Perfeitos no AmorAula 2

A imagem quebrada e a promessa da restauração

“Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem os meus juízos e os pratiquem.”Ezequiel 36.27 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Gênesis 1.26-27; Gênesis 3.1-24; Deuteronômio 30.1-10; Ezequiel 36.24-32

Ponto de partida

Criados retos, deformados por escolha

Se fomos criados à imagem de Deus, por que a vida cristã é tão difícil? Esta aula trata do estrago, porque não dá para falar honestamente de restauração sem antes olhar com franqueza para o que foi quebrado.

“Deus fez o ser humano reto, mas ele se meteu em muitas astúcias.”Eclesiastes 7.29

O problema não está na criação; está na escolha. A imagem de Deus no ser humano nunca foi apagada: continuamos portadores de dignidade, de razão, de consciência moral e de capacidade de relacionamento. Mas ela foi deformada em sua dimensão moral. O espelho não se quebrou por completo; ficou torto, embaçado, rachado. Ainda reflete alguma coisa, mas reflete mal.

Ilustração

Uma frase de criança que explica o pecado

Um episódio doméstico explica o pecado melhor do que muitas definições.

Minha netinha estava brincando em cima de uma cadeira, o que é sempre um risco. O pai pediu que ela descesse. E ela respondeu, com toda a clareza de quem já entendeu tudo o que precisava entender: “Não quero ser obediente, pois eu quero ser feliz.”

1

O cálculo do Éden

Obediência e felicidade em campos opostos; Deus manda para limitar; quem obedece perde. É a mesma lógica de Gênesis 3, formulada com uma sinceridade que os adultos já perderam.

2

A raiz não é moral

O pecado, na sua raiz, é uma questão de confiança antes de ser uma questão de moral. É a suspeita de que Deus não quer o nosso bem.

3

Por que isso importa

Enquanto essa suspeita permanecer no coração, nenhuma quantidade de esforço moral produzirá santidade. Produzirá, no máximo, comportamento.

O estrago

A ruptura do relacionamento

“Ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim.” A comunhão era o estado normal.

Gn 3.8

“Ouvi a tua voz no jardim, e tive medo… e me escondi.” O pecado produz medo, e o medo produz esconderijo.

Gn 3.10

“O Senhor Deus fez roupas de peles para Adão e sua esposa e os vestiu.” Deus busca e cobre a vergonha.

Gn 3.21

“As maldades de vocês fazem separação entre vocês e o seu Deus.”

Is 59.2

Paulo resume tudo em cinco palavras: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Comentaristas divergem sobre o que ele tem exatamente em vista, mas há um pano de fundo que ajuda a sentir o peso da frase: no Antigo Testamento, a glória é a presença manifesta. Quando o tabernáculo ficou pronto, Moisés não podia entrar (Êx 40.34-35); quando o templo foi dedicado, os sacerdotes não podiam ministrar (1Rs 8.11).

O fio condutor

A restauração da presença

Se o problema é separação, a solução tem de ser presença restaurada. E é exatamente isso que a Escritura narra, do começo ao fim.

1. No Sinai: “Andarei entre vocês e serei o seu Deus” (Lv 26.12).
2. Nos Evangelhos: Jesus “designou doze para que estivessem com ele” (Mc 3.14), antes de enviá-los a pregar.
3. Nas cartas: “Vocês não sabem que são santuário de Deus?” (1Co 3.16).
4. No Apocalipse: “Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos” (Ap 21.3).

Este é o arco inteiro: presença perdida no Éden, presença restaurada em Cristo, presença consumada na nova criação. A santificação é o nome que damos ao processo pelo qual essa presença restaurada vai transformando a pessoa em quem ela habita.

O coração da esperança

Duas promessas que sustentam este curso

Ezequiel 36.27,29

Deus porá o seu Espírito

“Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos.” E adiante: “Eu os livrarei de todas as suas impurezas.” Observe os verbos, todos na primeira pessoa: porei, farei, livrarei.

A nova aliança não é um contrato melhorado

Um pouco antes, Moisés registrou um desejo divino que soa quase como um suspiro: “Quem dera eles sempre tivessem tal coração, para me temerem e guardarem todos os meus mandamentos” (Dt 5.29). Ali não fala um legislador cobrando cumprimento, mas um Pai que deseja aquilo para os seus filhos.

Objeção honesta

Essas promessas são para esta vida ou para a vinda?

Alguém dirá: são promessas escatológicas, só cumpridas na ressurreição.+

É uma leitura possível, e não a descarto de modo leviano. Há de fato uma dimensão dessas promessas que só se cumprirá plenamente na nova criação.

Mas há um problema com essa leitura exclusiva.+

O Novo Testamento cita essas promessas como já cumpridas, ou em vias de cumprimento, na experiência cristã presente. “O amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5) descreve algo já acontecido com os cristãos de Roma. Pedro usa a linguagem da purificação do coração para o que aconteceu com os gentios (At 15.9). E Paulo aplica Ezequiel 36.27 à vida cristã presente em Rm 8.4.

Qual é, então, a posição deste curso?+

Essas promessas têm um cumprimento real e substancial nesta vida, e um cumprimento consumado na vida por vir. Negar o primeiro é esvaziar a nova aliança; absolutizar o primeiro é prometer o que a Escritura não promete. A Aula 12 trata das fronteiras.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para refletir

Em que área da sua vida você tem dito, de alguma forma, “eu sou assim mesmo, não tem jeito”?ver resposta sugerida

Vale identificar a área com nome e sobrenome, porque a frase costuma esconder uma afirmação teológica: a de que a Queda foi mais forte do que a graça. A resposta bíblica não é otimismo psicológico nem autoajuda, e sim os verbos de Ezequiel 36.27,29, em que Deus declara o que ele mesmo fará. O passo prático é transformar a queixa em oração, pedindo especificamente aquilo que Deus prometeu fazer.

Um amigo diz que a doutrina wesleyana é ingênua a respeito do pecado. Como você responderia?ver resposta sugerida

Reconhecendo primeiro que a acusação faz sentido à primeira vista, porque falamos muito de vitória. Em seguida, mostrando os fatos: Wesley escreveu um tratado de mais de quinhentas páginas defendendo a doutrina do pecado original contra John Taylor, e a aula descreve o estrago da Queda sem suavizá-lo. A diferença entre as tradições não está na avaliação do pecado, e sim na expectativa quanto ao alcance da graça nesta vida.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Deuteronômio 30.1-10 e Ezequiel 36.24-32 sublinhando todos os verbos cujo sujeito é Deus. Escrever a lista e trazê-la para a próxima aula.

Próxima aula

Aula 3 — “Sejam santos, porque eu sou santo”. O chamado à santidade nos dois Testamentos, e por que ele nunca foi vocação para alguns poucos.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).