Cartas · 1784–1791
“Ah, não se canse de fazer o bem! Prossiga, em nome de Deus e no poder da sua força, até que mesmo a escravidão americana — a mais vil que o sol já viu — desapareça diante dela.”
Da última carta de Wesley, escrita quatro dias antes de sua morte, a William Wilberforce
Wesley detestava a escravidão desde muito antes de o movimento abolicionista ganhar força na Inglaterra. Em 1774, publicou o panfleto “Pensamentos sobre a Escravidão”, uma das primeiras condenações sistemáticas do tráfico negreiro escritas por um líder religioso inglês. Nas décadas seguintes, apoiou ativamente a jovem Sociedade para a Abolição do Tráfico de Escravos, fundada em 1787, oferecendo conselho estratégico a Granville Sharp e recursos financeiros e editoriais à causa.
As quatro cartas reunidas aqui atravessam sete anos dessa convicção: o interesse pastoral por uma comunidade de negros livres na Nova Escócia em 1784, o apoio prático à recém-formada Sociedade abolicionista em 1787 — e, por fim, a última carta que Wesley escreveu em toda a sua vida, quatro dias antes de morrer, exortando o jovem parlamentar William Wilberforce a não desistir da luta contra o tráfico.
Wesley não viveu para ver o fim do tráfico de escravos no Império Britânico, abolido em 1807 — dezesseis anos após sua morte —, nem o fim da própria escravidão nas colônias britânicas, abolida em 1833. Mas sua última carta, escrita à beira da morte, tornou-se um dos documentos mais citados da história do abolicionismo cristão.
— Bispo Ildo Mello
Meu caro irmão, — Conheço bem o seu irmão, e estive em sua casa da última vez em que estive em Portsmouth, como provavelmente estarei de novo no outono, antes de voltar a Londres. A obra de Deus entre os negros da sua vizinhança é um exemplo maravilhoso do poder de Deus; e a pequena cidade que eles construíram é, suponho, a única cidade de negros já construída na América — ou, talvez, em qualquer parte do mundo, exceto na própria África. Não duvido que alguns deles saibam ler. Quando, portanto, enviarmos um ou dois pregadores para a Nova Escócia, enviaremos também alguns livros para serem distribuídos entre eles; e, enquanto eu viver, jamais lhes faltarão livros. Será bom dar-lhes toda a assistência que vocês puderem, de todas as formas possíveis.
Seu irmão afetuoso.
Senhor, — Desde que ouvi falar disso pela primeira vez, senti uma perfeita repulsa pelo horrendo Tráfico de Escravos, mas mais particularmente desde que tive o prazer de ler o que você publicou sobre o assunto. Por isso, não posso deixar de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para promover o desígnio glorioso da sua Sociedade. E deve ser motivo de consolo para todo homem de humanidade observar o espírito com que você tem prosseguido até aqui. De fato, você não pode prosseguir sem mais do que a resolução comum, considerando a oposição que terá de enfrentar — toda a oposição que podem fazer homens “não sobrecarregados nem de honra, nem de consciência, nem de humanidade”, que se lançarão por todo meio possível, pelo certo e pelo errado [per fas et nefas], para garantir a sua grande deusa, o Interesse. A menos que estejam obcecados também nesse ponto, não pouparão dinheiro algum para levar avante a sua causa; e isso tem, para a maioria dos homens, o peso de mil argumentos.
E você pode estar certo de que esses homens hão de aproveitar e explorar toda objeção possível contra você. Temi que levantassem uma objeção quanto ao seu modo de obter informações. Contratar ou pagar informantes soa mal, e pode suscitar grande — sim, insuperável — preconceito contra a sua causa. Não valeria a pena considerar se não seria aconselhável abandonar de todo esse método, e contentar-se com as informações que puder obter por meios mais honrosos?
Ao final, suspeito que tudo há de girar em torno disto: “O Tráfico de Escravos serve ao interesse da nação?” E, aqui, há de se considerar também a multidão de marinheiros que nele perecem. Em meio a todas essas dificuldades, que consolo é considerar (por mais fora de moda que isso esteja) que há um Deus! Sim, e que (por mais que os homens pensem pouco nisso!) ele ainda detém todo o poder, tanto no céu quanto na terra! A ele encomendo você, e a sua gloriosa causa; e sou, senhor,
Seu servo afetuoso.
Meu caro irmão, — Toda a assistência que eu puder dar àqueles homens generosos que se unem para se opor a esse tráfico execrável, certamente eu a darei. Mandei imprimir uma grande edição dos Pensamentos sobre a Escravidão, e a distribuí por toda a Inglaterra. Mas haverá oposição veemente, tanto da parte dos mercadores de escravos quanto dos senhores de escravos; e são homens poderosos. Mas o nosso consolo é que aquele que habita nas alturas é mais poderoso ainda.
Seu irmão afetuoso.
Caro senhor, — A menos que o poder divino o tenha levantado para ser como Atanásio contra mundum [Atanásio contra o mundo], não vejo como o senhor poderá levar adiante o seu glorioso empreendimento de se opor a essa execrável vilania, que é o escândalo da religião, da Inglaterra e da própria natureza humana. A menos que Deus o tenha levantado exatamente para isto, o senhor será esgotado pela oposição dos homens e dos demônios. Mas, se Deus é por você, quem poderá ser contra você? Serão todos eles, juntos, mais fortes do que Deus? Ah, não se canse de fazer o bem! Prossiga, em nome de Deus e no poder da sua força, até que mesmo a escravidão americana — a mais vil que o sol já viu — desapareça diante dela.
Lendo esta manhã um relato escrito por um pobre africano, fiquei particularmente impressionado com esta circunstância: que um homem de pele negra, sendo enganado ou ultrajado por um homem branco, não pode obter reparação alguma; sendo lei, em todas as nossas colônias, que o juramento de um negro contra um branco não vale nada. Que vilania é esta!
Que aquele que o tem guiado desde a juventude continue a fortalecê-lo nisto e em todas as coisas é a oração de, caro senhor,
Seu servo afetuoso.
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cotejadas com o texto disponível no Wesley Center Online: as cartas de 3 de julho de 1784, 11 de outubro e 24 de novembro de 1787 e 24 de fevereiro de 1791 (esta última, a Wilberforce, a derradeira carta escrita por Wesley em vida), todas na íntegra. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.