Perfeitos no AmorAula 13

B. T. Roberts e a santidade bíblica

“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo.”1 João 4.18 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: 1 João 4.7-21; Apocalipse 2.1-7; Tiago 1.22-27; Mateus 23.23-28

História

Quem foi Benjamin Titus Roberts

Se Wesley formulou a doutrina, Roberts a defendeu numa época em que o metodismo americano já a estava abandonando na prática.

Roberts foi levado a julgamento na Conferência de Genesee em 1857, recebendo censura, e expulso da Igreja Metodista Episcopal em 1858. A Igreja Metodista Livre foi organizada dois anos mais tarde, em agosto de 1860, em Pekin, no estado de Nova York.

Convém não simplificar as razões do conflito. A defesa da inteira santificação estava no centro da disputa, mas o choque envolvia também o embate entre o chamado New School Methodism e o metodismo antigo, os bancos alugados que separavam ricos e pobres nos templos, o favorecimento dos abastados, a posição sobre a escravidão, as sociedades secretas e o próprio funcionamento do poder eclesiástico.

Definição

A natureza da santidade

“A santidade é a nossa completa renovação na imagem de Deus, o perfeito amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que nos foi dado, de modo que amamos a Deus de todo o coração, mente e força, e ao próximo como a nós mesmos.”B. T. Roberts, Ensinos de Santidade, cap. 22

1

Derivada, não inata

“A santidade no homem é derivada. É a imagem da santidade de Deus: assemelha-se à santidade dele, embora fique infinitamente aquém dela.”

2

Não é moralidade filosófica

Ela não se confunde com autodomínio ou disciplina. Os pagãos tinham isso, e alguns em alto grau.

3

A crítica que continua atual

“Esforça-se por fazer os homens agirem melhor, sem lhes dizer como ser melhores. Põe grande ênfase em que façam coisas santas, sem insistir em que sejam santos.”

4

A fonte, não a repetição

“Não consiste na repetição de boas ações, mas é a condição graciosa da alma que impele à prática de todas as boas ações. É a fonte pura da qual flui continuamente água pura.”

O capítulo decisivo

Justificação e inteira santificação distinguidas

Roberts afirma, primeiro, que todo cristão é santificado na conversão, realmente tornado santo, com vitória sobre o pecado. Não é o caso de o justificado permanecer escravo. Mas ele não é inteiramente santificado.

“Alguns caem em perplexidade por confundir santificação com inteira santificação. Devemos ter cuidado de não fazê-lo.”Ensinos de Santidade, cap. 31

A erva cortada não aparece; a superfície está limpa. Mas a raiz continua ali, e volta a brotar à primeira chuva. Arrancar pela raiz é outra coisa.

O justificado, na formulação dele, trava uma guerra em duas frentes: a externa, contra o mundo e o tentador, e a interna, contra as inclinações remanescentes. O inteiramente santificado trava apenas a externa. A batalha não acaba; muda de natureza.

Precisão

Sobre a perfeição, com três distinções

1. Perfeição por estágios. Aplica-se ao filho de Deus em várias fases, como a planta de milho é perfeita em cada etapa do seu desenvolvimento.
2. Perfeição de amor. “A perfeição que Deus requer é perfeição de amor. Em muitas coisas somos necessariamente imperfeitos, e sempre seremos; mas, pela graça de Deus, podemos tornar-nos perfeitos no amor.”
3. Uma distinção que incomoda os apressados. “Não devemos confundir a perfeição que o evangelho requer com o amor perfeito ou a inteira santificação: as Escrituras não usam esses termos como sinônimos.” E ainda: “Nunca lemos na Bíblia que alguém seja feito perfeito pela fé.”

O que ele quer dizer é o seguinte. A inteira santificação, como purificação do coração, é recebida pela fé. Mas a perfeição no sentido de maturidade comprovada vem pela fidelidade e pelo sofrimento ao longo do tempo. É o que Hebreus diz do próprio Cristo, que “aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu” e “tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o autor da salvação eterna” (Hb 5.8-9). Uma coisa é a purificação do coração; outra é o caráter provado.

Roteiro prático

Como se obtém

Roberts apresenta quatro condições, e elas formam um roteiro que vale seguir.

Condição 3 e 4

Confissão e confiança presente

Confessar os pecados inatos, o que Wesley chamou de arrependimento dos crentes. E confiar implicitamente em Cristo para que faça a obra agora. Enquanto se adia a obra para o futuro, ela fica adiada.

“Se como está, então espere-a agora”

“Devemos ir até o limite da nossa capacidade antes de ter direito a esperar auxílio sobrenatural. A santidade é estado voluntário: o ser humano não é máquina; só a sua liberdade de vontade o torna capaz de santidade.”

E no capítulo sobre buscar a santidade, um conselho de simplicidade desconcertante: “O modo de buscar a santidade é buscá-la.” Também: “Não espere que Deus faça o que ele lhe ordena que faça. Ele o ajudará, mas você deve ajudar a si mesmo. Nenhuma quantidade de oração toma o lugar da obediência.”

Realismo pastoral

Como se conserva e como se perde

Aqui está a contribuição mais valiosa de Roberts, e o assunto que a pregação popular mais confunde.

1

Sobre a conservação

Ninguém precisa aprender a perder a saúde: a negligência basta. O mesmo vale para a santidade. “A Bíblia não nos ensina a perder a santidade; dá-nos direções bem explícitas de como conservá-la.”

2

O exemplo de Éfeso

Quem não cresce seca e se torna insensível, mantendo a profissão depois de perdida a bênção. O anjo da igreja em Éfeso era ortodoxo, zeloso e trabalhador incansável, e ainda assim foi declarado caído: “abandonou o seu primeiro amor” (Ap 2.4).

3

Três modos de perder

Por pecado atual, por dúvida e incredulidade, e por deixar de confessá-la. E ele distingue: quem cai em transgressão perde também a justificação e precisa voltar como pecador; quem perde a bênção por dúvidas ou por omissão do testemunho perde a santidade sem perder a justificação, e ainda é filho de Deus, santo apenas em parte.

Diagnóstico

Santidade defeituosa e santidade falsa

Patologia 2

Falsa

Edificada sobre suposição falsa: dar por justificados os que apenas ocupam posição respeitável numa igreja respeitável. Quem está sob condenação precisa primeiro de perdão; construir santidade sobre esse fundamento é obra que não subsiste.

“Nem tudo o que reluz é ouro”

“A santidade do dia é tão ineficaz porque é, em tanta parte, defeituosa: a carga não se move porque muito do vapor se perde; o remédio não cura porque combinado com tantas substâncias neutralizantes; o ouro não circula porque misturado com tanta liga.”

Sobre a mortificação: não adianta pratear a colher de ferro.+

Roberts diagnostica o problema dos que professam sem apresentar fruto e conclui que estão tentando santificar o que não é capaz de santificação permanente: a velha natureza. A Escritura manda despojar-se dela, e não reformá-la. E acrescenta sobre o processo: “A crucificação era morte demorada, não súbita, como a decapitação: a vítima podia agonizar por dias. Assim, ninguém morre para o mundo de uma só vez.”

Sobre a mente carnal: contra as fantasias erradicacionistas.+

No capítulo mais técnico da obra, Roberts conclui que o ser humano tem uma só mente. Na inteira santificação, a inclinação da mente é mudada, mas a mente não é destruída e a liberdade da vontade não é abolida. “A mente carnal nunca é destruída a ponto de abolir a liberdade da vontade.” Isso encerra as fantasias sobre uma santificação que tornaria o pecado metafisicamente impossível.

Balanço

O que Roberts acrescenta a Wesley

1. Realismo pastoral. Trata da perda e da recuperação da experiência com um detalhamento que Wesley não alcançou, e distingue casos que a pregação popular confunde.
2. Crítica às falsificações. Os capítulos sobre santidade defeituosa e falsa são o melhor material que conheço sobre o assunto, e continuam atuais palavra por palavra.
3. Santidade e justiça inseparáveis. Para ele, uma santidade que convive com bancos alugados, com escravidão e com a exclusão dos pobres do templo já passou do defeituoso para o falso.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

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Para refletir

A sua santidade é defeituosa em algum ponto que você já reconhece? Onde falta vapor?ver resposta sugerida

O diagnóstico de Roberts é útil porque não acusa de hipocrisia: ele admite que a santidade pode ser verdadeira e ainda assim ineficaz por adulteração. Os pontos mais comuns são dois. O primeiro é a falta de lealdade suprema a Deus, quando só se reconhece a justiça sancionada pela maioria ou quando a fidelidade à instituição vira dever supremo. O segundo é a santidade que não alcança o dinheiro e as relações de trabalho.

Por que Roberts considerava os bancos alugados uma questão de santidade, e não apenas de administração?ver resposta sugerida

Porque a prática negava o evangelho na prática, por mais ortodoxa que fosse a pregação feita do púlpito. Nas igrejas metodistas americanas do século XIX, as famílias abastadas alugavam os melhores bancos e os pobres ficavam nos fundos ou de pé. Para Roberts, uma santidade que convive com isso já passou do defeituoso para o falso. Vale perguntar qual é o banco alugado da nossa geração: que arranjo prático da nossa igreja separa pessoas por classe, sem que ninguém mais repare?

Para casa e próxima aula

Tarefas

Ler Apocalipse 2.1-7 e escrever o que significaria, na prática, uma igreja ortodoxa e trabalhadora ter abandonado o primeiro amor.

Próxima aula

Aula 14 — O caminho: crise, processo e meios de graça. A última aula do curso reúne o que fazer com tudo o que estudamos, do instantâneo e do gradual à santidade que se espalha.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).