Estudos do Bispo Ildo · Escatologia · Escatologia Geral
Então, o nosso desafio é estudar escatologia. E quero começar pelo Reino de Deus, porque a escatologia bíblica não começa simplesmente com perguntas sobre o que acontecerá no fim do mundo. Ela começa com as promessas de Deus, feitas no Antigo Testamento, que começam a se cumprir na pessoa e na obra de Jesus Cristo.
Depois de sua ressurreição, Jesus disse que era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito a respeito dele “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24.44; cf. Lc 24.25-27).
Portanto, a escatologia começa a se realizar já em Cristo.
O próprio derramamento do Espírito Santo no Pentecostes é apresentado por Pedro como cumprimento da profecia de Joel acerca dos “últimos dias”: “derramarei do meu Espírito sobre toda a carne” (Jl 2.28-32; At 2.16-21).
Isso significa que, com Cristo, os últimos dias já começaram. Expectativas, esperanças e promessas do Antigo Testamento começam a encontrar seu cumprimento nele. Evidentemente, existem outras promessas cuja consumação ainda está por vir. É exatamente essa tensão entre aquilo que já aconteceu e aquilo que ainda acontecerá que constitui uma das chaves fundamentais para compreendermos a escatologia bíblica.
Por que dois leitores sinceros da Bíblia, lendo os mesmos textos, chegam a conclusões escatológicas tão diferentes?
Na verdade, essa pergunta não vale apenas para a escatologia. Ela se aplica a diversos temas bíblicos. Nossos pressupostos, nosso método de interpretação e a maneira como relacionamos o Antigo e o Novo Testamentos influenciam profundamente nossas conclusões.
Outra pergunta importante é: para que serve a escatologia?
Serve apenas para alimentar nossa curiosidade acerca do futuro? Para sabermos detalhes que outras pessoas não sabem? Para nos tornarmos especialistas em sinais, datas, anticristos e acontecimentos futuros?
Ou a escatologia bíblica existe para formar o caráter, a esperança, a santidade e a missão da Igreja?
Também precisamos perguntar: o que é o Reino de Deus? Em que sentido ele já chegou? Em que sentido ainda aguardamos sua plena manifestação?
Essas perguntas serão fundamentais ao longo do nosso curso.
Uma doutrina que não forma a vida provavelmente está sendo mal compreendida.
Toda vez que a escatologia aparece de maneira significativa no Novo Testamento, ela vem acompanhada de consequências práticas.
Paulo, por exemplo, depois de falar sobre a ressurreição dos mortos, a volta de Cristo e o arrebatamento dos crentes, conclui: “Consolem uns aos outros com estas palavras” (1Ts 4.13-18).
Percebam: o objetivo da escatologia ali não é produzir especulação. É produzir consolo.
Jesus, em seu sermão escatológico, diz: “Vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês” (Mt 24.42; cf. Mt 24.36,44).
Portanto, escatologia produz vigilância.
Pedro, depois de falar sobre o Dia do Senhor e a renovação de todas as coisas, pergunta: “Que tipo de pessoas vocês devem ser, vivendo em santidade e piedade?” (2Pe 3.10-12).
Escatologia produz santidade.
Tito também relaciona diretamente a esperança da volta de Cristo a uma vida piedosa. A graça de Deus nos educa para vivermos de maneira sensata, justa e piedosa enquanto aguardamos “a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.11-14).
A escatologia também está relacionada à paciência de Deus. Pedro explica que a aparente demora da volta de Cristo não deve ser interpretada como negligência divina: “O Senhor não retarda a sua promessa […] pelo contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3.9; cf. 2Pe 3.15).
E Pedro chega a falar de cristãos que vivem “esperando e apressando a vinda do Dia de Deus” (2Pe 3.12).
Isso também se relaciona à missão. Jesus afirmou: “Este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mt 24.14).
Por isso, nossa expectativa da volta de Cristo não deve nos afastar da missão; deve nos lançar ainda mais profundamente nela. Cristo nos ordenou fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20).
E o Apocalipse nos permite contemplar antecipadamente o resultado dessa missão: “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas”, diante do trono e do Cordeiro (Ap 7.9-10; cf. Ap 7.13-14).
Portanto, a escatologia bíblica produz consolo, vigilância, santidade, paciência, esperança e missão.
Precisamos falar também sobre aquilo que chamo de escapismo escatológico.
Por escapismo entendo aquela concepção segundo a qual a grande expectativa da Igreja é simplesmente ser retirada do mundo antes que as coisas fiquem realmente difíceis.
Em algumas versões do pré-tribulacionismo, a ênfase pode recair de tal maneira sobre a retirada da Igreja que a responsabilidade cristã em relação à criação, à sociedade, à justiça e ao bem comum acaba enfraquecida.
A lógica pode acabar sendo esta: se logo iremos embora, por que nos preocuparmos com o mundo? Por que plantar árvores? Por que investir em educação? Por que combater a corrupção? Por que trabalhar por uma sociedade mais justa?
É claro que nem todo pré-tribulacionista chega a essas conclusões. Seria injusto generalizar. Mas esse tipo de consequência pode surgir quando a escatologia se transforma essencialmente numa expectativa de fuga.
Conheci pessoas que chegaram a perguntar: “Para que casar? Para que ter filhos? Jesus pode voltar a qualquer momento”.
O problema é que essa perspectiva pode gerar desengajamento social e até mesmo certo pessimismo diante de qualquer esforço de transformação.
Em determinada ocasião, participávamos de uma conferência cujo lema era: “Oração e ação por um mundo melhor”. Um pregador convidado olhou para a faixa e disse: “Oração e ação, sim; mundo melhor, jamais! O mundo vai de mal a pior”.
Aquela frase refletia uma determinada compreensão escatológica.
Mas os profetas bíblicos não pensavam assim. Elias confrontou Acabe e os profetas de Baal (1Rs 18.17-40). Jeremias denunciou reis e estruturas de injustiça em nome de Deus (Jr 22.1-5,13-17). Daniel e seus companheiros permaneceram fiéis a Deus diante do poder imperial, mesmo sob ameaça de morte (Dn 3.13-18; 6.10-23).
Eles não aguardavam uma retirada que os dispensasse da fidelidade no presente.
Uma escatologia equivocada pode, portanto, produzir efeitos pastorais e éticos bastante concretos.
Outro problema recorrente na história da escatologia é a obsessão por marcar datas para a volta de Cristo.
William Miller, um dos personagens que deram origem ao movimento adventista do século XIX, calculou datas para a volta de Cristo. Depois que essas expectativas fracassaram, novas interpretações foram elaboradas.
Outros movimentos também fizeram previsões semelhantes ao longo da história.
O problema fundamental é que Jesus foi muito claro: “A respeito daquele dia e hora ninguém sabe” (Mt 24.36).
Por isso ele ordenou: “Vigiem, porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês” (Mt 24.42).
E novamente: “O Filho do Homem virá à hora em que vocês menos esperam” (Mt 24.44).
A resposta bíblica à incerteza acerca da data não é calcular melhor. É vigiar melhor.
Precisamos distinguir cuidadosamente o pré-milenismo histórico do pré-milenismo dispensacionalista.
O pré-milenismo histórico entende que Cristo voltará de maneira visível e gloriosa e que, nessa mesma ocasião, acontecerão a ressurreição e o arrebatamento dos santos (Mt 24.29-31; 1Ts 4.13-18). Depois disso, segundo essa posição, Cristo estabelecerá um reino milenar na Terra, interpretando Apocalipse 20.1-10 como um período posterior à segunda vinda.
Nesse aspecto, o pré-milenismo histórico é diferente do pré-milenismo dispensacionalista, especialmente em suas formas pré-tribulacionistas.
O dispensacionalismo clássico tende a dividir a volta de Cristo em duas etapas: primeiro, Cristo viria para arrebatar a Igreja; depois de um período de tribulação, voltaria de maneira pública e gloriosa.
O pré-milenismo histórico, por outro lado, normalmente entende que a Igreja atravessa a tribulação e que o arrebatamento acontece na única e gloriosa parousia de Cristo (Mt 24.29-31; 1Ts 4.15-17; 2Ts 2.1-3).
Depois temos o pós-milenismo.
O pós-milenismo entende que a segunda vinda de Cristo ocorre depois de um período de extraordinária expansão do Reino de Deus no mundo. Trata-se de uma perspectiva geralmente muito otimista acerca do progresso do evangelho.
Textos como “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” são frequentemente importantes nessa leitura (Is 11.9; cf. Hc 2.14).
Os pós-milenistas também apontam para as parábolas do Reino, nas quais algo inicialmente pequeno cresce de maneira extraordinária, como o grão de mostarda e o fermento (Mt 13.31-33).
Historicamente, essa perspectiva alimentou grande confiança no poder transformador do evangelho e forte engajamento missionário e social.
E temos o amilenismo.
O termo “amilenismo” pode dar a impressão errada de que essa posição não acredita em milênio algum. Na realidade, o amilenismo entende Apocalipse 20.1-10 de maneira predominantemente simbólica e identifica o milênio com a era presente do reinado de Cristo, entre sua primeira e sua segunda vindas.
Nesse sentido, amilenistas e pós-milenistas possuem muitos pontos de contato. Ambos entendem que Cristo já reina e que seu Reino já está em operação.
A diferença é que o amilenismo costuma ser mais sóbrio quanto à expectativa de uma era histórica de triunfo quase universal do cristianismo antes da parousia.
O Novo Testamento apresenta crescimento do Reino, mas também resistência ao Reino.
O trigo cresce, mas o joio cresce junto até a colheita (Mt 13.24-30,36-43).
O evangelho será anunciado às nações (Mt 24.14), mas Jesus também fala da multiplicação da iniquidade (Mt 24.12), da perseguição aos seus discípulos (Mt 24.9) e pergunta: “Quando o Filho do Homem vier, será que ainda encontrará fé sobre a terra?” (Lc 18.8).
Jesus compara sua vinda aos dias de Noé, quando as pessoas realizavam normalmente suas atividades cotidianas até serem surpreendidas pelo juízo (Mt 24.37-39).
Ao mesmo tempo, o Apocalipse descreve intensos conflitos entre o Reino de Deus e os poderes que se levantam contra ele (Ap 13.1-18; 16.13-16; 19.11-21).
Portanto, o quadro bíblico não é simplesmente pessimista nem ingenuamente otimista.
O Reino avança. O evangelho alcança as nações. Mas o mal também resiste até a consumação.
É nesse sentido que me identifico com o amilenismo.
John Wesley, especialmente em sua maturidade, demonstrou expectativas bastante otimistas quanto à expansão do evangelho. Em alguns aspectos, sua escatologia apresenta traços que posteriormente seriam classificados como pós-milenistas. Voltaremos a esse assunto com mais profundidade.
Uma das regras mais importantes que adotaremos é esta: o Novo Testamento funciona como intérprete autorizado das promessas do Antigo Testamento.
Depois da ressurreição, Jesus explicou aos discípulos de Emaús “o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27). Mais tarde declarou que tudo o que estava escrito sobre ele “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” precisava se cumprir (Lc 24.44).
Paulo afirma que “todas as promessas de Deus têm nele o ‘sim’” (2Co 1.20).
Isso significa que, quando o próprio Novo Testamento identifica o cumprimento de determinada promessa do Antigo Testamento em Cristo, devemos permitir que essa interpretação apostólica governe nossa leitura.
Essa regra será muito importante quando examinarmos interpretações que transferem automaticamente inúmeras profecias do Antigo Testamento para um milênio futuro, mesmo quando o Novo Testamento já as relaciona a Cristo e à nova aliança.
As promessas convergem para Cristo.
Paulo afirma que as promessas foram feitas a Abraão e ao seu “descendente”, identificando esse descendente culminantemente com Cristo (Gl 3.16).
E acrescenta: “Se vocês são de Cristo, são também descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa” (Gl 3.29).
Portanto, Cristo é o herdeiro e aqueles que pertencem a Cristo participam de sua herança.
Não se trata simplesmente de dizer que a Igreja “substituiu Israel”. O ponto é que, em Cristo, judeus e gentios crentes são reunidos em um só povo.
Paulo ensina que Cristo derrubou “a parede de separação” e, por meio da cruz, reconciliou judeus e gentios “em um só corpo” (Ef 2.11-18). Esse novo povo é edificado “sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular” (Ef 2.19-22).
Jesus disse: “Haverá um só rebanho e um só pastor” (Jo 10.16).
Paulo utiliza outra imagem em Romanos 11: existe uma única oliveira. Alguns ramos naturais foram quebrados por causa da incredulidade, enquanto ramos da oliveira brava foram enxertados mediante a fé. Os ramos naturais podem ser enxertados novamente se não permanecerem na incredulidade, e os gentios enxertados não devem se tornar arrogantes, pois também permanecem pela fé (Rm 11.17-24).
Portanto, não temos dois povos de Deus seguindo dois planos independentes de salvação.
O princípio do remanescente já aparece no Antigo Testamento e é desenvolvido por Paulo (Rm 9.6-8; 11.1-5).
A geração que saiu do Egito experimentou a libertação, atravessou o mar e recebeu privilégios extraordinários, mas muitos morreram no deserto por causa da incredulidade (1Co 10.1-5; Hb 3.16-19).
Nos dias de Elias, Deus preservou sete mil que não dobraram os joelhos diante de Baal (1Rs 19.18; Rm 11.4).
Nos dias de Jesus aconteceu algo semelhante. “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.11-12).
Os primeiros discípulos eram judeus. Os doze apóstolos eram judeus (Mc 3.13-19). Maria, José, Zacarias, Isabel, João Batista, Simeão e Ana faziam parte desse contexto de Israel fiel (Lc 1–2). Antes do Pentecostes, havia cerca de cento e vinte discípulos reunidos (At 1.15), e no Pentecostes cerca de três mil pessoas receberam a mensagem e foram acrescentadas à comunidade (At 2.41).
Por isso, a Igreja não aparece do nada, desconectada da história de Israel. Ela surge do remanescente messiânico de Israel e se expande às nações.
Paulo chega a afirmar que “não é judeu quem o é apenas exteriormente”, mas aquele cuja realidade é interior e espiritual (Rm 2.28-29).
E acrescenta: “Os que têm fé é que são filhos de Abraão” (Gl 3.7).
Em Romanos 4, Paulo amplia inclusive a promessa feita a Abraão: ele fala da promessa de que Abraão e sua descendência seriam “herdeiros do mundo” (Rm 4.13).
E quem são os descendentes? Aqueles que compartilham da fé de Abraão (Rm 4.11-17).
Por isso, aqueles que pertencem a Cristo são “herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17).
Essa compreensão transforma profundamente nossa leitura das promessas escatológicas.
Precisamos respeitar o gênero literário.
Quando Apocalipse descreve “uma mulher vestida do sol” (Ap 12.1), não devemos imaginar simplesmente uma mulher literalmente coberta pelo astro solar.
Quando Daniel descreve um animal semelhante a um leopardo com quatro asas e quatro cabeças (Dn 7.6), nossa primeira pergunta não deve ser: “Onde encontraremos esse animal?”.
A pergunta correta é: o que essa imagem significa?
Da mesma maneira, diante da besta, do dragão ou do número 666, devemos perguntar o que essas figuras comunicavam aos primeiros leitores (Ap 12.3,9; 13.1-18).
Grande parte do vocabulário simbólico do Apocalipse vem do próprio Antigo Testamento.
Por isso, quem quer compreender Apocalipse precisa conhecer Daniel, Ezequiel, Isaías, Êxodo, Zacarias, os Salmos e outros textos do Antigo Testamento.
Também devemos considerar seriamente a possibilidade de recapitulação. Ou seja, Apocalipse nem sempre descreve acontecimentos em uma única linha cronológica contínua. Diversas visões podem retornar ao mesmo período, apresentando-o de perspectivas diferentes.
Essa será uma característica importante da interpretação amilenista do livro.
Toda esperança bíblica vem acompanhada de um imperativo.
A volta de Cristo exige vigilância (Mt 24.42-44).
A esperança da nova criação exige santidade e piedade (2Pe 3.11-14).
A ressurreição futura exige perseverança no trabalho do Senhor: “Sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor” (1Co 15.58).
A esperança cristã nunca é desculpa para passividade.
“As coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas pertencem a nós” (Dt 29.29).
Depois da ressurreição, os discípulos perguntaram a Jesus: “Será este o tempo em que o Senhor restaurará o reino a Israel?” (At 1.6).
Jesus respondeu: “Não compete a vocês conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua própria autoridade” (At 1.7).
E imediatamente redirecionou a atenção deles para aquilo que realmente deveriam fazer: “Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas […] até os confins da terra” (At 1.8).
Percebam a troca que Jesus faz: menos curiosidade cronológica, mais missão.
Apocalipse reúne pelo menos três dimensões literárias importantes.
Ele é apocalipse, porque apresenta revelação por meio de visões, símbolos e imagens (Ap 1.1).
Ele é profecia: “Bem-aventurado aquele que lê e bem-aventurados aqueles que ouvem as palavras da profecia” (Ap 1.3).
E é também carta, dirigida originalmente “às sete igrejas que se encontram na Ásia” (Ap 1.4,11).
Isso é fundamental.
Antes de ser palavra de Deus para nós, Apocalipse foi palavra de Deus para cristãos concretos que viviam na Ásia Menor no primeiro século.
Por isso, uma interpretação responsável precisa perguntar: o que essas palavras poderiam significar para os primeiros destinatários?
O texto certamente possui aplicação para nós. Mas dificilmente poderá significar para nós algo completamente desconectado daquilo que podia comunicar àqueles primeiros cristãos.
É assim que evitamos anacronismos.
Quanto à data, existe uma antiga discussão. A data tradicionalmente mais aceita situa Apocalipse próximo do final do reinado de Domiciano, por volta de 95–96 d.C., embora estudiosos também defendam uma data anterior, durante o período de Nero.
Essa discussão tem consequências importantes para diferentes formas de preterismo e será retomada posteriormente.
O futurismo entende uma parcela significativa das profecias de Apocalipse como acontecimentos ainda futuros, especialmente relacionados ao período imediatamente anterior à volta de Cristo.
O preterismo enfatiza o cumprimento de muitas profecias no contexto do primeiro século.
O preterismo parcial, que é diferente do preterismo pleno, reconhece importantes cumprimentos no primeiro século, inclusive acontecimentos relacionados à queda de Jerusalém em 70 d.C., mas mantém acontecimentos fundamentais ainda futuros, como a segunda vinda corporal de Cristo, a ressurreição geral e o juízo final.
O historicismo procura identificar o cumprimento das profecias ao longo de sucessivos períodos da história da Igreja.
O idealismo enfatiza os padrões espirituais recorrentes retratados no Apocalipse: o conflito entre o Reino de Deus e os poderes do mal, a perseguição da Igreja, o juízo divino e a vitória final de Cristo.
Essas abordagens não precisam necessariamente ser usadas de maneira absolutamente exclusiva. Uma leitura amilenista pode, por exemplo, reconhecer elementos preteristas, idealistas e futuristas em diferentes textos.
Um dos princípios importantes da leitura amilenista é que Apocalipse não precisa ser lido como se cada capítulo descrevesse acontecimentos cronologicamente posteriores aos capítulos anteriores.
Os sete selos aparecem em Apocalipse 6–8. As sete trombetas, em Apocalipse 8–11. As sete taças, em Apocalipse 15–16.
Na interpretação recapitulacionista, essas séries descrevem o juízo de Deus sob perspectivas sucessivas e crescentemente intensas, em vez de constituírem necessariamente uma sequência cronológica rígida.
Assim, Apocalipse funciona mais como uma série de câmeras mostrando o mesmo grande conflito de diferentes ângulos.
Até as sete igrejas de Apocalipse 2–3 possuem importância nessa estrutura. Antes de mostrar o juízo sobre os poderes do mundo, Cristo examina sua própria Igreja. Isso nos lembra o princípio bíblico de que “é tempo de começar o juízo pela casa de Deus” (1Pe 4.17).
Essa questão se torna especialmente importante na passagem de Apocalipse 19 para Apocalipse 20.
Apocalipse 19.11-21 apresenta Cristo vindo gloriosamente, derrotando seus inimigos e executando juízo.
Na leitura amilenista, Apocalipse 20 não descreve necessariamente o que acontece cronologicamente depois desse juízo. Ele recapitula a era presente a partir de outra perspectiva.
Apocalipse 20 começa falando do aprisionamento de Satanás (Ap 20.1-3).
Jesus utiliza linguagem semelhante durante seu ministério. Ao explicar seus exorcismos, ele pergunta: “Como pode alguém entrar na casa do valente e roubar-lhe os bens sem primeiro amarrá-lo?” (Mt 12.29).
O verbo grego utilizado para “amarrar” pertence ao mesmo verbo empregado em Apocalipse 20.2.
E o contexto deixa claro o significado. Jesus havia acabado de dizer: “Se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, então é chegado a vocês o Reino de Deus” (Mt 12.28).
Ou seja: a derrota de Satanás está relacionada à inauguração do Reino.
Jesus também declarou aos discípulos: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.18), justamente quando eles relatavam que os demônios se submetiam ao nome de Cristo (Lc 10.17-20).
Depois da ressurreição, Jesus anuncia: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações” (Mt 28.18-19).
Na leitura amilenista, portanto, o aprisionamento de Satanás em Apocalipse 20 não significa ausência absoluta de atividade satânica. Significa uma limitação específica: ele não pode impedir que o evangelho alcance as nações, exatamente como afirma Apocalipse 20.3.
Por isso a missão mundial se torna possível.
No final desse período, Satanás é solto “por pouco tempo” (Ap 20.3,7), promove uma última investida contra o povo de Deus, e o juízo divino encerra definitivamente a rebelião (Ap 20.7-10).
Essa cena possui importantes paralelos com outras descrições da consumação, nas quais Cristo destrói seus inimigos em sua manifestação gloriosa (2Ts 1.7-10; 2.8).
Na literatura apocalíptica, números frequentemente possuem significado teológico.
O número sete aparece constantemente e comunica plenitude: sete igrejas (Ap 1.4), sete selos (Ap 5.1), sete trombetas (Ap 8.2) e sete taças (Ap 15.7).
O número doze está relacionado ao povo de Deus: doze tribos de Israel e doze apóstolos (Ap 21.12-14).
Por isso, os vinte e quatro anciãos podem ser compreendidos simbolicamente como representação da totalidade do povo de Deus (Ap 4.4,10; 5.8-10).
Os períodos de três anos e meio, quarenta e dois meses e 1.260 dias aparecem como períodos limitados de sofrimento e conflito (Dn 7.25; Ap 11.2-3; 12.6,14; 13.5).
O número 666 é chamado explicitamente de “número de homem” e o leitor é convidado a calculá-lo (Ap 13.18).
Uma importante interpretação histórica relaciona o número a Nero César, mediante gematria hebraica. Seja qual for a identificação final, o ponto fundamental é que o símbolo precisava ser inteligível, de alguma maneira, aos primeiros leitores.
Isso precisa controlar nossas especulações modernas.
O número mil também pode funcionar simbolicamente. A Bíblia utiliza “mil” em diversas ocasiões para comunicar grandeza ou plenitude: Deus possui “o gado sobre mil montanhas” (Sl 50.10); “um dia nos teus átrios vale mais que mil” (Sl 84.10); e “mil anos” diante de Deus são como um dia (Sl 90.4; cf. 2Pe 3.8).
Por isso, o “milênio” de Apocalipse 20.1-6 não precisa, necessariamente, significar exatamente mil anos cronológicos.
O mesmo princípio se aplica aos 144 mil de Apocalipse 7.4-8 e 14.1-5.
O número pode ser compreendido como 12 × 12 × 1.000: uma representação simbólica da plenitude do povo redimido de Deus. Imediatamente depois da descrição dos 144 mil em Apocalipse 7, João vê “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9).
Para compreender o Reino de Deus precisamos compreender também as expectativas messiânicas dos dias de Jesus.
Muitos aguardavam um Messias político e militar capaz de libertar Israel do domínio romano.
Havia, evidentemente, textos do Antigo Testamento que alimentavam a esperança de um rei davídico e de um reino messiânico (2Sm 7.12-16; Sl 2.1-12; Is 9.6-7; 11.1-10).
O problema não estava em esperar o Messias. O problema estava em como essas promessas eram interpretadas.
Outros textos descreviam um rei humilde: “Eis aí vem o seu Rei […] humilde e montado em jumento” (Zc 9.9; cf. Mt 21.4-5).
Também havia a figura do Servo Sofredor, que seria rejeitado, ferido e levaria sobre si os pecados de muitos (Is 52.13–53.12).
Os próprios discípulos tiveram dificuldade para compreender que sofrimento, cruz e ressurreição faziam parte da missão messiânica (Lc 18.31-34; 24.25-27).
Jesus não negou o Reino.
Ele corrigiu a compreensão que as pessoas tinham do Reino.
Não legiões armadas, mas discípulos carregando a cruz (Lc 9.23).
Não supremacia geopolítica, mas o evangelho do Reino sendo anunciado às nações (Mt 24.14; 28.18-20).
Essa mesma correção hermenêutica continua necessária hoje.
Uma das ideias mais importantes para compreendermos a escatologia bíblica é a tensão entre o já e o ainda não.
Jesus começou sua pregação dizendo: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo” (Mc 1.15).
Quanto tempo significava esse “próximo”?
Não dois mil anos.
Pouco depois, Jesus já podia dizer: “Se eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o Reino de Deus sobre vocês” (Mt 12.28).
Também afirmou que o Reino de Deus já estava “no meio” deles (Lc 17.20-21).
Depois da ressurreição declarou: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18).
Não “será dada”.
Foi dada.
Cristo já reina.
Paulo afirma: “Porque é necessário que ele reine até que tenha posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1Co 15.25-26).
Esse texto é extremamente importante.
Cristo está reinando agora. Seu reinado prossegue até que todos os inimigos sejam colocados debaixo dos seus pés.
E quando o último inimigo, a morte, é vencido?
Na ressurreição dos mortos, associada à vinda de Cristo (1Co 15.20-26,50-57).
Isso oferece um argumento importante para o amilenismo e para o pós-milenismo, porque Paulo descreve o reinado de Cristo como realidade presente que caminha para sua consumação na ressurreição.
O Reino já existe.
Paulo não diz que o Reino de Deus será justiça, paz e alegria. Ele afirma: “O Reino de Deus […] é justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17).
As parábolas de Mateus 13 também descrevem um Reino já atuante na história: o semeador (Mt 13.3-23), o trigo e o joio (Mt 13.24-30,36-43), o grão de mostarda (Mt 13.31-32), o fermento (Mt 13.33), o tesouro e a pérola (Mt 13.44-46) e a rede que recolhe peixes bons e ruins até a separação final (Mt 13.47-50).
O Reino já chegou, mas ainda não alcançou sua consumação.
Por isso continuamos orando: “Venha o teu Reino” (Mt 6.10).
E a Igreja continua clamando: “Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20; cf. 1Co 16.22).
Já recebemos “as primícias do Espírito”, mas ainda gememos aguardando a redenção do nosso corpo (Rm 8.23). E toda a criação geme conosco, aguardando sua libertação (Rm 8.18-25).
O Novo Testamento fala deste século e do século vindouro (Mt 12.32; Ef 1.21).
Vivemos, portanto, entre a inauguração e a consumação.
Isso explica boa parte da experiência cristã.
Cristo venceu, mas ainda enfrentamos sofrimento.
Jesus disse: “No mundo vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo” (Jo 16.33).
Ele já venceu.
Nós ainda sofremos.
Esse é o “já” e o “ainda não”.
Já vimos a imagem do homem forte sendo amarrado (Mt 12.28-29).
Paulo ensina que, na cruz, Cristo “despojou os principados e as potestades” e triunfou sobre eles (Cl 2.15).
Cristo ressuscitado está acima de “todo principado, potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa mencionar” (Ef 1.20-22).
Deus lhe deu “o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9-11).
Ele é “Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19.16).
Na aproximação da cruz, Jesus declarou: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12.31).
Portanto, em sentido redentivo e escatológico, Satanás foi julgado, derrotado e limitado pela obra de Cristo.
Isso não significa que ele deixou de agir. O Novo Testamento continua advertindo os cristãos contra suas tentações e ataques (Ef 6.11; 1Pe 5.8-9).
Mas significa que ele é um inimigo derrotado e não pode impedir o avanço final do propósito de Deus.
Jesus prometeu: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).
E justamente porque toda autoridade pertence a Cristo, a Igreja recebe a ordem de fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20).
Jesus prometeu: “Vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão minhas testemunhas” (At 1.8).
Pentecostes, portanto, não é apenas o nascimento missionário da Igreja. É também um acontecimento escatológico.
Pedro interpreta o derramamento do Espírito como cumprimento daquilo que Joel havia anunciado para “os últimos dias” (Jl 2.28-32; At 2.16-21).
O Espírito Santo é a presença do futuro de Deus no presente.
Paulo chega a chamar o Espírito de “penhor” da nossa herança (Ef 1.13-14; 2Co 1.22; 5.5).
Nós ainda não possuímos toda a herança, mas já recebemos sua antecipação.
Na tradição wesleyana encontramos uma ênfase muito importante no Reino de Deus como realidade presente.
Wesley nunca tratou a esperança cristã como desculpa para abandonar o mundo. Pelo contrário, sua teologia da graça e da santidade impulsionou evangelização, discipulado e transformação social.
Em sua maturidade, Wesley demonstrou considerável confiança na expansão mundial do evangelho. Sua expectativa pode ser descrita como uma forma moderada de otimismo escatológico, com importantes afinidades com o pós-milenismo.
Textos como a promessa de que “a terra se encherá do conhecimento do Senhor, como as águas cobrem o mar” expressam bem essa esperança (Is 11.9; cf. Hc 2.14).
Mas esse otimismo nunca deveria significar utopia política.
O Reino cresce como fermento na massa (Mt 13.33), como semente que germina (Mc 4.26-29) e como pequeno grão que se torna grande (Mt 13.31-32).
Por isso, uma boa expressão para nossa postura é otimismo da graça.
Esperamos grandes coisas do evangelho porque acreditamos no poder da graça de Deus.
Mas fazemos isso sem ingenuidade, sem utopismo e sem escapismo.
Comece pelo Reino de Deus.
Cristo reina agora (1Co 15.25).
O Reino já chegou em Cristo (Mt 12.28).
A Igreja já recebeu o Espírito dos últimos dias (At 2.16-21).
Satanás foi decisivamente derrotado pela cruz (Cl 2.15).
O evangelho está sendo anunciado às nações (Mt 24.14; 28.18-20).
Mas ainda aguardamos a ressurreição, o juízo, a renovação da criação e a plena manifestação da glória de Deus (Rm 8.18-25; 1Co 15.50-57; Ap 20.11-15; 21.1-5).
Portanto, vivemos entre a inauguração e a consumação.
Essa perspectiva deve produzir uma Igreja que vigia, mas não especula; que espera, mas não foge; que busca santidade, mas também missão; que denuncia o pecado e trabalha pela justiça; que não marca datas, mas permanece preparada; e que ora com esperança:
“Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22.20).
Essa é a escatologia que precisamos: Reino presente, esperança futura, santidade, missão e sobriedade.