Quatro afirmações
Deus chama. Deus santifica. Deus pode santificar completamente. E o versículo 24 acrescenta a garantia: aquele que chama é fiel e fará isso.
“E o próprio Deus da paz os santifique completamente… Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará.”1 Tessalonicenses 5.23-24 · NAA
A tese desta aula
Até aqui vimos que Deus ordena a santidade. Nesta aula veremos algo mais forte: Deus promete realizá-la.
Uma ordem me diz o que devo fazer. Uma promessa me diz o que Deus vai fazer. E quando as duas coisas coincidem, quando Deus ordena precisamente aquilo que promete realizar, a doutrina da inteira santificação deixa de ser presunção humana e se torna confiança na fidelidade divina.
O texto central
“E o próprio Deus da paz os santifique completamente. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará.”1 Tessalonicenses 5.23-24
Deus chama. Deus santifica. Deus pode santificar completamente. E o versículo 24 acrescenta a garantia: aquele que chama é fiel e fará isso.
O v. 23 é uma oração, um desejo formulado por Paulo, e não uma declaração dogmática; o v. 24 é que fornece o fundamento da confiança. Isso não enfraquece o argumento, mas muda o seu peso.
O termo grego traduzido por completamente (holoteleîs) é raro, e a sua formação sugere a ideia de completo em todas as partes. Não faço a exegese depender da etimologia, mas ela combina com o desdobramento que vem em seguida.
Não é uma tese antropológica sobre a composição do ser humano. É o modo bíblico de dizer a pessoa toda, sem sobrar nada de fora, como no todo o coração, toda a alma, todo o entendimento de Marcos 12.30.
Objeção séria
A objeção mais forte a este texto é a seguinte: Paulo diz “na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Logo, a santificação completa seria escatológica, realizada na parusia, e não antes.
Paulo pede que sejam conservados irrepreensíveis até aquele dia, o que pressupõe que já sejam irrepreensíveis antes dele. Não se conserva o que ainda não existe.
Em 1Ts 3.13 Paulo ora “para que o coração de vocês seja confirmado em santidade, isento de culpa, diante do nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus”. Ora-se pela confirmação presente, com vistas ao dia futuro.
Às vezes se diz que a oração seria supérflua se a santificação completa fosse automática na parusia. Esse argumento não se sustenta, porque Paulo ora com frequência por coisas que sabe que Deus fará. O peso está no verbo conservados e no paralelo de 3.13.
Eles já estavam santificados em parte; Paulo ora para que a obra seja feita neles por Deus, e não lhes diz que a esperem por um processo de desenvolvimento e crescimento graduais.
Segundo argumento
“Deus não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes o coração pela fé.”Atos 15.9
Duas coisas importam aqui. Primeiro, o que foi purificado: o coração, e não apenas o registro. Segundo, o meio: pela fé, e não por esforço ou mérito.
O problema fundamental do pecado não está apenas nos atos externos. Jesus ensinou que é do coração que procedem os pecados (Mc 7.21-23). Consequentemente, a graça santificadora precisa alcançar o coração. Uma solução que só tratasse do comportamento seria como podar uma árvore doente.
“Cria em mim, ó Deus, um coração puro.” O verbo é bará, o mesmo de Gênesis 1.1, que no AT tem sempre Deus por sujeito. Davi não pede reforma de conduta; pede obra criadora.
Sl 51.10
“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.”
Mt 5.8
“Todo aquele que tem essa esperança nele purifica a si mesmo, assim como ele é puro.”
1Jo 3.3
“O amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado.” Derramado, e não gotejado.
Rm 5.5
Síntese
A dinâmica da santificação pode ser resumida em três movimentos, e a ordem não pode ser invertida.
Movimento 1
“O amor de Deus foi derramado em nosso coração pelo Espírito Santo” (Rm 5.5). “Porei dentro de vocês o meu Espírito” (Ez 36.27). “Vocês receberão poder ao descer sobre vocês o Espírito Santo” (At 1.8).
A iniciativa é de Deus
Movimento 2
“Coparticipantes da natureza divina” (2Pe 1.4). Não significa que nos tornamos divinos em essência; significa que, pela graça, participamos da vida moral de Deus. “Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20).
Participação, não divinização
Movimento 3, refletimos. Aquilo que recebemos interiormente torna-se visível exteriormente. “Vocês são a luz do mundo” (Mt 5.14). “Para que vocês se tornem irrepreensíveis e puros… na qual vocês resplandecem como luzeiros no mundo” (Fp 2.15).
Fecho
Termino com duas orações de Paulo, porque elas mostram o que o apóstolo julgava legítimo pedir.
“Que o Senhor faça com que cresça e aumente o amor de vocês… a fim de que o coração de vocês seja confirmado em santidade, isento de culpa.”
1Ts 3.12-13
“E conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus.”
Ef 3.19
Paulo não diz apenas que devemos possuir um pouco mais de amor. Ele ora para que sejamos cheios de toda a plenitude de Deus. E, como se antecipasse a objeção de que isso é demais para se pedir, encerra assim: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Ef 3.20).
Diante de promessas tão elevadas, alguém perguntará: isso realmente é possível? A resposta não deve começar com aquilo que pensamos ser capazes de fazer, mas com aquilo que Deus é capaz de fazer em nós.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
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A dificuldade costuma ter uma de duas raízes. A primeira é experiência: a pessoa já tentou e falhou, e concluiu que a promessa não se aplica a ela. A segunda é doutrinária: aprendeu que esperar isso é presunção. Para a primeira, vale lembrar que a provisão já foi dada e que o que falta está do nosso lado (2Pe 1.3-5). Para a segunda, vale notar que quem ora essas orações é o apóstolo, e que ele as fecha dizendo que Deus faz infinitamente mais do que pedimos.
Essa é a objeção séria, e merece resposta pelo mesmo caminho: mostrando as promessas, e não discutindo a onipotência. Deus ordena que amemos de todo o coração e promete circuncidar o coração para que possamos amá-lo assim (Dt 30.6). Promete pôr o seu Espírito dentro de nós e fazer que andemos nos seus estatutos (Ez 36.27). Ora para que sejamos santificados completamente e acrescenta que aquele que chama é fiel e o fará (1Ts 5.23-24). Diz que o amor pode ser aperfeiçoado em nós (1Jo 4.12,17). A discussão deve ficar sobre a natureza e a extensão da promessa, que é onde ela realmente está.
Tarefas
Transformar 1 Tessalonicenses 5.23-24 e Efésios 3.14-21 em oração pessoal, todos os dias da semana, substituindo o vocês pelo seu próprio nome.
Próxima aula
Aula 9 — Duas expectativas sobre o alcance da graça. Onde o consenso cristão se desfaz, e como apresentar com justiça a posição de quem discorda de nós.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).