História da IgrejaAula 6

A cristandade medieval e o cisma entre Oriente e Ocidente

“A fim de que todos sejam um; e como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti, também sejam eles em nós; para que o mundo creia que tu me enviaste.”João 17.21 · NAA

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Jo 17.20-26; Mc 10.35-45; Jo 1.9-13

Para começar

Quando todos são “cristãos”

O que acontece quando nascer num país e ser “cristão” viram a mesma coisa? Por que a igreja se dividiu em 1054 entre católicos romanos e ortodoxos orientais, uma ferida aberta até hoje? Como avaliar as Cruzadas com honestidade cristã?

O que esta aula cobre. O auge da chamada cristandade medieval, de 800 a 1200, quando a fé cristã moldou uma civilização inteira, com tudo de grandioso e de perigoso que isso significa.

No Natal do ano 800, o papa Leão III coroou Carlos Magno “imperador dos romanos”. A cena é o retrato de uma ideia que dominaria a Europa por setecentos anos: a cristandade, sociedade em que igreja e Estado são as duas mãos de um mesmo corpo cristão, em que todo recém-nascido é batizado e todo súdito é, por definição, cristão. Carlos Magno promoveu escolas, corrigiu textos bíblicos, reformou o clero; e também impôs o batismo aos saxões vencidos, sob pena de morte.

Situando-se na história

Linha do tempo (800-1200)

800

Carlos Magno

Coroado imperador pelo papa no Natal. Nasce a cristandade: igreja e império como duas mãos do mesmo corpo.

863

Cirilo e Metódio

Missão aos eslavos: Cirilo cria o alfabeto glagolítico, e a missão traduz Escritura e liturgia para a língua do povo. O caminho oposto ao da imposição.

909

Cluny

Fundação do mosteiro que puxará uma grande reforma da igreja, contra a simonia e a decadência do clero.

988

Conversão da Rússia

O príncipe Vladimir de Kiev abraça o cristianismo bizantino; nasce a cristandade russa.

1054

O Grande Cisma

Excomunhões mútuas entre Roma e Constantinopla. A cristandade parte-se ao meio: católicos e ortodoxos.

1077

Canossa

O imperador Henrique IV espera três dias na neve pela absolvição do papa Gregório VII: o grande símbolo da ascensão do poder papal medieval.

1095-1099

Primeira Cruzada

Urbano II convoca; Jerusalém é tomada em 1099, com massacre de muçulmanos e judeus.

1098-1153

Anselmo e Bernardo

Anselmo escreve Por que Deus se fez homem; Bernardo de Claraval torna-se a alma espiritual do século 12.

Parte 1

O Grande Cisma de 1054

Em julho de 1054, legados do papa depositaram sobre o altar da catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, uma bula excomungando o patriarca; o patriarca respondeu excomungando os legados. A cristandade partia-se ao meio: de um lado o Ocidente latino, católico romano; do outro, o Oriente grego, que se chamaria ortodoxo.

A data é simbólica, porque o afastamento vinha de séculos e tinha várias camadas:

Camada cultural

Latim contra grego: dois mundos que já mal se entendiam.

Camada política

A coroação de Carlos Magno criara um “império romano” rival do verdadeiro, em Constantinopla.

Camada teológica

O Ocidente acrescentara ao Credo Niceno a palavra filioque (“e do Filho”: o Espírito procede do Pai e do Filho), sem consultar nenhum concílio ecumênico. O Oriente rejeitou tanto a questão teológica em si (o modo de confessar a relação do Espírito com o Pai e o Filho) quanto, sobretudo, a pretensão de Roma de alterar sozinha o credo comum.

A camada decisiva: autoridade

Roma reivindicava jurisdição universal do papa sobre toda a igreja; o Oriente reconhecia ao bispo de Roma uma primazia de honra entre patriarcas iguais, nunca um senhorio.

Em 1204, a Quarta Cruzada, desviada de seu propósito, saqueou Constantinopla, profanando igrejas e massacrando cristãos orientais, e tornou a ferida incurável. Registro a lição com tristeza: divisões entre cristãos raramente nascem de doutrina pura; nascem de orgulho, cultura e poder vestidos de doutrina. A oração de Jesus, “que todos sejam um… para que o mundo creia” (Jo 17.21), segue sendo a acusação permanente contra nossos cismas.

Parte 2

A reforma gregoriana e a ascensão do papado

A palavra “reforma” não nasceu com Lutero. No século 10, o papado havia afundado no seu período mais vergonhoso, leiloado entre famílias da aristocracia romana; senhores feudais nomeavam (“investiam”) bispos e abades como quem distribui cargos. Do mosteiro de Cluny partiu um clamor de purificação que chegou ao trono papal com Gregório VII (1073-1085).

Gregório atacou males reais: a simonia (compra e venda de cargos sagrados, o pecado de Simão em At 8.18-20) e a investidura leiga. Mas seu remédio criou outro mal: para libertar a igreja dos reis, exaltou o papado acima deles e de tudo, reivindicando o poder de depor imperadores. Em 1077, o imperador Henrique IV esperou três dias na neve, descalço, diante do castelo de Canossa, para receber a absolvição papal.

Parte 3

As Cruzadas

Em 1095, o papa Urbano II conclamou os cavaleiros da Europa a libertar Jerusalém do domínio turco, prometendo indulgência plena a quem tomasse a cruz. Multidões responderam ao grito de “Deus o quer!”. Em 1099, os cruzados tomaram Jerusalém e mancharam a conquista com o massacre de muçulmanos e judeus da cidade.

Seguiram-se dois séculos de expedições, reinos latinos no Oriente, ordens militares, derrotas e a perda final de tudo em 1291. Não pretendo julgar o século 11 com arrogância do século 21; homens sinceros creram servir a Deus, e o mundo muçulmano também expandira sua fé pela espada.

Mas o padrão de julgamento do cristão não é o espírito da época, é o evangelho, e diante dele o veredito é claro: a cruz tomada como estandarte de guerra é a negação da cruz. Jesus disse a Pedro: “guarde a sua espada no lugar, porque todos os que lançam mão da espada à espada morrerão” (Mt 26.52), e ao morrer orou pelos que o matavam (Lc 23.34). As Cruzadas envenenaram por séculos o testemunho cristão diante de muçulmanos e judeus, e nos legaram um aviso: sempre que a igreja mistura evangelho com projeto militar ou político, quem sangra é o evangelho.

Parte 4

As luzes do período

Deus não deixou aqueles séculos sem testemunhas de outra qualidade.

Cirilo e Metódio (a partir de 863)

Os irmãos de Tessalônica evangelizaram os eslavos pelo método oposto ao de Carlos Magno: em vez de impor uma língua sagrada, Cirilo criou um alfabeto (o glagolítico) para a língua do povo, e a missão traduziu a Escritura e a liturgia. O alfabeto cirílico, desenvolvido depois na Bulgária por discípulos da missão e batizado em homenagem a Cirilo, é usado até hoje da Sérvia à Rússia: fruto de uma missão que honrou o princípio de Pentecostes: cada povo ouvindo “as grandezas de Deus” em sua própria língua (At 2.11).

Anselmo de Cantuária (1033-1109)

O maior teólogo entre Agostinho e Tomás de Aquino uniu como poucos oração e razão; sua divisa: “creio para compreender”. No livro Por que Deus se fez homem, respondeu com a doutrina da satisfação: o pecado é ofensa infinita à honra de Deus; só o homem deve pagar, só Deus pode pagar; logo, era necessário um Deus-homem. A teologia evangélica da cruz deve muito a esse monge.

Bernardo de Claraval (1090-1153)

Da reforma cisterciense, foi a alma espiritual do século 12: pregador que reprovava publicamente papas e reis, e místico do amor de Deus cuja marca era a devoção fervorosa ao nome de Jesus. Teve contradições graves (pregou a Segunda Cruzada, e nisso errou como seu tempo), mas sua espiritualidade centrada em Cristo atravessou os séculos e alimenta a igreja até hoje.

Fontes primárias

Vozes do período

A ponte wesleyana

Wesley e a herança medieval

Wesley leu a Idade Média com a liberdade de quem não precisa nem canonizá-la nem queimá-la.

De um lado, sua crítica ao papado medieval e à mistura de igreja e poder é dura e constante; o sermão O Mistério da Iniquidade vê nesses séculos o aprofundamento da corrupção iniciada com Constantino. De outro lado, Wesley bebeu com gosto nos místicos e mestres espirituais medievais: a devoção de Bernardo ao amor de Deus e a literatura de imitação de Cristo (Tomás de Kempis, que Wesley traduziu e publicou para seu povo) alimentaram diretamente a doutrina wesleyana do amor perfeito, a santificação como amor que enche o coração.

Da história para a vida

Aplicação pastoral

1

Cristianismo de nascença não salva

O Brasil tem sua própria cristandade: milhões de “cristãos” de estatística, batizados, com Bíblia em casa e sem conversão. A pergunta da cristandade medieval é a nossa: onde estão os nascidos de novo (Jo 3.3)? Maioria cultural não é discipulado.

2

A unidade é agenda de Cristo

O cisma de 1054 e o saque de 1204 mostram aonde levam orgulho eclesiástico e rivalidade cultural. Sem negociar verdade bíblica, tratemos irmãos de outras tradições com a honra de quem sabe que a oração de Jo 17.21 ainda não foi plenamente respondida.

3

Jamais amarrar a cruz a uma espada

Cada geração tem sua tentação de cruzada: vencer para Cristo pelos métodos do mundo. O reino de Cristo não é deste mundo (Jo 18.36) e avança por testemunho, serviço e sofrimento, nunca por coerção.

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver o conteúdo. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Dez questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe: errar aqui também ensina.

0 de 10 respondidas

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

O Brasil tem milhões de “cristãos de estatística”: batizados, com Bíblia em casa, sem conversão. Em que a estratégia da sua igreja local trata essas pessoas como já alcançadas, e o que mudaria se as tratasse como campo missionário?Ver resposta sugerida
O primeiro passo é de diagnóstico: cristandade cultural produz imunizados, pessoas que já ouviram vocabulário cristão o bastante para achar que aceitaram o que nunca entenderam. Tratá-las como alcançadas gera duas distorções práticas: cultos que pressupõem conversão (só edificação, nunca anúncio claro do evangelho com chamado à decisão) e evangelismo dirigido apenas a “não religiosos”. Tratá-las como campo missionário mudaria três coisas: a pregação voltaria a explicar o essencial sem pressupor nada (quem é Jesus, o que é arrependimento, o que é novo nascimento, Jo 3.3); o discipulado começaria do zero com os de dentro, não só com os de fora; e a régua de sucesso deixaria de ser frequência e passaria a ser fruto verificável de conversão (Mt 7.16). Wesley fez exatamente isso numa Inglaterra 100% “cristã”: pregou o novo nascimento aos batizados. Foi escandaloso, e foi avivamento.
Um irmão diz: “católicos e ortodoxos não são cristãos; a igreja verdadeira começou na Reforma” (ou, na versão oposta: “as divisões não importam, somos todos iguais”). Como responder aos dois erros à luz desta aula?Ver resposta sugerida
Ao primeiro erro, responda com história e com o credo: a igreja não nasceu na Reforma; os próprios reformadores se entendiam como herdeiros de Niceia, de Calcedônia, de Agostinho, e o evangelho nunca ficou sem testemunhas (Mt 16.18). Negar o nome cristão a todo católico ou ortodoxo é condenar também Atanásio, Crisóstomo e Bernardo, dos quais vivemos. O que a Reforma fez foi corrigir desvios graves acumulados, tema das próximas aulas, e essas divergências doutrinárias são reais e importam. Ao segundo erro, responda com a mesma seriedade: dizer que as diferenças não importam é desonrar os que sofreram por questões de verdade. O caminho bíblico recusa os dois atalhos: verdade sem caridade vira sectarismo; caridade sem verdade vira indiferença. Jo 17.21 pede unidade na verdade, e 1054 nos lembra do que acontece quando orgulho e cultura se vestem de doutrina: o mundo deixa de crer.

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Leia João 17 e Marcos 10.35-45 com as Notas de John Wesley sobre o Novo Testamento. O Proslógion de Anselmo, capítulo 1, está em domínio público.

Na próxima aula: “Luzes na escuridão: Valdo, Wycliffe, Hus e os pré-reformadores (1200-1500)”, e o fio surpreendente que liga um mártir tcheco de 1415 ao coração aquecido de John Wesley.

Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. Trechos de fontes históricas traduzidos dos originais em domínio público com auxílio de inteligência artificial, sob orientação, revisão e responsabilidade editorial do Bispo Ildo Mello.