Uma Só Carne · Curso para CasaisAula 5

Conflitos, perdão e reconciliação

“Não se deixe vencer do mal, mas vença o mal com o bem.”Romanos 12.21 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Rm 12.14-21; 1Pe 3.8-12; Mt 18.21-22

Para começar

Casais que não brigam não existem

Somos imperfeitos e precisamos de ajuda. A pergunta não é se haverá conflitos, mas o que faremos com eles. Sem perdão, nenhuma relação a dois sobrevive.

O conflito bem conduzido não destrói o casamento; aprofunda-o. É no atrito das vontades que Deus lixa o nosso egoísmo e nos molda à semelhança de Cristo: o lar é, por excelência, um ambiente de santificação. Mas o conflito mal conduzido, alimentado por orgulho e rancor, abre a porta que Paulo manda fechar: “não deem lugar ao diabo” (Ef 4.27).

O exame

O que fazer quando brigamos?

Cinco perguntas honestas, para responder diante de Deus antes de responder ao cônjuge.

1. Somos humildes para reconhecer os nossos erros, ou sempre nos justificamos?
2. Sabemos pedir perdão, com todas as letras, sem “mas” no final?
3. Somos maduros o suficiente para perdoar e buscar a reconciliação?
4. Tomamos a iniciativa da reaproximação, ou ficamos esperando que o outro dê o primeiro passo?
5. Estamos dispostos a renunciar ao que estorva o relacionamento, abandonando a atitude egoísta e buscando o bem comum?

Repare que todas as cinco perguntas apontam para dentro. A reconciliação começa quando deixamos de auditar a parte do outro e assumimos, diante de Deus, a nossa.

Testemunho

As brasas vivas

“Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer… porque, fazendo isto, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele” (Rm 12.20).

Conto um episódio da minha própria história: depois de uma briga séria com meu irmão, na juventude, senti a direção de Deus para fazer exatamente o que eu não queria: preparar um lanche para ele, ainda com o coração fervendo. Aquele gesto simples de bondade agiu como as brasas vivas de Romanos 12: quebrou o orgulho, derreteu a ira e levou nós dois ao arrependimento e à reconciliação.

Romanos 12.14-21

As dez diretrizes da paz no lar

Leia primeiro o texto bíblico; depois, as diretrizes aplicadas ao casamento.

1. Abençoe sempre; nunca amaldiçoe. Você abençoa seu cônjuge de quatro modos: palavras bondosas ditas a ele e sobre ele; comportamento prático de bondade em atos grandes e pequenos; gratidão demonstrada em particular e em público; e orações a Deus a favor dele.
2. Tenha empatia: alegre-se com quem se alegra, chore com quem chora, também dentro de casa.
3. Não se ache melhor do que o seu cônjuge.
4. Seja humilde, reconhecendo as próprias falhas antes de apontar as alheias.
5. Não pague o mal com o mal, nem nos detalhes mais insignificantes.
6. Procure agradar: palavras e obras, gestos de carinho, um sorriso, promovendo o bem-estar e a felicidade do outro.
7. No que depender de você, viva em paz no seu casamento.
8. Nunca se vingue, nem com a língua, nem com o silêncio, nem com a retenção de afeto.
9. Faça o bem constantemente, sem levar em conta o tratamento recebido.
10. Vença o mal com o bem: não retribua na mesma moeda; pague o mal com o bem.

E acrescente a receita de Pedro: refreie a língua do mal, aparte-se do mal, pratique o bem, busque a paz e empenhe-se por alcançá-la (1Pe 3.10-11).

Duas ressalvas necessárias. Essas diretrizes valem para os conflitos normais entre duas pessoas bem-intencionadas. Primeiro: estabelecer distância física ou emocional diante de abuso não é vingança, é proteção legítima. Segundo: “não reter afeto” jamais significa obrigação sexual; a intimidade conjugal é entrega em liberdade, nunca cobrança (veja a Aula 7).

O centro

O perdão que liberta os dois

“Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18.21-22).

Perdoar não é dizer que a ofensa não doeu, nem fingir que nada aconteceu. É decidir, diante de Deus, não cobrar mais a dívida: soltar o outro, e soltar-se. Quem guarda rancor bebe o próprio veneno; quem perdoa abre espaço para Deus tratar os dois corações. E não fique marcando escores: o amor “não se ressente do mal” (1Co 13.5).

Perdão também não é reconciliação automática. O perdão é decisão de quem foi ferido: abandonar a vingança e entregar a justiça a Deus (Rm 12.19). A reconciliação, porém, depende também do outro: de arrependimento, verdade e mudança real (Mt 3.8). E o perdão não elimina consequências: pode haver restituição a fazer, confiança a reconstruir, disciplina a cumprir e, em casos graves, responsabilização diante das autoridades. Perdoar de coração e, ao mesmo tempo, manter limites sábios não são atitudes contraditórias; as duas honram a Deus.

A medida do nosso perdão é o perdão que recebemos: como filhos e filhas da misericórdia, perdoados por Deus de uma dívida impagável, não temos o direito de reter o perdão dentro do nosso próprio quarto (Mt 18.23-35; Ef 4.32). E há um alerta solene: o rancor conjugal atrapalha até as orações, “para que as suas orações não sejam impedidas” (1Pe 3.7; Mt 6.14-15).

Para o casal

Para conversar a dois

Esta conversa pode exigir coragem. Comecem orando juntos, mesmo que seja uma frase cada um.

1. Como cada um de nós aprendeu a lidar com conflitos na casa em que cresceu (gritos, silêncio, panos quentes, diálogo)? O que trouxemos de lá para cá?
2. Existe alguma mágoa antiga entre nós que nunca foi conversada até o fim, e que ainda cobra juros? Queremos marcar um momento (ou buscar ajuda pastoral) para tratá-la?
3. Qual das dez diretrizes de Romanos 12 faria mais diferença no nosso lar se fosse praticada por mim nesta semana? (Cada um escolhe a sua.)

Exercício da semana: pratique uma “brasa viva” deliberada: no primeiro sinal de frieza ou atrito, surpreenda o seu cônjuge com um gesto concreto de bondade (um lanche preparado, um bilhete, uma tarefa assumida), sem anunciar e sem cobrar resultado. Observe o que acontece com o clima da casa, e com o seu próprio coração.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

0 de 5

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Perdoei, mas a lembrança volta e a dor volta junto. Perdoei de verdade?Ver resposta sugerida
Muito provavelmente sim. Perdão é decisão; cicatrização é processo, e confundir os dois produz culpa desnecessária. Quando você perdoa, decide diante de Deus não cobrar mais a dívida: não usar a ofensa como arma nas discussões, não alimentar planos de revide, não recontar a história para rebaixar o outro. A memória, porém, não se apaga por decreto, e a dor pode revisitar sem que isso anule a decisão. O sinal de que o perdão é real não é a ausência de lembrança, é o que você faz quando ela chega: em vez de reabrir o processo, você renova a decisão (“Senhor, eu já entreguei isso; guarda o meu coração”) e segue tratando o cônjuge com a bondade de Romanos 12. Com o tempo, a lembrança perde a temperatura; é a misericórdia fazendo o seu trabalho lento. E se a ferida for profunda demais para carregar a sós, buscar o pastor ou um conselheiro não é fraqueza: é sabedoria (Gl 6.2).
Perdoar significa fingir que nada aconteceu e não impor nenhuma consequência?Ver resposta sugerida
Não. Perdão e confiança caminham em trilhos diferentes: o perdão é concedido; a confiança é reconstruída. Perdoar é abrir mão da vingança e do rancor, entregando a justiça a Deus (Rm 12.19); não é declarar que a ofensa foi pequena, nem dispensar a conversa franca sobre o que aconteceu (“falem a verdade”, Ef 4.25), nem abolir consequências e limites onde eles são necessários, em casos de mentira reiterada, vício ou qualquer forma de abuso, buscar ajuda pastoral e estabelecer limites é parte do amor, não a negação dele. O próprio Deus nos perdoa plenamente e, ainda assim, nos disciplina para o nosso bem (Hb 12.6, 10). No casamento saudável, a maioria das ofensas se resolve com confissão, perdão e recomeço singelo; nas feridas graves, o perdão abre o caminho, e a restauração da confiança percorre esse caminho passo a passo, com frutos concretos de mudança (Mt 3.8). As duas coisas honram a Deus; nenhuma delas é fingimento.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia com calma Romanos 12.14-21 e 1Pedro 3.8-12, os dois textos-mestres desta aula, e a parábola do credor incompassivo (Mt 18.23-35).

Tarefas

Praticar a brasa viva da semana; e cada um verificar, diante de Deus, se há perdão represado a conceder ou a pedir, e dar o primeiro passo (Mt 5.23-24).

Aula 6

Atravessando crises com Cristo: o vinho que acaba em Caná, o muro diante da própria casa e os olhos que Deus abre no deserto. Ir para a Aula 6 →

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA) e Almeida Revista e Atualizada (RA). · Bispo Ildo Mello