Estudos do Bispo Ildo · Escatologia · Israel e Dispensacionalismo

O templo judaico deverá ser reconstruído de novo?

Os dispensacionalistas, ignorando a história, advogam que o templo judaico será reconstruído para ser profanado novamente pela Besta no período da Grande Tribulação e para que também possam ser celebrados sacrifícios no templo no período do milênio. Mas, nenhuma passagem do Antigo Testamento faz referência a uma reconstrução de um terceiro templo em Jerusalém. Todas as referências à reconstrução do templo registradas no Antigo Testamento referem-se ao templo reconstruído na época de Esdras.

O silêncio do Novo Testamento

Não existe um único versículo no novo Testamento que prometa a reconstrução do templo judaico. Jesus falou da destruição do templo (Mt 24.2; Mc 13.2; Lc 19.44; 21.6). Jesus falou da destruição do templo como um juízo contra o povo de Israel, a semelhança do que foi a destruição do primeiro templo e da cidade de Jerusalém em 586 a.C., que se deu como conseqüência do pecado, idolatria e perseguição aos profetas de Deus. Jesus, dirigindo-se aos líderes religiosos dos judeus, diz que aquela geração era hipócrita por se julgar melhor do que seus antepassados que mataram os profetas. Afirmou que eles fariam o mesmo e até pior que os seus pais.

O que Jesus disse sobre o templo

Observe as palavras de Jesus a este respeito em Mateus 23.32-24.2, “Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor! Tendo Jesus saído do templo, ia-se retirando, quando se aproximaram dele os seus discípulos para lhe mostrar as construções do templo. Ele, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.”

Portanto, Jesus disse que aquela geração de judeus cometeria pecados ainda mais graves por não perseguir apenas os enviados de Deus, mas também o próprio Filho (Mt 21.37-44). Jesus deixa claro que a destruição do templo se daria naquela mesma geração (Mt 23.36). O que se cumpriu na íntegra no ano de 70 d.C. quando, o príncipe de um povo que havia de vir ou o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel (Mt 24.15), General Tito, profanou o templo e destruiu a cidade e o templo. O que concorda bastante com a profecia de Daniel que aponta para uma nova destruição do templo e da cidade de Jerusalém como resultado da rejeição e morte do Ungido: “Depois das sessenta e duas semanas, será morto o Ungido e já não estará; e o povo de um príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será num dilúvio, e até ao fim haverá guerra; desolações são determinadas” (Daniel 9.26).

Embora, Jesus tenha profetizado a destruição do templo como juízo sobre a geração de judeus que rejeitou o Cristo, ele nunca profetizou a reconstrução do templo, a não ser em termos da sua própria ressurreição, quando comparou o templo a si mesmo (Jo 2.19).

O templo em Apocalipse

Os cristãos dispensacionalistas fazem questão de ignorar o fato de que o Templo se revestiu de um novo significado no Novo Testamento, tornando-se um tipo de Cristo e de sua Igreja (Ef 2.19-21).

O termo templo aparece 12 vezes no livro de Apocalipse e, em cada uma das ocorrências, está se referindo ao templo celestial ou ao Senhor Deus mesmo. “Nela, não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro” (Ap 21.22).

Deus não habita em templos feitos por mãos humanas

Deus não habita em templos construídos por mãos humanas (At 7.48; 17.24). O tabernáculo ou o templo do Antigo Testamento eram sombra da realidade que se manifestou em Cristo e na sua Igreja (Hb 9.9-10.14). Pois, templo, no Novo Testamento, passa a significar Jesus e a Igreja, como Corpo de Cristo (1 Co 3.16; Ef 2.22). Notar que até mesmo o corpo físico dos crentes é chamado de templo no Novo Testamento (2 Co 6.16-19). O templo, portanto, encontra seu último e definitivo significado e cumprimento não em um outro templo construído por mãos humanas, mas em Jesus Cristo que está nos céus e na sua Igreja na terra.

O autor de Hebreus descreve os sacrifícios do templo como ilustração ou cópia das realidades celestiais (Hb 9.9, 23, 24; 10.1-3, 11). Pedro usa a mesma terminologia para descrever o modo como os cristãos foram feitos nova casa de Deus, edifício este que tem Jesus por pedra de esquina (1 Pe 2.5-7). Com a chegada do verdadeiro templo, não há lugar mais para templos construídos por mãos humanas.

Em João 4, falando à mulher samaritana, Jesus anunciou a chegada do tempo em que a verdadeira adoração não estaria mais confinada ao templo de Jerusalém, mas que se tornaria universal, realizada em espírito e em verdade.

O retorno dos sacrifícios e o sacrifício de Cristo

Os dispensacionalistas advogam o retorno da celebração de sacrifícios no templo no período do milênio, um verdadeiro absurdo que contradiz o ensino claro do Novo Testamento que ensina que Jesus fez um sacrifício eficaz, pleno, uma vez por todas, não havendo, portanto, mais lugar para os cerimoniais e sacrifícios judaicos que haviam sido instituídos como sombras da realidade que se cumpriu em Cristo. Portanto, não há mais cabimento para o retorno a práticas dos sacrifícios do templo. Este é o ensino claro do Novo Testamento. Veja o que diz o autor de Hebreus sobre este assunto em Hb 9.9 – 10.14: “É isto uma parábola para a época presente; e, segundo esta, se oferecem tanto dons como sacrifícios, embora estes, no tocante à consciência, sejam ineficazes para aperfeiçoar aquele que presta culto, os quais não passam de ordenanças da carne, baseadas somente em comidas, e bebidas, e diversas abluções, impostas até ao tempo oportuno de reforma. Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção.

Portanto, se o sangue de bodes e de touros e a cinza de uma novilha, aspergidos sobre os contaminados, os santificam, quanto à purificação da carne, muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! Por isso mesmo, ele é o Mediador da nova aliança, a fim de que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança, recebam a promessa da eterna herança aqueles que têm sido chamados… Era necessário, portanto, que as figuras das coisas que se acham nos céus se purificassem com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais, com sacrifícios a eles superiores. Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus; nem ainda para se oferecer a si mesmo muitas vezes, como o sumo sacerdote cada ano entra no Santo dos Santos com sangue alheio. Ora, neste caso, seria necessário que ele tivesse sofrido muitas vezes desde a fundação do mundo; agora, porém, ao se cumprirem os tempos, se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado… Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados?… Depois de dizer, como acima: Sacrifícios e ofertas não quiseste, nem holocaustos e oblações pelo pecado, nem com isto te deleitaste (coisas que se oferecem segundo a lei), então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer o segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados”.

Os dispensacionalistas em sua insistência em enxergar dois povos de Deus, Israel e Igreja, e com sua crença na existência de dois propósitos e planos distintos para cada um destes povos, acabam promovendo a revitalização no seio evangélico das sombras do Antigo Testamento que já foram plenamente superadas pela substância no Novo Testamento. Entretanto, Deus não tem dois povos, mas somente um. O Novo Testamento vê as profecias do Antigo Testamento encontrando seu cumprimento em Cristo e em sua Igreja. A Igreja Cristã foi edificada sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos judeus (Ef 2.14-16). Ela não constitui um segundo povo de Deus. Deus tem apenas um povo (Jo 10.16; Ef 2.14-16). Os gentios crentes foram enxertados na mesma “oliveira”, tomando parte na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18). Não existe um plano de salvação distinto para Israel. Pois Deus não faz acepção de pessoas (Rm 2.11). A esperança futura para Israel é aceitar o Cristo, sendo novamente reconduzido a mesma e única Árvore, a oliveira, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, da qual fazem parte judeus e gentios crentes, não havendo mais lugar para distinções e divisões, pois, em Cristo foi derrubada a parede de separação que existia entre judeus e gentios.

O que está em jogo

Portanto, os cristãos que defendem a necessidade da reconstrução do templo estão regredindo ao sistema sacrificial do período pré-cristão. Sistema este que foi anulado, tornando-se obsoleto, por ter sido substituído e superado pelo sacrifício definitivo de Cristo na Cruz. Pois, o sacrifício do verdadeiro Cordeiro de Deus não permite mais lugar para outros sacrifícios. O retorno à prática destes sacrifícios em um templo construído por mãos humanas, ainda que em caráter de celebração simbólica, é algo descabido que revela um descaso para com o sacrifício supremo realizado por Cristo na cruz.

Os Cristãos que advogam a reconstrução do templo judaico estão não só patrocinando as reivindicações políticas da nação de Israel de soberania sobre o Monte do Templo e Jerusalém, mas também sobre todo o território que compreendia a extensão do antigo Reino de Israel na época do Rei Davi. O que, ainda que inconscientemente, favorece a perpetuação de um apartheid social que pretende expulsar os palestinos dos territórios ocupados. Tal teologia conduz ao racismo por promover acepção de pessoas, o que não faz jus à missão da Igreja que é de reconciliação (2 Co 5.18-19).

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