Estudos do Bispo Ildo · Heresias e Apologética · Seitas e Heresias

Desmascarando os falsos profetas: como discernir a verdadeira espiritualidade e suas falsificações

Bispo Ildo Mello

Texto base: Judas 1–25.

Introdução

Começo com algumas perguntas. Como reconhecer um falso profeta? Quem realiza sinais extraordinários é necessariamente enviado por Deus? Alguém pode falar de Jesus, citar a Bíblia, usar linguagem evangélica e, ainda assim, ensinar outro evangelho? É possível ter carisma sem caráter? Como distinguir um verdadeiro profeta de quem apenas aprendeu a aparência, o vocabulário e os gestos da espiritualidade?

E, talvez, a pergunta mais importante: como nos proteger sem cair no extremo oposto, o da incredulidade, da suspeita permanente e do julgamento precipitado?

A Bíblia não nos manda acreditar em tudo, mas também não nos manda rejeitar tudo. Paulo ensina que não devemos desprezar as profecias, e sim examinar todas as coisas e reter o que é bom (1Ts 5.19–21). João pede que não creiamos em todo espírito, mas que provemos os espíritos para ver se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo (1Jo 4.1).

Discernimento cristão não é credulidade nem incredulidade. É submissão à verdade revelada por Deus.

1. Uma das estratégias de Satanás é a falsificação

Satanás não trabalha apenas afastando as pessoas de Deus. Ele também trabalha falsificando as coisas de Deus. A Bíblia o chama de mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44).

No Éden, sua estratégia não foi dizer que Deus não existe. Foi mais sutil: questionar e distorcer o que Deus havia dito, “Foi isso mesmo que Deus disse?” (Gn 3.1–5). Na tentação de Jesus, ele chegou a citar as Escrituras, arrancando o texto do seu propósito para conduzir o Senhor à presunção (Mt 4.5–7; Sl 91.11–12).

Ou seja, Satanás promove incredulidade, mas também promove religiosidade falsa. Paulo adverte que o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz (2Co 11.14), e acrescenta que seus ministros também se apresentam como ministros de justiça (2Co 11.15).

Perceba o perigo: o falso não vem com aparência de falso. Se viesse escrito na testa “falso profeta”, ninguém seria enganado. Por isso Jesus disse: “Cuidado com os falsos profetas, que se apresentam a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes” (Mt 7.15).

O perigo da falsificação está justamente na semelhança com o original. O lobo não chega vestido de lobo; chega vestido de ovelha. O falso profeta aprende o vocabulário da igreja, conhece as expectativas do povo e sabe como uma pessoa espiritual deve parecer. Por isso, aparência de espiritualidade nunca foi critério bíblico suficiente para reconhecer um homem ou uma mulher de Deus.

2. Judas: uma carta para uma igreja ameaçada por dentro

Judas se apresenta como servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago (Jd 1), provavelmente o Judas mencionado entre os irmãos de Jesus segundo a carne (Mt 13.55; Mc 6.3). É significativo que ele não reivindique o título de irmão do Senhor e prefira chamar-se servo.

Ele pretendia escrever sobre a salvação comum a todos os cristãos, mas uma emergência pastoral mudou seus planos: “Senti que era necessário escrever-lhes, exortando-os a batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). O motivo? “Certos indivíduos se introduziram com dissimulação” (Jd 4). Não chegaram anunciando que eram hereges; entraram disfarçados.

Isso se repete no Novo Testamento. Paulo avisou os presbíteros de Éfeso que lobos vorazes entrariam no rebanho, e que dentre eles mesmos surgiriam homens falando coisas pervertidas para arrastar discípulos atrás de si (At 20.29–30). Pedro escreveu que, como houve falsos profetas em Israel, surgiriam falsos mestres na igreja, introduzindo dissimuladamente heresias destruidoras (2Pe 2.1).

O perigo, portanto, não está só fora. Pode aparecer dentro.

3. Uma distinção fundamental: erro não é heresia

Aqui precisamos de muito cuidado. Nem toda pessoa que está errada é um falso profeta. Se fosse assim, quem de nós sobreviveria?

Apolo era eloquente, conhecia bem as Escrituras e ensinava sobre Jesus, mas seu conhecimento era incompleto. Priscila e Áquila o receberam e lhe expuseram “com mais exatidão o caminho de Deus” (At 18.24–26). Apolo não era falso mestre; era um homem sincero que precisava aprender. Pedro, por sua vez, precisou ser confrontado por Paulo em Antioquia (Gl 2.11–14), e nem por isso deixou de ser apóstolo.

Paulo reconhece que há assuntos sobre os quais cristãos sinceros podem divergir sem romper a comunhão (Rm 14.1–6), e recomenda: “Ao servo do Senhor não convém brigar, e sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem” (2Tm 2.24–25).

Então guardemos a diferença: erro deve ser corrigido, heresia deve ser combatida; o enganado deve ser ajudado, o enganador deve ser desmascarado. O falso mestre do Novo Testamento não é quem interpretou um texto diferente de mim. É quem persiste em corromper verdades fundamentais, reivindica autoridade espiritual para o erro, desvia pessoas de Cristo, explora o rebanho ou vive de modo incompatível com o evangelho (At 20.29–30; Gl 1.6–9; 2Pe 2.1–3; Jd 4,11–19).

4. Primeiro teste: os frutos

Jesus deu um critério claríssimo: “Pelos seus frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.16,20). Ele não disse pelos dons, nem pelo tamanho da igreja, nem pela quantidade de milagres, nem pelo número de seguidores. Disse pelos frutos.

E torna a advertência ainda mais grave: “Muitos, naquele dia, vão me dizer: ‘Senhor, Senhor! Não profetizamos nós em teu nome? E em teu nome não expulsamos demônios? E em teu nome não fizemos muitos milagres?'” (Mt 7.22). A resposta de Cristo é que nunca os conheceu, e os chama de praticantes da iniquidade (Mt 7.23).

Isso é assustador. Eles alegam profecias, exorcismos e milagres, e ouvem “eu nunca conheci vocês”. Manifestação extraordinária não autentica automaticamente o mensageiro.

Moisés já havia advertido Israel que, mesmo se o sinal anunciado por um profeta se cumprisse, ele deveria ser rejeitado caso conduzisse o povo a outros deuses (Dt 13.1–5). Jesus alertou que falsos cristos e falsos profetas fariam grandes sinais para enganar (Mt 24.24), e Paulo fala da atuação do iníquo com poder, sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9–10).

O sinal deve ser julgado pela verdade; nunca a verdade pelo sinal.

5. Carisma não substitui caráter

Judas descreve os falsos mestres com imagens impressionantes: pastores que apascentam a si mesmos, nuvens sem água, árvores sem fruto, ondas bravias do mar, estrelas errantes (Jd 12–13).

Veja a tragédia. A nuvem deveria trazer água, a árvore deveria dar fruto, o pastor deveria alimentar o rebanho, a estrela deveria orientar. Mas há aparência sem realidade, promessa sem conteúdo, ministério sem serviço, espiritualidade sem santidade. É possível ter carisma sem caráter. E quando a igreja supervaloriza o carisma e negligencia o caráter, ela cria o ambiente ideal para o surgimento de falsos líderes.

Paulo ensina que o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (Gl 5.22–23). E, ao estabelecer critérios para líderes, ele não pergunta quantos milagres a pessoa fez; fala de caráter: irrepreensibilidade, domínio próprio, sobriedade, hospitalidade, fidelidade, maturidade e bom testemunho (1Tm 3.1–7; Tt 1.5–9). O Novo Testamento se importa muito mais com o caráter do líder do que muitas igrejas contemporâneas.

6. Segundo teste: a relação com o dinheiro

Judas lembra Balaão: “Por causa do lucro, caíram no erro de Balaão” (Jd 11), símbolo do ministério contaminado pela cobiça (Nm 22–24; 31.16; 2Pe 2.15; Ap 2.14). Pedro diz que os falsos mestres, movidos por avareza, farão comércio das pessoas com palavras fictícias (2Pe 2.3). Paulo fala dos que imaginam que a piedade é fonte de lucro (1Tm 6.5), e Miqueias já denunciava líderes que julgavam por suborno, sacerdotes que ensinavam por interesse e profetas que adivinhavam por dinheiro (Mq 3.11).

Isso não significa que o ministro não possa ser sustentado. A própria Escritura diz que “o trabalhador é digno do seu salário” (Lc 10.7; 1Tm 5.17–18) e que quem prega o evangelho pode viver do evangelho (1Co 9.14). O problema não é receber para servir; é servir para receber. A diferença é enorme. O verdadeiro pastor pergunta o que pode oferecer ao rebanho; o mercenário pergunta o que pode tirar dele (Jo 10.12–13). Onde há poder espiritual sem prestação de contas, há terreno fértil para o abuso.

7. Terceiro teste: imoralidade e ausência de santidade

Judas associa os falsos mestres à libertinagem e à contaminação moral (Jd 4,7–8), e Pedro faz o mesmo (2Pe 2.10,14,18–19). A graça não foi dada para justificar uma vida de pecado. Paulo pergunta se continuaremos no pecado para que a graça aumente, e responde: “De modo nenhum!” (Rm 6.1–2). A mesma graça que salva nos educa a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa (Tt 2.11–12).

Por isso, todo ensino que transforma graça em licença, liberdade em libertinagem e perdão em desculpa para permanecer no pecado está corrompendo o evangelho (Jd 4; Rm 6.1–2; Gl 5.13). Qualquer espiritualidade que legitima aquilo que Cristo chama de pecado não é espiritualidade cristã.

8. Quarto teste: orgulho, autoritarismo e sede de poder

Judas menciona pessoas arrogantes, que falam palavras grandiosas e adulam outros em busca de vantagem (Jd 16). Paulo adverte que alguns falariam coisas perversas para arrastar os discípulos atrás de si (At 20.30). Está aí a diferença: o verdadeiro ministro quer produzir discípulos de Jesus (Mt 28.19–20); o falso quer produzir discípulos de si mesmo. João lembra Diótrefes, que gostava de exercer a primazia e chegava a rejeitar autoridade apostólica e excluir pessoas da igreja (3Jo 9–10).

Quando um líder começa a agir como inquestionável, intocável, acima da correção, acima da Escritura e acima da prestação de contas, é hora de acender o sinal de alerta. Até Pedro foi confrontado quando errou (Gl 2.11–14), e os bereanos foram elogiados por conferir nas Escrituras o que Paulo ensinava (At 17.11). Se Paulo podia ser examinado pela Palavra, ninguém hoje está acima dela.

9. Quinto teste: produzem divisões em torno de si

“São estes os que promovem divisões” (Jd 19). Paulo pede cuidado com os que provocam divisões contrárias à doutrina recebida e, com palavras suaves e bajulação, enganam os corações dos incautos (Rm 16.17–18).

Nem toda divisão, porém, denuncia um falso profeta. A verdade às vezes divide, e o próprio Jesus provocou divisão por causa de sua identidade e mensagem (Jo 7.43; 9.16; 10.19). O problema é o sectarismo movido por orgulho, poder e interesse pessoal, quando alguém precisa diminuir todos os outros para engrandecer o próprio ministério. Quando a mensagem passa a ser “só nós temos a verdade”, “só comigo Deus fala”, “todas as outras igrejas estão mortas”, “quem me deixa está deixando Deus” e “questionar minha liderança é rebelar-se contra Deus”, cuidado. Cristo é o Senhor da igreja (Cl 1.18), o pastor é servo (1Co 4.1) e o rebanho pertence a Deus, não ao pastor (1Pe 5.2–4).

10. Sexto teste: o conteúdo da mensagem

Não basta examinar o caráter; é preciso examinar a doutrina. Judas manda batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3). Aqui a palavra fé não é só o ato subjetivo de confiar; é a fé cristã, o conteúdo apostólico recebido pela igreja. Atos diz que os primeiros cristãos perseveravam na doutrina dos apóstolos (At 2.42); Paulo manda Timóteo conservar o padrão das sãs palavras que ouvira dele (2Tm 1.13–14); e Tito deveria apegar-se à palavra fiel para ensinar a sã doutrina e refutar os que a contradizem (Tt 1.9).

Por quê? Porque o evangelho pode ser falsificado. Paulo se admirou de que os gálatas estavam passando depressa para outro evangelho que, na verdade, não existe: havia gente perturbando a igreja e pervertendo o evangelho de Cristo (Gl 1.6–7). Ainda que um anjo do céu anunciasse outro evangelho, deveria ser rejeitado (Gl 1.8–9). A aparência sobrenatural não autentica a mensagem; a mensagem precisa estar de acordo com o evangelho apostólico.

11. Sétimo teste: o que ensinam sobre Jesus?

João dá um critério cristológico: “Ponham os espíritos à prova” (1Jo 4.1), ligando isso imediatamente à confissão correta sobre Jesus Cristo (1Jo 4.2–3). Em outra passagem pergunta: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo?” (1Jo 2.22).

O cristianismo está inevitavelmente centrado na identidade de Jesus. Ele é o Verbo que estava com Deus e era Deus (Jo 1.1); tudo veio à existência por meio dele (Jo 1.3); ele compartilha da glória do Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5). Tomé o confessa: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20.28). Paulo afirma que nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl 2.9), e Hebreus aplica ao Filho: “O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). Se uma mensagem altera de forma fundamental a identidade de Jesus apresentada pelos apóstolos, já não estamos diante da fé cristã histórica.

12. Um exemplo: as Testemunhas de Jeová

Precisamos ser justos ao descrever a religião dos outros. As Testemunhas de Jeová falam muito de Jesus, usam bastante a Bíblia e são conhecidas pelo trabalho sistemático de ensino. Entretanto, ensinam que Jesus foi a primeira criação de Deus e identificam o arcanjo Miguel com Jesus em sua existência celestial. É exatamente aqui que existe uma diferença cristológica fundamental.

O Novo Testamento não coloca Jesus entre as coisas criadas. João diz: “Todas as coisas foram feitas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Paulo afirma que nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, e que tudo foi criado por meio dele e para ele (Cl 1.16–17). Hebreus distingue explicitamente o Filho dos anjos: “A qual dos anjos jamais disse: ‘Você é meu Filho’?” (Hb 1.5) e “Todos os anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6).

O desacordo não precisa envolver desrespeito às Testemunhas de Jeová como pessoas. Mas precisa ser dito com clareza: sua cristologia não corresponde à confissão histórica cristã da plena divindade e eternidade do Filho.

13. Outro exemplo: a Seicho-No-Ie e a realidade do pecado

A Seicho-No-Ie sustenta que, na chamada Imagem Verdadeira, pecado, doença e morte não têm existência real. Isso choca de frente com o diagnóstico bíblico da condição humana. A Escritura diz que “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23); João afirma que, se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamos a nós mesmos (1Jo 1.8), e que, se dissermos que não pecamos, fazemos Deus mentiroso (1Jo 1.10).

Por que isso importa tanto? Porque, se não existe pecado, a cruz perde o sentido. Paulo resume o evangelho dizendo que “Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras” (1Co 15.3). Pedro afirma que “Cristo sofreu uma única vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir vocês a Deus” (1Pe 3.18). Jesus veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10) e dar a sua vida em resgate por muitos (Mc 10.45). Retirar a realidade do pecado é tornar desnecessária a realidade da expiação.

14. O evangelho da graça também pode ser deturpado

Judas denuncia os que transformam em libertinagem a graça do nosso Deus (Jd 4). Uma verdade bíblica pode ser usada de modo antibíblico. Dizer que somos salvos pela graça é verdade (Ef 2.8–9); concluir daí que o modo como vivemos não importa é mentira (Ef 2.10; Tt 2.11–14). Dizer que não somos justificados pelas obras da Lei é verdade (Rm 3.28; Gl 2.16); concluir daí que Deus não espera obediência é mentira (Rm 6.15–18; Jo 14.15).

A graça que perdoa é a mesma graça que transforma. Ela não é só perdão da culpa; é também poder para uma nova vida (Rm 6.1–14; Tt 2.11–14).

15. O evangelho também pode ser deturpado pela promessa de prosperidade

Estes critérios valem também para ensinos que circulam dentro do próprio meio evangélico. A Bíblia ensina que Deus cuida dos seus filhos (Mt 6.25–34), que podemos apresentar a ele nossas necessidades (Fp 4.6) e que ele pode prosperar, curar e abrir portas segundo a sua vontade (Tg 5.14–16; Fp 4.19).

O problema começa quando transformamos isso em fórmulas: que ter fé suficiente garante ficar rico; que ter fé suficiente garante a cura; que, se algo não aconteceu, a culpa é da falta de fé; que palavras de fé obrigam a realidade a obedecer ao crente; que uma contribuição financeira funciona como mecanismo para obter de Deus determinado retorno.

Tudo isso precisa ser testado pela Escritura. Paulo foi fiel e passou necessidades (Fp 4.11–13); Timóteo tinha problemas de saúde (1Tm 5.23); Trófimo foi deixado doente em Mileto (2Tm 4.20); Epafrodito esteve gravemente enfermo (Fp 2.25–27); e o próprio Paulo teve de aprender que “a minha graça é suficiente para você” (2Co 12.9). O cristianismo não promete ausência de sofrimento. Jesus prometeu justamente o contrário: “No mundo vocês passam por aflições” (Jo 16.33).

16. Oração não é um meio de controlar Deus

No Getsêmani, Jesus orou: “Não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lc 22.42). Tiago ensina que devemos dizer: “Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo” (Tg 4.15). João estabelece o princípio de que, se pedimos alguma coisa segundo a vontade de Deus, ele nos ouve (1Jo 5.14). E o próprio Senhor nos ensinou a orar: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10).

Oração cristã não é a tentativa de submeter Deus à nossa vontade. É a entrega da nossa vontade ao governo sábio e amoroso de Deus.

17. Profecias devem ser julgadas

Alguns imaginam que julgar uma profecia é falta de fé. A Bíblia ensina o contrário. Paulo diz: “Tratando-se de profetas, falem dois ou três, e os outros julguem cuidadosamente o que foi dito” (1Co 14.29), e ainda: “Não desprezem as profecias; examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.20–21). A igreja não deve ser antiprofética, rejeitando tudo de antemão, nem acrítica, aceitando tudo automaticamente. Deve ser discernidora.

No Antigo Testamento, o profeta que falasse presunçosamente em nome de Deus e cuja palavra não se cumprisse havia dito algo que o Senhor não ordenara (Dt 18.20–22). Mas Deuteronômio 13 acrescenta outro princípio: mesmo um sinal que se cumpra não autentica o profeta, se a mensagem afasta o povo do verdadeiro Deus (Dt 13.1–5). Há, portanto, ao menos dois testes: a profecia é verdadeira? E a profecia é teologicamente fiel?

18. Sete perguntas para testar um profeta ou mestre

Primeira: o que ele ensina está de acordo com as Escrituras? Os bereanos conferiam diariamente nas Escrituras o que ouviam (At 17.11). Segunda: o que ele ensina sobre Jesus? A cristologia é um dos grandes testes apostólicos (1Jo 2.22–23; 4.1–3). Terceira: qual é o fruto da sua vida? “Pelos frutos vocês os conhecerão” (Mt 7.16,20). Quarta: qual é a sua relação com dinheiro, poder e prestígio? Falsos mestres exploram pessoas por avareza (2Pe 2.3; Jd 11,16). Quinta: ele aceita correção e prestação de contas? Até Pedro foi corrigido (Gl 2.11–14), e líderes cristãos continuam debaixo da Palavra (Tt 1.9). Sexta: para quem ele conduz os discípulos? O verdadeiro ministro os conduz a Cristo (2Co 4.5); o falso tenta arrastá-los atrás de si (At 20.30). Sétima: sua mensagem produz santidade ou legitima o pecado? A graça de Deus nos educa a abandonar a impiedade e viver piedosamente (Tt 2.11–14).

E acrescento uma pergunta prática: se retirarmos os milagres, o palco, o título, as multidões, a música, a emoção e o carisma, o que sobra? Sobra um servo de Cristo? Sobra alguém de caráter? Sobra alguém submisso à Escritura? Sobra o evangelho?

19. O perigo de julgarmos pelo sucesso

Precisamos quebrar uma associação muito comum: a de que, se há muita gente, então Deus está aprovando. Isso não é critério bíblico. Multidão não autentica verdade. Jesus falou de uma porta larga e de um caminho espaçoso pelos quais muitos entram (Mt 7.13), e Paulo previu o tempo em que as pessoas não suportariam a sã doutrina, mas juntariam mestres segundo os próprios desejos, buscando o que queriam ouvir (2Tm 4.3–4). Popularidade não é ortodoxia, número de seguidores não é fruto do Espírito, crescimento numérico não substitui fidelidade, e sucesso ministerial não torna ninguém imune ao exame bíblico.

20. O perigo do culto à personalidade

Paulo repreendeu os coríntios porque alguns diziam “eu sou de Paulo”, “eu sou de Apolo”, “eu sou de Cefas” (1Co 1.12). Sua resposta foi: “Acaso Cristo está dividido?” (1Co 1.13). E mais adiante: “Quem é Apolo? E quem é Paulo? Servos por meio de quem vocês creram” (1Co 3.5).

Esta é uma palavra necessária. Pastores, bispos, apóstolos, profetas e pregadores são servos; Jesus é o Senhor (Fp 2.9–11). Toda espiritualidade que engrandece demais o mensageiro acaba diminuindo a centralidade da mensagem. João Batista resumiu o espírito do verdadeiro ministério: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

21. Como Judas manda a igreja reagir?

Talvez esta seja uma das partes mais bonitas da carta. Depois de denunciar duramente os enganadores, Judas não transforma os cristãos em caçadores de hereges. Ele volta o olhar para a própria igreja: “Vocês, porém, amados, edificando-se na fé santíssima de vocês” (Jd 20).

Primeiro, edifiquem-se na fé: conheçam as Escrituras (Jd 20; 2Tm 3.14–17), porque uma igreja biblicamente analfabeta é presa fácil para falsos mestres. Segundo, orem no Espírito Santo: Judas não opõe doutrina e Espírito, ele une os dois, a fé santíssima e a oração no Espírito Santo (Jd 20). Precisamos de Palavra e Espírito, verdade e poder, doutrina e vida. Terceiro, mantenham-se no amor de Deus (Jd 21), porque combater heresias sem amor pode nos tornar tão desagradáveis quanto o erro que combatemos. Quarto, esperem em Cristo: Judas orienta a igreja a aguardar a misericórdia de Jesus Cristo para a vida eterna (Jd 21). Nossa esperança não está na nossa capacidade de detectar todos os erros; está em Cristo.

22. Como tratar quem está enganado?

Aqui Judas mostra um equilíbrio pastoral extraordinário: “Tenham compaixão de alguns que estão em dúvida” (Jd 22). Nem todos que estão numa religião errada são mal-intencionados, e nem todos que creem num falso profeta são falsos profetas. Muitos são vítimas: foram ensinados assim desde crianças, procuram sinceramente a Deus, foram atraídos por amor, amizade ou promessa de cura, ou simplesmente nunca ouviram outra explicação. Não confundamos o enganador com o enganado.

Judas ainda diz: “Salvem outros, arrebatando-os do fogo”, e manda demonstrar misericórdia com temor, mantendo distância daquilo que contamina (Jd 23). São três coisas juntas: verdade, misericórdia e prudência. Não precisamos odiar ninguém para discordar profundamente de sua doutrina, nem maltratar os adeptos de uma religião para mostrar que ela contradiz o evangelho. Paulo chama isso de falar a verdade em amor (Ef 4.15). Esse é o espírito cristão.

23. Não sejamos ingênuos, mas também não sejamos cínicos

Há dois extremos perigosos. O primeiro é acreditar em tudo: alguém diz “Deus me falou” e cremos; “Deus mandou dizer” e obedecemos; “tive uma visão” e aceitamos. Isso é ingenuidade espiritual. O segundo é não acreditar em nada: desprezar todo dom, suspeitar de todo líder, zombar de toda experiência espiritual. Isso também não é bíblico.

Paulo não disse para desprezarmos todas as profecias. Disse: “Não desprezem as profecias; examinem todas as coisas, retenham o que é bom” (1Ts 5.20–21). O equilíbrio é este: não apagar o Espírito, mas examinar tudo pela Palavra.

24. Conclusão: batalhem pela fé

Judas abre a exortação mandando batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3). Essa fé não é invenção nossa; nós a recebemos. Não temos autoridade para alterar o evangelho, criar um Cristo à nossa imagem, retirar a cruz, eliminar o pecado, transformar graça em libertinagem, converter a oração em mecanismo de controle de Deus, substituir santidade por carisma, trocar Cristo pelo culto à personalidade ou trocar o evangelho por prosperidade, autoajuda ou espetáculo.

Batalhem pela fé, mas batalhem como cristãos: com firmeza, sem arrogância; com convicção, sem crueldade; com discernimento, sem paranoia; com verdade, mas também com amor.

Judas termina apontando para Deus: “Àquele que é poderoso para impedir que vocês tropecem e para apresentá-los com exultação, imaculados diante da sua glória… ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, sejam glória, majestade, poder e autoridade, antes de todas as eras, agora e por todos os séculos. Amém!” (Jd 24–25).

Cristo guarda a sua igreja, a Palavra ilumina o nosso caminho, o Espírito nos conduz à verdade, e nós somos chamados a permanecer vigilantes. Não se deixem impressionar apenas pelos dons: examinem os frutos. Não se deixem impressionar apenas pelos sinais: examinem a mensagem. Não se deixem impressionar apenas pelo carisma: examinem o caráter. Não se deixem impressionar apenas pelo sucesso: examinem a fidelidade.

Não sigam homens. Sigam Cristo. E batalhem pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos (Jd 3).

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