O portanto liga tudo
Em que sentido devemos ser perfeitos como o Pai? No sentido em que o parágrafo acaba de descrever: amando sem parcialidade, como o Pai ama.
“Portanto, sejam vocês perfeitos como perfeito é o Pai de vocês, que está no céu.”Mateus 5.48 · NAA
Ponto de partida
“Portanto, sejam vocês perfeitos como perfeito é o Pai de vocês, que está no céu.”Mateus 5.48
Jesus não apresenta a santidade como opção destinada a alguns cristãos excepcionais. Ele a coloca diante de todos os seus discípulos, no meio do Sermão do Monte, dirigido às multidões.
E é justamente por isso que o versículo incomoda tanto. Se fosse dirigido a uma elite espiritual, poderíamos deixá-lo de lado com boa consciência. Como é dirigido a todos, precisamos decidir o que ele significa.
Vocabulário
A palavra grega teleios é usada para aquilo que alcançou o seu propósito, que está completo ou que chegou à maturidade. Ela tem parentesco com telos, fim ou alvo, mas o que decide o seu sentido não é a etimologia, e sim o uso.
Paulo a emprega para o cristão maduro em contraste com a criança.
1Co 14.20; Ef 4.13
Hebreus a usa para os que já passaram do leite ao alimento sólido.
Hb 5.14
Tiago, para quem chegou à integridade pela perseverança.
Tg 1.4
Paulo, para o alvo do ministério: apresentar todos perfeitos em Cristo.
Cl 1.28
Vale registrar o que a palavra não significa. Ela não significa “sem defeito algum” no sentido matemático, nem “impecável” no sentido de infalível. Um instrumento é teleios quando cumpre a sua função; uma pessoa é teleios quando alcançou a maturidade correspondente à sua condição.
A chave interpretativa
Mateus 5.48 não aparece isolado. É a conclusão de um parágrafo inteiro sobre uma coisa específica: amar os inimigos.
“Amem os seus inimigos e orem pelos que os perseguem, para que vocês sejam filhos do Pai de vocês, que está nos céus, porque ele faz o seu sol nascer sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos… Portanto, sejam vocês perfeitos.”Mateus 5.44-48
Em que sentido devemos ser perfeitos como o Pai? No sentido em que o parágrafo acaba de descrever: amando sem parcialidade, como o Pai ama.
Deus não faz o sol nascer apenas sobre os bons. Não envia chuva apenas para os justos. É a perfeição de um amor que não faz acepção de pessoas.
A perfeição de que Jesus fala não é onisciência, infalibilidade ou incapacidade de errar. É a perfeição do amor. Ser perfeito como o Pai significa possuir um coração governado pelo amor.
Ilustração
Tudo isso soa abstrato até que alguém coloque a exigência no lugar onde ela dói. Comigo isso aconteceu ainda jovem, e a lembrança nunca me largou.
Um dos rapazes do grupo me puxou de lado e perguntou se eu costumava orar o Pai Nosso. Respondi que sim, evidentemente. Ele então precisou a pergunta, e foi aí que ela deixou de ser estranha:
“Até aquela parte que diz perdoa as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores?”
Confessou que aquela petição ele pulava. Não conseguia orá-la. Não se achava perfeito o bastante em perdoar, e tinha medo de estar pedindo a Deus que o perdoasse exatamente na medida em que ele perdoava os outros.
Aquele rapaz havia lido a oração com mais atenção do que a maioria de nós. A petição diz “perdoa as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mt 6.12), e em Lucas o paralelo é ainda mais direto (Lc 11.4). Recitamos isso sem ouvir o que estamos dizendo. Ele ouviu, e se assustou. O susto era saudável; o remédio que ele escolheu é que estava errado.
Deixar de pedir não anula a exigência. Silenciar a petição não retira do evangelho o que ele nos manda ser. Deus não requer misericórdia de nós porque a pedimos na oração; requer porque é assim que ele é, e porque nos fez seus filhos. Quem cala aquela linha continua debaixo dela.
Terminado o Pai Nosso, entre tudo o que poderia comentar, foi justamente esta linha que ele voltou a explicar: “Porque, se vocês perdoarem às outras pessoas as ofensas delas, o Pai celestial também perdoará vocês. Mas, se vocês não perdoarem… também o Pai de vocês não perdoará as ofensas de vocês” (Mt 6.14-15). Nenhuma outra parte da oração recebeu esse tratamento.
Um servo devia dez mil talentos, dívida impagável, e foi inteiramente perdoado. Saindo dali, encontrou um companheiro que lhe devia cem denários e o mandou para a prisão. O senhor revogou o perdão concedido, e Jesus encerra sem suavizar: “Assim também o meu Pai celestial procederá com vocês, se do fundo do coração cada um de vocês não perdoar o seu irmão” (Mt 18.35).
Ela não ensina que compramos o perdão de Deus perdoando primeiro: a dívida foi cancelada por pura misericórdia, antes de qualquer mérito, e é essa gratuidade que torna o comportamento posterior do servo tão monstruoso. Mas ensina que a misericórdia recebida e não repassada é uma misericórdia que se pode perder. O perdão foi dado, e depois foi retirado.
Falta a parte que só entendi bem mais tarde. Aquele rapaz tinha razão em uma coisa: ele realmente não era capaz de perdoar como Deus perdoa. Nem eu era. O erro dele foi supor que a saída fosse baixar a exigência calando a oração.
Quando a Escritura ordena aquilo que não conseguimos, ela normalmente promete aquilo que ordena. Deus manda amar de todo o coração e promete circuncidar o coração para que possamos amá-lo assim (Dt 30.6). Manda andar nos seus estatutos e promete pôr o seu Espírito dentro de nós (Ez 36.27). A petição que ele evitava era exatamente a que ele mais precisava orar.
Honestidade intelectual
A objeção tem força. Mas note a diferença: Jesus nunca esperou que alguém literalmente arrancasse o olho, e nenhum apóstolo repetiu aquela ordem como expectativa. Já a ordem de amar plenamente é repetida, ampliada e transformada em oração pelos apóstolos, que pedem a Deus que a realize nos crentes (1Ts 5.23; Ef 3.19; 1Ts 3.12-13). Não se ora pedindo o cumprimento de uma hipérbole.
Essa observação, longe de enfraquecer a leitura wesleyana, a confirma. É exatamente o que estamos dizendo: a perfeição em questão é perfeição de amor, e Lucas explicita o que Mateus formula de modo mais geral (Lc 6.36). A questão que permanece é se essa misericórdia semelhante à do Pai é algo que Deus quer e pode produzir no crente.
Posição
Mateus 5.48 estabelece um alvo real, e o alvo é a perfeição do amor. Não é perfeição de conhecimento, nem de juízo, nem de execução. É o coração inteiramente governado pelo amor a Deus e ao próximo.
“A perfeição que Deus requer é perfeição de amor. Em muitas coisas somos necessariamente imperfeitos, e sempre seremos; mas, pela graça de Deus, podemos tornar-nos perfeitos no amor.”B. T. Roberts, Ensinos de Santidade, cap. 32
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
A pergunta é incômoda de propósito. A quinta petição é a candidata mais frequente, porque é a única que estabelece uma medida, e a medida somos nós. Mas há outras: quem carrega ambição desmedida hesita diante de “venha o teu Reino”; quem controla tudo hesita diante de “seja feita a tua vontade”. O caminho não é calar a petição, e sim orá-la pedindo a Deus o coração que ela pressupõe.
Reconhecendo que a leitura tem tradição respeitável e que há hipérboles no Sermão do Monte, como a do olho que escandaliza. Em seguida, mostrando a diferença decisiva: nenhum apóstolo repetiu a ordem de arrancar o olho como expectativa, mas todos repetiram, ampliaram e transformaram em oração a ordem de amar plenamente (1Ts 5.23; Ef 3.19; 1Ts 3.12-13). Não se ora pedindo a Deus o cumprimento de uma hipérbole.
Tarefas
Orar o Pai Nosso devagar, uma petição por dia, durante uma semana, anotando o que cada uma pede de você. Trazer as anotações da quinta petição para a próxima aula.
Próxima aula
Aula 6 — O coração indiviso. O grande mandamento como definição de perfeição, e a objeção mais forte que existe contra esta doutrina: Gálatas 5.17 e a permanência da carne.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).