Qual é o “mistério” que Paulo diz ter sido revelado — e por que ele derruba a ideia de dois povos separados de Deus?
“…e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.”Efésios 3.19 (NAA)
Para começar
Efésios 3 tem dois movimentos: a revelação do maior mistério de Deus e uma das mais belas orações da Bíblia. Guarde três perguntas.
Qual é o “mistério” que Paulo diz ter sido revelado — e por que ele derruba a ideia de dois povos separados de Deus?
É possível ser cristão e, ainda assim, ter Cristo habitando só “de aluguel”, sem plenitude, no coração?
Se Deus me ama tanto, por que esse amor não me obriga? Que tipo de amor respeita a minha liberdade?
Tudo começa com “por esta causa” (Ef 3.1,14): por causa de tudo o que Deus fez nos capítulos 1 e 2, Paulo se ajoelha e ora.
Efésios 3.1-6
Paulo fala de um mistério que, em outras gerações, não foi dado a conhecer, mas que agora foi revelado: em Cristo, os gentios são “co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa” (Ef 3.6).
As promessas feitas a Abraão nunca foram só para os israelitas segundo a carne. Deus disse: “em ti serão benditas todas as famílias da terra” (Gn 12.3). O mistério é este: Deus está fazendo convergir em Cristo judeus e gentios, formando um único povo. O que era privilégio de alguns tornou-se herança de todos os que creem.
A posição desta aula
A carta não sustenta a ideia de que Deus mantém dois povos com dois planos — um para Israel, outro para a Igreja. Cristo “de ambos fez um” (Ef 2.14); somos ramos de uma única oliveira, na qual, pela incredulidade, ramos naturais foram cortados e, pela fé, ramos silvestres foram enxertados (Rm 11.17-24). Há uma só oliveira, uma só fé, um só Senhor. Reconhecemos, com respeito, os irmãos que leem a profecia de outro modo; mas, a nosso ver, a Escritura ensina um só povo de Deus, reunido em Cristo.
Ef 3.6; 2.14-16; Rm 11.17-24
Efésios 3.7-13
Paulo se diz servo desse evangelho por graça, chamado a anunciar “as insondáveis riquezas de Cristo” (Ef 3.8).
E há aqui uma verdade impressionante: é “por meio da igreja” que “a multiforme sabedoria de Deus” se torna conhecida aos principados e potestades nas regiões celestiais (Ef 3.10). A igreja não é um detalhe do plano de Deus; ela é o palco onde a sabedoria divina é exibida ao universo. Por isso Paulo pede que não desanimem por causa das suas tribulações (Ef 3.13).
Efésios 3.14-16
“Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai, de quem toma o nome toda família no céu e na terra” (Ef 3.14-15).
Ajoelhar-se é bom, mas Paulo não ensina que essa seja a única forma de orar — podemos orar em pé, sentados, deitados. O que precisa estar de joelhos é o coração. E ele faz pedidos ousados, de quem sabe diante de quem está. O primeiro: que sejamos “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito, no homem interior” (Ef 3.16). Todos precisamos ser fortalecidos — física, emocional e, sobretudo, espiritualmente.
O segundo pedido
“…e assim habite Cristo no vosso coração, pela fé” (Ef 3.17). Se ele fala a cristãos, é porque uma coisa é Cristo estar em nós, outra é ele habitar ricamente. Todos recebemos a mesma visita, mas cada um acolhe de um jeito. A oração é para que ele se sinta em casa, com todo o espaço do coração.
Ef 3.17
Efésios 3.17-19
O terceiro pedido: estar “arraigados e alicerçados em amor” (Ef 3.17) — uma figura da lavoura (raiz) e outra da construção (alicerce). Quanto mais alta a árvore, mais funda a raiz; quanto mais alto o edifício, mais firme o fundamento.
E então o pedido cresce: que possamos “compreender… qual é a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento” (Ef 3.18-19). Quem já foi ao mar sabe: no primeiro contato, ficamos maravilhados — e, ainda assim, conhecemos apenas uma fração ínfima do oceano. Somos como os cegos que tocaram partes do elefante e cada um descreveu uma coisa. Talvez já tenhamos tocado o amor de Deus por uma beirada. A oração de Paulo é para experimentá-lo em toda a sua dimensão.
Ser amado faz bem à alma. E aqui não se trata de ser amado por qualquer um, mas pelo Dono do universo, de modo tão pleno que ele deu a própria vida por nós quando nada merecíamos. Se compreendermos o tamanho desse amor, seremos “tomados de toda a plenitude de Deus” (Ef 3.19).
Um amor que não força
Se o amor de Deus é assim tão grande, por que ele não nos obriga? Porque é amor — e amor não se impõe.
Deus poderia, por decreto, deixar todo mundo apaixonado por Jesus. Mas ele nos atrai “com cordas de amor” (Os 11.4), não por força nem violência. Vemos isso no jovem rico: Jesus, “olhando para ele, o amou” (Mc 10.21) e, mesmo amando, respeitou a sua escolha de ir embora, triste. Vemos isso quando muitos discípulos o abandonaram e ele perguntou aos doze: “Quereis vós também retirar-vos?” (Jo 6.67). Quem ama de verdade concede liberdade.
A posição desta aula
A graça de Deus é poderosa, mas resistível: “sempre resistis ao Espírito Santo” (At 7.51). Deus estende as mãos, bate à porta e espera (Ap 3.20); não arromba. Por isso mesmo, não pregamos universalismo: o amor de Deus alcança a todos e a cruz é oferecida ao mundo inteiro, mas a salvação é recebida por quem, alcançado pela graça, responde com fé. Amar a liberdade que ele concede é levar a sério tanto o convite quanto a resposta.
Os 11.4; Jo 6.67; Ap 3.20; At 7.51
Efésios 3.20-21
A oração termina em louvor: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Ef 3.20).
Deus não é apenas capaz de atender ao pedido; é poderoso para fazer infinitamente mais do que pedimos e até do que sonhamos — inclusive aquilo que não temos coragem de pedir, mas que ele lê no coração. E tudo isso “conforme o seu poder que opera em nós”. Por isso a única resposta cabível é a glória: “a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações” (Ef 3.21).
Para a vida
Não sustente muros que Cristo derrubou. Um só povo, uma só oliveira: viva a unidade entre os que estão em Cristo (Ef 3.6; Rm 11).
Abra o coração inteiro. Não deixe Cristo habitar só um cômodo; peça que ele habite ricamente (Ef 3.17).
Mergulhe no amor de Cristo. Reserve tempo para contemplar quanto Deus o ama; é isso que nos enche da plenitude (Ef 3.18-19).
Ame como Deus ama: com liberdade. No lar, na igreja, no evangelismo, atraia com amor, sem manipular nem forçar (Os 11.4).
Fixação
Toque em cada cartão para virar. Comece pelo versículo e siga pelos conceitos da aula.
Avaliação
Cinco perguntas com correção imediata. Ao escolher, você vê na hora o acerto, a alternativa certa e um comentário que ensina.
Respondidas: 0 de 5
Para orar e responder
Cristo está em mim — mas habita ricamente, ou eu lhe reservei só um cantinho, cheio de portas fechadas?
Resposta sugerida: identificar uma “porta fechada” (um hábito, uma mágoa, uma área da vida) e, em oração, entregá-la a Cristo, pedindo que ele habite também ali (Ef 3.17).
Alguém pode concluir, do amor imenso de Deus, que todos serão salvos. Como responder com mansidão?
Resposta sugerida: afirmar o amor universal de Deus (ele deu o Filho pelo mundo, Jo 3.16) e, ao mesmo tempo, que a sua graça é resistível: Deus atrai com cordas de amor e respeita a resposta (Os 11.4; At 7.51; Ap 3.20). A salvação é oferecida a todos, mas recebida pela fé; por isso não é universalismo, e sim amor que leva a sério a liberdade que concede.
O mistério revelado é que, em Cristo, judeus e gentios formam um só povo, co-herdeiros da promessa; e é pela igreja que a multiforme sabedoria de Deus se mostra ao universo (Ef 3.6,10).
Paulo ora para sermos fortalecidos, para que Cristo habite ricamente, para conhecermos o amor que excede todo entendimento e sermos cheios da plenitude de Deus — um amor que atrai com cordas, sem forçar (Ef 3.16-20; Os 11.4).
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Bispo Ildo Mello — Igreja Metodista Livre do Brasil. Referências na versão Nova Almeida Atualizada (NAA).