Cartas · 1783–1788

Cartas sobre a Liderança de Asbury

“Eu me esforço para ser pequeno: você se esforça para ser grande. Eu me arrasto: você marcha com passos largos.”

Da carta de 20 de setembro de 1788

Antes de ler

John Wesley jamais pisou em solo americano. Ainda assim, moldou o metodismo dos Estados Unidos por meio de cartas dirigidas a um único homem: Francis Asbury, o jovem pregador que ele enviara à América em 1771 e que se tornaria, com o tempo, a figura central da obra metodista naquele continente. Em 1783, Wesley o designa Assistente Geral; um ano depois, ordena-o, ao lado de Thomas Coke, Superintendente Conjunto dos metodistas americanos, já então uma nação independente da Inglaterra.

As quatro cartas reunidas aqui acompanham essa relação de confiança e, aos poucos, de tensão: a entrega da liderança a Asbury em 1783, um conselho pastoral sobre o rodízio dos pregadores em 1785, a convocação da primeira grande Conferência Geral americana em 1786 e, por fim, em 1788, a carta em que Wesley, já idoso, repreende com veemência o antigo discípulo por ter aceitado o título de “Bispo” — título que ele mesmo, fundador de todo o movimento, sempre recusou para si.

Um cuidado ao ler: a disputa sobre o título de “Bispo” não foi uma questão de vaidade pessoal, mas de eclesiologia. Wesley temia que a autoridade ministerial, que ele sempre entendeu como serviço delegado e temporário, se transformasse em hierarquia permanente e em poder pessoal. É uma tensão que atravessa a história da igreja até hoje, sempre que a liderança cristã se afasta do modelo de Jesus, que veio “não para ser servido, mas para servir” (Mc 10.45). As cartas de 1783 e 1786 mostram, também, o cuidado organizacional de Wesley com a disciplina e a unidade da obra.

— Bispo Ildo Mello

Asbury como Assistente Geral

Bristol, 3 de outubro de 1783

Meu caro irmão, — 1. Estejam todos determinados a permanecer firmes na doutrina e na disciplina metodistas, publicadas nos quatro volumes de Sermões e nas Notas sobre o Novo Testamento, juntamente com as Atas Gerais da Conferência.

2. Cuidado com os pregadores que vierem da Grã-Bretanha ou da Irlanda sem uma recomendação plena de minha parte. Três de nossos pregadores itinerantes manifestaram vivo desejo de ir para a América; mas não pude, de forma alguma, aprová-lo, porque não estou certo de que apreciem verdadeiramente nossa disciplina ou nossa doutrina — creio que discordam do nosso entendimento em uma ou em ambas. Portanto, se estes ou quaisquer outros vierem sem minha recomendação, tenham cautela ao recebê-los.

3. Tampouco devem receber pregadores, por mais recomendados que sejam, que não se sujeitem à Conferência americana e não se conformem de bom grado tanto às Atas da Conferência americana quanto às da inglesa.

4. Não desejo que os nossos irmãos americanos recebam quem quer que ponha dificuldade em reconhecer Francis Asbury como Assistente Geral. Sem dúvida, o maior perigo para a obra de Deus na América há de vir ou dos pregadores vindos da Europa, ou daqueles que se levantarem dentre vocês mesmos, falando perversidades ou introduzindo entre vocês doutrinas novas, particularmente o calvinismo. Guardem-se disso com todo o cuidado possível, pois é muito mais fácil impedir a entrada do que expulsar depois.

Encomendo-os todos à graça de Deus; e sou

Seu amigo e irmão afetuoso.

O rodízio dos pregadores

Bristol, 30 de setembro de 1785

Meu caro irmão, — É motivo de alegria saber que Deus tem prosperado o seu trabalho até mesmo no solo árido da Carolina do Sul. Há quase cinquenta anos preguei na igreja de Charlestown e em alguns outros lugares, e uma atenção profunda tomava conta de todos os rostos. Mas temo que poucos tenham recebido impressões duradouras.

Na próxima Conferência, valerá a pena considerar com cuidado se algum pregador deve permanecer três anos seguidos num mesmo lugar. Isso me sobressalta. É uma alteração veemente na disciplina metodista. Não temos esse costume na Inglaterra, na Escócia ou na Irlanda. Não permitimos a ninguém, exceto ao Assistente — que permanece um segundo ano —, ficar mais do que um ano.

Eu mesmo talvez tenha tanta variedade de assunto quanto muitos de nossos pregadores. E, no entanto, estou bem certo de que, se eu pregasse três anos seguidos num só lugar, tanto o povo quanto eu mesmo ficaríamos tão mortos quanto pedras. Isso é, de fato, inteiramente contrário a toda a economia do metodismo: Deus sempre operou entre nós por meio de uma constante mudança de pregadores.

As pessoas recém-despertadas deveriam, se possível, ser fartamente supridas de livros. Com isso, o despertamento tanto se mantém quanto aumenta.

Em dois ou três dias espero estar em Londres. Falarei então com o Sr. Atlay sobre esse assunto. Sejam todos zelosos por Deus. Sou

Seu amigo e irmão afetuoso.

A convocação da Conferência de Baltimore

Londres, 6 de setembro de 1786

Prezado senhor, — Desejo que o senhor convoque uma Conferência Geral de todos os nossos pregadores nos Estados Unidos, para se reunir em Baltimore no dia 1º de maio de 1787. E que o Sr. Richard Whatcoat seja designado Superintendente ao lado do Sr. Francis Asbury.

— John Wesley

Como ousa deixar-se chamar de Bispo?

Londres, 20 de setembro de 1788

Meu caro irmão, — Há, de fato, uma grande diferença entre a relação em que você está com os americanos e a relação em que eu estou com todos os metodistas. Você é o irmão mais velho dos metodistas americanos: eu sou, sob Deus, o pai de toda a família. Por isso, cuido naturalmente de todos vocês de um modo que nenhuma outra pessoa pode fazer. Por isso, em certa medida, eu provejo para todos vocês; pois os recursos que o Dr. Coke lhes provê, ele não poderia provê-los se não fosse por mim — se eu não apenas o permitisse arrecadar, mas também o sustentasse nisso.

Mas, num ponto, meu caro irmão, receio que tanto o Doutor quanto você discordem de mim. Eu me esforço para ser pequeno: você se esforça para ser grande. Eu me arrasto: você marcha com passos largos. Eu fundo uma escola: você, um colégio! [O Cokesbury College, assim chamado por causa de seus fundadores, Coke e Asbury, foi incendiado duas vezes.] E, ainda por cima, dá-lhe o nome de vocês mesmos! Ah, cuidado, não busquem ser alguma coisa! Que eu seja nada, e que “Cristo seja tudo em todos”! (cf. Cl 3.11)

Uma prova dessa sua grandeza tem me causado grande preocupação. Como você pode, como você ousa deixar-se chamar de Bispo? Estremeço, sobressalto-me só de pensar nisso! Os homens podem me chamar de patife ou de tolo, de canalha, de vilão, e eu me contento; mas jamais, com o meu consentimento, me chamarão de Bispo! Por amor a você, por amor a Deus, por amor a Cristo, ponha um fim definitivo nisto! Que os presbiterianos façam o que bem entenderem, mas que os metodistas conheçam melhor a sua vocação.

Assim, meu querido Franky, eu lhe disse tudo o que está em meu coração. E que isto, quando eu não mais for visto, dê testemunho de quão sinceramente sou

Seu amigo e irmão afetuoso.

Traduções para o português a partir de The Letters of the Rev. John Wesley, A.M. (ed. John Telford, 1931), domínio público, cotejadas com o texto disponível no Wesley Center Online: as cartas a Francis Asbury (e circulares que o mencionam diretamente) de 3 de outubro de 1783, 30 de setembro de 1785, 6 de setembro de 1786 e 20 de setembro de 1788, todas na íntegra. Tradução realizada com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo José Ildo Swartele de Mello.

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