Auto-indulgência
Quando a derrota é normalizada teologicamente, ela deixa de incomodar. A pessoa aprende a conviver com pecados que deveria estar combatendo, e a chamar essa convivência de realismo.
“O que é impossível para os seres humanos é possível para Deus.”Lucas 18.27 · NAA
Onde o consenso se desfaz
Todas as tradições cristãs concordam que Deus ordena a santidade. Todas concordam que a graça perdoa. A divergência começa quando se pergunta: quanto a graça pode fazer nesta vida?
“Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o Reino do Filho do seu amor.” Se fomos transportados, o endereço mudou.
Cl 1.13
“Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.” Se foram destruídas, alguma coisa mudou de fato.
1Jo 3.8
A pergunta é: mudou o quê, exatamente? Mudou apenas a nossa posição legal diante de Deus, ou mudou também a nossa capacidade real de viver em santidade?
Método
É comum, em livros wesleyanos, chamar de pessimista a tradição que nega a possibilidade da inteira santificação nesta vida. Evito esse rótulo, porque ele decide a discussão pelo vocabulário e descreve mal quem discorda de nós.
Posição A
Sustenta que a santificação permanece necessariamente incompleta até a glorificação, e enfatiza a permanência da corrupção interior no crente até a morte.
Lutero, Calvino e herdeiros
Posição B
Sustenta a possibilidade de uma santificação plena no amor já nesta vida, sem negar as limitações, a tentação e a possibilidade de queda.
Wesley, Roberts e herdeiros
É preciso ser justo com a primeira tradição, porque ela tem preocupações legítimas. Ela protege a doutrina da graça, evitando que a pessoa passe a confiar na própria santidade em vez de confiar em Cristo. Protege contra a arrogância espiritual, e a história está cheia de gente que se julgou sem pecado e se tornou insuportável. E é honesta com a experiência, porque a maioria dos cristãos encontra mais fracasso do que gostaria.
O outro lado
Quando a derrota é normalizada teologicamente, ela deixa de incomodar. A pessoa aprende a conviver com pecados que deveria estar combatendo, e a chamar essa convivência de realismo.
O pastor que crê que ninguém pode mesmo vencer determinado pecado deixa de exortar, deixa de crer que valha a pena orar, e acaba oferecendo apenas consolo onde deveria oferecer também esperança.
Se santidade é sinônimo de justificação, a exortação bíblica à santificação fica sem objeto, e as centenas de exortações apostólicas ao esforço e à vigilância passam a soar como retórica.
Wesley identificou o problema com precisão. Ele reconhecia nos batistas do seu tempo a coerência de exigirem arrependimento para a conversão, mas não entendia por que deixavam de exigir arrependimento e santidade depois dela. Se o pecado é grave o bastante para exigir arrependimento antes, por que se torna tolerável depois?
A alternativa
Wesley reconhecia os efeitos da Queda tão seriamente quanto qualquer reformador. Ele não era um humanista otimista sobre a natureza humana; era um pessimista quanto ao ser humano e um otimista quanto à graça.
“A maior força da doutrina wesleyana da perfeição talvez esteja em sua habilidade de mobilizar os crentes a buscarem um futuro mais perfeito que supere o presente. Pois, mesmo estando consciente das forças do mal, Wesley não as considera consequências inevitáveis do pecado original, mas exatamente aquilo que pode ser vencido.”Theodore Runyon
Howard Snyder observou o mesmo em outra chave: Wesley via a graça de Deus atuando de maneira tão plena e abundante que ninguém deveria estabelecer limites para a ação do poder de Deus através da Igreja na era presente.
Imagem clássica
Wesley usava uma imagem doméstica para explicar a estrutura da salvação. Vale citá-la como ele a escreveu, em Os Princípios de um Metodista Melhor Explicados, de 1746.
“As nossas principais doutrinas, que incluem todas as demais, são três: a do arrependimento, a da fé e a da santidade. À primeira consideramos, por assim dizer, a varanda da religião; à segunda, a porta; a terceira é a própria religião.”John Wesley, 1746
Arrependimento na varanda. Fé na porta. Santidade dentro de casa. Repare no que a imagem faz: ela não diminui o arrependimento nem a fé; apenas mostra que nenhum dos dois é o destino. Ninguém constrói uma casa para morar na varanda, e ninguém passa a vida em pé na soleira da porta.
De qualquer maneira, o ponto pastoral é o mesmo nas duas versões: muita pregação evangélica trata a porta como se fosse a casa inteira. Fala-se da conversão como se ela fosse o objetivo, quando ela é a entrada.
Objeção previsível
“A condição da nossa justificação é a fé somente e não as boas obras; visto que todas as obras feitas antes da justificação têm nelas a natureza do pecado. Por fim, que a fé, que é a única condição da justificação, é a fé que está em nós pela graça de Deus.” Mais claro do que isso, impossível: não somos justificados por obras.
Que não basta crer como assentimento intelectual, pois é preciso confiar de modo a se entregar e obedecer. Tiago já dizia que a fé sem obras é morta (Tg 2.26) e observava, com ironia, que os demônios creem e tremem (Tg 2.19). Se crer fosse apenas concordar, os demônios seriam cristãos.
“A fé que atua pelo amor” (Gl 5.6). É a fé que se converte em ação: a mulher do fluxo de sangue que estende a mão, Zaqueu que desce da árvore e devolve o que roubou, Abraão que sai da sua terra, o cego de Jericó que insiste em gritar. A todos eles Jesus poderia dizer o que disse a uma delas: “A sua fé a salvou” (Mc 5.34).
O equilíbrio wesleyano se sustenta em quatro pares que não devem ser separados: fé e obras; justificação e santificação; santificação pessoal e social; o agir de Deus e a responsabilidade humana.
Posição
Deixo a minha posição explícita, porque é isso que se espera de quem ensina sobre o assunto.
A tradição não perfeccionista está certa ao afirmar que o crente permanece dependente da graça a cada momento, sujeito à tentação, capaz de cair e necessitado do sangue de Cristo até o último dia. Nada deste curso contradiz isso, e Wesley afirmava o mesmo com todas as letras.
Creio que ela erra ao transformar a permanência da luta em permanência da escravidão. Há uma diferença abissal entre um soldado que enfrenta batalhas e um escravo que perdeu a guerra. O Novo Testamento descreve os cristãos como soldados.
A maior parte do desacordo se concentra na interpretação de um único texto: Romanos 7. É a ele que dedicamos a próxima aula.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
Vale identificar onde e com quem você aprendeu, porque quase sempre a expectativa foi herdada, e não examinada. Quem recebeu a versão que administra a derrota costuma chamar isso de humildade, quando muitas vezes é resignação com nome de teologia. E quem recebeu a versão que espera vitória precisa checar se aprendeu junto as fronteiras da doutrina, sem as quais a expectativa vira presunção. As duas heranças precisam ser examinadas à luz do texto.
Este é um bom teste de honestidade intelectual, e o critério é simples: ele deve poder dizer “é isso mesmo o que eu creio”. A descrição justa inclui mortificação real do pecado, crescimento genuíno em santidade e poder do Espírito para vencer pecados concretos. O que a posição nega é a erradicação da corrupção interior antes da glorificação. Se a sua descrição transformar o interlocutor em alguém que prega a derrota, você descreveu a caricatura, e não a posição.
Tarefas
Escrever, em meia página, a posição não perfeccionista na sua melhor versão, como se você fosse defendê-la. Só depois escrever a sua objeção a ela.
Próxima aula
Aula 10 — O enigma de Romanos 7. Quem é o homem miserável do versículo 24, e por que essa decisão exegética muda a pregação de uma igreja inteira.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).