Cartas · 1739–1785

Cartas a Charles Wesley

“Não fui eu quem o ergueu, nem serei eu quem o derrubará. Mas que você e eu edifiquemos a Cidade de Deus.”

Da carta de 28 de junho de 1755

Antes de ler

John e Charles Wesley foram, por mais de cinquenta anos, os dois pilares do movimento metodista — irmãos de sangue e de chamado, mas raramente de opinião idêntica. Charles, o hinódiaco do avivamento, mais cauteloso e mais apegado ao vínculo com a Igreja da Inglaterra; John, o organizador incansável, disposto a romper convenções sempre que a necessidade pastoral o exigisse. As seis cartas aqui reunidas acompanham essa tensão fecunda ao longo de quase meio século: a cumplicidade dos primeiros dias do avivamento, em 1739; o desconforto depois do casamento de John, em 1751; o debate ardente, em 1755, sobre separar-se ou não da Igreja estabelecida; e, por fim, em 1785, a crise mais grave de todas — quando John ordenou pregadores para a América, ato que Charles considerou uma ruptura com tudo o que haviam construído juntos.

A última carta reproduzida aqui é rara: temos não apenas a carta de John, mas também a resposta de Charles, escrita ao pé da mesma folha. Dois irmãos já idosos — John, então com oitenta e dois anos, e Charles, com setenta e sete —, discordando com franqueza, mas ainda se chamando, ao final, de “irmão afetuoso”.

Nenhuma dessas cartas encerrou a amizade. Charles morreria menos de três anos depois, em 1788, e John, ao saber da notícia, teria dito que sentia como se metade de si mesmo tivesse partido. É um retrato honesto de como comunhão espiritual e discordância doutrinária podem, de fato, conviver — e até se fortalecer mutuamente, quando ambos os lados insistem em permanecer irmãos.

— Bispo Ildo Mello

Os primeiros dias, em Bristol

Bristol, 9 de abril de 1739

Meu caro irmão Carlos, — Até o próximo correio, examinarei os seus versos. O clero daqui nos ataca com ânimo de gladiadores [gladiatorio animo ad nos affectant viam]. Mas o povo, de toda sorte, recebe a palavra com alegria. Até aqui tenho tido aqui trabalho tão pleno que penso não haver dúvida alguma quanto a já dever voltar ou não.

Você saberá mais, de tempos em tempos, e julgará de acordo. Mas, quando parecer conveniente que eu volte, um sorteio afastará toda dúvida. Que o Deus da paz o encha de toda paz e alegria, ao crer! Adeus.

Esqueci — preciso contribuir para a Escola dos Mineiros de Kingswood. Por isso, tomarei o dinheiro do Sr. Wilson.

— John Wesley

A defesa da pregação ao ar livre

Bristol, 23 de junho de 1739

Meu caro irmão, — Minha resposta aos que me perturbam é esta:

Deus me ordena fazer o bem a todos os homens; instruir os ignorantes, reformar os maus, confirmar os virtuosos.

Os homens me ordenam não fazer isso na paróquia alheia — o que, na prática, é não fazê-lo de modo algum.

Se é justo obedecer aos homens antes que a Deus, julguem vocês mesmos.

“Mas” (dizem eles) “é justo que você se submeta a toda ordenança humana, por causa do Senhor.”

De fato; a toda ordenança humana que não seja contrária ao mandamento de Deus.

Mas, se algum homem (bispo ou outro) ordenar que eu não faça o que Deus me ordena fazer, submeter-me a essa ordenança seria obedecer ao homem antes que a Deus.

E, para isso, tenho tanto um chamado ordinário quanto um extraordinário.

Meu chamado ordinário é a minha ordenação pelo bispo: “Toma autoridade para pregar a palavra de Deus.”

Meu chamado extraordinário é testemunhado pelas obras que Deus realiza por meio do meu ministério, as quais provam que ele está comigo, de fato, neste exercício do meu ofício.

Talvez isto se expresse melhor de outra forma: Deus testemunha, de modo extraordinário, que este exercício do meu chamado ordinário lhe é agradável.

Mas, e se um bispo proibir isso? Não digo, como Cipriano, que “o povo deve separar-se de um pastor criminoso” [Populus a scelerato antistite separare se debet]. Mas digo: com Deus por meu auxílio, hei de continuar a obedecer-lhe; e, se por isso eu sofrer, faça-se a sua vontade.

— John Wesley

O peso do dinheiro e do poder

Londres, 4 de dezembro de 1751

Em alguns pontos, é mais fácil escrever do que falar, sobretudo onde há risco de aquecimento de ânimos de ambos os lados.

Em que sentido você julga necessário quebrar o meu poder e reduzir a minha autoridade a limites devidos? Estou bem disposto a abrir mão de tudo, ou de qualquer parte disso. Isso nunca me deu prazer algum, nem nunca deu.

Há outro ponto delicado que gostaria apenas de tocar. A contribuição trimestral das classes (pouco mais de duzentas libras por ano) destina-se a sustentar os pregadores e a cobrir todas as despesas da casa. Mas isso nunca foi, até hoje, suficiente. Que você, portanto — que tem cento e cinquenta libras por ano para sustentar apenas duas pessoas —, tome qualquer parte disso, parece-me de todo desarrazoado. Eu não poderia fazê-lo, se fosse o meu caso: eu consideraria isso um roubo — sim, um roubo aos pobres do hospital. Muitas vezes me perguntei como a sua consciência, ou o seu senso de honra, poderiam suportar isso; sobretudo sabendo você que estou quase continuamente aflito por dinheiro, eu que devo suprir as deficiências deste fundo, bem como as de todos os outros.

Estou disposto (se os nossos juízos diferem) a submeter isso, ou qualquer outra coisa, ao Sr. Perronet ou ao Sr. Blackwell. Desejo apenas gastar-me e ser gasto na obra que Deus me deu para fazer. Adeus.

— John Wesley

“Que você e eu edifiquemos a Cidade de Deus”

Londres, 28 de junho de 1755

Meu caro irmão, — Que G. Stonehouse escreva, e seja bem-vindo. Quando estivermos juntos, creio que poderemos ler com segurança.

Vá para a Irlanda, se assim o julga, e salve a Irlanda. Onde quer que eu tenha estado na Inglaterra, as Sociedades estão muito mais firme e racionalmente ligadas à Igreja do que nunca estiveram antes. Não temo nada quanto a isso. Só temo que os pregadores, ou o povo, abandonem — não a Igreja, mas o amor de Deus e a santidade interior e exterior. A isso os impulsiono continuamente. Não ouso, em consciência, gastar meu tempo e minhas forças com o que é externo. Se (como diz minha senhora) todos os estabelecimentos exteriores são Babel, este Estabelecimento também o é. Que ele permaneça, no que depender de mim. Não fui eu quem o ergueu, nem serei eu quem o derrubará. Mas que você e eu edifiquemos a Cidade de Deus.

Muitas vezes desejei que os nossos pregadores sepultassem um corpo em Wapping. Quero dizer, que fizessem uma exortação, encerrada com uma oração. Não sei que isso constitua qualquer violação do ofício sacerdotal.

Nenhuma das nossas Sociedades recebeu ainda James Wheatley. Suponho que nenhuma o receberá. Ainda assim, podemos advertir onde quer que escrevamos. T. Walsh — hei de proclamá-lo do alto dos telhados — tem me dado toda a satisfação que desejo, e tudo o que um homem honesto poderia dar. Eu o amo, admiro e honro, e desejaria que tivéssemos seis pregadores, em toda a Inglaterra, do seu espírito.

Mas basta disso. Não continuemos a puxar a serra de um lado para o outro; usemos, antes, todos os nossos talentos para promover o mesmo sentimento que houve em Cristo. Isso está totalmente fora de questão. Não temos um único pregador que tenha proposto, deseje ou planeje (que eu saiba) separar-se da Igreja, de forma alguma. Não aprovo os princípios deles no único ponto da ordenação. Mas oro para que cresçam cada vez mais no espírito e na prática deles, de modo geral.

Falei com o Sr. Graves, e voltarei a falar. Pressionar-me pode me fazer vacilar, ainda que, até agora, eu não vacile. “Quando os pregadores na Irlanda se estabelecerem por conta própria, você não terá de os rejeitar?” Respondo: “Quando isso acontecer.”

Pensei que você tivesse dito que a nossa irmã esperava dar à luz em maio; agora já é o fim de junho. Se você puder ir à Cornualha no fim de julho, será a tempo. Gostaria que você visitasse cada uma das Sociedades do interior — e por que não também a Nova Kingswood? Adeus.

— John Wesley

“Sou um bispo segundo as Escrituras”

Plymouth Dock, 19 de agosto de 1785

Meu caro irmão, — Vou lhe dizer os meus pensamentos com toda simplicidade, e aguardar melhor esclarecimento. Se você concordar comigo, bem; se não, podemos (como costumava dizer o Sr. Whitefield) concordar em discordar.

Há quarenta anos tenho estado em dúvida quanto àquela questão: “Que obediência se deve a ‘sacerdotes pagãos e infiéis mitrados’?” De tempos em tempos, propus as minhas dúvidas aos clérigos mais piedosos e sensatos que conheci. Mas não me deram satisfação alguma; antes, pareciam tão perplexos quanto eu.

Sempre prestei alguma obediência aos bispos, em obediência às leis do país. Mas não vejo que eu esteja sob qualquer obrigação de lhes obedecer além do que essas leis exigem.

É em obediência a essas leis que nunca exerci, na Inglaterra, o poder que creio que Deus me deu. Creio firmemente que sou um επίσκοπος [episkopos, “bispo” em grego] segundo as Escrituras, tanto quanto qualquer homem na Inglaterra ou na Europa; pois sei que a sucessão ininterrupta é uma fábula, que ninguém jamais provou nem pode provar. Mas isso em nada interfere na minha permanência na Igreja da Inglaterra, da qual não tenho hoje mais desejo de me separar do que tinha há cinquenta anos. Ainda participo de todas as ordenanças da Igreja, sempre que posso; e desejo continuamente e com veemência que todos os que estão ligados a mim façam o mesmo.

Quando o Sr. Smyth nos pressionou a “separar-nos da Igreja”, ele queria dizer: “não ir mais à igreja”. E foi isso o que eu quis dizer, vinte e sete anos atrás, quando persuadi os nossos irmãos a “não se separarem da Igreja”.

Mas aqui surge outra questão: “O que é a Igreja da Inglaterra?” Não é “todo o povo da Inglaterra”. Papistas e dissidentes não fazem parte dela. Tampouco é todo o povo da Inglaterra, exceto papistas e dissidentes — teríamos, então, uma Igreja gloriosa, de fato! Não; segundo o nosso Vigésimo Artigo, uma igreja particular é “uma congregação de fiéis” (coetus credentium, nas palavras da nossa edição latina), “entre os quais a palavra de Deus é pregada e os sacramentos devidamente administrados”. Eis uma verdadeira definição lógica, que contém tanto a essência quanto as propriedades de uma igreja. O que é, então, segundo essa definição, a Igreja da Inglaterra? Significará “todos os crentes na Inglaterra (exceto papistas e dissidentes) entre os quais a palavra de Deus e os sacramentos são devidamente administrados”? Receio que isso não corresponda à sua ideia de “Igreja da Inglaterra”. Bem, o que mais você inclui nessa expressão? “Ora, todos os crentes que aderem à doutrina e à disciplina estabelecidas pela Convocação sob a rainha Isabel.” Pois bem, essa disciplina já quase desapareceu, e a doutrina tanto você quanto eu seguimos. Não quero dizer que jamais ordenarei ninguém enquanto estiver na Inglaterra, mas que não usarei, na Inglaterra, o poder que eles recebem.

A todas essas razões contra uma separação da Igreja, nesse sentido, ainda subscrevo. Do que, então, você tem medo? Não me separo dela hoje mais do que me separava no ano de 1758. Ainda me submeto (embora, às vezes, com a consciência hesitante) aos “infiéis mitrados”. De fato, diferencio-me deles em alguns pontos de doutrina e em alguns pontos de disciplina — por pregar ao ar livre, por exemplo, por orar de improviso e por formar sociedades; mas nem um fio de cabelo além do que creio ser conveniente, justo e meu dever obrigatório. Ainda ando pela mesma regra que segui por quarenta ou cinquenta anos. Não faço nada precipitadamente. Não é provável que o faça. O auge do meu sangue já passou. Se você quiser caminhar de mãos dadas comigo, caminhe. Mas não me atrapalhe, se não quiser ajudar. Talvez, se você tivesse permanecido próximo a mim, eu tivesse feito melhor. Contudo, com ou sem ajuda, sigo em frente, arrastando-me. E, como tenho sido até aqui, creio que sempre serei,

Seu amigo e irmão afetuoso.

Duas cartas, uma só folha

Bath, 13 e 19 de setembro de 1785

Meu caro irmão, — Não vejo utilidade em nós dois discutirmos; pois nenhum de nós há de convencer o outro. Você diz que eu me separo da Igreja; eu digo que não. Pois bem, que assim fique.

O seu verso é uma triste verdade. Eu vejo cinquenta vezes mais da Inglaterra do que você, e encontro poucas exceções a ela.

Creio que o Dr. Coke está tão livre de ambição quanto de cobiça. Nada fez precipitadamente, que eu saiba; mas falou precipitadamente, o que retratou no instante em que lhe falei sobre isso. Publicar, como seus pensamentos atuais, o que ele já havia retratado não foi jogo limpo. Ele é hoje para mim uma mão direita tão fiel quanto foi Thomas Walsh. Se você não quiser, ou não puder, ajudar-me, ao menos não atrapalhe os que podem e querem. Devo, e hei de, salvar tantas almas quanto puder enquanto viver, sem me preocupar com o que possa vir a acontecer depois que eu morrer.

Peço que você não confunda o entendimento do povo em Londres. Com isso, você pode enfraquecer um pouco as minhas mãos, mas enfraquecerá muito mais as suas próprias. Sou

Seu irmão afetuoso.

A resposta a seguir, enviada por Charles no dia 19, encontra-se ao pé da carta de seu irmão:

Meu caro irmão, — Eu não disse que você se separa da Igreja; mas disse que, se eu pudesse prová-lo, eu não me separaria.

Essa “triste verdade” não é verdade nova. Você mesmo a viu quando expressou, nas suas Reasons [Razões], tanta ternura e amor pelo clero não convertido.

Do segundo T. Walsh, é melhor conversarmos do que escrevermos.

Como assim, “confundir o entendimento deles”? Como assim, “enfraquecer as suas mãos”? Não sei de nada que eu faça para impedir a possível separação, além de orar. Deus me livre de pecar contra ele, deixando de orar pela Igreja da Inglaterra e por você, enquanto em mim houver fôlego. Sou

Seu irmão afetuoso. — Charles Wesley

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cotejadas com o texto disponível no Wesley Center Online: as cartas a Charles Wesley de 9 de abril, 23 de junho de 1739, 4 de dezembro de 1751, 28 de junho de 1755, 19 de agosto e 13/19 de setembro de 1785 (esta última incluindo a resposta de Charles Wesley), todas na íntegra. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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