Perfeitos no AmorAula 11

Romanos 8 e a vida no Espírito

“Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, livrou você da lei do pecado e da morte.”Romanos 8.2 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Romanos 8.1-17; Romanos 8.31-39; Ezequiel 36.25-27; Judas 24-25

O ponto de virada

Nenhuma condenação, e uma troca de leis

“Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus. Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, livrou você da lei do pecado e da morte.”Romanos 8.1-2

Observe a troca de leis. O crente foi liberto da lei do pecado e da morte, a força que puxava para baixo em todo o capítulo 7, pela lei do Espírito da vida, que é a dinâmica da graça capacitando para viver para Deus.

Aqui se cumpre a promessa profética que vimos na Aula 2: “Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos” (Ez 36.27). O que a Lei exigia sem poder produzir, o Espírito produz.

Antítese

Duas mentalidades, sem meio-termo

Esfera 2

A mente voltada para o Espírito

É vida e paz. E Paulo acrescenta imediatamente: “Vocês, porém, não estão na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês.”

Rm 8.6,9

Note o que Paulo faz. Ele descreve a incapacidade do capítulo 7 como característica dos que estão na esfera da carne, e afirma categoricamente que os cristãos não estão mais nessa condição.

O teste de um cristão genuíno, portanto, está na habitação e na direção do Espírito, e não numa perfeição absoluta que ninguém alcança. “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (v. 9).

Dimensão relacional

Adoção, herança e certeza

A vida no Espírito alcança também o âmbito das relações, e não somente o da conduta. E este é um dos aspectos mais preciosos da herança wesleyana.

“Porque vocês não receberam o espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai! O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.”Romanos 8.15-16

O Espírito expulsa o medo escravizador, que é exatamente o clima do capítulo 7, e dá a certeza da filiação. Wesley chamava isso de o testemunho do Espírito, e fez dele uma das colunas da sua teologia.

Ele mesmo passou anos sem essa certeza.+

No diário, registrou: “por meu esforço contínuo em manter toda a sua lei, fui persuadido de que poderia ser aceito por ele”. Visitava prisões, ajudava pobres e doentes, jejuava às quartas e sextas. E, no entanto: “depois de continuar por muitos anos neste curso, vi-me perto da morte. E não pude me certificar de que tudo isto me deu algum conforto, ou alguma segurança da aceitação para com Deus.”

A avaliação impiedosa da Geórgia.+

“Todo o tempo em que estive em Savannah, estava dando socos no ar. Ignorante sobre a retidão de Cristo, que, através de uma fé viva nele, traz a salvação a todo aquele que crê.”

E então, em 24 de maio de 1738.+

“Senti meu coração estranhamente aquecido. Senti que confiei em Cristo, Cristo apenas, para a salvação; e uma garantia me foi dada de que ele tinha tomado meus pecados, até mesmo os meus, e me havia salvo da lei do pecado e da morte.” Note a expressão final: Wesley usou, para descrever a sua conversão, exatamente as palavras de Romanos 8.2.

Responsabilidade

A vitória não é automática

“Porque, se vocês viverem segundo a carne, caminharão para a morte; mas, se, pelo Espírito, fizerem morrer os feitos do corpo, viverão.”Romanos 8.13

1

É dirigido a cristãos

Paulo escreve isto a pessoas que, no capítulo 6, ele já havia declarado mortas para o pecado. O fato de terem morrido não impede que continuem a sentir as inclinações da carne, que precisam ir sendo mortificadas dia após dia.

2

Não é um ato único

A construção condicional descreve uma prática que precisa ser mantida, e o próprio Paulo a apresenta como condição da vida. A batalha continua; o que mudou foi quem tem o poder.

3

Uma advertência séria

“Se vocês viverem segundo a carne, caminharão para a morte.” Paulo não considera impossível que um crente volte a viver segundo a carne. Se fosse impossível, a advertência seria retórica vazia.

O clímax

Somos mais que vencedores

“Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.”Romanos 8.37

Compare com o clima do capítulo anterior. Ali, o eu era prisioneiro, derrotado, desesperado. Aqui, o cristão é mais que vencedor. É o mesmo autor, na mesma carta, a poucos versículos de distância. As duas descrições não podem se referir à mesma pessoa na mesma condição.

Tensão bíblica

Tropeçamos, mas podemos não tropeçar

O Novo Testamento contém afirmações que parecem apontar em direções opostas, e uma doutrina responsável precisa acomodar as duas.

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas.”

Tg 3.2

“E a perseverança deve ter ação completa, para que vocês sejam perfeitos e íntegros.” (o mesmo Tiago)

Tg 1.4

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos.”

1Jo 1.8

“Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não vive em pecado.” (o mesmo João)

1Jo 5.18

1. Tropeçar não é o mesmo que viver em pecado. João distingue entre cair num pecado e ter o pecado como modo de vida, e a distinção não depende de sutileza gramatical, mas do que ele escreve. Em 1Jo 2.1 ele diz que escreve “para que vocês não pequem” e acrescenta: “se alguém pecar, temos um Advogado junto ao Pai”.
2. Existe diferença entre o inevitável e o normal. Tiago diz que todos tropeçamos, e é verdade. Mas não diz que devemos tropeçar, nem que tropeçar seja o objetivo.
3. O pecado que persiste não é o mesmo que o pecado que reina. A doutrina não afirma que o pecado desapareceu do universo do crente; afirma que ele deixou de governar.
Um cuidado sobre 2 Pedro 1.10.+

O verbo grego ali (ptaíō) tem, no contexto, o sentido de fracassar no caminho, e Pedro fala de perseverança no chamado e na eleição, e não de cada pecado isolado. Seria forçar o texto usá-lo para provar que um cristão pode passar a vida sem cometer pecado algum. O que se pode afirmar com segurança é mais modesto, e ainda assim é muito: nenhum pecado particular é inevitável no sentido de que Deus obrigue a pessoa a cometê-lo ou lhe negue a graça suficiente para obedecer (1Co 10.13).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

0 de 5

Ver resultado
Refazer

Para refletir

Você tem vivido mais a angústia de Romanos 7 ou a liberdade de Romanos 8? O que explica isso?ver resposta sugerida

A pergunta não busca autoacusação, e sim diagnóstico. Quem vive em Romanos 7 costuma estar tentando obedecer pela força da própria carne, muitas vezes com sinceridade e disciplina notáveis, como o Wesley anterior a Aldersgate. A saída não é esforçar-se mais, e sim render-se e receber. Vale reler Rm 8.1-4 e 15-16 pedindo a Deus o testemunho do Espírito, que expulsa o medo escravizador.

Que feito do corpo, concretamente, precisa ser mortificado por você nesta semana, e como o Espírito ajuda nisso?ver resposta sugerida

Mortificar não é reprimir com força de vontade, que é o método de Romanos 7. É agir na dependência declarada do Espírito: nomear o hábito, confessá-lo a alguém de confiança (Tg 5.16), remover as ocasiões que o alimentam e pedir diariamente a graça específica para aquele ponto. Note que Rm 8.13 diz “pelo Espírito”, e não “com os seus próprios recursos”.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Romanos 8 inteiro, em voz alta, três vezes durante a semana, e anotar todas as coisas que o Espírito faz no crente segundo o capítulo.

Próxima aula

Aula 12 — Wesley e as fronteiras da doutrina. Como a perfeição cristã tomou forma ao longo de cinquenta anos, e as sete negações que protegem a doutrina da caricatura.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).