Perfeitos no AmorAula 14

O caminho: crise, processo e meios de graça

“Desenvolvam a sua salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vocês tanto o querer como o realizar.”Filipenses 2.12-13 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Filipenses 2.12-16; 2 Pedro 1.3-11; Hebreus 12.1-14; Tiago 1.27

Primeira questão

O instantâneo e o gradual

Como se dá a santificação: de uma vez, num momento definido, ou aos poucos, ao longo de toda a vida? O Novo Testamento afirma as duas coisas, e qualquer teologia que escolha uma e descarte a outra vai acabar torcendo textos.

Textos de processo

Coisas que seguem acontecendo

“Somos transformados, de glória em glória” (2Co 3.18). “Se, pelo Espírito, fizerem morrer os feitos do corpo” (Rm 8.13). “Cresçam na graça e no conhecimento” (2Pe 3.18).

2Co 3.18; Rm 8.13; 2Pe 3.18

O modelo, portanto, é este: processo, crise, processo. Há um crescimento gradual que prepara; há um momento de entrega e recepção; há um crescimento gradual que se segue, e que pode ser mais rápido do que antes. É a décima e a décima primeira proposições de 1764.

Pergunta organizadora

Quando foi que eu morri para o pecado?

No passado histórico, na cruz. Eu morri quando Cristo morreu por mim. Quando ele morreu, quebrou o poder do pecado; quando ressuscitou, trouxe à existência a vida nova na qual entramos pela fé.

Rm 6.3-5

Na minha própria experiência. No novo nascimento, na inteira santificação, na plenitude do Espírito. “Já que vocês ressuscitaram com Cristo” (Cl 3.1).

Cl 3.1,9

E aqui entra uma observação de experiência pastoral. O velho homem foi crucificado, mas ele vive tentando desprender-se da cruz. Por isso o Novo Testamento consegue dizer, sem contradição, que morremos e que devemos fazer morrer. Colossenses 3 é a prova: Paulo alterna indicativos e imperativos sem nenhum embaraço.

Nos revestimos da armadura para a batalha, e não para um estado incólume de descanso (Ef 6.11-13). O conflito permanece; o que muda com a inteira santificação é a sua natureza: deixa de ser guerra civil, travada dentro de uma vontade dividida, e passa a ser guerra externa, travada por uma vontade unificada.

Segunda questão

Até onde é de Deus e até onde é nosso

“Afastem-se de toda forma de mal. E o próprio Deus da paz os santifique completamente… Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará.”1 Tessalonicenses 5.22-24

Repare no que Paulo faz. Ele começa com um imperativo dirigido a nós, afastem-se, e emenda uma oração dirigida a Deus, que ele os santifique. As duas coisas na mesma respiração. Não há como escolher um lado sem mutilar o texto.

1

Obra do Pai

“Santifica-os na verdade” (Jo 17.17). E também pela disciplina: “Deus nos disciplina para o nosso bem, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10). O verbo significa treinar, educar uma criança.

2

Obra do Filho

“Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse… a fim de apresentá-la a si mesmo igreja gloriosa” (Ef 5.25-27).

3

Obra do Espírito

“Somos transformados de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3.18). “Eleitos na santificação do Espírito” (1Pe 1.2).

4

E, no entanto, não somos passivos

Deus opera em nós, mas não devemos ser agentes passivos. Segunda Pedro 1 é o modelo: Deus concedeu tudo o que diz respeito à vida e à piedade (v. 3), e por isso mesmo devemos empenhar todo o esforço (v. 5).

Paulo tem ainda a imagem agrícola que resolve a questão: “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus” (1Co 3.6). Devemos plantar e regar, sabendo que é Deus quem dá o crescimento. O agricultor não faz a semente germinar; mas se não plantar, não colhe.

O instrumento prático

Os cinco meios de graça

Wesley era muito esperançoso quanto aos modos pelos quais os cristãos podem prosseguir para a perfeição, e chamava esses modos de meios de graça. Não são obras meritórias; são canais estabelecidos por Deus.

1. A oração. Não como técnica, mas como permanência. É nela que a vontade é entregue, o diagnóstico é recebido e o desejo é purificado. Um cristão que não ora não será santificado, por mais correta que seja a sua doutrina.
2. A Bíblia. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A Escritura não apenas informa; ela forma. Na minha experiência pastoral, a leitura sistemática é o fator que mais distingue cristãos que crescem de cristãos que estagnam.
3. A Ceia do Senhor. Wesley comungava com uma frequência que escandalizava os seus contemporâneos, em média mais de uma vez por semana. Para ele, a Ceia não era apenas memorial; era meio real de santificação.
4. O jejum. Prática esquecida entre nós, e recuperá-la faria bem. Ele não move a mão de Deus; move a nossa disposição. Ensina o corpo a obedecer ao espírito e revela apegos que a fartura esconde.
5. A comunidade de prestação de contas. As classes e bandas metodistas foram provavelmente a maior contribuição prática de Wesley à espiritualidade cristã. Não havia santidade solitária no metodismo primitivo, e não há hoje.

Wesley incluía também a visitação dos presos, o socorro aos pobres e as obras de misericórdia entre os meios de graça, e não apenas entre as consequências da santidade. Quem serve o pobre é santificado no processo.

“A fé é a condição, e a única condição, da santificação, exatamente como o é da justificação.”John Wesley, O Caminho Bíblico da Salvação, III.3

Aqui é preciso desfazer um mal-entendido que faz estrago. Alguém pode ler a lista acima e concluir que a inteira santificação é o prêmio de quem se esforçou o bastante: ora com mais fervor, jejua mais, entrega mais áreas, e um dia a purificação vem como resultado acumulado dessa intensidade. Wesley foi explícito contra isso.

Mas então os meios de graça não são necessários?+

São, e Wesley mesmo levanta a objeção. A resposta dele é uma distinção de ordem: o arrependimento do crente e as obras de piedade e de misericórdia são necessários remotamente, em vista da fé e da sua continuação; a fé é necessária imediatamente. Quem negligencia de propósito os meios de graça não deve esperar ser santificado, nem crescer, nem conservar o que já recebeu. Mas não são eles que produzem a purificação: eles nos mantêm no caminho onde ela é dada.

Consagração é a mesma coisa que inteira santificação?+

Não, e confundir as duas foi o erro que produziu a chamada teologia do altar do século XIX, com a sua fórmula tranquilizadora: eu coloco tudo sobre o altar, o altar santifica a oferta, logo estou santificado. Guarde a distinção assim: eu me consagro, Deus me santifica. A consagração é a minha entrega integral, com arrependimento e renúncia. A inteira santificação é a obra de Deus que purifica o coração e o enche de amor, e que eu recebo pela fé.

O que isso muda na prática?+

Duas coisas, e as duas libertam. Primeira: eu não preciso ficar melhor antes de crer. Wesley insistia em três pontos ligados entre si, de modo que negar um é negar todos: espere pela fé, espere como você está, e espere agora. Segunda: isso impede que a doutrina vire mérito. Se a purificação viesse pela intensidade da consagração, os mais disciplinados estariam na frente, e teríamos de novo uma hierarquia espiritual.

Diagnóstico

O maior obstáculo não é o que se imagina

O maior obstáculo à santidade não é a força da tentação, nem a fraqueza da carne, nem as circunstâncias adversas. É a falta de fé.

O Senhor chama e capacita. O que é impossível para os seres humanos é possível para Deus (Lc 18.27). Se a santidade dependesse de nós, o obstáculo seria a nossa fraqueza; como depende dele, o obstáculo é a nossa desconfiança.

Isso não é retórica: veja a parábola dos talentos.+

O servo que enterrou o talento não o fez por preguiça, segundo a sua própria explicação; fez por medo, e por uma imagem distorcida do senhor: “eu conhecia você, que é homem severo” (Mt 25.24). A raiz da esterilidade era teológica: ele não confiava no caráter do senhor.

E a queixa de Deus na parábola da vinha.+

“Que mais se poderia fazer à minha vinha que eu não tenha feito? Por que, então, esperando eu que desse uvas boas, veio a produzir uvas bravas?” (Is 5.4). Deus fez tudo o que se podia fazer. O que falta não está do lado dele.

Terceira questão

Como saber, sem cair na presunção nem na dúvida crônica

Como uma pessoa sabe? A pergunta é inevitável, e a resposta errada produz presunção ou desespero.

Testemunho 2

Do nosso próprio espírito

A consciência de que os frutos estão presentes. João dá três critérios objetivos: a obediência (1Jo 2.3), o amor fraternal (1Jo 3.14) e a confissão de Cristo (1Jo 4.2). Paulo acrescenta o fruto do Espírito (Gl 5.22-23).

1Jo 2.3; 3.14; 4.2; Gl 5.22-23

Quando os dois testemunhos concordam, há certeza. Quando divergem, o testemunho objetivo prevalece: uma pessoa com forte convicção interior e nenhum fruto está enganada, por mais sincera que seja. Este é o critério que desarma a maior parte dos abusos.

E uma advertência que salvaria muitos de anos de angústia: o testemunho do Espírito não é a mesma coisa que sentimento agradável. Sentimentos variam com o sono, a saúde, as circunstâncias e o temperamento. O critério não é a intensidade da emoção, mas a permanência do fruto.

E se eu não tiver certeza?+

A resposta bíblica não é forçar uma conclusão nem viver em suspenso. É continuar. Se você não sabe se recebeu, entregue de novo. Não há perda nenhuma em consagrar novamente o que já estava consagrado, e há um ganho evidente em não deixar nada de fora. O que não se pode é ficar parado, esperando uma certeza que só vem pelo caminho. E, para quem sofre de dúvida crônica, um conselho prático: pare de examinar e comece a servir. O fruto se conhece melhor de fora do que de dentro.

Aterrissagem

Santidade concreta: corpo, dinheiro, língua e tempo

A santidade bíblica nunca fica no abstrato. Quando Paulo fala em santificação, desce imediatamente a áreas específicas (1Ts 4.3-4).

1

O corpo

A santidade cristã consagra o corpo, e não o despreza (Rm 12.1; 1Co 6.19-20). Alcança a área sexual, mas também o descanso, a alimentação, as substâncias que escravizam e o modo como usamos telas. E uma palavra pastoral: a vergonha isolada não santifica ninguém. Quem luta sozinho perde (Tg 5.16).

2

O dinheiro

Nenhum assunto ocupa mais espaço no ensino de Jesus depois do Reino. A ética wesleyana cabe em três frases: ganhe tudo o que puder, sem prejudicar a saúde, a alma ou o próximo; economize tudo o que puder, sem avareza; dê tudo o que puder, que é o propósito das duas primeiras.

3

A língua

“Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão” (Tg 3.2). Tiago liga diretamente o controle da língua à perfeição. O padrão positivo é mais exigente que a lista: “transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).

4

O tempo

O tempo revela prioridades com uma honestidade que o discurso não tem. Wesley organizava o dia em torno dos meios de graça. Não era legalismo; era arquitetura. Ele sabia que aquilo que não é agendado não acontece.

Fecho do curso

Espalhar a santidade

A santidade que fica dentro de casa não é a santidade da Bíblia. Wesley formulou a vocação do metodismo em uma frase: reformar a nação, particularmente a Igreja, e espalhar a santidade bíblica por toda a terra.

Tiago une as duas dimensões numa única definição: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e guardar-se sem contaminação do mundo” (Tg 1.27). Misericórdia social e pureza pessoal, no mesmo versículo, sem hierarquia entre elas. A falsa santidade separa o que Tiago uniu.

Wesley levou a pregação a mineiros, operários, presos, enfermos, viúvas e órfãos. “Considero todo o mundo como minha paróquia.”

Diário e Cartas

Pregou santidade que tocava a vida concreta: honestidade nos negócios, fidelidade conjugal, sobriedade, trabalho responsável.

Resultado: famílias restauradas

Publicou um manual de medicina popular para os que não tinham médicos.

Primitive Physick, 1747

Denunciou o tráfico de escravos e escreveu a Wilberforce seis dias antes de morrer.

Thoughts upon Slavery, 1774

E uma palavra final, para não deixar ambiguidade. A salvação é oferecida a todos e condicionada à fé em Cristo. Nada do que foi dito neste curso sobre a amplitude da graça deve ser lido como se todos fossem salvos independentemente da resposta de fé. “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida” (Jo 3.36).

A perfeição cristã não é perfeição humana absoluta; é perfeição no amor. Não significa que nunca erraremos. Significa que todo o coração pode pertencer a Deus.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o outro lado. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe, porque errar aqui também ensina.

0 de 5

Ver resultado
Refazer

Para refletir

Qual dos cinco meios de graça está mais ausente da sua vida, e o que você vai fazer a respeito nesta semana?ver resposta sugerida

Vale escolher um só, e marcar a hora. A vontade sozinha não sustenta hábitos; a estrutura sustenta. Wesley organizava o dia em torno dos meios de graça, e não era legalismo, era arquitetura. Entre os cinco, o mais negligenciado entre nós costuma ser o quinto: a comunidade de prestação de contas. Não havia santidade solitária no metodismo primitivo, e não há hoje.

Ao terminar o curso, qual é a sua resposta à pergunta de Wesley: está o seu coração inteiro para com Deus?ver resposta sugerida

A pergunta reúne as duas metades do curso, e por isso é o melhor fecho. Responder honestamente exige as duas verificações que estudamos: a interior, sobre alguma área reservada onde já se decidiu não obedecer (Aula 6), e a exterior, sobre o zelo por estabelecer o Reino, que inclui o pobre, o dinheiro e a justiça (Aula 13). Se a resposta for não, o caminho não é o desânimo, e sim a entrega: quando a Escritura ordena o que não conseguimos, ela promete aquilo que ordena.

Para casa e próxima aula

Tarefas

Escrever uma página respondendo às cinco perguntas que abriram o curso, comparando as suas respostas de hoje com as que você teria dado antes da Aula 1. Guardar o texto e reler daqui a um ano.

Curso preparado a partir do livro Perfeitos no Amor: o ensino bíblico sobre a perfeição cristã e a inteira santificação, de Bispo Ildo Mello. Citações bíblicas na Nova Almeida Atualizada (NAA).