Curso do Espírito SantoAula 9

Os dons do Espírito

“A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o que for útil.”1 Coríntios 12.7 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1Co 12; 1Co 13; 1Co 14; Rm 12.3-8; Ef 4.7-16

Para começar

As perguntas que nos guiam

Depois do fruto (Aula 8), os dons. Poucos temas foram tão mal usados — e Paulo dedica três capítulos inteiros (1Co 12—14) a colocá-los no lugar certo.

1

Para que servem os dons?

Privilégio pessoal para exibir — ou serviço para edificar a igreja?

2

Os dons cessaram?

Eram só para a era apostólica, ou continuam hoje?

3

Qual é o maior dom?

O mais espetacular — ou algo que está acima de todos eles?

Tese da aula: os dons são graças-serviços, dados pelo Espírito “para o que for útil” (1Co 12.7), para edificar o corpo. São diversos, distribuídos por Deus como lhe apraz; não cessaram (1Co 14.12); nenhum deles mede a espiritualidade; e todos devem ser envolvidos pelo amor, “o caminho sobremodo excelente” (1Co 12.31; 13).

1Co 12.4-7

O que são os dons: graça que serve

Energia de Deus

Ele usa também a palavra energia (en-ergia, “em-trabalhando”): os dons são operações de Deus através de nós — Deus trabalhando dentro da sua igreja. O protagonista é o Espírito, não o instrumento.

1Co 12.6,11

O propósito é declarado sem rodeios: “a cada um é dada a manifestação do Espírito para o que for útil” (1Co 12.7) e “para a edificação da igreja” (14.12). Um dom exibido para engrandecer a mim mesmo nega a própria natureza do dom.

1Co 12.11-31

Diversidade e unidade: um corpo, muitos membros

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo… Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo a cada um, individualmente, como lhe apraz.” (1Co 12.4,11)

Paulo insiste na diversidade (de dons, de serviços, de operações) e na unidade (um só Espírito, um só corpo). E deixa claro que é Deus quem estabelece os membros no corpo, como quer (1Co 12.18,28) — não somos nós que escolhemos ser apóstolos, profetas ou mestres. Ele até lista os dons “em ordem de honra”, e é significativo que o dom de línguas, tão estimado pelos coríntios, apareça por último (1Co 12.28; cf. Ef 4.11).

1Co 14.12 · Wesley

Os dons cessaram?

Não há base bíblica para o ensino de que os dons foram apenas para o período apostólico. A Escritura diz que eles existem “para a edificação da igreja” (1Co 14.12) — e essa edificação é um processo contínuo até a segunda vinda de Cristo. Portanto, os dons continuam.

A leitura de Wesley. Ele não era cessacionista; chegou a refutar publicamente quem negava os milagres na igreja. Observou que os dons extraordinários rarearam depois que o imperador Constantino encheu a igreja de riqueza, poder e honra — e concluiu que a causa da quase-cessação foi a frieza e mundanização da igreja, não um decreto divino de encerrar a era do Espírito. Ele rejeitava a explicação de que os dons “já não eram necessários”. Ao mesmo tempo, contra o fanatismo, ensinava que um movimento autêntico do Espírito se reconhece não por demonstrações de poder, mas pelo fruto de santidade.

1Co 13

O amor: “o caminho sobremodo excelente”

“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o bronze que soa ou o címbalo que retine.” (1Co 13.1)

No centro do tratamento de Paulo sobre os dons está o amor (1Co 12.31—13.13). Sem amor, “dons espirituais” pouco benefício trazem à igreja, e até as línguas se tornam disfuncionais. Uma imagem antiga ilustra bem: quem não tem o amor de Deus a encher o coração é como um vagão vazio descendo uma ladeira — faz muito barulho justamente porque nada tem dentro. As virtudes do amor — humildade, paciência, altruísmo — devem ser o veículo de toda manifestação do Espírito. Sem essa base, “tudo é nada”.

1Co 12—14

Sobre as línguas: com clareza e sem dogmatismo

É preciso distinguir dois fenômenos. As línguas do Pentecostes (At 2) foram idiomas estrangeiros reais, compreendidos pelos ouvintes — sinal único do nascimento da Igreja. Já as glossai de 1Coríntios 12—14 parecem ser elocuções que precisam do dom de interpretação para serem entendidas (1Co 14.13,27-28); o próprio fato de a interpretação ser necessária sugere que não eram idiomas conhecidos. E 1Coríntios 13.1 (“as línguas dos homens e dos anjos”) aponta para além da fala humana comum.

Sobre a definição exata, os estudiosos divergem conforme a sua tradição, e aqui evitamos o dogmatismo. O que a Escritura deixa claro é o essencial: as línguas não são para todos (1Co 12.30), precisam de interpretação na assembleia (14.27-28) e são inferiores à profecia, porque esta edifica a igreja (14.4-5). O critério de Paulo para o culto é sempre a edificação (1Co 14.26), feita com ordem e amor.

Da doutrina à vida

Aplicações pastorais

1

Descubra o seu dom para servir

Todo cristão recebeu ao menos um dom, “para o que for útil” (1Co 12.7). Descubra o seu e use-o para edificar o corpo, não para aparecer.

2

Não faça castas na igreja

Ninguém é superior por um dom nem inferior por não tê-lo (1Co 12.15-21). Honre a diversidade que o Espírito distribuiu.

3

Valorize os dons, meça pelo fruto

Nem cessacionismo, nem fanatismo. Os dons continuam e edificam; mas a autenticidade se prova pelo fruto de santidade (1Co 14.12).

4

Ponha o amor à frente

Busque o amor, “o caminho sobremodo excelente” (1Co 12.31). Sem ele, o dom mais alto vira barulho de vagão vazio.

A pergunta desta aula é de serviço: eu tenho buscado dons que me destaquem — ou uma graça que sirva ao corpo, com amor?

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Paulo define o dom espiritual, antes de tudo, como um “serviço” (1Co 12.5) dado “para o que for útil” (12.7). Como isso corrige a ideia de que os dons são troféus para exibir a nossa espiritualidade?Ver resposta sugerida
Corrige na raiz. A palavra que Paulo usa é charisma — graça —, e ele a chama de diaconia, serviço. Um dom não é, em primeiro lugar, um privilégio para a minha edificação, o meu prazer ou a minha distinção; é uma graça dada em prol dos outros, para o bem da igreja (1Co 12.7; 14.12). Outra palavra que ele usa é energia (en-ergia, “em-trabalhando”): os dons são operações de Deus através de nós. Quando entendo isso, paro de perguntar “que dom me faz especial?” e passo a perguntar “como o dom que recebi pode servir ao corpo?”. Um dom exibido para me engrandecer nega a própria natureza do dom. Não por acaso, quem tinha “todos os dons” — a igreja de Corinto — foi justamente quem Paulo chamou de carnal e imatura. Dom sem serviço e sem amor vira barulho; dom como serviço edifica a igreja e glorifica a Cristo.
Há quem diga que todos os dons cessaram com os apóstolos, e há quem exija manifestações espetaculares o tempo todo. Qual é a posição equilibrada, à luz de Wesley?Ver resposta sugerida
Wesley recusou os dois extremos. Contra o cessacionismo, ele afirmou que os dons não cessaram por decreto divino — a Bíblia diz que existem para a edificação da igreja, obra que continua até a volta de Cristo (1Co 14.12). Ele até refutou publicamente o cessacionista Middleton. E notou algo agudo: os dons extraordinários rarearam depois que o imperador Constantino encheu a igreja de riqueza e poder — ou seja, a causa da quase-cessação foi a frieza da igreja, não uma decisão de Deus de encerrar a era do Espírito. Por outro lado, contra o “entusiasmo” (o fanatismo), ele ensinou que um movimento autêntico do Espírito se reconhece não por demonstrações de poder, mas pelo fruto de santidade que produz — e que buscar principalmente o extraordinário já é entusiasmo. A posição equilibrada, portanto, é esta: os dons continuam e devem ser valorizados como serviço, distribuídos por Deus como lhe apraz; mas não são a medida da espiritualidade, não devem dividir a igreja, e o amor é sempre “o caminho sobremodo excelente” (1Co 12.31).

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler 1Coríntios 12—14 de uma vez e anotar: (a) para que servem os dons; (b) por que o amor vem no meio (cap. 13); (c) por que a profecia é preferível às línguas na assembleia. Depois, escrever qual dom você acredita ter recebido e um modo concreto de usá-lo para edificar a igreja nesta semana.

Aula seguinte

A última aula do curso: profecia e discernimento de espíritos — o propósito da profecia, o alerta de Wesley contra o “entusiasmo”, as quatro submissões e como provar os espíritos. Ir para a Aula 10 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello