O missionário que lançou os fundamentos da Igreja Metodista Livre no Brasil
A história da Igreja Metodista Livre no Brasil está profundamente ligada à vida de um jovem japonês que, depois de experimentar uma extraordinária transformação física e espiritual, deixou sua terra natal e atravessou o mundo para anunciar o evangelho aos imigrantes japoneses que trabalhavam nas lavouras brasileiras.
Seu nome era Masayoshi Nishizumi, também registrado em alguns documentos como Massayoshi Nishizumi. Depois de sua conversão, passou a ser chamado pelo nome bíblico de Daniel.
Sua trajetória foi relativamente breve, marcada por enfermidade, rejeição, restauração, formação teológica, trabalho árduo, escassez de recursos e profunda dedicação missionária. Nishizumi não viveu o suficiente para contemplar toda a expansão da obra que ajudou a iniciar. Entretanto, sua fé, sua coragem e sua disposição de servir estabeleceram os fundamentos sobre os quais a Igreja Metodista Livre se desenvolveria no Brasil.
Para compreender a vocação de Daniel Nishizumi, é necessário conhecer o ambiente espiritual no qual ele foi alcançado.
A Igreja Metodista Livre iniciou sua obra missionária no Japão em 1895, por meio de Masazi “Paul” Kakihara. Japonês de nascimento, Kakihara viveu por algum tempo nos Estados Unidos e estudou Bíblia e teologia em uma escola metodista livre na cidade de Greenville.
Sua história foi marcada por uma experiência decisiva. Depois de sobreviver milagrosamente a um naufrágio, Kakihara consagrou sua vida a Jesus Cristo. No segundo semestre de 1895, foi aceito como missionário da Igreja Metodista Livre e enviado de volta ao Japão, recebendo um auxílio mensal de quinze dólares durante o primeiro ano de trabalho.
Já em território japonês, na ilha de Awaji, Kakihara encontrou Teikichi Kawabe, pastor japonês que havia conhecido o cristianismo nos Estados Unidos e sido batizado em uma igreja metodista daquele país.
Kawabe era um evangelista perspicaz, ousado e dotado de grande facilidade para comunicar o evangelho. Ao retornar ao Japão, associou-se ao trabalho metodista livre e se tornou uma das figuras fundamentais para a expansão da denominação naquele país.
A parceria entre Kakihara e Kawabe deu início a uma obra que cresceu por meio da evangelização, da formação de igrejas e do preparo de líderes japoneses.
Kawabe aproveitava todas as oportunidades para anunciar a Cristo. Em uma ocasião, utilizou a realização de uma grande exposição industrial em Osaka para promover uma campanha evangelística. O trabalho desenvolvido naquela região deu origem à Primeira Igreja Metodista Livre de Osaka.
Foi dessa comunidade e de seu ambiente de formação que posteriormente saíram alguns dos primeiros pastores metodistas livres enviados ao Brasil, entre eles Daniel Nishizumi, Hiroyuki Hayashi, Seiiti Shimizu e Sukeiti Ono.
Em 1911, os missionários Roy e Eva Millican deixaram os Estados Unidos e se mudaram para o Japão a fim de cooperar com a obra da Igreja Metodista Livre.
Eva havia experimentado a conversão ainda na infância. Quando tinha cerca de onze anos, participou de uma atividade evangelística da Igreja Metodista Livre, a convite de sua professora. Ali conheceu a salvação em Cristo e consagrou sua vida ao Senhor.
Desde então, passou a sentir que deveria preparar-se para a obra missionária. Seu pai, porém, insistiu para que ela também recebesse uma formação profissional. Eva estudou enfermagem, compreendendo que aquele conhecimento poderia se tornar uma importante ferramenta no serviço cristão.
Depois de se casar com o jovem pastor Roy Millican, partiu com ele para o Japão. O casal começou seu trabalho missionário na região de Kobe e Osaka, dedicando-se ao aprendizado da língua, ao ensino das Escrituras e à evangelização do povo japonês.
Eva não poderia imaginar que sua formação em enfermagem e sua vocação missionária se encontrariam de maneira tão especial na vida de um jovem chamado Masayoshi Nishizumi.
As fontes disponíveis não apresentam com segurança a data e o local exatos do nascimento de Masayoshi Nishizumi. Sabe-se, porém, que ele tinha aproximadamente trinta anos quando veio ao Brasil, em 1928, o que permite situar seu nascimento por volta do final do século XIX.
Quando conheceu Roy e Eva Millican, Nishizumi era um jovem com cerca de vinte anos que desejava aprender inglês. Sua vida, naquele momento, estava marcada por sérios problemas.
Ele gostava de beber, era fumante e levava uma vida desregrada. Além disso, sofria de tuberculose, enfermidade que, naquela época, era considerada extremamente perigosa, contagiosa e, em muitos casos, incurável.
A doença provocava medo e forte discriminação social. Pessoas tuberculosas eram frequentemente isoladas, rejeitadas e tratadas como ameaça para aqueles que estavam ao seu redor.
Nishizumi também havia sido excluído de sua própria família. Encontrava-se doente, marginalizado e sem perspectivas. Sua aparência não era agradável, sua saúde estava comprometida e sua condição social era precária.
Foi nessas circunstâncias que bateu à porta de Roy e Eva Millican, pedindo alimento e trabalho.
O casal missionário poderia ter recusado ajudá-lo. Afinal, Roy e Eva já possuíam oito filhos, e receber uma pessoa com tuberculose dentro de casa representava um risco real para toda a família.
Naquele tempo, não existiam os tratamentos médicos modernos que posteriormente tornariam a tuberculose uma doença curável com maior segurança. O contato com um enfermo podia colocar em perigo todos os moradores da residência.
Mesmo assim, Roy e Eva decidiram acolher Nishizumi.
Receberam-no em casa, alimentaram-no, deram-lhe trabalho e passaram a tratá-lo como um filho. Eva empregou seus conhecimentos de enfermagem para cuidar de sua saúde, enquanto ambos lhe ofereciam atenção, companhia e orientação espiritual.
Aquele acolhimento causou profunda impressão no jovem.
Nishizumi não conseguia compreender por que uma família estrangeira se dispunha a receber com tanto amor alguém doente, rejeitado e capaz até mesmo de transmitir uma enfermidade grave aos seus filhos.
Certo dia, perguntou a Eva por que ela e sua família faziam aquilo.
A missionária respondeu falando-lhe sobre o amor de Jesus Cristo.
Explicou que Deus amou a humanidade e enviou seu Filho para buscar, perdoar e restaurar aqueles que estavam perdidos. O cuidado que Nishizumi recebia não era apenas uma expressão de bondade humana. Era consequência do amor de Cristo que havia transformado aquela família.
Nishizumi havia crescido em uma sociedade marcada por diversas tradições religiosas. Entretanto, por meio do testemunho de Roy e Eva, começou a compreender que existia um único Deus vivo, pessoal, santo e cheio de amor.
A mensagem cristã não chegou a ele somente por palavras. Antes de ouvir uma explicação completa sobre o evangelho, Nishizumi já havia visto o evangelho na maneira como fora recebido naquela casa.
Masayoshi Nishizumi reconheceu sua necessidade espiritual, arrependeu-se de seus pecados e recebeu Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador.
Sua conversão iniciou uma profunda transformação.
Roy e Eva o acompanharam espiritualmente, ensinaram-lhe as Escrituras, oraram com ele e o ajudaram a abandonar os hábitos que prejudicavam sua saúde e destruíam sua vida.
Segundo o relato preservado na tradição histórica da Igreja, depois de aproximadamente um ano de convivência com a família Millican, Nishizumi estava liberto do tabagismo, curado da tuberculose e restaurado física, emocional e espiritualmente.
Aquele jovem que havia chegado doente, rejeitado e sem esperança tornou-se uma nova pessoa em Cristo.
O homem excluído pela própria família encontrou uma nova família entre os seguidores de Jesus. O enfermo encontrou cuidado. O marginalizado encontrou dignidade. O pecador encontrou perdão. Aquele que batera à porta pedindo alimento e emprego encontrou uma nova vida.
Roy e Eva passaram a chamá-lo pelo nome bíblico de Daniel.
O novo nome simbolizava a mudança ocorrida em sua vida. Assim como o Daniel das Escrituras permaneceu fiel a Deus em uma cultura diferente e em circunstâncias difíceis, aquele jovem japonês seria chamado a testemunhar sua fé em ambientes desafiadores e, posteriormente, em uma terra distante.
Para os Millican, não havia sido por acaso que Nishizumi batera à sua porta. Eles acreditavam que Deus o havia conduzido até aquela casa, não somente para que recebesse alimento e tratamento, mas para que conhecesse a salvação e fosse preparado para uma missão que atravessaria o mundo.
Depois de sua conversão e restauração, Daniel Nishizumi começou a desejar que outras pessoas também conhecessem a alegria da salvação.
Sua experiência com Cristo não permaneceu restrita à vida pessoal. Ele compreendeu que a graça recebida deveria ser anunciada.
Com o coração cheio de gratidão, consagrou-se ao ministério do evangelho. Seu propósito já não era apenas aprender inglês ou melhorar suas condições de vida. Ele desejava conhecer profundamente as Escrituras e preparar-se para anunciar Jesus Cristo.
Por isso, ingressou no seminário metodista livre de Osaka, mencionado nos registros como Osaka Seisho Gakuin. Ali recebeu formação bíblica, teológica e ministerial dentro da tradição arminiana, wesleyana e de santidade da Igreja Metodista Livre.
Sua preparação ocorreu em um período importante para o metodismo livre japonês. As igrejas estabelecidas no país já estavam formando seus próprios pastores e evangelistas. Nishizumi, portanto, não foi apenas fruto do trabalho de missionários estrangeiros, mas também de uma igreja japonesa que começava a assumir responsabilidade por sua própria expansão.
No dia 11 de março de 1928, Nishizumi foi ordenado diácono por Teikichi Kawabe, um dos grandes pioneiros da Igreja Metodista Livre no Japão.
No mesmo ano, concluiu sua formação teológica.

Naquele período, Daniel Nishizumi observava os navios que partiam do porto de Kobe levando famílias japonesas para o Brasil.
Desde o início do século XX, milhares de japoneses haviam começado a emigrar para o território brasileiro. Muitos viajavam em busca de trabalho, terras e melhores condições de vida. Grande parte deles se estabelecia nas regiões agrícolas, especialmente nas lavouras de café do interior de São Paulo e do Paraná.
Para Nishizumi, aqueles navios não transportavam apenas trabalhadores. Levavam pessoas que enfrentariam uma terra desconhecida, uma língua diferente, condições difíceis de trabalho e grande isolamento cultural e espiritual.
Ao ver seus compatriotas partindo, Nishizumi sentiu uma profunda convicção de que Deus o chamava para acompanhá-los.
Ele deveria ir ao Brasil para anunciar-lhes Jesus Cristo.
Essa decisão se tornou sua opção de vida. Nishizumi não a considerava apenas um desejo pessoal, mas uma direção de Deus. O homem que havia sido acolhido e restaurado pelo amor cristão agora desejava levar esse mesmo amor aos japoneses que estavam emigrando para uma terra distante.
O chamado de Nishizumi não permaneceu somente como uma decisão individual. Em 1928, o Concílio de Osaka o designou para trabalhar no Brasil com a finalidade de pregar o evangelho entre os imigrantes japoneses e formar a Igreja Metodista Livre no país.
A missão enfrentava, contudo, uma séria limitação. Não havia recursos institucionais suficientes para sustentá-lo.
Nem a Junta Missionária norte-americana nem a Igreja no Japão podiam garantir todo o apoio financeiro necessário para a nova frente missionária.
Nishizumi decidiu partir mesmo assim.
Sua confiança não estava em garantias materiais, mas na providência divina. Amigos e irmãos oraram por ele e contribuíram com a quantia necessária para a compra da passagem.
Duas pessoas se dispuseram a acompanhá-lo na viagem ao Brasil: Yoshikazu Wada e o jovem Shokoh Mita.
Wada tinha cerca de setenta anos e era um comerciante próspero, dono de uma rede de lojas no Japão. Shokoh Mita, por sua vez, tinha apenas dezessete anos. Apesar da grande diferença de idade, ambos quiseram apoiar Nishizumi naquele primeiro momento.
Wada, porém, apenas conduziu os jovens até o Brasil e logo retornou ao Japão, onde precisava cuidar de sua rede de lojas. Quem permaneceu para sustentar o pastor foi Shokoh Mita. Enquanto Nishizumi se dedicava à pregação, às visitas e à formação da comunidade, o jovem Shokoh trabalhava a terra e lhe entregava tudo o que plantava, colhia e vendia.
A presença desses dois leigos mostra que a Igreja Metodista Livre no Brasil não nasceu do esforço isolado de um pastor. Desde o início, foi resultado da cooperação entre o ministério pastoral e a dedicação dos membros da Igreja.
Daniel Nishizumi embarcou do Japão para o Brasil em 5 de agosto de 1928.
Tinha aproximadamente trinta anos, acabara de concluir sua formação teológica e havia sido ordenado diácono poucos meses antes.
No porto, sua despedida foi acompanhada por Roy e Eva Millican, por duas filhas do casal e por alguns amigos.
Para Eva, aquela partida possuía um significado especial. O jovem que ela e o marido haviam recebido em casa, tratado como filho, cuidado durante a enfermidade e conduzido ao conhecimento de Cristo agora atravessaria o oceano para se tornar missionário.
O rapaz que chegara doente, fumante, rejeitado e sem esperança partia agora como pastor e evangelista.
Nishizumi seguia para o outro lado do planeta com poucos recursos e sem garantias de conforto ou segurança. Não conhecia plenamente a realidade brasileira, enfrentaria uma língua diferente e trabalharia entre imigrantes que viviam sob condições muito difíceis.
Levava, porém, uma profunda convicção de chamado.
Sua partida representava mais do que uma mudança geográfica. Era a expressão concreta de sua inteira consagração. Ele deixava sua cultura, seus relacionamentos e as possibilidades ministeriais no Japão para seguir os imigrantes japoneses até o Brasil.

Ao chegar ao Brasil, Daniel Nishizumi estabeleceu-se inicialmente em Cafelândia, no interior do estado de São Paulo.
A região possuía grande concentração de imigrantes japoneses, muitos dos quais trabalhavam nas lavouras de café.
A vida desses imigrantes era marcada por jornadas cansativas, dificuldades econômicas, isolamento cultural e saudade da terra natal. Muitos haviam vindo ao Brasil com a expectativa de enriquecer rapidamente e retornar ao Japão, mas encontraram condições de vida muito mais duras do que imaginavam.
Foi entre essas famílias que Nishizumi iniciou seu trabalho.
Ele visitava os imigrantes, conversava com os trabalhadores, realizava reuniões, ensinava a Bíblia e apresentava a mensagem da salvação em Jesus Cristo.
Sua condição de japonês facilitava a comunicação. Nishizumi conhecia a língua, a mentalidade, as tradições e as dificuldades de seus compatriotas.
Entretanto, compartilhar a mesma origem não eliminava todos os obstáculos. O cristianismo ainda era visto por muitos japoneses como uma religião estrangeira. As tradições familiares e religiosas exerciam forte influência, e a conversão ao cristianismo podia significar rejeição por parte da comunidade.
Nishizumi sabia por experiência própria o que significava ser rejeitado. Talvez por isso tivesse uma sensibilidade especial para acolher pessoas marginalizadas e apresentar-lhes uma nova família em Cristo.

Além das dificuldades espirituais e culturais, havia o problema do sustento.
Shokoh Mita cultivava a terra, plantava verduras e frutas e entregava tudo o que ganhava para a manutenção do trabalho missionário. Fez isso desde os dezessete anos, quando chegou ao Brasil, até os trinta e um anos, quando se casou com Yuri Mita.
Com esse apoio fiel, Nishizumi pôde também dedicar-se ao estudo: foi ao Seminário José Manuel da Conceição, em Jandira, para aprender o português e melhor servir à nova terra.
O próprio Nishizumi realizava trabalhos manuais para sustentar a missão. Há registros de que passava horas debaixo de máquinas seletoras de café, fazendo manutenção e consertos para ganhar algum dinheiro.
O pastor formado em teologia na cidade de Osaka dividia seu tempo entre a pregação do evangelho e os trabalhos pesados necessários à sobrevivência da obra.
A imagem de Nishizumi trabalhando debaixo de uma máquina de café resume de maneira expressiva os primeiros anos da Igreja Metodista Livre no Brasil.
A denominação não começou com templos, escritórios, propriedades ou grandes recursos. Começou com um pastor e dois leigos dispostos a trabalhar, sofrer e confiar em Deus.
A fé na providência divina não os levou à passividade. Ao contrário, expressou-se em trabalho, disciplina, sacrifício e perseverança.
De 1928 a 1936, Daniel Nishizumi dedicou-se à evangelização dentro da colônia japonesa.
Foram aproximadamente oito anos de trabalho antes da organização oficial da Igreja Metodista Livre no Brasil.
Esse período provavelmente foi o mais difícil de sua missão. Nishizumi pregava, visitava e formava relacionamentos, mas ainda não possuía uma estrutura denominacional consolidada.
O apoio financeiro era limitado, os obreiros eram poucos e as grandes distâncias entre as comunidades japonesas dificultavam o acompanhamento pastoral.
Antes da chegada de Nishizumi, outro metodista livre japonês, Yoshitaru Fujita, havia vindo ao Brasil em 1927 como colportor da Sociedade Bíblica do Japão. Sua presença demonstra que já havia metodistas livres japoneses no país.
Entretanto, foi Nishizumi quem recebeu do Concílio de Osaka a missão específica de evangelizar sistematicamente os imigrantes e trabalhar pela formação da Igreja Metodista Livre em território brasileiro.
Durante esses anos, sua missão também começou a receber a cooperação de outros obreiros e famílias ligadas ao metodismo livre japonês.
Um momento decisivo ocorreu quando Nishizumi se encontrou com Hiroyuki Hayashi, outro pastor formado no ambiente metodista livre de Osaka.
Hayashi havia chegado ao Brasil com sua família em 1934 e se estabelecido inicialmente na região amazônica. Depois de contrair malária, precisou deixar a região e mudar-se para São Paulo, onde passou a trabalhar como dentista.
Segundo o relato preservado pela Igreja, Nishizumi procurou o consultório de Hayashi como paciente. Aquele encontro aparentemente casual se revelou providencial.
Naquele momento, Nishizumi estava desanimado.
Depois de anos de trabalho, escassez de recursos e pouco apoio institucional, já não possuía a mesma convicção de que deveria organizar formalmente uma igreja.
A missão havia exigido muito dele. Os resultados pareciam pequenos diante do esforço realizado, e a ausência de uma estrutura sólida tornava o futuro incerto.
Hayashi, porém, compreendeu a importância da obra e começou a incentivá-lo.
Os dois passaram a orar e conversar sobre a necessidade de reunir os metodistas livres japoneses que se encontravam no Brasil.
Hayashi insistia que Nishizumi não deveria abandonar o propósito pelo qual havia deixado o Japão. Havia famílias cristãs, pastores e leigos que compartilhavam a mesma fé e a mesma tradição. Era necessário reuni-los, organizar os trabalhos e dar início oficial à Igreja Metodista Livre no país.
As orações e a perseverança de Hayashi contribuíram para que Nishizumi recuperasse o ânimo e retomasse o projeto.
No dia 1º de novembro de 1936, foi realizado em São Paulo o primeiro culto oficialmente organizado da Igreja Metodista Livre no Brasil.
A reunião aconteceu no refeitório do consultório odontológico do doutor Murakami, amigo de Hiroyuki Hayashi, localizado na Rua Conde de Sarzedas, número 40.
Participaram do culto 21 pessoas, entre pastores, leigos e membros de famílias japonesas. Estavam representadas famílias como Yamada, Katayama, Maruyama e Watanabe, além dos obreiros metodistas livres que já se encontravam no país.
O número de participantes era pequeno, mas o significado daquele culto era imenso.
Depois de aproximadamente oito anos de trabalho missionário, Nishizumi via nascer oficialmente a comunidade pela qual havia orado, trabalhado e atravessado o oceano.
A data de 1º de novembro de 1936 tornou-se, por isso, um marco histórico. Ela representa a organização pública e contínua da Igreja Metodista Livre no Brasil.
O trabalho era inicialmente voltado aos imigrantes japoneses, mas já existia a percepção de que a Igreja não poderia limitar sua missão a uma única comunidade étnica.
Nishizumi desejava alcançar seus compatriotas, mas a própria natureza do evangelho conduzia a Igreja a olhar também para a população brasileira.
Em 1935, Daniel Nishizumi conheceu o pastor José Emílio Emerenciano, ligado naquele período à Igreja Holiness.
Os dois se tornaram grandes amigos.
Essa amizade teve importância estratégica para o futuro da missão. Emerenciano falava português, japonês e inglês, podendo acompanhar Nishizumi em reuniões com missionários e líderes estrangeiros e atuar como intérprete.
A colaboração entre os dois também aproximou o trabalho entre os japoneses da futura missão entre os brasileiros.
Nishizumi representava a origem japonesa da Igreja Metodista Livre no país. Emerenciano se tornaria o principal pioneiro da obra de língua portuguesa.
A amizade deles mostrou que a missão não deveria permanecer presa às barreiras linguísticas ou culturais. O evangelho que havia atravessado os Estados Unidos, alcançado o Japão e chegado aos imigrantes em território brasileiro precisava agora alcançar também o povo do Brasil.
Nishizumi e Emerenciano começaram a participar de conversas sobre o futuro da denominação no país.
Em 1940, o trabalho no Brasil recebeu a visita de importantes representantes metodistas livres, entre eles os missionários E. E. Shelhamer e B. H. Pearson, além de H. T. Johnson, secretário executivo da Junta Missionária.
Posteriormente, H. T. Johnson retornou ao Brasil acompanhado do bispo Mark Ormston e do reverendo Byron Lamson.
Ao lado de Nishizumi, Emerenciano e outros colaboradores, eles visitaram regiões como Jabaquara, Moema e Santo Amaro, buscando compreender as possibilidades de expansão da Igreja.
Naquele período, a comunidade metodista livre possuía aproximadamente sessenta membros. Embora ainda fosse pequena, já demonstrava estabilidade suficiente para pensar em novos campos de atuação.
Os líderes começaram a elaborar planos para o estabelecimento de um trabalho especificamente dirigido aos brasileiros.
Nishizumi participou dessas conversas e apoiou a ampliação da missão.
Seu propósito inicial havia sido evangelizar os japoneses, mas sua visão não terminou ali. Ele passou a cooperar para que a mensagem metodista livre ultrapassasse os limites da colônia japonesa e se estabelecesse entre pessoas de língua portuguesa.
O início da Segunda Guerra Mundial trouxe severas dificuldades para o trabalho.
Quando o Japão entrou no conflito contra os Estados Unidos e seus aliados, os imigrantes japoneses residentes no Brasil passaram a ser vistos com grande desconfiança.
O Brasil rompeu relações diplomáticas com o Japão e, posteriormente, entrou na guerra ao lado dos Aliados.
Reuniões de japoneses foram restringidas. O uso público da língua japonesa sofreu proibições. Comunidades de imigrantes passaram a ser submetidas a vigilância, e a comunicação com o Japão tornou-se extremamente difícil.
Essas circunstâncias atingiram diretamente Nishizumi e sua congregação.
O fato de a Igreja possuir raízes japonesas e, ao mesmo tempo, vínculos com uma denominação originária dos Estados Unidos colocava seus membros em uma situação particularmente delicada.
Mesmo assim, o trabalho continuou.
Em 1945, ao final da guerra, a comunidade formada principalmente por japoneses já contava com cerca de oitenta membros.
Esse número demonstra que, apesar das restrições políticas, culturais e sociais, Nishizumi e seus colaboradores haviam conseguido preservar a Igreja.
Sua liderança nesse período não deve ser medida apenas pelo crescimento numérico. Manter uma comunidade cristã unida durante a guerra, sob suspeita e com comunicação limitada, foi uma realização pastoral significativa.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os planos de expansão foram retomados.
Em março de 1946, o bispo Mark Ormston retornou ao Brasil acompanhado de Byron Lamson, então secretário executivo da Junta Missionária.
O objetivo era reorganizar o campo, enviar missionários e estabelecer uma estrutura mais sólida para a Igreja Metodista Livre.
Nishizumi e Emerenciano participaram das conversas.
Decidiu-se convidar José Emílio Emerenciano para iniciar oficialmente o trabalho entre os brasileiros. Ele aceitou prontamente.
Para cooperar com a nova missão, chegaram ao Brasil, em junho de 1946, as missionárias Lucile Damon e Helen Voller.
Lucile Damon assumiria responsabilidades administrativas, financeiras e ministeriais, especialmente entre crianças e jovens. Helen Voller contribuiria com métodos e materiais de educação cristã, principalmente por meio do uso de flanelógrafos.
Parecia que os antigos sonhos começavam a se cumprir.
Depois de anos de dificuldades, a Igreja teria maior apoio missionário, melhor organização e condições de ampliar seu alcance.
Entretanto, Daniel Nishizumi não viveria para presenciar a abertura oficial do trabalho em língua portuguesa.
No dia 26 de junho de 1946, Daniel Nishizumi morreu tragicamente em um acidente.
Ao descer de um bonde na cidade de São Paulo, foi atropelado.
Sua morte ocorreu justamente quando a missão metodista livre entrava em uma nova fase.
A notícia causou profunda tristeza entre os membros da Igreja, seus companheiros de ministério e as famílias japonesas que haviam sido alcançadas por seu trabalho.
Nishizumi havia chegado ao Brasil em 1928 e servido durante aproximadamente dezoito anos.
Durante esse período, trabalhou sem garantias materiais, enfrentou dificuldades econômicas, anunciou o evangelho entre os imigrantes, reuniu famílias cristãs, organizou oficialmente a Igreja e participou dos planos para a evangelização dos brasileiros.
Sua vida terminou de maneira repentina, mas sua missão não terminou com ele.
Pouco mais de dois meses depois, em 7 de setembro de 1946, José Emílio Emerenciano iniciou oficialmente o trabalho metodista livre entre os brasileiros, em sua casa, localizada na Rua dos Jacintos, número 43, na Vila Mariana.
Nishizumi não esteve fisicamente naquela reunião. Entretanto, sua amizade com Emerenciano, sua cooperação com os líderes missionários e sua defesa da expansão da obra ajudaram a preparar aquele momento.
A primeira grande marca da história de Daniel Nishizumi é o poder do acolhimento cristão.
Quando chegou à casa de Roy e Eva Millican, ele estava enfermo, sofria de tuberculose, era fumante, gostava de beber e havia sido excluído de sua própria família.
Em uma época em que os tuberculosos eram temidos, discriminados e frequentemente afastados da convivência social, o casal missionário decidiu recebê-lo dentro de sua própria casa, mesmo tendo oito filhos.
Daniel não foi inicialmente alcançado por uma grande campanha evangelística, mas por uma família que abriu a porta e demonstrou concretamente o amor de Cristo.
Roy e Eva não se limitaram a falar sobre o evangelho. Eles o alimentaram, cuidaram de sua saúde, deram-lhe trabalho, ensinaram-lhe as Escrituras e o trataram como filho.
Segundo o testemunho preservado pela Igreja, depois de aproximadamente um ano de convivência com os Millican, Nishizumi estava curado da tuberculose, liberto do tabagismo e profundamente transformado em sua vida espiritual.
Sua conversão mostra que a hospitalidade pode ser uma das formas mais poderosas de evangelização.
Ele ouviu a mensagem de Cristo porque, antes, viu essa mensagem encarnada na vida de seus pais espirituais.
O missionário que atravessaria o mundo foi formado dentro de uma casa cristã que decidiu acolher um jovem doente e rejeitado.
A história de Nishizumi também é uma história de pertencimento.
Excluído por sua família de origem, ele encontrou no lar de Roy e Eva uma nova família. Mais tarde, encontrou na Igreja a comunidade da graça, na qual foi acolhido, formado e enviado.
Essa experiência certamente marcou seu ministério.
Quando chegou ao Brasil, Nishizumi trabalhou entre pessoas que também viviam uma experiência de deslocamento. Os imigrantes japoneses haviam deixado seu país, suas famílias, sua cultura e suas referências.
Muitos se sentiam isolados e desamparados.
Nishizumi podia compreender essa dor. Ele sabia o que significava ser rejeitado e também sabia o que significava ser acolhido.
A Igreja que ele ajudou a formar não deveria ser apenas um lugar de reuniões religiosas, mas uma nova família para pessoas que estavam longe de casa.
Nishizumi não foi ao Brasil em busca de posição, estabilidade ou reconhecimento.
Ele foi porque compreendeu que a graça recebida precisava ser anunciada.
Sua missão nasceu da gratidão.
Tendo sido acolhido, desejava acolher. Tendo conhecido a salvação, desejava anunciar a salvação. Tendo recebido cuidado, desejava cuidar. Tendo encontrado uma nova família em Cristo, queria convidar outros a fazerem parte dessa mesma família.
A verdadeira missão cristã não começa meramente em uma estratégia institucional. Começa em um coração alcançado pela graça de Deus.
Daniel Nishizumi atravessou o oceano porque o amor de Cristo havia transformado sua vida.
Quando Nishizumi decidiu vir ao Brasil, não existia uma estrutura preparada para recebê-lo.
Não havia salário garantido, propriedade missionária, templo ou organização consolidada.
Mesmo assim, ele partiu.
Essa decisão não deve ser interpretada como mera aventura ou imprudência. Ela foi expressão de uma convicção profundamente amadurecida.
Nishizumi havia observado os imigrantes partindo, recebido formação teológica, sido ordenado e recebido a designação do Concílio de Osaka.
Ele partiu porque acreditava que Deus o enviava.
Sua fé não eliminou a necessidade do trabalho. Nishizumi e Shokoh Mita precisaram plantar, cultivar, consertar máquinas e enfrentar as dificuldades materiais.
A confiança na providência divina foi acompanhada por esforço, disciplina e cooperação.
A história de Nishizumi não pode ser separada da contribuição de Wada e, sobretudo, de Shokoh Mita.
Um tinha cerca de setenta anos. O outro, dezoito.
Um trazia a experiência da idade; o outro, a força da juventude. Ambos compreenderam que a missão do evangelho não pertence somente aos pastores.
Eles não necessariamente pregavam nos mesmos moldes de Nishizumi, mas sustentavam a pregação com o trabalho de suas mãos.
Desde seu início, portanto, a Igreja Metodista Livre no Brasil foi construída pela participação conjunta de pastores e leigos, jovens e idosos, pregadores e trabalhadores.
O testemunho deles ensina que todo cristão pode participar da missão por meio de seus dons, seu trabalho e seus recursos.
A trajetória de Nishizumi conecta diferentes povos e países.
A Igreja Metodista Livre nasceu nos Estados Unidos. Paul Kakihara conheceu essa tradição e a levou ao Japão. Teikichi Kawabe ajudou a consolidá-la entre os japoneses. Roy e Eva Millican deixaram os Estados Unidos para servir no Japão.
Nishizumi foi alcançado por eles e, depois, deixou o Japão para servir no Brasil.
Em território brasileiro, trabalhou com imigrantes japoneses, cooperou com um pastor brasileiro que falava japonês e inglês e dialogou com missionários norte-americanos.
Sua vida demonstra que o evangelho não pertence a uma cultura específica.
Ele atravessa fronteiras, é recebido por diferentes povos e cria uma nova comunidade em Cristo.
A biografia de Nishizumi não deve ser idealizada como se ele nunca tivesse enfrentado dúvidas, cansaço ou desânimo.
Depois de anos de trabalho difícil e pouco apoio institucional, chegou a questionar se deveria continuar o projeto de organizar uma igreja.
Essa informação não diminui sua grandeza. Ao contrário, torna sua história ainda mais humana e significativa.
Nishizumi não perseverou porque fosse imune ao desânimo, mas porque Deus o sustentou também por meio de outras pessoas.
Hiroyuki Hayashi orou com ele, insistiu, aconselhou e o ajudou a recuperar a convicção missionária.
A organização oficial da Igreja em 1936 foi, portanto, fruto não apenas da força individual de Nishizumi, mas também da amizade, da oração e do encorajamento mútuo.
Daniel Nishizumi não viu a Igreja Metodista Livre espalhar-se pelo território brasileiro.
Não conheceu seus futuros templos, seminários, concílios, projetos missionários, instituições educacionais e ministérios sociais.
Também não presenciou a organização oficial da obra entre os brasileiros, ocorrida poucos meses depois de sua morte.
Entretanto, foi ele quem lançou os fundamentos.
Ele chegou quando não havia estrutura. Trabalhou quando não havia recursos. Perseverou quando os resultados ainda eram pequenos. Organizou a comunidade quando havia apenas algumas famílias.
Sonhou com a evangelização dos brasileiros antes que esse trabalho pudesse ser formalmente iniciado.
Seu legado não está apenas no que conseguiu concluir, mas no caminho que abriu para aqueles que vieram depois.
O legado espiritual de Nishizumi pode ser resumido em quatro palavras: fé, santidade, amor e missão.
Sua fé foi demonstrada quando deixou o Japão sem garantias materiais.
Sua busca de santidade apareceu na transformação de sua própria vida, no abandono dos antigos hábitos e na consagração ao ministério.
Seu amor foi aprendido no acolhimento recebido de Roy e Eva e posteriormente transmitido aos imigrantes que encontrou no Brasil.
Sua paixão missionária levou-o a seguir seus compatriotas até o outro lado do mundo, trabalhar entre eles e preparar o caminho para que o evangelho alcançasse também os brasileiros.
Por essa razão, Daniel Nishizumi deve ser lembrado não apenas como um personagem do passado, mas como uma referência para a identidade presente da Igreja Metodista Livre.
Sua vida continua fazendo uma pergunta à Igreja: estamos dispostos a atravessar nossas próprias fronteiras, superar dificuldades e trabalhar para que outras pessoas conheçam a graça transformadora de Jesus Cristo?
Daniel Nishizumi chegou à casa de Roy e Eva Millican como um jovem doente, rejeitado e sem esperança.
Sofria de tuberculose, era fumante, gostava de beber e havia sido excluído da própria família.
Naquela casa, encontrou alimento, trabalho, tratamento, dignidade e, sobretudo, o amor de Jesus Cristo.
Depois de aproximadamente um ano, estava curado da enfermidade, liberto de antigos hábitos e espiritualmente restaurado.
O homem que chegara pedindo ajuda tornou-se uma nova pessoa em Cristo.
Recebeu o nome de Daniel, estudou teologia, foi ordenado e sentiu-se chamado para acompanhar os imigrantes japoneses que partiam para o Brasil.
Em 1928, atravessou o oceano com poucos recursos, acompanhado por dois leigos, Wada e Shokoh Mita.
Em Cafelândia, conheceu o trabalho pesado e a escassez. Durante anos, semeou entre os imigrantes japoneses. Com o apoio de outros obreiros e famílias cristãs, perseverou até que, em 1º de novembro de 1936, a Igreja Metodista Livre fosse oficialmente organizada no Brasil.
Depois disso, trabalhou pela consolidação da comunidade, enfrentou as dificuldades da Segunda Guerra Mundial e participou dos planos para a abertura da missão entre os brasileiros.
Sua morte, em 26 de junho de 1946, interrompeu repentinamente sua vida, mas não interrompeu a obra que havia iniciado.
Daniel Nishizumi foi um homem alcançado pela graça, restaurado pelo amor cristão e enviado pela convicção missionária.
Sua história ensina que Deus pode usar uma casa aberta, uma família acolhedora, uma vida transformada e um pequeno grupo de pessoas consagradas para lançar os fundamentos de uma obra cujos frutos somente as gerações futuras poderão contemplar.
Ele plantou. Outros regaram. Mas foi Deus quem deu o crescimento.