O teste do pobre
Roberts media a fidelidade de uma igreja por quem cabia nela. O teste continua: o pobre, o mal-vestido, o que não contribui com nada, sente-se em casa na sua igreja, ou nossos “bancos alugados” apenas mudaram de forma (Tg 2.1-6)?
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres.”Lucas 4.18 · NAA
Para começar
Por que existe uma Igreja Metodista Livre? Livre de quê, exatamente? Quem foi Benjamin Titus Roberts, e por que um pastor fiel foi expulso da sua denominação por escrever um artigo? Esta é a aula em que a série chega à porta da nossa própria casa.
O que esta aula cobre. De 1830 a 1900: o movimento de santidade que reacendeu a chama wesleyana na América, o esfriamento do metodismo enriquecido, o conflito na Conferência de Genesee, a fundação da Igreja Metodista Livre (1860) e o legado de B. T. Roberts, cujas obras este site publica em português.
Situando-se na história
1835-1840
As “reuniões de terça-feira” em Nova York e a revista Guia para a Santidade recolocam a inteira santificação no centro da piedade metodista.
1843
Orange Scott e outros deixam a Igreja Metodista Episcopal por causa da conivência dela com a escravidão: primeiro aviso de que algo adoecera.
1857-1858
Das reuniões de oração de leigos em Nova York, um avivamento varre as cidades americanas, com um milhão de convertidos estimados.
1857
Roberts publica o artigo que denuncia o metodismo mundano da sua conferência: bancos alugados, coros profissionais, maçonaria, silêncio sobre a escravidão. É julgado e expulso (1858).
23/08/1860
Leigos e pregadores expulsos ou indignados fundam a Igreja Metodista Livre. Roberts é eleito superintendente geral. No mesmo ano, ele lança a revista O Cristão Sincero.
1865
Em Londres, William e Catherine Booth levam a santidade wesleyana aos becos: “sopa, sabão e salvação”.
1867
Em Vineland, começa a associação nacional de acampamentos para a promoção da santidade: o movimento vira força nacional e, depois, mundial.
1891-1893
Vencido na conferência geral de 1890, Roberts publica em livro sua defesa da ordenação feminina. Morre em 1893, pregando até o fim.
Parte 1
Wesley ensinara que Deus levantou o metodismo para espalhar a santidade bíblica. Duas gerações depois, na América próspera, essa ênfase esmaecia; e Deus a reacendeu, como tantas vezes, começando por reuniões de oração em salas de estar.
Phoebe Palmer (1807-1874), leiga metodista de Nova York, abriu sua casa para as “reuniões de terça-feira em prol da santidade”, ensinou milhares a buscar a inteira santificação como consagração presente (“ponha tudo sobre o altar”, dizia, a partir de Mt 23.19), escreveu livros, editou a revista Guia para a Santidade e pregou (com o marido) em centenas de igrejas e acampamentos. Palmer permaneceu profundamente wesleyana, mas também desenvolveu a doutrina: sistematizou a busca da inteira santificação num caminho mais imediato e simples do que o de Wesley, por meio da chamada “teologia do altar”, formulação que marcaria todo o movimento. O avivamento leigo de oração de 1857-58, que encheu ao meio-dia as salas de Nova York e varreu o país, tinha essa mesma marca: santidade prática, buscada por gente comum.
O movimento de santidade foi a corrente que gerou os acampamentos nacionais (1867), o Exército de Salvação (1865), dezenas de denominações wesleyanas pelo mundo, e a atmosfera espiritual da qual, na próxima aula, nascerá também o pentecostalismo. A Igreja Metodista Livre é filha legítima dessa corrente: santidade wesleyana levada a sério, com organização metodista.
Parte 2
Benjamin Titus Roberts (1823-1893) era um dos pastores mais promissores da Conferência de Genesee, no oeste de Nova York: formado com honras, pastor de igrejas importantes, pregador fervoroso da santidade. E foi exatamente isso que o pôs em rota de colisão com a máquina.
O metodismo urbano enriquecera e queria respeitabilidade. Os sinais eram concretos, e Roberts os nomeou um a um: os bancos alugados (as melhores filas do templo vendidas às famílias ricas, empurrando os pobres para os fundos ou para fora, contra Tg 2.1-6); os coros profissionais substituindo o canto do povo; a maçonaria e as sociedades secretas dominando por dentro os conselhos da igreja; o silêncio acomodado diante da escravidão; e a pregação polida que já não chamava ninguém ao arrependimento.
Em 1857, Roberts publicou o artigo “Metodismo de Nova Escola”, contrastando essa nova religiosidade com a fé dos pais. Foi julgado por “conduta não cristã e imoral” (o crime era o artigo), censurado e, em 1858, expulso da denominação que amava. Apelou à Conferência Geral de 1860; o apelo nem foi ouvido. Leigos indignados, expulsos por apoiá-lo, convocaram então uma convenção.
Parte 3
Em 23 de agosto de 1860, em Pekin, Nova York, pregadores e leigos fundaram a Igreja Metodista Livre e elegeram Roberts superintendente geral. O nome não era marketing; era programa. “Livre” significava, e significa:
Assentos gratuitos para todos, para sempre: o evangelho pregado aos pobres é a marca do Messias (Lc 4.18; Tg 2.1-6), e uma igreja onde o pobre não pode sentar não é igreja de Cristo.
Abolicionismo sem meias palavras, quando ainda custava caro: nenhum ser humano é propriedade de outro.
Culto simples e fervoroso, do povo, sem a frieza ensaiada da respeitabilidade.
O crente não serve a dois senhores nem presta juramentos ocultos (Mt 5.34-37; 2Co 6.14): a lealdade a Cristo é pública e indivisa.
No mesmo ano, Roberts fundou a revista O Cristão Sincero (The Earnest Christian), e por 33 anos escreveu ali sobre santidade, dinheiro, missões e justiça. Defendeu os pequenos agricultores contra os monopólios, escreveu Primeiras Lições sobre o Dinheiro, pescou homens (seu manual de evangelismo, Pescadores de Homens, está neste site) e, ao final da vida, travou sua última batalha: em 1890, a conferência geral rejeitou a ordenação de mulheres; em 1891, Roberts respondeu com o livro Ordenando Mulheres, argumentando de Gl 3.28 que a igreja de Cristo não pode negar às mulheres o que Deus lhes deu. A Igreja Metodista Livre adotaria plenamente essa posição décadas depois, dando razão ao fundador; o livro completo, traduzido, está publicado neste site.
Fontes primárias
O Cristão Sincero · 1860
“Cristo pregou o evangelho aos pobres. […] Quando uma igreja se organiza de tal modo que os pobres não se sentem em casa nela, essa igreja se afastou, nesse ponto, do espírito do evangelho, por mais correta que seja a sua doutrina.”
Ordenando Mulheres · 1891
“No que diz respeito aos privilégios e às promessas do evangelho, não há distinção: ‘não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vocês são um em Cristo Jesus’ (Gl 3.28). […] Que a igreja dê à mulher, em tudo, os direitos que o evangelho lhe dá.”
Verdades Contundentes
“A religião de Jesus Cristo não é apenas para tirar o homem do inferno; é para tirar o inferno do homem: para torná-lo santo no coração e na vida, agora.”
A ponte wesleyana
Ponha as duas histórias lado a lado e a repetição salta aos olhos. Wesley pregou a santidade a uma igreja formal e foi expulso dos púlpitos para os campos; Roberts pregou a mesma santidade a uma igreja enriquecida e foi expulso da conferência para os acampamentos. Wesley organizou sociedades; Roberts, uma igreja. Wesley combateu o tráfico de escravos; Roberts, a escravidão americana. Wesley abriu espaço para as pregadoras; Roberts escreveu o livro pela ordenação delas.
Da história para a vida
Roberts media a fidelidade de uma igreja por quem cabia nela. O teste continua: o pobre, o mal-vestido, o que não contribui com nada, sente-se em casa na sua igreja, ou nossos “bancos alugados” apenas mudaram de forma (Tg 2.1-6)?
Roberts perdeu credencial, salário e reputação por um artigo fiel. A pergunta dele à nossa geração de influência e curtidas: o que você está disposto a perder para não trair o que prega?
“Não apenas tirar o homem do inferno; tirar o inferno do homem.” A santidade não é etiqueta de subcultura, é transformação real do coração e da vida, agora (1Ts 5.23-24). É para isso que a nossa igreja existe.
Fixação
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Avaliação
Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Para aprofundar: as obras de Roberts, em português, neste site. Leia o portal das obras de B. T. Roberts: Por Que Outra Denominação?, Ordenando Mulheres, Ensinos de Santidade, Pescadores de Homens, Primeiras Lições sobre o Dinheiro e Verdades Contundentes.
Na próxima aula: “O século 20: pentecostalismo, guerras e o evangelho global (1900-2000)”: a Rua Azusa, a igreja sob os totalitarismos e o deslocamento do cristianismo para o sul do mundo.
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.