Profecias do Antigo TestamentoAula 4

Daniel 9: as Setenta Semanas

“Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, para dar fim aos pecados, para expiar a iniquidade, para trazer a justiça eterna.”Daniel 9.24

Bispo Ildo MelloLeitura prévia: Dn 9.1-27; Lc 21.20-24; Hb 9.24-28

Para começar

Existe um parêntese no relógio profético?

Em nenhum lugar do livro de Daniel, ou de qualquer outra passagem da Bíblia, encontramos menção de que exista um lapso, um intervalo ou um parêntese entre a sexagésima nona e a septuagésima semanas da profecia.

Pelo contrário, Daniel profetiza: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído… Como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro” (Dn 2.44-45).

A tese desta aula: a profecia das Setenta Semanas de Daniel é hoje muito mais profecia realizada do que escatologia futura. Na sua primeira vinda, Cristo cumpriu os seis propósitos da visão.

O contexto

Daniel no exílio

O profeta Daniel estava com seu povo no exílio babilônico, estudando as profecias de Jeremias, que previam que o exílio duraria setenta anos (Dn 9.2).

Visto que o prazo estava se cumprindo, Daniel, consciente de que o exílio havia sido uma punição de Deus por causa dos pecados de Israel, começa a interceder pedindo perdão em nome do seu povo, na esperança de que o castigo estivesse para acabar. A oração de Daniel é ouvida (Dn 9.20-23). Mas, para sua surpresa, ele recebe uma visão de que setenta semanas estavam determinadas para a realização de seis benefícios favoráveis a Israel, que se realizariam na pessoa do tão esperado Ungido, o Messias.

Daniel 9.24

Os seis propósitos das Setenta Semanas

Tudo o que a visão promete se realiza na pessoa do Ungido.

1. Fazer cessar a transgressão.
2. Dar fim aos pecados.
3. Expiar a iniquidade. A obra da cruz (Hb 9.26).
4. Trazer a justiça eterna. A justiça que vem pela fé (Rm 3.21-26).
5. Selar a visão e a profecia. Em Cristo, toda profecia encontra o seu sim (2Co 1.20).
6. Ungir o Santo dos Santos.

Os números

A conta dos 490 anos

Todas as correntes teológicas concordam que setenta semanas equivalem a 490 anos, entendendo que cada dia da semana corresponde a um ano (Gn 29.27; Lv 25.8; Nm 14.34; Ez 4.4-6).

As Setenta Semanas estão divididas em três períodos (Dn 9.25): sete semanas (49 anos) de reedificação; sessenta e duas semanas (434 anos); e uma última semana (7 anos). O versículo 26 diz que “após” as sessenta e duas semanas, ou seja, já dentro da última semana, seria assassinado o Ungido.

Outono de 457 a.C. O decreto do rei Artaxerxes concede autonomia para restaurar e edificar Jerusalém (Ed 7.12-26). Começa a contagem.
Outono de 27 d.C. Passadas as 69 semanas (483 anos, somando-se um ano à conta, porque não existe ano zero na passagem de a.C. para d.C.), Jesus é batizado por João e ungido pelo Espírito Santo, iniciando o seu ministério público (Lc 3.21-23).
Metade da última semana Três anos e meio depois, na primavera do ano 30/31 d.C., Jesus dá a sua vida na cruz: “fará firme aliança com muitos… na metade da semana, fará cessar o sacrifício” (Dn 9.27). “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue” (1Co 11.25). O Cordeiro de Deus põe fim aos sacrifícios, que eram sombras da realidade cumprida nele (Hb 8-9).
Fim das setenta semanas: outono de 34 d.C. Três anos e meio após a cruz, 490 anos após o decreto, morre Estêvão, o primeiro mártir (At 7.59-60), diante do próprio sumo sacerdote. A partir daí, o Evangelho rompe as fronteiras de Israel: os samaritanos (At 8), a conversão de Saulo (At 9), Pedro enviado aos gentios (At 10) e a palavra voltada às nações (At 13.46-47).

Em termos proféticos, tamanha precisão, embora não necessária, é realmente impressionante.

Daniel 9.26-27

O Assolador e a destruição de Jerusalém

Em decorrência da morte do Ungido, ocorreria a destruição de Jerusalém e do templo por um povo de um príncipe que haveria de vir (Dn 9.26). A visão termina com o assolador recebendo o merecido juízo de Deus.

A profecia não diz que o Assolador viria exatamente dentro das Setenta Semanas: ele vem como consequência dos eventos dela, principalmente a morte do Ungido. Por Israel ter rejeitado seu Messias, Jerusalém seria cercada e destruída, o que aconteceu algumas décadas depois, ainda naquela geração, exatamente como profetizou Jesus no final do capítulo 23 de Mateus.

Quem executa o juízo é “o povo de um príncipe que há de vir” (Dn 9.26): os exércitos romanos, sob o general Tito. O próprio Jesus citou Daniel ao anunciar “o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel” (Mt 24.15), e Lucas explica o sentido concreto para leitores gentios: “Quando virem Jerusalém sitiada de exércitos, saibam que está próxima a sua devastação” (Lc 21.20). E o prazo veio dos lábios do Senhor: “não passará esta geração sem que tudo isto aconteça” (Mt 24.34).

O que não existe no texto de Daniel 9.24-27:

Nenhum intervalo entre a 69ª e a 70ª semanas: o texto as apresenta em sequência contínua, sem lacuna temporal.
Nenhum anticristo futuro assinando um pacto de sete anos com Israel: o “príncipe que há de vir” é o príncipe romano.
Nenhuma reconstrução do templo: o santuário de Daniel 9.26 é o do primeiro século, destruído em 70 d.C.
Nenhum arrebatamento da Igreja: o conceito está completamente ausente do texto das setenta semanas.

Do juízo à missão

A era presente e o Reino inaugurado

A destruição de Jerusalém não representa o fim desta era. Jesus disse que a cidade seria pisada pelos gentios “até que os tempos dos gentios se completem” (Lc 21.24), e que o Evangelho seria pregado a todas as nações antes da sua vinda (Mc 13.10).

Estamos na era da Igreja. De Jerusalém, a Igreja se espalhou para todas as nações (Cl 1.23; 1Ts 1.8). Paulo a isto se referia: “veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E, assim, todo o Israel será salvo” (Rm 11.25-26). O Apocalipse revela o Israel de Deus pleno como “grande multidão que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas” (Ap 7.9).

O Reino não foi adiado

“Nos dias destes reis”, os do Império Romano, Deus levantou o reino que jamais será destruído (Dn 2.44). Foi inaugurado por Cristo na primeira vinda.

A consumação vem

“Eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem… o seu domínio é domínio eterno” (Dn 7.13-14). Então Cristo voltará, e toda a visão se consumará.

E, até lá, a pedra cresce do único modo que a profecia autoriza: “Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4.6).

Fixação

Cartões de memorização

Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.

Avaliação

Teste o que você aprendeu

Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe. Errar aqui também ensina.

0 de 5

Para pensar e conversar

Perguntas para reflexão

Daniel orou pedindo o fim de um castigo e recebeu uma visão do Messias. O que a maneira como Deus respondeu ensina sobre as nossas próprias orações?Ver resposta sugerida
Daniel pediu uma coisa boa (o fim do exílio) e recebeu uma resposta maior do que a pergunta: não apenas o retorno do povo, mas o Ungido que faria cessar a transgressão e traria a justiça eterna. Deus costuma responder assim: não no tamanho do nosso pedido, mas no tamanho do seu propósito (Ef 3.20). Isso ensina a orar com as mãos abertas: apresentar o pedido com sinceridade (Fp 4.6) e confiar que a resposta pode vir em outra moeda, mais valiosa. Também ensina que a oração intercessória, como a de Daniel, que confessa os pecados do povo como seus, é o tipo de oração que a Escritura registra sendo ouvida (Dn 9.20-23; Tg 5.16).
Como conversar, com mansidão, com um irmão que espera uma “septuagésima semana” futura, com sete anos de grande tribulação?Ver resposta sugerida
Comece reconhecendo o que há de bom: ele leva a profecia a sério e espera a volta de Cristo, como nós. Depois, faça duas perguntas simples, sem ironia. Primeira: onde o texto de Daniel menciona um intervalo entre a sexagésima nona e a septuagésima semanas? Deixe-o procurar; o versículo não existe. Segunda: os seis propósitos de Daniel 9.24 (cessar a transgressão, expiar a iniquidade, trazer justiça eterna) foram ou não cumpridos na cruz (Hb 9.26)? Se foram, a semana final não está pendente. Encerre no que une: a pedra cortada sem mãos já esmiuçou os reinos e cresce (Dn 2.44), e o Filho do Homem virá com as nuvens (Dn 7.13). Divergir sobre o esquema não impede caminhar juntos na esperança (2Tm 2.24-25).

Para ver e rever

A aula em vídeo

Se você preferir ouvir o argumento inteiro de uma vez, esta exposição do Bispo Ildo percorre o mesmo caminho da lição.

As Setenta Semanas de Daniel · Bispo Ildo Mello. Veja também, no mesmo canal: Decifrando as Setenta Semanas de Daniel e As Setenta Semanas de Daniel já se cumpriram?

Para casa e próxima aula

Para aprofundar. Esta aula nasceu do estudo As Setenta Semanas de Daniel, do Bispo Ildo Mello, que você pode ler e compartilhar em página própria.

Tarefas

Ler Daniel 9.1-27 e Lucas 21.20-24, anotando cada elemento da visão que encontra correspondência nos evangelhos; e refazer a conta dos 490 anos por escrito, do decreto de Artaxerxes até Estêvão.

Aula 5

Isaías 17 e a queda de Damasco: o que acontece quando se lê profecia com o jornal na mão, e o que o contexto histórico ensina sobre como Deus fala. Ir para a Aula 5 →

Citações bíblicas conforme o estudo original do autor. · Bispo Ildo Mello