Coletânea histórica · Tradução integral
Benjamin Titus Roberts, fundador da Igreja Metodista Livre · 1893
Sobre esta obra. Por mais de trinta anos (1860–1893), B. T. Roberts escreveu sobre a santidade cristã nos editoriais da revista The Earnest Christian (“O Cristão Fervoroso”). Logo após a sua morte, o seu filho Benson Howard Roberts compilou esses editoriais neste volume — a suma da doutrina de santidade do fundador da Igreja Metodista Livre: a sua natureza, os seus atributos (do desprendimento à alegria), como se obtém, como se conserva, como se perde, e as advertências contra as suas falsificações. Esta é a tradução integral do original de 1893, em domínio público. As citações bíblicas seguem a Nova Almeida Atualizada (NAA).
Em janeiro de 1860 saiu em Buffalo, Nova York, o primeiro número do The Earnest Christian (“O Cristão Fervoroso”), fundado pelo meu amado pai. No artigo introdutório ele declara: “A doutrina da santidade cristã, tal como ensinada por Wesley e Fletcher — sendo, a nosso ver, claramente imposta pela Palavra de Deus, e constituindo a verdadeira força e o poder para o bem da Igreja de Cristo —, ocupará lugar de destaque nas nossas colunas.” Os leitores do Earnest Christian testemunharão que essa promessa foi amplamente cumprida. Por mais de um quarto de século a sua pena esteve ocupada com temas vitais para a piedade, e o assunto da santidade foi tema constantemente recorrente.
Este livro é uma compilação dos editoriais escritos no intervalo dos anos 1860–1893. Segue-se, necessariamente, que haja alguma repetição de ilustração e fraseologia em artigos escritos ao longo de período tão extenso, sem a conexão lógica própria de um tratado formal. Imediatamente após a morte do meu pai, em 27 de fevereiro de 1893, surgiu a demanda pela publicação de uma coletânea dos seus escritos editoriais. O trabalho foi empreendido em meio às exigências rigorosas do trabalho escolar; foi um labor de amor e de proveito espiritual pessoal. A acolhida dada a este empreendimento decidirá quanto à publicação de outros volumes sobre outros temas.
Que este livro saia para abençoar o mundo, com luz e conhecimento mais plenos da boa vontade de Deus para com o homem — esta é a minha esperança, a minha oração.
Benson Howard Roberts
Propomo-nos a examinar este assunto importantíssimo à luz da Bíblia. Um texto claro das Escrituras prova mais do que mil afirmações humanas. As palavras santificação e santidade, tal como usadas na Bíblia, significam a mesma coisa: a mesma palavra grega, hagiasmos, é traduzida na nossa Bíblia ora por “santidade”, ora por “santificação”. O mesmo vale para a palavra traduzida ora por “santo”, ora por “são/santo dos santos”: o original é uma só e mesma palavra.
A santidade implica, em comum com o estado de justificação, ou perdão, a vitória sobre o pecado exterior. A pessoa santa não comete pecado — o que também é verdade de quem vive justificado diante de Deus. “Porque o pecado não terá domínio sobre vocês, pois não estão debaixo da lei, e sim da graça” (Rm 6.14). Isto é: a graça tem o domínio sobre você; na luta entre a graça e o pecado, a graça triunfa. “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado” (1Jo 3.9). Mas “o pecado é a transgressão da lei”. De sorte que quem imagina gozar a bênção da santidade e, contudo, faz o que Deus proíbe na sua Palavra, ou deixa de fazer o que ele ordena, está enganado: a sua pretensa fé é presunção fatal.
Não consiste na repetição de boas ações, mas é a condição graciosa da alma que impele à prática de todas as boas ações. É a fonte pura da qual flui continuamente água pura. Prova: “porque está escrito: Sejam santos, porque eu sou santo” (1Pe 1.16). Não diz “façam coisas santas”, mas SEJAM SANTOS. “A fim de que ele confirme o coração de vocês, para que sejam irrepreensíveis em santidade” (1Ts 3.13). É o coração que deve ser confirmado; então os hábitos serão retos, naturalmente. Esses textos mostram que a santidade é um estado, e não meramente bons hábitos — muito menos uma simples relação.
A santidade implica libertação de todas as disposições, gênios e desejos errados, e de toda inclinação a satisfazer os que são legítimos de maneira ilícita ou em grau desordenado. Há disposições da alma que são erradas em si mesmas, como a ira, o orgulho e a cobiça. De todos os gênios maus a pessoa santa está de tal modo liberta, que não só não cede a eles, como não os sente. Outros desejos só se tornam pecaminosos quando satisfeitos de maneira ilícita ou em grau desordenado. O nosso Salvador teve fome; nisso não pecou — mas teria pecado se cedesse às tentações de Satanás para saciar a fome de modo ilícito. Enoque andou com Deus, e gerou filhos e filhas. Na pessoa santa, todas as faculdades do corpo e da mente são postas em harmonia com a vontade de Deus. “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23). Esta oração ensina: primeiro, que o corpo é santificado a ponto de ser irrepreensível — pois precisa sê-lo antes de poder ser conservado nesse estado; por isso, quando a vítima do fumo ou da bebida forte é santificada, o seu corpo passa por tal mudança, pelo poder do Espírito de Deus, que não sente mais os terríveis anseios pelos vícios que a arrastavam à destruição. Segundo, que os afetos, paixões, desejos e propensões ficam de tal modo subjugados, que se tornam ocasião de bem, e não de dano. Terceiro, que o intelecto, o juízo, a vontade e a imaginação são tornados puros e santos em todos os seus exercícios. “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Vemos aqui que a santidade se opõe a toda imundícia, do corpo ou da mente: remove da alma e do corpo tudo o que contamina. “Assim, pois, irmãos, somos devedores, não à carne, como se constrangidos a viver segundo a carne. Porque, se viverem segundo a carne, vocês morrerão; mas, se viverem pelo Espírito, fazendo morrer as obras do corpo, certamente viverão” (Rm 8.12-13). Quem não vive segundo a carne não produz as obras da carne, que são: “imoralidade sexual, impureza, libertinagem, idolatria, feitiçarias, inimizades, brigas, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes… os que praticam essas coisas não herdarão o Reino de Deus” (Gl 5.19-21). Os santos são guiados pelo Espírito e produzem o fruto do Espírito, que é: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23).
Quando alguém se converte, é feito santo a ponto de ter vitória sobre o pecado. Mas o pecado permanece, embora não reine. “Eu, porém, irmãos, não pude falar com vocês como se fossem espirituais, mas como se fossem carnais, como crianças em Cristo” (1Co 3.1). Essas pessoas eram “irmãos”, “crianças em Cristo” — logo, eram justificadas; não eram pecadoras nem desviadas; contudo, eram carnais — ainda não santificadas. Um célebre ministro do evangelho, subitamente atacado por enfermidade, recebeu a recomendação de beber conhaque. Tomou pequena quantidade e, por não estar habituado, os efeitos foram dolorosamente visíveis: estava embriagado, mas não era um beberrão. Assim aqueles crentes eram carnais — havia divisões entre eles, como tantas vezes acontece, quanto aos méritos dos seus pregadores favoritos —, mas não tinham a mente carnal: no essencial, as suas vidas estavam de acordo com o preceito do evangelho. “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23): esta linguagem implica que estavam santificados em parte. Paulo diz que se lembrava sem cessar da “operosidade da fé, da abnegação do amor e da firmeza da esperança” deles, e que eram dignos de imitação pelos crentes das regiões vizinhas: “vocês se tornaram exemplo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia” (1Ts 1.7). Não eram, portanto, homens e mulheres iludidos, autoenganados, não convertidos, que se tivessem infiltrado na igreja por amor da popularidade; nem estavam desviados de Deus. E, contudo, precisavam que Deus fizesse por eles uma obra ulterior: santificá-los em tudo. “Deixando os ensinos elementares a respeito de Cristo, prossigamos até a maturidade” (Hb 6.1). Aquelas pessoas viviam nos princípios da doutrina de Cristo; eram crentes justificados. Paulo os exorta a prosseguir até a perfeição da santidade.
Não sustentam abundantemente estas passagens claras tudo o que dissemos quanto à natureza da santidade?
1. É indispensável para nos qualificar para o céu. Não podemos chegar lá sem ela; ninguém jamais chegou, e ninguém jamais chegará. “Sigam a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). “Ver a Deus” é estar na sua presença, gozar a bem-aventurança que só ele pode dar. De modo que, se não “seguir a paz com todos e a santificação”, ninguém — qualquer que seja a sua igreja ou o seu credo — poderá estar diante do trono de Deus. “Estes são os que vêm da grande tribulação. Lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro” (Ap 7.14). Ora, as vestes brancas são o emblema da pureza (Ap 19.8). “Quem pode subir ao monte do SENHOR? Quem pode permanecer no seu santo lugar? Aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura enganosamente” (Sl 24.3-4). O santo lugar de Deus é o céu; mas só os puros de coração e limpos de vida habitarão ali.
2. A santidade é indispensável à felicidade presente. A pessoa não santa não pode ser feliz. Pode gozar prazer; mas prazer não é felicidade. As pessoas correm atrás do prazer porque são infelizes. Os prazeres do mundo são efêmeros e insatisfatórios; mas quem é santo tem dentro de si uma fonte de gozo que nunca falha. “Nele vocês creem, apesar de não o verem agora. E alegram-se com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). “Nas tendas dos justos há voz de júbilo e de salvação” (Sl 118.15).
3. A santidade é essencial à utilidade. Homens não santos podem espalhar o cristianismo, mas o pervertem à medida que o espalham: as suas “riquezas estão corrompidas”, e corrompem o cristianismo quando empregadas no seu sustento. Talvez nenhum homem tenha dedicado tanta riqueza à difusão do evangelho quanto Constantino — e ninguém fez tanto para corrompê-lo. Um canal impuro sujará a água mais pura; o vidro colorido comunica a sua própria cor à luz que o atravessa. Só uma alma santa está qualificada para conduzir outros à santidade. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável. Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito. Restitui-me a alegria da tua salvação e sustenta-me com um espírito voluntário. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti” (Sl 51.10-13). Sem coração puro e sem a alegria da salvação, pode-se converter gente à igreja; mas é de temer que poucos se achem convertidos ao Senhor. “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas… Então os que aceitaram a palavra foram batizados, e naquele dia houve um acréscimo de quase três mil pessoas” (At 2.4,41). Santidade é poder: quem a possui pode fazer o bem. “Porque o Reino de Deus consiste não em palavras, mas em poder” (1Co 4.20).
1. Deus a ordena. “Santifiquem-se e sejam santos, pois eu sou o SENHOR, o Deus de vocês” (Lv 20.7). “Pelo contrário, assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em todo o seu procedimento” (1Pe 1.15). Deus nunca ordena o impossível; afirmar que o faz é blasfemo — seria fazer dele um tirano.
2. Santificar a alma é obra de Deus. Se isso se prova, segue-se que a santidade é possível: para ele são fáceis as coisas impossíveis aos homens. “Então aspergirei água pura sobre vocês, e ficarão purificados. De todas as impurezas e de todos os ídolos os purificarei. Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo dentro de vocês. Tirarei de vocês o coração de pedra e lhes darei um coração de carne. Porei dentro de vocês o meu Espírito e farei com que andem nos meus estatutos, guardem os meus juízos e os observem” (Ez 36.25-27). Aqui Deus diz que fará a obra, e a fará por completo: purificará não de alguns, mas de TODOS os ídolos e de TODA imundícia; dará um coração novo e um espírito novo; e fará com que andemos nos seus estatutos — comunicará o espírito de obediência e, com ele, o poder de obedecer. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23). Estas passagens implicam claramente que fazer santos os crentes é obra de Deus.
3. Alguns alcançaram a santidade. Enoque andou com Deus trezentos anos (Gn 5.22). “Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus” (Gn 6.9). Jó “era homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desviava do mal” (Jó 1.1). No Novo Testamento, os discípulos de Jesus são chamados cristãos só três vezes — nunca metodistas, batistas ou presbiterianos; mas mais de sessenta vezes são chamados santos.
Se é pelo poder de Deus que somos santificados, por que nem todos — especialmente os professos cristãos — são santos? Porque não cumprem as condições. São elas:
1. Entregar-se plenamente a Deus. Todo o tempo, talento, propriedade, reputação, influência — sim, a própria vida — deve ser entregue a Deus para ser dele para sempre. “Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, eu suplico a vocês que apresentem o corpo de vocês como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional de vocês” (Rm 12.1). O corpo inclui tudo; um sacrifício vivo é constante, perpétuo. “Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês; portanto, santifiquem-se e sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11.44) — isto é, separem-se para o serviço de Deus, e ele os fará santos. “Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a vida por minha causa vai encontrá-la” (Mt 16.25).
2. Confissão de todo pecado, atual ou inato. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Se confessamos os nossos pecados atuais, ele é fiel e justo para perdoar; se confessamos o pecado que habita em nós, ele é fiel e justo para nos purificar de toda injustiça.
3. Fé em Cristo como o nosso santificador. Deus “não fez distinção alguma entre nós e eles, purificando-lhes o coração pela fé” (At 15.9). “Para que recebam remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim” (At 26.18). Mas cuidado para que a sua pretensa fé não seja presunção — do contrário, você pode tornar-se um fariseu presunçoso, em vez de um seguidor de Jesus humilde, manso e santo. “Como podem vocês crer, se aceitam glória uns dos outros e não procuram a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). Em ambas as passagens, a fé é apresentada como o meio pelo qual a santificação é recebida.
Leitor, que pensa você destas passagens da Escritura que trouxemos diante de você? Não lhe mostram a necessidade e a possibilidade da santidade? Você vive neste estado de graça? Se sim, agradeça a Deus e avance. Se não, não demore em obtê-lo: você tem coisas demais em jogo para viver sem ele um só dia. Resolva ser santo. Peça a Deus que o sonde. Se, à luz do Espírito, você vir — como tantas vezes acontece — que não está justificado, tenha a coragem e a honestidade de confessar a sua condição. Se você buscar a santidade em estado de desvio, muito provavelmente se contentará com algo aquém da realidade. Seja completo! Confesse tão plenamente quanto a Palavra e o Espírito de Deus o dirigirem. Entregue-se sem a menor reserva a obedecer ao Senhor em tudo. Olhe para Jesus como o seu Salvador presente de todo pecado. Pleiteie as suas promessas. Confie na sua graça para salvá-lo totalmente. Assim você logo sentirá o poder santificador do Espírito de Deus por toda a alma e o corpo. Então, na vida diária, você terá o seu fruto para a santificação; e o testemunho do Espírito lhe será dado, para assegurar-lhe o seu presente estado de graça e dar-lhe o penhor de glórias indizíveis a serem gozadas no mundo vindouro. “Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, e sim o Espírito que vem de Deus, para que conheçamos o que Deus gratuitamente nos concedeu” (1Co 2.12).
A Bíblia tem muito a dizer sobre a santidade. Ela é um atributo de Deus (Sl 60.6; Ap 4.8). Somos ordenados a segui-la (Hb 12.14); a adorar a Deus na beleza da santidade (Sl 29.2). Sem ela ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). É a única coisa necessária: há muitas coisas convenientes e úteis, mas só esta é indispensável ao nosso bem-estar, neste mundo e no vindouro. Importa, pois, que tenhamos ideias corretas da sua natureza. Para acertar um alvo, precisamos saber onde mirar; para alcançar uma excelência, precisamos saber o que ela é. Quem procura diamantes deve reconhecer os diamantes quando os acha.
À primeira vista, pode parecer que os homens estão bem de acordo quanto ao que constitui a santidade. Refletindo, porém, ver-se-á que é engano: neste ponto há larga diversidade de opinião. Tal é a imperfeição da linguagem, e tal a constituição de certas mentes, que as mesmas palavras muitas vezes não exprimem a mesma ideia a pessoas diferentes, ainda que igualmente cândidas. Mas tome a santidade na sua forma mais tangível — tal como exemplificada na vida das pessoas santas —, e ela geralmente não é reconhecida como santidade: costuma ser chamada por quase qualquer outro nome.
Aos olhos de Deus, Jó era um homem santo. Diz Deus: “Você observou o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, que se desvia do mal” (Jó 1.8). Mas até os seus amigos se esforçaram por convencê-lo de que era um ímpio. Elifaz lhe diz: “os que lavram a iniquidade e semeiam o mal, isso mesmo colhem” (Jó 4.8). Bildade retoma a acusação e lembra-lhe que “a esperança do ímpio perecerá” (Jó 8.13). Zofar lhe pergunta: “Acaso as suas invencionices farão calar os homens?” (Jó 11.3). E até Eliú exclama: “Que homem há como Jó, que bebe a zombaria como água, e anda em companhia dos que praticam a iniquidade, e caminha com homens perversos?” (Jó 34.7-8). Era essa a opinião que os amigos tinham dele, expressa na sua cara; a dos inimigos, é claro, era muito mais desfavorável.
O nosso Salvador exemplificou a santidade na sua forma mais perfeita. Na vida, na conversa, no espírito e em todas as ações, ele foi a santidade personificada; deu as provas mais inconfundíveis de amor desinteressado a toda a humanidade. E, contudo, o veredicto popular a seu respeito foi: “É comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores!” (Mt 11.19). Cristo disse aos discípulos que não esperassem ser mais bem apreciados do que ele: “Se chamaram Belzebu ao dono da casa, quanto mais aos seus domésticos?” (Mt 10.25). Daquele dia até hoje, a santidade nos discípulos de Cristo tem sido reconhecida por bem poucos — mesmo entre os que se dizem cristãos.
John Wesley expôs com clareza, defendeu com competência e exemplificou na vida a doutrina da santidade. Whitefield, em zelo ardente e devoção singela à causa de Cristo, não teve superior desde os dias de São Paulo. Contudo, o rev. Sidney Smith — clérigo da mesma igreja a que pertenciam Wesley e Whitefield, e escritor de grande celebridade — exprimiu a estima em que eram tidos pelos seus colegas de clero ao dizer: “Eram homens de talento considerável; observavam os decoros comuns da vida; não corriam nus pelas ruas nem pretendiam o caráter profético — e por isso não foram mandados para Newgate. Pregavam com grande energia a gente fraca, que primeiro arregalava os olhos, depois escutava, depois cria, depois sentia o sentimento interior da graça, e se tornava tão tola quanto os seus mestres poderiam desejar; em suma, a loucura seguiu o seu curso antigo, e a natureza humana mostrou ser o que sempre foi em circunstâncias semelhantes. A causa grande e permanente do metodismo é, portanto, a mesma que deu origem ao fanatismo em todas as eras: a facilidade de misturar erros humanos com as verdades fundamentais da religião.”
Nos nossos dias, vemos que aquilo que julgamos essencial à santidade é omitido de propósito nas instruções sobre o assunto. Os pecados populares são, no mínimo, tolerados em silêncio. Durante a Guerra Civil, numa concorrida reunião para a promoção da santidade, na cidade de Nova York, o rev. D. F. Newton agradeceu ao Senhor pela Proclamação de Emancipação do presidente Lincoln — e foi imediatamente chamado à ordem, por introduzir um tema capaz de perturbar a harmonia da reunião. Há muitas obras sobre santidade, escritas nos dias da escravidão para circular entre senhores de escravos, sem uma só palavra de condenação à prática. O mesmo espírito que levou ao silêncio sobre o pecado da escravidão, nos dias em que todas as igrejas populares acolhiam senhores de escravos à sua comunhão, ignora hoje por completo a existência de pecados que a Palavra de Deus condena claramente, mas que as igrejas de destaque toleram abertamente. O que encoraja o que Deus proíbe não é santidade: o nome de uma coisa não lhe dá a natureza.
Há uma poderosa sociedade secreta espalhando-se pelo país, composta em grande parte de incrédulos, mas à qual pertencem muitos ministros e membros de igreja. Essa sociedade é profundamente anticristã no seu caráter: orar na loja em nome de Cristo é declarado, pela mais alta autoridade maçônica, violação dos princípios fundamentais da maçonaria; os membros obrigam-se, pelos juramentos mais horrendos, a submeter-se à morte, e a ocultar — e até cometer — assassínio em certas circunstâncias. Desses fatos qualquer pessoa inteligente pode certificar-se sem sombra de dúvida. E, contudo, em muitas reuniões realizadas para a promoção da santidade, apontar esses estorvos à obra da santidade seria considerado impertinente e fanático.
Além disso, a perseguição a que os santos de Deus sempre estiveram sujeitos mostra que a santidade não é reconhecida quando vista. A Palavra declara: “Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). Essa perseguição varia de forma conforme o espírito dominante da época; mas, qualquer que seja a forma que assuma, a perseguição nunca aponta como razão a piedade das suas vítimas: alega-se a sua obstinação, ou contumácia, ou deslealdade, ou heresia como causa dos seus sofrimentos. Cristo foi morto como impostor; Lutero, excomungado como herege; Wesley e Whitefield, caçados como fanáticos. Os seus perseguidores eram professos filhos de Deus, e criam ser zelo pela santidade o que instigava a sua oposição àqueles que davam exemplos brilhantes de santidade nas suas vidas.
Por outro lado, há os que fazem a santidade abranger atributos inteiramente fora do alcance de um ser humano na nossa condição presente. Dão ao termo um sentido que as Escrituras não autorizam. Segundo o seu padrão, a pessoa santa não pode errar no juízo, nem por ignorância nem por má compreensão; deve fazer o certo não só como ela o entende, mas como eles o entendem, em todas as circunstâncias. Medem os outros pela própria infalibilidade; não fazem concessão à falta de juízo nem à formação imperfeita. Quem professa santidade deve estar, segundo eles, acima de qualquer crítica hostil. E, além de tudo, nunca pode cair: se depois manifestar alguma disposição contrária à sua profissão, presume-se que o tempo todo esteve enganado ou foi hipócrita. Se perdeu a santidade, a conclusão não é só que nunca a teve — é que ninguém jamais a teve nem terá! Em suma: declara-se a santidade inalcançável porque alguns, que pareceram tê-la alcançado, não perseveraram até o fim. Levanta-se assim um falso padrão de santidade, e depois se declara a santidade impossível, porque ninguém chega a esse padrão imaginário. Mandam-nos apontar a flecha para o sol — e depois nos ridicularizam porque ficamos aquém do alvo. Apresentam-nos as perfeições morais de Deus como padrão — e depois nos dizem gravemente que não podemos alcançá-lo.
Deus é um Ser de poder infinito. Não depende de ninguém; todo poder deriva dele. É também um Ser de santidade infinita — o que inclui todas as perfeições morais. Diz Tillotson: “Nele não pode haver malícia, nem inveja, nem ódio, nem vingança, nem orgulho, nem crueldade, nem tirania, nem injustiça, nem falsidade, nem infidelidade; e, se há qualquer outra coisa que implique pecado, vício e imperfeição moral, a santidade significa que a natureza divina está a distância infinita disso.” “A santidade de Deus”, diz Edwards, “é o mesmo que a excelência moral da natureza divina — a sua pureza e beleza como agente moral, compreendendo todas as suas perfeições morais: a sua justiça, fidelidade e bondade.” A sua superioridade sobre todos os falsos deuses, ou divindades imaginárias, está nas suas perfeições morais. “Ó SENHOR, quem é como tu entre os deuses? Quem é como tu, glorificado em santidade, terrível em feitos gloriosos, que operas maravilhas?” (Êx 15.11). “Não há santo como o SENHOR” (1Sm 2.2). “O SENHOR é justo em todos os seus caminhos, bondoso em todas as suas obras” (Sl 145.17). “Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3). Esta é a natureza do Deus que adoramos.
A santidade no homem é derivada — não é original nem inata. É a imagem da santidade de Deus: assemelha-se à santidade dele, embora fique infinitamente aquém dela. Um copo de água tirado do oceano possui as mesmas propriedades químicas da água que fica, embora não tenha a sublimidade, a grandeza nem o poder do oceano; assim, o homem santo possui, em grau limitado, o ódio ao pecado, a sinceridade, a veracidade, a justiça, o amor, a bondade e todas as demais virtudes que constituem, na sua plenitude, a santidade de Deus. “E que se revistam do novo ser humano, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24).
“Que é, pois”, diz John Wesley, “essa santidade, única qualificação para a glória? Em Cristo Jesus — isto é, segundo a instituição cristã, seja qual for o caso do mundo pagão — nem a circuncisão vale coisa alguma, nem a incircuncisão. Ela primeiro opera, pela energia de Deus, o amor a Deus e a toda a humanidade; e, por esse amor, todo temperamento santo e celestial — em particular a humildade, a mansidão, a brandura, a temperança e a longanimidade. Não é a circuncisão — a assistência a todas as ordenanças cristãs —, nem a incircuncisão — o cumprimento de toda a moralidade pagã —, mas o guardar dos mandamentos de Deus, particularmente este: ‘Ame o Senhor, seu Deus, de todo o coração, e ao seu próximo como a si mesmo.’ Numa palavra: santidade é ter a mente que havia em Cristo e andar como Cristo andou.”
Por mais refinamento ou autogoverno que um homem adquira pela disciplina, o autodomínio não é a verdadeira santidade: alguns dos velhos filósofos pagãos viveram segundo as regras mais rígidas de moralidade. Aqui se acha um defeito de muito do que hoje se ensina como santidade: esforça-se por fazer os homens agirem melhor, sem lhes dizer como ser melhores. Põe grande ênfase em que façam coisas santas, sem insistir em que sejam santos. Exige-se dos homens a parte prática do cristianismo, sem lhes ensinar que precisam da sua experiência interior. A ordem que Cristo estabeleceu é invertida: persevera-se no esforço de fazer a árvore má produzir bom fruto. A pessoa que Wesley descreve como “quase cristã” seria, segundo a teologia moderna, prontamente aceita como possuidora da santidade. O próprio Wesley, antes de ser — segundo a sua própria declaração — convertido a Deus, poderia posar como modelo do santo moderno: dava com largueza, era estrito nos exercícios devocionais e negava-se a si mesmo com rigor, para ter o que dar aos pobres. Disse um popular pregador metodista, do púlpito, aos nossos ouvidos: “Agradeço a Deus por ter chegado o tempo em que a piedade dos homens se mede não pelo que professam, mas pelo que dão.” Na Idade Média, guerreiros de mãos vermelhas de sangue, que haviam saqueado cidades às dezenas e devastado países inteiros, procuravam expiar os seus crimes construindo catedrais magníficas — e o sacerdócio as aceitava como atos e evidências de piedade. Estamos voltando à teologia do século dez. Na maior denominação do país, o principal seminário teológico para a instrução dos futuros pregadores foi construído e dotado por alguém notório como especulador da bolsa, cujas transações são condenadas até pela frouxa moralidade de Wall Street. Na segunda maior, o mais popular colégio feminino foi, de igual modo, construído e dotado por um dos maiores cervejeiros do país. A influência desses exemplos ilustres se faz sentir em quase toda igreja do interior: a propriedade controla o banco, e a propriedade controla o púlpito; Mamom é o ministro principal no reino de Cristo; os negócios da igreja são conduzidos segundo os mesmos princípios comerciais que regem as demais corporações bem-sucedidas; e a piedade experimental é tachada de fanatismo — que nos pobres não se tolera, e nos ricos só se suporta como mal necessário.
Tudo isso vem do esforço de construir o caráter cristão tendo o eu por fundamento. O aparente sucesso é apenas um esplêndido fracasso: a estrutura reluzente não resistirá ao primeiro clarão dos fogos da eternidade. A natureza santa vem de Deus. Wesley exprime o sentimento verdadeiro quando canta: “Quero a tua vida, a tua pureza, a tua justiça introduzida em mim.” Ela deve ser “introduzida” no coração por poder divino; não está ali por natureza. “O Reino dos Céus é como o fermento escondido na farinha.”
O ouro tem as mesmas propriedades em todos os países, por qualquer nome que seja chamado. A natureza do amor e do ódio nunca muda com o correr do tempo. A santidade pode apresentar manifestações diferentes em circunstâncias diferentes, mas as suas qualidades são tão imutáveis quanto o seu Autor. As opiniões dos homens podem variar; ela nunca varia. Examine-a em detalhe ou contemple-a no todo: as suas qualidades não mudam. As noções indistintas que muitos têm da santidade devem-se ao fato de nunca terem considerado seriamente o que a constitui. São como alguém que do ouro só conhece a cor, e por isso está pronto a chamar de ouro tudo o que se parece com ele. Quem tem alguma perícia em metais não se deixa enganar assim: achando uma das qualidades requeridas, busca outra; e só quando verifica que o metal possui todas as propriedades devidas o declara ouro. Assim, se você tem santidade, tem todas aquelas qualidades morais que, tomadas em conjunto, formam o grande total de graças cristãs que a Palavra de Deus denomina santidade.
Examinemos algumas dessas qualidades. Notaremos primeiro algumas das coisas de que a santidade implica libertação. Isso é tanto mais necessário porque o espírito de autoindulgência, que a riqueza e o luxo sempre geram, enfatiza algumas das propriedades positivas da santidade sem insistir em que se deponha tudo o que é incompatível com ela. Mas a Bíblia tem tanto a dizer sobre o lado negativo quanto sobre o positivo da santidade. O primeiro mandamento diz: “Não tenha outros deuses além de mim” (Êx 20.3). Não bastava adorar o Deus verdadeiro — isso Salomão fez até no seu estado de desvio; nenhum deus falso devia ser adorado. Dos dez mandamentos, nove contêm disposições negativas: dizem o que não devemos fazer. Nove proibições nos Dez Mandamentos, e só dois preceitos positivos! Disso poderíamos inferir que Deus vê dificuldade muito maior em guardar-nos de fazer o mal do que em conduzir-nos, nos demais aspectos, a fazer o bem. Herodes ouvia João com gosto “e fazia muitas coisas” — mas não quis despedir a mulher com quem vivia ilicitamente. “Deixem de fazer o mal. Aprendam a fazer o bem” (Is 1.16-17) — esta é a ordem de Deus. Exigir isso causa problema. Os romanos nunca hesitaram em acrescentar mais um deus ao seu Panteão; teriam admitido Cristo de bom grado a essa honra. Mas, quando os apóstolos intransigentes exigiram que os seus falsos deuses fossem primeiro destronados, Cristo foi rejeitado, e os seus discípulos, lançados às feras e às chamas. Não foi tanto a pureza quanto a intolerância do cristianismo que despertou a oposição feroz que ele encontrou. Os mártires teriam evitado a sua sorte se, além de adorar a Cristo, consentissem em adorar Júpiter e Minerva. Mas eles sustentavam não só que o cristianismo era verdadeiro, mas que era exclusivamente verdadeiro. Pregavam não só que “quem crer e for batizado será salvo”, mas que “quem não crer será condenado”; ousavam declarar: “Não há salvação em nenhum outro.” Nenhum terror pôde induzi-los a juntar-se ao grito “Grande é a Diana dos efésios!” ou a jurar pela imagem de César. Foi essa oposição a tudo o que era falso que lhes trouxe tribulação aonde quer que fossem.
Em geral, pois, a santidade implica libertação do pecado. É o oposto do pecado, como a luz o é das trevas. A Bíblia nos ensina a possibilidade de ter destruída toda propensão errada da alma. Sabemos que algumas passagens parecem, à primeira vista, ensinar que a permanência do pecado na alma é inevitável. Demos às mais salientes um exame cuidadoso e cândido.
A primeira acha-se em 1Rs 8.46: “Se pecarem contra ti (pois não há ninguém que não peque)…”. No hebraico original, o verbo traduzido “peque” está no tempo futuro. “Esse tempo”, diz Stuart na sua gramática hebraica, “designa todos aqueles matizes de sentido que exprimimos em inglês pelos auxiliares pode, deve, poderia, deveria etc.” Assim, “do fruto das árvores do jardim podemos comer” (Gn 3.2): o “podemos comer” está, no original, no futuro. Também “para que te temam” (1Rs 8.40) e “para que todos os povos da terra conheçam o teu nome” (1Rs 8.43) trazem o mesmo tempo verbal. Uma tradução literal do versículo 46 seria, pois: “Se pecarem contra ti (pois não há homem que não possa pecar)…”. Isso ensina, não que todo homem peca de fato e por necessidade, mas que todos estão sujeitos a pecar: é possível que pequem, não necessário. Também a suposição “se pecarem” implica que podiam pecar ou não — exprime uma contingência que não existiria se o pecado fosse inevitável. Que podiam não pecar está claramente implícito na declaração de que, se pecassem, Deus se iraria contra eles e os entregaria aos inimigos, para serem levados cativos: como isso não era necessário, segue-se que não era necessário que pecassem. A maior parte destas observações aplica-se também a Ec 7.20: “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e nunca peque” — o verbo, no original, está igualmente no futuro, e deveria traduzir-se “que não possa pecar”. Esta passagem ensina a doutrina que percorre toda a Bíblia: nunca estamos seguros contra o perigo de cair. No nosso melhor estado, quando a graça fez o máximo por nós, temos grande necessidade de vigiar para não entrar em tentação, de esmurrar o corpo e reduzi-lo à escravidão, para não sermos reprovados.
“Quem pode dizer: Purifiquei o meu coração, estou limpo do meu pecado?” (Pv 20.9). Esta passagem destina-se a repreender a jactância do fariseu presunçoso e cheio de justiça própria, que não só reclama uma bondade que não possui, como atribui a si mesmo a sua imaginada pureza. Se oferecemos, em desejo fervoroso e fé que não aceita recusa, a oração de Davi — “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” —, quem dirá que essa oração não será respondida? Só Deus pode purificar a alma; e só vindo a ele em súplica importuna podemos obedecer à direção do apóstolo: “Limpem as mãos, pecadores; e vocês que têm a mente dividida, purifiquem o coração” (Tg 4.8). Só assim se pode cumprir a ordem de Deus: “Lava o teu coração da malícia, ó Jerusalém, para que você seja salva” (Jr 4.14).
“Ainda que eu me justifique, a minha boca me condenará; ainda que eu seja íntegro, ele me declarará culpado” (Jó 9.20). Neste capítulo Jó trata da majestade e santidade de Deus. No versículo 15 diz: “A ele, ainda que eu fosse justo, não lhe responderia; pediria misericórdia ao meu Juiz.” Diante da pureza de Deus, ele contava a sua justiça como nada, embora pudesse levantar a cabeça na presença dos homens. Assim entendemos Jó dizer: se eu me justificar diante de Deus, a minha própria boca — nas orações que faço pela misericórdia do Senhor — me condenará. Diante dos homens ele se justificou do modo mais triunfante, repelindo as acusações dos amigos que, incapazes de conciliar as suas aflições com a suposição da sua inocência, o acusavam. A sua perfeita humildade justifica o testemunho que o Senhor, que não pode ser enganado, dá em seu favor: “Você observou o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, que se desvia do mal” (Jó 1.8).
“Quem pode tirar o puro do impuro? Ninguém!” (Jó 14.4). Este texto refere-se à depravação natural de todo aquele que nasce no mundo — ao que comumente se chama pecado original. Ensina que todos são por natureza depravados; não que essa depravação não possa ser removida pela graça. A Septuaginta — a versão grega do Antigo Testamento, da qual o nosso Salvador e os apóstolos geralmente citavam — traduz assim: “Pois quem está puro da corrupção? Nem um, ainda que a sua vida sobre a terra seja de um só dia.”
“Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros” (Is 6.5). Isso é verdade de todos enquanto na condição natural, não santificada. Mas continuemos a ler, e veremos que o ESPÍRITO DE DEUS, representado por uma brasa viva tirada do altar, tocou-lhe os lábios, de modo que a sua iniquidade foi tirada e o seu pecado, perdoado.
“Todas as nossas justiças são como trapo de imundícia” (Is 64.6). Os judeus estavam extremamente corrompidos nos dias de Isaías. O profeta, humilhado e alarmado com a maldade geral do seu povo, confessa-a na primeira pessoa, como os ministros costumam fazer em tais ocasiões. São as profissões hipócritas dos judeus — a estrita observância das formas e cerimônias da religião em meio a uma vida de pecado — que o profeta compara a trapos imundos.
“Eu sou carnal, vendido à escravidão do pecado” (Rm 7.14). Neste contexto, o apóstolo fala da sua experiência interior: primeiro, como judeu não despertado — “outrora, eu vivia sem a lei”; segundo, como pecador sob convicção — “mas, quando veio o mandamento” à minha compreensão, “o pecado reviveu, e eu morri”: as minhas esperanças pereceram; terceiro, como crente em Cristo — “porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2). Agora, “libertados do pecado” e feitos verdadeiramente “servos de Deus”, temos o nosso “fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22). Que o apóstolo, na passagem acima, se refere a si mesmo antes da conversão é a opinião do presidente Edwards — teólogo congregacional que, em saber, piedade e acuidade filosófica, nunca teve superior na América —, o qual diz: “O apóstolo Paulo, falando do que era por natureza, diz: ‘Eu sou carnal, vendido à escravidão do pecado.’”
“Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós” (1Jo 1.8). Que isto se refere ao homem na sua condição natural é evidente: o apóstolo está falando do poder do sangue de Jesus, que nos purifica de todo pecado. É àqueles que, confiando falsa e perigosamente na própria moralidade e nas suas disposições naturalmente amáveis, dizem não precisar de purificação do pecado, que o apóstolo aplica o versículo acima. Mas, convencidos de que somos pecadores por natureza e por prática, ele nos assegura: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos PURIFICAR DE TODA INJUSTIÇA” (1Jo 1.9).
Estas são, cremos, as passagens mais fortes jamais alegadas para provar a permanência necessária do pecado. Examine-as com candura, e você se convencerá de que demos o seu verdadeiro sentido. E perguntamos, amado leitor: você está, no tempo presente, salvo do pecado? Pode tê-lo estado outrora — isso não o socorre agora; só torna a sua condição mais deplorável, se você ainda está sob o domínio do pecado. Busque o livramento já. Não dê trégua; morra cada pecado. É falsa a santidade que não liberta de todo pecado. Só a salvação do pecado pode assegurar a salvação no Céu.
O coração é a sede do pecado. As ações derivam o seu caráter moral da disposição com que são praticadas. Dar uma soma de dinheiro pode ser ato de benevolência ou pode ser suborno; pode brotar do amor a Cristo ou do amor ao louvor dos homens. “Porque é do interior, do coração humano, que saem os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as maldades, o engano, a libertinagem, a inveja, a blasfêmia, a arrogância, a insensatez. Todos estes males vêm de dentro e contaminam a pessoa” (Mc 7.21-23).
A alma justificada não cede ao pecado: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado” (1Jo 3.9). A alma inteiramente santificada a Deus não tem pecado: “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7).
A verdadeira santidade salvará a pessoa dos pecados populares tão prontamente quanto dos vergonhosos — é obra do Espírito. Com Deus, o padrão do certo não varia; considerações egoístas levam os homens a tolerar ora um pecado, ora outro. Há alguns anos, muitos dos advogados da santidade nada tinham a dizer contra o pecado da escravidão: a igreja ganhava com ele em números e recursos. Hoje, muitos não tomam posição decidida contra o orgulho e a conformidade com o mundo; não têm uma palavra de condenação para as conspirações dos fortes contra os fracos. Mas os que realmente visam a estar certos com Deus afastam-se de tudo o que ele proibiu, ainda que a igreja o encoraje.
A santidade implica libertação do orgulho. A pessoa santa não pode sentir-se orgulhosa; a igreja santa não pode entregar-se ao orgulho; o orgulho não pode habitar numa alma santa. “Não suporto quem tem olhar altivo e coração orgulhoso” (Sl 101.5). “Revistam-se todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes” (1Pe 5.5).
Neste particular, os católicos romanos são uma repreensão aos protestantes. A todos os que são leais à igreja, os católicos dão a maior latitude de palavra e ação, de negócios e prazer: manter-se dentro dos limites da decência e da moralidade é tudo o que se exige dos membros comuns da sua comunhão. Você achará entre eles senhoras vestidas com toda a elegância que os tempos podem fornecer. Mas eles não professam santidade. Os seus sacerdotes podem errar em muitas coisas, mas não encorajam o seu povo a pensar que pode tornar-se santo entregando-se ao orgulho até onde os seus meios permitam: ensinam que, para tornar-se santo, o orgulho deve ser renunciado, e toda aparência de orgulho, deposta. Nas igrejas protestantes, porém, você achará pessoas advogando a santidade cuja aparência declara inconfundivelmente que o orgulho reina dentro delas: o vestuário custoso, os ornamentos de ouro, os tons afetados, todo o porte proclamam que não houve renúncia real à vã pompa e glória do mundo. Isso é errado — e inteiramente errado.
Alegar-se-á que tal caminho recomenda a santidade, que leva os ricos e refinados a abraçá-la. Engano: pode levá-los a abraçar uma ilusão — a crer que estão santificados quando nem sequer estão biblicamente despertados. O que assim se recomenda não é santidade: pode ter algumas das suas propriedades, mas faltam-lhe os essenciais. Fazer as pessoas crerem que podem vestir a justiça de Cristo de modo a realçar a sua própria púrpura e o seu linho fino é fazê-las crer numa mentira ruinosa. Contrários não habitam juntos: o orgulho e a humildade não podem reinar ao mesmo tempo no mesmo coração. Não engane, pois, nem por objetivo tão bom quanto a promoção da santidade. O Salvador nos mandou calcular o custo: enquanto os homens não virem que a santidade é mais desejável do que tudo o que se lhes exige abandonar, jamais a obterão.
“Mas”, insistem muitos, “devemos ter orgulho bastante para sermos decentes.” Não há orgulho no Céu — mas há pureza. Assim, podemos ter pureza interior e exterior sem orgulho. O orgulho é resultado da queda: não tinha lugar no Éden, e não deveria ter nenhum no nosso coração. Busque, pois, a santidade que o arranca por inteiro. Você pode fazer uma consagração ao Senhor completíssima em tudo o mais; mas, se ela não incluir a renúncia do seu orgulho em todas as suas formas, você não obterá uma experiência que o habilite a fazer a vontade de Deus. E, na exata proporção em que você renunciar ao orgulho e ansiar por libertação dele, nessa proporção Deus o tirará do seu coração. É inimigo perigoso — não lhe dê trégua. É inimigo sutil, de emboscada para a sua derrota — não lhe dê esconderijo.
A santidade implica libertação do orgulho tal como manifestado na provisão que fazemos para os nossos filhos. O orgulho é um dos tristes efeitos da queda; manifestar-se-á de uma forma ou de outra nos nossos filhos, até que sejam trazidos completamente sob a influência da graça divina. Mas os pais inteiramente santificados a Deus não lhe darão encorajamento algum. Ele não precisa ser cultivado: faça você o que puder para impedi-lo, ele beberá da atmosfera ao redor alimento bastante para crescer com rapidez alarmante; pode-o você tanto quanto queira, a cada estação ele brotará com novo vigor e mostrará a máxima tenacidade de vida. Enquanto você achar em si mesmo a disposição de encorajar a ostentação nos seus filhos — de prepará-los para brilhar com esplendor mundano —, pode estar certo de que a obra da santidade em você ainda não está completa: você não está plenamente liberto do orgulho.
A santidade implica libertação do orgulho denominacional. Há muitos que se vestem com simplicidade e mobíliam a casa com simplicidade, mas que darão os seus milhares para a construção de um templo, quando toda acomodação necessária poderia ser obtida por um terço do valor gasto. Dois terços de tudo o que se paga pelas nossas belas casas de culto é despendido em ostentação, e não serve a propósito algum senão o de satisfazer o orgulho. Uma denominação constrói um belo templo; a próxima que constrói faz todo esforço possível para superá-lo em magnificência. Para levantar dinheiro, recorre-se a festivais e loterias — e, nalguns casos, pratica-se franca desonestidade. O belo templo precisa encher-se de gente bem-vestida; e assim o orgulho e a extravagância são encorajados, e os pobres, virtualmente excluídos da casa de adoração. Se todos os que se chamam pelo nome cristão tomassem o caminho verdadeiro do evangelho — se o dinheiro gasto para satisfazer o orgulho fosse judiciosamente empregado em espalhar a verdade como ela é em Jesus —, logo chegaria o tempo em que se poderia dizer, em todas as partes do mundo: “aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.5).
Quando o anjo anunciou a vinda do Salvador, disse: “Você lhe dará o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Esta é, pois, a grande peculiaridade dos discípulos de Cristo: são um povo salvo. Por natureza, não são melhores que os outros; a graça é que os faz diferentes. E a grande distinção está naquilo de que são salvos. Há disposições e apetites que são pecaminosos em si mesmos: não servem a propósito bom algum; não faziam parte da natureza do homem no princípio; resultam da queda. Ninguém é santificado por inteiro enquanto não é salvo dessas disposições e apetites depravados.
A santidade implica libertação do egoísmo. Uma pessoa egoísta não pode ser, ao mesmo tempo, uma pessoa santa. Egoísmo é a disposição que nos leva a buscar os nossos interesses ou a nossa satisfação sem o devido respeito aos direitos ou à felicidade dos outros. O segundo grande mandamento é: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mt 19.19). Isso certamente supõe que devemos, dentro dos limites próprios, amar a nós mesmos. As Escrituras não só permitem, mas ordenam que tenhamos o devido cuidado da nossa própria felicidade; toda promessa da Bíblia se baseia no princípio de que é justo buscarmos, com as devidas limitações, o nosso bem-estar. Abraão, saindo da casa do pai, “aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11.10). Moisés, renunciando aos tesouros e honras do Egito, “contemplava o galardão” (Hb 11.26).
Mas esse princípio, tão legítimo em si, deve ser cuidadosamente regulado e mantido dentro dos limites que Deus prescreveu, ou se torna pecaminoso e pernicioso. O amor-próprio leva em conta o todo da nossa existência, no tempo e na eternidade; o egoísmo olha para o interesse e a satisfação presentes. O amor-próprio tem o devido respeito pela felicidade dos outros; o egoísmo nos inclina a buscar a nossa satisfação sem consideração pelos deveres que temos para com Deus e para com o próximo. O amor-próprio é um princípio que Deus deu ao homem para a sua preservação; o egoísmo é o substituto pecaminoso que o homem adotou na queda. Um é o álcool que enlouquece; o outro, o trigo que dá força e a uva deliciosa que dá saúde.
Dificilmente há crime que o homem cometa, ou pecado de que seja culpado, que não se origine no egoísmo. Ele é a fonte amarga onde toda corrente corrupta tem a sua nascente; a árvore má que produz toda espécie de fruto pernicioso. É um vício que nunca se satisfaz: cresce com aquilo de que se alimenta; quanto mais é satisfeito, mais desordenados os seus anseios. Torna-se mais intenso quando há menos desculpa para a sua existência. Tem a máxima tenacidade de vida e nunca morre de morte natural: só pode ser morto pela espada do Espírito — só pode ser destruído pelo fogo do Espírito Santo. Pode desgastar a constituição mais forte, mas nunca se desgasta. Existe sob mil formas diferentes e em todo estado da sociedade: os mais refinados e mais instruídos estão tão sujeitos à sua influência quanto os mais ignorantes e incultos.
As igrejas populares sancionam e fomentam esse espírito egoísta ao vender ou alugar os assentos nas suas casas de culto. O rico, se salvo do egoísmo, não desejaria, por causa das suas riquezas, acomodações melhores na casa de Deus do que o seu irmão mais pobre: ricos e pobres se encontrariam como irmãos, sentindo que o Senhor é o Criador de todos nós. Todo esforço para levantar dinheiro para fins religiosos ou beneficentes por meio de quermesses, festivais ou expedientes semelhantes é um apelo ao egoísmo. Dá-se assim a sanção da igreja a um princípio corrupto que está na base de toda maldade e mina o próprio fundamento do caráter cristão: fomenta-se aquilo para cuja extirpação a igreja deveria empregar as suas energias mais poderosas. Anos atrás, quando fomos introduzidos pela primeira vez na experiência da bênção da santidade e começamos a perceber algo da sua importância, vimos claramente que o gozo dessa graça jamais poderia generalizar-se numa igreja enquanto se alugassem bancos e se fizessem quermesses em benefício das suas finanças. Tomamos posição firme contra todos esses apelos ao egoísmo, por estorvarem a grande obra da Igreja de Cristo: espalhar a santidade bíblica por toda a terra.
Santidade e egoísmo não podem habitar juntos. Quando o Espírito foi derramado, na abertura da dispensação cristã, o espírito egoísta foi inteiramente desarraigado: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade” (At 2.44-45). Seja isso ou não um modelo a seguir pelos cristãos de todas as eras, é certamente uma amostra do espírito que a santidade cristã deve produzir: a extirpação do princípio egoísta. Para esse fim são preceitos e declarações como estes: “cada um considere os outros superiores a si mesmo. Que cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros” (Fp 2.3-4). “Nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si mesmo” (Rm 14.7). “Não se esqueçam da prática do bem e da mútua cooperação, pois Deus se agrada de tais sacrifícios” (Hb 13.16). “Levem as cargas uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo” (Gl 6.2). “Pensem nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Cl 3.2).
A verdadeira santidade exerce a sua influência sobre cada parte da nossa natureza: afeta para o bem cada membro do corpo e cada faculdade da mente; produz simetria de caráter.
A santidade dá a quem a possui o domínio sobre todos os seus apetites corporais. Ele tem apetites — o Salvador, que era a própria santidade em forma corpórea, os teve: sentiu fome e sede. Os apetites naturais nos foram dados para bom propósito; não são pecaminosos em si mesmos. Mas devem ser mantidos dentro dos limites próprios: não foram destinados a ser nossos senhores; devem ser regulados e controlados, sujeitos à razão, à consciência e à Palavra de Deus. Nenhuma pessoa santa pode estar sob o domínio do apetite: dessa escravidão ela está liberta.
Quem é santo nunca satisfaz os apetites de maneira ilícita: passará fome antes de furtar. “Sei o que é passar necessidade e também o que é ter em abundância; em toda e qualquer circunstância, aprendi o segredo, tanto de ter fartura como de passar fome, tanto de ter abundância como de sofrer necessidade” (Fp 4.12). O Salvador, faminto após jejuar quarenta dias, não quis obter pão da maneira sugerida pelo diabo. Devemos seguir esse exemplo. Por mais fortes que sejam os anseios do apetite, ou por maiores que sejam os apuros a que sejamos reduzidos, devemos lembrar que há algo mais a considerar do que simplesmente se o que se nos apresenta matará a fome ou a sede: tenho direito a isto? Posso obter esse direito em condições com que possa licitamente cumprir? Esaú não furtou — mas vendeu a primogenitura para obter com que satisfazer a fome. Muitos fazem o mesmo hoje. Os apetites corporais clamam por satisfação; Satanás oferece satisfazê-los em troca de algum serviço prestado a ele — como profanar o dia do Senhor, alimentar os vícios alheios, pregar o evangelho de maneira que a cruz e a abnegação fiquem fora de vista. A pessoa santa sofrerá as dores da fome antes de obter o pão por qualquer desses métodos; e, se não recorre a eles para não morrer de fome, certamente não recorrerá para nenhum outro propósito.
A verdadeira santidade dará à pessoa tal domínio sobre os apetites, que ela não os satisfará em grau desordenado: come para viver, mas não vive para comer; os seus gostos são simples e naturais; as suas necessidades, fáceis de satisfazer. Quem gasta grandes somas para agradar o próprio paladar mimado, enquanto tantos perecem de necessidade, pode ser ortodoxo e polido — mas não é santo. Ainda que possa permitir-se vestir “púrpura e linho finíssimo” e regalar-se “todos os dias”, ele vê representantes de Cristo nos necessitados ao redor, e nega a si mesmo os luxos para ministrar às necessidades deles. Os festivais de igreja para levantar dinheiro estão expostos, entre outras, a esta objeção: educam o povo a fazer da satisfação própria motivo de ação mais forte do que o dever para com Deus e o próximo; presumem que os cristãos farão mais por amor do estômago do que por amor da consciência; dão por certo que se importam mais com o próprio gozo sensual do que com as exigências de Deus ou os sofrimentos dos semelhantes.
A verdadeira santidade salva os que a gozam de todos os apetites artificiais e depravados, formados por um curso de indulgência pecaminosa. Tal é a depravação do homem, que ele forma apetites contra os quais a sua natureza física a princípio se revolta. Com o tempo, a satisfação desses apetites vem acompanhada de gozo momentâneo — assim é o uso do ópio, do fumo e das bebidas fortes. Ninguém gosta deles no começo; frequentemente fazem mal aos principiantes. Mas estimulam o sistema nervoso e criam uma excitação que proporciona certo grau de prazer. Passada a excitação, segue-se grau correspondente de languidez e depressão, que logo se torna tão insuportável, que o estimulante precisa ser obtido a qualquer custo. Forma-se um apetite que as vítimas satisfarão à custa de tudo o que os homens têm por precioso: bens, amigos, reputação, posição, saúde e a própria vida são sacrificados para satisfazer um apetite que embrutece e escraviza. O único caminho seguro é evitar o começo. Mas, para os que sinceramente se arrependem da sua maldade em formar e alimentar tal apetite, Deus provê remédio. A promessa “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9) cobre esse terreno.
O apetite por qualquer dos estimulantes citados não pode ser piedoso — isso ninguém sustenta. Não pode ser indiferente — tem caráter positivo demais. É uma injustiça — a sua natureza e os seus efeitos o proclamam. Quanto ao ópio e às bebidas fortes, isso é geralmente concedido: ninguém sustentará que um beberrão é santo — “nenhum bêbado herdará o Reino de Deus” (1Co 6.10). Mas o usuário habitual do fumo é tão claramente condenado pelas Escrituras quanto o que usa habitualmente bebidas fortes. O seu hábito envolve, por necessidade, imundícia pessoal — e somos ordenados a purificar-nos “de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Admitimos prontamente que a obra da santidade pode começar no coração de quem usa fumo; mas ela não pode prosseguir enquanto o hábito continua: um dos dois cessará — ou ele deixará de avançar na santidade, ou abandonará os hábitos ímpios. Ninguém pode aperfeiçoar a santidade sem purificar-se de toda imundícia da carne, além da do espírito. Somos também ordenados a comer e beber para a glória de Deus (1Co 10.31) — o que fazemos quando comemos com temperança, e coisas que não fazem mal a nós nem aos outros. Mas é fato, tão bem estabelecido quanto qualquer outro, que o uso habitual do fumo arruína o sistema nervoso e traz muitas doenças. Nenhum homem imoderadamente dado ao fumo pode conservar o vigor mental e a saúde corporal como conservaria sem ele. Ninguém, vendo um professo cristão fumando ou mascando, pensará melhor da religião cristã por causa disso: é um ato em que, no mínimo, Deus não é glorificado. Ninguém tem o direito de gastar assim o dinheiro do Senhor. É Deus quem dá o poder de adquirir riqueza; ela deve ser usada para o avanço da sua causa — para tornar os homens melhores, socorrer as suas necessidades e instruí-los no caminho da vida. O cristão não pode gastar o seu dinheiro como quer: deve usá-lo como o Senhor quer.
Mas de pouco serve multiplicar palavras sobre este assunto. Os que estão realmente decididos a ganhar o Céu, e dispostos a cumprir as condições da salvação, não podem deixar de ver a necessidade de negar a si mesmos a satisfação de um apetite formado no pecado, cuja indulgência nenhum bem pode fazer e há de resultar, por fim, em muito dano. Os que fazem da religião mera questão de conveniência ou de moda não se convenceriam de modo algum — e de nada adiantaria se se convencessem. É inútil falar contra os ídolos a homens apegados aos seus ídolos. Mas, aos que formaram esse apetite e desejam ser libertos dele, dizemos: a santidade o fará. Busque com fervor ser liberto da escravidão à sua natureza animal, e você será liberto. Você se tornará espiritual tornando-se santo. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Mas, se você é escravo dos seus apetites, não professe santidade; se professar, não tem razão para esperar que a sua profissão seja aceita. A santidade é obra radical: muda-nos nos apetites; as coisas que antes amávamos, agora odiamos; as coisas antigas passaram, e eis que tudo se fez novo. Não se dê descanso até que essa obra completa se realize em você. Busque ter o sangue purificador aplicado a cada parte da sua natureza. Espere ser santificado em tudo, e creia: “Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará” (1Ts 5.24).
A santidade implica libertação de todo ódio a qualquer ser humano. As inimizades pessoais — abertas e declaradas, ou sutis e secretas — têm lugar, em maior ou menor grau, no coração dos homens em geral; e os professos cristãos mal constituem exceção. Alguém interfere nos nossos planos e propósitos e frustra os nossos projetos; enquanto restar egoísmo na alma, a antipatia certamente se seguirá. As suas ações passam a ser comentadas com severidade, tudo o que faz e diz recebe interpretação desfavorável, até que ele venha a ser olhado com sentimentos de positiva aversão. A alma verdadeiramente santificada não tem simpatia alguma pelo pecado — abomina-o; mas olha o pecador com sincera compaixão. Nisto se manifesta o caráter sobrenatural do cristianismo: é natural devolver ódio por ódio; mas a santidade leva a devolver bem por mal, bênção por maldição, amor por ódio. Os ensinos de Cristo neste ponto são claros e inequívocos: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo.’ Mas eu lhes digo: amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês; desse modo, vocês se tornarão filhos do Pai celestial, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vem fazer cair a chuva sobre justos e injustos. Porque, se amarem apenas aqueles que os amam, que recompensa vocês têm? Será que até os publicanos não fazem a mesma coisa? E, se saudarem somente os seus irmãos, o que fazem de mais? Será que até os gentios não fazem a mesma coisa? Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.43-48). Isso implica libertação de toda hostilidade ativa.
É digno de nota que, quando o apóstolo ora pela santificação dos crentes, a sua oração se dirige ao Deus da paz: “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23). O Deus da paz nunca dá o espírito de guerra: quem quer que ele santifique é feito participante da sua paz. Todas as animosidades são sepultadas; as velhas inimizades, esquecidas. Se você é assim feito santo, perdoará os que o ofenderam — e, o que é ainda mais difícil, perdoará aqueles a quem você ofendeu. Em vez de tentar justificar-se fazendo-os parecer, a si mesmo e aos outros, tão maus quanto possível, você toma a culpa para si, confessa-a e corrige tudo até onde estiver ao seu alcance. Sem ser de modo algum covarde, você já não anda cheio de briga: não aproveita toda oportunidade de atacar os outros quando aparentemente se pode fazê-lo com vantagem; não luta pelo domínio sobre os outros; se o atacam, não devolve o ataque; não retribui injúria com injúria — antes, pelo contrário, bênção.
A pessoa santa é salva daquela modificação do ódio geralmente chamada preconceito. Seja individual, sectário ou nacional, a santidade o remove do coração. Num acampamento a que assistimos, uma jovem fez, na abertura, clara profissão de santidade. Era ativa, sem ser atrevida. A luz brilhou claramente, e ela acolheu a luz; em pouco tempo estava entre os que mais fervorosamente buscavam um coração puro. Sentia-se certa em tudo, menos numa coisa: tinha preconceito contra a madrasta, de quem dissera que nunca gostaria. Mas, quando a bênção veio, removeu esse sentimento por inteiro — não sobrou nada dele; ela se dispôs a retribuir o amor que lhe fora oferecido por alguém a quem devia amar. Um jovem que abraçara calorosamente a causa do Sul, e servira no exército sulista, foi convencido da bênção da santidade lendo alguns números do Earnest Christian que providencialmente lhe caíram nas mãos. Buscou e achou plena salvação pelo sangue do Cordeiro. Numa grande reunião ao ar livre, com centenas de presentes, sentiu-se chamado a confessar o que Deus fizera por ele — e, entre outras coisas, disse que a santidade tirara todo o preconceito contra os ianques. Disse-o não só com risco da sua popularidade pessoal, mas com risco da vida; mas teve de fazer a declaração e sustentá-la. Numa das nossas grandes reuniões no oeste de Nova York, um estranho se levantou e disse que era pregador da região central do estado; que ouvira muitas coisas contra este povo, mas estava decidido a conhecê-lo por si mesmo. Tal era o preconceito, que não ousara contar nem aos amigos mais próximos — nem à esposa — aonde ia. “Mas”, disse ele, “estou convencido de que Deus está com vocês. Se algum cristão vem ao meio de vocês, certamente os amará; se quiser conservar os seus preconceitos, precisa ficar longe e odiá-los.”
Outra modificação do ódio é a inveja: sentimento maligno para com os outros por causa da sua prosperidade. Manifesta-se em pequenas coisas — como diminuir os méritos alheios, esforçar-se por manchar-lhes a reputação, atribuir o seu êxito a qualquer coisa que pareça plausível, menos à sua boa conduta. Esse espírito se manifesta muitas vezes entre professos cristãos, ministros não excetuados: não suportam ouvir falar bem do seu rival. Mas a santidade tira esse sentimento: podemos alegrar-nos com os que se alegram.
Muitos não são salvos das suas inimizades porque não querem sê-lo: agarram-se aos seus preconceitos como à própria vida — e, contudo, professam santidade. Tais pessoas estão evidentemente enganadas; não pode haver erro no caso. Precisam que o Senhor lhes circuncide o coração; estão agarradas ao que operará a sua ruína. “Um pouco de fermento leveda toda a massa.” Se a graça não desarraigar a malícia, a malícia matará a graça: as duas não podem viver juntas. “Mas agora abandonem todas estas coisas: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do seu falar” (Cl 3.8).
Santidade não é indiferença. Quem é verdadeiramente santo não sente que cumpriu o seu dever simplesmente abstendo-se do pecado. A verdadeira santidade não é aquela disposição fácil e bonachona que sorri para o pecado e lhe dá ampla tolerância — especialmente se ele é elegante ou popular, ou capaz de ser aproveitado para “edificar a igreja”, isto é, aumentar-lhe os números ou a influência. Havia muito dessa santidade espúria neste país nos dias áureos da escravidão. Pode-se percorrer volume após volume da sua literatura destinada a circular no Sul sem achar uma só denúncia ousada e franca do pecado da escravidão. Podia-se assistir à “reunião de santidade” semana após semana sem ouvir uma oração pela libertação dos escravos, nem um testemunho contra a “soma de todas as vilanias”. Não mais ao sul do que a cidade de Nova York, e não antes do que logo após a proclamação de emancipação do presidente Lincoln, podia-se ouvir um irmão ser chamado à ordem, na principal “reunião de santidade”, por agradecer a Deus pela proclamação que quebrou os grilhões de três milhões de cativos.
O mesmo tipo de santidade é popular hoje. Chuta valorosamente o leão morto, mas toma muito cuidado para não despertar a ira do chacal vivo. Mal dá atenção de passagem a alguns dos maiores obstáculos à obra da santidade neste país; se os menciona, é tão debilmente que mal atrai atenção; se lhes faz objeção, é em tons tão fracos que não desagradam aos seus devotos mais ardorosos. Já assistimos a um acampamento de santidade sem ouvir uma só palavra de condenação à prática, hoje tão comum entre professos cristãos, de adornar-se “com ouro, pérolas e vestuário dispendioso”. Disse-se tudo em louvor da beleza da santidade e da sua influência elevadora sobre o caráter humano — mas nada que mostrasse a sua incompatibilidade com o orgulho que a Bíblia tão fortemente condena. Não é raro ver até advogados da santidade adornados num estilo que, cinquenta anos atrás, os teria excluído da igreja cujos interesses agora trabalham tão zelosamente por promover.
A verdadeira santidade não é cega: tem olhos para ver e ouvidos para ouvir. Sem ser intrometida, é observadora; se não faz papel de detetive, também não assume a ignorância de um cúmplice. Sem ser cética, não é crédula: não chama de ouro tudo o que reluz; prova os que se dizem apóstolos, e consente de bom grado em ser provada por sua vez; não aceita profissões só porque as maneiras são agradáveis e as palavras, impecáveis.
A santidade bíblica implica ódio ao pecado. Este é um dos pontos em que difere da mera amabilidade natural. Não é aquela boa índole fácil que sorri para vícios que ela mesma não cometeria. Ela opõe resistência severa ao pecado em todos os seus disfarces; ergue-se como rocha contra as ondas populares da iniquidade; não dá lugar ao diabo. Satanás não pode ter caminho livre na presença da santidade: ela mantém o seu terreno contra todas as probabilidades e em todas as circunstâncias. “O temor do SENHOR consiste em odiar o mal” (Pv 8.13). “Vocês que amam o SENHOR, odeiem o mal” (Sl 97.10).
Quem é verdadeiramente santo odeia a primeira aparência de pecado em si mesmo. A sua consciência é sensível como a menina dos olhos. Um pensamento pecaminoso — mesmo sugerido por Satanás e imediatamente repelido pela mente — lhe dá mais inquietação do que uma ação pecaminosa lhe dava antes de a sua consciência ser purificada das obras mortas. O único mal que ele teme acima de todos é o pecado: evita-o como evitaria o abismo aberto a que ele conduz. Clama com o salmista: “odeio todo caminho de falsidade” (Sl 119.104); e ainda: “Odeio os que têm a mente dividida, mas amo a tua lei” (Sl 119.113). Diz Bunyan, com verdade: “Onde a graça de Deus está no coração, mostra-se inclinando a alma a abominar o pecado.”
Ele odeia o pecado nos outros. Não importa a que talentos, prendas ou posição esteja unido — abomina-o por inteiro. A popularidade do pecador não mitiga a repugnância que sente pelos seus pecados. Não há malícia no seu ódio; mas a alma santa sente aversão instintiva ao pecado, por mais polida que seja a sua aparência. “SENHOR, será que eu não odeio os que te odeiam? Será que não abomino os que se levantam contra ti? Eu os odeio com ódio completo; considero-os meus inimigos” (Sl 139.21-22). Isso não implica sentimentos irados e malévolos, mas uma aversão firme da alma para com os que odeiam a Deus. Quanto aos seus companheiros escolhidos, diz o salmista: “Sou companheiro de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos” (Sl 119.63).
O ódio ao pecado é essencial à combatividade que pertence ao caráter cristão. Nenhum discípulo de Cristo pode acomodar-se e gozar a vida sem fazer esforço algum pelo bem dos outros. Quem achou a Cristo proclamará a Cristo: “Aquele que ouve, diga: Vem!” (Ap 22.17). “Quem não é por mim é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha” (Mt 12.30). Mas, se a pessoa não sente ódio ao pecado, não fará guerra ao pecado. O homem que vai ao bar e bebe água enquanto o amigo bebe uísque pode ser pessoalmente sóbrio, mas certamente não será defensor muito caloroso da temperança. Foi quando Paulo viu a cidade inteiramente entregue à idolatria que o seu espírito se comoveu dentro dele, e ele lhes pregou o Deus vivo e verdadeiro. Lutero jamais teria sido reformador se a sua indignação não se despertasse contra as práticas pecaminosas da igreja: fez guerra à venda de indulgências porque odiava os pecados assim encorajados. Quem vê pouco ou nenhum mal no orgulho não insistirá na humildade. Quem julga que uma conspiração dos fortes contra os fracos — a união de crentes com incrédulos, cimentada pelos juramentos e penas mais terríveis — é assunto de tão pouca importância que não merece exame, não se oporá com seriedade às sociedades secretas. Assim é com o pecado em todas as suas manifestações: enquanto não for visto como “excessivamente maligno” e odioso, nenhum esforço vigoroso se fará para derrubá-lo. Os avivamentos definharão em esforços periódicos para promover os interesses de cada seita particular, e os convertidos, em vez de felizes em Deus, se tornarão, no máximo, prosélitos zelosos da opinião favorita.
O ódio ao pecado necessariamente exporá a pessoa à perseguição. Não pode ser de outro modo: Satanás jamais se renderá sem luta. Se atacado, atacará por sua vez; devolverá golpe por golpe. Não tem escrúpulos nem sente piedade; nenhuma mentira, contanto que revestida de verossimilhança, lhe será grande ou gritante demais para empregar; nenhum caráter estará bem estabelecido demais para que ele o assalte. Quando não pode usar violência, tira o máximo da difamação — arte de que é mestre consumado. É sempre o inimigo implacável de todo bem. Por isso declara o apóstolo: “Todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3.12). É declaração geral: aplica-se a todo tempo e lugar, e há de valer enquanto a santidade se opuser ao pecado. Nenhum grau de sabedoria ou prudência pode livrar alguém dessa consequência da vida piedosa. Se você não encontrou perseguição alguma, é sintoma alarmante: mostra que falta um elemento essencial na sua experiência religiosa — você não odeia o pecado.
O ódio ao pecado assegura a consolação do Espírito Santo. Não há alegria como a que ele comunica: “uma paz desconhecida das mentes sensuais, uma alegria indizível”. Com isso no coração, pode-se atravessar tudo o que, na providência de Deus, se é chamado a sofrer ou suportar. “A alegria do SENHOR é a força de vocês.” Contudo, muitos professos cristãos nada sabem dessa alegria: nunca a sentiram, e, quando a testemunham nos outros, parece-lhes fanatismo ou fogo selvagem. A razão de nunca a terem sentido é que nunca se entregaram a Deus o bastante para obedecer-lhe em tudo. “Você ama a justiça e odeia a maldade; por isso Deus, o seu Deus, o ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos seus companheiros” (Sl 45.7; Hb 1.9). Para ser “ungido com o óleo de alegria”, não basta amar a justiça: se você parar aí, não o receberá. Você deve dar um passo além e tornar-se participante de tanto da santidade divina quanto o faça odiar a maldade. Então, quando você tomar posição contra ela — quando enfrentar, imóvel como rocha, as vagas da maldade —, Deus derramará sobre você o óleo de alegria a tal ponto, que você não dará atenção aos sofrimentos que suportar pela sua fidelidade a Cristo: você terá o espírito de mártir.
O ódio ao pecado o capacitará a permanecer fiel a Deus em todas as circunstâncias. Você não retrocederá: enquanto o pecado parecer odioso, você não o abraçará. Enquanto você combater o pecado com verdadeiro fervor, por ser pecado contra Deus, não se tornará seu amigo. É a renúncia tíbia ao pecado que faz tantos caírem. Ló, em Sodoma, manteve a sua integridade porque, “pelo que via e ouvia, esse justo afligia a sua alma justa, cada dia, por causa das obras iníquas deles” (2Pe 2.8).
Honestidade é a disposição que nos leva a dar a cada um o que lhe é devido. Torna-nos atentos aos direitos dos outros; a sua influência se faz sentir em todas as relações da vida. Faz-nos mais ansiosos por dar aos outros os seus direitos do que por insistir nos nossos. Preferiríamos infinitamente ser vítimas da injustiça a ser injustos. A pessoa santa preferiria mil vezes sofrer o mal a praticá-lo. Vigia cuidadosamente para que outros não saiam perdendo por culpa sua. Nunca se aproveita da ignorância alheia: ao comprar, não deprecia o artigo para obtê-lo por menos do que vale; ao vender, não oculta defeitos para obter por uma coisa mais do que o seu valor real — dá de bom grado toda a informação necessária para se formar juízo correto no negócio.
Até o padrão pagão de honestidade não permitia que um homem se aproveitasse da ignorância de outro. Cícero propõe o seguinte caso: “Antístenes leva um carregamento de trigo a Rodes em tempo de grande escassez. Os ródios acorrem para comprar. Ele sabe que outros cinco navios carregados de trigo chegarão amanhã. Deve dizê-lo aos ródios antes de vender o seu trigo? Sem dúvida deve; do contrário, lucra com a ignorância deles, e não é melhor que um ladrão ou salteador.” Você pode dizer: “Negócios são negócios, e religião é religião” — mas isso não resolve nada. A Bíblia exige honestidade nos negócios. O homem santo regula e controla os seus negócios segundo os princípios da justiça. Contudo, muitos que professam a santa religião de Jesus se aproveitam de propósito da ignorância dos outros — e assim “não são melhores que ladrões e salteadores”.
Há quem se aproveite das necessidades alheias. Certo trabalho precisa ser feito, certo serviço, prestado; a necessidade é urgente. Quem se aproveita dessa necessidade e extorque preço desarrazoado pelo serviço prestado age precisamente pelo princípio do salteador de estrada, que se aproveita da condição indefesa do viajante e lhe exige a bolsa ou a vida. Quando nos dispomos a ajudar alguém, ainda que não haja estipulação quanto à compensação, as nossas obrigações para com Deus não nos permitem ser desarrazoados nas exigências: devemos fazer aos outros o que queremos que nos façam.
A santidade implica honestidade entre patrões e empregados. Se vendo a outro o meu tempo e a minha perícia, falhar em prestar-lhe o serviço pelo qual sou pago é ato tão realmente desonesto quanto roubar-lhe o caixa ou furtar-lhe as mercadorias. Por isso o apóstolo ordena aos que trabalham para outros que o façam “com simplicidade de coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar pessoas, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus. Sirvam de boa vontade, como ao Senhor e não como a pessoas, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor” (Ef 6.5-8). E os patrões devem dar aos empregados o que lhes é devido — sem se aproveitar das suas necessidades para obter o serviço por menos do que vale, nem pagar-lhes com aquilo de que não precisam. Um ministro eminente contratou um jovem para trabalhar-lhe durante a estação. No acerto de contas, o ministro deu-lhe uma promissória — o que na hora foi satisfatório. Mas as circunstâncias logo obrigaram o jovem a voltar para os seus, a considerável distância; e o ministro, como se diz, “descontou a própria promissória” com deságio. No que toca à honestidade, bem poderia ter-lhe furtado aquela quantia.
Nas relações de família, nas ocorrências diárias da vida, há necessidade do exercício constante deste princípio. Devemos seguir “a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” — não só na igreja, mas na família, no trato com o cônjuge, os filhos e os dependentes; na oficina e na lavoura; atrás do balcão e no escritório; no cumprimento das obrigações e no fechamento dos negócios; nas ruas e nos trens; e em todo o nosso convívio com o próximo.
Deus não faz acepção de pessoas. Isso não significa que ele olhe o justo e o ímpio com o mesmo grau de favor; significa que ele ama o pobre verdadeiramente piedoso tanto quanto o milionário ou o rei que não o serve melhor. Nas fileiras de um exército, em tempo de guerra, há homens de todas as posições da vida; mas para todos há os mesmos deveres e os mesmos perigos, e o caminho da promoção está aberto igualmente a todos. O que é verdade, ao menos em teoria, no exército, é verdade de fato na Igreja de Jesus Cristo: de todos se exige o mesmo espírito de obediência e renúncia. “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo” (Lc 14.33) não foi dito somente aos que não têm muito a renunciar: aplica-se com igual força ao príncipe e ao mendigo.
Na proporção em que nos tornamos santos, tornamo-nos participantes da mente que havia em Cristo. A pessoa santa não reivindicará nem aceitará, na casa de Deus, privilégio algum que lhe seja concedido por causa da sua riqueza e negado ao seu irmão pobre, mas igualmente digno. Para ela há profundidade de sentido nas palavras do Salvador: “Como podem vocês crer, se aceitam glória uns dos outros e não procuram a glória que vem do Deus único?” (Jo 5.44). Ela é “companheira” — igual — “de todos os que temem a Deus” (Sl 119.63), e não aceita honra alguma conferida por causa das vantagens mundanas superiores de que porventura goze. Consequentemente, a pessoa santa não deve comprar nem alugar assento numa casa de culto: fazê-lo seria sancionar uma prática que exclui os pobres da casa de Deus e introduz na igreja uma aristocracia baseada no dinheiro.
Diz Cristo: “aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11.5). Este é o milagre permanente do evangelho. As religiões falsas buscam os seus devotos entre os ricos e poderosos; o evangelho foi feito para os pobres — está adaptado às suas capacidades e às suas necessidades. Se os ricos o recebem, precisam descer ao nível dos pobres: depor o seu “ouro, pérolas e vestuário dispendioso” e revestir-se de humildade. Em todas as eras, os maiores triunfos do evangelho foram ganhos entre os pobres. Paulo, escrevendo aos santos de Corinto — uma das cidades mais orgulhosas do seu tempo —, disse: “Irmãos, reparem no chamado que vocês receberam. Poucos de vocês são sábios segundo os padrões humanos, poucos são poderosos, poucos são de nobre nascimento. Pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1Co 1.26-28). John Wesley começou a sua maravilhosa carreira entre os pobres, e os seus seguidores eram principalmente dessa classe.
Fossem santas as igrejas, as suas casas de culto estariam abertas aos pobres tão livremente quanto aos ricos, e haveria uma só comunhão para todos — como há um só Deus e Pai de todos nós. Quem é santo não pode, com coerência, pertencer a uma igreja que despreza os pobres. E, se graduar uma congregação segundo a sua riqueza — dando a quem pode e quer pagar mais o melhor assento, sem consideração do seu caráter cristão, ou sequer moral, e dando aos pobres assentos à parte — não é manifestar desprezo pelos pobres, não sabemos como isso se possa manifestar na casa de Deus. A verdadeira santidade corrigiria tudo isso: ela honra aqueles a quem Deus honra. Causaria problema, sim, aos que professam santidade recusar a sua sanção à venda do direito de ouvir o evangelho. Mas esta é a natureza da santidade: causar problema onde quer que toque o pecado. A luz não tem comunhão com as trevas, e onde uma prevalece é com exclusão da outra. Deus em parte alguma prometeu que os homens santos gozariam de isenção de tribulações; mas lhes é prometido um livramento final e glorioso.
Se você se recusar firmemente a fazer acepção de pessoas no juízo, pode atrair perseguição sobre si; mas de nenhum outro modo pode conservar limpa a sua alma. Há na santidade uma integridade genuína, que se recusa a ser desviada do juízo justo por qualquer receio de perigo ou expectativa de recompensa. Ela prefere “ser maltratada junto com o povo de Deus a usufruir prazeres transitórios do pecado” (Hb 11.25). Diz Jó: “Da causa que eu não conhecia, fazia cuidadosa investigação” (Jó 29.16) — não aceitava a voz popular como veredicto: examinava com cuidado, pesava com imparcialidade as provas e dava decisão justa. “Não sejam parciais no julgamento; não favoreçam os pobres nem prestigiem os grandes; julguem o seu próximo com justiça” (Lv 19.15).
Não pode haver santidade cristã sem amor supremo a Deus. Ele é a sua própria substância; nele tudo se resume. Um ser dotado da devida inteligência, e movido em todo tempo pelo amor supremo a Deus, jamais faltaria a dever algum: toda obrigação seria cumprida. O GRANDE MANDAMENTO é: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” (Mt 22.37). Uma falha aqui envolve falha em toda parte. Quem se agrada de protestos de amor quando está convencido de que falta o afeto? Assim Cristo nos assegura que os atos de devoção são indizivelmente repugnantes quando não brotam do amor: “Assim, porque você é morno e não é quente nem frio, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca” (Ap 3.16).
O amor a Deus não difere, na sua natureza, do amor ao próximo. Quanto mais puras as nossas concepções do objeto do nosso afeto, mais elevado o sentimento. Deus é infinito em todos os maravilhosos atributos da sua natureza; por isso o amor a ele é o afeto mais elevado e enobrecedor de que a mente humana é capaz. Inclui o deleite nele, o desejo de gozar a sua presença e aprovação, e a determinação de fazer a sua vontade. “Pois este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos” (1Jo 5.3).
Manifesta-se pelo desejo de agradá-lo. Tudo o que sentimos que agradará a Deus, ansiamos por fazer, ainda que envolva canseira e abnegação. Os homens de Davi o amavam; e, quando ele exprimiu o anseio por água de um poço que estava dentro das linhas do inimigo, cuidadosamente guardado, eles saíram e, de espada em punho, a obtiveram com risco da vida. Assim, quem ama verdadeiramente a Deus se alegrará com qualquer indicação de poder prestar-lhe serviço aceitável. Muitos mártires foram para a fogueira alegres, porque se lhes dava oportunidade de demonstrar ao mundo que o amor de Deus é mais forte que o amor à vida. Quem escolhe a vida religiosa porque ela lhe aumentará a reputação entre os homens — sem interferir seriamente no seu amor à comodidade, aos prazeres do mundo e à popularidade — carece por completo do primeiríssimo elemento do caráter santo. Se o nosso primeiro alvo não é agradar a Deus, não precisamos indagar mais: há falta fundamental. A mulher que se veste para agradar aos homens, e não a Deus, não deve fazer pretensão alguma à santidade — não pode haver nenhuma; professá-la é absurdo.
Quem ama a Deus de verdade procurará, com honestidade e cuidado, conhecer a sua vontade. “Como amo a tua lei! É a minha meditação o dia todo!” (Sl 119.97). E ainda: “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti… Alegro-me mais com o caminho dos teus testemunhos do que com todas as riquezas. Meditarei nos teus preceitos e às tuas veredas terei respeito” (Sl 119.11,14-15). Esta é a linguagem de quem ama a Deus. Ele estuda a Bíblia — não como crítico literário, mas com desejo sincero de conhecer a vontade de Deus a seu respeito. Nunca houve santo que não amasse a Palavra de Deus. O conhecimento que a pessoa santa deseja acima de todos os outros é o conhecimento da vontade de Deus; por isso estuda os escritos sagrados — não para firmar uma doutrina ou provar um ponto controverso, mas para descobrir realmente o que Deus exige dela. Não a perverteria, nem a faria dobrar-se à sua conveniência ou aos seus preconceitos. Mas perca alguém o amor de Deus do coração, e vai-se o gosto pela Bíblia: ela passa a ser negligenciada; e, se lida — como pode acontecer quando a luz se torna trevas —, é para que o seu sentido seja pervertido em desculpa para uma vida ímpia. Há muitos hoje, como nos dias do apóstolo, que “falsificam a palavra de Deus”.
A pessoa santa tem o ouvido aberto à voz de Deus na alma. Há uma voz mansa e delicada que quem ama a Deus não deixa de ouvir: quem formou o ouvido pode falar ao ouvido. Em muitas coisas sobre as quais a Palavra de Deus é silenciosa, ou fala só em termos gerais, precisamos de direções específicas do Espírito Santo. “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14). Se amamos a Deus, temos deleite em ouvi-lo falar-nos; ainda que venha repreensão, alegramo-nos em ouvi-la; ouvimos de bom grado até as advertências que o nosso Pai celestial nos dá. Mas a sua voz de aprovação compensa mil vezes quaisquer durezas que tenhamos atravessado, ou sacrifícios que tenhamos feito. De qualquer modo que Deus fale, e qualquer que seja o teor da sua mensagem, ele sempre acha, nos que o amam, ouvintes atentos, que no coração dizem: “Fala, SENHOR, porque o teu servo ouve.” Os verdadeiramente devotos também se deleitam em conhecer a vontade de Deus tal como mostrada nas leis físicas que governam os nossos corpos e as demais substâncias materiais: quem ama a Deus tende a amar a natureza.
Se amamos a Deus, temos alto apreço pela pregação e pela leitura que mais claramente revelam e mais fortemente aplicam a vontade de Deus. Provamos os que se dizem apóstolos. Era a espíritos encarnados — a pregadores e mestres do evangelho — que o apóstolo se referia ao dizer: “Amados, não deem crédito a qualquer espírito; pelo contrário, ponham os espíritos à prova, para ver se eles procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora” (1Jo 4.1). Ouviremos e sustentaremos pregadores — não por serem talentosos ou eloquentes, mas por falarem fielmente a Palavra de Deus. Isso será para nós de primeira importância: nenhuma oratória polida será aceita como substituto da fidelidade a Deus. A pessoa santa não pode encorajar os contemporizadores e acomodados; não pode desejar boa viagem aos que trazem outro evangelho; não ajuda falsos profetas — ainda que sejam da sua própria denominação — com a sua presença e o seu dinheiro. Isso, de novo, causará problema. Mas a santidade, num mundo pecador, sempre foi coisa incômoda — e o é justamente por ser santidade.
Além disso, se amamos a Deus, o manifestaremos pela obediência incondicional a todos os seus mandamentos. Não pode haver amor real a Deus sem o espírito de obediência. O nosso Salvador faz da obediência o teste do amor: “Quem tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). Isto é claro e conclusivo. Profissões de amor a Deus acompanhadas de desobediência manifesta aos seus mandamentos mostram como é fácil enganar-se. Cristo não pode errar; mas o mais inteligente de nós pode estar muito fora do caminho — especialmente na opinião que faz do próprio estado de graça. Só estamos seguros medindo-nos pelo padrão que Deus dá; e ele repetidamente dá a obediência como teste do amor. Devemos ter respeito a todos os seus mandamentos: não serve escolher os que está na moda obedecer e desprezar os comumente desprezados — tal caminho provaria que somos escravos da moda, e não servos de Deus. Foi isso que atraiu sobre os fariseus as mais severas denúncias que o Salvador jamais proferiu.
Finalmente, quem ama a Deus tem espírito de devoção: ama o culto de Deus — secreto, social e público. Os santos sempre foram um povo de oração; falam muito com Deus. Se não sabem usar as palavras persuasivas da sabedoria humana, sabem pleitear diante do trono com “gemidos inexprimíveis” — e as suas orações prevalecem: sabem que têm as coisas que pedem. Amam o propiciatório. Os que foram poderosos na terra para Deus foram poderosos na oração. Davi era guerreiro valente, mas as suas batalhas mais renhidas foram travadas no quarto de oração. Elias foi mais forte que o seu rei, teve poder sobre os elementos e venceu abertamente a morte, porque prevalecia na oração. Oração respondida converte-se em louvor — por isso quem ama a Deus se deleita nos seus louvores. Diz com o salmista: “Bendirei o SENHOR em todo o tempo; o seu louvor estará sempre nos meus lábios” (Sl 34.1). Veja como os Salmos estão cheios dos louvores de Deus. No Novo Testamento somos ordenados: “Alegrem-se sempre no Senhor.” Ora, se amamos a Deus, teremos deleite em fazê-lo. Tão cedo pensaríamos em pagar a outros para comer por nós o alimento necessário quanto em pagá-los para louvar a Deus por nós, enquanto a nossa própria língua se cala. Um povo santo jamais empregará outros para adorar a Deus em seu lugar. Jamais! Atos de culto executados por ímpios ou indiferentes — ainda que feitos com decência e ordem, e pagos pela igreja — são zombaria aberta, e não adoração. Mero som, por agradável que seja ao ouvido, não é adoração. “Deus é espírito; e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24).
A verdadeira santidade põe o homem nas relações mais íntimas com o seu Criador. Ele é filho de Deus — e disso está seguro pelo testemunho direto do Espírito. Os termos que exprimem a maior solicitude que um ser humano pode sentir por outro são empregados para representar o cuidado que o nosso Pai celestial tem pelos que andam diante dele na beleza da santidade. Pode algo exceder o cuidado de um pai pelo filho que ternamente ama? Como se esforça por dar-lhe a educação que melhor o prepare para os deveres da vida! Que abnegação pratica, muitas vezes, para consegui-lo! Como vela sobre a sua índole e trabalha por corrigir-lhe as faltas! Como o guarda das companhias que possam prejudicá-lo! Ora, diz Deus: “serei o Pai de vocês, e vocês serão para mim filhos e filhas, diz o Senhor Todo-Poderoso” (2Co 6.18). E o amor de mãe, se não é mais forte, é mais duradouro que o de pai: segue o filho, com ansiedade incessante, até os confins da terra e até o fim da vida; sobrevive à perda do caráter e ao naufrágio da esperança; vai, com olhos marejados, simpatia ardente e passo trêmulo, com o criminoso à cela e com o homicida ao patíbulo. Mas uma mãe pode esquecer-se do seu filho — Deus jamais se esquecerá dos que se separam para o seu serviço: deles se diz que estão gravados nas palmas das suas mãos, para estarem continuamente diante dele.
A pessoa santa, pois, confia em Deus. Todos os seus interesses, para o tempo e a eternidade, estão entregues à guarda daquele que nunca se cansa. Ela tem confiança em Deus. O filho amoroso não vive exigindo promessas: confia nos pais para todas as suas necessidades. Assim, a pessoa santa confia no próprio Deus: tem confiança na capacidade e na disposição do Pai celestial de fazer por ela o melhor que as suas circunstâncias pedem. Pode nem sempre ver como as coisas vão terminar — nem pede para ver. Sente a máxima certeza de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus; e com isso se satisfaz.
Ela confia em Deus, em particular, para toda a graça de que precisa. Sabe que Deus pode levá-la até o fim. O canal abastecido por um rio caudaloso pode ser pequeno, mas está sempre cheio: a fonte do abastecimento é inesgotável. Assim é com a fonte de toda bondade: há graça para nós em qualquer emergência; nunca precisamos ser vencidos. Por súbito que seja o ataque, o nosso Protetor está sempre à mão. Os dardos lançados contra nós podem ser inflamados, e arremessados com força tremenda, mas jamais atravessarão o nosso escudo. Os inimigos que nos assaltam podem ser legião — mas mais são os que estão por nós. Assim, a pessoa santa, sem ser presunçosa, está confiante em Deus: sabe em quem confia, e que ele é poderoso para guardar, em perfeita segurança, o que lhe foi confiado. Quaisquer que sejam os seus deveres, o que quer que Deus a chame a fazer, ele lhe dará graça para cumprir. Cargas crescentes de cuidado, trabalho e responsabilidade podem ser postas sobre ela; mas a sua força é tão multiplicada, que pode sempre testificar que o jugo de Cristo é suave e o seu fardo, leve. Tentações furiosíssimas, sutilíssimas e habilmente adaptadas ao seu fim podem assaltá-la; mas ela sempre acha que, com a tentação, Deus provê o escape, para que a possa suportar. A sua confiança de que Deus lhe dará força aumentada, à medida das suas necessidades, nunca falha. Não vive desanimada, pronta a abandonar a batalha; renova-a ousadamente de tempos em tempos, e avança para novas conquistas e para a extensão do reino de Cristo. Sabe que a batalha é do Senhor, e nunca espera derrota.
Ela confia em Deus para as bênçãos temporais. Se Deus é o doador de toda boa dádiva e todo dom perfeito, é natural esperar que proveja para os seus filhos. E a sua Palavra declara que “nenhum bem recusa aos que andam retamente”. Ele sabe melhor o que nos convém. Tomamos os remédios que prescreve um médico em quem confiamos, sem saber de antemão que efeitos terão; e não aceitaremos com igual alegria, da mão do nosso Pai, as dispensações temporais que ele ordenar? A decepção pode ser amarga — mas pode ser exatamente o remédio de que precisamos para aguçar o apetite pelo alimento espiritual. As fadigas e privações podem ser penosas à carne — mas podem ser necessárias para purificar o nosso espírito da sua grosseria e prepará-lo para o voo às alturas. Seja como for, Deus nos dará o que é melhor, se andarmos diante dele na luz da santidade. Toda pessoa santa tem a confiança mais ilimitada na declaração: “Busquem, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6.33). Isso não a torna indolente nem imprevidente — muito ao contrário: trabalha incansavelmente, porque trabalha com esperança. “Não sejam preguiçosos; pelo contrário, sejam fervorosos de espírito, servindo ao Senhor” (Rm 12.11). Faz o melhor que pode, despede toda ansiedade e entrega tudo às mãos de Deus — alma e corpo, tempo e eternidade. Quem pode confiar em Deus para a sua felicidade no outro mundo certamente não hesitará em confiar-lhe o suprimento das suas necessidades pelos poucos anos fugazes da sua existência probatória. Se Deus cuida dos bois e cuida da erva do campo, cuidará dos seus filhos: as suas necessidades serão supridas, se cumprirem o seu dever. Ele pode mandar maná no deserto e tirar água da rocha de pederneira. Por isso a pessoa santa descansa na promessa: “o seu pão lhe será dado, e a sua água será certa”. O seu Protetor está sempre à mão; o seu Provedor, sempre perto. O Senhor é o seu refúgio; o Altíssimo, a sua habitação. “Os que confiam no SENHOR são como o monte Sião, que não se abala, mas permanece para sempre” (Sl 125.1).
Vimos que não pode haver verdadeira santidade sem o amor de Deus. Tampouco pode havê-la sem amor ao próximo: os dois andam juntos. O segundo grande mandamento é: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo” (Mt 22.39). O nosso Salvador, no relato que faz do bom samaritano (Lc 10.30), ensina que o nosso próximo é qualquer pessoa — ainda que de nação hostil — que precise da nossa simpatia e do nosso socorro. A pessoa santa sente vivo interesse pelo bem-estar dos seus semelhantes. O seu coração é largo: abrange a humanidade. Os seus braços são longos: levam socorro aos que perecem nos confins da terra. Ela entra no espírito da grande comissão: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). A sua lei não conhece fronteiras; os seus esforços por fazer o bem não se confinam a limites territoriais; a sua justiça sai “como uma tocha acesa” (Is 62.1).
Além da boa vontade ativa para com toda a humanidade, a santidade implica amor especial pelos nossos irmãos, os filhos de Deus. O Novo Testamento é explicitíssimo neste ponto: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4.20). Nenhum comentário pode tornar estas palavras mais claras. “Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1Jo 3.14). Esse amor não é mero sentimento: é afeto ardente. Faz-nos cuidar dos interesses e do bem-estar uns dos outros. Temos prazer na companhia uns dos outros, “não deixando de congregar-nos… mas exortando-nos uns aos outros”. Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele. Se uma alma está em necessidade, os que têm estão prontos a suprir. “Se alguém tiver recursos deste mundo, e vir o seu irmão passar necessidade, e fechar-lhe o coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1Jo 3.17). Se alguém está em perigo, outros partilham o seu perigo. Este é o espírito da verdadeira santidade, plenamente exemplificado nos cristãos primitivos. Diz Paulo: “depois de iluminados, vocês sustentaram grande luta e sofrimentos; ora expostos publicamente a insultos e tribulações, ora tornando-se solidários com aqueles que foram tratados dessa forma. Porque vocês não somente se compadeceram dos encarcerados, como também aceitaram com alegria o confisco dos seus próprios bens, sabendo que vocês têm patrimônio superior e durável” (Hb 10.32-34). Luciano, escritor romano, diz dos primeiros cristãos: “É incrível a presteza com que agem quando sabem que algum dos seus amigos está em apuros. Numa palavra, não poupam nada em tal ocasião — pois esses homens miseráveis não duvidam de que serão imortais e viverão para sempre; por isso desprezam a morte, e muitos se entregam aos sofrimentos. Além disso, o seu primeiro legislador lhes ensinou que são todos irmãos, uma vez convertidos, tendo renunciado aos deuses dos gregos, e que adoram esse Mestre deles que foi crucificado, e se comprometem a viver segundo as suas leis. Têm também soberano desprezo por todas as coisas deste mundo, e as consideram comuns.” Este é o testemunho de um inimigo.
A pessoa santa não ama indiscriminada e cegamente os que professam ser cristãos só porque pertencem à mesma igreja que ela — isso revelaria espírito partidário. Ela prova os que se dizem apóstolos. O seu amor não é resultado de raciocínios, nem se baseia em qualidades naturais ou dons adquiridos: brota do amor de Cristo. Amamo-lo tanto, que instintivamente amamos os seus verdadeiros amigos. Os que andam na luz têm comunhão uns com os outros: encontram-se, e os seus corações correm naturalmente juntos. Raios de luz vindos da mesma fonte misturam-se facilmente; correntes vivas, por mais separadas, unem-se por fim no oceano. As pessoas santas sentem aquela união de espírito que propriamente se chama comunhão dos santos.
A santidade implica amor aos inimigos. É impossível ter verdadeira santidade sem ter inimigos: Cristo os teve, e disse aos discípulos que os teriam. “Se vocês fossem do mundo, o mundo amaria o que era seu. Como, porém, vocês não são do mundo, pelo contrário, dele os escolhi, por isso o mundo odeia vocês” (Jo 15.19). Se você pertence a Cristo, os inimigos dele serão os seus: eles o odiarão; a sua hostilidade às vezes tomará forma ativa; irão tão longe quanto a lei permitir na manifestação dessa hostilidade; irão difamá-lo, deturpar as suas ações e impugnar os seus motivos. Que deve você fazer? Ficar firme e ver a salvação de Deus. Deve sentir por eles a compaixão que sentiria por um insano; não perder oportunidade de fazer-lhes o bem; nunca irritar-se com eles, nem tentar pagar-lhes mal por mal. A ordem do Salvador é claríssima: “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mt 5.44). Esta é a santidade da Bíblia. Nenhuma outra religião senão a de Jesus capacita alguém a isto. Pode haver a aparência: a ira pode ser reprimida à força de resolução. Mas só Deus é capaz de fazer-nos amar realmente os nossos inimigos e empenhar-nos honestamente pelo seu bem. O Espírito Santo nos capacitará a odiar o pecado e amar o pecador; far-nos-á bondosos para com eles, mas não indulgentes com as suas faltas. A santidade não é cega: tem olhos além de coração; nunca confunde trevas com luz. Para quem tem verdadeira santidade, não é difícil obedecer ao mandamento: “se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber; porque, fazendo isto, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele” (Rm 12.20).
A alegria forma elemento essencial da verdadeira santidade. Como o calor penetra a matéria, assim a alegria se infunde por toda alma santificada. Pode manifestar-se mais numas ocasiões do que noutras, mas está sempre ali. Não que o santo de Deus esteja isento de tristezas; mas, em meio aos sofrimentos, pode dizer com o apóstolo: “entristecidos, mas sempre alegres” (2Co 6.10). Embarcações que flutuam num rio são empurradas rio acima pelo vento; mas, por baixo, a correnteza segue firme para o oceano. Assim, as ocorrências tristes da vida causam pesar ao santo, enquanto, no fundo do coração, a alegria reina imperturbada.
Essa alegria não é de origem terrena. Não está ligada à prosperidade temporal: a prosperidade não a cria; a adversidade não a destrói. A boa opinião dos semelhantes não a põe em movimento, nem as suas perseguições detêm o seu fluxo constante. Não brota da consciência da posse de dons, naturais ou da graça. É sobrenatural na origem; pura e santa na natureza. Vem de Deus tão diretamente quanto o perdão vem de Deus; é comunicada à alma pelo poder direto do Espírito. Por isso é chamada alegria do Espírito Santo — a alegria que o Espírito Santo comunica. É felicidade dada por Deus — felicidade intensificada. Não é leviandade: é alegria sólida.
Há forte tendência a subestimar essa alegria. Professos cristãos falam dela com frequência em tom de desprezo, como emocional, própria só de mentes fracas e de curta duração. Que é emocional, admitimos — também o é a compaixão que nos leva a socorrer o sofredor, sem a qual somos “como o bronze que soa ou como o címbalo que retine” (1Co 13.1). E quem lê a Bíblia verá que pessoas de mente fortíssima foram tomadas de alegria em grau avassalador. Davi era homem poderoso; mas tão grande foi o seu júbilo quando a arca do Senhor subiu à sua cidade, que “dançava diante do SENHOR com todas as forças”. Quando a sua orgulhosa mulher viu “o rei Davi saltando e dançando diante do SENhor, sentiu desprezo por ele no seu coração” (2Sm 6.14,16) — mas Deus a amaldiçoou e abençoou o rei. Quanto à duração: a alegria santa há de durar para sempre. “Os resgatados do SENHOR voltarão e virão a Sião com júbilo, e alegria eterna coroará a sua cabeça; gozo e alegria alcançarão, e deles fugirá a tristeza e o gemido” (Is 35.10).
Que essa alegria é elemento essencial da verdadeira santidade, provamo-lo das Escrituras. “Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, tu me encherás de alegria com a tua presença” (At 2.28). O caminho da vida é o conhecimento salvador de Deus; um olhar de aprovação dele enche a alma de alegria. “Eu os verei outra vez; o coração de vocês se alegrará, e ninguém tirará de vocês a sua alegria” (Jo 16.22). Os discípulos estavam tristes com a perspectiva de Jesus deixá-los; ele os consolou com a promessa de que se manifestaria a eles espiritualmente — estaria com eles sempre —, e isso lhes daria uma alegria que ninguém poderia tirar. Essa alegria está tão livre para os discípulos de Jesus hoje quanto então. Mais: está positivamente prometida. “Quem tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14.21). Toda alma santa obedece a Cristo; e assim Cristo lhe dá uma alegria que homem nenhum pode tirar. “Porque o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rm 14.17). Aqui se diz que a santidade consiste em três elementos: temos tanto direito de concluir que a possuímos quando nos falta a justiça quanto quando nos falta a alegria. Deus juntou os três; não os separe o homem. “Os discípulos, porém, transbordavam de alegria e do Espírito Santo” (At 13.52) — e isso em meio a violenta perseguição. “Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23). Ninguém pode ter verdadeira santidade sem ter o Espírito de Deus; mas, onde quer que o Espírito de Deus esteja, produzirá os seus frutos próprios — não um, mas todos; não só em localidades favoritas, mas em toda parte; não ocasionalmente, mas constantemente. A alegria é fruto do Espírito tão realmente quanto o amor ou a paz: quem tem o Espírito de Deus tem alegria. “Nele vocês creem, apesar de não o verem agora. E alegram-se com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). Quem goza a verdadeira santidade é crente em Jesus; mas todos os crentes têm alegria indizível e cheia de glória. Como são explícitas as Escrituras neste ponto! Mostram claramente que, onde está a santidade, ali está a alegria. Poderíamos prosseguir indefinidamente, pois as Escrituras são tão abundantes quanto claras; mas, se as passagens citadas não convencem, prova nenhuma bastará: a dificuldade está fora do alcance do argumento — está no coração, não no intelecto.
E não estamos sós na nossa opinião sobre o ensino da Bíblia nesta matéria. Diz John Wesley: “A verdadeira religião — o coração reto para com Deus e os homens — implica felicidade além de santidade; não é só justiça, mas também paz e alegria no Espírito Santo: alegria operada no coração pelo Espírito Santo, pelo bendito Espírito de Deus. Essa paz, alegria e amor — essa mudança de glória em glória — é o que a sabedoria do mundo decretou ser loucura, mero entusiasmo, completa insensatez. Mas tu, ó homem de Deus, não os consideres; não te movas por nenhuma dessas coisas; cuida que ninguém tome a tua coroa. A alegria no Espírito Santo purificará a alma muito mais eficazmente do que a falta dessa alegria; e a paz de Deus é o melhor meio de refinar a alma da escória dos afetos terrenos. Sem dúvida, a nossa alegria no Senhor crescerá à medida que crescer o nosso amor.” O presidente Edwards era calvinista rígido — homem de intelecto gigantesco, grande saber e sólida piedade. Diz ele: “As Escrituras falam da alegria santa como grande parte da verdadeira religião; assim ela é representada, e como parte importante da religião é exortada e instada com grande seriedade: ‘Agrade-se do SENHOR, e ele satisfará os desejos do seu coração’ (Sl 37.4); ‘Alegrem-se no SENHOR, justos’ (Sl 97.12; 33.1); ‘Alegrem-se e exultem’ (Mt 5.12); ‘Finalmente, meus irmãos, alegrem-se no Senhor’ (Fp 3.1); ‘Alegrem-se sempre no Senhor; outra vez digo: alegrem-se’ (Fp 4.4); ‘Alegrem-se sempre’ (1Ts 5.16); ‘Alegre-se Israel naquele que o fez; exultem no seu Rei os filhos de Sião’ (Sl 149.2). Ela é mencionada entre os principais frutos do Espírito da graça (Gl 5.22). O salmista menciona a sua alegria santa como evidência da sua sinceridade: ‘Alegro-me mais com o caminho dos teus testemunhos do que com todas as riquezas’ (Sl 119.14). Quem não tem afeição religiosa alguma está em estado de morte espiritual, inteiramente destituído das influências poderosas, vivificantes e salvadoras do Espírito de Deus sobre o seu coração.”
Os hinos cantados por todas as denominações apresentam exatamente esta visão da alegria como elemento essencial da verdadeira santidade. Em muitas igrejas se canta com Watts que os homens da graça acharam “a glória começada aqui embaixo”. Se a glória não começou no seu coração, há falta séria na sua experiência. Igualmente cantamos com Charles Wesley: “Quão feliz todo filho da graça, que sabe perdoados os seus pecados.” Sentimentos semelhantes se acham em todo hinário ortodoxo. Se não são verdadeiros, por que cantá-los? É certo cantar mentiras? Se são verdadeiros, por que acomodar-se na experiência religiosa sem essa alegria, como se um elemento essencial da santidade não tivesse importância? Muitos não só fazem isso, como até se opõem e perseguem os que, pela graça, podem alegrar-se “com alegria indizível e cheia de glória” (1Pe 1.8). Outros, sem ir tão longe, tratam esses que se alegram de modo condescendente, como quem os tolera e deles tem pena. A verdadeira santidade, por si mesma, fará feliz e triunfante quem a possui. As suas fontes estão em Deus, e nunca secam. Ela não vai ao mundo em busca de prazeres, mas farta-se “da abundância” da casa de Deus e bebe “do rio das suas delícias” (Sl 36.8).
É mais fácil seguir do que abrir caminho. Navegadores comuns podem cruzar o oceano depois que Colombo mostrou a rota. Algumas lições de Morse habilitam qualquer pessoa de aptidão comum a enviar uma mensagem a mil milhas num instante. Não esperamos, antes de embarcar num empreendimento que julgamos vantajoso, que todos os demais já tenham entrado nele: se ele se recomenda ao nosso juízo, e um único indivíduo, sem vantagens superiores às nossas, alcançou êxito notável, avançamos com ousadia. Por que não fazer o mesmo na experiência religiosa? Por que correr risco maior pelo ouro que perece do que pelo ouro provado no fogo? Por que seguir com a multidão pelo caminho largo, juncado de destroços de esperanças, que termina em trevas e destruição? Por que negligenciar o caminho estreito, que uns poucos demonstraram ser não só viável, mas cada vez mais deleitoso, até nos levar aonde há delícias perpetuamente? Em todas as eras houve quem experimentasse a bênção da santidade no coração e a exemplificasse na vida. Não foram os honrados da terra: em geral foram perseguidos e desprezados em vida; o seu verdadeiro caráter foi entendido e apreciado por poucos. Mas deixaram um exemplo que brilhará com lustre crescente até as últimas gerações.
ABEL lidera a vanguarda do exército lavado no sangue. Pouco sabemos dele; mas isto nos é dito: não confiou na sua bondade natural, mas veio a Deus pela fé no sangue expiatório. Trouxe das primícias do seu rebanho; a sua oferta falava do seu senso de pecado, da sua penitência e da sua aceitação da grande verdade de que “sem derramamento de sangue não há remissão”. Achou favor e aceitação diante de Deus, e morreu como mártir. “Pela fé, Abel ofereceu a Deus sacrifício superior ao de Caim. Por meio dela, obteve testemunho de que era justo, dando o próprio Deus testemunho a respeito das suas ofertas. Por meio dela, mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4).
Era o sétimo desde Adão. Em que sentido aqueles tempos seriam mais favoráveis à vida piedosa do que os presentes, não conseguimos imaginar. Se o mundo não tinha tão longa experiência na maldade, tampouco a tinha na bondade. Não havia revelação escrita da vontade de Deus; faltavam os incontáveis exemplos que temos dos efeitos ruinosos do pecado e das vantagens da santidade. Os homens maus deviam ter perícia ainda maior do que hoje em desencaminhar os bons, pois viviam muito mais. Que a maldade abundava está fora de disputa, pois Enoque morreu só uns oitenta anos antes do nascimento de Noé — e lemos que, nos dias de Noé, “todos os seres viventes haviam corrompido o seu caminho na terra” (Gn 6.12). Ora, a corrupção geral vem gradualmente: devia haver, pois, grande maldade nos dias de Enoque. Mas, no meio dela, “Enoque andou com Deus” (Gn 5.22). Nesta simples declaração há um mundo de significado: é testemunho inquestionável do seu completo livramento de todo pecado e da sua posse de toda graça necessária para constituir um caráter santo. E o curso diário da sua vida era firme e uniforme: não era governado ora por alto princípio religioso, ora arrastado pela loucura no seu séquito. Exemplificou a santidade em todas as relações da vida: conheceu todos os cuidados e provações que pesam sobre o chefe de família, mas a sua paciência, a sua fé, a sua coragem nunca falharam. Com o passar dos anos, não contemporizou, como tantos fazem: manteve-se fiel a Deus até o fim. Não se calou na presença do pecado: deu testemunho franco contra a impiedade crescente ao redor. “Eis que veio o Senhor com as suas santas miríades, para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e de todas as palavras insolentes que pecadores ímpios proferiram contra ele” (Jd 14-15). Esta passagem notável mostra tanto a maldade dos tempos quanto a fidelidade de Enoque em dar advertência fiel; mostra também que a imortalidade da alma era doutrina bem entendida naqueles dias — a linguagem implica claramente que os santos mencionados estavam com Deus, pois haviam de vir com ele. Durante trezentos anos esse homem santo “andou com Deus”. Tão completo foi o seu livramento do pecado, que até o seu corpo constituiu exceção e não voltou ao pó. Em Gênesis se diz: “e já não era, porque Deus o levou” (Gn 5.24). São Paulo o explica: “Pela fé, Enoque foi trasladado para não ver a morte; não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois, antes da sua trasladação, obteve testemunho de haver agradado a Deus” (Hb 11.5).
Deus não se deixa sem testemunha. Quando todos os seres viventes haviam corrompido o seu caminho na terra, e a terra estava cheia de violência, Noé permaneceu fiel a Deus. Ficou sozinho. A maldade era geral — e intensíssima: os homens viviam muito e tornavam-se proficientes no crime. “Viu o SENHOR que a maldade do ser humano havia se multiplicado na terra e que toda a inclinação dos pensamentos do seu coração era continuamente má” (Gn 6.5). É impossível descrever o pecado como mais intenso ou mais arraigado. No meio dessa corrupção moral, Noé viveu vida santa por seiscentos anos. Teve todos os elementos da verdadeira santidade. Houve forte poder de resistência: nunca há na terra um Éden em que o tentador não entre; não se podem construir muros tão altos que barrem os emissários do mal; todo apóstolo da verdade achará aparente vantagem em vender o seu Mestre; quem se dispõe a seguir os caminhos maus nunca ficará sem quem lhe mostre a direção. Nas localidades mais favorecidas se acham maus exemplos; quem toma a estrada larga que conduz à perdição nunca terá falta de companhia. Amigos e vizinhos, parentes e conhecidos de Noé abandonaram todos o serviço de Deus. Na maioria dos lugares acha-se, aqui e ali, alguém com o temor de Deus diante de si; mas não era assim naquela era do mundo: fosse Noé tão longe quanto pudesse, em qualquer direção, não acharia assembleia de santos — pois não havia santos para se reunirem; toda reunião era reunião ímpia; todo homem era homem ímpio. Resistir a essa corrente de corrupção exigia energia moral — e ele a teve. Nós também podemos tê-la: a força da gravidade é hoje tão grande quanto quando o mundo foi lançado na sua órbita; assim, a graça não degenera: pode fazer por nós tudo o que fez pelos patriarcas do mundo na sua infância.
Noé era homem justo: cumpria todas as obrigações, para com Deus e para com o próximo. Alguns que se dizem honestos, quando a oportunidade se oferece, tiram vantagem dos que tiraram vantagem deles: procuram ficar quites com os desonestos; se o governo lhes rouba, não hesitam em defraudar o governo; se suspeitam que outros deturpam, as suas próprias declarações devem ser recebidas com reserva. Mas Noé era justo. A honestidade é essencial à santidade: é parte pequena dela, mas parte necessária; nenhum excesso noutras direções compensa a falta aqui. Era homem devoto: andando retamente entre os homens, mantinha espírito de verdadeira devoção a Deus; em tudo era guiado pelo Espírito; a sua vida era de comunhão com Deus; as suas orações e louvores não eram formais — ele andava com Deus. Sem espírito de devoção, a moralidade mais rígida faz de alguém apenas um estoico, não um cristão: falta um ingrediente essencial. Sem o amor de Deus não pode haver verdadeiro serviço de Deus; mas, se amamos a Deus, andaremos com ele: teremos consciência da sua presença; ele falará conosco, e nós com ele. Era coerente: a sua piedade era toda de um só padrão — sem redundância nem falta. Alguns, devotíssimos fora, são maus-humorados em casa; alguns dão com liberalidade, mas ganham o dinheiro por práticas questionáveis; outros são cheios de integridade, bondosos, polidos, firmes — mas encorajam o orgulho, pelo silêncio e pelo exemplo; muitos aguentam bem por um tempo, e depois esfriam gradualmente até a temperatura ao redor. Mas Noé era íntegro entre os seus contemporâneos (Gn 6.9): começou bem e perseverou como começou.
Na verdadeira santidade há simetria de caráter. Cada um tem os seus defeitos naturais; mas a graça destina-se a suprir esses defeitos: o que é saliente demais, ela abaixa; o que é errado, remove; o que falta, fornece. Qualquer pessoa pode tornar-se santa: o que for necessário para isso, Deus pode comunicar pela poderosa operação do seu Espírito. A Bíblia não só afirma que Noé era perfeito: o Salvador nos ordena ser perfeitos. “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48). Isso diz respeito não a uma boa qualidade em particular, mas a todas: é a aplicação prática, feita pelo Salvador, dos seus próprios benditos ensinos; requer sentimentos retos para com o próximo e conduta correspondente em cada particular; ordena o amor aos inimigos, o trato bondoso de todos e o pleno cumprimento das obrigações que devemos ao Pai celestial. O fim visado em todos os ensinos da Bíblia é essa completude do caráter cristão: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino… a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17). São Paulo também nos diz que foi para assegurar essa perfeição das graças cristãs que o ministério foi dado: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, ao estado de pessoa madura, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4.11-13). Com todos esses auxílios, espera-se que o mais fraco cristão exceda o mais poderoso santo que viveu e morreu sem eles. “Em verdade lhes digo que, entre os nascidos de mulher, ninguém apareceu maior do que João Batista; mas o menor no Reino dos Céus é maior do que ele” (Mt 11.11). Não é a isso que o profeta se refere quando diz: “o mais fraco entre eles, naquele dia, será como Davi” (Zc 12.8)?
O lugar que o livro de Jó ocupa na Bíblia pode deixar impressão errada quanto ao tempo em que ele viveu. Supomos naturalmente que os livros colocados primeiro foram escritos primeiro — o que nem sempre é o caso. O dr. George Smith, na sua obra sobre a era patriarcal, mostra conclusivamente que Jó nasceu cerca de duzentos e oitenta anos depois da morte de Noé; viveu na Arábia quando a Babilônia e a Assíria estavam na infância. O livro de Jó, provavelmente escrito por ele mesmo, é sem dúvida o livro mais antigo que existe. Como produção literária, desafia a nossa mais alta admiração: a sua poesia é do tom mais elevado, e as suas alusões às ciências naturais resistiram à crítica das eras. Quanto ao caráter de Jó, o próprio Deus dá o testemunho mais claro: chama-o seu servo e diz: “ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, que se desvia do mal” (Jó 1.8). Ele manifestou a sua piedade nas mais variadas circunstâncias, e com os resultados mais satisfatórios. É mencionado na Bíblia como um dos três homens santos de maior poder com Deus: “ainda que estes três homens, Noé, Daniel e Jó, estivessem no meio dela, pela sua justiça livrariam apenas a sua própria vida, diz o SENHOR Deus” (Ez 14.14).
Vejamos alguns elementos do caráter desse homem que tão alto esteve no favor de Deus. Era homem perfeito. A palavra “perfeito”, tal como usada na Bíblia nestas conexões, é termo qualificativo não tanto de grau quanto de espécie: significa “inteiro”, “completo”, sem falta de nada; implica não o excesso de uma qualidade moral e a correspondente falta de outras, mas a mistura harmoniosa de todas as virtudes morais nas suas devidas proporções. Há, e sempre houve, poucos santos assim no mundo: na maioria, falta simetria; as suas vidas parecem uma região montanhosa — ora para cima, ora para baixo; as suas graças estão fora de proporção. Mas o caráter de Jó era devidamente equilibrado. Era homem reto. Este é o caráter que o homem possuía antes da queda: Deus fez o homem reto, e Jó havia recobrado esse caráter original. Era governado, em todas as relações da vida, pelos princípios da integridade genuína: nenhuma oportunidade de promover os próprios interesses podia fazê-lo desviar-se do certo no menor grau. A santidade que não faz os homens honestos é hipocrisia, não santidade. Retidão é a disposição que leva a dar a todos o que lhes é devido. O homem que se obriga, por juramentos, a encobrir da justiça os seus associados não pode ser reto: os pesados juramentos que pesam sobre ele o fazem pender do lado errado; enquanto reconhecer a força obrigatória de tais compromissos, é impossível que seja homem reto. Mas Jó estava livre para tratar com justiça a todos: não dava preferência a ninguém por associação ou vínculo algum. Temia a Deus: não era um frio moralista pagão; tinha profunda e permanente reverência pelo Criador; o temor de incorrer no desagrado de Deus era elemento dominante na sua natureza. “Os meus pés seguiram as suas pegadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele. Nunca me apartei dos mandamentos dos seus lábios e guardei as palavras da sua boca mais do que o meu alimento… Por isso me perturbo diante dele; e, quando considero isso, tenho medo dele” (Jó 23.11-15). Não pode haver verdadeira santidade sem o temor de Deus: a piedade que o omite é fraca e enervada, e sempre cede sob a pressão da tentação — é terrena na origem, nos motivos, na política e na tendência. Desviava-se do mal: consequência natural de temer a Deus. “O temor do Senhor é apartar-se do mal.” Onde a maldade prevalece aberta e geralmente, verificar-se-á que o temor de Deus foi lançado fora. Nos avivamentos em que os convertidos continuam orgulhosos e vaidosos como antes, apegados a todas as suas associações mundanas, verificar-se-á que a pregação é de natureza pouco calculada para produzir o temor de Deus. “Conhecendo o temor do Senhor, persuadimos os homens.” Os velhos avivalistas — Wesley, Edwards, Knapp, Redfield —, cujos convertidos em geral perseveravam no caminho estreito, eram homens que proclamavam a lei de Deus em tons de trovão, e lançavam o fundamento de uma experiência cristã genuína e de uma vida cristã coerente gerando na mente dos ouvintes um salutar temor de Deus.
Jó exemplificou os princípios da santidade em todas as relações da vida e nas circunstâncias mais provadoras. Como pai, quão cuidadoso era do bem-estar espiritual dos filhos! “Decorridos os dias dos banquetes, Jó mandava chamá-los e os santificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: Talvez os meus filhos tenham pecado e blasfemado contra Deus no seu coração. Assim Jó fazia continuamente” (Jó 1.5). Como governante — pois Jó, como patriarca, era governante entre o seu povo —, era justo e misericordioso; tal era a sua retidão como juiz, que era tratado com o maior respeito por todos: “Quando eu saía para a porta da cidade, quando na praça preparava a minha cadeira, os jovens me viam e se retiravam; os idosos se levantavam e ficavam em pé; os príncipes continham as suas palavras e punham a mão sobre a boca… Os ouvidos que me ouviam me chamavam feliz, e os olhos que me viam davam testemunho a meu favor; porque eu livrava os pobres que clamavam, e também os órfãos que não tinham quem os socorresse. A bênção dos que estavam prestes a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva. Eu me cobria de justiça, e ela me servia de veste; como manto e turbante era a minha equidade. Eu era os olhos do cego e os pés do coxo; era pai dos necessitados, e até as causas dos desconhecidos eu examinava. Eu quebrava os queixos do injusto e dos seus dentes arrancava a presa” (Jó 29.7-17). Quem dera todos os nossos magistrados fossem homens desse caráter!
Assim Jó exemplificou a santidade na prosperidade. Mas vieram os reveses: os filhos, ceifados de súbito pelo golpe do vendaval; os bens, varridos; uma doença repugnante devorando-lhe o corpo; os amigos decidindo contra ele — como os amigos costumam fazer quando mais deles precisamos; e até a mulher do seu peito voltou-se contra ele, dizendo com censura: “Você ainda mantém a sua integridade? Amaldiçoe a Deus e morra” (Jó 2.9). E, contudo, sob esse acúmulo de provações, a fé de Jó em Deus não cedeu um só instante: manteve a fidelidade a Deus até o fim. A verdadeira santidade adapta-se igualmente a nós em todas as relações e circunstâncias da vida: é coroa de beleza para os jovens, fonte inesgotável de força para os de meia-idade, apoio inabalável para os idosos, e para todos abrigo seguro contra os raios abrasadores da prosperidade e as tempestades devastadoras da adversidade. Siga a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor.
A santidade está popular. Há grande perigo de levá-la longe demais: já se faz o esforço de santificar coisas que não podem ser santificadas. Há um limite para os objetos da santificação — há coisas que, pela sua natureza, não são capazes de ser tornadas santas. O melhor matemático não pode ensinar a tabuada a um boi, nem álgebra a um cavalo. Uma igreja levantada na providência de Deus para espalhar a santidade bíblica pela terra não pode tornar santo o jogo, nem santificar o orgulho. As coisas que Deus proíbe devem ser postas fora, não reformadas. Todas as tentativas de reformar o que a Palavra de Deus proíbe devem ser abandonadas. Deus põe o machado à raiz da árvore: apliquemos ali os nossos golpes; e, embora a árvore pareça florescer como sempre, trabalhemos — ela cairá quando as raízes forem cortadas. Você pode aparar os galhos e exibir resultados no punhado de ramos cortados que carrega em triunfo; mas a árvore só ficará mais vigorosa com a poda.
A adoração do dinheiro não pode ser santificada. Aos olhos do mundo, os homens são avaliados menos pelo seu valor do que pela sua riqueza. A capacidade de ganhar e conservar riqueza é tratada como virtude cardeal; homens maus e incompetentes são eleitos e nomeados para altos cargos sem outra razão senão serem ricos. Essa adoração de Mamom é errada: é idolatria; degrada a dignidade humana e insulta a Deus. É inteiramente má — má em si mesma —, e não pode ser santificada levando-a para a casa de Deus e fazendo-a contribuir para o sustento do evangelho. É tão errado dar a um homem assento na casa de Deus por ser rico quanto dar-lhe assento no Congresso ou no gabinete pela mesma razão. É tão perverso negociar bancos de igreja quanto negociar votos; tão corrupto comprar o caminho até um assento de frente na igreja quanto comprar uma cadeira no Legislativo. O princípio que está no fundo é o reconhecimento servil do Dólar Todo-Poderoso: é dar ao dinheiro preferência sobre o homem; é estimar as virtudes cristãs abaixo do dinheiro; é prestar ao ouro a homenagem devida só ao mérito. Esse princípio não pode ser santificado: deve ser posto inteiramente fora da casa de Deus. Ali os homens devem estar como homens; nenhuma preferência se deve dar a um sobre outro por causa da riqueza. Ricos e pobres devem encontrar-se sentindo que o Senhor é o Criador de todos nós.
O orgulho não pode ser santificado. Pode ser introduzido em lugares santos, mas tal introdução não o torna santo. Uma joia pode ser inserida na carne — os pagãos as penduram no nariz; os cristãos, nas orelhas —, mas não se torna carne: pode produzir inflamação, mas não pode acrescentar força. O orgulho pode entrar largamente na construção e mobília de edifícios consagrados a usos sagrados, mas isso não torna sagrado o orgulho. Deus fala dos que antigamente introduziam refinamentos não autorizados no seu culto como “povo que de contínuo me provoca à ira na minha própria face, sacrificando em jardins e queimando incenso sobre altares de tijolos” (Is 65.3). Exibir na igreja o orgulho e os distintivos da moda — insígnias do amor ao mundo — é como se a esposa se apresentasse ao marido adornada com os anéis e joias do seu rival perverso e inimigo. “Criaturas infiéis, vocês não sabem que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). A tentativa de santificar o teatro — fazendo das crianças da escola dominical atores, da igreja o teatro, e dos pregadores e dirigentes os empresários — só pode resultar em arrastar para baixo os atores, em vez de elevar o palco. Padres e monges tentaram a mesma experiência há centenas de anos, tirando os personagens da Bíblia e o espírito do mundo, até tornarem o cristianismo desprezível, rebaixando os seus devotos, em moralidade, ao nível dos pagãos.
O esforço de santificar coisas que deviam ser postas fora tem sido causa fecunda da corrupção da igreja em todas as eras. Depois da conversão de Constantino, os bispos, no seu zelo pela conversão dos pagãos, adotaram os ritos pagãos e lhes deram nomes cristãos — exatamente como as igrejas hoje, para atrair o mundo, adotam os prazeres mundanos e tentam lançar sobre eles uma capa religiosa. Diz Mosheim: “Os ritos e instituições pelos quais gregos, romanos e outras nações haviam outrora testemunhado a sua veneração religiosa por divindades fictícias foram então adotados, com ligeiras alterações, pelos bispos cristãos e empregados no serviço do Deus verdadeiro. Esses fervorosos arautos do evangelho, cujo zelo ultrapassava a candura e a integridade, imaginaram que as nações receberiam o cristianismo com mais facilidade vendo adotados na igreja os ritos e cerimônias a que estavam acostumadas, e prestado a Cristo e aos seus mártires o mesmo culto que antes ofereciam às suas divindades idólatras. Daí resultou que, naqueles tempos, a religião dos gregos e romanos pouco diferia, na aparência externa, da dos cristãos: ambas tinham um ritual pomposíssimo e esplêndido. Vestes gorgeadas, mitras, tiaras, círios, báculos, procissões, lustrações, imagens, vasos de ouro e prata e muitas outras circunstâncias de pompa viam-se igualmente nos templos pagãos e nas igrejas cristãs.” Das perseguições mais ferozes a igreja de Jesus Cristo se recuperou rapidamente, saindo da prova de fogo mais pura e mais forte. Mas da tentativa de santificar ritos pagãos e templos pagãos a igreja nunca se recuperou: a mais numerosa e poderosa de todas as igrejas que levam o nome cristão, a Católica Romana, tem hoje mais do espírito e da prática das velhas igrejas pagãs do que da igreja fundada por Jesus Cristo.
A salvação do evangelho é presente, além de futura. Para quem sempre vivesse debaixo da terra, sem nunca ver o sol, a promessa de gozar a luz do sol em anos vindouros teria pouco sentido: a sua única ideia do esplendor do sol seria a que pudesse formar multiplicando os raios das suas lâmpadas de mineiro. Mas nós, que vivemos à superfície e gozamos a luz e o calor do sol, esperamos vê-lo amanhã porque o vemos hoje. Assim, esperamos ser salvos eternamente porque somos salvos no tempo. “Eis agora o dia da salvação.” Foi um devoto calvinista quem escreveu: “A graça que salva a alma do inferno salvará do pecado presente.”
A ideia de que a salvação é realidade presente percorre todo o evangelho: é algo que se experimenta e goza dia a dia. Diz Jesus: “Vocês já estão limpos pela palavra que lhes tenho falado” — não diz “estarão”, como se o dia do livramento estivesse no futuro. E Paulo escreve: “pela graça vocês são salvos, por meio da fé”. Assim, a salvação provida em Cristo é por toda parte apresentada como algo que tem existência positiva no coração de todo crente.
É grande engano, cometido por muitos professos cristãos, o de lançar a sua salvação para o futuro. Pergunte-lhes se são salvos, e a resposta é: “Espero que serei.” Qual o fundamento dessa esperança? O assentimento da mente à verdade e, talvez, a filiação a uma igreja ortodoxa. Mas “os demônios creem e tremem” — e continuam demônios. É grande bênção poder ver a verdade e ter coragem de sustentá-la; mas, se você não for além de entrar para a igreja e frequentar as suas ordenanças, jamais poderá ser salvo. Judas foi para a perdição do seio do Mestre e da companhia dos apóstolos: o caminho para o inferno é tão direto da igreja quanto do mundo. Do que você precisa, para ser salvo no Céu por fim, é ser salvo — agora — da culpa e do poder do pecado, e conservar-se salvo até o fim.
Se você está em estado de salvação, você o sabe. Não se pode ter vitória sobre a impaciência, sobre o mundo, sobre as provações da vida diária, e ignorar o fato. Se os seus apetites dominam a sua razão e a sua consciência, você não pode deixar de perceber, ao menos em parte, que está em escravidão; e, quando vem o livramento, não pode deixar de sentir a grandeza da mudança. Se, em vez de um espírito de murmuração e irritação, reina no seu coração a paz de Deus que excede todo entendimento, você mesmo há de estar consciente disso, e isso há de ser óbvio a todos ao redor. Não ceda, pois, à ilusão de que, se você crer que é salvo, será salvo. Não se contente com nada menos que o livramento presente do orgulho, da impaciência e de todas as inclinações e desejos pecaminosos.
Recorde as convicções que você teve noutros dias. Deus não mudou: as renúncias e a separação do mundo que ele então exigia, ainda exige. A cruz que estava no seu caminho então, está no seu caminho agora: você não a contornou — você voltou atrás; e precisa tomá-la antes de poder fazer qualquer progresso. Se você não se sente tão perturbado agora como então, é porque a sua consciência está se cauterizando. A paz que você professa sentir é ilusória: é insensibilidade, não paz; você corre o perigo de ficar “sem sentimento algum”. Acolha a convicção. Tome a cruz que está diante de você. Se é depor o vestuário ornamental, largue-o de uma vez: você não pode levar veste alguma para além da sepultura, senão a roupa alvejada no sangue de Jesus. Se você tomou posição errada quanto à obra de Deus, denunciando como fanatismo as operações do Espírito, não hesite em confessá-lo. Se lesou a outros, faça toda a confissão e a restituição que as circunstâncias exigem: não só a sua utilidade, mas a sua alma está em jogo. “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7). Resolva estar certo com Deus.
Usamos neste capítulo a palavra santificado no seu sentido mais pleno, como equivalente a santificado por inteiro.
A determinação é o primeiro grande essencial para ser santificado a Deus. Por mais profundamente que os sentimentos de alguém sejam tocados, ele não irá até o fim se não estiver plenamente decidido a ser santo e a levar vida santa. Essa decisão deve ser independente: não serve guardar reserva secreta alguma. Muitos professam santidade enquanto têm um pregador que prega santidade; depois, se lhes vem outro pastor — que prega publicamente num púlpito cristão, mas adora em segredo nos altares de Baal ou no santuário da moda —, seguem o seu pregador aonde quer que ele os leve. Ninguém, enquanto assim indeciso, pode obter a verdadeira santidade. É preciso a decisão de Josué: “eu e a minha casa serviremos ao SENHOR” (Js 24.15). Outros podem fazer escolha oposta; posso lamentar a escolha errada que fazem, mas não me governarei por ela. Se a multidão vai bem, alegro-me; se vai mal, não vou com ela. Não é em batalhões que subimos o caminho da vida: é em fila única que avançamos pelo caminho estreito. É por falta dessa determinação independente que tantos professos de santidade não perseveram: apoiam-se nos outros e, quando os seus apoios terrenos cedem, recaem nas fileiras apinhadas dos mundanos em trajes semicristãos.
Essa decisão deve ser abnegada. Quem quer ser santo enquanto isso é popular ou lucrativo jamais o será. A própria essência da santidade é a extinção do egoísmo. Requer-se hoje tanto do espírito de mártir para ser homem ou mulher santos quanto nos dias em que expunham os santos às feras ou os acorrentavam à estaca para serem queimados. O espírito de perseguição não morreu; o velho antagonismo entre o pecado e a santidade permanece; Cristo e Belial não mantêm relações mais amistosas do que nos dias do apóstolo. Ainda é verdade que “aquele que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). É preciso disposição para enfrentar a sua hostilidade e suportar o pior que ele nos possa infligir. No capítulo 14 de São Lucas registram-se várias ilustrações que o nosso Senhor usa para mostrar a necessidade de calcular o custo, para todos os que querem ser seus discípulos: “Assim, pois, todo aquele que entre vocês não renuncia a tudo o que tem não pode ser meu discípulo.” Se você quer obter a verdadeira santidade, deve estimá-la de mais valor não só do que qualquer coisa, mas do que todas as coisas juntas. As coisas que eram as suas maiores fontes de alegria devem ser abandonadas, se estorvam a vida santa.
Para obter a santidade, devemos santificar-nos. Esta é a ordem do Senhor, estabelecida no Antigo e no Novo Testamento. Quem ora por uma colheita deve — se não quer zombar de Deus — preparar a terra, semear, cultivar e guardar-se das forças destruidoras. Assim, quem quer ser santo deve lavrar o terreno alqueivado do seu coração e semear para si em justiça. Para obter resultados espirituais, é tão necessário cumprir as condições que Deus estabeleceu quanto cumprir as condições físicas para obter os resultados materiais desejados: as leis do reino espiritual são tão inflexíveis quanto as do reino vegetal. Nenhuma soma de fé ou de oração pode substituir o trabalho que Deus exige de nós; devemos mostrar a nossa fé pelas nossas obras. Veja como são explícitas as direções de Deus aos que querem ser santos: “Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês; portanto, santifiquem-se e sejam santos” (Lv 11.44). “Santifiquem-se e sejam santos, pois eu sou o SENHOR, o Deus de vocês” (Lv 20.7). “Também os sacerdotes, que se chegam ao SENHOR, devem santificar-se, para que o SENHOR não os fira” (Êx 19.22). Estas passagens ensinam que devemos separar-nos de tudo o que é impuro e pôr-nos à parte para fins santos — e Deus nos fará santos. Mas a nossa parte deve ser feita primeiro. Tudo o que é necessário que Deus faça para nos habilitar à nossa parte, ele o faz de antemão: Deus opera em nós tanto o querer quanto o realizar; mas não pode ir além, rumo a fazer-nos santos, se não trabalharmos a nossa salvação enquanto ele opera em nós pelo seu bendito Espírito. Devemos ir até o limite da nossa capacidade antes de ter direito a esperar auxílio sobrenatural. A santidade é estado voluntário: o homem não é máquina; só a sua liberdade de vontade o torna capaz de santidade.
O ensino do Novo Testamento vai no mesmo sentido: “Tendo, pois, ó amados, tais promessas, purifiquemo-nos de toda impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa santidade no temor de Deus” (2Co 7.1). Aqui se ensina a segunda bênção: eles são “amados”, isto é, cristãos verdadeiros; já eram santos em parte; “aperfeiçoando a santidade” implica que a obra da santidade já estava começada neles. Note especialmente a parte que nos é ordenada nesta passagem: devemos “purificar-nos”. Não devemos pedir ao Senhor que faça o que nós podemos fazer. Se o fumo não é “impureza da carne”, não sabemos o que possa caber sob esse título: se você o usa, pode jogá-lo fora, lavar a boca — e então está preparado para orar com fé pedindo que Deus o livre do apetite. Ele o fez por milhares; pode fazê-lo por você. O orgulho é impureza do espírito, e Deus o trata como tal: é tão ofensivo, que ele não se aproxima dele — “ao soberbo ele conhece de longe” (Sl 138.6). Podemos depor todas as suas manifestações exteriores e, então, pedir com confiança que Deus tire do nosso coração a disposição ímpia. Diz ainda o apóstolo: “Portanto, irmãos, pelas misericórdias de Deus, eu suplico a vocês que apresentem o corpo de vocês como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Rm 12.1). Aqui, de novo, a segunda bênção: já eram irmãos. Mas, para provar que “esta é a vontade de Deus: a santificação de vocês”, somos rogados a apresentar o corpo como sacrifício vivo — o que implica a consagração de tudo, até da vida, ao serviço de Deus. Todas as nossas faculdades devem ser empregadas como ele dirigir. Se os nossos corpos são dados a Deus, devem ser alimentados, vestidos e usados para ele; não podemos seguir as modas do mundo em nenhum particular em que conflitem com as direções claras que Deus deu; devemos ser dirigidos por Deus nos nossos negócios e em todos os assuntos da vida.
Para obter a inteira santificação, devemos confessar os nossos pecados inatos — as disposições pecaminosas que, em maior ou menor grau, permanecem depois que alguém é verdadeiramente convertido a Deus. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Isto é: se confessamos os pecados cometidos, Deus é fiel para perdoar, pois o prometeu; se confessamos os pecados inatos, é fiel para nos purificar de toda injustiça. É o que Wesley chama “o arrependimento dos crentes”: “O arrependimento consequente à justificação é muito diferente do que a antecede. Não implica culpa, nem senso de condenação, nem consciência da ira de Deus; não supõe dúvida do favor de Deus, nem ‘temor que traz tormento’. É propriamente uma convicção, operada pelo Espírito Santo, do pecado que ainda resta no nosso coração — do phronema sarkos, a mente carnal, que ainda permanece (como diz a nossa igreja) mesmo nos regenerados, embora já não reine nem tenha domínio sobre eles. É a convicção da nossa propensão ao mal, de um coração inclinado a desviar-se, da tendência contínua da carne a lutar contra o Espírito. Às vezes, se não vigiamos e oramos continuamente, ela pende para o orgulho, às vezes para a ira, às vezes para o amor do mundo, o amor da comodidade, o amor da honra ou o amor do prazer mais que de Deus. É a convicção da tendência do nosso coração à vontade própria, ao ateísmo ou à idolatria e, acima de tudo, à incredulidade, pela qual, de mil modos e sob mil pretextos, estamos sempre nos afastando, mais ou menos, do Deus vivo.”
Para ser santificado por inteiro, é preciso confiar implicitamente em Deus, pelos méritos de Jesus Cristo, para que faça a obra agora. Enquanto a adiarmos para o futuro, a obra ficará adiada. A crença de que ela se fará algum dia não traz a bênção; nem a fé que salva brotará por si mesma, ainda que cumpramos todas as outras condições: é uma confiança ativa, que deve ser exercida voluntária e conscientemente. Diz Wesley: “Que é a fé pela qual somos santificados — salvos do pecado e aperfeiçoados no amor? É uma evidência e convicção divinas, primeiro, de que Deus o prometeu nas Santas Escrituras; segundo, de que o que Deus prometeu ele é poderoso para cumprir; terceiro, de que ele é poderoso e está disposto a fazê-lo agora. E por que não? Não é para ele um momento o mesmo que mil anos? Ele não precisa de mais tempo para realizar o que é da sua vontade.” E ainda: “Certamente você pode esperá-la agora, se crê que é pela fé; e por este sinal pode saber com certeza se a busca pela fé ou pelas obras. Se pelas obras, você quer que algo seja feito primeiro, antes de ser santificado: você pensa ‘devo primeiro ser ou fazer isto ou aquilo’ — então você a busca por obras até o dia de hoje. Se a busca pela fé, pode esperá-la como você está; e, se como está, então espere-a agora.”
Não é necessário ensinar-nos a perder a saúde: as obras de higiene não tentam fazê-lo. A simples negligência das leis da saúde trará desordem, doença e, por fim, morte. Para tornar-se dispéptico crônico, ninguém precisa cometer algum ato notável e voluntário de desobediência às leis do nosso ser físico: muita gente perdeu a saúde sem saber dizer como. Assim, a Bíblia não nos ensina a perder a santidade; dá-nos direções bem explícitas de como conservá-la. Eis algumas:
“E o Senhor faça vocês crescerem e transbordarem de amor uns para com os outros e para com todos… a fim de que ele confirme o coração de vocês, para que sejam irrepreensíveis em santidade diante de nosso Deus e Pai, na vinda de nosso Senhor Jesus com todos os seus santos” (1Ts 3.12-13). “Fazendo isso, vocês nunca tropeçarão. Pois desse modo é que lhes será concedida ampla entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.10-11). “que estão sendo guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação preparada para se revelar no último tempo” (1Pe 1.5).
Note que, em cada uma destas passagens, fala-se de algo que devemos fazer, se queremos conservar a santidade e chegar ao Céu. Na primeira, diz-se que devemos “crescer e transbordar de amor uns para com os outros e para com todos”. O que tínhamos quando fomos convertidos, ou quando fomos santificados por inteiro, não basta. Não basta crescer em conhecimento: deve haver aumento marcado no amor; devemos transbordar dele — não só para com os que nos amam, mas para com “todos”. Na segunda passagem, somos dirigidos a fazer certas coisas. Consultando os versículos anteriores, veremos que as “coisas a fazer”, para que “nunca tropecemos”, são graças cristãs a acrescentar aos começos dessas graças recebidos na conversão e na inteira santificação. Alguns lagos e mares interiores não têm saídas; mas nenhum é sem entradas: a evaporação insensível logo secaria o maior deles, se as suas águas não recebessem acréscimo constante. A árvore mais robusta logo morreria, se não pudesse tirar alimento da terra ou do ar. Assim, por mais graça que alguém tenha recebido na conversão, e por maior que tenha sido o acréscimo na inteira santificação, se não prosseguir na sua experiência e crescer na graça, tornar-se-á seco e infrutífero, espiritualmente morto e insensível à sua condição. A sua conduta exterior pode estar sem reproche — mas o seu poder se foi. Para manter uma casa em bom estado, os reparos devem ser feitos à medida da necessidade; para conservar riqueza, é preciso estar adquirindo riqueza; para conservar o saber, é preciso acrescentar ao seu cabedal; e, para conservar a santidade, é preciso estar continuamente “aperfeiçoando a santidade no temor do Senhor”.
Na terceira passagem citada, ensina-se que é o poder de Deus que nos guarda — o que as Escrituras afirmam com frequência: “Ora, àquele que é poderoso para guardá-los de tropeços e para apresentá-los com alegria, imaculados diante da sua glória” (Jd 24). O poder de Deus é adequado para levar-nos a salvo por qualquer emergência que possa surgir. Por numerosos e fortes que sejam os nossos inimigos, Deus pode vencê-los facilmente. Quaisquer dificuldades que estejam no caminho, ele pode removê-las: se um mar nos barra a passagem, ele pode abrir caminho por ele; se uma montanha nos detém, ele pode dar-nos asas de águia para sobrevoá-la; na fornalha, ele pode guardar-nos; no deserto, alimentar-nos. Nada é grande ou difícil demais para o poder de Deus: é todo-poderoso. Quem é guardado pelo poder de Deus está guardado em segurança. E ele está disposto — ansioso, até — por guardar a todos nós; tão pronto a guardar um quanto outro. Por que, então, nem todos são guardados? A razão está em nós, não em Deus. Somos guardados mediante a fé — e essa fé é confiança voluntária da nossa parte: um é guardado porque, de livre vontade, exerce fé em Deus; outro duvida, e assim corta a sua união com Deus, e em consequência cai em trevas e, por fim, em pecado. Há muitas passagens da Escritura que ensinam que somos guardados pelo infinito amor e poder de Deus; mas, como as que consideramos, elas implicam ou exprimem condições que devemos cumprir. Essas condições são importantes: se as cumprimos, conservamos a graça que Deus nos deu; se falhamos, perdemos a bênção da santidade.
Muitos a perdem assim sem o saber. Foi o caso do ministro da igreja de Éfeso: era tão ativo, tão paciente, tão ortodoxo e tão zeloso pela pureza da igreja, que não tinha a menor ideia de haver sofrido perda séria. O seu zelo contra os malfeitores e falsos mestres tomara o lugar do terno amor que tinha noutros dias; considerava-se radical, intransigente e firmado na fé. Mas Cristo o declarou caído.
Leitor, você já teve a experiência clara de ser santificado por inteiro? Se não, busque-a já: você não pode dar-se ao luxo de viver mais um dia sem ela. Se obteve essa bênção, está conservando-a clara e fresca? Pode-se manter a profissão — muitos o fazem muito depois de terem perdido a bênção; pode não haver nada de particularmente errado na conduta ou na conversa, mas não produzem os frutos da santidade: não têm a sua alegria nem o seu poder; falta-lhes a sua brandura, a sua mansidão, a sua simplicidade; a sua profissão baseia-se em raciocínio ou hábito, não no testemunho direto do Espírito. Amado, como está você no tempo presente? Está cumprindo as condições de que depende a conservação da bênção da santidade? Se você não está crescendo e transbordando naquele amor terno e desprendido que o faz cuidadoso da reputação alheia e atento aos interesses e à felicidade dos outros; se você é irrefletido nas suas afirmações e pronto com insinuações danosas contra os que não concordam com as suas opiniões; ou se, por outro lado, você anda leviano e frívolo, conformando-se gradualmente ao mundo na conversa, no vestir e nos negócios — então tem toda razão para crer que perdeu a bênção da santidade. Seja honesto consigo mesmo: acolha a luz, humilhe-se diante de Deus e busque acertar-se com ele, por maior que seja a humilhação envolvida.
A santidade é voluntária: é um estado moral. Mas ação moral implica liberdade de escolha. Ninguém é louvado ou censurado, recompensado ou punido, por fazer o que não podia de modo algum evitar. Ora, os santos são recompensados, e os ímpios, punidos; logo, a pessoa santa é santa por escolha. Mas um estado voluntário pode ser perdido: o leme que pode ser girado na direção certa também pode sê-lo na errada; a embarcação mantida no canal por anos pode, por fim, ser lançada contra uma rocha. Quem andou no caminho da santidade por uma temporada pode ceder à tentação e desviar-se. É verdade que, quanto mais alguém anda com Deus, mais seguro anda: quanto mais um corpo se aproxima do sol, mais fortemente é atraído para ele. Mas os cometas, que às vezes chegam pertíssimo do sol, acabam fazendo a curva e voando para o espaço. Os que chegam muito perto do Senhor tendem a avançar e crescer na graça — mas podem cair e afastar-se do Senhor. Davi foi, por anos, homem santo, plenamente aprovado do Senhor; mas caiu em pecado. Paulo foi arrebatado ao terceiro céu, onde viu coisas que a linguagem não podia descrever; e, contudo, estava bem desperto para o fato de que podia perder a graça recebida e perder-se por fim. A sua vigilância era grande e constante: “esmurro o meu corpo e faço dele meu escravo, para que, tendo pregado a outros, eu mesmo não venha a ser desqualificado” (1Co 9.27). É evidente, pois, que quem experimentou a bênção da santidade pode perdê-la. Não precisa; não deve; mas pode.
Em que relação fica com Deus quem perdeu a bênção da santidade? Pode alguém perder a bênção da inteira santificação e ainda reter a da justificação? São perguntas importantes, que devem ser examinadas com cuidado.
Quando alguém cai em pecado atual, perde tanto a justificação quanto a santificação: cai em condenação; já não é santo — torna-se pecador. Se volta a Deus, deve vir confessando os seus pecados e buscando perdão. “Meus irmãos, se algum de vocês se desviar da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que converte o pecador do seu caminho errado salvará da morte a alma dele” (Tg 5.19-20). É um irmão que errou — não um falso professo, mas um cristão real; e deve ser convertido como qualquer outro pecador; se não for, a sua alma corre perigo de morte.
Pode-se também perder a bênção da inteira santificação cedendo a dúvidas e incredulidade. É pela fé que estamos de pé: o terreno que ganhamos pela fé, pela fé o conservamos; pela incredulidade o perdemos. Quem anda sobre as águas pela fé afunda quando o medo suplanta a fé. Pode-se ainda perder a bênção da santidade deixando de confessá-la. No mesmo grau em que a profissão se torna indefinida, a experiência se torna indefinida. No fundo dessa falta de confissão está a dúvida. Satanás está sempre pronto a acusar um santo de Deus; mas, para manter o terreno, este deve conservar-se plenamente consagrado a Deus e confessar com ousadia tudo o que Deus faz por ele. “Eles venceram o acusador por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram” (Ap 12.11). Quando alguém dá ouvidos às acusações de Satanás e deixa de dar claro testemunho de ter sido lavado pelo sangue do Cordeiro, perde a bênção: o testemunho se vai. Mas não cai necessariamente em pecado: pode ainda estar bem desperto no temor de Deus; pode ainda vigiar contra o pecado e ter vitória sobre ele; pode ainda amar verdadeiramente a Deus e esforçar-se fielmente por guardar todos os seus mandamentos. Tal pessoa, perdendo a bênção da santidade, não perdeu a justificação: ainda é filho de Deus; sente o que perdeu e luta por recuperá-lo. Para isso não é necessário abandonar toda profissão de religião e começar de novo: ela não é ímpia — é santa apenas em parte. Deve orar por ser santificada por inteiro; confessar o que perdeu; consagrar-se conforme toda a luz que Deus lhe deu; exercer fé no sangue expiatório para ser de novo purificada de todo pecado; e não demorar, nem esperar alguma grande crise — deve vir imediatamente a Deus para ser salva totalmente. O sr. Fletcher perdeu a bênção da santidade três vezes seguidas, por simples falta de confessá-la; mas não descansou enquanto não a buscou, achou e nela se firmou. Se você perder qualquer grau de graça, procure recuperá-lo já, e não espere perder mais para fazer esforço vigoroso. “Voltem para mim, e eu voltarei para vocês, diz o SENHOR dos Exércitos” (Ml 3.7).
“Pode alguém perder a bênção da santidade sem perder a justificação?” Respondemos de novo. Sem algum grau de santidade, ninguém pode estar em estado de salvação: quem está destituído de santidade não está justificado. Muitos parecem pensar que podem possuir a graça salvadora sem medida alguma de santidade — erro fundamental. Quando Deus perdoa, diz com poder: “Vá e não peque mais.” Tal mudança se opera, instantaneamente, na natureza moral de quem Deus perdoa, que desde aquele momento ele tem poder sobre os seus apetites e paixões pecaminosos. Nunca devemos perder de vista a grande verdade: “quem vive na prática do pecado é do diabo” (1Jo 3.8). Na religião popular do dia, essa declaração clara do discípulo amado é completamente desprezada — tratada como se fosse interpolação, incompatível com o ensino geral da Palavra de Deus. Mas todo o teor da Escritura está em harmonia com o ensino de São João: não há, bem entendida, uma só passagem contraditória na Bíblia. Diz São Paulo: “Assim eram alguns de vocês. Mas vocês foram lavados, foram santificados, foram justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1Co 6.11). Note a ordem: lavados, santificados, justificados. Esta é a ordem de Deus na salvação de uma alma. O pecador não lavado, chafurdando nos seus pecados, não está justificado. Quando perdoado, é santificado — não só no sentido de consagrado, separado para fazer a vontade de Deus, mas no de tornado santo: não só se santificou, mas foi santificado — Deus o santificou, tornou-o realmente santo. De pecador tornou-se, em sentido importante, homem santo. Assim lavado e santificado, é ao mesmo tempo justificado — perdoado — e posto em estado de aceitação diante de Deus. Mas note: não se diz santificado por inteiro. Ele está santificado a ponto de ter poder sobre o pecado; não está sob o domínio de nenhum dos seus antigos apetites ou hábitos pecaminosos; o pecado já não domina sobre ele como antes. Mas sente tendências pecaminosas remanescentes no coração: precisa, às vezes, reprimir o orgulho, mantê-lo abaixado; não cede à ira, mas às vezes a sente, e a sufoca. Ele vem a Deus, confessa e lamenta esses pecados inatos, e é purificado deles. Lê: “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo” — crê que isso se cumpra em si, e cumpre-se: está santificado por inteiro. Pode ser conservado nesse estado? Pode. “E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23). Mas a nossa conservação nesse estado depende de cumprirmos certas condições: 1) crer firmemente — “guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação” (1Pe 1.5); 2) a confissão apropriada — “com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10.10); 3) a obediência — “tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5.9).
Vemos, pois, que a bênção da santidade pode ser perdida pela dúvida, pela falta de confissão do que Deus fez por nós, e também pela desobediência voluntária e efetiva. Quando alguém perde a bênção da santidade pela transgressão, como Davi, perde tudo: já não está justificado; se volta a Deus, é pelo arrependimento e pela confissão — a sua oração, em substância, deve ser: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado” (Sl 51.1-2). Nesse caso, perdendo a santidade, perde-se a justificação — nisso não há controvérsia. Mas, quando alguém perde a bênção da santidade cedendo a dúvidas e temores, sob múltiplas tentações, o caso é diferente: não abriu mão voluntariamente de coisa alguma; a bênção se foi; ele o sente, lamenta-o, clama: “Ah, se eu soubesse onde o poderia achar!” Quando fomos pastor de uma igreja que sustentava a doutrina da santidade em teoria e perseguia os que a gozavam, um dos nossos membros — homem quieto e consciencioso — obteve a bênção da inteira santificação. Estava tão feliz quanto se pode estar neste corpo, e testificava da bênção com grande poder. Mas, quando foi à sua reunião de classe e chegou a sua vez de falar, o inimigo, transformado em anjo de luz, sugeriu: “Se você professar a bênção da santidade, o seu dirigente não a receberá, pois não crê na doutrina; mas, se disser que está muito feliz, confessará a verdade e não despertará oposição.” Ele seguiu a sugestão — e mal se sentou, grandes trevas vieram sobre ele, que duraram vários meses. Mas todo esse tempo foi um dos cristãos mais cuidadosos e conscienciosos: perdera a bênção da santidade, mas não a justificação. A nossa resposta à pergunta é, pois: “Depende de como se perde a bênção da santidade, se se perde ao mesmo tempo a justificação.” Declarações genéricas raramente são verdadeiras: precisam, em geral, de qualificação. Não convém desencorajar sem necessidade os que perderam parte da graça que gozavam: quando estão caídos, o modo de recuperá-los não é cortar-lhes a cabeça. Encoraje-os a reter o que têm e a buscar mais. Não caia no erro de pensar que, para ser fiel, você deve desacreditar a profissão daqueles cuja vida está em harmonia com ela, só porque não foram salvos sob os seus trabalhos: Deus tem muitos santos que você nunca viu nem ajudou. Satanás é o acusador dos irmãos; suspeita não é prova de piedade. Esteja mais pronto a edificar do que a derrubar, a conduzir adiante do que a empurrar para trás. “Consolem, consolem o meu povo, diz o Deus de vocês” (Is 40.1).
É artifício sutil de Satanás tentar fazer com que o cumprimento de um dever responda pelo cumprimento de outro, igualmente claro e importante. Este é um ponto que precisa ser bem guardado. Se você quer ser santo, deve viver a santidade — isso é da máxima importância. Mas, quando os falsos mestres lhe disserem que isso pode tomar o lugar da profissão da santidade, não lhes dê ouvidos. Professe a santidade, se a tem. Por impopular que seja, confesse tudo o que o Senhor faz por você. “Pois com o coração se crê para a justiça, e com a boca se confessa a respeito da salvação” (Rm 10.10). Note: é com a boca que se faz a confissão. Mantenha a confissão até alcançar a salvação eterna. A palavra “santificar” é uma das palavras de Cristo — não serve envergonhar-se dela. Cristo orou pelos seus discípulos: “Santifica-os na verdade” (Jo 17.17). Se a oração é plenamente respondida, você desonra a Cristo confessando que foi respondida só em parte. Não é assim que os homens procedem nos negócios: quando um pedido é plenamente atendido, reconhecem-no plenamente. Se Cristo não só o perdoa, mas o santifica, não basta dizer que você está perdoado — não é toda a verdade. Uma profissão indefinida levará a uma experiência indefinida. O olho que não se usa escurece; a fé que não se professa, por medo de ofender, desvanece. “Do que não tem” — tão certamente que não pode professá-lo — “até o que tem lhe será tirado” (Mt 25.29). Professe com clareza e precisão tudo o que Deus faz por você. Cuide apenas, como diz um velho escritor, de que “o fundo da sua vida esteja no nível do topo da sua profissão”: que as coisas mais questionáveis que você faça sejam perfeitamente compatíveis com a mais alta profissão que você faz. Se você a goza e a vive, professe-a sem falta. Se Deus acende essa grande luz na alma, ninguém tem o direito de cobri-la: deixe-a brilhar. Confesse tudo o que a graça divina faz por você. Ninguém pode reter por muito tempo essa grande bênção sem tornar conhecido que Deus lha concede: ele quer que outros sejam encorajados a vir a ele em busca da plenitude da graça, e por isso quer que aqueles a quem a concede declarem a sua fidelidade. “Todas as tuas obras te louvarão, SENHOR, e os teus santos te bendirão. Falarão da glória do teu reino e relatarão o teu poder, para que os filhos dos homens conheçam os teus poderosos feitos e a glória da majestade do teu reino” (Sl 145.10-12). Um coração santo é, eminentemente, obra do Senhor: uma criação que só o seu poder pode efetuar; é a glória do seu reino. Nada exige maior exercício da onipotência do que tornar santo um coração humano depravado. Onde quer que esse ato poderoso se tenha realizado, os santos de Deus devem torná-lo conhecido: devem confessá-lo livre e explicitamente, para a glória do seu nome.
Mas profissões, por si mesmas, nada valem. Profissões sem fundamento são comuns. Em muitos casos, provavelmente, não são feitas de má-fé: em geral tiveram um dia bom fundamento, e são mantidas por hábito e pela vã esperança de que a bênção não se perdeu — só o seu testemunho. Esses professos sabem que a sua força se foi; mas ainda julgam melhor fazer a maior demonstração possível de resistência — como Lee manteve McClellan à distância apontando para o seu acampamento longos canhões de madeira. Que há quem realmente goze a bênção da santidade, não duvidamos: almas preciosas e humildes, que andam em toda a modéstia diante do Senhor — multiplicado seja o seu número, e fortalecidas e aumentadas as suas graças! Há outros cujas profissões não têm bom fundamento — o que é evidente pelos seus frutos, pois a árvore boa não pode dar mau fruto.
Alguns carecem de temperança: os apetites têm ascendência sobre eles; não dominam o próprio corpo. Prive-os do fumo por um só dia, e ficam miseráveis. Não nos parece que tenhamos o direito de professar santidade se a privação, na providência de Deus, de qualquer coisa particular de comer ou beber nos torna infelizes. Se o Senhor nos dá o bastante para manter juntos corpo e alma, devemos aceitá-lo com gratidão e seguir o caminho com alegria. Temperança — no original, enkrateia — significa domínio próprio, senhorio sobre os próprios apetites; se você não tem esse domínio, não professe santidade até obtê-lo. Deus pode dar-lho: busque-o com fervor; pode custar-lhe um conflito, mas a vitória valerá a resistência até ao sangue.
Alguns carecem de abnegação: professam ter renunciado a si mesmos — à própria justiça, comodidade e interesses —, mas parecem esquecer que essa renúncia nada vale se não abrange particulares. Ficariam embaraçados se tivessem de dizer em que negam a si mesmos alguma satisfação cobiçada por amor de Cristo. Soubemos há pouco de santos preciosos, em circunstâncias abastadas, que, depois de dar tudo o que podiam para o socorro dos famintos de Lancashire, privaram-se do uso da manteiga para terem mais que dar. De uma forma ou de outra, a abnegação deve ser praticada diariamente, se se quer reter a bênção da santidade.
Alguns carecem de não conformidade com o mundo. Satanás os convenceu — e, ai!, deixaram-se convencer facilmente demais — de que, para ganhar influência sobre os professos mundanos e frívolos e conduzi-los à bênção da santidade, não devem ser estritos demais, mas conformar-se às modas do mundo num grau que o Espírito de Deus não permitiria, se lhe ouvissem os ditames. Oh, que engano terrível! Para que Deus nos receba, devemos sair e separar-nos. Há um só mediador entre Deus e os homens — e nenhum, que saibamos, entre a igreja e o mundo; e quem presume ocupar essa posição dúbia ouvirá de Cristo, no último dia, apesar de todas as obras maravilhosas que tenha feito: “Apartem-se de mim; nunca os conheci.” Os golpes mais pesados jamais infligidos ao cristianismo foram dados por essa classe de pessoas: sem o pretender, talvez, foram pouco a pouco rebaixando o padrão do evangelho, até a igreja ficar inundada por uma maré de mundanismo que ameaça varrer o último vestígio de vida espiritual. A Igreja cresceu forte e se multiplicou sob as crueldades de Nero e Domiciano; mas dos efeitos do patrocínio de Constantino não se recuperou até hoje. É aflitivo ouvir pessoas professando santidade enfeitadas de “ouro, pérolas e vestuário dispendioso”, e ouvi-las dizer, com ares de grande complacência, quando se lhes insinua a incoerência: “Ah, a minha consciência não me condena” — como se a sua consciência fosse substituto da palavra explícita de Deus.
Alguns carecem de humildade. Podem vestir-se com simplicidade, mas há neles um ar de orgulho e presunção: são atrevidos e categóricos em exprimir as suas opiniões, e parecem pensar que nada se faz direito sem a sua participação. Lembremo-nos, amados, de que o amor perfeito nunca se acha senão em conexão com a mais profunda humildade. Não tome nas reuniões mais tempo do que lhe pertence. Se você é ministro e ocupa a sua hora pregando, dê ao povo oportunidade de testemunhar nas reuniões sociais, e não ocupe você mesmo metade do tempo — tal proceder não cheira a humildade. Pode haver outros sem o seu dom de palavra, mas com experiência muito mais rica nas coisas de Deus; faria bem a você, e aos demais, ouvi-los. Se você tem verdadeira humildade, um dos efeitos será torná-lo “pronto para ouvir, tardio para falar”.
Outros carecem de amor. Podem estar arraigados e fundados na doutrina, mas não no amor: suportam pouco; são impulsivos e suscetíveis; no trato com a família há o que soa e parece muito com irritação — pequenas coisas os afligem, molestam e exasperam. Isso não pode acontecer onde se goza a verdadeira santidade: ela produz uma calma serena e uma igualdade de gênio que se faz sentir em toda parte, especialmente no círculo da família. Podemos ser firmes e decididos com os nossos filhos sem ser ríspidos: qualquer coisa parecida com gritaria não só nos fere, como os fere. Se for necessário usar a vara da correção, não deixe de usá-la — mas seja em amor.
Examinemo-nos, amados. Podemos estar certos: quaisquer que sejam as nossas provações, Deus quer e deseja dar toda a graça necessária. “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar” — e depois viva à altura da sua profissão. De nada serve professar santidade sem gozá-la na vida. Que você a teve um dia não é evidência de que a tem agora. Você pode continuar ortodoxo nas doutrinas, estritamente moral na vida, fiel no desempenho de todos os deveres comuns e exteriores da religião — pode até dedicar-se à advocacia da santidade — sem possuir de verdade esta graça. “Fosse um homem tão inofensivo quanto um poste”, diz Wesley, “poderia estar tão longe da santidade quanto o céu da terra.”
A santidade é a nossa completa renovação na imagem de Deus — o perfeito amor de Deus derramado no coração pelo Espírito Santo que nos foi dado, de modo que amamos a Deus de todo o coração, mente e força, e ao próximo como a nós mesmos. Não é apenas vitória sobre o pecado — isso é dado a toda alma perdoada —, mas libertação das próprias disposições pecaminosas. O velho homem não é simplesmente amarrado: é lançado fora com todos os seus bens. Não há apenas uma entrega calma e sem emoção de nós mesmos — um “pôr tudo sobre o altar” —, mas um morrer do eu, que não pode ocorrer sem profunda emoção, assim como a morte natural não vem sobre um homem forte sem lutas dolorosas. A vida animal não peleja mais duramente com o rei dos terrores do que a vida pecaminosa com o Rei da graça: o velho homem só morre obrigado; as agonias da morte, mais ou menos prolongadas, são reais, não imaginárias nem figuradas. Disse Paulo: “Estou crucificado com Cristo” — e o diz todo aquele que experimentou a santidade interior. Mas crucificação é morte, e morte dolorosa. Ninguém pode abandonar todos os seus planos acalentados e as suas associações mais queridas, para seguir a Cristo plenamente no caminho da humildade, dos opróbrios, das perseguições e aflições, sem uma pontada. Quando fizer essa entrega, ele o saberá. Mas ela deve ser feita, se se quer experimentar as alegrias da plena salvação. Quando o eu pecaminoso deixa de viver, Cristo entra e toma posse: o coração esvaziado do pecado enche-se do Espírito; uma paz que excede todo entendimento reina continuamente; o crente resgatado alegra-se em Cristo com “alegria indizível e cheia de glória”. Palavras não exprimem o arrebatamento da sua alma: de pé no cume dos montes, refrescado pelas brisas do Paraíso e arrebatado pela vista da cidade celestial, brada em alta voz os louvores de Deus; ou, prostrado no vale da humildade, sente “um santo temor que não se move, e todo o silencioso céu do amor”. O seu coração transborda de gratidão e louvor — e do que transborda o coração fala a boca.
Há, bem o sabemos, uma experiência chamada santidade muito diferente desta. O professo — em nove de dez casos alguém que perdeu o primeiro amor e que, portanto, precisa arrepender-se como qualquer outro pecador — é persuadido de que precisa da bênção da santidade. Dizem-lhe que se consagre deliberadamente ao Senhor — que “ponha tudo sobre o altar”. Feito isso, ensinam-lhe que deve crer, pela autoridade da Palavra de Deus, que o sacrifício está agora aceito; que “o altar santifica a oferta” e que ele agora goza a bênção da santidade. Se alega que não se sente diferente — que não experimentou mudança alguma —, asseguram-lhe que deve viver pela fé e não pelo sentimento, que deve honrar a Deus crendo na sua Palavra. O passo seguinte, e último, é fazer profissão de santidade — e mantê-la daí em diante. Tal processo, que não envolve mortificação alguma do orgulho — antes o gratifica, dando reputação de piedade —, torna-se popular onde quer que se apresente. Muitos passam por ele, professam santidade e se enganam para a perdição da própria alma. Dizem que estão “ricos e abastados, sem precisar de coisa alguma” — quando na realidade estão “infelizes, miseráveis, pobres, cegos e nus”. Continuam tão cheios de si como sempre, conformados ao mundo, dispostos a receber honra dos homens e prontos a contemporizar sempre que a moda o exige; fecham os olhos aos pecados populares, ou os desculpam abertamente. Já vimos homens assim, com os seus óculos de ouro e bengalas de castão de ouro ou prata, excluindo das reuniões de santidade todo testemunho contra a escravidão na igreja — e mulheres adornadas de “ouro, pérolas e vestuário dispendioso” pleiteando pela conformidade mundana, porque o seu coração está posto nessas coisas! Tais pessoas, gozarem santidade? Ora, segundo o padrão metodista — e gente assim se acha entre os metodistas —, não estão sequer biblicamente despertadas, quanto mais convertidas ou santificadas! As “Regras Gerais” do metodismo dizem que “sabemos que o Espírito de Deus escreve nos corações verdadeiramente despertados” a necessidade de evitar todo mal, especialmente o mais geralmente praticado, como “ajuntar tesouros na terra” — mas estes querem fazer da piedade fonte de lucro; “a moleza e a autoindulgência desnecessária” — mas estes se dão à indulgência no comer, no beber, no vestir e na conversa; “a leitura dos livros que não tendem ao conhecimento ou ao amor de Deus” — como os romances e a literatura leviana do dia; “o uso de ouro e vestuário dispendioso” — mas estes dizem que a sua “consciência não os condena” por isso. E você professa santidade! Ora, segundo o padrão da sua própria igreja, você ainda é um pecador não despertado! Você pode ocupar alta posição oficial ou social, pode ter escrito um livro sobre santidade, pode ter jus à gratidão e ao respeito da igreja — mas nada disso prova que você esteja agora em estado de salvação. Se você não nega a si mesmo e não toma a sua cruz cada dia, submetendo-se a levar o opróbrio de Cristo, a ser como o lixo e a escória do mundo, e esperando que digam falsamente todo mal de você por amor do Senhor, você não tem, diz a Disciplina Metodista, “realmente fixado na alma” nem sequer “o desejo de fugir da ira vindoura e de ser salvo dos seus pecados”! Este é o juízo que o metodismo pronuncia sobre a sua condição. E não é essa a visão bíblica do caso? Não se tornou trevas a luz que havia em você? Oh, seja honesto consigo mesmo! Você confessa perda de poder — isso é tão notório que, cego como está, não pode deixar de percebê-lo. Mas, se o poder se foi, a pureza se foi; o Espírito Santo, o santificador, se foi! Desperte desse estado de insensibilidade entorpecida. Chore a sua perda. Humilhe-se profundamente diante de Deus. Obtenha perdão enquanto pode. Depois, avance para a plena salvação. Lembre-se: “sem santidade ninguém verá o Senhor”. Resolva ter a coisa verdadeira, ainda que lhe custe a vida.
Há uma advertência terrível, para os que têm vivido no caminho da salvação, gozado muitas obras do favor divino e estão cheios de honras, no registro que se faz de alguém que foi um dia favorito do céu: “Sendo Salomão já velho, aconteceu que as suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses; e o seu coração não era de todo fiel ao SENHOR, seu Deus” (1Rs 11.4).
Você professa santidade — mas goza realmente o amor perfeito? Uma profissão de santidade sem amor é como poço sem água, fogão sem fogo, árvore sem fruto: levanta expectativas só para frustrá-las. Você desce o balde em busca de água — sobe vazio; procura calor — não acha; sacode a árvore em busca de fruto — só colhe folhas. Se a sua experiência é infrutífera, a falha não está nas circunstâncias, mas na experiência. Você pode ser modelo de simplicidade e de não conformidade com o mundo; pode ser intransigente na oposição às suas modas e prazeres — Zenão, o estoico, foi tudo isso, e era apenas pagão, não cristão. Mas você não pode estar cheio de amor a Deus e aos homens sem ser bênção para os outros. Para com os que se esforçam por fazer a vontade de Deus, você não sentirá inveja nem ciúme; não tentará mutilar-lhes a influência rebaixando-os na estima alheia; alegrar-se-á com os que se alegram. Se eles constroem mais depressa ou melhor que você, se você tem amor, não parará o trabalho para persegui-los por causa disso. Se realmente expulsam demônios em nome de Jesus, você não os proibirá, ainda que não sigam com você. “O amor não é invejoso” (1Co 13.4). Para com os que estão fora do caminho, você sentirá — não ira, mas compaixão. Suponha que ajam mal: que mais você esperaria? Você não os manterá à distância, nem se fará de reservado, como se temesse que o contaminassem. Jesus veio “buscar e salvar o que estava perdido”; se você tem o amor dele, irá atrás dos que se desgarram.
Perguntamos de novo: você tem o amor perfeito? Leia as suas características no capítulo 13 da Primeira aos Coríntios. Pergunte-se, ao lê-las uma a uma: isto é verdade da minha experiência? Sou capaz de sofrer com paciência e ser bondoso? Estou livre da inveja e da vaidade? Não penso melhor dos que pensam bem de mim do que de outros de igual valor? Não depende muito a minha opinião dos outros do grau de atenção que me dispensam?
A falta de utilidade é sinal infalível de falta de amor. Admita o fato. Pare de culpar os outros; deixe de achar defeitos. Alguns pregadores, quando veem fraqueza no seu povo, aplicam doses fortes quando deviam primeiro tomar uma eles mesmos. Obtenha amor real — não fingido — pelas almas, e então a sua franqueza as atrairá, em vez de afastá-las; então você poderá, com mansidão, instruir os que se opõem, e Deus talvez lhes conceda o arrependimento para conhecerem a verdade. Busque, pois, antes de tudo, um batismo de amor puro e perfeito sobre a sua alma. Não pense que o tem quando faltam os frutos. Reconheça a sua necessidade, e então pedirá com fervor que seja suprida. Deus está pronto a derramar o seu amor no seu coração pelo Espírito Santo que lhe foi dado. Para isso, na obra de Deus, não pode haver substituto: mais zelo pode ajudar algo, mas nada o habilitará a viver retamente e a fazer o bem que pode, senão a plenitude do amor de Deus. Não passe, pois, mais um dia sem ela. É preciso consagração para obtê-la? Faça a consagração sem demora: não retenha nada; que Deus tenha tudo; apresente o seu corpo como sacrifício vivo; que os seus talentos, o seu tempo, os seus bens, o seu tudo estejam à disposição daquele a quem você pertence. Pede-se confissão? Você manifestou aos outros uma disposição sem amor, contrária ao Espírito de Cristo? A confissão deve ser tão ampla quanto a ofensa: talvez na família, talvez aos que olham para você como exemplo, você tenha exibido a sua falta do “amor que tudo sofre, tudo suporta” — não importa: faça a confissão com humildade e clareza, sem desculpas, e veja como Deus derreterá o seu coração e o encherá do seu amor. Seja decidido neste ponto. Negligencie o que for, mas não adie a busca da plenitude do amor de Deus. Se você tem dez talentos, ela o habilitará a usá-los para a glória de Deus; se tem só um, o habilitará a tirar dele o máximo — e lhe assegurará a recompensa eterna quando a obra da vida terminar.
As Escrituras ensinam que há duas espécies de santidade: a verdadeira e a falsa (Ef 4.24). A verdadeira santidade, onde quer que se ache, é essencialmente a mesma. Em matérias não essenciais pode haver larga diferença; nos essenciais há acordo. Um soberano inglês e uma águia americana não foram fundidos no mesmo molde e têm inscrições diferentes, mas o metal de que se compõem é o mesmo: um poderia facilmente converter-se no outro. Qualquer que seja a forma que o ouro assuma, retém as suas qualidades. Assim, a verdadeira santidade tem, entre todos os povos e em todas as eras, as mesmas características. É obra do Espírito Santo: nenhuma educação, por bíblica, nenhuma formação, por religiosa, pode produzi-la. Quem é verdadeiramente santo é santificado pelo Espírito Santo; cessou das suas próprias obras; enquanto Deus opera nele, ele trabalha a sua salvação. Por isso, como a verdadeira santidade nada tem de mérito humano, acha-se sempre em conexão com a humildade profunda: não há nela nada do eu, e ela não busca a glorificação própria em forma alguma. Essa humildade se manifesta de todos os modos: quem a possui veste-se com simplicidade — nada se usa por ostentação ou ornamento; não se distingue, pela aparência, o soldado rico do pobre na fileira, e assim o traje do santo não indica a sua condição temporal; ele é despretensioso, sem reivindicar superioridade sobre os outros. Outro elemento da verdadeira santidade é um amor absorvente a Deus e aos homens: Deus é amado, adorado, obedecido; o homem é amado como imagem de Deus, representante de Cristo — e, por caído que esteja, é compadecido, instruído, ajudado e elevado. A verdadeira santidade obtém-se pela fé em Deus, e nunca se separa de uma confiança inabalável nele. O vagão separado da locomotiva numa subida logo perde o movimento na direção certa e começa a descer; a alma que solta a mão de Deus pela incredulidade perde a santidade, cai em pecado — do coração, da vida, ou de ambos — e toma a descida para a perdição.
A falsa santidade pode classificar-se sob várias espécies. Há uma santidade aristocrática e autoindulgente: dá a sua influência para erguer casas de culto belas e custosas, com pregadores populares, canto de coro e congregações seletas, das quais os pobres são excluídos como frequentadores regulares pela venda ou aluguel dos assentos. Dá-se ares; veste-se com estilo bastante para causar a impressão de que não pertence ao povo comum; busca a sociedade das classes altas e procura explicar as exigências do evangelho de modo a agradar-lhes o gosto; vai tão longe na autoindulgência quanto o sentimento público permite. Tertuliano, por volta do ano 207, refere-se com ironia cortante a essa classe de professos de santidade: “Quem, entre vós, é superior em santidade, senão o mais frequente nos banquetes, o mais suntuoso na mesa, o mais douto nas taças? Homens só de alma e carne como sois, com razão rejeitais as coisas espirituais.” Essa espécie de santidade geralmente não é perseguida pelo mundo; se o é, está pronta a desculpar-se e a assumir forma menos ofensiva. Há uma santidade fanática: põe a maior ênfase naquilo para que tem menos razão e menos Escritura; a sua abnegação é grande, e só se iguala à sua obstinação; tem um elemento de sinceridade, mas viciado por estar consagrada à própria vontade, e não à vontade de Deus; falta-lhe a grande qualidade da submissão; não sabe ceder, nem nas coisas menores e mais indiferentes; precisa impor a sua vontade em tudo; todos devem submeter-se ao seu ditame ou receber a sua denúncia inflamada. Há uma santidade avarenta: veste roupa barata — mas para evitar despesa; tem críticas afiadas para todo projeto que exija gasto de dinheiro — mas porque não quer arcar com a sua parte; pode ter pouco ou muito, mas ao que tem se agarra com mão de avarento; frequentemente opõe-se a todas as organizações da igreja, na verdade porque deseja alguma desculpa para não sustentá-las; é poderosa em derrubar — nunca tenta a mão em edificar; pode queimar palácios — não sabe erguer uma choupana.
Cuide, pois, de ter a verdadeira santidade. Seja a sua consagração a Deus. Entregue-se para ser habitação do Espírito Santo; deixe-o guiá-lo a toda a verdade. Que os Dez Mandamentos e o Sermão do Monte sejam para você tanto quanto “as grandíssimas e preciosas promessas” — que se encaixem juntos na sua experiência. Esmere-se em revestir-se de humildade: não basta não se sentir orgulhoso; não se deve parecer orgulhoso. Seja de espírito humilde, e tudo em você manifestará esse espírito. Falte-lhe o que faltar, não lhe falte aquela santificação “sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). Se está sem ela, apresse-se em obtê-la: não há tempo a perder; a eternidade está à porta; a grande preparação para ela é a verdadeira santidade, e deve ser obtida aqui — o leito de morte pode ser tarde demais. Consagre-se plenamente a Deus. Obedeça às direções do Espírito. Faça toda confissão que ele o mover a fazer. Tome a posição que ele lhe indicar. Confie plenamente em Cristo; apoie-se nele; creia em cada promessa sua — mas, acima de tudo, creia nele.
A santidade pertence especialmente ao Senhor. Nele é pura, sem mistura e não derivada. Por isso ele é chamado O SANTO, como se os nomes Santo e Deus fossem o mesmo: “provocaram o Santo de Israel” (Is 1.4); “se apoiará no SENHOR, o Santo de Israel” (Is 10.20). O Messias é igualmente chamado o Santo: “nem permitirás que o teu Santo veja corrupção” (Sl 16.10); “Bem sei quem tu és: o Santo de Deus!” (Lc 4.34).
A santidade no homem é muitas vezes defeituosa: pode faltar-lhe algum dos elementos essenciais. Por isso, nas Escrituras achamos termos qualificativos aplicados à santidade quando usada em conexão com seres humanos: “e que se revistam do novo ser humano, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade [verdadeira santidade]” (Ef 4.24) — o que implica haver uma santidade falsa, que passa por santidade embora carente de propriedades essenciais; “para que, libertados das mãos de inimigos, o servíssemos sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias” (Lc 1.74-75) — a expressão “diante dele” é a forma mais alta de superlativo, e denota uma santidade e justiça que suportam o escrutínio do olho onividente de Deus. A santidade do dia é tão ineficaz porque é, em tanta parte, defeituosa: a carga não se move porque muito do vapor se perde; o remédio não cura porque combinado com tantas substâncias neutralizantes; o ouro não circula porque misturado com tanta liga. Cuidemos de ter a verdadeira santidade.
Muita da santidade corrente carece de espiritualidade: tem aspecto mundano; em geral fala à maneira do mundo; mantém a profissão de santidade onde é popular professá-la; mas, no geral, a sua conversa é da terra, terrena; falta-lhe o odor da santidade; não traz o aspecto solene e celestial de quem mantém comunhão com Deus; apesar dos seus esforços em contrário, carrega consigo, e difunde por onde vai, um espírito mundano.
Muita carece de lealdade a Deus. Enquanto Deus é nominalmente reconhecido como soberano, a lealdade suprema é dada ao eu, ou à sociedade, ou à igreja. Alguns cedem às exigências da santidade até que estas pareçam interferir nos seus interesses mundanos; dão testemunho positivo da santidade até descobrirem que alguns, cuja boa opinião cobiçam, os tratam com frieza por causa disso — e então ficam cautelosos ou calados. Propõem-se a cumprir as exigências da Bíblia quanto ao vestuário; mas, quando veem que isso lhes traz opróbrio e perseguição, vão com a multidão e se conformam com este mundo. Alguns cumprem as exigências da santidade até onde podem sem sair da harmonia com as autoridades da igreja: têm convicções claras e positivas; enquanto os usos da igreja estão em harmonia com essas convicções, sustentam-nas com firmeza; mas, por mais claramente que elas estejam expressas nos padrões de doutrina da igreja, se a igreja as desconsidera na prática, eles prontamente a acompanham e agem em contrário às convicções mais claras que Deus lhes dá. Um membro rico da Igreja Metodista Episcopal viu claramente que a prática de alugar ou vender assentos na casa de culto é contrária às Escrituras. Precisavam de um templo novo; pediram-lhe que encabeçasse a subscrição; ele se ofereceu, contanto que os assentos fossem livres. O pregador insistiu que não se podia construir templo de assentos livres. O cristão ofereceu-se para construí-lo ele mesmo, contanto que os assentos fossem livres; a oferta foi aceita, e ele construiu um templo grande e cômodo. Poucos anos se passaram antes que os pregadores o persuadissem a consentir no aluguel dos assentos naquele mesmo templo. Por manejo astuto obtêm-se, nos tribunais eclesiásticos, as decisões mais iníquas contra alguns dos seus ministros mais devotados e piedosos; e homens que se dizem advogados da santidade — que teriam defendido esses proscritos se por acaso estivessem em maioria — fecham os ouvidos ao testemunho mais forte e dão aos meros fantasmas da imaginação toda a autoridade da Escritura Sagrada. Uma santidade que só reconhece as exigências da justiça quando sancionadas pela maioria; uma santidade que não reconhece fidelidade mais alta que a lealdade à igreja, que faz do apoiar os que estão no poder — façam o que fizerem — o seu dever supremo, é traição a Deus. É idolatria refinada e sutil — mas idolatria não menos condenatória do que a que leva os seus devotos a prostrar-se diante de paus e pedras. O santo dá a sua lealdade suprema a Deus: reconhece a verdade e a justiça como atributos de Deus e, por mais que sejam pisadas no pó, sabe que não pode ser falso a elas e, ao mesmo tempo, fiel a Deus.
Foi essa disposição de sustentar a verdade de Deus uns nos outros, quando as autoridades da igreja e do estado se levantavam contra ela, que tornou invencíveis os cristãos primitivos (Hb 10.32-34). Se essa doutrina da lealdade suprema à igreja tivesse prevalecido no tempo do nosso Salvador, o cristianismo jamais se teria estabelecido — pois Cristo foi crucificado pelas autoridades da igreja; e não de uma igreja entre muitas, mas por instigação dos principais sacerdotes da única igreja de Deus então na terra: igreja fundada em Abraão, sancionada pela operação de prodígios e milagres de era em era, enriquecida pela sabedoria e ilustrada pela piedade dos profetas que Deus levantou no meio dela de tempos em tempos. Se a lealdade à igreja é o nosso primeiro dever, então Lutero e Wesley foram hereges e cismáticos, e não os reformadores que costumamos considerar. O próprio princípio fundamental da Reforma é que toda alma deve a sua primeira e mais alta lealdade a Deus; em nenhum outro princípio se pode defender a Reforma. Pregadores e igrejas são auxílios nos seus devidos lugares; mas, quando exigem que alguém faça o que Deus proíbe, então, custe o que custar, Deus deve ter a preferência.
Se a maçonaria é, como mostram claramente o falecido presidente Finney, o presidente Blanchard e outros, uma religião rival e hostil ao cristianismo, então é defeituosa a santidade que fecha os olhos a esse grande fato e sustenta pregadores maçons nas suas igrejas. Se vender ou alugar bancos nas casas de culto é violação clara da proibição de fazer acepção de pessoas ao assentar as congregações, e contrário ao espírito e ensino do evangelho, então é defeituosa a santidade que dá a sua sanção ou apoio a essa prática anticristã. Se a Bíblia requer simplicidade no vestir e proíbe aos cristãos adornar-se com “cabelos trançados, ouro, pérolas ou vestuário dispendioso”, então é defeituosa a santidade que não dá atenção a esses mandamentos claros, mas se conforma às modas do mundo em coisas claramente proibidas pela Palavra de Deus.
É falsa a santidade que se edifica sobre uma suposição falsa. “Santifica-os na verdade” (Jo 17.17). É suposição falsa a que dá por certo que os que mantêm posição respeitável numa igreja respeitável estão, por isso, justificados. Alguns estão; muitos não. “Assim, pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.20). Alguns amam o mundo, e não tentam ocultá-lo — “se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele” (1Jo 2.15); buscam a amizade do mundo, e para isso entram em associações voluntárias de caráter puramente mundano, dando-lhes preferência sobre a Igreja de Cristo: são vistos na loja com mais frequência que na reunião de oração. “Criaturas infiéis, vocês não sabem que a amizade do mundo é inimiga de Deus?” (Tg 4.4). Pessoas dessa classe precisam primeiro de perdão: estão sob condenação — e devem ser levadas a vê-lo —, pois andam não segundo o Espírito, mas segundo a carne. Se algum dia estiveram no caminho da vida, desviaram-se da verdade: precisam ser convertidas (Tg 5.19). Encorajá-las a pensar que estão em estado de salvação é encorajá-las a crer numa mentira; construir sobre esse fundamento uma estrutura de santidade é fazer obra que, com toda probabilidade, não subsistirá. Os honestos, ao verem que não receberam a bênção que julgavam ter recebido, tenderão a concluir que tudo é ilusão; os desonestos abraçarão de bom grado a ilusão, e talvez a retenham até morrer, para a sua perdição eterna.
Viva a santidade! Fale santidade! Pregue santidade! Se almas sob condenação forem verdadeiramente despertadas pelo Espírito, elas — ainda que se apresentem buscando santidade — logo começarão a orar por perdão. Encoraje-as a prosseguir nessa oração até ser respondida. Não tente persuadi-las de que estão melhor do que o Espírito lhes mostra. Deixe-as ir ao fundo e confessar tudo o que Deus lhes mostrar que devem confessar; deixe-as buscar até o Espírito responder ao sangue e dizer-lhes que nasceram de Deus. Obtido o perdão do pecado e a vitória sobre o pecado, estarão em condição de avançar e buscar a verdadeira santidade. Não sentirão vontade de fechar os olhos à luz e fazer do uso popular um substituto da Palavra de Deus. A consagração mais plena que o Espírito exigir será feita de bom grado: não consagrarão até o ponto da popularidade e ali pararão, nem até o ponto da lealdade à igreja e ali pararão; aonde o Espírito Santo conduzir, seguirão alegremente; não fecharão os olhos aos pecados populares sob o pretexto de não os entender; não hesitarão em abraçar o certo por estarem sozinhos. É falsa a santidade que tira toda a coragem de um homem e o torna instrumento dócil dos astutos e maquinadores. Os instintos religiosos de uma alma verdadeiramente salva de Deus são para ela guia mais seguro do que a lógica alheia: ela quer saber o que Deus quer que saiba; quer estar onde Deus quer que esteja.
Que corremos o perigo de abraçar uma santidade falsa está claramente implícito em muitas passagens das Escrituras: a expressão do apóstolo, “verdadeira santidade”, implica que há uma falsa; as numerosas exortações contra o engano também o implicam. Tenha cuidado, pois, se preza a salvação da sua alma, e não abrace uma santidade falsa. Compre, custe o que custar, o “ouro provado no fogo”. Não dê apoio à promoção da santidade falsa: examine cuidadosamente o caráter da pregação que você sustenta e dos livros e periódicos que faz circular; não endosse nada que não resista à prova do dia do juízo. Seja decidido neste ponto: tome posição por uma obra genuína. A necessidade nos é imposta: “Porque nada podemos contra a verdade, mas somente a favor da verdade” (2Co 13.8).
Não há fim para as falsificações: mal uma é exposta, outra é posta em circulação. Assim é no mundo financeiro; assim é no religioso. Mas com esta diferença: ninguém quer receber um dólar falso, ao passo que a grande maioria parece preferir uma religião falsa. As multidões que vão ouvir o sr. Moody parecem julgar que fizeram muito indo ouvi-lo sem pagar nada; enquanto, da multidão que vai ouvir o sr. Ingersoll blasfemar, cada um paga o seu meio dólar, ou dólar, sem reclamar. Há alguns anos era moda combater a santidade; agora vai-se tornando moda pregar santidade. Mas há grande diferença na espécie de santidade pregada: nem tudo o que reluz é ouro; nem tudo o que passa por santidade o é. Ainda existe o que o apóstolo chama “verdadeira santidade” — e existe uma santidade falsa.
Fomos ouvir um dos teólogos presentes à Conferência Profética realizada há pouco em Chicago pregar sobre a “santificação”. Foi sermão hábil e exaustivo — e todo o seu teor, falso e lisonjeiro. Supunha que todo o sentido do termo é ser “separado para fins santos”: assim, o lugar dos sacrifícios era santo, o altar era santificado, os primogênitos eram santificados — mas, dizia ele, o seu caráter não mudava. “Assim”, disse a uma congregação elegante, “se vocês são crentes, estão santificados; podem estar sujeitos a fraquezas, podem falhar em mil coisas, mas a sua santificação está completa: vocês estão completos em Cristo.” Essa, sustentava, é a condição de todos os crentes — mas não implica mudança alguma no caráter; devem esforçar-se por fazer caráter e conduta corresponderem à sua condição; perseverando, melhorarão, mas jamais poderão alcançar nesta vida a perfeição que Deus requer. O pregador disse que Finney e Mahan, e até John Wesley, haviam rebaixado o padrão. “Deus”, disse, “não exige do homem nada menos que a perfeição absoluta.” Não é estranho que, com a Bíblia aberta diante de si, homens ousem pregar tais doutrinas? Sob a antiga dispensação, um profeta perguntou: “Que é o que o SENHOR pede de você? Apenas isto: que pratique a justiça, ame a misericórdia e ande humildemente com o seu Deus” (Mq 6.8). E Jesus dá, como o grande mandamento: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento” (Mt 22.37). Isto é claro — e tão razoável quanto claro. “De todo o seu coração” — não com o coração de um arcanjo, nem sequer com o de um ser humano superior, mas “de todo o seu coração”. O mais fraco, o mais ignorante pode fazer isso; o mais forte, o mais dotado não pode fazer mais. É isso que a Bíblia entende por sermos santificados: amar a Deus de todo o coração, alma e mente.
Mas que a santificação não é apenas mudança de condição ou relação — é também mudança de natureza, de caráter e de conduta —, as Escrituras claramente ensinam. Tome uma passagem clara: “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo. E que o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará” (1Ts 5.23-24). Esta passagem, cuidadosamente considerada, lança muita luz sobre a santificação. Ensina: 1) que as almas, na conversão, são santificadas, mas não por inteiro; 2) que a inteira santificação é posterior à justificação — eles já estavam justificados; 3) que a inteira santificação é obra de Deus — obra feita em nós pelo Espírito de Deus; 4) que ela põe espírito, alma e corpo em condição irrepreensível — pois não podem ser conservados irrepreensíveis sem primeiro serem feitos irrepreensíveis; 5) que é alcançável, pois é Deus quem há de fazê-la — quem ousará limitar o poder da sua graça?; 6) que é alcançável agora, nesta vida, pois o apóstolo ora para que sejamos conservados nesse estado; 7) que é um estado do qual ninguém precisa jamais cair, pois o apóstolo ora para que sejamos conservados nele até “a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” — e acrescenta: “Fiel é aquele que os chama, o qual também o fará.” Faça apenas a sua parte, e Deus fará a dele: não há sobre isso uma só dúvida.
Os que professam esperar a segunda vinda pessoal de Cristo devem cuidar para não fornecer eles mesmos uma evidência de que ela está próxima, “tendo forma de piedade, mas negando o seu poder”. Enquanto esperamos a segunda vinda pessoal de Cristo, devemos trabalhar com seriedade reverente para preparar a nós mesmos, e a quantos pudermos, para o seu reino e a sua vinda — e especialmente empregar esforços definidos e bem dirigidos para espalhar por toda parte a doutrina e a experiência daquela “santificação sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).
Não me refiro aos que combatem a santidade; uso a palavra “combativa” como adjetivo para descrever a santidade. A expressão pode ser usada em sentido mau e em sentido bom. Um professo de religião todo desperto para a própria importância, pronto a entrar em contenda com todos, em toda ocasião, com quem dele discorde; a pôr a pior interpretação nas ações e o pior sentido nas palavras alheias; que levanta contendas e divisões por onde passa — esse tem uma má espécie de santidade guerreira. Pode ser zeloso por reformar, mas pouco faz por promover “paz na terra e boa vontade entre os homens”. É propenso a substituir o amor pela amargura, a fé pela presunção, a firmeza pela obstinação. Homens naturalmente belicosos, mesmo quando verdadeiramente santificados, correm o risco de perder a plenitude do amor e tornar-se briguentos; e, se — como costuma acontecer — mantêm a profissão de santidade, previnem as pessoas sensatas contra a doutrina e fazem enorme dano.
Mas a verdadeira santidade não é o princípio fácil, obsequioso e contemporizador que muitos parecem pensar: é valente como um herói e, ao mesmo tempo, terna como uma mulher. É valorosa pela verdade: quando chamada, está pronta a defendê-la e, se preciso, a morrer por ela. O homem de Deus é solenemente exortado: “Combata o bom combate da fé. Tome posse da vida eterna” (1Tm 6.12). Diz o nosso Senhor: “Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10.34). Onde quer que o pecado e a verdadeira santidade se toquem, há de haver guerra. Todos os santos eminentes foram grandes guerreiros. Paulo descreve a sua vida, ao fim, dizendo: “Combati o bom combate.” Lutero, Wesley e Finney foram poderosos homens de guerra. Mas cuide de, em meio a todas as suas lutas, conservar-se cheio de amor.
Temos um irmão presbiteriano — homem devoto de Deus e pregador capaz — que sustenta a doutrina da santificação. Diz ele que, de fato, acha que os que professam santidade estão geralmente “santificados em listras”. Não há fundamento demais para essa observação? Alguns evidentemente amam o mundo: ganham tudo o que podem e poupam tudo o que podem — mas não dão tudo o que podem; têm o bastante, e mais que o bastante, para o conforto seu e dos seus dependentes por toda a vida, e ainda assim continuam ajuntando “tesouros na terra”. Alguns fazem da piedade fonte de lucro: até os “acampamentos de santidade” são administrados de modo a render bom dinheiro — o terreno para as tendas é alugado com grande lucro; as tendas e a mobília, alugadas com lucro; e até as ferrovias — gananciosas como são essas corporações — são levadas a partilhar com os organizadores os lucros do transporte dos adoradores a essas grandes reuniões. Se os que trabalham especialmente para promover a santidade dão tal exemplo de mercantilismo, é de admirar que o mesmo espírito seja bebido pelos outros? Alguns carecem muito de mansidão e humildade: ostentam estilo; no vestir, violam as regras claras da Escritura; afetam as palavras e um alto grau de refinamento social no falar. Outros são atrevidos demais: nunca conhecem o seu lugar; se não podem liderar, empacam; precisam estar à frente, ou não trabalham; se você discorda deles, tomam-no por inimigo; um esforço para corrigir algo realmente censurável, contam-no por perseguição — não são “fáceis de persuadir”. Alguns carecem de abnegação: vivem na comodidade e na autoindulgência; parecem não saber o que é negar a si mesmos qualquer coisa por amor de Jesus.
Amados, o evangelho propõe efetuar em cada um de nós uma cura perfeita. Somos santificados “na verdade” (Jo 17.17) — isso não pode ser gravado com força demais na mente. Você será santificado só até onde receber a verdade: se as suas visões da verdade são defeituosas ou distorcidas, haverá defeito ou distorção correspondente na sua piedade. Não sejam cristãos raquíticos, com a cabeça desproporcional ao resto do corpo. EXAMINEM AS ESCRITURAS. Vise ao desenvolvimento pleno e harmonioso de todas as graças cristãs. Se você se achar defeituoso nalgum aspecto, não jogue fora, com impaciência, toda a sua experiência para percorrer de novo a mesma velha estrada batida: venha a Deus em busca daquela graça particular; persevere na oração até obtê-la; insista em que é seu privilégio estar certo com Deus em todos os aspectos. Esteja disposto a conhecer as suas faltas — pois, enquanto não as conhecer, jamais buscará livramento delas. Acolha a luz. “Por isso mesmo, vocês, empregando toda a diligência, acrescentem à sua fé a virtude; à virtude, o conhecimento; ao conhecimento, o domínio próprio; ao domínio próprio, a perseverança; à perseverança, a piedade; à piedade, a fraternidade; e à fraternidade, o amor” (2Pe 1.5-7).
Tudo o que é valioso tem a sua falsificação. Casamentos de mentira, remédios espúrios, moedas falsas sempre enganaram a muitos e renderam colheita de tristeza no lugar da alegria esperada. A santidade é atributo de Deus — atributo essencial; é a falta de santidade que faz de Satanás o diabo. A santidade é a grande necessidade do homem: sem ela não pode ir a um Céu que o pecado jamais contamina e cujos habitantes são todos santos. Nenhum grau de talento, nenhuma soma de saber, nenhuma abundância de riquezas compensa a falta de santidade. Não admira, pois, que Satanás, transformado em anjo de luz, dobre todas as energias para produzir uma imitação fiel da santidade — e o faz tão admiravelmente, que enganaria, se possível, os próprios eleitos. As Escrituras nos dão aviso claro; se tomamos por santidade genuína qualquer falsificação, por espúria que seja, nossa é a culpa e nossa a perda resultante.
Logo na abertura do evangelho somos postos de sobreaviso. Zacarias, cheio do Espírito, bendisse a Deus pela vinda de Cristo para cumprir a misericórdia prometida aos nossos pais — “o juramento que fez a Abraão, o nosso pai, de conceder-nos que, libertados das mãos de inimigos, o servíssemos sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias” (Lc 1.73-75). A expressão “diante de Deus” é superlativa, e denota que aquilo a que se aplica é real e verdadeiramente o que parece ser. Deus vê através de todos os disfarces; nunca é enganado. Por isso, quando os escritores sagrados querem exprimir o que é verdadeiro e real, usam a expressão “diante de Deus”: “A terra estava corrompida diante de Deus” (Gn 6.11) — isto é, completa e geralmente corrompida; de Zacarias e Isabel se diz: “Ambos eram justos diante de Deus” (Lc 1.6) — real e coerentemente justos. Assim, a expressão “santidade e justiça diante do Senhor” implica que há uma santidade que não suporta a inspeção do olho onividente de Deus. A mesma ideia é transmitida por Paulo: “revistam-se do novo ser humano, criado segundo Deus, em justiça e verdadeira santidade” (Ef 4.24). Por que esse qualificativo, “verdadeira”? Os escritores inspirados não usam tais termos ao acaso: “verdadeira santidade” implica que há uma falsa. Isto é evidente. As Escrituras nos põem, pois, de sobreaviso: devemos examinar cuidadosamente os ensinos de santidade que buscam a nossa aprovação. Estão em harmonia com os ensinos da Bíblia? Podem estar nalguns aspectos e, contudo, ser radicalmente errados. As doutrinas que recebemos são as correntes invisíveis que nos prendem a uma vida de fé e obediência; mas uma corrente não é mais forte que o seu elo mais fraco. Assim, muito do que passa por santidade será achado defeituoso no dia em que a sua força for provada. Essa santidade defeituosa cresce rapidamente: está se tornando popular; desperta pouca oposição, provoca pouca perseguição.
1. A santidade bíblica implica ódio arraigado ao pecado. A pessoa santa põe fora todo pecado: não lhe dá apoio, nem em si nem nos outros; e chama pecado ao que Deus chama pecado. Ninguém diz: “Vou cometer um pecado contra Deus” — mas faz o que Deus diz que não deve fazer, ou deixa de fazer o que Deus manda. Falar em consagrar ao Senhor algum ídolo favorito! Deus manda pô-lo fora. Você pode consagrar quanto quiser: Deus não terá nada com isso. A boa capa babilônica e a barra de ouro ele não aceita, nem consagradas. Diz Deus: “Que o enfeite delas não seja o que é exterior, como cabelos trançados, joias, roupas caras” (1Pe 3.3). Muitos mestres de santidade não só não aplicam esse mandamento, como dão o exemplo da sua violação aberta. Já vimos mestres de santidade, cavalheiros, com ornamentos de ouro bem à vista; e mestras agitando plumas de avestruz nos chapéus — e, contudo, fazendo fortíssima profissão de estarem salvos do pecado. O problema é que não chamam pecado a quebrar um mandamento claro da Bíblia que está na moda quebrar. A sua regra de conduta não é a Palavra de Deus, mas os usos da chamada boa sociedade; pelo seu método de ensino, a Bíblia deve ser interpretada — não importa a violência feita à sua linguagem — de modo a não ofender o sentimento popular. Essa qualidade que visa a agradar e nunca ofender, que suprime nas reuniões religiosas todo testemunho claro contra a conformidade mundana no vestir ou contra as associações mundanas desnecessárias das sociedades secretas, pode parecer amável e atraente — mas não é santidade bíblica. Chamá-la assim é enganoso: o seu nome próprio é polidez, não santidade; gente bem-educada do mundo age do mesmo modo quando isso não conflita com os seus interesses. Entenda-nos: não dizemos que essa complacência fácil seja toda má; em sentido mundano pode fazer bem — suaviza muita aspereza da vida diária; é óleo que diminui o atrito do convívio entre pessoas de opiniões opostas e interesses conflitantes. Mas não é santidade bíblica: falta-lhe o elemento fundamental — aquele amor a Deus que leva a obedecer a todos os seus mandamentos; confunde fatalmente o amor à popularidade com o amor a Deus. Não é a santidade de George Fox, de John Wesley e de Charles G. Finney: esses homens de Deus deram testemunhos claros e sonoros contra os pecados populares; não tinham aquele espírito complacente e bajulador que teme ofender o mundo; não davam trégua ao pecado popular.
2. A santidade bíblica implica o coração cheio de amor — amor genuíno a Deus e aos homens. Ela repreende, mas em espírito de mansidão; dá testemunho franco contra os pecados populares, mas com bondade e não com ira; por amor da consciência, e não para satisfazer um espírito de ressentimento. A grande perícia do enganador se mostra em empurrar as almas fervorosas para um extremo ou para o outro. Alguns advogados zelosos da santidade não só repreendem o pecado: metem-se a anatematizar todos os que ousam discordar deles; opor-se ao seu proceder, chamam-no lutar contra Deus; faça-o alguém com toda a brandura, e será assaltado com os epítetos mais injuriosos que saibam usar. A esse zelo furioso chamam santidade — e o mais estranho é que conseguem que algumas almas honestas aceitem a sua liderança e endossem tudo o que fazem e dizem. Esses propagandistas ferozes, com línguas e penas como espada de dois gumes, manifestam um espírito que se esperaria antes entre os devotos do islã do que entre os seguidores de Cristo. A pessoa santa não se entrega a vituperação e denúncia furiosas: é intransigente — mas, ao mesmo tempo, branda e bondosa.
Cuidemos, pois, de andar irrepreensíveis em santidade “diante do Senhor”. O engano de nada vale: no melhor dos casos, dura pouco. Em breve entraremos num mundo de realidades severas; seremos pesados — seja qual for a estima que façamos de nós mesmos — nas balanças infalíveis do santuário de Deus. Cuidemos de não ser achados em falta.
Que a obra da santidade está ganhando terreno neste país é, cremos, evidente: os trabalhos dos que se empenham em promovê-la têm encontrado algum encorajamento. Contudo, pouco se faz em comparação com o que deveria ser feito. Qual a razão? Uma razão saliente é que, na maioria das igrejas, ensina-se ao povo que pode ser salvo sem santidade. Não se faz isso com todas as letras — isso assustaria os ouvintes; mas leva-se o povo a crer que irá para o Céu se entrar para a igreja e lhe for leal, ainda que continue vivendo no pecado. Os homens desejam obter vantagens nos termos mais fáceis: se dois artigos de igual valor são postos à venda, vende-se primeiro o de preço mais baixo. Quando pessoas que amam o mundo — as suas modas, associações, honras e prazeres — recebem a garantia de que podem ganhar o Céu pagando o pregador e sustentando a igreja, sem largar os seus pecados queridos, naturalmente escolhem esse caminho. Devemos mostrar que ninguém pode ser salvo sem ser feito santo a ponto de parar de cometer pecado. “Quem vive na prática do pecado é do diabo” (1Jo 3.8) — nisto devemos insistir; e também: “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado” (1Jo 3.9). Os que são levados a crer que podem ser bons cristãos e, ao mesmo tempo, viver no pecado não desejam tornar-se santos — por que desejariam, se podem gozar ao mesmo tempo os prazeres do pecado e colher as recompensas da santidade? Devemos remover essa ilusão da mente do povo; devemos mostrar que a religião popular do dia não é o cristianismo verdadeiro.
É preciso coragem para fazê-lo do modo próprio. Não se deve fazer de maneira a criar a impressão de que estamos guerreando contra as igrejas — isso levantaria resistência; não deve haver nada de beligerante nem farisaico no nosso modo. Devemos fazê-lo no espírito com que Paulo escreveu dos professos carnais do seu tempo: “Pois muitos andam entre nós, dos quais muitas vezes eu lhes falava e agora falo até chorando, que são inimigos da cruz de Cristo. O destino deles é a perdição, o deus deles é o estômago, e a glória deles está no que é vergonhoso; eles só pensam nas coisas terrenas” (Fp 3.18-19). Que isso se aplica com demasiada generalidade aos membros das igrejas populares, os seus próprios pastores praticamente o reconhecem, quando promovem festivais e apelam aos apetites do povo para levantar dinheiro. Há grande diferença de efeito entre dizer isso em espírito áspero, censório e recriminador, e dizê-lo, como Paulo, de coração terno — até chorando. É espetáculo triste — de fazer chorar os anjos — ver púlpitos e bancos de igrejas professamente cristãs cheios de homens e mulheres que dão a evidência mais inconfundível de “só pensar nas coisas terrenas”, de viver em violação clara dos mandamentos de Deus. Mas, em vez de clamar “paz e segurança” e dizer-lhes que, “se prosseguirem, chegarão por fim ao Céu”, mas “precisam da bênção da santidade para serem mais úteis”, devemos mostrar-lhes, com ternura mas com clareza, pela Palavra de Deus, que o fim do caminho que seguem é a destruição. Onde isso se faz no Espírito Santo, a obra da santidade avança com poder: o povo é levado a arrepender-se dos seus pecados, e depois a prosseguir “aperfeiçoando a santidade no temor do Senhor”; obtém uma experiência que o enche de alegria e lhe dá poder sobre os outros. Mas, quando, numa igreja composta de desviados e de nunca convertidos, a santidade é pregada como bênção que podem receber de imediato, pelo simples crer, o resultado é o autoengano: muitos professam inteira santidade quando, no máximo, obtiveram o perdão; são instados a professar o mais alto estado de santificação quando estão no mais baixo estado de justificação; e alguns até se tornam advogados da santidade quando, segundo o padrão da Bíblia e da Disciplina Metodista, não estão sequer plenamente despertados. Testemunha-se o espetáculo triste de homens pregando santidade tão contaminados pelo fumo, que os puros relutam em aproximar-se deles; e de mulheres, agitando as suas plumas e ostentando as suas joias, professando estar salvas totalmente! Isso torna as pessoas sensatas desconfiadas da doutrina. Para promover a obra da santidade, pois, não devemos fechar os olhos a esse estado de coisas e agir como se não existisse: um médico nunca cura o cólera tratando-o como simples irregularidade; devemos reconhecer o estado desesperador do caso e aplicar o remédio próprio. Isso, é claro, levantará conflito — mas devemos enfrentá-lo em nome de Jesus. É covarde e criminoso, da parte dos advogados da santidade, encorajar os professos no autoengano; é traição a Cristo persuadir os que sabem que amam o mundo de que estão em estado de salvação — fraco, talvez, digno de pena e de mimo —, quando precisam quebrantar-se diante de Deus e buscar perdão. Façamos para Deus obra completa. “Maldito aquele que fizer a obra do SENHOR relaxadamente” (Jr 48.10).
O grande estorvo à obra da santidade na terra é a depravação do homem: ela cria obstáculos de toda espécie concebível, e existe em toda parte onde há homem. Não há como evitá-la: não se acha localidade em que o povo esteja naturalmente inclinado a seguir a santidade; jamais se descobriu povo que acolhesse a verdade pura e sem mistura de Deus e se pusesse a obedecer às suas exigências. Para induzir homens depravados a buscar a santidade, eles precisam ser atraídos do alto pelo Espírito Santo: sem esse auxílio sobrenatural, a oposição natural do homem à santidade jamais será vencida. Assim, para pregar a santidade com êxito, é preciso algo mais que o entendimento correto da doutrina e a capacidade de expô-la com clareza e defendê-la com argumentos irrespondíveis. Esses são importantes: para abraçar a verdade, as pessoas precisam vê-la; é desarrazoado exigir que alguém creia no que não compreende com alguma clareza. Os advogados da santidade devem, pois, esmerar-se em conhecer a doutrina, valer-se da ajuda dos que lha podem dar, e estar aptos a apresentar um texto claro das Escrituras em confirmação de cada afirmação doutrinária que fizerem. Mas, acima de todas as qualificações, os mestres de santidade precisam falar sob um batismo do Espírito Santo: devem ser divinamente inspirados; as suas palavras devem ser em demonstração do Espírito e de poder; devem apresentar a verdade em fogo. Sem isso, pouco mais se fará que convencer o entendimento. Para mover os homens a agir, o seu coração deve ser tocado, a sua consciência despertada. O argumento sozinho não o fará; o barulho não o fará; a quietude não o fará. Os sentimentos do pregador devem estar alistados e aquecidos: fogo acende fogo; vida gera vida. Vá, pois, diante do povo já aquecido — especialmente se pretende dizer verdades claras e pontiagudas, encha o coração de amor: minério derretido derrete minério. Se o povo está morto, tanto maior a necessidade de você ter vida, e tê-la em abundância: não se pode comunicar o que não se possui. Pretende ir a acampamentos para ajudar a obra de Deus? Comece já a preparação necessária. Estude especialmente as passagens que falam da obra do Espírito; impregne-se da ideia da grande obra que o Espírito Santo pode realizar, se derramado sobre a multidão; leia dos muitos que foram compungidos no coração; pense nos improváveis que se converteram. O Espírito Santo não perdeu nada do seu poder: ainda pode perturbar fariseus, despertar pecadores e sacudir os mornos. O que é preciso para o êxito dos acampamentos é o derramamento do Espírito sobre o povo. Veja como bem poucos jamais obtêm um derramamento do Espírito sobre muitos! Quando se realizaram os maravilhosos resultados do dia de Pentecostes, havia na grande congregação apenas pequena proporção de crentes — mas todos estavam cheios do Espírito Santo. Devidamente impressionado com a importância de ter o Espírito, considere a quem ele é prometido, e sob que condições fáceis! O ignorante, como o douto, pode ser cheio do Espírito. Há uma só condição para todos: obedecer a Deus. “Nós somos testemunhas destes fatos, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu aos que lhe obedecem” (At 5.32).
A verdadeira santidade não é popular. Limite-se alguém àquele ramo da santidade que consiste em fazer bem ao corpo dos homens, e encontrará aceitação geral; depois de morto, todos se unirão para honrar o seu nome. Mas tome alguém outro ramo da santidade e procure fazer bem às almas dos homens, declarando-lhes conscienciosamente todo o conselho de Deus, e não será popular: via de regra, será perseguido. Cristo foi perseguido; igualmente Paulo; também Lutero, John Wesley e Jonathan Edwards. Qualquer homem, nos dias de hoje, por brando e prudente que seja, que insista em que os seus ouvintes, para serem salvos, devem abandonar o orgulho, a maçonaria e todos os pecados populares, vestir-se com simplicidade e levar vida de abnegação, encontrará oposição e perseguição. A cruz não perdeu o seu opróbrio; a mente carnal não se tornou amiga de Deus; a justiça não entrou em comunhão com a injustiça; a luz não goza comunhão com as trevas, nem mesmo nesta era avançada.
Diz John A. Wood, no Christian Standard: “Impõe-se-nos a convicção, por mal-vinda que seja, de que há na igreja oposição à santidade cristã, e de que ela, em certa medida, está crescendo. Preferiríamos crer o contrário; mas a luz clara e os fatos manifestos sobre o assunto são dolorosamente convincentes. Não podemos calar-nos e ver o nosso Salvador desonrado pela culpa e vergonha de muitos dos seus professos amigos. Ser fiel a Deus e apontar as faltas da igreja não é evidência de ser seu inimigo: ‘quem me diz as minhas faltas é meu amigo’. Vê-se facilmente que na igreja de hoje há apatia, e mais ou menos hostilidade, para com a santidade de coração e vida. Sabemos, e nos alegramos, que há muitas exceções — mas estão longe de ser gerais. Onde não há hostilidade aberta ao assunto, há a seu respeito profunda e generalizada apatia e indiferença espirituais. Perguntamos: por quê? Quais as causas desse estado de coisas? Que Satanás e os homens maus odeiem e combatam a santidade, é de esperar; mas que homens e mulheres na igreja de Deus — com votos batismais, sacramentais e eclesiásticos sobre si — lhe sejam indiferentes, ou a combatam, é de fato surpreendente. Mas há causas: uma é o triste fato de haver muitos desviados na igreja, e sem dúvida também no ministério. A causa principal, a nosso ver, é o baixo padrão de piedade na igreja em geral. O grau de piedade exigido, em muitos casos, para a admissão à igreja, e o necessário para manter nela boa reputação, é assustadoramente pequeno: não se compara favoravelmente com a piedade do Novo Testamento, tirada dos seus preceitos ou exemplos. Por isso, quando a doutrina bíblica da santidade é apresentada, encontra frequentemente oposição decidida. Quanto inclui o padrão comum das nossas igrejas de abnegação, de carregar a cruz, de morte para o mundo e de oração agonizante? Quanto de trabalho diário pela salvação das almas? Quanto exige de consagração inteira de tudo o que temos, de tudo o que podemos fazer, e de todo o nosso ser, à causa e ao serviço de Deus? A piedade do Novo Testamento exige tudo isso; mas parece que essas coisas caíram, em grande parte, dos elementos do caráter cristão, e já não são requisito da vida cristã. Embora esses itens continuem na nossa disciplina e nos manuais da igreja, o seu espírito e sentido se foram, deixando só os nomes ocos. Quando a santidade, incluindo todos esses e outros itens essenciais, é apresentada com clareza e poder, levanta oposição. Um doutor em divindade do leste disse há pouco: ‘Acho em mim algo que escoiceia contra esta santificação.’ Feliz seria a igreja de Deus se ele fosse exceção. Esse grau baixo de piedade não é a piedade da Bíblia. A consagração tão prevalecente nestes dias não é a consagração da Bíblia: a Bíblia não dá apoio algum à ideia de que uma consagração parcial de si mesmo a Deus possa ser aceita; a delineação bíblica da verdadeira piedade não dá apoio à piedade fácil e desleixada tão prevalecente; não descreve uma piedade de segunda classe que o Senhor aceite como melhor que nenhuma. ‘Conheço as suas obras: você não é frio nem quente. Quem dera você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno e não é quente nem frio, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.’ Em todos os períodos da igreja, nos tempos modernos, houve quem tentasse elevar o padrão de piedade ao ponto em que o Novo Testamento o põe — e esses sempre encontraram oposição decidida, às vezes amarga, da parte da igreja: Lutero, Wesley, Edwards e Finney são exemplos salientes. Os advogados especiais da santidade neste país — no leste e no oeste, no norte e no sul — não precisam de prova de que há oposição a este assunto entre professos cristãos: as pequenas insinuações, os escárnios, as deturpações e o ostracismo a que estão sujeitos são toda a prova necessária. Tenha um homem o coração cheio da luz, do amor e do poder do evangelho e, percebendo a deficiência moral da igreja, trabalhe diretamente por elevá-la a um padrão mais alto de piedade — logo achará decidida falta de simpatia e uma maré de oposição na igreja; e, embora trabalhe com sabedoria e leve consigo a convicção da igreja, achará contra si toda a depravação que há nela. A depravação humana sempre se opõe à santidade.”
Escreve um irmão inteligente e piedoso: “Em 1Coríntios 1.2, Paulo escreveu ‘aos santificados em Cristo Jesus’. Nos capítulos seguintes declara que havia divisões entre eles, que eram crianças em Cristo e que os alimentara com leite; e, pior ainda, que havia entre eles até um caso de incesto. Ora, o argumento é este: ele acusa essas pessoas santificadas de coisas que uma pessoa justificada não poderia fazer; logo, a santificação é menos que a justificação. Queira explicar.”
Respondemos: 1) Paulo não fala da pessoa de quem se queixa como santificada nem justificada. Do que se queixa é de a igreja lhe permitir lugar entre eles; ordena que retirem imediatamente a comunhão, até que o homem perverso seja levado ao arrependimento: “Mas agora estou escrevendo a vocês que não se associem com alguém que, dizendo-se irmão, for imoral…” (1Co 5.11). Chamar alguém de “irmão” não o faz irmão em Cristo. Quando Paulo fala da igreja de Corinto como santificada, fala do seu caráter geral, e depois aponta as exceções. 2) Todo cristão é santificado. Antes de converter-se, ele santifica a si mesmo — separa-se para o serviço de Deus, para abandonar o pecado e levar vida santa. Ao converter-se, é santificado pelo Espírito — é realmente tornado santo, a ponto de ter vitória sobre o pecado: não comete pecado. “Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática do pecado” (1Jo 3.9). É alto estado de graça; mas não é a inteira santificação. Nos tessalonicenses, Paulo, na primeira epístola, não acha falta alguma: fala deles nos termos do mais alto louvor. E, contudo, ora por eles: “Que o mesmo Deus da paz os santifique em tudo” (1Ts 5.23). Já estavam santificados em parte; ele ora para que a obra seja feita neles por Deus — e não lhes diz que a esperem por um processo de desenvolvimento e crescimento graduais. Já tinham conversão genuína; eram cristãos ativos e zelosos, sujeitos aptos para a bênção da santidade. Essas duas obras distintas da graça são reconhecidas também na Primeira aos Coríntios: estavam convertidos — santificados em parte, crianças em Cristo; mas, como havia entre eles contendas e divisões, não eram espirituais — não santificados por inteiro —, mas carnais, e andavam como homens (1Co 3.1,3). A mesma ideia se exprime em Tito 3.5-6: “ele nos salvou não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia, mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador.” Temos aqui: 1) a obra da conversão, expressa pelo “lavar regenerador”; 2) a da inteira santificação, expressa pela “renovação do Espírito Santo”. Assim também em 2Pedro 1.4: “pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vocês se tornem participantes da natureza divina, livrando-se da corrupção das paixões que há no mundo.” Eis: 1) a conversão — “livrando-se da corrupção”; 2) a inteira santificação — “participantes da natureza divina”. Essas duas obras são distintamente referidas tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
Alguns caem em perplexidade por confundir santificação com inteira santificação. Devemos ter cuidado de não fazê-lo. Usando a linguagem bíblica na sua devida conexão, evitamos confusão e ajudamos a promulgar a sã doutrina. Buscando a inteira santificação como bênção distinta, obtenível pela fé, nós a obtemos clara e definida, para satisfação da alma; enquanto os que pensam ter obtido na conversão tudo o que Deus lhes pode dar geralmente ou retrocedem, ou prosseguem de modo insatisfatório até para si mesmos: raramente podem testificar que o sangue de Jesus Cristo os purifica de todo pecado; a sua experiência e a sua linguagem são indefinidas. Mas façam uma consagração definida e orem definidamente por ser santificados por inteiro, e a obra será feita.
Esses dois estados não estão tão distantes quanto muitos imaginam. Guardam entre si mais ou menos a relação entre a erva daninha cortada e a erva daninha arrancada pela raiz. Um pode comparar-se a um terreno recém-desbravado com os tocos ainda no lugar; o outro, a um campo do qual toda raiz foi extraída. Ambos dão fruto de igual qualidade; mas o segundo é mais fácil de cultivar e rende colheita mais abundante. A alma justificada não comete pecado, mas sente o pecado ainda remanescente, contra o qual é obrigada a lutar para manter o domínio. A alma santificada está liberta de todos os gênios maus: nenhuma disposição errada — nenhuma contrária ao amor — permanece na alma; todos os seus pensamentos, palavras e ações são governados pelo amor puro. As tentações dos santificados — pois são muitas vezes assaltados ferocissimamente — são de origem externa. Um general hábil deseja acima de tudo a destruição das forças que mais lhe podem fazer dano; Satanás é guerreiro capaz e astuto: arma as suas tramas mais profundas e emprega as suas maiores energias para a derrota dos que buscam seguir plenamente o Senhor, sabendo que por eles o seu reino sofre as maiores perdas. Se alguém, em provação, se supõe fora do alcance das tentações, ou já está nas garras de Satanás, ou está lastimavelmente enganado. Mas aquele cuja “vida está escondida com Cristo em Deus” sente-se seguro, embora Satanás se enfureça. O apenas justificado tem de enfrentar não só os assaltos de Satanás, mas também lutar contra as corrupções remanescentes do próprio coração: um tem, ao mesmo tempo, guerra civil e guerra externa; o outro, só a guerra externa. Amado, apresse-se à fonte aberta para o pecado e a imundícia. Esta é a vontade de Deus: a sua santificação. Não se dê descanso até saber e sentir que o sangue de Jesus o purifica de todo pecado.
Santidade, inteira santificação e amor perfeito são termos bíblicos diferentes para denotar essencialmente o mesmo estado de graça — como o mesmo edifício pode chamar-se casa, residência ou lar, cada termo com o seu matiz. Mas, seja qual for o termo usado para designar o estado de conformidade com a vontade de Deus, não se deve perder de vista, um só momento, que o amor constitui elemento essencial. Diz Cristo: “amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês; desse modo, vocês se tornarão filhos do Pai celestial” (Mt 5.44-45). Se alguém professa estar inteiramente santificado a Deus e manifesta continuamente, para com os que não o endossam, um espírito maligno que não perde oportunidade de feri-los com a língua ou a pena, não devemos aceitar a sua profissão: pesado na balança do santuário de Deus, foi achado em falta. O amor perfeito jamais dá o seu apoio ao pecado, em forma ou disfarce algum: ama o pecador, mas odeia o pecado; repreende-o onde quer que o ache; não o poupa por ser elegante ou lucrativo. A verdadeira santidade não é falha em nenhuma das suas partes: não paga “o dízimo da hortelã, do endro e do cominho” negligenciando o mais importante.
Não há preconceito contra o uso da palavra “perfeição” em conexão com os assuntos humanos em geral. Quem faz objeção ao alfaiate que faz um talhe perfeito para os fregueses? Se numa peça de tecido comprada se acha imperfeição, ela é prontamente devolvida; se numa ferramenta se descobre defeito, substitui-se por outra melhor. O médico não sofre na reputação por efetuar curas perfeitas; nem o advogado, por fazer para o cliente uma defesa perfeita. Por que, então, alguns que se dizem cristãos seriam intolerantes com o uso da palavra “perfeição” em conexão com o caráter cristão? Por que julgariam quase blasfêmia que alguém, que esteve à beira da morte espiritual, afirme que Cristo efetuou nele uma cura perfeita?
Longe de as Escrituras nos proibirem de ser perfeitos — como se poderia inferir do ensino de alguns ministros e igrejas —, elas o ordenam expressamente: “Portanto, sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48). A expressão “como perfeito é o Pai celestial” não denota o grau em que devemos ser perfeitos, mas a razão por que devemos sê-lo: sejam servos perfeitos de um Deus perfeito. “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; ande na minha presença e seja perfeito” (Gn 17.1). O apóstolo Paulo nos diz que o seu objetivo, ao pregar a Cristo, era — não encorajar os homens a crer que, chamando-se cristãos, seriam necessariamente salvos, nem edificar uma sociedade — produzir em cada um o caráter cristão perfeito: “o qual anunciamos, advertindo a todos e ensinando a todos, em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todos perfeitos em Cristo” (Cl 1.28). Para o mesmo fim as verdades da Bíblia foram reveladas ao homem: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil… a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17). Que faremos com estas passagens claras da Palavra de Deus? É claro que podem ser explicadas até desaparecerem, para satisfação dos mundanos e dos cavilosos das igrejas — como qualquer outro texto que ensine doutrinas ou imponha proibições e preceitos repugnantes ao espírito sensual e mundano da época. E isso se faz em medida assustadora. A cruz é enfeitada de flores e, em vez de símbolo da religião difamada, desprezada e perseguida do homem de Nazaré, tornou-se símbolo de um mundanismo batizado, de um sensualismo refinado e de um sentimentalismo elegante. A religião que toma a Bíblia por base, mas reivindica o direito de eliminar dos seus ensinos o que desagrada à “cultura” do dia, não é o cristianismo do Novo Testamento: pode adotar as suas formas, usar a sua linguagem e dizer-se sua representante — é tudo ilusão e farsa; falta-lhe o único essencial da verdadeira religião: a submissão a Deus. Não temos o direito de rejeitar as palavras da Bíblia, ou as ideias que representam, e ainda nos dizermos cristãos.
A palavra “perfeito” é, pois, termo do Novo Testamento, com sentido bem definido. Devemos aceitá-la no seu sentido bíblico — nem rejeitá-la, nem explicá-la até sumir. O mandamento “sejam perfeitos” não exprime um ato definido e conhecido, como o mandamento “arrependam-se”, nem uma experiência particular, como o “nascer de novo”: toma-se em sentido mais largo, com maior latitude de significado; aplica-se ao filho de Deus em vários estágios da sua experiência. Pode-se dizer que uma planta de milho é perfeita numa dúzia de estágios diferentes do seu crescimento; mas, se parasse de crescer antes de amadurecer, não seria perfeita. Assim, em certo período da sua experiência, pode-se dizer que alguém é cristão perfeito, e contudo os seus alcances na piedade serem pequenos em comparação com o que serão após anos de labuta e provação. Um jovem deixa a escola do distrito para a academia. Estudou muito e começa a colher frutos: o professor, orgulhoso do aluno, diz: “Ele é perfeito em matemática — resolve todos os problemas da aritmética mais difícil.” Após três anos na academia, com lição diária de matemática, é enviado ao colégio superior, recomendado como “perfeito em matemática”: está bem versado em álgebra, geometria e trigonometria. Depois de estudar matemática quatro anos no colégio, completa o curso e gradua-se com as mais altas honras do departamento matemático. Vai então a uma escola especial e passa talvez mais três anos estudando a matemática aplicada à astronomia ou à engenharia civil — e de novo é declarado perfeito no estudo que dominou. Ao fim de uma vida de estudo incessante, ouvimo-lo dizer, com o imortal Sir Isaac Newton: “Pareço uma criança na praia do oceano, catando seixos: apanhei aqui e ali uma pérola, enquanto o grande oceano da verdade jaz inexplorado diante de mim.” Assim, quando alguém se torna cristão, a sua conversão pode ser perfeita; quando o seu coração é purificado pela fé, pode estar perfeitamente santificado; e, após anos de crescimento na graça, ainda o ouvimos dizer, com Jó, ao ter uma visão de Deus: “Por isso me abomino e me arrependo no pó e na cinza” — e, contudo, Deus duas vezes o declarara perfeito. Daí dizer o apóstolo de si mesmo: “Não que eu já tenha alcançado tudo ou que já seja perfeito” (Fp 3.12) — e quase no mesmo fôlego: “Portanto, todos quantos somos perfeitos, tenhamos este sentimento” — o que implica que se contava entre os perfeitos.
Nunca lemos na Bíblia que alguém seja feito perfeito pela fé. Lemos de pessoas “justificadas pela fé” (Rm 5.1; Gl 3.24) e “santificadas pela fé” (At 15.9; 26.18) — mas nunca de alguém feito perfeito pela fé. Outro elemento entra no aperfeiçoamento dos santos: “Pois convinha que aquele, para quem e por meio de quem todas as coisas existem, ao conduzir muitos filhos à glória, aperfeiçoasse, por meio de sofrimentos, o Autor da salvação deles” (Hb 2.10). A perfeição que o evangelho impõe aos santos só se alcança pela fidelidade em fazer, e pela paciência em sofrer, toda a vontade de Deus. Um caráter cristão simétrico, equilibrado e inabalável não se obtém de uma vez. Quando Paulo e Barnabé quiseram “confirmar a alma dos discípulos”, fizeram-no “exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no Reino de Deus” (At 14.22). Não devemos confundir a perfeição que o evangelho requer com o amor perfeito ou a inteira santificação: as Escrituras não usam esses termos como sinônimos. Não devemos buscar a perfeição cristã tanto orando por ela como bênção a receber num instante pela fé, quanto pela “perseverança em fazer o bem”. Devemos buscá-la como o menino bem-disposto busca a virilidade vigorosa: evitando os vícios, vencendo as tentações a que está exposto e cumprindo com fidelidade os deveres a que é chamado. Não concluamos que, por algum processo natural, cresceremos para fora das nossas imperfeições e nos tornaremos cristãos perfeitos sem esforço especial nessa direção. A graça, em cada estágio e grau, vem de Deus. A oração de Pedro pelos santos é: “E o Deus de toda a graça, que os chamou à sua eterna glória em Cristo, depois de vocês terem sofrido por um pouco, ele mesmo os aperfeiçoará, firmará, fortalecerá e fundamentará” (1Pe 5.10). O apóstolo dá bom exemplo do modo de professar a perfeição: “Não que eu já tenha alcançado tudo ou que já seja perfeito; mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus… uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Portanto, todos quantos somos perfeitos, tenhamos este sentimento” (Fp 3.12-15).
A Bíblia nos ensina que devemos prestar a Deus um serviço perfeito — nada menos satisfaz as nossas obrigações. “Sejam perfeitos como perfeito é o Pai celestial de vocês” (Mt 5.48). É mandamento claro. Mas muitos erram supondo que essa perfeição seja de conhecimento ou de juízo — não é: nesse sentido, só Deus é perfeito. A perfeição que Deus requer é perfeição de amor. Em muitas coisas somos necessariamente imperfeitos, e sempre seremos; mas, pela graça de Deus, podemos tornar-nos perfeitos no amor. A nossa capacidade para essa espécie de perfeição não depende dos nossos talentos nem das nossas circunstâncias: quem tem um só dólar pode dar todo o dinheiro que tem, tão bem quanto quem tem um milhão. Eu posso amar a Deus de todo o meu coração; um anjo não pode amá-lo mais do que de todo o seu coração. As exigências de Deus são razoáveis: cobrem apenas o que somos, ou o que somos capazes, com a sua ajuda, de nos tornar. Quaisquer que sejam os nossos defeitos, podemos ter “o amor de Deus derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5.5). Quando é assim — quando amamos a Deus de todo o coração, mente e força, e ao próximo como a nós mesmos —, temos o amor perfeito. Não que seja incapaz de aumento: à medida que as nossas capacidades se alargam, o nosso amor crescerá; mas, tais como agora somos, não podemos fazer melhor — e é aceito segundo o que o homem tem, e não segundo o que não tem.
Se temos esse amor perfeito a Deus, ele se manifestará — não só em palavras, mas em ações. Guardaremos os seus mandamentos; o nosso estudo será conhecer a sua vontade, com a intenção honesta de fazê-la, custem as perdas ou cruzes que custarem; perguntaremos “que exige Deus?” — e não “que agrada ao eu ou é popular com o mundo?”. Manifestaremos o nosso amor a Deus por atos de bondade, até onde tivermos oportunidade, a todas as suas criaturas; e teremos o maior deleite naqueles que mais o amam. “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odiar o seu irmão, é mentiroso” (1Jo 4.20). Isto é enfático: mostra que as nossas profissões de amor a Deus nada valem absolutamente, se não amamos os nossos semelhantes — especialmente os que se esforçam por guardar os seus mandamentos. O amor de que Paulo fala no capítulo 13 da Primeira aos Coríntios — sem o qual a fé mais forte, os maiores dons e até o martírio pela verdade de nada nos aproveitam — manifesta-se em sentimentos ternos e conduta bondosa para com o próximo. Não professe amor perfeito se você é ríspido, intratável e cruel em casa. Se você não tem a afeição natural, certamente não tem a sobrenatural. Se não faz tão bem quanto os animais, não professe ser como os anjos de Deus. Se você não é bondoso com aquela a quem jurou acalentar, ou com aqueles de quem a natureza o constituiu protetor, pare já com as suas profissões: você já tem pecados bastantes para afundá-lo na perdição, sem lhes acrescentar a hipocrisia. Se você não consegue tratar o seu irmão — cuja opinião nem sempre coincidirá com a sua — com a civilidade com que os homens do mundo se tratam, não professe amor perfeito: não é preciso graça alguma para amar os que concordam com as nossas opiniões e se rendem em deferência voluntária à nossa autoridade — pecadores comuns fazem isso. Se você está ferindo a influência do seu irmão com palavras cruéis e insinuações danosas, não professe amor perfeito. Lembre-se: “O amor não faz mal ao próximo” (Rm 13.10). Se, pois, você lhe faz dano falando contra ele, ao mesmo tempo que diz amá-lo, mostra que, no melhor dos casos, está autoenganado: você não goza o estado de graça que pensa gozar — um pouco de reflexão cândida o convenceria. Há sempre cuidado pela reputação daqueles a quem ternamente amamos. “Se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (1Jo 4.12).
Que muitos dos que professam a bênção da inteira santificação carecem gravemente de alguns dos seus elementos essenciais é dolorosamente evidente. Não são “irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus inculpáveis”; não “brilham como luzeiros no mundo”. Não que alguém possa alcançar na terra tal estado que os dispostos a achar-lhe defeito não o consigam — isso é impossível: o nosso Salvador foi perpetuamente censurado pelos religiosos mais notáveis do seu tempo, e por fim morto por eles. Mas podemos chegar aonde temos a constante aprovação de Deus — onde o agradamos em tudo o que fazemos e dizemos; onde a nossa vida está em harmonia com a sua Palavra tomada no seu sentido claro e evidente.
1. Alguns não têm coragem de dar testemunho fiel por Deus e pela sua verdade. Falam contra o pecado em geral, mas cuidam de não atacar, de modo decidido, os pecados populares: passam por eles de maneira que não atraia atenção. Onde é moda os professos cristãos vestirem-se como o mundo, nada têm a dizer contra isso. Se o salário do pregador é levantado pelo aluguel dos bancos, deixam passar em silêncio, embora a Bíblia claramente o proíba. Se homens proeminentes na igreja pertencem a sociedades secretas juramentadas, não tentam convencê-los de que isso estorva a sua salvação. Em suma: esquivam-se de declarar todo o conselho de Deus. Dizem muitas verdades — mas não são completos; a obra que fazem é superficial; se eles mesmos forem salvos por fim, será como que através do fogo.
2. Alguns evidentemente não têm o amor essencial à salvação. Maltratam, sem economia, os que não lhes dão o endosso que querem. Quando as coisas vão ao contrário, comportam-se muito como os homens do mundo quando estão simplesmente furiosos — e, contudo, insistem em que as suas denúncias amargas e invectivas pessoais são movidas pelo amor. Parecem esquecer que “o amor não faz mal ao próximo”. Para com os que os favorecem, mas não dão outra evidência de piedade superior, são bondosos e complacentes.
3. Outros são obstinados na própria vontade. Parecem consagrados — mas, ao que parece, a fazer o que querem. Fazem questão de consciência de que todos venham aos seus termos e se submetam às suas condições. São ousados e corajosos — na defesa das próprias opiniões e ações. Estreitam tanto o caminho do céu, que parece quase impossível alguém andar nele. Depois de expulsar da igreja, se podem, os que se lhes opõem, geralmente acabam ou entrando para a igreja formal e elegante que especialmente denunciavam, ou tornando-se uma seita em si mesmos.
O problema, nestes e em casos semelhantes, é que se tenta conseguir que seja santificado a Deus aquilo que não é capaz de santificação completa e permanente: a velha natureza. Diz o apóstolo: “despojem-se do velho ser humano, que se corrompe pelas paixões enganosas” (Ef 4.22). A interpretação moderna é: “Santifiquem-no.” E assim a pessoa se esforça por ficar santificada, e professa que está feito. Mas não permanece santificada. É como pôr fina camada de prata numa colher de ferro: um pouco de uso traz o metal vil à superfície; algumas pancadas, e a velha natureza aparece; a camada sai aqui e ali, e a pessoa apresenta a aparência de estar santificada em manchas.
Há uma experiência que nos capacita a permanecer fiéis a Deus, e fiéis às nossas convicções, em toda parte. Jó a teve; Paulo viveu nesse estado até a morte; os verdadeiros santos de Deus a tiveram em todas as eras. Paulo nos conta, na sua própria experiência, como se obtém: “Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2.20). A crucificação era morte demorada — não súbita, como a decapitação: a vítima podia agonizar por dias. Assim, ninguém morre para o mundo de uma só vez: a luta entre a vida do eu e a morte para o eu, o mundo e o pecado pode prosseguir por muito tempo. Mas quanto antes terminar, melhor: a lançada súbita, embora pareça cruel, é na verdade ato de misericórdia; tudo o que mantém viva a velha natureza só prolonga a miséria e adia o triunfo — pois depois da morte vem a vida da ressurreição. A crucificação era morte infligida por outros: a vítima era simplesmente passiva; outros a pregavam na cruz, outros fincavam a cruz no lugar. Muitos deixam de avançar na experiência porque perdem de vista esta verdade: não aceitam os maus-tratos recebidos por causa da fidelidade a Cristo como parte da disciplina necessária; culpam os que os infligem; o ressentimento toma o lugar da submissão; devolvem golpe por golpe; injuriados, pagam na mesma moeda como podem; levados ao matadouro, fazem esforços desesperados — e bem-sucedidos — para escapar; não consentem em ser pregados na cruz. Toda a sua vida é vida do eu. Podem ser zelosíssimos — mas é o zelo de Jeú, não o de Paulo: não poupam esforço para apregoar a sua devoção a Cristo — “Venha comigo e veja o meu zelo pelo SENHOR!”; podem ser extremamente francos, diretos e intransigentes — mas estão apenas exteriorizando a sua índole natural, algo modificada e refreada pela graça.
É uma grande oportunidade de crescer na graça e fortalecer-se para Deus que perdemos, quando nos recusamos a sofrer com paciência os agravos que nos infligem — talvez aqueles mesmos que deviam estar ao nosso lado. Diamantes acham-se em leitos de cascalho. O barro sem valor torna-se apto para as paredes de um palácio ao ser moldado e passar pelo fogo. O colérico, o orgulhoso, o obstinado, o mundano podem ser preparados para um céu de pureza consentindo em morrer para o pecado e para o mundo. Tudo o que têm a fazer é dar — e manter — o consentimento da vontade; a cruz será devidamente preparada; submetam-se quietamente, e a obra será feita. Mais submissão faria santos maiores. Deixamos de obter uma experiência sólida porque não queremos ficar quietos e deixar a crucificação prosseguir até completar-se; não colhemos o resultado desejado porque não aceitamos o processo. A nossa pretensão de ter fé em Deus nada vale, enquanto recusamos confiar no seu modo de operar: fé em Deus é fé na sua providência tanto quanto na sua Palavra — crê no que ele faz, tanto quanto no que ele diz. Jó viu a mão de Deus tanto em fazê-lo pobre quanto em fazê-lo rico: “O SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito seja o nome do SENHOR!” (Jó 1.21). Bendisse ao Senhor na aflição, e o Senhor o abençoou tirando-o da aflição: o seu estado final foi melhor que o primeiro. O único caminho para a vida passa pelo vale da sombra da morte. O bicho tece o seu sudário para ganhar asas: morre para a terra a fim de viver no ar.
Depois da crucificação do eu vem a ressurreição para a vida. À medida que a velha natureza morre, somos transformados na natureza divina. A mudança é real, e pode ser permanente. Todo o ser é mudado: o intelecto fica mais forte e mais ativo — a verdade é compreendida e retida mais facilmente que antes; a consciência é corrigida e investida de autoridade soberana sobre o homem inteiro; a verdade é amada, buscada e abraçada; há sensibilidade aguda para o certo e o errado — o lado do certo pode ter poucos adeptos, e desprezados, mas nunca será tão impopular que não seja, uma vez visto, abraçado e defendido. Os apetites do corpo passam por grande transformação: os artificiais são removidos; os naturais e legítimos, dentro dos devidos limites, são subjugados e sujeitos à razão e à consciência. As rédeas do governo passaram do carnal ao espiritual: ele ainda está no corpo, mas não na carne; a carne já não domina nem controla; uma harmonia bendita prevalece por todo o seu ser. Quem é assim salvo já não está em guerra consigo mesmo: o rebelde está morto; o “eu” que fazia tumulto está crucificado — já não vive; Cristo tomou posse e assenta-se no trono dos afetos; as palavras e ações movidas pelo seu Espírito estão em harmonia com os seus ensinos. “Fiel é esta palavra: se morremos com ele, também com ele viveremos; se perseveramos, também com ele reinaremos; se o negamos, ele também nos negará” (2Tm 2.11-12).
É grande coisa ser salvo; é muito maior conservar-se salvo. Muitos perdem a comunhão com Deus contemporizando com o pecado — muitos mais, perdendo o amor e tornando-se ásperos e sem caridade. No mesmo fôlego em que somos ordenados a seguir “a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”, somos exortados a atentar “diligentemente… para que nenhuma raiz de amargura, brotando, cause perturbações, e por meio dela muitos sejam contaminados” (Hb 12.15).
Essas “raízes de amargura” são coisas perturbadoras. Que tumulto causam no concílio e na igreja, especialmente se há um espírito forte e influente nutrido pela raiz! Quase não tem fim o dano que pode fazer: introduz espírito de divisão, instiga julgamentos eclesiásticos, agita um espírito precipitado, desfaz sociedades e arruína almas. Como o álcool, flagelo da nossa raça, se extrai do grão de que se faz o pão da nossa raça, assim essa “raiz de amargura” é uma perversão da santidade sem a qual ninguém pode ser salvo. Para discerni-la, é preciso atentar diligentemente: muito do que passa por fruto da santidade cresce dessa raiz de amargura. Ela produz muitos sermões, exortações e artigos de jornal que se dizem inspirados pelo Espírito Santo. Do fato de que o que entra num edifício serve de alimento não se pode concluir que o que sai é bom para nutrir seres humanos: o grão pode sair farinha para pão — ou pode sair fogo líquido do inferno; depende de haver lá dentro um moinho ou um alambique. Assim, o que alguém tira de um texto depende do que há no coração. Se há amor, as palavras mais severas serão temperadas de ternura: podem ser mais afiadas que espada de dois gumes, mas, à alma honesta que é ferida, vem o óleo de alegria em lugar do pranto. Se, porém, em vez de amor, há dentro a raiz de amargura, as palavras empurrarão em vez de atrair: a flecha pode estar bem apontada, mas deixará uma ferida envenenada, que se recusa a sarar. Os que caem sob a influência dessa raiz de amargura tornam-se menos bondosos, menos amáveis, do que eram antes de professar santidade. Os que vivem no amor podem despertar inimizade — mas os seus inimigos são atraídos a eles apesar de si mesmos.
Não basta sermos zelosos, e que o nosso zelo tenha êxito em fazer convertidos. Qual é o caráter dos nossos convertidos? Estão cheios daquele amor de Deus que os leva a guardar os seus mandamentos? “Pois este é o amor de Deus: que guardemos os seus mandamentos; e os seus mandamentos não são penosos” (1Jo 5.3). Ou, ao contrário, estão conformados com este mundo? E, se não — se são simples e despretensiosos —, são amargos no espírito e denunciatórios no tom? Disse Cristo dos fariseus: “vocês percorrem o mar e a terra para fazer um prosélito e, uma vez feito, vocês o tornam duas vezes mais filho do inferno do que vocês” (Mt 23.15). Devemos cuidar de não ser dessa espécie — e de que os nossos convertidos não o sejam. Zelo e êxito em fazer convertidos e em introduzi-los na igreja não são evidência de que quem tem o zelo e alcança o êxito seja filho de Deus: tanto os que conduzem quanto os que seguem podem estar cegos. A igreja e o mundo precisam muito de quem possa — e queira — fazer para Deus obra verdadeira. Muitos que parecem dispostos a fazê-la não estão em condição espiritual para tanto: são ou complacentes demais, ou amargos demais; os seus convertidos são ou mundanos batizados, ou fanáticos cheios de si. Quem terá a verdadeira caridade e fará para Deus obra fiel?
Por brilhante que seja o começo de alguém na vida divina, se não aprender a agir por senso das suas obrigações para com Deus, a sua carreira religiosa será, com toda probabilidade, curta. Uma estrada só de descida geralmente não é longa. Os bons impulsos costumam durar pouco. Quando Lorde Nelson, o maior dos heróis navais da Inglaterra, abriu batalha contra a esquadra combinada da França e da Espanha — quase o dobro da sua —, içou no mastro o sinal: “A Inglaterra espera que cada homem cumpra o seu dever.” Se veteranos, na excitação da batalha, precisam da inspiração que só o senso do dever pode dar, quanto mais os cristãos, nos conflitos que lhes sobrevêm em meio ao abatimento e ao desânimo! O nosso caminho, como seguidores de Jesus, deve ser determinado pelo que devemos fazer, e não pelo que temos vontade de fazer. Devemos, pois, prestar o mais alto respeito aos mandamentos de Deus. Consideremos um deles: “assim como é santo aquele que os chamou, sejam santos vocês também em todo o seu procedimento” (1Pe 1.15).
Não é mandamento isolado: acha-se, em formas variadas, em cada porção da Bíblia; destaca-se em cada dispensação. Alguns dos primeiros patriarcas fornecem exemplos brilhantes de obediência às suas exigências: Enoque “andou com Deus” tão de perto, que foi levado corporalmente à morada dos benditos sem provar a morte; Jó demonstrou ao mundo que é possível conservar a santidade perdendo tudo o mais; Daniel provou que se pode viver vida santa nas cortes dos reis, cercado de todas as tentações que o prazer e a ambição podem fornecer. Nenhum mandamento da Bíblia é declarado com mais clareza — e poucos com mais frequência — do que a exigência de ser santo. E é mandamento importante: visto sob qualquer luz, é uma das mais graves de todas as exigências que Deus fez ao homem. A obediência a ele é coroada com as maiores bênçãos que Deus pode conceder; a desobediência torna o transgressor miserável no tempo e na eternidade. Você, que se acostumou a ver a santidade como simples privilégio que se pode negligenciar impunemente: convença-se do seu erro. Se a negligencia, negligencia-a sob pena nada menor que a perda do Céu. “Nela nunca jamais entrará algo impuro, nem o que pratica abominação e mentira, mas somente os que estão inscritos no Livro da Vida do Cordeiro” (Ap 21.27). “Sigam a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14). São declarações claras; a Bíblia inteira está em harmonia com elas — não se acha, entre as suas páginas santas, ensino contraditório.
Examinemos brevemente alguns traços deste mandamento. 1. Ele exige uma natureza santa. Chama-nos a ser santos: exige nada menos que a renovação completa da nossa natureza moral. Para isso o evangelho fez a mais ampla provisão. O objetivo declarado da vinda de Cristo foi que, “libertados das mãos de inimigos, o servíssemos sem temor, em santidade e justiça diante dele, todos os nossos dias” (Lc 1.74-75). Os nossos pecados são os nossos maiores e mais perigosos inimigos. O anjo que anunciou a vinda de Cristo disse: “Você lhe dará o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Peça, pois, ao Senhor, por amor de Cristo, que o salve de todos os seus pecados e o faça santo. Todos admitem que ele pode salvar dos pecados maiores e mais grosseiros — do homicídio, do furto e da profanidade. Por que, então, não poderia salvar dos pecados mais sutis e refinados — da inveja, do orgulho e do descontentamento? Que razão há para que não possa? Que texto da Escritura prova que Cristo não pode salvar de todo pecado a que o homem está sujeito aqueles que lhe obedecem? Quando Deus faz uma exigência, dá a capacidade de cumpri-la: as duas coisas andam juntas. Ele não é senhor duro; não tenta ceifar onde não semeou. Tudo o que se diz da fraqueza e depravação naturais da nossa natureza é verdade — mas o evangelho propõe fazer-nos novas criaturas. Assim, o simples fato de Deus nos ordenar que sejamos santos é prova conclusiva de que fez ampla provisão para que o sejamos. Grandíssimas e preciosas promessas nos são dadas de propósito, para que nos valhamos delas e nos tornemos “participantes da natureza divina” — isto é, santos (2Pe 1.4).
2. O mandamento exige que sejamos santos em todo o nosso modo de viver. A nossa santidade deve ser não só experimental, mas prática: deve manifestar-se em todos os assuntos ordinários da vida. Em ambos os sentidos Deus requer que sejamos santos: a nossa linguagem deve ser, em todas as ocasiões, casta e pura. Eis uma regra geral para todos os cristãos: “Não saia da boca de vocês nenhuma palavra ruim, mas apenas o que for bom para edificação, conforme a necessidade, para que transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29). Um coração santo emprega uma língua santa; engana-se quem pensa que o coração é santo enquanto a conversa é ímpia: o estado do coração determina o caráter da linguagem — comunicação corrupta procede de coração corrupto. Se somos santos na conversa, cuidaremos de não dizer nada em dano de ninguém, a menos que a lei do amor o exija para impedir que ele faça mal a outros. Quem há de morar no santo monte de Deus “não calunia com a sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho” (Sl 15.3). Uma santidade que não salva da maledicência vale pouco. Como regra: se você não pode dizer algo bom dos ausentes, não diga nada. Quando tentado a lançar reflexões sobre quem não está presente para explicar-se, resista à tentação e ache algo bom a dizer da pessoa — e você achará bênção para a sua alma. A santidade requerida deve manifestar-se em todos os nossos negócios: exige a honestidade mais estrita — e vai além. Homens que tomam dinheiro emprestado mediante declarações que sabem não ser estritamente verdadeiras não deviam fazer profissão de santidade, nem sequer de graça justificadora. Uma religião sem honestidade é inteiramente sem valor: não se deve fazer esforço algum para conservá-la, pois não vale a pena conservar. Devemos exercer boa consciência em toda transação de que participemos. As direções que Paulo dá aos servos cristãos, se cumpridas, tornariam os seus serviços procurados por todos os que precisam de serviço (Ef 6.5-8). Há duas coisas notáveis nessa passagem: o que fazemos conscienciosamente por outros — aqueles por quem o fazemos estão, para nós, no lugar de Cristo; e, pelo serviço assim prestado, Deus nos recompensará.
Esta é a santidade que Deus exige de nós. Deve ser professada de boca; deve manifestar-se no nosso amor aos santos, no amor à Bíblia e à comunhão com Deus em oração; deve assumir o caráter mais praticamente visível diante do mundo, e mostrar a sua influência nos negócios que fechamos, na fidelidade com que cumprimos cada encargo confiado, na roupa que vestimos, no modo como andamos e falamos na família e nas várias relações da vida. Levará um elemento de sinceridade e honestidade às menores como às maiores transações da vida. “Isto é certo?” será pergunta que voltará repetidamente à mente; e, se a resposta for negativa, prometa a ação proposta o prazer ou o lucro que prometer, ela não vai adiante. Quem é assim santo será perseguido — não há remédio —, mas será respeitado: “aquele que desta forma serve a Cristo é agradável a Deus e aprovado pelos homens” (Rm 14.18).
Amados, não digam que não podem ser assim santos. Não houvesse na Bíblia uma só promessa de que Deus os fará santos, o próprio fato de ele o ordenar é, em si, a melhor promessa de que concederá toda a graça necessária aos que a buscarem. Comecem, pois, desde este momento, a buscar a santidade. Cada ganho interior, manifestem-no exteriormente; que os que os rodeiam aproveitem cada bênção que Deus enviar à sua alma. Provem ao mundo, por uma vida santa, que a doutrina da santidade é verdadeira. Nenhum argumento de geólogos faz subir o preço das terras de uma região tão depressa quanto um poço jorrando centenas de barris de óleo por dia; as provas bíblicas da doutrina da santidade não convencem o povo de que ela é alcançável tão irrespondivelmente quanto uma vida santa. Não fiquem, pois, pecando e se arrependendo. Consagrem a vida a ele — não só em geral, mas no detalhe. Vivam inteiramente para ele. “Sejam santos em todo o seu procedimento.”
Não evite a pergunta. Aperte-a contra a sua consciência. Pondere-a bem. Conserve-a na mente até chegar a uma conclusão honesta e correta. Você admite prontamente que haveria razão para inquietação se você estivesse em dúvida justificada sobre se está ou não convertido. Ora, a obrigação de ser convertido não é mais forte que a obrigação de ser santo: ambas repousam no mesmo fundamento — o mandamento de Deus; e este não é menos explícito num caso do que no outro. Por que devemos nascer do Espírito? A resposta pronta é: Jesus diz “é necessário que vocês nasçam de novo”. Por que devemos ser santos? O mesmo Mestre divino declara: “esta é a vontade de Deus: a santificação de vocês”. Uma coisa é essencial à salvação? O Guia infalível, que diz “se vocês não se converterem e não se tornarem como crianças, jamais entrarão no Reino dos Céus”, diz também: “sem santidade ninguém verá o Senhor”.
Se você é indiferente quanto à sua santidade pessoal, tem razão para duvidar da genuinidade da sua conversão. Almas verdadeiramente regeneradas aspiram à santidade. Mesmo onde o sistema de teologia em que foram educadas nega que ela seja alcançável, ainda anseiam por ela como coisa desejável. Com o piedoso Watts, exclamam: “Pudéssemos subir aonde Moisés esteve e contemplar toda a paisagem — nem a corrente do Jordão, nem o frio dilúvio da morte nos espantariam daquela praia.” Esta é a linguagem de uma alma convertida: “pudéssemos subir” — com que alegria o faríamos! Se estivéssemos convencidos de que está ao alcance do possível, faríamos esforço desesperado. Pois bem, cristão fervoroso: você pode subir, ainda aqui, ao cume do Pisga; pode habitar na terra de Beulá, onde o sol sempre brilha. A santidade é possível.
Considere: você imporia ao seu terno filho de dez anos uma carga que exigisse toda a força de um homem feito? Exigiria do seu filho, recém-recuperado de longa enfermidade a ponto de poder sentar-se uma hora por vez, um dia de trabalho que só um homem robusto poderia cumprir? “Ora, se vocês, que são maus”, não exigiriam impossibilidades, quanto menos “o Pai de vocês, que está nos céus”! Deus nos ordena: “Sejam santos.” Faraó pode exigir a conta cheia de tijolos sem fornecer material; mas Deus nunca impõe um dever sem prover todo o auxílio necessário ao seu cumprimento. Se tivéssemos de obter um coração santo pelos nossos próprios esforços, poderíamos desesperar. Se tivéssemos de “crescer até” a santidade por hábitos de obediência, o desânimo poderia instalar-se. Mas um coração santo é obra de Deus tanto quanto a conversão. Diz a Palavra: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1.9). Quem perdoa o pecado? Só Deus. Quem nos purifica de toda injustiça? O mesmo Ser todo-poderoso. Ninguém, pois, precisa desesperar. Não limite o Santo de Israel: se você cumprir as condições, Deus fará santo até você. Se a santidade é obra de Deus, tente você quanto e por quanto tempo quiser — não crescerá até ela por si. Peça-lhe agora que asperja “água pura sobre você, e você ficará purificado”; que ponha o seu Espírito dentro de você e o faça andar nos seus estatutos. Como diz o dr. Adam Clarke: “Em parte alguma das Escrituras somos dirigidos a buscar a santidade gradatim (isto é, passo a passo, gradualmente). Devemos vir a Deus tanto por uma purificação instantânea e completa de todo pecado quanto por um perdão instantâneo. Nem o perdão em prestações nem a purificação gradual existem na Bíblia.” É quando a alma é purificada de todo pecado que pode propriamente crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo — como se pode esperar que o campo produza boa safra, e toda a semente germine, quando os espinhos, os cardos, as sarças e as ervas nocivas de toda espécie forem arrancados dele. Venha a Deus, pois, com fé, para que o faça santo; e em breve, exultante, você cantará: “Alegre agora, em viva esperança, estou de pé e, do cume do monte, vejo toda a terra lá embaixo.”
Quando o nosso Salvador ensinava a Nicodemos a natureza do novo nascimento, este perguntou: “Como pode ser isso?” O Salvador não tentou explicar o como: insistiu no fato; não fez esforço algum por remover o mistério do modo. Tentar fazê-lo seria tão insatisfatório quanto tentar mostrar de onde vem o vento e para onde vai. Os que o recebem devem recebê-lo pela fé. “Em verdade, em verdade lhe digo que nós dizemos o que sabemos e testificamos o que temos visto; contudo, vocês não aceitam o nosso testemunho” (Jo 3.11). Os que menos sabem como o alimento edifica o corpo têm, muitas vezes, o apetite mais aguçado e o melhor sangue. Assim, os menos curiosos quanto ao modo como o Espírito Santo opera na mente para santificá-la têm, muitas vezes, o maior grau da influência do Espírito no coração. Quem recebe o reino de Deus recebe-o, não como filósofo depois de respondidas todas as suas perguntas e removidas todas as dúvidas, mas como criancinha, que o toma por confiança e não faz perguntas. “Em verdade lhes digo: quem não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele” (Lc 18.17).
As especulações em coisas religiosas facilmente se tornam confusas e improveitosas. Os que fazem cavalo de batalha de falar e escrever sobre a “mente carnal” correm o perigo de ir a um extremo não bíblico. Há sete palavras gregas diferentes que, no Novo Testamento, são traduzidas por “mente”: gnome — propósito, juízo (Fm 14; Ap 17.13; 1Co 7.25); ennoia — propósito interior (1Pe 4.1); nous — mente, entendimento (Rm 1.28; 7.23; Lc 24.45; 1Co 14.15); psyche — alma, afetos (At 14.2; Fp 1.27; Mt 6.25; 10.28); noema — mente, pensamento (2Co 3.14; Fp 4.7; 2Co 2.11; 10.5); dianoia — mente, intelecto (Mt 22.37; Hb 8.10; Ef 4.18); e phronema — “o que se tem na mente; o que se pensa, sente, quer”: “Porque a mentalidade da carne é inimiga de Deus” (Rm 8.7); “sabe qual é a mente do Espírito” (Rm 8.27); “o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e a paz” (Rm 8.6).
O homem tem uma só mente, um só intelecto, uma só alma. Pode ter muitos pensamentos, inclinações e propósitos. Se está no seu estado natural, não renovado pela graça de Deus — a mente tomada de pensamentos, planos e propósitos mundanos —, tem a mentalidade da carne: está em estado de morte espiritual. Se foi verdadeiramente convertido a Deus, a sua mente ocupa-se das coisas espirituais: seja o que for que lhe prenda a atenção no momento, Deus nunca é perdido de vista nos seus planos e propósitos; a inclinação da sua mente é para Deus; ele não está “na carne, mas no Espírito”, pois “o Espírito de Deus habita nele”. Mas, se, embora no conjunto devotado a Cristo, ele é ao mesmo tempo partidário no espírito, e se prende a algum líder de modo a seguir-lhe o ditame, é em certa medida carnal, embora ainda criança em Cristo: “Eu, porém, irmãos, não pude falar com vocês como se fossem espirituais, mas como se fossem carnais, como crianças em Cristo… Porque, havendo entre vocês inveja e brigas, será que vocês não são carnais e não estão andando segundo os valores humanos?” (1Co 3.1,3). Mas, como não estavam inteiramente entregues a esse espírito de contenda e divisão, ainda não haviam chegado ao estado da mentalidade carnal — o estado de morte —, embora estivessem a caminho dele. Se alguém é santificado por inteiro, a sua mente, a sua vontade, é de tal modo mudada, que as coisas terrenas perdem os atrativos, e ele põe os afetos nas coisas do alto, e não nas da terra. Tais pessoas seguem o Senhor plenamente. Mas as suas mentes não são destruídas: a “mente carnal” nunca é destruída a ponto de abolir a liberdade da vontade. Há necessidade de vigiar e orar constantemente. Coisas lícitas em si podem facilmente correr para o excesso pecaminoso; o amor que começa no Espírito pode terminar na carne; comer “com alegria” pode degenerar em desejo de luxos; a “diligência nos negócios” pode facilmente escorregar para o amor do mundo; até a determinação firme de “seguir o Senhor plenamente” pode deslizar, inconscientemente, para uma consagração à própria vontade — de sorte que se dá comunhão aos que nos endossam, a nós e aos nossos métodos, e se descristianiza os que não endossam. O Sol da Justiça pode brilhar com esplendor sem nuvens na nossa alma; mas devemos manter a alma constantemente aberta às suas influências. Não podemos armazenar numa hora provisão de luz e calor para a seguinte. Podemos orar com fé “o pão nosso de cada dia nos dá hoje” — mas precisaremos da mesma oração amanhã. A nossa dependência de Deus é absoluta e incessante. Como a lei da gravidade atrai a terra para o sol a cada momento, assim a lei do amor atrai para Deus a alma salva.
O modo de buscar a santidade é buscá-la. É preciso estar decidido. Você nunca põe “ses” quando procura algo que sabe que pode ser achado. Assim, ao buscar a santidade, não diga, nem a si mesmo: “Eu a terei, se ela for para mim.” Tal expressão enfraquecerá a sua fé. Você sabe que ela é para você — deixe o “se” de fora. Deus lhe ordena que seja santo: isso é evidência bastante; você não tem evidência tão forte de que possa obter qualquer outra coisa que busque. Deus requer que você o sirva na beleza da santidade — e esse serviço é razoável, porque está ao seu alcance. Os servos de alguns senhores são obrigados a fornecer a própria libré; não é assim com os servos de Cristo: quando ele diz “veste as tuas roupas formosas” (Is 52.1), ele as tem à mão, todas talhadas e prontas; o seu suprimento nunca falha; não pede pagamento — tudo o que pede é que você as vista. Mas, ao fazê-lo, você deve seguir as suas direções.
Não espere que Deus faça o que ele lhe ordena que faça. Ele o ajudará — mas você deve ajudar a si mesmo. Nenhuma quantidade de oração toma o lugar da obediência. Muitos oram por purificação, aos quais Deus diz: “Purifiquem-se” (Tg 4.8; 2Co 7.1). Ao vestir roupas novas, tiram-se as velhas: é a ordem da natureza, é a ordem de Deus; é inútil tentar invertê-la — quem o tentar, falhará, e falhará todas as vezes que tentar. Se você quer que Deus o salve de apetites imundos, deve cessar das práticas imundas. Se quer que ele tire o amor ao fumo, deve abandonar para sempre o uso do fumo. Você pede ao Senhor que tire todo o orgulho do seu coração; ele lhe ordena que deponha da sua pessoa todas as evidências dele — e, enquanto você não consentir em fazê-lo, não pode dar um passo adiante. Não deixe que mestres acomodatícios o enganem neste ponto: podem dizer-lhe que Deus não se importa com o vestuário. Ele se importa, sim, com o vestuário dos seus filhos — ou não teria dito tanto a esse respeito na sua Palavra. Em suma: você não pode dar um passo à frente na vida divina sem alguma reforma exterior de costumes. Perguntamos certa vez a uma religiosa católica romana, dedicada à causa da educação, qual era o seu trabalho. Respondeu: “Às vezes sou diretora de um seminário de moças; às vezes sou zeladora, tendo de fechar as portas e varrer os corredores — mas estou tão pronta para uma coisa quanto para a outra.” Assim, se você quer a verdadeira santidade, deve separar-se para fazer o que quer que Deus exija das suas mãos.
Ao buscar a santidade, venha a Deus por si mesmo. Compreenda que é uma transação inteiramente entre Deus e a sua própria alma. Pode fazer bem que outros orem por você — mal não fará, contanto que você não dependa das orações deles; mas você deve vir a Deus por si mesmo. Faça-lhe a sua súplica; creia que ele ouve. Você está pedindo o que ele prometeu — portanto, espere-o. “E esta é a confiança que temos nele: que, se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve quanto ao que lhe pedimos, sabemos que obtemos os pedidos que lhe temos feito” (1Jo 5.14-15). Então, quando pedir e receber, creia que recebe o que pediu — e não alguma imitação sem valor. A sua confiança em Deus jamais estará mal colocada: ele não o despedirá enganado do trono da graça. Tenha fé em Deus.
Deus o ordenou. Ele diz “não furte”? Com igual clareza diz: “Sejam santos” (Lv 20.7; Nm 15.40; 1Pe 1.15-16). Eis um mandamento claro, reiterado a longos intervalos e sob diferentes dispensações. Não é assunto deixado à nossa escolha: é exigido imperativamente pelo nosso Deus; e é necessário ao nosso bem-estar, no tempo e na eternidade, que obedeçamos, pois “sem santidade ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).
Como buscaremos a santidade? Permita-nos responder com as palavras de C. Larew, escritas há um quarto de século: “Antes de tudo, você dedicará tudo a ele. Não que tudo o que você tem não seja dele, e desde o princípio — mas você não o considerava assim; você tomou o seu quinhão e seguiu o seu caminho, desperdiçando em vida egoísta os dons do seu Pai. Cesse tudo isso de uma vez; e seja a sua linguagem, a linguagem do seu coração: ‘Que queres que eu faça?’ Numa palavra: consagre tudo ao seu Pai celestial. Como fazê-lo? Respondemos: consinta e decida que tudo — ato, palavra, pensamento, desejo ou posses — seja não como o eu ou os homens queiram, mas como Deus quer. ‘Isso’, você diz, ‘tentei fazer vez após vez.’ Sem dúvida tentou, e o fez aceitavelmente. Mas aqui você parou: não creu. Crer em quê?, pergunta você. Respondo: na palavra de Deus a você nesse ponto. Essa palavra é que ele o ‘aceitou’ e ‘recebeu’. Ouça-o: ‘Separem-se… e eu os receberei.’ Você se separou, ‘apresentou-se em sacrifício vivo’ — mas não creu, sobre a garantia da palavra dele, que estava aceito. Não: você esperou algum sinal, alguma manifestação sensível que subisse nos seus sentimentos para assegurar-lhe que tudo fora recebido — fazendo assim de alguma emoção preconcebida o fundamento da fé. Deus não diz que a fé vem pelo sentimento, jubiloso, pacífico ou outro; do contrário, você teria razão em esperar que ele surgisse e lhe inspirasse fé. Não: ‘A FÉ VEM PELO OUVIR, e o ouvir, pela palavra de Deus.’ Portanto, quando você consagra tudo, tão bem quanto lhe é dado, você tem a palavra de Deus para o fato de que ele o RECEBE. Essa fé lhe inspirará sentimentos de paz, alegria e grande quietude de alma. Na ordem de Deus, a fé dá origem aos sentimentos — e não os sentimentos à fé, como você erradamente supunha. Você pode, pois, tomar a palavra de Deus e descansar nela. Não há erro nisso: é o único caminho do êxito, como o provaram centenas, depois de lutar e tropeçar nesse mesmo erro.
“Para ilustrar: suponha que o Senhor tivesse dito, na sua palavra permanente: ‘Se alguém puser doze pedras sobre a terra, e sobre elas um cordeiro, e o queimar até as cinzas, eu o receberei e serei Pai para ele, e ele será meu filho.’ Ora, pergunto: se você fizesse isso, e o cordeiro fosse consumido até as cinzas, não teria a palavra de Deus por garantia — sim, tão convincentemente como se a ouvisse audível do Céu — de que ele o ‘recebeu’? O Senhor não disse isso; mas disse, como se mostrou acima, que, se ‘sairmos do meio deles e NOS SEPARARMOS, e não tocarmos em coisas impuras, ele NOS RECEBERÁ’. Pergunto: se assim fizermos, não temos o testemunho do Espírito, escrito na palavra, de que estamos aceitos? Não caia no erro comum de separar a letra da palavra do espírito da palavra. Você deve, pela fé, considerar a letra como o testemunho e a expressão da mente e do espírito de Deus para você — assim como crê que a carta de um amigo é a expressão da sua mente e do seu espírito. É por essa palavra escrita, direta ou indiretamente, que o Espírito fala, testifica ou dá testemunho a nós. Considerar a palavra letra morta é permanecer em trevas e incredulidade. Para a fé, ‘estas palavras são espírito e vida’. Creiamos, pois, ‘sem duvidar de nada’.
“‘Mas’, diz alguém, ‘como saberei que a consagração está completa?’ Respondo: se você não vê nada em contrário, está — pois o Senhor disse: ‘se em alguma coisa vocês pensarem de modo diferente, Deus também lhes revelará isso.’ A questão não é o que virá no futuro para sacrificar e sofrer — nisso aplica-se o ‘não se preocupem com o dia de amanhã’ tanto quanto em qualquer outra coisa. Mas: você aceita a vontade de Deus tal como ela se manifesta no momento presente? Se sim, é tudo o que o Rei exige. Que isso apenas continue, momento a momento, e tudo continuará aceitável a ele. Quão grande o descanso de alma de quem assim entra na verdade!
“‘Mas’, você pergunta, ‘a que estado ou grau de piedade posso agora entender que o Senhor me trouxe? Os meus inimigos interiores estão todos mortos? Não sentirei mais, daqui em diante, as raízes do pecado?’ Pergunta importante — cuja compreensão pode ter muito a ver com a sua paz futura e com o seu êxito no caminho da santidade. Muitos, que dedicaram tudo e creram, decepcionaram-se ao ver, pouco depois, a velha natureza do eu agitar-se dentro deles — e ou o tomaram por evidência de que estavam enganados, ou, para acalmar-se, chamaram-no ‘só tentação’, e continuaram tentando crer que tudo dentro estava inteiramente puro. Esquecemos que há duas partes, ou elementos, na inteira santificação: uma é pôr a criatura, ou o sacrifício, sobre o altar — a consagração; a outra é o consumi-lo até as cinzas, até os seus elementos primitivos, pelo próprio fogo de Deus. O ouro deve primeiro ser posto no cadinho; e depois fundido e purificado, pela separação de toda a sua escória interior. Devemos primeiro consentir e pactuar em abrir mão de ‘todas as coisas’ — e depois sofrer a perda de todas. Primeiro ser pregados na cruz, e depois ‘morrer diariamente’, até que ‘o mundo esteja crucificado para nós’, e já não vivamos nós, mas Cristo em nós.
“Com a primeira parte você já cumpriu, espero. Se sim, você está ‘santificado’ — mas talvez não ‘por inteiro’; está ‘santo’ — mas talvez ainda não ‘aperfeiçoado’. Você está agora como o ouro no cadinho, e pode começar a dizer: ‘ainda que ele me mate, nele esperarei’ — e, portanto, pronto a ‘suportar o fogo’, a ‘aguardar a sua vinda’ como refinador e purificador. Se assim é, você está plenamente nas mãos do ‘oleiro’, e ele pode agora começar a moldá-lo como quiser — pois você poderá ‘permanecer’ e não ‘retroceder’, como fazia antes quando vinha a provação, considerando-a erradamente evidência de que Deus estava desagradado e já não o aceitava.
“Fazemos muitas vezes de um estado de espírito jubiloso e alegre a única evidência da nossa aceitação junto ao Pai. É erro danosíssimo: é fazer a fé da nossa aceitação depender das nossas emoções ou sentimentos, como vimos acima — quando ‘a palavra’ é a única base verdadeira da fé, mediante cujo cumprimento todas as promessas se tornam nossas. Esquecemos que o Salvador suportou tudo isso, e era tão aceitável ao Pai quanto quando as suas emoções eram opostas. E agora, como somos chamados a ‘suportar dureza’, e nos é dado ‘sofrer com Cristo’, e também a levar ‘aflições por um momento’, certamente não devemos considerar um único estado de sentimento como o único aceitável. Pois, se, ‘quando necessário’, estamos em tristeza, então a tristeza deve ser sentida; se é para suportar dureza, a dureza deve ser sentida; e, se havemos de ter ‘aflições’, devemos às vezes sentir-nos ‘aflitos’. Você vê, portanto, que, se tomar uma classe de emoções por evidência da sua aceitação, quando se sentir assim a sua fé em Deus abundará; mas, como os nossos sentimentos necessariamente mudam e variam, a nossa fé, nesse caso, às vezes se perderá, e cairemos em fraqueza e tristeza, se não em melancolia e desânimo. Não: tal ancoradouro é instável demais. Precisamos da promessa imutável de Deus, que se mantém ‘segura e firme’ em meio a todas as tempestades, ventos e vagalhões que nos sobrevêm.
“O único ponto de prova que se exige de nós está na vontade. Se ela é verdadeira — se está no coração dizer ‘seja feita a tua vontade’ —, estamos aceitos, sejam quais forem os nossos sentimentos; ‘porque, se há boa vontade, será aceita’. Ah, esse viver por sentimento, em vez de por fé, tem feito triste estrago em muitos discípulos promissores! Inverte a ordem de Deus e mantém a alma fora do seu único fundamento verdadeiro — a promessa do Pai. É como a criança mimada que, por não lhe permitirem alimentar-se constantemente de doces, mas ser chamada pelo pai a partilhar do alimento substancial, e às vezes a tomar o que é amargo, e também a sair e suportar o que é ‘duro e aflitivo’, perde a confiança no amor e na sabedoria do pai e tristemente se recusa a fazer a sua vontade. Oh, meu irmão! Seja o seu lema: ‘Não seja como eu quero, e sim como tu queres.’ ‘Faze comigo o que bem te parecer’ — e tudo irá bem.
“Lembre-se: ‘ele se assentará como derretedor e purificador de prata’ — cujo ofício não é cuidar que não haja fogo para nos provar, nem escória revelada, mas cuidar que o fogo não fique quente demais, para não ferir e destruir; nem frio demais, para não deixar de cumprir o seu fim: a purificação do coração de toda a sua natureza egoísta. Nem lhe falta combustível para acender esses fogos purgadores: vêm de toda e qualquer circunstância ao nosso redor que seja necessária para contrariar a nossa vontade — de muitas pequenas coisas ligadas a nós mesmos, às nossas famílias, aos nossos amigos mais queridos, aos negócios comuns da vida, e até dos nossos serviços religiosos. Ele fará arder um fogo que nos dê o senso da cruz, da mortificação e da morte necessárias à submissão perfeita da nossa vontade e à inteira aquiescência com Deus. E, se essas provações de fogo que hão de prová-lo revelarem egoísmo e pecado escondidos — como a lanceta revela matéria ofensiva antes não vista, por jazer oculta bem no fundo —, não desanime: é o seu médico trabalhando sabiamente e realizando o objeto do seu desejo, uma cura perfeita. Coragem, irmão! Conserve a sua confiança! O minério deve ser fundido antes que a escória possa separar-se e sair. Devemos morrer para viver. E o seu consolo encorajador para você é: ‘Depois de terem sofrido um pouco, eu os fortalecerei, firmarei e aperfeiçoarei.’”
“Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém.” (Ef 3.20-21)
Tradução e edição: Bispo Ildo Mello · Texto original de 1893, em domínio público · Citações bíblicas na NAA