Cartas · 1784–1785
“Sei que sou tão verdadeiro bispo cristão quanto o Arcebispo de Cantuária. Ainda assim, sempre resolvi jamais agir como tal, a não ser em caso de necessidade.”
Da carta a Barnabas Thomas, 1785
Em setembro de 1784, já com oitenta e um anos, Wesley tomou a decisão mais controversa da sua vida: ordenou Thomas Coke e Francis Asbury como superintendentes conjuntos para os Estados Unidos, então separados da Inglaterra pela guerra da Independência e sem um único bispo residente que ordenasse pastores ou administrasse a Ceia do Senhor. Foi esse ato, defendido nas três cartas reunidas aqui, que deu origem ao metodismo episcopal e, por uma linha direta de sucessão histórica, ao próprio ofício episcopal que ainda hoje existe no metodismo ao redor do mundo.
Um cuidado ao lê-las: Wesley nunca deixou de considerar-se clérigo da Igreja da Inglaterra, nem pretendeu fundar uma nova igreja rompendo com ela por gosto. Ele mesmo explica, na primeira carta, por que via a América como um caso à parte, de necessidade, e não um precedente para a Inglaterra. A segunda carta, a um pregador chamado Barnabas Thomas, é a sua defesa mais direta e pessoal do que havia feito. A terceira não é bem uma carta, mas um testamento: escrita para ser aberta somente depois da sua morte, pede à Conferência que nunca use a estrutura legal do metodismo para tratar os pregadores com parcialidade.
São três páginas curtas, mas decisivas para entender de onde vêm tanto o governo quanto o espírito que uma igreja como a nossa herdou de Wesley.
— Bispo Ildo Mello
1. Por uma sequência bem incomum de providências, muitas das províncias da América do Norte se desligaram totalmente da sua pátria-mãe e se ergueram em Estados independentes. O governo inglês não tem autoridade alguma sobre elas, nem civil nem eclesiástica, tanto quanto não a tem sobre os Estados da Holanda. Exerce-se sobre elas uma autoridade civil, em parte pelo Congresso, em parte pelas Assembleias Provinciais. Mas ninguém exerce, nem reivindica, autoridade eclesiástica alguma. Nessa situação peculiar, alguns milhares dos habitantes desses Estados pediram o meu conselho; e, em atenção ao seu pedido, redigi um pequeno esboço.
2. O Relato da Igreja Primitiva, de Lorde King, convenceu-me, há muitos anos, de que bispos e presbíteros são da mesma ordem e, por conseguinte, têm o mesmo direito de ordenar. Por muitos anos fui importunado, de tempos em tempos, a exercer esse direito, ordenando parte dos nossos pregadores itinerantes. Mas sempre recusei, não só por amor à paz, mas porque estava decidido a violar o mínimo possível a ordem estabelecida da Igreja nacional a que eu pertencia.
3. Mas o caso é bem diferente entre a Inglaterra e a América do Norte. Aqui há bispos com jurisdição legal; na América não há nenhum, nem tampouco pastores paroquiais. De modo que, por centenas de milhas a fio, não há quem batize nem administre a Ceia do Senhor. Aqui, portanto, cessam os meus escrúpulos; e considero-me em plena liberdade, pois não violo ordem alguma nem invado direito de ninguém, ao designar e enviar trabalhadores para a seara.
4. Designei, pois, o Dr. Coke e o Sr. Francis Asbury como superintendentes conjuntos sobre os nossos irmãos na América do Norte; e também Richard Whatcoat e Thomas Vasey para atuarem entre eles como presbíteros, batizando e administrando a Ceia do Senhor. E preparei uma liturgia pouco diferente da Igreja da Inglaterra (que considero a igreja nacional mais bem constituída do mundo), a qual aconselho a todos os pregadores itinerantes a usar no dia do Senhor em todas as congregações, lendo a Ladainha somente às quartas e sextas-feiras, e orando de improviso nos demais dias. Aconselho também os presbíteros a administrar a Ceia do Senhor todo domingo.
5. Se alguém indicar um modo mais racional e escriturístico de alimentar e guiar aquelas pobres ovelhas no deserto, eu o abraçarei de bom grado. No momento, não vejo método melhor do que o que tomei.
6. Propôs-se, de fato, pedir aos bispos ingleses que ordenassem parte dos nossos pregadores para a América. Mas a isso me oponho: primeiro, pedi ao bispo de Londres que ordenasse ao menos um só, e não consegui obter. Segundo, ainda que consentissem, sabemos quão lentos são os seus trâmites, e o caso não admite demora. Terceiro, se os ordenassem agora, também esperariam governá-los; e quão gravemente isso nos enredaria! Quarto, estando os nossos irmãos americanos agora totalmente desligados tanto do Estado quanto da hierarquia inglesa, não ousamos enredá-los de novo nem com um, nem com outra. Estão agora em plena liberdade para simplesmente seguir as Escrituras e a Igreja Primitiva. E julgamos melhor que permaneçam firmes nessa liberdade com que Deus, de modo tão estranho, os fez livres.
— John Wesley
Caro Barnabas, não tenho nem disposição nem tempo para puxar a serra da controvérsia; mas lhe direi o meu pensamento em poucas palavras.
Estou hoje tão firmemente ligado à Igreja da Inglaterra quanto sempre estive desde que você me conhece. Mas, ao mesmo tempo, sei que sou tão verdadeiro bispo cristão quanto o Arcebispo de Cantuária. Ainda assim, sempre resolvi, e continuo resolvido, jamais agir como tal, a não ser em caso de necessidade. Tal caso não existe, e talvez nunca exista, na Inglaterra. Na América, existiu. Fiz isso saber ao bispo de Londres e pedi a sua ajuda. Mas ele recusou-a peremptoriamente. Todos os outros bispos pensavam do mesmo modo, sobretudo porque, diziam eles, nada tinham com a América. Então vi o meu caminho claro, e fiquei plenamente convencido do que era meu dever fazer. Quanto às pessoas, dentre as que se ofereceram, escolhi as que julguei mais dignas; e recuso-me terminantemente a ser julgado nisto pela consciência de qualquer outro homem que não a minha própria.
— John Wesley
Meus caros irmãos, alguns dos nossos pregadores itinerantes manifestaram temor de que, depois da minha morte, vocês os excluam, seja de pregar em conexão com vocês, seja de outros privilégios que hoje desfrutam. Não conheço outro modo de prevenir esse mal senão deixar-lhes estas as minhas últimas palavras.
Rogo-vos, pelas misericórdias de Deus (Rm 12.1), que jamais vos valhais da Escritura de Declaração para assumir qualquer superioridade sobre os vossos irmãos; antes, que tudo prossiga entre os itinerantes que optarem por permanecer juntos exatamente do mesmo modo como quando eu estava convosco, tanto quanto as circunstâncias permitirem.
Em particular, rogo-vos, se algum dia me amastes, e se agora amais a Deus e aos vossos irmãos, que não façais acepção de pessoas ao designar os pregadores, ao escolher as crianças para a Escola de Kingswood, ao dispor da Contribuição Anual, do Fundo dos Pregadores, ou de qualquer outro dinheiro público. Fazei, porém, todas as coisas com um só olhar, como eu fiz desde o princípio. Prossegui assim, fazendo tudo sem preconceito nem parcialidade, e Deus estará convosco até o fim.
— John Wesley
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cotejadas com o texto disponível no Wesley Center Online: a carta Aos Irmãos na América (10 de setembro de 1784), a carta a Barnabas Thomas (25 de março de 1785) e a carta à Conferência Metodista (7 de abril de 1785), todas na íntegra. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.