Evangelizar é tarefa de quem?
De pastores, missionários e de quem “tem o dom”? Ou de todo cristão, sem exceção?
“Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que ordenei a vocês.”Mateus 28.19-20 · NAA
Perguntas norteadoras
Este curso não começa por técnicas. Começa por convicções — porque o que trava a evangelização quase nunca é falta de método.
De pastores, missionários e de quem “tem o dom”? Ou de todo cristão, sem exceção?
Um convite religioso, uma promessa de vida melhor — ou uma notícia sobre um Rei que morreu, ressuscitou e reina?
Falta treinamento, ou falta outra coisa? A aula inteira se dirige a essa pergunta.
Tese da aula: método sem amor produz constrangimento; amor sem mensagem produz uma simpatia inofensiva, que não salva ninguém. A Grande Comissão pede as duas coisas ao mesmo tempo — uma mensagem clara na boca de gente que ama de verdade.
Parada 1
Os quatro evangelhos e Atos registram a mesma comissão, cada um com uma ênfase. Lidos juntos, formam o mandato completo da Igreja.
Mateus 28.18-20
“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações.” No grego, o único imperativo é façam discípulos; ir, batizar e ensinar dizem como se faz. Evangelizar, portanto, não termina numa decisão — termina numa vida ensinada a obedecer.
Marcos 16.15
“Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas.” Não há região neutra, nem povo dispensado, nem vizinho fora do alcance.
Lucas 24.46-48
O que se prega tem conteúdo definido: o Cristo que padeceu e ressuscitou, e que em seu nome se pregasse arrependimento para perdão de pecados. Sem arrependimento e perdão, a mensagem deixou de ser o evangelho.
João 20.21
“Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês.” O método é a encarnação: aproximar-se, conviver, servir. Jesus não pregou dos altos céus; desceu, andou, comeu com pecadores.
Atos 1.8
“Vocês receberão poder ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas.” Jerusalém, Judeia, Samaria, confins da terra: começa onde você está — e não para onde você se sente confortável.
Observação exegética
“E eis que estou com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28.20). A companhia de Cristo não é prometida a quem fica parado; é prometida a quem vai. Muita gente espera sentir a presença para então obedecer — o texto inverte a sequência.
Mt 28.20
Parada 2
Evangelizar é comunicar as boas novas de Jesus Cristo a todas as pessoas, em obediência ao mandato de fazer discípulos (Mt 28.18-20). É anunciar que Deus oferece perdão, reconciliação e vida eterna por meio de Cristo (Jo 3.16). O Novo Testamento descreve essa mesma tarefa por vários ângulos.
Alguém precisa falar. “Como crerão naquele de quem nada ouviram?” (Rm 10.14-15; 2Tm 2.2).
Contar o que se viu e recebeu, prontos para responder a quem pergunta (At 1.8; 1Pe 3.15).
Espalhar a semente sabendo que nem todo terreno responde igual (Mc 4.14-20).
Deus reconciliou o mundo consigo em Cristo e nos confiou a palavra da reconciliação (2Co 5.18-19).
Falamos em nome de outro: a mensagem não é nossa e a autoridade não é nossa — a responsabilidade de entregá-la é (2Co 5.20).
Vida visível, que leva as pessoas a glorificarem o Pai (Mt 5.14-16).
“Se o Filho os libertar, vocês serão de fato livres” (Jo 8.36).
Deus “ordena a todas as pessoas, em todos os lugares, que se arrependam” (At 17.30; Mc 1.15; At 2.38).
Evangelizar não se resume a cumprir uma ordenança bíblica: é participar ativamente do plano redentor de Deus para a humanidade.
Parada 3
A pergunta “evangelizar é falar ou é viver?” é mal formulada. O Novo Testamento não conhece essa separação.
Palavras
Testemunho pessoal. Ensino das Escrituras. Explicação de quem é Jesus, do que Ele fez na cruz e de por que todos precisamos de salvação.
Ações
Práticas de amor. Serviço. Hospitalidade. Demonstração de que o evangelho produz transformação real no coração de quem crê (Tg 2.14-17).
Nosso papel é falar e viver o que anunciamos, orando para que Deus abra o coração das pessoas. Cooperamos com o Espírito Santo, que convence o mundo do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8).
O que nos falta mesmo é amor pelo perdido, e não mais técnicas de evangelismo e relacionamento. De que adiantam as técnicas para abordar pessoas sem o amor por elas? As pessoas querem ver Cristo em nós, e não somente ouvir de nós sobre Cristo.
Parada 4
Motivação errada cansa rápido. Vale saber por que fazemos o que fazemos.
Motivo 1
A ordem foi dada por Aquele que tem toda a autoridade (Mt 28.18). Não é sugestão para os entusiasmados; é mandato para a Igreja.
Motivo 2
“Pois o amor de Cristo nos constrange” (2Co 5.14). Quem ama não fica calado a respeito daquilo que salva.
Motivo 3
Recebemos de graça (Mt 10.8). Reter a boa notícia depois de tê-la recebido é uma contradição prática.
Motivo 4
A Bíblia não trata a incredulidade como preferência inofensiva: quem rejeita o Filho permanece sob juízo (Jo 3.18,36). Entre cristãos fiéis há leituras diferentes sobre a natureza desse juízo — uns o entendem como tormento consciente e eterno, outros como destruição final. O que a Escritura afirma sem ambiguidade é que o juízo é real, justo e proporcional (Lc 12.47-48), e que a salvação é recebida pela fé em Cristo (Jo 14.6; At 4.12; Rm 10.9). Não nos cabe medir a pena; cabe-nos anunciar o Salvador enquanto há tempo.
Motivo 5
O fim último da missão não é o crescimento da igreja, e sim o nome de Deus honrado entre os povos (Sl 96.3; Ap 7.9-10).
A ordem das motivações
Vale sublinhar a motivação inicial dos primeiros cristãos: a gratidão cheia de amor para com Deus. “O Filho de Deus me amou e a si mesmo se entregou por mim”, exclamou Paulo, atônito (Gl 2.20) — a cruz como impulso supremo. Isso importa porque, com muita frequência, a principal força motriz por trás da missão cristã acaba sendo apenas a ordem direta de Jesus. Os cristãos primitivos viram que a missão estava baseada na própria natureza do Deus que a conferira: primeiro o amor, depois o mandamento. Amor sem ação é contraditório (Jo 14.15,23); ação sem amor é um engano perigoso (1Co 13).
Gl 2.20; 1Co 13
E não esqueça a alegria. “Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas!” (Rm 10.15). Quem semeia com lágrimas colherá com alegria (Sl 126.5-6), e cada conversão provoca festa no céu (Lc 15.7). Ver vidas transformadas fortalece a própria fé de quem anuncia — o evangelista é o segundo a ser abençoado em cada conversa.
Parada 5
As duas coisas costumam ser tratadas como opostas. Não são: a urgência sem amor atropela; o amor sem urgência adia para sempre.
Doutrina correta é importante, claro. Mas uma ortodoxia fria nunca ganhou ninguém para Cristo. A verdade precisa ser dita em amor. As pessoas não se importam com o quanto nós sabemos até perceberem o quanto nós nos importamos com elas.
Jesus tocava os intocáveis. Comia com os pecadores. Construía pontes, e não muros. Às vezes um ato de bondade, um ouvido atento ou uma mão estendida falam muito mais alto do que um tratado teológico inteiro. Nossa missão é amar as pessoas até a cruz — conduzi-las, com paciência, até Jesus.
Aplicação
Não espere um sentimento extraordinário para começar a obedecer. Na vida cristã, muitas vezes a obediência vem antes do sentimento. A ordem de Jesus já foi dada: “Vão”. O que está faltando não é oportunidade — são trabalhadores dispostos (Mt 9.37-38).
Mt 9.37-38
Que a sua oração hoje seja simples: “Senhor, aqui estou. Usa a minha vida. Começa hoje, onde eu estou, com o que eu tenho nas mãos.”
Parada 6
Quatro objeções que ouvimos de irmãos sinceros, e que provavelmente já fizemos a nós mesmos.
Correto — nem todos têm. O dom de evangelista é dado a alguns (Ef 4.11). Mas o testemunho é tarefa de todos: “vocês serão minhas testemunhas” (At 1.8) foi dito à igreja inteira, não a uma categoria. Na igreja primitiva não havia distinção entre ministros de tempo integral e leigos quanto à responsabilidade de difundir o evangelho; os principais instrumentos da expansão do cristianismo foram homens e mulheres que viviam de maneira totalmente secular e falavam da sua fé a quem encontravam no cotidiano.
O medo é honesto e quase universal. Mas ele costuma revelar uma expectativa equivocada: a de que o resultado depende de nós. Quem convence do pecado é o Espírito (Jo 16.8); quem abre o coração é Deus (At 16.14). Nossa parte é semear com fidelidade e amor — e a semente cai em terrenos diferentes (Mc 4.14-20). Além disso, boa parte da rejeição que tememos nasce de abordagens sem relacionamento. Onde há amizade real, a conversa quase sempre é bem recebida.
Você sabe mais do que pensa: sabe o que Deus fez na sua vida, e ninguém pode contestar isso. Comece por aí. Depois, aprenda: “estejam sempre preparados para responder a todo aquele que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês” (1Pe 3.15) — o mesmo texto acrescenta “com mansidão e temor”. Preparo e mansidão andam juntos. As Aulas 5 e 8 deste curso tratam exatamente disso.
Se o critério fosse vida perfeita, ninguém evangelizaria — o próprio Paulo se declarou o principal dos pecadores (1Tm 1.15). O testemunho cristão não é “sou melhor que você”, e sim “fui alcançado por graça, e ela está disponível para você”. Dito isso, a objeção guarda uma verdade: incoerência grave fecha portas. Não é razão para calar; é razão para buscar santidade de coração e vida.
Paulo exorta a “remir o tempo, porque os dias são maus” (Ef 5.15-16) — administrar bem o tempo é alinhá-lo à vontade de Deus. Na prática, a evangelização acontece em oportunidades simples do dia a dia, sem exigir grandes intervalos adicionais: a conversa no trabalho, a fila do mercado, a mensagem que você já ia mandar. Se realmente não temos tempo para anunciar as Boas Novas, é preciso reavaliar prioridades — porque o tempo que falta para isso está sendo gasto em outra coisa.
Ao menos é sincera. Mas a Grande Comissão é um mandamento, não uma sugestão (Mt 28.19-20). E Jesus ensina a buscar primeiro o Reino de Deus (Mt 6.33) — evangelizar faz parte dessa busca. Vale examinar onde está o nosso tesouro, porque ali estará o nosso coração (Mt 6.21). Evangelizar não é um item opcional da agenda cristã: é parte do nosso relacionamento com o Senhor e do serviço ao próximo.
Parada 7
O metodismo nasceu do encontro entre um evangelho anunciado a todos e uma igreja que capacitou os leigos a anunciá-lo.
A Reforma ergueu a bandeira do sacerdócio universal de todos os crentes, mas, na prática, o clericalismo continuou prevalecendo. Wesley também começou resistindo: era contra a pregação leiga, e comparava o caso ao de alguém de fora da tribo de Levi ministrando ao altar. O número de convertidos, porém, cresceu tanto que ele precisou de auxiliares.
Episódio
Quando Wesley soube que Maxfield, seu primeiro auxiliar, estava pregando, fez menção de repreendê-lo. Sua mãe o aconselhou: “Tende cuidado, João, o que ides fazer daquele jovem, pois é ele tão certamente chamado por Deus para pregar como vós. Examinai quais os frutos de sua pregação e então o ouvi por vós mesmo”. As prevenções de Wesley eram fortes, mas sempre cediam diante dos fatos. Ele escutou, vigiou, meditou e decidiu: “É do Senhor, faça Ele o que lhe aprouver”.
Quanto mais os críticos escarneciam da origem humilde e da instrução insuficiente daqueles primeiros pregadores leigos, mais se evidenciava a grandeza do trabalho deles: bêbados tornados homens sóbrios, ladrões tornados homens honestos, prostitutas tornadas mulheres castas. Uma igreja pastorcêntrica acaba deixando de ser cristocêntrica. Cristo reparte dons, promovendo a democratização do ministério — afirmar o sacerdócio universal não é dizer que todos são pastores, e sim que ninguém é dispensado da missão.
Guarde esta frase para o resto do curso: Wesley jamais evangelizava uma pessoa para abandoná-la à própria sorte, à mercê do inimigo. Ele exortava seus auxiliares: “não ousem pregar sem organizar novas classes”. Evangelização e discipulado eram a mesma obra. Voltaremos a isso nas Aulas 10 e 11.
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
1) Fazer a sua lista de oikos: de cinco a dez nomes de pessoas com quem você já tem contato real e que ainda não conhecem a Cristo — vizinhos, colegas, parentes. Comece a orar por elas todos os dias, pelo nome. 2) Escrever em meia página, com as suas palavras, o que é o evangelho, como se estivesse explicando a um vizinho que nunca entrou numa igreja. Traga na Aula 2.
Aula 2
O evangelho que anunciamos: o conteúdo da mensagem. O que é notícia e o que é opinião, o núcleo cristocêntrico da pregação apostólica e os atalhos que mutilam o evangelho. Ir para a Aula 2 →
Curso de Evangelização · Igreja Metodista Livre do Brasil. Texto redigido com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.