História da IgrejaAula 4

Os grandes concílios e os pais da igreja

“Porque, na verdade, ele não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão. Por isso, era necessário que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos.”Hebreus 2.16-17 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 5; Ef 2.1-10; Hb 2.14-18

Para começar

A era de ouro dos pais

Por que um período de apenas setenta anos produziu os maiores mestres da igreja antiga? Quem foi Agostinho, e por que tanto católicos quanto protestantes o reivindicam até hoje? E como a igreja chegou à confissão de que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem numa só pessoa?

O que esta aula cobre. De 381 a 451, do Concílio de Constantinopla ao de Calcedônia. A igreja recém-saída da clandestinidade precisava formular sua fé, formar seu povo, traduzir sua Bíblia e responder ao desmoronamento do mundo romano. Deus levantou homens à altura: no Oriente, os capadócios e João Crisóstomo; no Ocidente, Ambrósio, Jerônimo e, acima de todos, Agostinho.

Situando-se na história

Linha do tempo (381-451)

386

Conversão de Agostinho

Num jardim em Milão, ouvindo “toma e lê”, Agostinho abre Romanos 13.13-14 e se rende. A história está nas Confissões.

382-405

A Vulgata

Jerônimo traduz a Bíblia para o latim do povo, insistindo em partir do hebraico no Antigo Testamento.

398-407

Crisóstomo em Constantinopla

Um dos maiores pregadores da igreja antiga denuncia o luxo da corte, é deposto e morre no exílio: “Glória a Deus por todas as coisas”.

410

Saque de Roma

Alarico e os godos saqueiam a cidade eterna. Os pagãos culpam o cristianismo; Agostinho responde com A Cidade de Deus.

412-430

Controvérsia pelagiana

Contra Pelágio, Agostinho defende que a salvação, do início ao fim, é obra da graça (Ef 2.8-9).

431

Concílio de Éfeso

Condena Nestório, que parecia dividir Cristo em duas pessoas. Aquele que nasceu de Maria é o próprio Filho de Deus.

451

Concílio de Calcedônia

Mais de 500 bispos definem: Cristo, uma só pessoa em duas naturezas, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”.

Parte 1

João Crisóstomo, a boca de ouro

João de Antioquia (347-407) ganhou depois da morte o apelido pelo qual o conhecemos: Crisóstomo, “boca de ouro”. Formado na melhor retórica grega, converteu o talento em ferramenta do evangelho e tornou-se um dos maiores pregadores da igreja antiga.

Seu método deveria envergonhar muitos púlpitos modernos: pregava a Escritura livro por livro, versículo por versículo, explicando o texto e aplicando-o à vida do povo, sem alegorias mirabolantes. Centenas dessas exposições sobreviveram, e ainda hoje se leem com proveito.

Em 398 foi feito bispo de Constantinopla, a capital, e ali sua pregação encontrou um alvo perigoso: o luxo da corte e a hipocrisia dos poderosos. Cortou despesas do palácio episcopal para sustentar hospitais e pobres, e denunciou do púlpito a vaidade da imperatriz Eudóxia. O resultado era previsível: deposto e exilado, morreu em 407, a caminho de um desterro ainda mais remoto, com estas últimas palavras: “Glória a Deus por todas as coisas”.

Crisóstomo é o lembrete permanente de que a pregação fiel tem preço, e de que vale a pena pagá-lo (2Tm 4.2-5).

Parte 2

Jerônimo e a Bíblia do povo

Jerônimo (c. 345-420) foi o maior erudito bíblico da igreja antiga, um homem de temperamento áspero e piedade intensa, que trocou as bibliotecas de Roma por uma cela em Belém, ao lado da gruta do nascimento de Jesus. Ali realizou a obra da sua vida: revisou os Evangelhos latinos e traduziu grande parte do Antigo Testamento diretamente do hebraico; seu trabalho tornou-se o núcleo da Bíblia latina do Ocidente, mais tarde chamada Vulgata (da língua comum, “vulgar”, do povo).

O princípio das fontes

Jerônimo insistiu em traduzir o Antigo Testamento diretamente do hebraico, e não do grego da Septuaginta. Voltar às línguas originais: princípio que a Reforma retomaria mil anos depois.

A ironia da história

A tradução feita para colocar a Bíblia na língua do povo acabou, séculos mais tarde, virando monumento intocável numa língua que o povo já não falava. Guarde essa ironia; ela será central nas aulas 7 e 8.

Parte 3

Agostinho de Hipona

Se Paulo é o teólogo do Novo Testamento, Agostinho (354-430) é o teólogo mais influente da história da igreja depois dele. Nascido em Tagaste, no norte da África, filho da cristã Mônica e de um pai pagão, o jovem brilhante fugiu de Deus por trinta anos: uma concubina, um filho, a seita dos maniqueus, o ceticismo, a ambição acadêmica.

Em Milão, a pregação de Ambrósio derrubou suas objeções intelectuais, mas faltava a rendição da vontade. Ela veio em 386, num jardim, quando ouviu uma criança cantar “toma e lê”, abriu a carta aos Romanos e leu: “andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedeiras… mas revistam-se do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13.13-14). A história completa ele mesmo conta nas Confissões, primeiro livro de memórias espiritual da literatura, escrito todo em forma de oração.

Contra os donatistas

Um cisma que exigia igreja de puros e rebatizava quem viesse da igreja “contaminada”. Agostinho defendeu que a validade dos sacramentos não depende da dignidade do ministro, e que na igreja visível trigo e joio crescem juntos até a colheita (Mt 13.24-30).

Contra Pelágio

O monge que ensinava que o homem nasce sem pecado original e pode obedecer a Deus por suas próprias forças. Agostinho defendeu que o pecado atingiu a raiz da natureza humana e que a salvação, do início ao fim, é obra da graça de Deus (Ef 2.8-9). A Reforma nasceria, mil anos depois, de um retorno a essa doutrina da graça.

A Cidade de Deus

Quando Roma caiu em 410 e os pagãos culparam o cristianismo, Agostinho respondeu: os impérios nascem e morrem, mas a cidade de Deus, formada pelos que amam a Deus mais que a si mesmos, atravessa a história rumo à eternidade. Morreu em 430, com os vândalos sitiando sua cidade e os salmos penitenciais afixados na parede do quarto.

Parte 4

Verdadeiro Deus e verdadeiro homem

Resolvida em Niceia a divindade do Filho, restava a pergunta seguinte: como divindade e humanidade se unem na pessoa única de Jesus? Dois erros opostos forçaram a igreja a responder.

Nestório (condenado em Éfeso, 431)

Falava de Cristo de um modo que parecia dividi-lo em duas pessoas, o Filho de Deus e o homem Jesus, apenas justapostos. Éfeso afirmou: aquele que nasceu de Maria é o próprio Filho de Deus (por isso a expressão “mãe de Deus”, que diz respeito a quem é Jesus, não a uma exaltação de Maria).

Êutiques (condenado em Calcedônia, 451)

Ensinava que a humanidade de Cristo teria sido absorvida pela divindade, como uma gota de mel no oceano, restando uma natureza só.

O Concílio de Calcedônia (451), o maior da igreja antiga, rejeitou os dois extremos e formulou a definição que protestantes, católicos e ortodoxos confessam juntos até hoje: Jesus Cristo é uma só pessoa em duas naturezas, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, “sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”.

Por que isso importa: se ele não fosse verdadeiro Deus, não poderia nos salvar; se não fosse verdadeiro homem, não poderia nos representar e morrer em nosso lugar (Hb 2.14-17; 1Tm 2.5). A fórmula não explica o mistério, e nisso está sua sabedoria: ela levanta quatro cercas e diz: dentro delas está o Cristo dos evangelhos.

Fontes primárias

Vozes da era de ouro

A ponte wesleyana

Wesley, Agostinho e a graça

Onde fica a tradição wesleyana nesse mapa? Em cheio na herança dos pais, mas com discernimento. Wesley recebeu de coração a cristologia de Niceia e Calcedônia e amava os pais orientais, Crisóstomo entre eles, cuja ênfase na cooperação do homem com a graça e na santidade prática ecoa em toda a espiritualidade metodista.

Quanto a Agostinho, é preciso dizer duas coisas com igual clareza. Com Agostinho, contra Pelágio, confessamos que o homem caído não tem força alguma para se salvar e que a salvação é toda pela graça; o arminianismo wesleyano não é um meio-termo pelagiano, como caricaturam alguns.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

A inquietação do coração

A frase de Agostinho descreve cada vizinho nosso que tenta preencher com consumo, prazer e sucesso um vazio do tamanho de Deus. A igreja que entende isso não vende produtos religiosos; anuncia o descanso que só existe em Cristo (Mt 11.28).

2

Pregação expositiva não é moda

É a herança de Crisóstomo. Onde a Escritura é explicada com fidelidade e aplicada com coragem, o povo cresce; onde o púlpito vira palco de opiniões, o povo definha. E o pregador fiel deve estar pronto para o preço que Crisóstomo pagou.

3

Guardar a cristologia é guardar o evangelho

As quatro cercas de Calcedônia continuam derrubando os cristos falsificados de hoje: o Cristo apenas mestre moral, o Cristo místico desencarnado, o Cristo produto de marketing. Somente o Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem salva verdadeiramente.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti.” Como essa frase de Agostinho muda o modo de evangelizar alguém que diz estar “bem sem Deus”?Ver resposta sugerida
A frase ensina a evangelizar pela sede, não pela ameaça. Quem diz estar “bem sem Deus” quase sempre está administrando a inquietação com anestésicos: trabalho sem medida, consumo, entretenimento sem fim, relacionamentos descartáveis. A abordagem agostiniana não começa acusando, começa perguntando: o que você já conquistou que prometeu preencher e não preencheu? Jesus fez assim com a samaritana: partiu da sede dela (Jo 4.13-14) antes de tratar do pecado dela. Isso exige da igreja duas coisas: proximidade real com a pessoa (inquietação se percebe de perto, não de púlpito) e uma comunidade que demonstre o descanso que anuncia (Mt 11.28). O argumento mais forte contra o “estou bem sem Deus” raramente é uma frase; é uma vida visivelmente em paz que o outro não consegue explicar.
Sua igreja recebe um pregador famoso que expõe opiniões, histórias e motivação, com pouquíssima Escritura. À luz de Crisóstomo, como avaliar, e como conversar sobre isso sem espírito de crítica destrutiva?Ver resposta sugerida
A régua de Crisóstomo é objetiva: a pregação cristã explica o texto bíblico e o aplica à vida do povo; o pregador serve a Palavra, não se serve dela. Avalie por perguntas verificáveis: o sermão nasceu do texto ou o texto foi enfeite? O que ficou no povo: a Escritura entendida ou o pregador admirado? Dito isso, o espírito importa tanto quanto a régua: nada de tribunal de rede social. O caminho bíblico é falar primeiro com quem tem responsabilidade pelo púlpito, em particular, com mansidão (Gl 6.1), apontando o padrão (2Tm 4.2: “pregue a palavra”) e não os defeitos da pessoa. E o teste de coerência vale para nós: quem cobra pregação expositiva precisa ser o ouvinte que a sustenta, com Bíblia aberta, atenção e fome. Púlpitos rasos sobrevivem porque plateias rasas os aplaudem.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia Romanos 5 e Efésios 2 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. As Confissões de Agostinho, livros 1 e 8, estão em domínio público e valem uma vida.

Na próxima aula: “Monges e missionários: a fé alcança os povos (451-800)”. Roma cai, e o evangelho chega aos irlandeses, aos ingleses e aos germanos.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.