A função reveladora
A Lei funciona como um raio X: revela a fratura, mas não cura o osso. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem poder de transformar o coração.
“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”Romanos 7.24 · NAA
A questão
Quem é o “eu” que grita “Desventurado homem que sou!” em Romanos 7.24? Trata-se do apóstolo Paulo descrevendo a sua experiência como cristão maduro, ou de um recurso retórico para retratar a condição do ser humano que tenta cumprir a Lei pela força da própria carne?
Formulo a alternativa com cuidado, porque ela costuma ser apresentada de modo caricato.
Se Romanos 7.14-25 descreve normativamente o crente enquanto crente, permanece uma tensão difícil de explicar entre a condição de alguém “vendido à escravidão do pecado” e as declarações de Romanos 6 e 8 de que o crente foi libertado do domínio do pecado. Se, porém, o “eu” retrata a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito, então Romanos 8 se torna a descrição normativa da vida cristã e a tensão desaparece.
Contexto literário
Antes de mergulhar nos detalhes, é indispensável compreender a arquitetura do argumento de Paulo.
Romanos 7.7-13
Se fomos libertados da Lei, e se as paixões pecaminosas eram até despertadas por ela, alguém poderia perguntar: então a Lei é pecado? Paulo responde com um veemente “De modo nenhum!”
A Lei funciona como um raio X: revela a fratura, mas não cura o osso. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem poder de transformar o coração.
A culpa não é da Lei, mas do pecado que habita no ser humano caído. O pecado usa a Lei como base de operações. O termo grego é aphormē, a cabeça de ponte a partir da qual se lança um ataque.
O verbo de v. 11, traduzido por enganou, é o mesmo que a Septuaginta usa em Gênesis 3.13 para a ação da serpente sobre Eva. A linguagem ecoa deliberadamente a narrativa da Queda.
“Antes, eu vivia sem lei; mas, sobrevindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.”Romanos 7.9
Faça a pergunta com seriedade: quem, na história bíblica, viveu um período sem mandamento proibitivo e depois recebeu uma ordem específica, cuja transgressão trouxe morte? A resposta é Adão. Ele foi o único que viveu sem lei; foi o primeiro a violar o mandamento; e morreu em consequência da desobediência.
Considerando que o contraste entre Adão e Cristo funciona como pano de fundo de toda esta seção, a conclusão se impõe: Romanos 7 não introduz um argumento novo; continua o argumento de Romanos 3.23 e 5.12-21.
História da interpretação
Posição 1
A tradição de Agostinho tardio, Lutero e Calvino afirma que este é o cristão maduro lutando contra a carne. Convém registrar que sustentar essa leitura não implica pregar a derrota: quem a defende afirma mortificação, crescimento e poder do Espírito. O que essa tradição nega é a erradicação da corrupção interior antes da glorificação.
Agostinho tardio, Lutero, Calvino
Posição 2
Apoiada por muitos Pais da Igreja anteriores a Agostinho, como Irineu, Orígenes, Crisóstomo e Metódio, e por exegetas modernos como Craig Keener e Ben Witherington III. Afirma que o “eu” é retórico e descreve a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito.
Pais pré-agostinianos e exegese moderna
Um dado histórico merece registro. O próprio Agostinho, em seus escritos anteriores, interpretava Romanos 7.14-25 como referente ao ser humano não regenerado. Foi somente na controvérsia com os pelagianos que ele mudou de posição. A mudança foi motivada por razões polêmicas, não estritamente exegéticas, e foi essa versão tardia de Agostinho que os reformadores herdaram.
Honestidade intelectual
Apresento agora os principais argumentos de quem entende que Romanos 7.14-25 se refere ao cristão. São argumentos sérios, e quem os despreza não entendeu o problema.
A resposta
A evidência mais simples
Deixei para o fim a evidência que me parece mais decisiva, e que curiosamente é a mais fácil de verificar. Qualquer leitor pode conferi-la com a Bíblia aberta.
Romanos 7.7-25
A Lei aparece repetidamente e o eu é o centro absoluto da luta. O Espírito Santo está ausente do texto inteiro.
Zero ocorrências
Romanos 8
A pessoa e a obra do Espírito Santo dominam o capítulo, do primeiro versículo ao último.
Dezenove ocorrências
Essa assimetria não é acidental. Ela revela a essência do argumento de Paulo. Romanos 7 descreve o ser humano tentando cumprir a vontade de Deus pela força da própria carne, sem o Espírito. Romanos 8 descreve o ser humano capacitado e dirigido pelo Espírito de Deus.
É o homem moral ou religioso tentando cumprir a vontade de Deus com a sua própria força. O resultado é inevitável: derrota, cativeiro e desespero. Deus permite essa frustração para nos levar ao fim de nós mesmos, para que gritemos por socorro.
Consequência pastoral
Chego ao ponto que mais me preocupa como pastor.
Faço questão de dizer que essa não é a conclusão que os defensores da leitura agostiniana tiram do texto, nem a que pregam. Ela é o que a pregação popular fez com o texto, e é isso que estou combatendo. Tenho ouvido essa frase por décadas: “Pastor, nem Paulo conseguia.”
Afirmar que Romanos 7 não descreve o cristão não significa dizer que o cristão não enfrenta lutas. Os defensores de ambas as posições concordam que os cristãos lutam contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5.17; 1Jo 1.8-9) e que podem e devem crescer em santificação pelo poder do Espírito.
Os cristãos travam essa luta com confiança na força do Espírito que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus (Ef 6.10-17). Continuam sujeitos a tropeços (Tg 3.2), mas contam com o auxílio daquele que é poderoso para os guardar de tropeços (Jd 24). Há diferença abissal entre ser escravo derrotado e ser soldado que eventualmente tropeça, mas tem poder para vencer.
Fixação
Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.
0 de 5
O exercício costuma ser mais persuasivo do que qualquer argumento. O primeiro trecho é claustrofóbico: o eu aparece dezenas de vezes, a Lei é constante e não há saída. O segundo respira: o Espírito domina o capítulo, aparece a linguagem de filiação e adoção, e o clima passa do cativeiro ao clamor “Aba, Pai”. Vale contar as ocorrências do Espírito nos dois trechos: zero e cerca de dezenove.
Primeiro, ouvindo o que está por trás da frase, que quase sempre é cansaço de tentar e fracassar. Depois, mostrando que a frase depende de uma decisão exegética que pode ser examinada, e não de um dado óbvio do texto. E, por fim, lendo com ele Romanos 6.18-22 e 8.1-2,9, perguntando de quem Paulo está falando ali. O objetivo não é vencer uma discussão, e sim devolver a esperança que uma leitura equivocada tirou.
Tarefas
Ler Romanos 7.7-25 e marcar todas as ocorrências da palavra Espírito. Depois fazer o mesmo em Romanos 8.1-17. Trazer as duas contagens para a próxima aula.
Próxima aula
Aula 11 — Romanos 8 e a vida no Espírito. Se o capítulo 7 é o diagnóstico, o 8 é a cura, e a igreja não pode se contentar em pregar o diagnóstico.
Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).