Carta aos EfésiosAula 1

Toda bênção em Cristo

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo.”Efésios 1.3 (NAA)

Bispo Ildo MelloIgreja Metodista Livre do Brasil

Para começar

Perguntas norteadoras

Antes de mergulhar no hino de bênçãos com que Paulo abre a carta, guarde três perguntas. Elas nos acompanharão do templo de Diana às regiões celestiais.

1

De onde vêm as bênçãos espirituais que tenho — do meu esforço, do acaso, ou de um propósito eterno de Deus?

2

O que significa dizer que Deus me “escolheu em Cristo”? Isso apaga a minha responsabilidade de crer e perseverar?

3

Se já fui selado com o Espírito, o que muda no jeito como enfrento as lutas de hoje?

Toda a resposta cabe numa palavra que se repete do versículo 3 ao 13: “nele”. Cada bênção se encontra, se cumpre e se guarda em Cristo (Ef 1.3-14).

Contexto

A cidade e a carta

Éfeso, no primeiro século, era a capital da província romana da Ásia e uma das maiores cidades do Império. Ali ficava o templo da deusa Diana, uma das sete maravilhas do mundo, e um anfiteatro para vinte mil pessoas (At 19.23-27).

Paulo já passara por ali no fim da segunda viagem missionária; na terceira, ficou morando quase três anos (At 18.23—21.16). Mas repare numa diferença: ao contrário de Gálatas ou Coríntios, esta carta não corrige problemas específicos de uma comunidade. É um texto de alcance mais amplo, com um cunho teológico abrangente, que fala à igreja como um todo e à igreja de todo o tempo.

A carta se divide em duas partes. Nos capítulos 1 a 3, contempla-se o grande mistério de Deus: em Cristo, Deus faz convergir todas as coisas, no céu e na terra, colocando Jesus como Senhor sobre tudo. Nos capítulos 4 a 6, esse plano desce ao chão da vida: a nova vida em Cristo, vivida nos relacionamentos de cada dia. Nesta aula ficamos no capítulo 1.

Efésios 1.1-2

Santos e fiéis em Cristo

“Paulo, apóstolo de Cristo Jesus pela vontade de Deus, aos santos que vivem em Éfeso e fiéis em Cristo Jesus” (Ef 1.1).

Paulo é apóstolo não por vontade própria, mas por desígnio de Deus. E os leitores são chamados de santos: não porque sejam perfeitos, mas porque foram separados. Estão no mundo, mas não são do mundo; têm cidadania celeste e a Deus por Pai. Foram separados para viver o propósito de Deus e feitos filhos por sua graça.

“Graça e paz a vocês, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.”Efésios 1.2 (NAA)

Efésios 1.3-14

O propósito eterno de Deus

Nos versículos 3 a 14, no grego, corre uma única e longa frase — um jorro de louvor. Um bom título seria: o propósito eterno de Deus e todas as bênçãos que temos em Cristo.

Três palavras dão o tom. A primeira é beneplácito (ou propósito): a resolução deliberada e bondosa de Deus (Ef 1.5,9). A segunda é vontade, que se repete (Ef 1.5,9,11). A terceira é ainda mais forte: “o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Tudo o que acontece à igreja brota do coração de Deus, não do acaso.

Antes. A escolha é “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4).
Agora. Recebemos “toda sorte de bênção espiritual” já, em Cristo (Ef 1.3).
Até. Caminha para “a plenitude dos tempos”, quando Deus fará convergir nele todas as coisas (Ef 1.10).

E qual é o alvo declarado desse propósito? Repare nas expressões “para” e “a fim de”: fomos escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis” (Ef 1.4) e tudo isso é “para louvor da glória da sua graça” (Ef 1.6,12,14). Deus nos criou e nos redimiu para a sua glória — e nisso está a nossa maior alegria.

A doutrina da eleição, com profundidade

Escolhidos em Cristo

“Deus nos escolheu nele, antes da fundação do mundo… e nos predestinou para sermos adotados como filhos” (Ef 1.4-5). Poucos textos foram tão debatidos. Como lê-lo à luz de toda a Escritura, na tradição arminiana-wesleyana?

Em Cristo: o fundamento da eleição

A expressão decisiva é “em Cristo” (Ef 1.4). Paulo não diz que Deus escolheu indivíduos tomados isoladamente; diz que nos escolheu “nele”. E a estrutura se repete: “em Cristo” (v.3), “nele” (v.4), “por meio de Jesus Cristo” (v.5), “no Amado” (v.6), “nele temos a redenção” (v.7), “em Cristo” (vv.9-10), “nele fomos feitos herança” (v.11), “em quem também vós” (v.13). Para Armínio, Cristo não é apenas o executor de um decreto anterior: ele é o próprio fundamento da eleição. Fora de Cristo não há eleição salvadora.

Corporativa na estrutura, individual na aplicação

Deus escolheu Cristo como representante da nova humanidade e, nele, escolheu a Igreja como seu povo — assim como escolheu Abraão e, nele, a sua descendência. Não é um grupo abstrato e vazio: a eleição é primeiro do povo em seu Cabeça, mas alcança de fato cada pessoa que passa a pertencer a esse povo pela fé. O aspecto corporativo não anula o individual; o crente é eleito como membro do corpo eleito. Em síntese: Cristo é o Eleito; a Igreja é eleita nele; cada pessoa participa dessa eleição pela união com Cristo mediante a fé.

O que a predestinação predestina

Repare que Efésios 1 não afirma que Deus predestinou algumas pessoas a crer. Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados: para serem santos e irrepreensíveis (v.4), para a adoção (v.5), para a redenção e o perdão (v.7), para uma herança (v.11), para o louvor da glória de Deus (vv.6,12,14). A predestinação fixa o destino dos que estão em Cristo: Deus determinou soberanamente que todo aquele que estiver unido ao Filho será perdoado, adotado, santificado, transformado e, enfim, glorificado. Em palavras simples: Deus não predestinou certas pessoas a crer à revelia da sua resposta; predestinou o que há de acontecer com todos os que creem. Wiley ajuda a distinguir: a predestinação é o plano gracioso de adotar por meio de Cristo; a eleição identifica os que acolhem pela fé a oferta da misericórdia.

A causa é a graça; a condição não meritória é a fé

Nada disso faz da fé um mérito. O pecador caído não produz fé por si mesmo: o Pai planeja, o Filho redime, o Espírito ilumina, convence e capacita, o evangelho chama — e o pecador, alcançado pela graça, pode então responder. Armínio sustentava que ninguém exerce fé salvadora sem a graça que capacita. A diferença para o calvinismo não está em afirmar ou negar a necessidade da graça, mas em perguntar se ela é irresistível e concedida apenas a alguns. A fé, portanto, não é a causa meritória da eleição: é o meio gracioso pelo qual somos unidos ao Eleito. A causa é a graça; o fundamento é Cristo; a condição não meritória é a fé.

Como se entra nessa realidade

Ouviram, creram, foram selados

O próprio capítulo mostra o caminho: “tendo ouvido a palavra da verdade… e nele também crido, fostes selados com o Espírito” (Ef 1.13). Tudo é dom da graça — o evangelho, a ação do Espírito, Cristo, as bênçãos. Mas a participação pessoal no povo eleito se dá pela fé.

Ef 1.13

Um só povo: judeus e gentios

O “nós/vós” do capítulo tem cor comunitária. “Nós, os que primeiro esperamos em Cristo” (v.12) — os judeus que primeiro creram; “em quem também vós” (v.13) — os gentios que depois ouviram e creram. Wesley lê assim: a eleição revela o plano de formar em Cristo um único povo de judeus e gentios, como a carta dirá adiante (Ef 2.14-18; 3.6). Efésios 1 não é especulação sobre indivíduos num decreto secreto; é a celebração do plano de reunir todas as coisas em Cristo e formar nele um povo santo.

“Segundo o beneplácito de sua vontade” não é arbitrariedade

Que a adoção se dê “segundo o propósito da sua vontade” (Ef 1.5) não enfraquece nada. Foi Deus, e não o homem, quem livremente decidiu salvar por Cristo, conceder a salvação pela graça, recebê-la mediante a fé, reunir judeus e gentios, adotar os que creem e conduzi-los à santidade e à glória. A soberania divina está em Deus ter estabelecido livremente o Salvador, o caminho, a condição e o destino da salvação — não em um sorteio arbitrário de pessoas.

A evidência da eleição: santidade, não decretos secretos

Fomos escolhidos “para sermos santos e irrepreensíveis diante dele, em amor” (Ef 1.4). A eleição não é só privilégio: é vocação. Por isso a prova de que somos eleitos não está em devassar os conselhos secretos de Deus, mas nos frutos visíveis: fé viva em Cristo, presença do Espírito, crescimento no amor, obediência, santidade de vida (assim ensina Wiley).

Referências: J. Armínio, Works (a eleição fundada em Cristo); J. Wesley, Notas Explicativas sobre Ef 1.4-5,11-12; H. O. Wiley, Christian Theology, cap. 26; B. Abasciano e B. Witherington III (leitura corporativa).

Questão disputada

Efésios 1.11 ensina determinismo?

Poucas cláusulas do Novo Testamento foram tão citadas fora do seu contexto quanto esta: “aquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11). Ela é o texto-prova clássico de quem sustenta que Deus decretou de modo imutável cada evento do universo. Vale examiná-la com calma.

A tese que estamos examinando: que o versículo 11 afirma um decreto eterno e exaustivo, pelo qual tudo o que acontece — inclusive quem crê e quem não crê, inclusive cada tragédia — foi determinado por Deus antes da fundação do mundo. A pergunta não é se Deus é soberano, o que ninguém aqui discute. A pergunta é se este versículo diz isso.

Argumento 1

O conselho de Deus pode ser rejeitado

A palavra traduzida por “conselho” é boulē (βουλή). É a mesma que Lucas usa ao dizer que “os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram o desígnio de Deus quanto a si mesmos, não tendo sido batizados por João” (Lc 7.30). Se boulē significasse decreto irresistível, essa frase seria impossível de escrever. Some-se Atos 20.27, onde Paulo diz ter anunciado “todo o conselho de Deus” — algo pregável, portanto revelado, e não um decreto secreto; e Atos 2.23, onde a boulē vem emparelhada com a presciência divina. Plano e conhecimento prévio, não determinação bruta.

Argumento 2

O que o versículo está de fato afirmando

O verbo principal é eklērōthēmen: “fomos feitos herança”. É linguagem de aliança, que ecoa Israel como porção do Senhor (Dt 32.9). O versículo trata de quem herda, do que herda e da firmeza dessa herança. Não é uma declaração sobre a mecânica do universo; é uma declaração sobre a segurança do que Deus destinou aos que estão no Filho.

Argumento 3

O objeto da predestinação continua sendo o destino

Como já vimos nesta aula, Paulo diz para o quê os crentes foram predestinados. No versículo 11 é para uma herança. Em nenhum momento ele afirma que Deus predestinou quem viria a crer. A predestinação fixa o que acontecerá com todos os que estão em Cristo — e isso é exatamente o que dá segurança ao crente.

Argumento 4

Como se entra no “nele”: a resposta está dois versículos adiante

Os versículos 3 a 14 formam uma única frase no grego. Quem quiser saber como alguém passa a estar no “nele” do versículo 11 não precisa recorrer a um decreto oculto: Paulo responde no versículo 13 — “em quem também vocês, depois de ouvirem a palavra da verdade, o evangelho da salvação de vocês, e nele terem crido, foram selados com o Santo Espírito da promessa”. Ouviram, creram, foram selados. Nessa ordem.

Argumento 5

O verbo “operar”, na própria pena de Paulo

Deus é descrito como aquele que opera (energeō). Vale ver como Paulo usa esse verbo em outros lugares: Deus opera em nós o poder que ressuscitou Cristo (Ef 1.19-20), opera muito além do que pedimos (Ef 3.20), distribui os dons operando em cada um (1Co 12.6). E, de modo decisivo, Filipenses 2.13: “Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar” — escrito logo depois de “desenvolvam a salvação de vocês com temor e tremor” (Fp 2.12). O operar eficaz de Deus convive, no mesmo parágrafo, com a responsabilidade real do ser humano.

Argumento 6

Escopo e modo não são a mesma coisa

Aqui é preciso honestidade com o texto. Alguns respondem ao determinismo encolhendo “todas as coisas” até que a expressão signifique apenas o plano redentor. O problema é que Paulo usa a mesma expressão dois versículos antes em sentido amplo: “todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). O caminho melhor não é reduzir o escopo, e sim distinguir escopo de modo. A cláusula diz que Deus opera todas as coisas conforme o conselho da sua vontade — afirma que o seu agir é sábio, propositado, fiel e eficaz. Não diz que tudo o que ocorre é aquilo que Deus quis.

Repare no que essa leitura resolve: o decreto é a regra fixa da salvação, não a lista dos salvos. Deus determinou, de modo imutável e antes da fundação do mundo, que todo aquele que estiver em Cristo pela fé será perdoado, adotado, santificado e glorificado. Essa é a rocha. E é uma rocha que sustenta, em vez de esmagar.

Ouvindo o outro lado

1“Vocês estão limitando a soberania de Deus.”a objeção mais comum+

Não limitamos: definimos. Soberania significa que Deus reina com poder absoluto sobre tudo o que existe, e ninguém aqui discute isso. A questão é como esse reinado se exerce. Um rei que precisa determinar cada pensamento dos seus súditos para governar não é mais soberano — é menos, porque não consegue governar seres livres. A soberania que a Escritura descreve é maior: Deus concede liberdade real às criaturas e ainda assim cumpre infalivelmente o seu propósito, respondendo com sabedoria infinita a cada escolha. É a diferença entre um roteirista, que precisa escrever todas as falas, e um enxadrista magistral, que vence contra qualquer lance do adversário sem precisar ditá-lo.

2“Mas a palavra ‘propósito’ está no texto — logo, há decreto.”e há mesmo+

Está, e há. Seria um mau argumento dizer que a palavra “decreto” não aparece no versículo: prothesis (propósito) e boulē (conselho) são exatamente vocabulário de decreto. A discussão nunca foi sobre a existência do decreto, e sim sobre o seu conteúdo. Armínio, aliás, não recusou essa linguagem — reordenou-a. Na sua Declaração de Sentimentos, o primeiro decreto de Deus é nomear Cristo como Mediador; o segundo, receber em graça os que se arrependem e creem; o terceiro, prover suficientemente os meios da graça; e só o quarto diz respeito a salvar as pessoas que Deus previu que creriam e perseverariam. Cristo é o conteúdo do decreto, não o executor de um decreto anterior a ele.

3“Se Deus não determina o mal, ele não está no controle.”a alternativa não é o acaso+

As opções não são apenas duas — ou Deus decreta o mal, ou o mal escapa ao seu governo. Há uma terceira, e é a bíblica: Deus permite que escolhas livres sigam o seu curso e, sendo maior que elas, as supera e as redime. É o que Paulo afirma em Romanos 8.28, quando diz que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”. Cooperar não é causar. José disse aos irmãos: “vocês, na verdade, tencionaram o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20) — duas intenções distintas, não uma só. Vale notar que também comentaristas calvinistas cuidadosos reconhecem, ao expor Romanos 8.28, que Deus permite agentes maus agirem e então sobrepõe o seu propósito santo ao que eles fizeram. Nesse ponto a distância entre nós é menor do que o debate costuma sugerir.

4“Vocês estão atacando um espantalho.”uma ressalva justa+

Em parte, sim, e convém dizê-lo. O calvinismo cuidadoso distingue decreto de causalidade, e trabalha com noções de concurso divino e decreto permissivo — Deus decreta permitir, sem ser o autor moral do pecado. Nossa objeção não se dirige a essa formulação matizada, e sim ao determinismo duro que a versão popular do ensino produz nos púlpitos e nas redes: a ideia de que Deus escreveu ativamente cada tragédia. Contra essa forma, a Escritura é direta: Deus “não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta” (Tg 1.13), e “nele não há treva nenhuma” (1Jo 1.5).

Em síntese: Efésios 1.11 não fala do controle divino sobre cada partícula do universo. Fala da certeza da herança dos que estão em Cristo, garantida por uma vontade que não é arbitrária, mas flui da retidão do caráter de Deus. O decreto inalterável é este: quem crer será salvo. E é justamente porque essa regra não muda que a nossa segurança não depende de descobrir se estamos numa lista secreta — depende de estarmos, pela fé, no Escolhido.

Um rosário de graças

As bênçãos que temos em Cristo

Paulo enfileira as bênçãos numa sequência maravilhosa. Repare como cada uma nos alcança sem mérito nosso.

1

Adoção — fomos feitos filhos de Deus. Não por natureza nem por direito: por graça, quando estávamos mortos em delitos, tornados coerdeiros com Cristo (Ef 1.5; Rm 8.17).

2

Redenção — libertação pelo sangue de Cristo. Éramos escravos do pecado e da morte; ele nos remiu e nos deu perdão (Ef 1.7).

3

Sabedoria e prudência — a riqueza da graça derramada com sabedoria (para conhecer as coisas como são) e prudência (para agir bem), tudo em Cristo (Ef 1.8).

4

Revelação do mistério — Deus nos deu a conhecer o seu plano: fazer convergir nele todas as coisas, no céu e na terra (Ef 1.9-10).

5

Herança — em Cristo fomos feitos herança e recebemos herança, predestinados segundo o propósito daquele que tudo opera (Ef 1.11).

Do versículo 3 ao 13, só nos versículos 8 e 14 não aparece a expressão “nele” ou “em Cristo”. É a assinatura do capítulo: toda bênção se dá, se cumpre e se guarda em Cristo Jesus.

Efésios 1.13-14

O selo e o penhor do Espírito

“Tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa, o qual é o penhor da nossa herança” (Ef 1.13-14).

No mundo antigo, o selo era marca de propriedade e de autenticidade: garantia que a carta era verdadeira e de quem era. Assim, o Espírito Santo é a prova de que pertencemos a Deus. Ele testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16), dando-nos segurança interior.

E o Espírito é também penhor — as arras, o sinal, a garantia da herança. É antegozo do céu, primícias, o primeiro fruto daquilo que teremos por inteiro na plenitude dos tempos. Como o anel de noivado, é a promessa firme das bodas que virão.

A nossa posição

Assentados nas regiões celestiais

A expressão “regiões celestiais” costura o capítulo. No versículo 3, somos abençoados ali. No versículo 20, Cristo está assentado ali, acima de todo principado. E em Efésios 2.6, nós fomos ressuscitados e assentados “juntamente com ele” nas regiões celestiais.

Esta é a nossa posição espiritual: estamos na terra, mas pertencemos ao céu. Deus nos tirou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor (Cl 1.13). Você tem RG, CPF e endereço aqui; mas a sua pátria é celestial, onde Cristo está.

Por isso, diante das lutas, das tribulações, do medo e da solidão, lembre-se de quem você é e de onde está. Já somos mais do que vencedores, e nada pode nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.37-39). Uma ressalva pastoral e honesta, porém: essa posição gloriosa é já e ainda não. Vivemos as primícias, não a plenitude — por isso ainda gememos, adoecemos e morremos (Rm 8.23), aguardando a redenção do corpo. A vitória é certa; a experiência plena é o céu.

Para a vida

Aplicações práticas

1

Comece o dia bendizendo a Deus. Antes de pedir, louve por tudo o que já tem em Cristo — adoção, perdão, herança, o Espírito (Ef 1.3).

2

Descanse na eleição em Cristo, sem preguiça na fé. Você foi escolhido por graça; responda crendo e perseverando (Ef 1.4; Rm 8.29).

3

Viva a santidade “diante dele”, e não para a plateia. Deus vê o coração, e sem amor nada disso aproveita (Ef 1.4; 1Co 13.3).

4

Enfrente as lutas a partir do alto. Você está assentado com Cristo; nada pode roubar a sua condição nele (Ef 2.6; Rm 8.39).

Fixação

Cartões de memorização

Toque em cada cartão para virar. Comece pelo versículo e siga pelos conceitos da aula.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco perguntas com correção imediata. Ao escolher, você vê na hora o acerto, a alternativa certa e um comentário que ensina.

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Para orar e responder

Reflexões

1. Reflexão pastoral: eu vivo como quem foi escolhido e amado?

Se Deus me abençoou com toda sorte de bênção espiritual e me fez seu filho, por que tantas vezes vivo como órfão, ansioso e sem raiz?

Resposta sugerida: tomar um tempo para reler Ef 1.3-14 nomeando cada bênção como sua (“sou adotado, sou remido, sou selado”), agradecer por ela e deixar que essa identidade governe as decisões e reações da semana (Ef 1.3; Rm 8.16).

2. Reflexão apologética: “então a salvação é só decreto de Deus, e a minha fé não conta?”

Alguém pode concluir que, se Deus escolheu antes da fundação do mundo, a decisão humana é irrelevante. Como responder com mansidão?

Resposta sugerida: mostrar que a eleição é em Cristo e que a predestinação, segundo a Escritura, se dá pela presciência de Deus (Rm 8.29; 1Pe 1.2); a iniciativa é toda da graça, mas a salvação é recebida e conservada pela fé (Ef 1.13; Jo 3.16). Não há mérito humano, mas há responsabilidade: crer e perseverar. Deus não salva à força — ele chama, e nós respondemos.

Conclusão

Efésios 1 é um hino: em Cristo temos toda bênção espiritual — eleição, adoção, redenção, revelação do mistério, herança e o selo do Espírito. Tudo “nele”, para louvor da glória de Deus (Ef 1.3-14).

A eleição é em Cristo e a predestinação, condicional pela presciência divina: a graça toma a iniciativa, e nós respondemos pela fé. Já assentados com Cristo, vivemos as primícias, aguardando a plenitude (Ef 1.4; Rm 8.29; Ef 2.6).

Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).