Estudos do Bispo Ildo · Igreja e Ministério · A Igreja
Estudo de eclesiologia a partir de (At 2.41–47).
O que a Igreja é, antes de ser aquilo que ela faz? Por que o Novo Testamento precisa de tantas imagens para descrever uma só realidade? O que se perde quando uma dessas imagens é isolada das demais e transformada em definição exclusiva? E como reconhecer, hoje, uma comunidade que corresponda ao retrato que Lucas nos deixou em (At 2.41–47)?
Organizo o estudo em três movimentos: primeiro as descrições bíblicas da Igreja, depois o retrato da comunidade apostólica em Atos 2, e por fim a síntese de quem, segundo aquele texto, compõe a Igreja.
A Igreja não nasceu de iniciativa humana nem de conveniência religiosa. Foi Cristo quem afirmou que edificaria a sua igreja, e que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (Mt 16.18). É Deus quem estabelece na igreja ministérios e dons (1Co 12.28), e o edifício se levanta sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo Cristo Jesus a pedra angular (Ef 2.20). Quem a institui é também quem a sustenta, e é por isso que ela permanece.
Em Cristo, os que estavam longe deixam de ser estrangeiros e forasteiros e passam a ser concidadãos dos santos e membros da família de Deus (Ef 2.19). Recebemos o Espírito de adoção, pelo qual clamamos “Aba, Pai”, e, se somos filhos, somos também herdeiros (Rm 8.14–17). A Igreja é a casa de Deus, a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade (1Tm 3.15), e por isso o bem que praticamos alcança de modo particular os da família da fé (Gl 6.10).
A promessa central da aliança se cumpre na Igreja: Deus habita e anda no meio dos seus, é o Deus deles e eles são o povo dele (2Co 6.16; Hb 8.10). Cristo se entregou para purificar para si um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras (Tt 2.14). Os que outrora não eram povo agora são povo de Deus, e os que não haviam alcançado misericórdia agora a alcançaram (1Pe 2.10).
Cristo é o bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, dá a vida por elas e ainda tem outras que precisam ser trazidas, para que haja um só rebanho e um só Pastor (Jo 10.11–16). Ele é o Supremo Pastor (1Pe 5.4), e os presbíteros pastoreiam o rebanho de Deus que está entre eles, não por constrangimento nem por domínio sobre os que lhes foram confiados (At 20.28–29; 1Pe 5.2–3). A imagem vem de longe: o Senhor é o pastor de Israel, aquele que procura, recolhe e trata as feridas do rebanho disperso (Sl 23.1; Sl 100.3; Ez 34.11–16).
Assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo (1Co 12.12–27; Rm 12.4–5). Deus o constituiu cabeça sobre todas as coisas para a Igreja, que é o seu corpo (Ef 1.22–23; Cl 1.18), e é da cabeça que o corpo inteiro recebe crescimento e se edifica em amor (Ef 4.15–16).
Os que creem são santuário de Deus, e o Espírito habita neles, tanto na comunidade reunida quanto em cada crente (1Co 3.16–17; 6.19). Edificados juntos, tornam-se habitação de Deus no Espírito (Ef 2.20–22), pedras vivas de uma casa espiritual e de um sacerdócio santo (1Pe 2.5).
Mistério, no vocabulário paulino, não é enigma insolúvel, mas aquilo que esteve oculto por séculos e agora foi revelado: os gentios são coerdeiros, membros do mesmo corpo e coparticipantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho (Ef 3.3–6, 9–11; Cl 1.26–27; Rm 16.25–26). A própria união entre Cristo e a Igreja é chamada de grande mistério (Ef 5.32).
Paulo declara ter preparado a igreja para apresentá-la como virgem pura a um só esposo (2Co 11.2). Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, para santificá-la e apresentá-la gloriosa, sem mácula nem ruga (Ef 5.25–27). João Batista se descreve como o amigo do noivo, que se alegra ao ouvir a voz dele (Jo 3.29). E a consumação é anunciada como as bodas do Cordeiro, quando a noiva, já preparada, é finalmente apresentada (Ap 19.7–9; 21.2, 9).
Paulo encerra a carta aos Gálatas invocando paz e misericórdia sobre o Israel de Deus (Gl 6.16), designação coerente com o restante da sua argumentação: judeu é quem o é interiormente, e a circuncisão é a do coração, no espírito (Rm 2.28–29; Fp 3.3); os que são de Cristo são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa (Gl 3.29). Essa continuidade, porém, não significa que Deus tenha rejeitado o seu povo (Rm 11.1–2), nem que as promessas feitas a Israel tenham sido canceladas, pois os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis (Rm 11.28–29). A Igreja é o Israel de Deus por enxertia e cumprimento, não por substituição.
Pedro aplica à Igreja os títulos que Israel recebeu no Sinai (1Pe 2.9; cf. Êx 19.5–6; Dt 7.6; Is 43.20–21), e o faz com uma finalidade declarada: proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. A própria comunidade é saudada como a eleita (1Pe 5.13). Eleição, aqui, é vocação para o serviço e o testemunho diante das nações, e não privilégio guardado para consumo interno.
Ela é dele por instituição. Cristo prometeu edificá-la (Mt 16.18), deu-lhe autoridade para corrigir e restaurar, com a promessa da sua presença onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome (Mt 18.15–20), e nenhum outro fundamento pode ser posto além daquele que já está posto (1Co 3.11). Foi ele quem constituiu apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do serviço (Ef 4.11–12).
Ao se despedir dos presbíteros de Éfeso, Paulo os adverte a cuidarem da igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue (At 20.28). Cristo entrou no Santo dos Santos uma vez por todas, mediante o seu próprio sangue, obtendo eterna redenção (Hb 9.12–14). Fomos comprados por preço (1Co 6.19–20), resgatados não com prata ou ouro, mas com o precioso sangue de Cristo (1Pe 1.18–19), e o cântico do Cordeiro celebra os que foram comprados de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9). Por isso a glória é dele na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações (Ef 3.21), e a casa é dele (1Tm 3.15). Vale dizer isso com todas as letras: a Igreja não pertence ao pastor que a dirige, nem ao concílio que a organiza, nem aos que a sustentam financeiramente.
Sal da terra e luz do mundo, cidade edificada sobre um monte, que não pode ser escondida (Mt 5.13–16), a Igreja existe para ser vista sem se amoldar a este mundo (Rm 12.2), resplandecendo como luzeiros no meio de uma geração pervertida (Fp 2.15). Como peregrinos e forasteiros, seus membros mantêm exemplar o seu procedimento entre aqueles que os observam (1Pe 2.11–12), pois não são do mundo, mas foram enviados ao mundo (Jo 17.14–18). A imagem do monte já estava nos profetas, quando as nações sobem ao monte da casa do Senhor para serem ensinadas nos seus caminhos (Is 2.2–3; Mq 4.1–2).
O que Joel anunciou, Pedro declara cumprido no Pentecostes: Deus derrama do seu Espírito sobre toda a carne (Jl 2.28–29; At 2.16–18). Antes disso, o próprio Cristo ordenara que esperassem a promessa do Pai e prometera poder para que fossem suas testemunhas até os confins da terra (At 1.4–8), o que se realiza quando todos são cheios do Espírito Santo (At 2.1–4). Em um só Espírito fomos todos batizados em um corpo (1Co 12.13); o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo (Rm 5.5), o qual Deus derramou sobre nós abundantemente por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador (Tt 3.5–6).
Lucas não escreveu um tratado de eclesiologia, mas o resumo que deixou no fim de Atos 2 funciona ao mesmo tempo como retrato e como critério. Oito traços aparecem ali, e nenhum deles é acessório.
Os que aceitaram a palavra (v. 41) são descritos adiante como todos os que creram (v. 44). A pregação antecede a adesão, e a adesão é ato de fé, não de simpatia religiosa nem de pertencimento cultural (cf. Rm 10.14–17).
Os que creram foram batizados (v. 41), conforme a ordem do Senhor (Mt 28.19) e a exortação que Pedro fizera naquele mesmo dia (At 2.38). O sacramento é o sinal público da incorporação a Cristo e da participação na sua morte e ressurreição (Rm 6.3–4; Gl 3.27).
Naquele dia foram acrescentadas quase três mil pessoas (v. 41), e o Senhor acrescentava, dia a dia, os que iam sendo salvos (v. 47). Repare em quem acrescenta: o Senhor. A Igreja recebe, reconhece e integra, mas quem salva e quem acrescenta é Deus, pelo mesmo Espírito em que todos fomos batizados em um só corpo (cf. 1Co 12.13).
Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos (v. 42), o que pressupõe ensino sistemático, sã doutrina e liderança pastoral reconhecida (cf. 2Tm 1.13–14; Tt 1.9). Comunidade sem ensino não se conserva: ela oscila ao sabor de qualquer vento de doutrina (Ef 4.14).
Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos (v. 43). O temor de que Lucas fala não é medo servil, mas reverência diante de Deus que age (cf. Pv 9.10; Hb 12.28), e essa reverência se traduz em respeito ao ministério que o próprio Cristo instituiu (Ef 4.11–12; Hb 13.17).
Perseveravam na comunhão (v. 42), e todos os que creram tinham tudo em comum, vendendo propriedades e bens e distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade (v. 44–45). A koinonia do Novo Testamento não é convívio social agradável, mas partilha concreta de vida e de bens (cf. 2Co 8.13–15; 1Jo 3.17).
Perseveravam no partir do pão e nas orações (v. 42) e, diariamente unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração (v. 46). A expressão abrange tanto as refeições comuns dos primeiros cristãos, os chamados ágapes, quanto a celebração da Ceia do Senhor que nelas se inseria (1Co 11.20–22, 33–34; Jd 12). Que essa era a prática regular da igreja se confirma em Trôade, quando os discípulos se reuniram no primeiro dia da semana com o fim de partir o pão (At 20.7). Culto público no templo e comunhão nas casas caminhavam juntos, sem que um substituísse o outro.
Havia temor em cada alma (v. 43), alegria e singeleza de coração (v. 46), louvor a Deus e simpatia de todo o povo (v. 47). O testemunho daquela comunidade não era estratégia de comunicação: era consequência visível daquilo que ela havia se tornado (cf. Jo 13.35; Mt 5.16).
Reunindo o que o texto apresenta, a Igreja é composta por aqueles que:
Leio esse conjunto a partir da tradição armínio-wesleyana, e é dela que decorre o modo como articulo as peças. Nenhuma dessas imagens funciona sozinha. Quem define a Igreja apenas como instituição acaba com uma estrutura que sobrevive ao próprio esvaziamento espiritual; quem a define apenas como organismo acaba dispensando doutrina, ministério e disciplina, três coisas que Atos 2 apresenta como constitutivas e não como acréscimos posteriores. A Igreja é as duas coisas ao mesmo tempo, porque é instituição divina e corpo vivo do Senhor ressurreto.
Também sustento que a salvação é recebida pela fé em Cristo, e não pela inscrição num rol de membros. Foi o Senhor quem acrescentou à Igreja os que iam sendo salvos (At 2.47), e não o contrário. Ao mesmo tempo, a fé que Atos descreve nunca aparece como experiência privada: ela leva ao batismo, à doutrina, à mesa, à oração e à partilha. Fé sem comunidade é uma abstração que o texto desconhece, e membresia sem fé é apenas um nome em uma lista.
Fica então a pergunta prática, e ela não é retórica. Se as oito marcas de (At 2.41–47) fossem aplicadas hoje à comunidade que pastoreamos, o que sobreviveria ao exame? A pregação recebida com fé, o ensino perseverante, a solidariedade concreta com quem tem necessidade, a mesa do Senhor celebrada com alegria e a vida diária que conquista a simpatia dos de fora continuam sendo o retrato pelo qual a Igreja se reconhece, ou deixa de se reconhecer.
Bispo Ildo Mello