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Milênio: A Natureza do Reino de Deus

Para que se tenha uma melhor compreensão do que está escrito em Apocalipse 20, é preciso que se conheça a natureza paradoxal do Reino de Deus ensinado por Jesus Cristo. Pois o Reino de Deus em sua dimensão terrestre não é sem oposição. Mas pode-se objetar aí que o texto de Apocalipse 20 afirma que Satanás é preso e que, portanto, tal descrição do Reino de Deus onde Satanás é descrito como estando preso não poderia se adequar a um conceito de Reino de Deus na era presente, devido à presença do mal nos dias de hoje. Portanto, segundo os premilenistas, seríamos forçados a concluir que o texto estaria mesmo se referindo a um reinado milenar que teria lugar na história no futuro, após a Segunda Vinda de Cristo. No entanto, como já demonstramos anteriormente, a prisão de Satanás descrita em Apocalipse 20 pode muito bem ser compreendida como significando o mesmo que Jesus está dizendo no capítulo 12 de Mateus, verso 29, quando fala sobre amarrar o valente antes de saquear os bens. Jesus estava saqueando os bens do “valente”, que simboliza ali a Satanás, pois o contexto mostra que Jesus estava expulsando demônios pelo Espírito de Deus, o que era em si um sinal de que o Reino de Deus já era chegado, pois já havia amarrado a Satanás (Mt 12.22 a 29). É o mesmo que vemos registrado em 2 Pedro 2.4 e Judas 6, que são textos que falam dos demônios que foram colocados presos no abismo. Portanto, Jesus, Pedro e Judas falam sobre este amarrar e prender dos demônios como eventos passados. Mas, se é assim, como é que vemos tanto mal agindo no mundo hoje? Bem, sabemos que este aprisionamento não pode ser interpretado no sentido de que o diabo está completamente inoperante no mundo, pois é óbvio que não é assim. Mas, se Jesus sabia que o diabo continuava a operar no mundo, o que é que ele quis dizer então com já ter amarrado o valente? Eis aí a questão!

O sentido de “amarrar” e “prender em correntes”

Precisamos entender o sentido de amarrar e prender em correntes tanto de Mateus 12.29 como de Apocalipse 20. Precisamos entender a natureza do Reino de Deus. Há um paradoxo no fato de a Bíblia falar que Satanás está amarrado e nós ainda estarmos percebendo o seu agir no mundo, e isto com relativa e aparente liberdade. Há outro paradoxo também na afirmação cristã de que Jesus é o Senhor e nós não vermos ainda todas as coisas sujeitas ao seu senhorio (Hb 2.8). Neste mesmo sentido, temos o texto de Efésios 1.22 que diz: “E pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à Igreja”, entrando em aparente contradição com o texto de 1 Coríntios 15.28, pois se, no primeiro, Paulo declara que todas as coisas estão debaixo dos pés de Cristo, no segundo, ele diz que todas as coisas lhe serão sujeitas um dia: “Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então, o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.”

Um paradoxo apenas aparente: o já e o ainda não

Estas contradições são aparentes e se devem a natureza do Reino terrestre de Jesus na era da Igreja. Em sua primeira vinda, em sua morte e ressurreição, Jesus venceu e triunfou sobre a morte e sobre o mal. A batalha decisiva já foi travada, como bem observou Oscar Cullmani, ao lembrar que, numa guerra, nem sempre a última batalha é a mais importante e a decisiva. Pode ser que uma batalha intermediária tenha sido tão avassaladora que não exista mais como reverter a situação; não restando mais nenhuma esperança de vitória para o exército inimigo, por suas forças terem sido profundamente minadas. Mas, pode ser que, mesmo assim, outras batalhas ainda sejam necessárias porque o inimigo pode insistir em lutar, recusando-se a reconhecer sua derrota. Foi isto que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. A batalha decisiva, que ficou conhecida como o “Dia D”, não foi a última. Mas a vitória daquela batalha foi tão tremenda que já não havia mais como reverter o quadro. Foi o que aconteceu também na batalha entre Jesus e Satanás. A batalha decisiva já foi travada, na cruz, Jesus foi o vencedor, como afirmou o Apóstolo Paulo: “despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz” (Cl 2.15). Mas a batalha final, a batalha do Armagedom, ainda está por vir, quando “então, será, de fato, revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca e o destruirá pela manifestação de sua vinda” (2 Ts 2.8). Jesus é o legítimo Rei, mas o usurpador, mesmo derrotado, ainda é visto insistindo em ocupar o lugar que não lhe pertence. É por isto que o autor de Hebreus escreve em 2.8: “Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés. Ora, desde que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou fora do seu domínio. Agora, porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas.” O paradoxo é evidente: “Todas as coisas sujeitaste debaixo dos seus pés” versus “porém, ainda não vemos todas as coisas a ele sujeitas”. Sendo assim, alguém poderia questionar: Afinal de contas, todas as coisas estão ou não estão sujeitas debaixo dos pés de Cristo? A resposta é ao mesmo tempo sim e não. Sim, num certo sentido, e não, em outro. É sim, no sentido em que ele triunfou sobre o mal, tendo vencido a grande batalha, e é não, no sentido de que a guerra ainda não acabou, devido ao inimigo insistir em não reconhecer a vitória de Cristo. Por esta razão, ainda que Cristo já tenha triunfado na batalha decisiva, há outras batalhas até o dia final. Quem joga xadrez sabe que a maioria das partidas é vencida muito antes do xeque mate, mas nem todos os adversários são prontos em reconhecer o evidente fracasso e muitos insistem em continuar jogando até o movimento final em que se dá o xeque mate.

As parábolas e o crescimento oculto do Reino

Em muitas de suas parábolas, Jesus falou do Reino de Deus em termos deste paradoxo. Por exemplo, Jesus comparou o Reino de Deus a um homem que plantou o trigo, mas vem o inimigo e planta o joio, ambos crescem juntos e surge então este antagonismo e esta complexidade, típicas da natureza deste Reino (Mt 13.24-30). Em outra parábola, Jesus fala também do Reino de Deus em termos de um grão de mostarda (Mt 13.31-32), pequena semente que, uma vez plantada, cresce até tornar-se a maior das hortaliças. Mas não para por aí, pois fala também dos pássaros vieram aninhar-se debaixo de suas folhagens. Os pássaros não representam coisa boa, pelo menos neste contexto, pois na Parábola do Semeador (Mt 13.1s), os pássaros roubam a semente que caiu no caminho e aqui eles se aproximam como aproveitadores e interesseiros. Os pássaros procuram destruir a semente e querem se associar quando cresce como uma grande árvore. Foi isto que aconteceu com a Igreja, ela começou pequena como um grão de mostarda, foi desprezada e perseguida, mas resistiu e cresceu a ponto de conquistar o Império Romano, neste ponto muitos foram os pássaros que se aproximaram com intuito de tirar proveito. A boa semente cresceu, mas o joio também cresceu. Jesus compara o Reino de Deus com um pescador que lança a rede ao mar e pega peixes de toda espécie, bons e maus, e vemos também que a semente do reino cai em todo tipo de solo. Tal é a natureza do Reino de Deus, tão paradoxal e complexa, que muitos ou o ignoram ou o desprezam, enquanto outros tantos o adiam para depois da Segunda Vinda de Cristo. Mas não se deve desprezar o poder deste pequeno grão de mostarda, pois em seu DNA, ele encontra seu destino de crescer com a missão de ser sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5.13-16).

Este Reino de Deus pode passar desapercebido por muitos (Lc 17.20-21), pois se assemelha a uma pequena semente, que tem o seu crescimento gradativo e que possui esta natureza paradoxal e complexa só pode mesmo se dar na era presente, enquanto Jesus reina pondo um a um os seus inimigos debaixo dos seus pés (1 Co 15.25), pois, como sabemos pelas Escrituras, após a Segunda Vinda de Cristo, não haverá mais lugar para oposição, pois o anticristo será destruído (2 Ts 2.8) e a morte, o último inimigo a ser colocado debaixo dos pés de Jesus (1 Co 15.26), será tragada pela vitória final trazida pela Segunda Vinda de Jesus. Naquele dia, se dirá, “onde está, ó morte, a tua vitória… tragada foi a morte pela vitória!” (1 Co 15.54,55). Se a morte é como afirmou o Apóstolo Paulo, de fato, o último inimigo a ser destruído e se é certo como ele também afirmou que a morte será destruída por ocasião da Segunda Vinda de Cristo, quando se dará a ressurreição, então, não resta outra alternativa, senão, concluir que, tais textos que falam sobre o Reinado de Cristo, que acabamos de mencionar, só podem estar se referindo a era presente que antecede a Segunda Vinda. Deixemos que Paulo fale por si mesmo: “Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés. O último inimigo a ser destruído é a morte” (1 Co 15.25 e 26). Portanto, a Segunda Vinda não inaugurará o Reino de Deus, mas, sim, trará a plenitude do Reino com a destruição final de toda oposição e o estabelecimento de uma nova era com novos céus e nova terra onde a justiça, a verdade, a paz e o amor prevalecerão sem rivais. Enquanto isto não acontece, ressalto mais uma vez a necessidade de se discernir a natureza multidimensional do Reino de Deus, procurando, assim, manter unidas as distintas polaridades dimensionais que formam área de tensão, tais como presente e futuro, pessoal e social, celeste e terrestre, interno e externo, otimismo e realismo, reino que se estabelece tanto de maneira gradual e paulatina a partir da primeira vinda de Cristo, como também através de momentos críticos de intervenção divina e de modo abrupto e cataclísmico caracterizado pela Segunda Vinda de Cristo, pois nenhuma destas dimensões deve ser entendida a despeito da outra, pois tal tensão paradoxal entre o “já e o ainda não”, deve-se ao fato de estarmos vivendo num período de transição entre o a inauguração do Reino e a sua plenitude.

Para onde seguimos

Aprenderemos a seguir, de maneira mais específica, como a natureza do Reino de Deus se revela na Trindade, em especial, na pessoa e obra de Cristo e do Santo Espírito de Deus. O que servirá para preparar o terreno para que possamos compreender melhor a natureza e a dimensão da própria natureza da missão da Igreja, intimamente ligada a natureza do Reino e da Trindade.

i Cullman, Oscar, Christ and Time. tradução. Floyd V. Filson. Philadelphia: Westminster, 1950, p. 87.

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