ApocalipseAula 11

Apocalipse 10: o livrinho e a missão profética da Igreja

“Toma-o e devora-o; ele fará amargo o teu ventre, mas, na tua boca, será doce como mel.”Apocalipse 10.9 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Ap 10; Ez 2.9—3.3; Dn 12.6-7; Gn 9.12-17; Am 3.8

Introdução

O segundo interlúdio

Ao fim de Apocalipse 9, seis trombetas já soaram. Seria natural esperar a sétima — mas, como houve um interlúdio entre o sexto e o sétimo selos, há também um entre a sexta e a sétima trombetas (Ap 7.1-17; 10.1—11.14).

E, em ambos, a atenção se volta para o povo de Deus — a sua proteção, a sua missão, o seu sofrimento e a sua vitória. No primeiro interlúdio, a Igreja apareceu como os 144 mil selados e a grande multidão (Ap 7.4,9); neste segundo, João recebe de novo a Palavra e é comissionado a profetizar, e a Igreja será retratada nas duas testemunhas (Ap 10.8-11; 11.3-12). Antes de a última trombeta anunciar a consumação, Deus reafirma o lugar da Igreja no seu plano.

Apocalipse 10.1

Outro anjo forte, descendo do céu

“Vi outro anjo forte, que descia do céu, envolto numa nuvem; sobre a cabeça estava o arco-íris; o rosto era como o sol, e as pernas, como colunas de fogo” (Ap 10.1).

A descrição é tão gloriosa que alguns o identificam com o próprio Cristo — a nuvem, o rosto como o sol, os pés de fogo, a voz de leão evocam o Cristo do capítulo 1 (Ap 1.13-16). Mas o texto o chama de “outro anjo forte”: um ser angelical revestido de enorme autoridade, que representa o Senhor sem ser o Senhor. A distinção importa: ao fim do livro, João se prostra diante de um anjo e é repreendido — “Não faças isto! Sou conservo teu… Adora a Deus” (Ap 22.8-9). A glória do mensageiro reflete a majestade de quem o enviou, mas só Deus deve ser adorado (Êx 20.3-5; Ap 19.10).

A nuvem, o arco-íris e o fogo. A nuvem é a presença de Deus (Êx 13.21-22; 40.34-38) e o seu governo (Dn 7.13-14; Ap 1.7). O rosto como o sol e os pés como colunas de fogo evocam a glória de Cristo e o Êxodo — o Deus que guiou Israel permanece com o seu povo (Êx 13.21; Ap 1.16). E o arco-íris sobre a cabeça é o sinal da aliança com Noé (Gn 9.8-17): mesmo quando Deus julga, ele não se esquece da misericórdia (Hc 3.2). A sétima trombeta se aproxima, o tempo da graça se encaminha para o fim — mas, enquanto dura, a misericórdia ainda é anunciada, porque a porta continua aberta (2Co 6.2).

Apocalipse 10.2-4

Um pé sobre o mar, outro sobre a terra

O anjo pôs o pé direito sobre o mar e o esquerdo sobre a terra (Ap 10.2): a sua posição expressa domínio universal — a mensagem alcança toda a criação e todas as nações.

Não há região fora do governo de Deus: “do Senhor é a terra e a sua plenitude” (Sl 24.1). E a postura antecipa o conflito seguinte: uma besta subirá do mar, outra da terra (Ap 13.1,11) — mas, antes de elas aparecerem, um mensageiro de Deus já está firmemente posto sobre o mar e a terra: as bestas não são soberanas; o mundo já pertence ao Senhor e ao seu Cristo (Ap 11.15). Então o anjo clama com voz forte, “como quando ruge o leão” (Ap 10.3): o rugido do leão, na Escritura, anuncia a voz irresistível de Deus e a proximidade do seu juízo (Am 1.2; 3.8). E o Leão de Judá venceu como Cordeiro imolado (Ap 5.5-6) — a vitória veio pela cruz.

Apocalipse 10.5-7

“Já não haverá demora”

O anjo levantou a mão ao céu e jurou por aquele que vive pelos séculos dos séculos, o Criador do céu, da terra e do mar, que “já não haveria demora” (Ap 10.5-6).

O gesto recorda Daniel 12, onde um mensageiro levanta as mãos e jura por aquele que vive eternamente, anunciando o tempo da consumação (Dn 12.7). A demora aparente da vinda de Cristo não é negligência nem fraqueza: o Senhor é paciente, “não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9). Mas a paciência divina tem um limite — chegará o momento em que não haverá mais demora, e a porta que esteve aberta se fechará: como na parábola das dez virgens (Mt 25.10-13) e na arca de Noé (Gn 7.16). A Escritura não apresenta uma segunda oportunidade de salvação depois da vinda de Cristo (Mt 25.31-46; Jo 5.28-29).

Por isso o chamado bíblico é sempre para o presente: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o coração” (Hb 3.7-8); “eis, agora, o tempo sobremodo oportuno; eis, agora, o dia da salvação” (2Co 6.2).

E o anjo declara: “Nos dias da voz do sétimo anjo… cumprir-se-á o mistério de Deus, segundo ele anunciou aos seus servos, os profetas” (Ap 10.7). Quando a sétima trombeta soar, grandes vozes proclamarão: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). Esse mistério inclui o pleno estabelecimento do Reino, o juízo do mal, a ressurreição e a recompensa dos santos (Ap 11.17-18); a reunião de todas as coisas em Cristo (Ef 1.9-10); a Igreja de judeus e gentios num só corpo (Ef 2.11-22); e os novos céus e nova terra (2Pe 3.13; Ap 21.1-5). O Reino já foi inaugurado na primeira vinda (Mc 1.15; Mt 28.18) e Cristo já reina (1Co 15.24-26): a sétima trombeta não cria um reino inexistente — anuncia a sua plena manifestação.

Apocalipse 10.8-10

O livrinho: doce na boca, amargo no ventre

João recebe a ordem: “Vai, toma o livro que se acha aberto na mão do anjo” (Ap 10.8). O grande livro do capítulo 5 estava selado, e só o Cordeiro pôde abri-lo; agora o livrinho está aberto (Ap 5.1-7; 10.2): o que estava oculto está sendo revelado.

O anjo diz: “Toma-o e devora-o” (Ap 10.9), e João o come — doce na boca, amargo no ventre (Ap 10.10). A imagem vem de Ezequiel, que comeu o rolo cheio de lamentações e ais, doce como mel na boca (Ez 2.9—3.3); e de Jeremias: “achadas as tuas palavras, logo as comi” (Jr 15.16; Sl 119.103). Comer o livro é receber profundamente a Palavra: antes de proclamá-la, o profeta precisa assimilá-la, deixá-la entrar no coração, moldar o pensamento e corrigir a vida. A Palavra deve ser pregada primeiro ao pregador (Tg 1.22-25; 1Tm 4.15-16).

A amargura

A mensagem que também julga

O mesmo livro é amargo no ventre: anuncia juízo sobre os impenitentes — o evangelho é “para uns, cheiro de morte para morte; para outros, aroma de vida para vida” (2Co 2.15-16; Jo 3.16-21). E amargo também porque o profeta participa da dor de Deus: não anuncia o juízo com frieza nem prazer. Jeremias chorou pela ruína do povo (Jr 9.1); Paulo tinha “grande tristeza” pelos seus (Rm 9.1-3); e o próprio Jesus chorou sobre Jerusalém (Lc 19.41). Além disso, proclamar a Palavra atrai oposição (Jo 15.18-20; 2Tm 3.12).

Apocalipse 10.11

“É necessário que profetizes novamente”

Depois de comer o livro, João recebe nova comissão: “É necessário que ainda profetizes a respeito de muitos povos, e nações, e línguas, e reis” (Ap 10.11).

É impossível receber de verdade a Palavra e ficar indiferente: quem comeu o livro precisa anunciá-lo. A revelação não foi dada para satisfazer a curiosidade sobre o futuro, mas para produzir testemunho, arrependimento e missão. E o alcance é universal — “povos, nações, línguas e reis” —, a mesma linguagem dos redimidos comprados pelo sangue do Cordeiro (Ap 5.9; 7.9): o alcance da profecia corresponde ao alcance da missão de fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20; At 1.8). O interlúdio, portanto, não é um intervalo vazio: enquanto houver tempo, existe missão; enquanto a porta estiver aberta, o Espírito e a noiva convidam: “Vem!” (Ap 22.17).

Fixação

Cartões de memorização

Onze cartões para revisar antes da avaliação. Toque cada um para virar.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

A Palavra é doce e amarga: consola e também confronta. Você tem deixado a Palavra ser “comida” — assimilada a ponto de moldar a sua vida —, ou apenas ouvida de fora?Ver resposta sugerida
Comer o livro é o oposto de consumir informação: é permitir que a Palavra entre, alimente e corrija (Ap 10.9-10; Ez 3.1-3). O teste prático é simples: a Palavra que ouço tem mudado o que penso, o que falo e como vivo — ou fica na superfície, virando assunto sem virar caráter (Tg 1.22-25)? Isso vale especialmente para quem ensina: a Palavra deve ser pregada primeiro ao pregador. E há também um teste do coração: aceito não só a doçura da graça, mas a amargura de ser confrontado por ela? Quem só quer o mel e recusa o que a Palavra expõe ainda não a comeu de fato.
Alguém diz que a Igreja deveria falar só de amor, nunca de juízo — que anunciar condenação é intolerância. Como responder a partir de Apocalipse 10?Ver resposta sugerida
A Palavra é, ao mesmo tempo, doce e amarga (Ap 10.10): suprimir a amargura é mutilar a mensagem. O evangelho é boa-nova, mas a sua rejeição confirma a condenação de quem prefere as trevas à luz (2Co 2.15-16; Jo 3.16-21). Amor sem verdade não é amor — é indiferença educada. Repare, porém, no tom: o profeta anuncia o juízo chorando, não com prazer nem vingança (Jr 9.1; Lc 19.41); e o arco-íris sobre o anjo lembra que, enquanto dura o tempo da graça, a misericórdia é oferecida (Ap 10.1; Hc 3.2). Calar sobre o juízo seria a verdadeira crueldade: seria deixar as pessoas dormindo diante de um perigo real. Falar dele com lágrimas e apontar o Cordeiro que salva — isso é amor.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Escolha uma passagem da Escritura que o console e outra que o confronte, e escreva como cada uma é “doce” e “amarga” para você. Depois, ore pedindo coragem para profetizar — para dizer, com mansidão e lágrimas, tanto a graça quanto a verdade a alguém concreto da sua convivência (Ap 10.11).

Aula 12

Apocalipse 11 — as duas testemunhas: a Igreja em seu testemunho profético, a sua aparente derrota e a sua ressurreição, e a sétima trombeta que anuncia: “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor”. Ir para a Aula 12 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello