História da IgrejaAula 3

De Constantino a Niceia: a igreja e o império

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”João 1.1 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Jo 1.1-18; Cl 1.15-20; Fp 2.5-11

Para começar

A igreja e o império

O que acontece quando a igreja perseguida vira, de repente, a igreja favorecida pelo poder? A conversão do imperador Constantino foi uma bênção ou uma armadilha? De onde veio o Credo Niceno, e o que estava em jogo quando ele foi escrito?

1

A virada de 313

A geração que vira irmãos morrerem na arena viu bispos sentados à mesa do imperador. Ser cristão deixou de custar caro e começou a render vantagens.

2

Uma palavra, um abismo

Por que um bispo chamado Atanásio aceitou ser exilado cinco vezes por causa de uma única palavra? Porque nela estava em jogo o evangelho inteiro.

O que esta aula cobre. O século mais decisivo depois do apostólico: de 313, quando a perseguição terminou, a 381, quando o cristianismo se tornou a religião oficial do império.

Situando-se na história

Linha do tempo (313-381)

312

Ponte Mílvia

Constantino vence a batalha decisiva às portas de Roma e atribui a vitória ao Deus dos cristãos, marcando os escudos com o monograma de Cristo.

313

Édito de Milão

Liberdade de culto para todos; devolução dos bens confiscados às igrejas. Fim da era das perseguições.

c. 318

Ário começa a ensinar

O presbítero de Alexandria ensina que o Filho é a primeira das criaturas: “houve um tempo em que ele não existia”.

325

Concílio de Niceia

Cerca de 300 bispos rejeitam Ário: o Filho é “da mesma substância” (homoousios) do Pai. Gerado, não criado.

328-366

Atanásio contra o mundo

Bispo de Alexandria, é deposto e exilado cinco vezes por quatro imperadores. Não cede uma linha.

337

Morte de Constantino

Batizado no leito de morte. Seus sucessores oscilam entre o arianismo e a fé nicena.

380

Édito de Tessalônica

Teodósio faz do cristianismo niceno a religião oficial do império. A roda gira por completo.

381

Concílio de Constantinopla

Reafirma Niceia; o credo associado ao concílio desenvolve a confissão, incluindo a divindade do Espírito Santo. A Trindade confessada por inteiro.

Parte 1

A virada constantiniana

Em outubro de 312, às portas de Roma, Constantino disputou o império na batalha da Ponte Mílvia. Segundo o relato que ele mesmo contou ao historiador Eusébio, teria visto um sinal celeste e mandado marcar os escudos com o monograma de Cristo. Venceu, e atribuiu a vitória ao Deus dos cristãos.

A mudança foi vertiginosa. Vieram as basílicas custeadas pelo Estado, a isenção de impostos para o clero, o domingo como dia de descanso, o fim das execuções por crucificação. Constantino manteve práticas ambíguas (conservou títulos pagãos e só foi batizado no leito de morte, em 337), e os historiadores discutem até hoje a sinceridade de sua conversão. Mas o rumo estava dado: ser cristão deixou de custar caro e começou a render vantagens.

Parte 2

Ário e a crise sobre o Filho de Deus

Livre da pressão externa, a igreja logo enfrentou sua maior batalha interna. Por volta de 318, Ário, presbítero eloquente de Alexandria, começou a ensinar uma doutrina de aparência piedosa: o Filho de Deus seria a primeira e a mais excelsa das criaturas, mas criatura.

“Houve um tempo em que ele não existia”, dizia Ário. Deus seria único e incomunicável; o Filho, o instrumento pelo qual ele criou o mundo, um ser intermediário, divino por cortesia, não por natureza. O ensino se espalhou com velocidade impressionante, inclusive por meio de canções populares que Ário compôs.

O apelo do arianismo

Parecia proteger a unicidade de Deus e oferecia um Cristo mais fácil de explicar. Muitos bispos sinceros hesitaram diante das fórmulas.

O abismo por trás da fórmula

Se Cristo é criatura, não conhecemos a Deus de fato (Jo 14.9), não fomos salvos por Deus, e adorar a Jesus seria idolatria. O evangelho inteiro estava em jogo.

A Escritura que decidiu a questão: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1); “nele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9); “Tomé respondeu: Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28).

Parte 3

O Concílio de Niceia (325)

Preocupado com a divisão do império, Constantino convocou todos os bispos para Niceia, no ano 325. Foi o primeiro concílio ecumênico desde o Concílio de Jerusalém de Atos 15. Muitos dos cerca de 300 bispos traziam no corpo as marcas da Grande Perseguição: olhos vazados, tendões cortados.

O concílio examinou o ensino de Ário e o rejeitou de forma quase unânime. Para fechar as brechas das fórmulas ambíguas (os arianos aceitavam quase qualquer frase bíblica, dando-lhe sentido próprio), os pais de Niceia adotaram uma palavra precisa: o Filho é homoousios, “da mesma substância” do Pai. Gerado, não criado. Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Niceia não inventou a divindade de Cristo

Como alegam romances de conspiração e grupos que negam a Trindade. A igreja adorava a Cristo como Senhor desde o início (Jo 20.28; Fp 2.6-11), e até o pagão Plínio, em 112, relatava que os cristãos cantavam “hinos a Cristo como a um deus”. O concílio apenas colocou uma cerca de palavras exatas em torno da fé que a igreja já vivia.

A palavra decisiva não está literalmente na Bíblia

E isso incomodou muitos na época. A lição é preciosa: para defender o sentido da Escritura, às vezes é preciso usar palavras de fora dela. O que não se pode é ensinar, com palavras bíblicas, doutrinas antibíblicas, que era exatamente o método de Ário.

Parte 4

Atanásio contra o mundo

Quem pensa que Niceia encerrou a questão se engana. Nas quatro décadas seguintes, os arianos se reorganizaram, conquistaram a simpatia dos imperadores e ocuparam sedes episcopais importantes. Houve momentos em que a maioria dos bispos do Oriente assinou fórmulas que diluíam Niceia. Surgiu então o provérbio: Athanasius contra mundum, Atanásio contra o mundo.

Atanásio, bispo de Alexandria desde 328, foi deposto e exilado cinco vezes por quatro imperadores diferentes, passou dezessete dos seus quarenta e cinco anos de episcopado banido, escondeu-se entre os monges do deserto egípcio, e não cedeu uma linha. Sua convicção cabe numa frase: somente Deus pode salvar; se Jesus não é Deus, não há salvação. Morreu em 373, sem ver a vitória final.

Oito anos depois, o Concílio de Constantinopla (381) reafirmou Niceia; e o credo que a tradição associa a esse concílio (citado como seu nos registros de Calcedônia, em 451) desenvolveu a confissão nicena, confessando também a divindade do Espírito Santo, “Senhor e fonte de vida”, com o Pai e o Filho “adorado e glorificado”. A doutrina da Trindade, um só Deus em três pessoas, estava confessada por inteiro (Mt 28.19; 2Co 13.13).

Fontes primárias

Vozes do século quarto

A ponte wesleyana

Wesley e a era de Constantino

John Wesley amava o Credo Niceno e defendeu a divindade de Cristo e a Trindade a vida inteira; nesse ponto, ele está de corpo e alma com Atanásio. Mas a avaliação que Wesley fazia da virada constantiniana é surpreendentemente dura.

No sermão O Mistério da Iniquidade, ele escreveu que a suposta conversão de Constantino produziu na igreja mais estrago do que todas as dez perseguições juntas, pois, quando riquezas, honras e poder despencaram sobre os cristãos, o amor de muitos esfriou e a religião do coração deu lugar à religião da forma.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Cristologia não é detalhe

A pergunta de Jesus, “quem vocês dizem que eu sou?” (Mt 16.15), continua separando a fé cristã de suas falsificações. Os herdeiros de Ário não desapareceram; batem de porta em porta ensinando que o Filho é criatura. Conhecer o Credo Niceno e as Escrituras que o sustentam é equipamento básico do crente.

2

Fidelidade pode significar minoria

Atanásio nos ensina que a verdade não se decide por maioria nem por decreto, e que pode ser necessário ficar praticamente sozinho por décadas. A igreja precisa de gente disposta a perder posição para não perder a verdade.

3

Cuidado com o abraço do poder

A experiência constantiniana se repete, inclusive no Brasil de hoje, sempre com a mesma promessa (proteção, influência, privilégio) e a mesma conta (silêncio profético, conversões de fachada, evangelho instrumentalizado). A igreja serve melhor à nação quando está livre para dizer a verdade a qualquer governo, e não a serviço de algum.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

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Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

“Rico e abastado, e não preciso de coisa nenhuma” (Ap 3.17). Em que pontos a igreja brasileira de hoje corre o risco de Laodiceia que a igreja do século 4 correu, e como vigiar sem cair no extremo de romantizar a perseguição?Ver resposta sugerida
O paralelo não é de circunstância (não somos o império de Teodósio), mas de coração. Os sinais de Laodiceia são verificáveis: quando o crescimento numérico importa mais que a conversão real; quando a igreja mede sua saúde por prédios, audiência e influência política; quando o batismo vira formalidade cultural; quando o púlpito silencia sobre pecados dos poderosos que a apoiam. A vigilância wesleyana é concreta: pregar o novo nascimento a batizados (como Wesley fez numa Inglaterra “toda cristã”), manter disciplina comunitária real (classes, prestação de contas), e conservar independência profética diante de qualquer governo. O extremo oposto também é erro: desejar perseguição é desprezar um dom de Deus (1Tm 2.1-2 manda orar justamente por tranquilidade para a piedade). Liberdade é bênção; o que ela cobra é o que a perseguição impunha à força: seriedade.
Testemunhas de Jeová baten à sua porta dizendo que Jesus é “um deus” criado, citando Jo 1.1 e Cl 1.15. Como responder com a Escritura e com a história, no espírito desta aula?Ver resposta sugerida
Primeiro, o tom: mansidão e respeito (1Pe 3.15-16); a pessoa à sua porta é sincera e presa a um sistema. Depois, a Escritura: em Jo 1.1, o mesmo João que escreveu “o Verbo era Deus” fecha o evangelho com Tomé adorando: “Senhor meu e Deus meu!” (Jo 20.28), sem qualquer correção de Jesus; em Cl 1.15, “primogênito” é título de primazia, não de criação, tanto que o verso seguinte diz que “nele foram criadas todas as coisas” (Cl 1.16): quem cria tudo não pode ser criatura; e Cl 2.9 arremata: “nele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade”. Por fim, a história: a adoração a Cristo não nasceu em Niceia; Plínio, pagão, já a descrevia em 112, e Inácio a confessava em 107. O arianismo foi examinado pela igreja inteira à luz da Escritura e rejeitado, e as objeções de hoje são as mesmas de Ário. Convide a pessoa a ler o evangelho de João inteiro, sem a tradução da organização dela, e deixe a Palavra trabalhar.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia João 1 e Colossenses 1-2 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. E leia o sermão de Wesley O Mistério da Iniquidade, nas obras traduzidas deste site.

Na próxima aula: “Os grandes concílios e os pais da igreja (381-451)”: Crisóstomo, Jerônimo, Agostinho e a definição de Calcedônia sobre quem é Jesus Cristo.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.