância e, diante da oposição mais amarga e persistente, conseguiu, com a ajuda dos seus cooperadores, edificar uma instituição que tem abençoado o mundo.
John P. Durbin esteve entre os mais eminentes pregadores metodistas deste país. Ocupou com crédito as mais altas posições: foi editor do Christian Advocate, capelão do Senado dos Estados Unidos e presidente do Colégio Dickinson. Nasceu no condado de Bourbon, Kentucky, em 1800. A região era então nova, e as suas vantagens de educação eram as que uma região nova oferece. Convertido aos dezoito anos, em poucos meses foi enviado a percorrer um circuito. O seu primeiro circuito tinha duzentas milhas de volta. Ali começou os estudos nas cabanas dos pioneiros, que consistiam num único cômodo. Achou um exemplar do comentário de Clarke em fascículos, que tomava emprestado — dois fascículos por vez —, guardava numa lata e amarrava atrás da sela. Terminadas a pregação e a classe, sentava-se aos estudos, com pena e tinta para tomar notas. Nas noites de inverno, a sua luz vinha de nós de pinho e lenha seca. Assim dominou as obras de Clarke, Fletcher e Wesley. No ano seguinte teve um colega que entendia de gramática inglesa e, com a sua ajuda, logo se tornou proficiente nela. Perto do fim do ano, conheceu o dr. Ruter, erudito clássico, que o aconselhou a estudar latim e grego e lhe deu gramáticas. Ele as transcreveu e, sem negligenciar os deveres do circuito, preparou-se para o colégio com a ajuda que pôde obter. No ano seguinte foi enviado a um circuito a poucas milhas da Universidade de Miami, onde estudava de segunda a sexta. O povo reclamou um pouco no começo; mas ele tinha tal sede de saber, e os servia tão bem e fielmente enquanto estava com eles, que o encorajaram no seu caminho. Enviado a Cincinnati, terminou ali o curso superior com tanto crédito, que foi logo admitido ao grau de mestre em artes.
Dizia muitas vezes ter adotado como máxima, nos primeiros sete anos do seu ministério, o dito de Jó: “Fiz aliança com os meus olhos; como, pois, olharia eu para uma virgem?” (Jó 31.1). Durante todos esses anos evitou a sociedade e nunca foi visto caminhando ao lado de uma dama. Levantava-se invariavelmente às cinco no verão e às seis no inverno, e sentava-se aos livros até o meio-dia; à tarde cavalgava ao seu compromisso ou fazia visitas pastorais, e recolhia-se às nove ou dez.
Os drs. Dempster e Henry B. Bascom, e outros famosos na Igreja Metodista deste país pelo seu saber, adquiriram-no principalmente enquanto cumpriam, com êxito notável, os deveres de pregadores itinerantes em grandes circuitos.
A grande razão por que mais dos jovens pregadores, a quem Deus chamou à sua obra, não fazem progresso acentuado no saber e na utilidade não está na falta de talento ou de oportunidade, nem no excesso de trabalho, mas na falta de devoção alegre e de todo o coração a Deus. Amam demais a sua comodidade. Estão, boa parte do tempo, num estado de torpor intelectual, relutantes em fazer qualquer esforço que lhes exija as energias. Pode parecer duro dizê-lo — mas o dizemos com amor, e na esperança de despertar para a ação alguma alma adormecida.
Se queremos conservar o nosso frescor e a nossa utilidade, devemos continuar os estudos enquanto pudermos. Sempre há oportunidade de melhorar. Disse Thorvaldsen, o grande escultor dinamarquês: “Percebo agora que estou envelhecendo, pois estou satisfeito com o meu trabalho.” Quando Edmund Burke, um dos maiores estadistas da Inglaterra, foi cumprimentado pelo seu gênio, respondeu: “Todo o gênio que conheço é o estudo árduo.” Diz Ambrósio, um dos mais celebrados pais da Igreja: “Os homens devem aprender antes de começar a ensinar; e, qualquer que seja a proficiência alcançada, não há quem não precise ser ensinado enquanto viver.”
Cristo chama os seus seguidores de discípulos; e discípulo é aprendiz. Busquemos sempre, pois, “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).
“O seu peixe cheira mal, porque não há água, e morre de sede.” (Is 50.2)
Todo ser vivo, para prosperar, deve estar no seu elemento nativo. Se, num viveiro de peixes, a água faltasse e os peixes começassem a morrer, a primeira coisa a fazer seria deixar entrar a água. Esperar até poder separar os fracos e moribundos dos sadios seria perder o viveiro inteiro.
Se uma organização chamada igreja se compõe principalmente de desviados de Deus, ou de pessoas que nunca se converteram, ou das duas classes combinadas, de pouco adianta tentar impor-lhe a disciplina piedosa. O que se precisa é de um avivamento de religião. As águas da vida devem ser derramadas sobre ela até que todos, exceto os irremediavelmente perdidos, sejam reavivados — os moribundos recuperados e os mortos restituídos à vida. Então, sem dano aos vivos, aqueles de quem não há esperança, e que são opróbrio para a causa de Cristo — “os peixes que cheiram mal” —, poderão ser lançados fora.
Para termos ideia correta da disciplina — por quem e de que maneira deve ser exercida —, parece necessário apresentar brevemente a ideia neotestamentária da constituição da igreja de Cristo. A palavra traduzida “igreja” é, no original, ekklesia, de ekkaleo, chamar para fora, convocar. A palavra ocorre com frequência no Novo Testamento e em toda parte é traduzida “igreja”, exceto no capítulo 19 de Atos, onde três vezes se traduz “assembleia”. É chamada muitas vezes “igreja de Deus” — uma vez, “igreja de Cristo”.
Os ministros não constituem a igreja. Em Atos 15.22 lemos que “pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja”. Logo, os apóstolos e presbíteros não eram toda a igreja. Em Apocalipse 1.20, diz Jesus: “As sete estrelas são os anjos [ministros] das sete igrejas, e os sete candelabros são as sete igrejas.” Os pregadores, pois — chamem-se apóstolos, bispos ou presbíteros —, não são a igreja. Devem ser parte dela, mas não são a igreja mesma; a sua voz não é a voz da igreja — pode coincidir com ela, ou não. Se algum dia houve ministros que pudessem, com alguma aparência de propriedade, presumir agir pela igreja, foram os apóstolos; e, se houve período em que tal assunção de autoridade seria apropriada, foi quando o cristianismo estava sendo plantado, os velhos preconceitos eram fortes e não havia exemplos anteriores para instrução. Mas, quando surgiu na igreja primitiva uma questão de piedade prática — se os convertidos gentios deviam ou não ser circuncidados —, TODA A IGREJA foi consultada, e a sua decisão foi tida como resolução do assunto. “Judas e Silas, homens notáveis entre os irmãos”, foram escolhidos para acompanhar os apóstolos e anunciar a decisão; o que fizeram, “e consolaram os irmãos com muitas palavras, e os confirmaram”. Isso dá algum apoio às pretensões ministeriais tão comuns nos nossos dias? Ainda que se pudesse provar que a igreja é infalível, não se seguiria que o papa é infalível; pois nem papa, nem cardeais, nem bispos, nem conferências de pregadores são a igreja, e o seu decreto não é, portanto, o decreto da igreja. São simplesmente servos da igreja: úteis enquanto se mantêm no seu lugar, usurpadores quando, no seu orgulho e arrogância, dominam a herança de Deus.
A verdadeira igreja compõe-se dos que, pela fé em Cristo, são salvos do pecar. Os seus membros pertencem a Cristo; são o seu povo. Mas o seu povo é salvo “dos seus pecados” (Mt 1.21). Se Jesus não salva uma assembleia ou povo dos seus pecados, ela não é a sua igreja: é uma pretendente; não lhe pertence. A verdadeira igreja é santa — não só de nome, mas de fato. “Quem é esta que aparece como a alva do dia, formosa como a lua, brilhante como o sol, imponente como um exército com bandeiras?” (Ct 6.10). Tal é a descrição geral da igreja dada na Palavra de Deus.
Assim, ao dirigir-se a igrejas particulares, os apóstolos falam delas do mesmo modo, como compostas de salvos do pecado. A epístola aos Romanos, Paulo a inscreve: “a todos os amados de Deus, que estão em Roma, chamados santos” (Rm 1.7). Todo aquele a quem o evangelho é pregado é chamado a ser santo; mas os crentes de Roma eram chamados santos porque o eram de verdade, e a sua fé era “proclamada em todo o mundo”. A primeira epístola aos Coríntios dirige-se “à igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados santos”. Temos aqui: (1) a igreja de Deus; (2) a descrição paulina daqueles de que se compõe. Não são os que ouvem a verdade pregada e recebem as ordenanças, mas os santificados em Cristo Jesus — não os que esperam sê-lo quando morrerem. Levam vida tão santa, são tão diferentes do mundo, que são chamados santos. Na segunda epístola aos Coríntios, Paulo e Timóteo dirigem-se “à igreja de Deus que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia”. A epístola aos Efésios começa: “Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que vivem em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus.” Aos Filipenses, a saudação de abertura é: “Paulo e Timóteo, servos de Cristo Jesus, a todos os santos em Cristo Jesus, que vivem em Filipos, com os bispos e diáconos.” A epístola seguinte é endereçada “aos santos e fiéis irmãos em Cristo que se encontram em Colossos”. Pedro inscreve a sua primeira epístola aos “eleitos… segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”; e a segunda, “aos que conosco obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”. Por que as igrejas, como tais, eram comumente tratadas como santos, ou santificados, se em geral não sustentassem esse caráter? Exceções individuais sem dúvida havia; mas o caráter geral da igreja era tal, que se falava dela, como corpo, como possuidora de alto grau de santidade.
A palavra traduzida “santo” é hagios — a mesma que, no original, se traduz “santo/sagrado”. E é por essa palavra que os membros da igreja são comumente designados no Novo Testamento. Não são chamados muitas vezes “cristãos” — só três vezes em toda a Escritura; mas cerca de sessenta e oito vezes, no Novo Testamento, são chamados santos. Deve haver razão para essa fraseologia. Não será esta? A palavra “cristão” — e muito mais palavras como católico e protestante, metodista e batista — pode facilmente ser usada em sentido especulativo ou partidário: aplica-se aos que dão assentimento intelectual a certas verdades, ou se identificam com partidos religiosos. Mas a palavra “santo” refere-se primariamente ao caráter individual: descreve menos o credo do que o estado do coração. Implica pureza pessoal — uma vida escondida com Cristo em Deus. Tem a ver não só com a cabeça, mas muito mais com os afetos, a vontade e a vida de cada dia. De quem leva esse nome espera-se, no Céu e na terra, que seja íntegro em todo o trato com os semelhantes e ande diante de Deus em toda humildade e obediência.
A disciplina, pois, deve ser exercida por cada igreja como um todo, e não pelos ministros sozinhos. Os apóstolos não assumiram tal autoridade. Quando os gentios começaram a converter-se em grande número, alguns fariseus tornados cristãos insistiram que esses convertidos fossem circuncidados e obrigados a guardar a lei de Moisés (At 15.5). A questão foi remetida aos apóstolos e presbíteros em Jerusalém (At 15.2). Eles a levaram à igreja; e, depois de plenamente discutida, a decisão foi dada por todos em conjunto: “Então pareceu bem aos apóstolos e aos presbíteros, com toda a igreja, enviar a Antioquia homens escolhidos dentre eles”; “e por meio deles escreveram: Os irmãos, tanto os apóstolos como os presbíteros, aos irmãos de origem gentílica… saudações” (At 15.22-23). Note que os apóstolos não reivindicaram a prerrogativa de resolver a questão por si mesmos: estiveram associados À IGREJA tanto no deliberar quanto no decidir. Paulo, escrevendo à igreja de Corinto sobre matéria de disciplina, diz: “Não julgam vocês os que estão de dentro?” (1Co 5.12).
O exercício da disciplina é tarefa desagradável, e com demasiada frequência é deixado só ao pregador. A responsabilidade da igreja não pode ser lançada fora desse modo. O pregador é propenso demais a ficar cego para o seu dever, enquanto o ofensor assiste ao seu ministério e paga pelo seu sustento. Assim, muitos que não são cristãos são iludidos a crer que o são, porque não recebem indicação em contrário, e permanecem, ano após ano, membros em plena comunhão na igreja. O cristianismo é corrompido aos olhos do mundo: os pensadores concluem que não há nada nele, e os que não pensam aceitam como genuína a religião corrente.
Grande vigilância deve ser exercida na admissão de membros à igreja. Não há no Novo Testamento autorização para admitir à igreja cristã homem ou mulher que não professe conversão.
Mas, seja qual for o cuidado na recepção de membros, alguns, mesmo nas circunstâncias mais favoráveis, cairão da graça. Dos doze apóstolos, um se tornou apóstata. Às igrejas da Galácia escreveu Paulo, provavelmente menos de um ano depois de plantadas: “Estou admirado de que vocês estejam abandonando tão depressa aquele que os chamou na graça de Cristo, para seguirem outro evangelho” (Gl 1.6). É evidente, pelas epístolas dos apóstolos, que na maioria das igrejas primitivas havia quem tivesse perdido, ou jamais possuído, o caráter cristão.
Em todos os casos de falha manifesta em viver como cristão, o primeiro passo é a admoestação bondosa e séria, e a oração importuna. Devem ser vigorosamente empregadas enquanto houver esperança. O objetivo da disciplina eclesiástica não é satisfazer ressentimento, nem simplesmente vindicar a igreja, mas salvar a alma e dar aviso oportuno aos outros. “Repreenda na presença de todos os que vivem no pecado, para que também os outros temam” (1Tm 5.20). Não diz: “Cortem-nos fora.” Quando um membro da igreja de Corinto se fez culpado de crime “que nem mesmo entre os gentios” se nomeava, Paulo ordenou: “Expulsem esse perverso do meio de vocês” (1Co 5.13). Mas estava ele indignado com quem trouxera tal opróbrio sobre a igreja? Diz: “Foi em meio a muita tribulação e angústia de coração que escrevi a vocês, com muitas lágrimas” (2Co 2.4). E, quando soube que o homem verdadeiramente se arrependera, encarregou-os de perdoá-lo cordialmente: “de modo que vocês devem, pelo contrário, perdoar-lhe e consolá-lo, para que não seja consumido por excessiva tristeza. Por isso, peço que confirmem o amor de vocês para com ele” (2Co 2.7-8). Isso mostra que a grande ansiedade do apóstolo era ver salvo aquele pecador flagrante. A perícia do médico manifesta-se na cura de pacientes que os médicos em geral consideram incuráveis. Assim, o poder de uma igreja se vê, não no número de pessoas respeitáveis e morais que consegue recolher ao seu redil, mas nos abertamente ímpios que salva, transforma em santos e apresenta “como virgem pura a Cristo” (2Co 11.2).
Com nenhuma classe se requer maior ternura do que com os errantes — pois o pecado endurece e desanima. “Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vocês, que são espirituais, corrijam essa pessoa com espírito de brandura; e cuide cada um de si mesmo, para que não seja igualmente tentado” (Gl 6.1). Se é homem rico, não passe por alto a sua falta, ainda que a igreja precise muito da sua ajuda: mostre que você se importa mais com a salvação da sua alma do que com o seu dinheiro. Se é pobre, não o expulse com dureza, como quem está ansioso por livrar-se dele. Num caso e noutro, com toda mansidão e amor, faça esforço decidido por trazê-lo de volta a Deus. A linguagem do apóstolo implica que não há dúvida da sua recuperação, se os meios próprios forem usados: as suas palavras são absolutas e imperativas; fala como se o fracasso estivesse inteiramente fora de questão. Não diz: “Façam o possível por restaurá-lo”, mas ordena em termos incondicionais: “corrijam essa pessoa com espírito de brandura”. Se essa direção fosse fielmente cumprida, haveria menos casos de retrocesso entre os verdadeiramente convertidos: os pés do errante seriam reconduzidos ao caminho da retidão antes que se desgarrasse para longe.
Nos casos de injúrias pessoais, as direções do nosso Salvador são explícitas: “Se o seu irmão pecar contra você, vá argumentar com ele em particular. Se ele o ouvir, você ganhou o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve ainda consigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. E, se ele não os atender, diga-o à igreja; e, se recusar ouvir também a igreja, considere-o como gentio e publicano” (Mt 18.15-17). É evidente, por estas palavras, que o alvo não é punir o ofensor, mas recuperá-lo. Quem está ansioso por tirar os outros da igreja de Cristo não tem direito de estar nela. Se tivesse espírito verdadeiramente cristão, a sua ansiedade seria ver aquele que gravemente o ofendeu levado ao arrependimento e restaurado ao favor de Deus. Assim orou Estêvão pelos que lhe davam morte cruel: “Senhor, não lhes impute este pecado” (At 7.60). É a manifestação desse espírito que prova sermos filhos de Deus: “Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês; desse modo, vocês se tornarão filhos do Pai celestial” (Mt 5.44-45).
Se devemos sentir e agir assim para com pecadores declarados, quanto mais para com os que estão ligados à igreja de Cristo! Sobre essa disposição bondosa para com os errantes a Bíblia põe a maior ênfase. Não é mencionada só uma ou duas vezes: a sua necessidade é ensinada muitas vezes, por preceito e por exemplo. “Revistam-se, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de profunda compaixão, de bondade, de humildade, de mansidão, de paciência. Suportem uns aos outros, perdoem-se mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outra pessoa. Assim como o Senhor perdoou vocês, perdoem também uns aos outros” (Cl 3.12-13). Se você tem queixa contra alguém, vá a ele com ela; esteja pronto a aceitar explicações razoáveis; suporte e perdoe. “Sejam bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-se mutuamente, como também Deus, em Cristo, perdoou vocês” (Ef 4.32). O perdão implica que houve ofensa.
Este, pois, é o primeiro passo na disciplina eclesiástica: esforçar-se por restaurar o errante. Tudo depende do espírito com que se faz. Se você se aproxima de quem se desviou de modo frio e oficial, como um detetive, ou com ar orgulhoso e condescendente, há pouca perspectiva de fazer-lhe bem. Mas, se, em “espírito de brandura”, sentindo que, sob a mesma tentação, talvez você não tivesse feito melhor, você se empenha honestamente em levá-lo ao arrependimento, será quase certo o êxito. E que incentivo há para seguir esse caminho! “Meus irmãos, se algum de vocês se desviar da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele e cobrirá multidão de pecados” (Tg 5.19-20). O “pecador” de que se fala aqui era um irmão, como está implícito nas palavras “algum de vocês”.
Mas que fazer com os que, depois de todos os cuidados, permanecem impenitentes e incorrigíveis? Pode havê-los: alguns entrarão na igreja sem jamais terem sido convertidos; alguns podem recusar-se a andar na luz, até que a luz que neles havia se torne trevas, a consciência se cauterize e o coração se endureça. Deve a igreja tratá-los como se estivessem em estado de salvação? Isso seria fazer-lhes grande dano, talvez irreparável: seria enganá-los — quem sabe — para a perda das suas almas. Por muito que contribuam para o sustento da igreja, ela não pode permitir, por amor do seu dinheiro, que desçam enganados à perdição. Por mais que os suporte, deve constantemente adverti-los de que estão em posição perigosa. As direções do apóstolo são das mais claras e positivas: “Irmãos, ordenamos a vocês, em nome do Senhor Jesus Cristo, que se afastem de todo irmão que viva desordenadamente e não segundo a tradição que de nós receberam” (2Ts 3.6). Todo cristão verdadeiro sabe quão quase impossível é ter verdadeira comunhão com quem não manifesta espírito cristão nem leva vida piedosa. O apóstolo nos diz aqui que não devemos tentar ter comunhão com os que praticam o mal. O Espírito de Deus nos seus filhos e a Palavra de Deus sempre concordam. Se alguém é obstinado — não guarda o seu lugar, não se submete à disciplina própria, nem vive segundo a Palavra de Deus —, não o tenha por cristão na comunhão; mas tenha compaixão dele e faça o máximo ao seu alcance pela sua salvação. “Todavia, não o considerem por inimigo, mas o adverte como irmão” (2Ts 3.15). Seja bondoso com ele e procure ganhá-lo de volta ao seu dever. Essa classe de ofensores deve, enquanto permanecer nesse estado de impenitência, ser suspensa dos privilégios especiais dos membros da igreja: não se lhes deve permitir participar da santa comunhão, nem testemunhar em público — a menos que seja para confessar que se desviaram. A suspensão deve continuar até que o ofensor se torne verdadeiramente penitente, ou endurecido além de toda esperança.
Daqueles que, depois de devida paciência e trabalho, não se emendam, e dos que vivem em qualquer pecado escandaloso, é dever de toda igreja de Jesus Cristo separar-se. “Mas agora estou escrevendo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for imoral, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou ladrão; com essa pessoa vocês nem devem comer juntos” (1Co 5.11). Não deve haver da nossa parte ato algum que se possa legitimamente interpretar como reconhecimento de que ele é cristão.
Mas não devemos concluir apressadamente, por evidência insuficiente, que “alguém que se diz irmão” tem tal caráter. Satanás é “o acusador dos nossos irmãos” (Ap 12.10), e os seus filhos seguem o mesmo ofício. Parte — e muitas vezes a parte principal — da perseguição a que os filhos de Deus estão sujeitos compõe-se de falsas acusações. Jó sofreu assim: primeiro do próprio Satanás, depois dos próprios amigos. O nosso Salvador foi chamado — e isso pelos professos filhos de Deus — “comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19). Os mártires, em geral, não foram mortos por serem santos, mas por serem tidos como transgressores da lei, obstinados e perversos; muitas vezes acusados de crimes contra a humanidade. Não sejamos, pois, prontos demais a crer em tudo o que se diz contra um irmão. Se formos cândidos e afetuosos, livres de preconceito e de espírito partidário, teremos o direito de reivindicar, em toda matéria em que nos caiba decidir, a sabedoria necessária para chegar à decisão justa.
Contudo, devemos reconhecer que os julgamentos eclesiásticos são geralmente insatisfatórios. Muitas vezes nada resolvem e, via de regra, fazem mais mal do que bem. São frequentemente meio de grandes injustiças; as decisões tomadas são, não raro, manifestamente erradas. A razão, sem dúvida, é que, em geral, os julgamentos eclesiásticos são desnecessários: os métodos que a Bíblia prescreve para restaurar o errante não foram honestamente tentados, ou a ação foi apressada demais. Os discípulos não apresentaram acusações contra um do seu número porque o Mestre disse “um de vocês é um diabo”. Deram-lhe tempo — e ele se enforcou.
Houve grandes defecções entre os cristãos primitivos; houve casos notáveis de queda em pecado grave na igreja patriarcal e na judaica. Os profetas e os apóstolos foram francos e implacáveis nas suas repreensões; mas não me lembro de um só relato, na Bíblia, do que se possa propriamente chamar julgamento eclesiástico. Eu não quereria ver o padrão da experiência ou prática cristã rebaixado um mínimo em igreja alguma; ao contrário, farei tudo o que puder para elevá-lo às exigências do Novo Testamento. Mas nunca vi o padrão de piedade elevado em igreja ou comunidade alguma por um julgamento eclesiástico. Geralmente entra um espírito de divisão, formam-se facções, e torna-se quase impossível, por anos, ter um avivamento. Não seria esse o resultado, se os julgamentos eclesiásticos fossem geralmente da ordem do Senhor e suscetíveis de condução própria. Com demasiada frequência são instigados pela inveja, pela má vontade ou pela ambição frustrada. Na tentativa de expulsar um, tido por insubmisso, uma dúzia ou mais podem perder do coração o amor cristão e tornar-se ásperos, censores e desviados. O mesmo esforço, empregado em amor fraternal pela restauração do acusado, teria com toda probabilidade resultado na sua recuperação e num reavivamento geral entre os irmãos. Pregadores que têm avivamentos não costumam encorajar julgamentos eclesiásticos. Os que tentam promover um avivamento, mas falham pela própria má condução, ou pela falta de espírito de oração, de fé ou de zelo, são tentados a lançar a culpa sobre os outros e a pensar que nada se pode fazer enquanto não forem removidos aqueles que, supõem, estorvam a obra. Mas tirá-los da igreja não os tira do caminho: o sentimento de injustiça tende a amargurá-los, a eles e aos seus amigos, contra o cristianismo. Todo esforço pela salvação de alguém deve ser esgotado antes de qualquer tentativa de tirá-lo da igreja. Nunca se deve recorrer a um julgamento a menos que a sua necessidade seja clara a toda mente cândida. Com demasiada frequência ele é o funeral de uma alma — e nunca deveria ocorrer antes de ser certo que o sujeito está morto além de toda recuperação. No Kansas têm um jeito expressivo de dizer as coisas: um delegado leigo, descrevendo um pregador, disse: “Ele não tem muita salvação a oferecer, então pega pesado na disciplina.” Toda igreja deve compor-se de membros trabalhadores, amorosos, humildes e santos — mas não é por julgamentos e expulsões que ela se torna tal.
Um exército frequentemente em batalha mantém-se facilmente em disciplina; assim, uma igreja se conserva pura quando constantemente empregada na sua obra própria de abençoar e salvar os homens.
Tradução e edição: Bispo Ildo Mello · Texto original de 1878, em domínio público · Citações bíblicas na NAA