Cartas · 1751–1774
“Ó, como podemos louvar a Deus o suficiente por nos ter feito uma ajuda idônea um para o outro!”
Da carta de 30 de março de 1751
Em fevereiro de 1751, aos quarenta e sete anos, Wesley se casou, de modo relativamente repentino, com Mary “Molly” Vazeille, uma viúva. O casamento é hoje lembrado como um dos capítulos mais difíceis de sua biografia: ela se ressentia das viagens constantes dele e das amizades próximas — sempre platônicas, mas intensas — que ele mantinha com mulheres de seu círculo ministerial. Separaram-se e se reconciliaram várias vezes ao longo de trinta anos, até ela morrer, já vivendo separada dele, em 1781.
As cinco cartas reunidas aqui atravessam três momentos bem distintos: a felicidade genuína e um tanto ingênua dos primeiros dias de casados, em 1751; um episódio de tensão em 1758, já em plena crise de ciúme e desconfiança, no qual Wesley tenta, com paciência, defender que ninguém deveria tentar controlar a consciência alheia; e, por fim, duas cartas práticas de 1774, já depois da separação definitiva de 1771, em que ele trata de dinheiro e ainda assim insiste em chamá-la de “minha cara amada” e pedir por paz entre os dois.
Talvez a lição mais honesta destas cartas seja que o dom ministerial não substitui, e às vezes até compete com, o cuidado do lar. Mesmo depois da separação, Wesley segue tratando Molly com um afeto que, se não bastou para salvar o casamento, ao menos revela que a mágoa nunca apagou de todo o carinho antigo.
— Bispo Ildo Mello
Minha cara Molly, — Escrevo cedo demais? Não tem você, mais do que qualquer pessoa no mundo, o direito de ter notícias minhas assim que me for possível? Certamente você tem direito a toda prova de amor que eu puder dar, e a toda a pequena ajuda que estiver ao meu alcance. Pois você me deu até a si mesma. Ó, como podemos louvar a Deus o suficiente por nos ter feito uma ajuda idônea um para o outro! (cf. Gn 2.18) Estou totalmente maravilhado com a sua bondade. Que não só os nossos lábios, mas as nossas vidas, manifestem o seu louvor!
Você seria tão gentil de avisar a T. Butts que o Sr. Williams, de Bristol, sacará dele, em poucos dias, vinte libras (que já paguei integralmente a Rd. Thyer), e que ele poderá procurar você para receber o valor?
Se ainda tiver o desejo de fazer o seu testamento, o irmão Briggs pode escrevê-lo para você. Não exige formalidade legal alguma — nem sequer papel selado. Mas, se encontrar alguma dificuldade, o Sr. I’Anson terá prazer em aconselhá-la, seja por mim, seja por você mesma.
Minha cara, adiante, tanto quanto possível, o assunto com o Sr. Blisson e o balanço das contas pelo Sr. Crook. Mas, ah, que negócio algum, de qualquer espécie, impeça o convívio entre Deus e a sua alma! Nem deixe que nada a impeça de passar ao menos uma hora por dia em leitura, oração e meditação particulares. Saber que você faz isso constantemente dará satisfação especial àquele que bendiz a Deus por ser
Sempre seu.
Se lhe chegar alguma carta endereçada ao Rev. Sr. John Wesley, abra-a: é para você mesma. Cara amada, adeus!
Minha cara amada, — Parece-me que faz muito, muito tempo desde que lhe escrevi. Assim parece, porque, enquanto escrevo, vejo você diante de mim: posso imaginar que estou sentado bem ao seu lado,
e vejo e ouço você o tempo todo
falar baixinho e sorrir docemente.
Ah, que mistério é este! Que eu seja capaz de entregá-la a Deus sem um único pensamento de murmúrio ou inquietação! Ah, quem tem um Deus tão grande quanto o nosso Deus? Quem é tão sábio, tão misericordioso? Minha cara Molly, quem tem tanta razão para louvá-lo quanto nós? E eu, principalmente, a quem ele deu uma ajuda tão idônea para mim, e também o poder de desfrutar de você para a sua glória, e de deixá-la partir sempre que ele chamar.
A Sra. Seward, a Sra. Keech, e muitas outras aqui, pedem que se lembre delas com carinho. No primeiro dia em que você esteve aqui, uma delas disse: “Ali está uma esposa para o Sr. John Wesley”, e afirmou com convicção que “assim seria”. E, quando chegou o jornal, todas concordaram que “você era a pessoa”.
Agora, minha cara, é o momento de você vencer o mal com o bem (cf. Rm 12.21). Conquiste de vez Sally Clay e a irmã Aspernell, e quantas mais surgirem em seu caminho. Ah, se Deus nos desse também o Sr. Blisson! Não poupe esforços. Não deixe que o encontro de que o Sr. Lloyd falou seja esquecido ou adiado. Espero que o Sr. Crook já tenha assumido o seu trabalho, e que você o considere capaz para ele. Ele também teve graça, uma vez!
Faça o que fizer, não perca a sua hora de retiro. E, sobretudo, que a minha amiga mais querida se lembre de mim!
Espero que a minha cara Jenny esteja ganhando terreno.
— John Wesley
Minha cara amada, — Tive uma viagem agradável de coche até Ingatstone. Depois montei a cavalo e cheguei a Maldon na hora do almoço. Entre dez e onze da manhã de hoje, partimos de Maldon, e em três horas encontramos aqui o honesto irmão Arvin. Se não encontrar razão especial para alterar o meu plano, pretendo seguir rumo a Norwich na segunda-feira.
Você me deixou grato, na tarde de terça-feira, por convidar a minha irmã Hall para tomar chá com você; e também por deixar Betty Duchesne comigo até que ela tivesse dito o que tinha a dizer. Minha cara, este é o caminho (como já lhe disse tantas vezes) para conquistar o afeto de uma pessoa.
Deixe livres todos os seus caminhos,
e não ponha cadeado na sua mente.
Creia-me, não há outro caminho: deixe que cada um responda à sua própria consciência. Pois, como diz Paulo, por que sou julgado pela consciência alheia? (cf. 1Co 10.29) Cada um terá de prestar contas de si mesmo a Deus (cf. Rm 14.12). E, mesmo que alguém aja contra a boa consciência, poderia você reconduzi-lo por métodos violentos? Pensamento vão!
Pela força os animais agem, e pela força se contêm;
a mente humana só por meios brandos se conquista.
Ou por meios brandos, ou por meio algum. Ou, se há exceção, se a vara é para as costas do tolo, não é a esposa quem deve usá-la contra o marido.
Se aprouver a Deus trazer-me a salvo a Norwich, espero ter ali uma carta sua. Que a paz esteja com o seu espírito.
Seu marido afetuoso.
Minha cara amada, — Acabo de chegar aqui vindo de Glasgow, e aproveito a oportunidade para escrever duas ou três linhas. Peço que você deixe o Sr. Pine receber cem libras do dinheiro que está em suas mãos, desde que ele lhe entregue primeiro a sua conta completa — a qual peço que envie a Londres, a John Atlay, junto com cinquenta libras para o Sr. Nind, o fabricante de papel, e cinquenta libras para Robert Hawes. Não adianta deixar o dinheiro parado. Se eu não administrar isso, terei apenas de pagar de novo. Estou indo pregar agora, e com grande pressa. Minha cara Molly,
Seu marido afetuoso.
Minha cara amada, — Ontem à noite, Billy Smith me entregou a sua carta. Já havia recebido, há algum tempo, um relato de John Pawson sobre o que se passou em Bristol entre ele e você. O seu comportamento quanto ao dinheiro foi admirável. Com isso, você se honrou muito. Comportou-se como mulher de honra, bom senso e consciência. Ah, por que não haveria de se comportar assim em tudo? Se lhe fosse possível observar uma única coisa — “entregue a sua causa ao Senhor, e não fale nada contra mim pelas minhas costas” —, o povo, de modo geral, haveria de amá-la. Até lá, não pode.
Seu marido afetuoso.
Creem que John Fenwick não há de durar doze horas.
Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cotejadas com o texto disponível no Wesley Center Online: as cartas de 27 e 30 de março de 1751, 27 de outubro de 1758, e 18 de maio e 10 de junho de 1774, todas na íntegra. Referências bíblicas na versão NAA (Nova Almeida Atualizada), abreviadas ao padrão brasileiro. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.