Para que servem os dons?
Privilégio pessoal para exibir — ou serviço para edificar a igreja?
“A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o que for útil.”1 Coríntios 12.7 · NAA
Para começar
Depois do fruto (Aula 8), os dons. Poucos temas foram tão mal usados — e Paulo dedica três capítulos inteiros (1Co 12—14) a colocá-los no lugar certo.
Privilégio pessoal para exibir — ou serviço para edificar a igreja?
Eram só para a era apostólica, ou continuam hoje?
O mais espetacular — ou algo que está acima de todos eles?
Tese da aula: os dons são graças-serviços, dados pelo Espírito “para o que for útil” (1Co 12.7), para edificar o corpo. São diversos, distribuídos por Deus como lhe apraz; não cessaram (1Co 14.12); nenhum deles mede a espiritualidade; e todos devem ser envolvidos pelo amor, “o caminho sobremodo excelente” (1Co 12.31; 13).
1Co 12.4-7
Charisma e diaconia
Paulo chama o dom de charisma (graça) e o define como diaconia, serviço (1Co 12.5). Não é privilégio para a minha edificação ou distinção; é graça dada em prol dos outros, para o bem da igreja.
1Co 12.5-7
Energia de Deus
Ele usa também a palavra energia (en-ergia, “em-trabalhando”): os dons são operações de Deus através de nós — Deus trabalhando dentro da sua igreja. O protagonista é o Espírito, não o instrumento.
1Co 12.6,11
O propósito é declarado sem rodeios: “a cada um é dada a manifestação do Espírito para o que for útil” (1Co 12.7) e “para a edificação da igreja” (14.12). Um dom exibido para engrandecer a mim mesmo nega a própria natureza do dom.
1Co 12.11-31
“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo… Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo a cada um, individualmente, como lhe apraz.” (1Co 12.4,11)
Paulo insiste na diversidade (de dons, de serviços, de operações) e na unidade (um só Espírito, um só corpo). E deixa claro que é Deus quem estabelece os membros no corpo, como quer (1Co 12.18,28) — não somos nós que escolhemos ser apóstolos, profetas ou mestres. Ele até lista os dons “em ordem de honra”, e é significativo que o dom de línguas, tão estimado pelos coríntios, apareça por último (1Co 12.28; cf. Ef 4.11).
1Co 14.12 · Wesley
Não há base bíblica para o ensino de que os dons foram apenas para o período apostólico. A Escritura diz que eles existem “para a edificação da igreja” (1Co 14.12) — e essa edificação é um processo contínuo até a segunda vinda de Cristo. Portanto, os dons continuam.
A leitura de Wesley. Ele não era cessacionista; chegou a refutar publicamente quem negava os milagres na igreja. Observou que os dons extraordinários rarearam depois que o imperador Constantino encheu a igreja de riqueza, poder e honra — e concluiu que a causa da quase-cessação foi a frieza e mundanização da igreja, não um decreto divino de encerrar a era do Espírito. Ele rejeitava a explicação de que os dons “já não eram necessários”. Ao mesmo tempo, contra o fanatismo, ensinava que um movimento autêntico do Espírito se reconhece não por demonstrações de poder, mas pelo fruto de santidade.
1Co 13
“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o bronze que soa ou o címbalo que retine.” (1Co 13.1)
No centro do tratamento de Paulo sobre os dons está o amor (1Co 12.31—13.13). Sem amor, “dons espirituais” pouco benefício trazem à igreja, e até as línguas se tornam disfuncionais. Uma imagem antiga ilustra bem: quem não tem o amor de Deus a encher o coração é como um vagão vazio descendo uma ladeira — faz muito barulho justamente porque nada tem dentro. As virtudes do amor — humildade, paciência, altruísmo — devem ser o veículo de toda manifestação do Espírito. Sem essa base, “tudo é nada”.
1Co 12—14
É preciso distinguir dois fenômenos. As línguas do Pentecostes (At 2) foram idiomas estrangeiros reais, compreendidos pelos ouvintes — sinal único do nascimento da Igreja. Já as glossai de 1Coríntios 12—14 parecem ser elocuções que precisam do dom de interpretação para serem entendidas (1Co 14.13,27-28); o próprio fato de a interpretação ser necessária sugere que não eram idiomas conhecidos. E 1Coríntios 13.1 (“as línguas dos homens e dos anjos”) aponta para além da fala humana comum.
Sobre a definição exata, os estudiosos divergem conforme a sua tradição, e aqui evitamos o dogmatismo. O que a Escritura deixa claro é o essencial: as línguas não são para todos (1Co 12.30), precisam de interpretação na assembleia (14.27-28) e são inferiores à profecia, porque esta edifica a igreja (14.4-5). O critério de Paulo para o culto é sempre a edificação (1Co 14.26), feita com ordem e amor.
Da doutrina à vida
Todo cristão recebeu ao menos um dom, “para o que for útil” (1Co 12.7). Descubra o seu e use-o para edificar o corpo, não para aparecer.
Ninguém é superior por um dom nem inferior por não tê-lo (1Co 12.15-21). Honre a diversidade que o Espírito distribuiu.
Nem cessacionismo, nem fanatismo. Os dons continuam e edificam; mas a autenticidade se prova pelo fruto de santidade (1Co 14.12).
Busque o amor, “o caminho sobremodo excelente” (1Co 12.31). Sem ele, o dom mais alto vira barulho de vagão vazio.
A pergunta desta aula é de serviço: eu tenho buscado dons que me destaquem — ou uma graça que sirva ao corpo, com amor?
Fixação
Toque no cartão para ver a definição. Bom para revisar antes da avaliação.
Avaliação
Cinco questões de múltipla escolha, com nota ao final, e duas perguntas para reflexão com resposta sugerida. Cada alternativa traz um comentário assim que você escolhe — errar aqui também ensina.
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Para pensar e conversar
Tarefas
Ler 1Coríntios 12—14 de uma vez e anotar: (a) para que servem os dons; (b) por que o amor vem no meio (cap. 13); (c) por que a profecia é preferível às línguas na assembleia. Depois, escrever qual dom você acredita ter recebido e um modo concreto de usá-lo para edificar a igreja nesta semana.
Aula seguinte
A última aula do curso: profecia e discernimento de espíritos — o propósito da profecia, o alerta de Wesley contra o “entusiasmo”, as quatro submissões e como provar os espíritos. Ir para a Aula 10 →
Citações bíblicas: Nova Almeida Atualizada (NAA), salvo indicação em contrário. · Bispo Ildo Mello