A videira
“Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Assim como o ramo não pode produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira” (Jo 15.4).
“À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados em Cristo Jesus, chamados para serem santos.”1 Coríntios 1.2 · NAA
Primeira distinção
A santidade bíblica não é uma substância, uma quantidade ou uma propriedade que se possui. É um relacionamento no qual se entra.
“Tudo o que tocar o altar será santo.”Êxodo 29.37
O que tornava um objeto santo não era a sua composição, mas o seu contato com o que era santo. Isso muda a pergunta que fazemos. A pergunta correta não é “quanta santidade eu tenho?”, como se fosse um saldo. É “como está o meu relacionamento com Deus?” Uma pessoa é santa por permanecer em Deus, e não por acumular virtudes.
“Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Assim como o ramo não pode produzir fruto de si mesmo, se não permanecer na videira” (Jo 15.4).
A santidade não é um depósito que fica no cofre. É uma das razões pelas quais a tradição arminiano-wesleyana não aceita a fórmula “uma vez salvo, salvo para sempre”.
Sendo a santidade um estado voluntário, ela pode ser perdida. E acrescentou, com precisão pastoral: “Não precisa; não deve; mas pode.”
Segunda distinção
Esta distinção resolve uma aparente contradição do Novo Testamento. Paulo chama os coríntios de santificados em Cristo (1Co 1.2) e poucos capítulos depois os repreende por brigas, processos entre irmãos, tolerância com imoralidade e desordem na Ceia.
Sentido 1
Um status diante de Deus, conferido em Cristo. Neste sentido, todo cristão é santo desde o momento em que crê. “Cristo Jesus se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.”
1Co 1.30
Sentido 2
A conformidade real da vida com aquele status. “E é o que alguns de vocês eram; mas vocês foram lavados, vocês foram santificados, vocês foram justificados.” É a ela que Paulo se refere ao exortar.
1Co 6.9-11
Ponto de divergência
Aqui está uma das críticas mais importantes que Wesley e Roberts fizeram à teologia do seu tempo, e que continua pertinente.
Quando a santidade é reduzida ao seu aspecto posicional, quando santo significa apenas declarado santo, sem qualquer expectativa de mudança real, a doutrina da santificação se dissolve na doutrina da justificação. Passa a ser apenas outro nome para o mesmo evento. E o resultado prático é o conformismo.
Ele reconhecia nos batistas do seu tempo a coerência de exigirem arrependimento para a conversão, mas não entendia por que deixavam de exigir arrependimento e santidade depois dela. Se o pecado é sério antes da conversão, por que deixaria de ser sério depois?
A doutrina que reduz a santificação a uma mudança de relação, separado para fins santos, sem qualquer mudança de caráter. E se a santificação é apenas uma nova etiqueta, não há mais nada a buscar, nada a pedir, nada a esperar.
A preocupação de quem enfatiza a santidade posicional é legítima e precisa ser dita com força: você não é aceito por Deus na medida da sua santidade; você é aceito em Cristo. Sem isso caímos no legalismo. A objeção não é à afirmação, e sim à sua absolutização, quando ela passa a excluir a expectativa de transformação real.
Terceira distinção
Santidade significa mais do que fazer certas coisas boas e não fazer certas coisas más. Significa ser totalmente dedicado a Deus e separado de tudo o que é pecaminoso.
Uma pessoa pode cumprir uma lista de proibições inteira e permanecer com o coração longe de Deus. Jesus disse isso com clareza aos fariseus (Mt 23.25-28).
Uma pessoa inteiramente dedicada a Deus vai naturalmente evitar o que desagrada a Deus, sem precisar de uma lista.
Roberts chamava assim a santidade adulterada, que carece de elementos essenciais. A carga não se move porque muito do vapor se perde; o remédio não cura porque foi combinado com substâncias neutralizantes; o ouro não circula porque foi misturado com liga demais.
Síntese
Uma teologia que fica só no relacional vira misticismo. Uma que fica só no posicional vira conformismo. Uma que fica só no prático vira legalismo. A ordem importa: o relacionamento gera a posição, e a posição produz a prática.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
O diagnóstico costuma vir por sintomas. Fraqueza na relacional aparece como oração rareada e leitura bíblica mecânica. Fraqueza na posicional aparece como insegurança quanto à aceitação por Deus, e a pessoa tenta merecer o que já lhe foi dado. Fraqueza na prática aparece como distância entre o que se professa e o que se vive. O remédio muda conforme o caso, e por isso a distinção importa: quem sofre da segunda não precisa de mais exortação, e sim do evangelho outra vez.
Começando por reconhecer o que há de bom na atitude dela: existe zelo, e zelo é melhor do que indiferença. Depois, mostrando por onde Jesus começa: “Limpam o exterior… mas por dentro estão cheios” (Mt 23.25). E, por fim, oferecendo o critério positivo que substitui a lista: isto contribui para que a imagem de Cristo se forme em mim, ou a obscurece? A pergunta é mais exigente do que a lista, e não menos, o que costuma desarmar a suspeita de que se esteja afrouxando o padrão.
Tarefas
Ler Colossenses 3.1-14 marcando com cores diferentes os indicativos (o que já é verdade sobre você) e os imperativos (o que você deve fazer). Observar qual vem primeiro em cada parágrafo.
Próxima aula
Aula 5 — “Sejam perfeitos”: o que Jesus quis dizer. A palavra grega, o contexto decisivo de Mateus 5 e uma conversa que tive na mocidade sobre o Pai Nosso.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).