Estudos do Bispo Ildo · Doutrina Cristã · Deus e Trindade
Texto base: Romanos 8.14-17
O que vem à sua mente quando você ouve a palavra “pai”? Segurança ou ausência? Colo ou cobrança? Uma voz que abençoa ou uma voz que fere? E quando a Escritura nos ensina a chamar Deus de Pai, ela está apenas usando uma figura de linguagem conveniente, ou está revelando algo que pertence ao próprio coração de Deus? Deus é Pai de todas as pessoas ou somente dos que creem? E que diferença isso faz, na prática, quando chega a segunda-feira de manhã, com suas contas, suas incertezas e seus medos?
Essas perguntas não são apenas de sala de aula. Elas tocam a nossa história, porque cada um de nós aprendeu a palavra “pai” dentro de uma casa concreta, com um pai concreto, presente ou ausente, terno ou duro. Por isso, quando o evangelho anuncia que Deus é Pai, ele mexe ao mesmo tempo com a nossa teologia e com as nossas feridas. Nesta mensagem, quero percorrer o caminho que a própria Escritura percorre: primeiro, mostrar de onde vem o direito de chamar Deus de Pai; depois, esclarecer em que sentido ele é Pai de todos e em que sentido é Pai dos que creem; em seguida, contemplar o que esse Pai faz por seus filhos; e, por fim, trazer tudo isso para a vida real, inclusive para quem ouve a palavra “pai” com dor.
O Antigo Testamento já conhecia a paternidade de Deus, ainda que a tratasse com reverente discrição. Deus chama Israel de seu filho, o seu primogênito (Êx 4.22), e recorda com ternura o tempo em que amou esse filho e o chamou do Egito (Os 11.1). Isaías se dirige ao SENHOR como Pai do seu povo, ainda que Abraão não o conheça (Is 63.16). E o salmista compara: “Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem” (Sl 103.13). A paternidade divina, portanto, não é invenção do Novo Testamento.
O que Jesus fez, porém, foi transformar esse nome no endereço normal da oração. Ele orava dizendo “Aba, Pai” (Mc 14.36), uma expressão aramaica de intimidade familiar que nenhum judeu piedoso usaria com tanta naturalidade diante do Deus santo. E não guardou essa intimidade para si: ensinou os discípulos a orar “Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9) e, depois da ressurreição, mandou anunciar que subia para o seu Pai, que agora é também Pai dos seus discípulos (Jo 20.17). Neste sentido, chamar Deus de Pai não é uma intimidade que nós inventamos; é uma intimidade que o Filho nos concedeu. Nós entramos na relação que ele já vivia desde a eternidade.
Vale notar, porém, onde esse nome aparece pela primeira vez nos evangelhos. Não é numa cena de tranquilidade, mas no Getsêmani, com o cálice diante de Jesus (Mc 14.36). O primeiro “Aba” registrado sai da boca de um filho em agonia, que pede que o cálice passe e, no mesmo fôlego, se entrega à vontade do Pai. Isso desmonta qualquer leitura sentimental da paternidade divina: ter Deus como Pai não é garantia de isenção do sofrimento; é garantia de companhia e de sentido dentro dele. A intimidade filial não elimina a cruz; ela sustenta o filho debaixo dela.
Aqui precisamos de cuidado, porque a Escritura fala da paternidade de Deus em dois sentidos que não podem ser confundidos nem separados.
Por um lado, há uma paternidade que alcança todo ser humano pelo simples fato de existir. Pregando em Atenas, Paulo cita com aprovação um poeta grego para afirmar que somos geração de Deus (At 17.28-29). Malaquias pergunta se não temos todos um mesmo Pai, se não foi um mesmo Deus que nos criou (Ml 2.10). Todo homem e toda mulher procedem de Deus, carregam a sua imagem (Gn 1.27) e são objeto do seu amor, pois “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito” (Jo 3.16). Essa paternidade criacional fundamenta a dignidade de cada pessoa, inclusive daquela que nunca pisou numa igreja.
Por outro lado, o Novo Testamento reserva o título “filhos de Deus”, no sentido pleno e salvífico, para os que recebem a Cristo. João é explícito: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12). Ora, ninguém precisa receber poder para ser feito aquilo que já é por natureza. Paulo confirma que todos são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 3.26). E o próprio Jesus, em polêmica dura com seus opositores, negou que eles fossem filhos de Deus nesse sentido, justamente porque o rejeitavam (Jo 8.42-44). A filiação de que o evangelho fala não é um dado automático da natureza; é uma adoção, um ato jurídico e amoroso pelo qual Deus recebe como filhos aqueles que creem (Rm 8.15; Gl 4.4-7; Ef 1.5).
Como pastor de tradição armínio-wesleyana, entendo que essas duas verdades caminham juntas por causa da graça preveniente. Deus ama a todos, Cristo morreu por todos (1Tm 2.4-6; 1Jo 2.2) e o Espírito trabalha no coração de todos, convidando cada pessoa a voltar para casa. O convite é universal; ninguém está excluído dele. Mas ninguém entra na condição de filho sem voltar. A parábola do filho pródigo ilustra isso com precisão: o pai jamais deixou de amar o filho distante, jamais deixou de olhar a estrada, mas a festa da filiação restaurada só aconteceu quando o filho se levantou e voltou (Lc 15.17-24). Dizer que Deus ama a todos é evangelho; dizer que todos já são salvos, creiam ou não, é outra coisa, que a Escritura não autoriza.
Na parábola de Lucas 15, o detalhe mais escandaloso não é o pecado do filho, mas a corrida do pai: “Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou e, compadecido dele, correndo, o abraçou e beijou” (Lc 15.20). Um patriarca oriental não corria; correr era indigno da sua posição. Aquele pai sacrificou a própria compostura para chegar ao filho antes que a vergonha da aldeia chegasse. Assim Deus nos recebe: não com a frieza de quem tolera, mas com a pressa de quem esperava.
A parábola, porém, tem dois filhos perdidos, e o mais velho merece a nossa atenção, porque ele estava perdido dentro de casa. A sua própria fala o denuncia: há tantos anos ele “serve” o pai (Lc 15.29), linguagem de empregado, não de filho. É o retrato do religioso que nunca saiu da igreja e nunca entrou na filiação: obedece por obrigação e se ressente da graça concedida ao irmão. E há um detalhe comovente: o pai também sai ao encontro desse filho (Lc 15.28), como saíra ao encontro do outro. A parábola termina em aberto de propósito, porque a pergunta era para os fariseus que a ouviram primeiro e continua sendo para nós: qual dos dois filhos você está sendo hoje?
Jesus ancora a nossa libertação da ansiedade exatamente na paternidade de Deus: o Pai celestial sabe do que os seus filhos precisam (Mt 6.32). E argumenta do menor para o maior: se pais humanos, sendo maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, “quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem?” (Mt 7.11). O filho não vive na lógica do órfão, que precisa garantir sozinho a própria sobrevivência; vive na lógica de quem tem Pai.
O mesmo Pai que se compadece, “pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó” (Sl 103.14), também nos disciplina. A carta aos Hebreus trata a correção divina não como sinal de rejeição, mas como prova de filiação: “o Senhor corrige a quem ama e castiga todo filho a quem aceita” (Hb 12.6). E o alvo da disciplina não é a destruição do filho, e sim o seu amadurecimento: Deus “nos disciplina para o nosso próprio bem, a fim de sermos participantes da sua santidade” (Hb 12.10). Um deus que apenas mimasse não seria pai; seria cúmplice. O nosso Pai nos ama demais para nos deixar como estamos.
Chegamos ao nosso texto base. Paulo escreve: “Porque vocês não receberam um espírito de escravidão, para viverem outra vez atemorizados, mas receberam o Espírito de adoção, por meio do qual clamamos: Aba, Pai. O próprio Espírito confirma ao nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.15-16). João Wesley dedicou dois sermões inteiros a esse versículo, ambos intitulados “O Testemunho do Espírito”, porque via nele o coração da experiência cristã: o crente não apenas deduz que é filho, ele sabe, por um testemunho interior do Espírito, que o Pai o recebeu. Essa certeza filial foi marca do avivamento metodista e continua sendo herança preciosa da nossa tradição. E Paulo ainda completa: “E, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo” (Rm 8.17). O Pai não nos dá apenas um lugar na casa; ele nos dá parte na herança do Filho.
Ainda na esteira de Wesley, vale lembrar outro sermão seu sobre este mesmo versículo, “O Espírito de Escravidão e de Adoção”, em que ele distingue três estados espirituais. O homem natural dorme no pecado e não sente temor algum. O homem sob a lei despertou, mas vive escravizado pelo medo e serve a Deus como quem foge do castigo. O homem sob a graça serve por amor filial. A distinção continua atual e pede de cada um de nós uma sondagem honesta, porque muita gente assentada nos bancos da igreja vive no segundo estado convicta de estar no terceiro: cumpre, batalha, teme, mas ainda não clamou “Aba, Pai” com a liberdade de um filho.
Preciso dizer uma palavra pastoral antes das aplicações. Para alguns de nós, “pai” é a palavra mais doce do vocabulário; para outros, é a mais amarga. Há quem tenha crescido com um pai ausente, violento, alcoólatra ou simplesmente frio, e essa pessoa, ao ouvir que Deus é Pai, sente o estômago apertar em vez de o coração aquecer. Se esse é o seu caso, quero lhe pedir uma coisa: não projete no Pai celestial as falhas do seu pai terreno. A direção da comparação, na Escritura, é a inversa. Paulo se põe de joelhos diante do Pai, “de quem toda a família, nos céus e na terra, recebe o nome” (Ef 3.14-15). Não é Deus que se parece com os pais humanos; são os pais humanos que deveriam se parecer com ele. O Pai de Jesus é o padrão pelo qual medimos toda paternidade, e não o contrário.
Por isso o salmista pode dizer: “Porque, quando meu pai e minha mãe me desampararem, o SENHOR me recolherá” (Sl 27.10). E a Escritura chama Deus de pai dos órfãos, aquele que faz o solitário morar em família (Sl 68.5-6). Se você recebeu um bom pai, agradeça e reconheça nele um sinal, ainda que imperfeito, do Pai perfeito. Se você não recebeu, saiba que em Cristo lhe é oferecido exatamente aquilo que lhe faltou, e em medida muito maior.
Primeira: ore como filho. Jesus condenou tanto a oração do mercador, que tenta comprar a atenção divina com muitas palavras, quanto a do funcionário, que se aproxima de Deus apenas para cumprir tabela (Mt 6.7-9). O filho fala com simplicidade e confiança, porque sabe que o Pai já o ama antes de qualquer pedido. Proponho um exercício para esta semana: antes de pedir qualquer coisa, diga “Pai” e fique um minuto em silêncio, consciente de estar diante de quem já o ama. A pressa em pedir revela que ainda oramos como mendigos ou como funcionários; a pausa treina o coração na lógica do filho.
Segunda: viva da sua identidade, não da sua performance. “Vejam que grande amor o Pai nos tem concedido, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus” (1Jo 3.1). Essa verdade cura os dois extremos: o orgulho de quem pensa que merece e a autodepreciação de quem pensa que nunca será aceito. Você não trabalha para se tornar filho; você trabalha porque já é filho.
Terceira: busque a santidade como semelhança de família. Jesus ordena amar os inimigos para que sejamos filhos do Pai que está nos céus, e conclui chamando os discípulos a ser perfeitos como o Pai celestial é perfeito (Mt 5.44-48). Pedro diz o mesmo com outras palavras: como filhos obedientes, devemos ser santos porque aquele que nos chamou é santo (1Pe 1.14-16). Filho parece com o pai. A santificação, na leitura wesleyana, é justamente isso: o Espírito reproduzindo em nós o caráter do Pai.
Quarta: trate a igreja como família. Se Deus é Pai, os que creem são irmãos, membros da família de Deus (Ef 2.19). Isso desautoriza tanto o individualismo de quem quer Deus sem igreja quanto a dureza de quem trata irmãos como concorrentes.
Quinta, para os pais e mães: a sua paternidade e a sua maternidade são a primeira imagem de Deus que seus filhos verão. Criem seus filhos na disciplina e na instrução do Senhor (Ef 6.4), com a mesma combinação de ternura e firmeza que o Pai celestial usa conosco.
Sexta: entregue as chaves à noite. Contra a ansiedade, um rito simples ao deitar: nomear em voz alta as provisões do dia como vindas do Pai e entregar nominalmente a ele as preocupações do dia seguinte (Mt 6.31-34; 1Pe 5.7). O órfão revisa problemas de madrugada porque acha que tudo depende dele; o filho dorme porque a casa tem dono.
Sétima: busque o testemunho do Espírito, sem presumi-lo nem dispensá-lo. Quem não tem a certeza interior da filiação não deve fabricá-la por autossugestão, nem se resignar a viver sem ela: deve buscá-la em oração, na Palavra e nos meios de graça, porque ela é promessa para todo crente (Rm 8.16). E aqui já se desenha o convite desta mensagem: quem serve a Deus com medo de empregado, venha pedir ao Pai o coração de filho.
Sou pastor de tradição armínio-wesleyana e, por isso mesmo, faço questão de concluir afirmando as duas verdades ao mesmo tempo, sem sacrificar nenhuma delas. Primeira: o amor paternal de Deus alcança todo ser humano, pois todos procedem dele, todos carregam a sua imagem e por todos Cristo morreu; ninguém, absolutamente ninguém, está fora do alcance do seu convite. Segunda: a condição de filho, no sentido pleno que o evangelho anuncia, não é herança automática da espécie humana, mas adoção recebida pela fé em Jesus Cristo, pela qual o Espírito nos faz clamar: Aba, Pai.
A porta da casa está aberta e o Pai continua olhando a estrada. A pergunta que este sermão deixa com cada um de nós é a mesma que os dois filhos da parábola enfrentaram: o mais novo caiu em si e decidiu levantar-se e voltar para o pai (Lc 15.18); o mais velho ficou diante do convite do pai à porta da festa. Quem ainda está longe, levante-se e volte; o abraço já está preparado. Quem está dentro de casa servindo com coração de empregado, entre na festa e receba o coração de filho. E quem já voltou, viva como filho: ore com confiança, descanse na provisão, aceite a disciplina, pareça-se cada dia mais com o Pai e trate os irmãos como família. Porque é isso que significa, afinal, crer em Deus Pai: não apenas recitar o primeiro artigo do credo, mas morar na casa.
Bispo José Ildo Swartele de Mello