Perfeitos no AmorAula 10

O enigma de Romanos 7

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”Romanos 7.24 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Romanos 5.12-21; Romanos 6; Romanos 7; Romanos 8.1-17

A questão

Quem é o homem miserável?

Quem é o “eu” que grita “Desventurado homem que sou!” em Romanos 7.24? Trata-se do apóstolo Paulo descrevendo a sua experiência como cristão maduro, ou de um recurso retórico para retratar a condição do ser humano que tenta cumprir a Lei pela força da própria carne?

Formulo a alternativa com cuidado, porque ela costuma ser apresentada de modo caricato.

Se Romanos 7.14-25 descreve normativamente o crente enquanto crente, permanece uma tensão difícil de explicar entre a condição de alguém “vendido à escravidão do pecado” e as declarações de Romanos 6 e 8 de que o crente foi libertado do domínio do pecado. Se, porém, o “eu” retrata a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito, então Romanos 8 se torna a descrição normativa da vida cristã e a tensão desaparece.

Contexto literário

A estrutura de Romanos 5 a 8

Antes de mergulhar nos detalhes, é indispensável compreender a arquitetura do argumento de Paulo.

1. Pano de fundo (Rm 5.12-21): o contraste entre Adão, cuja transgressão trouxe condenação e morte, e Cristo, cuja obediência trouxe justificação e vida. Este contraste é a espinha dorsal de tudo o que se segue.
2. A libertação (Rm 6): “uma vez libertados do pecado, vocês se tornaram servos da justiça… Naquele tempo, que fruto vocês tinham?… Agora, porém, libertados do pecado” (Rm 6.18-22). Eram escravos, no passado; agora estão libertados.
3. O resumo programático (Rm 7.5-6): o v. 5 descreve a condição pregressa, “quando vivíamos segundo a carne”; o v. 6 descreve a condição atual, “agora, porém, libertados”.

Romanos 7.7-13

A defesa da Lei e a pista de Adão

Se fomos libertados da Lei, e se as paixões pecaminosas eram até despertadas por ela, alguém poderia perguntar: então a Lei é pecado? Paulo responde com um veemente “De modo nenhum!”

1

A função reveladora

A Lei funciona como um raio X: revela a fratura, mas não cura o osso. Ela é santa, justa e boa (v. 12), mas não tem poder de transformar o coração.

2

O pecado como oportunista

A culpa não é da Lei, mas do pecado que habita no ser humano caído. O pecado usa a Lei como base de operações. O termo grego é aphormē, a cabeça de ponte a partir da qual se lança um ataque.

3

O eco da Queda

O verbo de v. 11, traduzido por enganou, é o mesmo que a Septuaginta usa em Gênesis 3.13 para a ação da serpente sobre Eva. A linguagem ecoa deliberadamente a narrativa da Queda.

“Antes, eu vivia sem lei; mas, sobrevindo o mandamento, reviveu o pecado, e eu morri.”Romanos 7.9

Faça a pergunta com seriedade: quem, na história bíblica, viveu um período sem mandamento proibitivo e depois recebeu uma ordem específica, cuja transgressão trouxe morte? A resposta é Adão. Ele foi o único que viveu sem lei; foi o primeiro a violar o mandamento; e morreu em consequência da desobediência.

Considerando que o contraste entre Adão e Cristo funciona como pano de fundo de toda esta seção, a conclusão se impõe: Romanos 7 não introduz um argumento novo; continua o argumento de Romanos 3.23 e 5.12-21.

História da interpretação

Duas posições que merecem respeito

Posição 2

A leitura arminiano-wesleyana

Apoiada por muitos Pais da Igreja anteriores a Agostinho, como Irineu, Orígenes, Crisóstomo e Metódio, e por exegetas modernos como Craig Keener e Ben Witherington III. Afirma que o “eu” é retórico e descreve a condição do ser humano sob a Lei, sem o poder do Espírito.

Pais pré-agostinianos e exegese moderna

Um dado histórico merece registro. O próprio Agostinho, em seus escritos anteriores, interpretava Romanos 7.14-25 como referente ao ser humano não regenerado. Foi somente na controvérsia com os pelagianos que ele mudou de posição. A mudança foi motivada por razões polêmicas, não estritamente exegéticas, e foi essa versão tardia de Agostinho que os reformadores herdaram.

Honestidade intelectual

Os argumentos da posição contrária

Apresento agora os principais argumentos de quem entende que Romanos 7.14-25 se refere ao cristão. São argumentos sérios, e quem os despreza não entendeu o problema.

1. A mudança para o tempo presente. Os verbos passam do passado (vv. 7-13) para o presente (vv. 14-25), sugerindo que Paulo fala da sua condição atual.
2. O deleite na lei de Deus (v. 22). Uma pessoa não regenerada não teria prazer na lei de Deus, no tocante ao homem interior.
3. A distinção entre o eu e a carne (v. 18). A capacidade de distinguir entre o verdadeiro eu e a carne pareceria pressupor regeneração.
4. A libertação do corpo é futura (v. 24). O gemido refletiria a tensão escatológica do já e ainda não, que Paulo aplica aos crentes no capítulo 8.
5. A tensão do v. 25. Servir à lei de Deus com a mente e à lei do pecado com a carne refletiria a experiência real do cristão.
6. Justos, mas não perfeitos. Já somos justos em Cristo, mas não aperfeiçoados até o dia da redenção; Romanos 7 descreveria esse intervalo.

A resposta

Sete razões exegéticas

1. A estrutura determina a leitura. Os vv. 5 e 6 funcionam como sumário programático, e nenhum argumento sobre tempos verbais isolados pode se sobrepor à arquitetura do argumento.
2. O presente dramático é recurso reconhecido. Paulo usa a prosopopeia, o discurso em persona, e faz uso extenso da diatribe em toda a carta (2.1-6; 3.1-9; 9.19-21; 11.17-24). Quem lê Romanos inteiro já encontrou dezenas de eus retóricos antes do capítulo 7.
3. Contradição insustentável com Romanos 6. Em 6.18,22 os cristãos foram libertados do pecado; em 7.14 o eu é carnal, vendido à escravidão do pecado. Ninguém é simultaneamente livre e escravo.
4. Contradição insustentável com Romanos 8. Em 8.9 os cristãos não estão na carne, mas no Espírito; em 7.14 o eu é carnal.
5. O desejo pela Lei não exige regeneração. Reflete perfeitamente a mentalidade do judeu devoto que quer viver moralmente e não consegue. A religiosidade sincera não é privilégio dos regenerados: Saulo de Tarso é a prova.
6. O versículo 13 situa o contexto. O verso que abre a seção explica como a Lei trouxe morte, e o contexto é o da condição sob a Lei, sem Cristo.
7. Paulo vivia em santidade e a ensinava. Ele podia dizer “sejam meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11.1) e afirmava que, quanto à justiça que há na lei, fora irrepreensível já como fariseu (Fp 3.6).

A evidência mais simples

O silêncio eloquente do Espírito Santo

Deixei para o fim a evidência que me parece mais decisiva, e que curiosamente é a mais fácil de verificar. Qualquer leitor pode conferi-la com a Bíblia aberta.

Romanos 8

Cerca de dezenove referências

A pessoa e a obra do Espírito Santo dominam o capítulo, do primeiro versículo ao último.

Dezenove ocorrências

Essa assimetria não é acidental. Ela revela a essência do argumento de Paulo. Romanos 7 descreve o ser humano tentando cumprir a vontade de Deus pela força da própria carne, sem o Espírito. Romanos 8 descreve o ser humano capacitado e dirigido pelo Espírito de Deus.

É o homem moral ou religioso tentando cumprir a vontade de Deus com a sua própria força. O resultado é inevitável: derrota, cativeiro e desespero. Deus permite essa frustração para nos levar ao fim de nós mesmos, para que gritemos por socorro.

Consequência pastoral

O perigo da interpretação equivocada

Chego ao ponto que mais me preocupa como pastor.

Faço questão de dizer que essa não é a conclusão que os defensores da leitura agostiniana tiram do texto, nem a que pregam. Ela é o que a pregação popular fez com o texto, e é isso que estou combatendo. Tenho ouvido essa frase por décadas: “Pastor, nem Paulo conseguia.”

Luta não é escravidão.+

Afirmar que Romanos 7 não descreve o cristão não significa dizer que o cristão não enfrenta lutas. Os defensores de ambas as posições concordam que os cristãos lutam contra o pecado ao longo de toda a vida (Gl 5.17; 1Jo 1.8-9) e que podem e devem crescer em santificação pelo poder do Espírito.

A diferença decisiva.+

Os cristãos travam essa luta com confiança na força do Espírito que neles habita, revestidos de toda a armadura de Deus (Ef 6.10-17). Continuam sujeitos a tropeços (Tg 3.2), mas contam com o auxílio daquele que é poderoso para os guardar de tropeços (Jd 24). Há diferença abissal entre ser escravo derrotado e ser soldado que eventualmente tropeça, mas tem poder para vencer.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para refletir

Leia Romanos 7.14-25 em voz alta e depois Romanos 8.1-17. Que impressão cada trecho causa, e o que muda entre eles?ver resposta sugerida

O exercício costuma ser mais persuasivo do que qualquer argumento. O primeiro trecho é claustrofóbico: o eu aparece dezenas de vezes, a Lei é constante e não há saída. O segundo respira: o Espírito domina o capítulo, aparece a linguagem de filiação e adoção, e o clima passa do cativeiro ao clamor “Aba, Pai”. Vale contar as ocorrências do Espírito nos dois trechos: zero e cerca de dezenove.

Como você conversaria com um irmão que diz: “Pastor, nem Paulo conseguia”?ver resposta sugerida

Primeiro, ouvindo o que está por trás da frase, que quase sempre é cansaço de tentar e fracassar. Depois, mostrando que a frase depende de uma decisão exegética que pode ser examinada, e não de um dado óbvio do texto. E, por fim, lendo com ele Romanos 6.18-22 e 8.1-2,9, perguntando de quem Paulo está falando ali. O objetivo não é vencer uma discussão, e sim devolver a esperança que uma leitura equivocada tirou.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Romanos 7.7-25 e marcar todas as ocorrências da palavra Espírito. Depois fazer o mesmo em Romanos 8.1-17. Trazer as duas contagens para a próxima aula.

Próxima aula

Aula 11 — Romanos 8 e a vida no Espírito. Se o capítulo 7 é o diagnóstico, o 8 é a cura, e a igreja não pode se contentar em pregar o diagnóstico.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).