Estudos do Bispo Ildo · Escatologia
Grande Tribulação e Anticristo
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A Igreja passa pela Grande Tribulação?+
Introdução
Os adeptos da teoria pré-tribulacionista ensinam que a Segunda Vinda de Cristo se desdobrará em duas etapas, separadas por um período de sete anos conhecido como A Grande Tribulação. De acordo com esta visão, a primeira etapa consistirá em uma vinda silenciosa e secreta de Cristo para arrebatar os fiéis da Igreja antes da Grande Tribulação, enquanto a segunda etapa envolverá uma vinda gloriosa e visível de Cristo após esse período tumultuado. Eles procuram fundamentar essa crença principalmente em textos como 1 Tessalonicenses 4.16-17, que descreve o arrebatamento dos crentes vivos "nos ares", e Apocalipse 3.10, que menciona a preservação da igreja da "hora da provação que virá sobre todo o mundo".
Os pré-tribulacionistas sustentam que Deus não permitirá que a Igreja sofra durante a Grande Tribulação. No entanto, não há nenhum versículo bíblico explícito que afirme que a Igreja será poupada desse período, nem existe na Bíblia uma clara descrição de uma Segunda Vinda de Cristo em duas fases distintas, separadas por sete anos de Grande Tribulação. Além disso, não há base para a ideia de um arrebatamento "secreto", pois as narrativas bíblicas que descrevem o arrebatamento da Igreja não sugerem sigilo ou discrição (1Ts 4.16-17; Mt 24.31).
Uma incongruência adicional dessa perspectiva é a concepção de um arrebatamento que removeria a Igreja e o Espírito Santo da Terra antes da revelação do Anticristo. Se isso fosse verdade, então, o Anticristo seria "anti" o quê? O termo "anticristo" refere-se a falsos profetas que já estavam presentes no mundo desde os primórdios da Igreja (1Jo 2.18-22; 1Jo 4.3 e 2Jo 1.7). Não se deve confundir o Anticristo com o Iníquo de 2 Tessalonicenses 2 ou a Besta do Apocalipse. As referências ao(s) anticristo(s) nas epístolas joaninas dizem respeito a hereges ou falsos profetas, enquanto o Iníquo ou a Besta se relacionam a imperadores tiranos.
Além disso, a ideia de que a Igreja e o Espírito Santo precisariam ser removidos da Terra para que Israel pudesse ser convertido em um período de apenas sete anos é questionável e até mesmo desonra o ministério da Igreja e do Espírito Santo. Isso pode, inclusive, promover uma mentalidade de escapismo e alienação.
Ao examinarmos cuidadosamente as Escrituras Sagradas, percebemos que tanto Jesus quanto seus apóstolos advertiram que a Igreja enfrentaria diversas tribulações, inclusive a chamada Grande Tribulação, e que isso não significa abandono ou derrota. O Arrebatamento da Igreja ocorrerá após a Grande Tribulação, como parte integral da Segunda Vinda de Cristo, que será um evento único e visível para toda a humanidade. Na ocasião de sua vinda, Jesus destruirá o Homem da Iniquidade com o sopro de sua boca. Por fim, além de demonstrar a falta de base bíblica da perspectiva pré-tribulacionista, abordarei algumas considerações sobre a preocupante origem dessa doutrina, que não encontra respaldo na Bíblia, mas sim na visão profética de uma pessoa do século XIX.
A Igreja, a perseguição e o martírio cristão.
A trajetória da Igreja está intrinsecamente ligada à perseguição e ao martírio cristão. Jesus foi claro ao estabelecer que o primeiro requisito para se tornar cristão é "tomar a cruz" (Mc 8.34). Ele também alertou que "não é o servo maior do que o seu Senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros" (Jo 15.20, cf. 13.16, Jo 16.33). Portanto, o discípulo deve sempre estar ciente de que seguir o Servo Sofredor, que morreu na cruz, implica em identificar-se com ele em todos os aspectos, não apenas na glória de sua ressurreição, mas também na dor de seu sofrimento na cruz. Paulo enfatiza essa realidade ao afirmar que ao cristão foi concedida a graça não apenas de crer em Cristo, mas também de padecer por Ele (Fp 1.29). Ele exorta os crentes a permanecerem firmes na fé, mostrando que é através de muitas tribulações que entramos no reino de Deus (At 14.22).
Ao longo da história, a Igreja enfrentou perseguições severas. Como os cristãos primitivos poderiam acreditar que Deus os pouparia da Grande Tribulação quando eles próprios eram vítimas de crueldades e sofrimentos, muitas vezes morrendo por amor a Cristo aos milhares? Os primeiros séculos da era cristã são conhecidos como a Era dos Mártires. O Apóstolo Paulo não oferece ilusões de escape ao sofrimento; pelo contrário, ele desafia os cristãos de Roma ao declarar: "Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo; fomos considerados como ovelhas para o matadouro. Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou" (Rm 8.35-37). Paulo ainda afirma que "todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos" (2 Tm 2.12). O livro de Apocalipse é uma fonte de conforto e encorajamento para os cristãos que enfrentam tribulações (Ap 1.9; 2.3-13; 6.9s; 7.9-17; 11.1-10; 12.11, 17; 13.7,8; 14.1-5,13).
Uma Perspectiva Bíblica sobre a Tribulação e a Perseverança da Igreja Muitos textos bíblicos destacam a realidade do sofrimento cristão e sua relevância para a fé e a perseverança dos crentes, reforçando a ideia de que a Igreja enfrentará tribulações e não será isentada das dificuldades do mundo, incluindo a Grande Tribulação.
Apocalipse: Diversos versículos (1.9; 2.3,9,10,13; 6.9; 7.9-17; 12.11,17; 13.7,8; 14.1-5,13; 16.15; 22.14) mostram os cristãos enfrentando perseguições, sendo fiéis até a morte e recebendo consolação e recompensa de Deus. Isso ilustra que a perseverança na fé, mesmo sob perseguição, é central na experiência cristã.
2 Timóteo: Passagens como 1.8,12; 2.3,12; 3.12 reforçam a ideia de sofrer pelo evangelho e a promessa de reinar com Cristo se perseverarmos, apontando para a realidade de tribulações como parte da jornada cristã.
Mateus: Em 5.11,12; 10.16,22,24,25,28-33,38-39; 22.2-6, Jesus prepara seus seguidores para a perseguição, enfatizando que sofrer por sua causa é motivo de recompensa, não de desespero.
Efésios: Em 3.13 e 6.12, Paulo fala sobre não desanimar nas tribulações e sobre a luta espiritual contra as forças do mal, contextualizando o sofrimento dentro do conflito espiritual mais amplo.
Filipenses: Em 1.21,28,29; 3.10, Paulo destaca o valor de sofrer por Cristo e conhecer a comunhão de seus sofrimentos como parte essencial da vida cristã.
2 Tessalonicenses: Em 1.4,5, Paulo elogia os tessalonicenses por sua perseverança e fé nas perseguições, mostrando como o sofrimento fortalece a esperança cristã.
1 Pedro: Nos capítulos 1.6,7; 3.14,17; 4.1,12-19, Pedro encoraja os crentes a regozijarem-se no sofrimento por Cristo, pois isso prova sua fé e os prepara para a glória futura.
Outros textos: Em João 15.18-20; 16.33, Jesus adverte que os discípulos enfrentarão oposição. Atos 14.22; Romanos 8.17-39; 12.12,15; 5.3; Hebreus 11.35-40; 12.2-3; Salmo 34.19; Tiago 1.2-4,12; 5.7-11; 1 Tessalonicenses 1.6; 3.4; 2 Coríntios 1.3-10; 2.4; 4.7,8,11,17; 5.4; 7.4; 8.2; 11.23-27 ressaltam a importância de suportar o sofrimento com paciência e fé, vendo-o como parte do caminho para a maturidade e a vitória final em Cristo.
Esses textos coletivamente mostram que o sofrimento e a tribulação são esperados para a Igreja e não uma exceção, apoiando a ideia de que a Igreja estará presente durante tempos difíceis, incluindo a Grande Tribulação.
O martírio não é derrota Alguns pré-tribulacionistas sugerem que os "santos" mencionados em Apocalipse 13 não representam a Igreja, argumentando que esses "santos" serão derrotados pela Besta. No entanto, interpretar o martírio como derrota não está em linha com o cerne do Evangelho. Na verdade, foi através do martírio que Jesus triunfou sobre Satanás: "e, tendo despojado os poderes e as autoridades, fez deles um espetáculo público, triunfando sobre eles na cruz" (Cl 2.15; ver também Jo 12.32; 19.30; At 2.23 e 24).
Portanto, a morte não foi capaz de vencer Cristo e, igualmente, não prevalecerá contra a Igreja. Como demonstrado em 1 Coríntios 15.55-57, onde é questionado "Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?", e a vitória sobre a morte é atribuída a Cristo. Ademais, em Mateus 16.18, Jesus assegura que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela [a Igreja]". Além disso, Romanos 8.37 afirma que, "em todas estas coisas, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou", reforçando que diante de todas as adversidades, incluindo a morte, os cristãos triunfarão.
Para os cristãos, como Paulo, sofrer por Cristo é um privilégio inigualável! O que para os não crentes é sinal de destruição e derrota, para nós é motivo de vitória e honra: "sem de forma alguma deixar-se intimidar por aqueles que se opõem a vocês. Para eles isso é sinal de destruição, mas para vocês, de salvação, e isso da parte de Deus; pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele" (Fp 1.28-29).
A narrativa dos mártires em Apocalipse é intensa e interligada, destacando sua devoção a Cristo até o sacrifício supremo de suas vidas. As almas dos mártires, apresentadas no céu, jamais são descritas como derrotadas, mas como aqueles que, pelo sangue do Cordeiro, triunfaram sobre a Besta e contra toda a oposição (Apocalipse 12.11). Elas demonstram consciência ativa, clamando por justiça (Apocalipse 6.9-11), entoando louvores a Deus e ao Cordeiro (Apocalipse 7.9-10), recebendo consolo (Apocalipse 7.17), servindo ao Senhor continuamente (Apocalipse 7.15) e vivendo e reinando com Cristo (Apocalipse 20.4) em uma existência plena de significado e recompensa celestial.
Apocalipse 2.10
– Onde a igreja em Esmirna é encorajada a ser fiel até a morte para receber a coroa da vida.
Apocalipse 2.13
– Menção de Antipas, "meu fiel mártir", que foi morto em Pérgamo, um lugar onde Satanás habita. Este é um exemplo explícito de um crente que sofreu martírio.
Apocalipse 6.9-11
– As almas dos mártires estão sob o altar, clamando por justiça. Este é um ponto central para entender como os mártires são reconhecidos e consolados no céu.
Apocalipse 7.9-17
– A grande multidão de almas de crentes de todos os povos, tribos, línguas e nações, que são os mártires provenientes da Grande Tribulação, tendo lavado suas vestes no sangue do Cordeiro. Eles cantam louvores, são consolados e servem ao Senhor continuamente.
Apocalipse 12.11
– Os crentes vencem o acusador "pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho, e não amaram as suas vidas até à morte". Este versículo ressalta a disposição dos fiéis em enfrentar o martírio.
Apocalipse 13.7, 15
– evidencia a intensa perseguição dos santos pela besta, onde muitos são martirizados por sua fé. Este episódio ilustra o martírio como um desafio significativo para os crentes, situado dentro do plano soberano de Deus.
“ Foi-lhe permitido, também, que lutasse contra os santos e os vencesse” (Ap 13.7). Este é um tema ecoado por Paulo em Romanos 8.36-37, onde ele afirma: "Por amor de ti, somos entregues à morte todo o dia; fomos considerados como ovelhas para o matadouro." No entanto, Paulo assegura que "em todas estas coisas, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou." Este contexto bíblico reforça a ideia de que, apesar do martírio e da perseguição, nada pode separar os crentes do amor de Deus em Cristo Jesus, conforme afirmado em Romanos 8.38-39. Esta perspectiva sustenta a visão de que o sacrifício dos mártires, embora doloroso, é uma vitória final na jornada da fé.
Apocalipse 17.6
– Babilônia é descrita como embriagada com o sangue dos santos e dos mártires de Jesus, indicando a extensão da perseguição e do martírio.
Apocalipse 20.4
– As almas daqueles que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, que não adoraram a besta nem a sua imagem, vivem e reinam com Cristo. Este texto é crucial para entender o destino e a recompensa dos mártires.
Que honra é poder seguir os passos do Grande Mestre e carregar nossa própria cruz! Como Jesus disse aos seus discípulos: "Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará" (Mt 16.24-25).
A Vinda de Cristo, o Arrebatamento da Igreja e o Dia do Senhor O texto de 1 Tessalonicenses 4.15-18 é central para muitas discussões sobre escatologia, especialmente no que diz respeito ao arrebatamento e à vinda de Cristo. Este trecho descreve vividamente a vinda do Senhor (v.15) e o arrebatamento dos fiéis (v.17), colocando-os em um mesmo evento e momento. O evento é marcado por uma clara manifestação audível: a palavra de ordem do Senhor, a voz do arcanjo e o som da trombeta de Deus; e visível: “descerá dos céus” (v.16), “sobre as nuvens” (v.17). Esses elementos destacam a natureza pública e grandiosa da vinda de Cristo, contradizendo a ideia de um arrebatamento secreto ou separado temporalmente da vinda visível de Cristo.
No capítulo seguinte, Paulo relaciona o arrebatamento descrito anteriormente com o "Dia do Senhor", caracterizando-o como um tempo que virá como "ladrão de noite". Este não é um momento de terror para os crentes, mas um alerta sobre a súbita e inevitável natureza deste dia para aqueles que não estão preparados. O "Dia do Senhor" é, portanto, uma extensão da "Vinda do Senhor", indicando não apenas a reunião dos fiéis, mas também o juízo sobre o mundo. “Irmãos, no que se refere aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu lhes escreva.
Porque vocês sabem perfeitamente que o Dia do Senhor vem como ladrão à noite.
Quando andarem dizendo: “Paz e segurança”, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vêm as dores de parto à mulher que está para dar à luz; e de modo nenhum escaparão.” (1Ts 5.1–3 – NAA).
2 Tessalonicenses 1 reforça a visão da vinda de Cristo como um tempo de alívio para aqueles que são perseguidos e um dia de retribuição para aqueles que perseguem a Igreja. Paulo descreve este evento, de forma vívida, em 2 Tessalonicenses 1.7-10. Ele especifica que Jesus será revelado do céu com seus anjos poderosos (v. 7), trazendo vingança para aqueles que não conhecem Deus e não obedecem ao evangelho (v. 8). Para os fiéis, no entanto, este será um tempo de alívio e glorificação, conforme enfatizado nos versículos 7 e 10, onde Paulo assegura que aqueles que têm sofrido por sua fé serão considerados dignos do Reino de Deus, para o qual também estão sofrendo (v. 5).
No contexto de 2 Tessalonicenses 2, Paulo esclarece uma questão perturbadora entre os tessalonicenses: a preocupação com alegações de que o Dia do Senhor já havia ocorrido (V.2). Este capítulo é essencial para compreender a cronologia e a natureza dos eventos que precedem a segunda vinda de Cristo, que é marcada tanto pela consolação para os fiéis quanto pelo julgamento dos perseguidores (2 Ts 1.6-10).
Inicialmente, Paulo refuta os boatos de que o dia do Senhor já tinha acontecido e reafirma o ensino que ele já havia transmitido em sua primeira carta aos tessalonicenses (1 Ts 4.13-18; 5:1-11). Ele tranquiliza os fiéis, enfatizando que dois eventos significativos devem ocorrer antes do arrebatamento: a apostasia e a revelação do Homem da Iniquidade (2 Ts 2.3-4).
Jesus também alertou sobre sinais que antecederiam a Sua Segunda Vinda. Dois deles se assemelham às descrições feitas por Paulo aqui. Apostasia: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará" (Mt 24.12; cf. 1Tm 4.1). E, embora, a figura específica do "Homem da Iniquidade" como tal não seja diretamente mencionada nos relatos do Evangelho, o conceito de uma liderança opressiva e antagonista pode ser inferido das descrições de Grande Tribulação e enganos promovido por um tirano denominado: "abominação da desolação” (Mt 24.15). De modo que os ensinamentos de Paulo não introduzem sinais novos, mas reforçam e expandem o entendimento dos sinais previamente relatados por Jesus nos Evangelhos.
Alguns pré-tribulacionistas interpretam o substantivo grego " ἀ ποστασία" (apostasia), comumente traduzido como "apostasia", sugerindo que ele deveria ser entendido como "partida", referindo-se ao arrebatamento. Portanto, eles propõem que 2 Tessalonicenses 2.3 indica que o Dia do Senhor não ocorrerá até que o arrebatamento aconteça primeiro. Contudo, essa interpretação é logicamente contraditória. De acordo com essa perspectiva, Paulo estaria dizendo que nossa reunião com Ele (o arrebatamento) não aconteceria antes da "apostasia" (que eles também entendem como arrebatamento). Isso implicaria, segundo essa interpretação, que o arrebatamento não aconteceria antes do próprio arrebatamento, o que é claramente incoerente. A interpretação tradicional e mais amplamente aceita de " ἀ ποστασία" como "apostasia" se refere a um afastamento ou rebelião, não a uma "partida" no sentido de arrebatamento. Além disso, em 1 Timóteo 4.1, Paulo claramente trata a apostasia como uma deserção da fé, que é um sinal dos tempos finais, afirmando: "O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a ensinos de demônios". Esta passagem reforça que a apostasia é uma renúncia à fé, e não um evento de reunião com Cristo.
Paulo enfatiza que a manifestação do Homem da Iniquidade será um precursor direto do retorno visível de Cristo. Este antagonista será derrotado pelo próprio Senhor Jesus, que o "matará com o sopro de sua boca e o destruirá com a manifestação de sua vinda" (2 Ts 2.8, cp. 2 Ts 1.6-10).
O apóstolo Paulo ensina que a Segunda Vinda de Cristo e nossa reunião com Ele, que ocorrerá através do arrebatamento quando nos encontraremos com o Senhor nos ares (1Ts 4.16,17 cf. 2Ts 2.1-3), não se dará antes da apostasia e da revelação do homem da iniquidade, o filho da perdição, que se opõe e se exalta sobre tudo o que é chamado de Deus, ou objeto de culto, a ponto de se assentar no santuário de Deus, proclamando-se como Deus (2Ts 2.3b,4). É importante ressaltar que até mesmo os pré-tribulacionistas ensinam que o Homem da Iniquidade será revelado durante o período da Grande Tribulação. Dessa forma, o apóstolo assegura que a Segunda Vinda de Cristo e nosso encontro com Ele (o arrebatamento) só ocorrerão após a revelação do "homem da iniquidade", tornando claro que o arrebatamento não pode ocorrer antes da Grande Tribulação.
Ao analisarmos conjuntamente os textos de 1 Tessalonicenses 4.13-17, 5:1-11, 2 Tessalonicenses 1.6-10, e 2.1-12, obtemos uma visão integrada e coerente sobre a vinda do Senhor, o arrebatamento dos fiéis e o Dia do Senhor. Essas passagens delineiam uma perspectiva que entrelaça esses eventos como aspectos distintos, porém intrinsecamente conectados, de um único acontecimento escatológico global.
A Vinda do Senhor é apresentada como um evento visível e portentoso, com um significado duplo: ela constitui o Dia de Cristo, quando os fiéis serão arrebatados para se encontrarem com o Senhor nos ares (1 Ts 4.17), e simultaneamente marca o Dia do Senhor, destinado ao julgamento e à completa destruição do Iníquo, assim como à condenação de todos os inimigos de Cristo e dos que perseguem Sua Igreja (2 Ts 1.6-10; 2:8).
Dessa forma, Paulo não apenas vincula o arrebatamento à vinda de Cristo, mas também esclarece que ambos são componentes do "Dia do Senhor"—um período marcado por julgamento divino e consolação para os crentes. Esta visão integrada contradiz a ideia pré-tribulacionista de uma separação temporal significativa entre o arrebatamento secreto e a vinda visível de Cristo. Ao invés disso, a visão paulina apresenta uma sequência de eventos que são visíveis, interconectados e culminam no estabelecimento do reino de Deus.
Essa interpretação proporciona uma compreensão mais completa e contextualizada dos ensinamentos de Paulo sobre os eventos finais, oferecendo aos fiéis um quadro mais claro do que esperar no fim dos tempos.
O ensino de Paulo está em perfeita harmonia com o ensino de Cristo, conforme Cristo claramente prenunciou que Sua Segunda Vinda, bem como o encontro subsequente com Ele, ocorrerá "logo após a tribulação daqueles dias" conforme Mateus 24.29. Tanto Jesus quanto Paulo defendem uma perspectiva pós-tribulacionista. Os tessalonicenses, por sua vez, não esperavam um arrebatamento que os livrasse da Grande Tribulação, uma vez que compreendiam que a tribulação faz parte do desígnio divino para os cristãos: "para que ninguém se abale por estas tribulações; porque vós mesmos sabeis que para isso fostes chamados", conforme expresso em 1 Tessalonicenses 3.3, bem como nos versículos subsequentes e em 2 Tessalonicenses 1.4-7.
Jesus também alertou sobre as adversidades que seus seguidores enfrentariam, conforme registrado em João 15.18, 20-21 e 16.1-2, 33: "Se o mundo vos odeia, lembrem-se de que antes odiou a mim. Lembrem-se da palavra que eu disse: o servo não é maior que o seu senhor. Se me perseguiram, também perseguirão a vocês… Mas tudo isso eles farão por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou. Eu lhes disse estas coisas para que não se escandalizem. Eles os expulsarão das sinagogas; e chegará a hora em que quem os matar pensará estar prestando culto a Deus… Eu lhes disse isso para que em mim vocês tenham paz. No mundo vocês terão aflições, mas tenham coragem; eu venci o mundo." Estas palavras sublinham a inevitabilidade da perseguição para os seguidores de Cristo, oferecendo, ao mesmo tempo, conforto e encorajamento, e reafirmando a vitória final de Jesus sobre as adversidades do mundo.
Se sabemos que a ressurreição dos mortos precederá, mesmo que em um instante, o arrebatamento (1Ts 4,16-17). E se também sabemos que a ressurreição ocorrerá apenas no último dia (Jo 6.39, 40, 44, 54; 11.24)! Então, podemos concordar que o arrebatamento ocorre no último dia, não sete anos antes, como ensinam os pré-tribulacionistas. O Último Dia também é o Dia da última trombeta. Apocalipse afirma que quando o sétimo anjo tocar a sua trombeta, haverá vozes fortes no céu, proclamando: "O reino do mundo tornou-se de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre" (Ap 11.15); em seguida, um sinal extraordinário aparecerá no céu (Ap 12.1)! Portanto, após o toque da última trombeta, não haverá Grande Tribulação, mas a plenitude do Reinado de Cristo! E, após o toque da última trombeta, não haverá nenhum evento secreto, mas a aparição gloriosa do Filho de Deus, vindo sobre as nuvens do céu como Rei dos reis e Senhor dos senhores (Ap 19.16).
Interpretando Apocalipse 3.10 Um argumento frequentemente utilizado por pré-tribulacionistas para defender que a Igreja será poupada da Grande Tribulação é baseado em Apocalipse 3.10: "Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei (tereo) da (ek) hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra." No entanto, Erickson apresenta uma exegese profunda deste texto, destacando o significado primário da preposição ek, que é "sair de dentro". Segundo essa interpretação, para a Igreja emergir de dentro da hora do teste, ela deve ter estado presente durante esse teste. Isso é similar ao que ocorre em Apocalipse 7.14, onde os mártires saem "da (ek) grande tribulação". Erickson questiona por que João não utilizou a preposição apo em Apocalipse 3.10, que poderia sustentar uma leitura pré-tribulacionista.
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Erickson também analisa o verbo tereo em Apocalipse 3.10, que geralmente significa "guardar" em contextos de perigo. Se a Igreja já estivesse no céu, conforme argumenta o pré-tribulacionismo, qual seria então o perigo que necessitaria da proteção divina? Essa análise sugere que a interpretação pré-tribulacionista pode não estar alinhada com o uso linguístico e contextual dos termos usados no versículo.
Em João 17.15, encontramos um exemplo claro de como Deus guarda Seu povo em meio ao perigo sem necessariamente removê-lo da situação adversa. Jesus orou usando a preposição "ek" e o verbo "tereo", dizendo: "Não peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal." Este versículo ilustra que é possível ser preservado do mal sem ser removido do contexto em que este mal existe. Um exemplo bíblico disso é o povo hebreu, que foi guardado das pragas no Egito, apesar de estar fisicamente presente onde as pragas ocorreram; eles não foram removidos ou arrebatados do Egito para receberem proteção.
Essa mesma ideia é reforçada em 2 Pedro 2.9, onde se afirma que "o Senhor sabe livrar da provação os piedosos", utilizando novamente a preposição "ek". Este texto indica que Deus protege os piedosos no meio das provações, e não necessariamente os remove do ambiente onde as provações ocorrem. Eles são guardados e protegidos mesmo estando expostos às circunstâncias desafiadoras.
Além disso, é essencial distinguir entre a "ira de Deus" e a "perseguição da Besta". Embora as Escrituras afirmem claramente que seremos protegidos da ira divina, como mostram passagens como 1 Tessalonicenses 1.9-10 e 5.9, bem como Romanos 5.9, não há garantia de remoção física das tribulações mundanas ou perseguições. O princípio de ser guardado, conforme evidenciado em João 17.15 e 2 Pedro 2.9, sugere que Deus pode oferecer proteção em meio às adversidades, sem necessidade de um arrebatamento físico.
Jesus, ao interpretar as Setenta Semanas de Daniel (Daniel 9), profetizou em Mateus 23, Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21 sobre a Queda de Jerusalém, a destruição da cidade e do templo, e a dispersão dos judeus como resultado de sua constante rebelião contra Deus. Ele destacou que eles mataram os profetas e aqueles que Deus enviou, incluindo o próprio Cristo. Jesus afirmou que tal juízo ocorreria ainda naquela geração (Mateus 23.36), e isso se concretizou com o cerco do exército romano, que durou anos, culminando na invasão e destruição da cidade e do templo em 70 d.C.
Como esse juízo se destinava apenas aos infiéis da cidade, Jesus advertiu seus discípulos a fugirem ao primeiro sinal da aproximação do exército romano (Mateus 24.16; Lucas 21.21). Assim, a Igreja, de modo geral, foi poupada da Grande Tribulação que se abateu sobre Jerusalém.
Por outro lado, o Apocalipse descreve uma Grande Tribulação de caráter universal, não restrita a Jerusalém ou ao povo judeu (Apocalipse 7.9-14). Os cristãos de todas as nações, povos, tribos e línguas enfrentam não a ira dos justos juízos de Deus, mas a perseguição da Besta e de todos os inimigos de Deus (Apocalipse 13.7). Portanto, trata-se de uma outra espécie de Grande Tribulação. A tribulação de Jerusalém já se cumpriu completamente. O termo agora adquire uma nova conotação. A Igreja não sofre a Ira de Deus, mas está sujeita a perseguição impetrada pela Besta e por todos os opositores de Cristo. Mas tudo, debaixo da soberana vontade de Deus que vive e reina sobre tudo e todos.
Essa compreensão é crucial para uma teologia que reconhece a presença constante e protetora de Deus, mesmo quando Seus seguidores enfrentam tempos de grande tribulação e adversidade. Ela reafirma a promessa de que, embora possamos estar no mundo, não estamos desamparados diante do mal que nos rodeia.
A Ira de Deus e o Dia do Senhor A Igreja não está destinada à ira de Deus. A ira divina é caracterizada como um justo julgamento sobre toda impiedade, conforme descrito em Romanos 1.18, e referenciada como "O Dia da Ira" em Romanos 2.5 e simplesmente "a Ira" em Efésios 5.6. Estes termos são também conhecidos como "O Dia do Senhor", citado em Isaías 13.9, Joel 2.1-11, 1 Tessalonicenses 5.2 e 2 Tessalonicenses 2.2. Este dia é descrito como um período de julgamento final onde, segundo Isaías 13.8-11, ocorrerá uma devastação extrema da terra, um escurecimento dos corpos celestes, e um julgamento severo sobre os pecadores por suas iniquidades.
É crucial entender que qualquer tentativa de separar "O Dia do Senhor" de "O Dia de Cristo" e atribuir diferentes programas escatológicos para Israel e para a Igreja é problemática. No Novo Testamento, a identificação de Jesus como o Senhor (conforme Filipenses 2.11 e Romanos 10.9) unifica essas concepções. George Ladd destaca que tanto a vinda de Cristo para reunir Seu povo—vivos e mortos—em 1 Tessalonicenses 4.13-17 quanto Sua vinda para julgar os ímpios em 2 Tessalonicenses 2.2 são referidas como "O Dia do Senhor". Assim, para os cristãos do Novo Testamento, não há distinção escatológica que separe o julgamento divino destinado a Israel e à Igreja; ambos estão integrados na soberania e no senhorio de Cristo.4 Em 1 Tessalonicenses 5.9, Paulo destaca claramente: "Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo". Aqui, Paulo contrasta "Ira" com "Salvação", indicando que os salvos em Cristo estão isentos da condenação do Juízo Final, o que é corroborado em diversas outras passagens, incluindo Romanos 2.5, 5:9; Efésios 5.6; Colossenses 3.6; e Apocalipse 14.10 e 19.15. A promessa de "nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8.1) e a advertência de que "quem rejeita o Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele" (João 3.36) reforçam essa verdade.
No entanto, essa garantia de isenção da ira divina não implica uma isenção das tribulações. De fato, a Bíblia ensina que a Igreja enfrentará tribulações. Textos como 1 Pedro 2.20-21; Atos 14.22; João 16.33; Romanos 8.18, 23, 35, 36; e 2 Coríntios 8.2 enfatizam que os crentes passarão por adversidades. Jesus mesmo avisou Seus discípulos das tribulações que enfrentariam por causa dEle, como destacado em Mateus 24.9, onde diz que eles seriam perseguidos e odiados por todas as nações.
Adicionalmente, Apocalipse 7.14 descreve os que emergem "da grande tribulação" como aqueles que "lavaram as suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro", ilustrando que, mesmo em meio a grandes provações, existe a possibilidade de vitória e purificação. Tiago, por sua vez, exorta os fiéis a perseverarem na provação, pois após serem aprovados, "receberão a coroa da vida, que Deus prometeu aos que o amam" (Tg 1.12).
Portanto, enquanto 1 Tessalonicenses 5.9 nos assegura que não estamos destinados à ira divina, outras passagens reiteram que as tribulações são parte do caminho cristão, um meio de testar e refinar a fé dos seguidores de Cristo.
O Arrebatamento não será secreto Não existe fundamento bíblico para a ideia de que haverá incertezas sobre a identidade de Jesus ou sobre a realidade de Sua vinda quando Ele retornar. A Segunda Vinda de Cristo e o consequente arrebatamento da Igreja são consistentemente retratados nas Escrituras como eventos abertos e evidentes, nunca como secretos ou silenciosos.
Um evento retumbante:
“grande clangor de trombeta” (Mt 24.31; 1 Ts 4.16,17); “assim como o relâmpago” (Mt 24.27); "bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror… pois os poderes dos céus serão abalados" (Lc 22.25-28)
“Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados” (2 Pe 3.10; ver também v.12); Um evento visível:
“assim virá do modo como o vistes subir” (At 1.11); “aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem” (Mt 24.30); “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele.” (Ap 1.7; ver também 19.11-21; Mt 26.64; Mc 14.62 e Dn 7.13); “pela manifestação de sua vinda” (2Ts 2.8); “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas… bramido do mar e das ondas; haverá homens que desmaiarão de terror… pois os poderes dos céus serão abalados. Então se verá o Filho do homem vindo numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima.” (Lc 22.25-28; ver também Mc 8.38); “aparecerá segunda vez” (Hb 9.28); “Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os elementos se desfarão abrasados” (2 Pe 3.10; ver também v.12); Paulo diz que nós os cristãos não estamos aguardando um evento secreto não visto pelo mundo, pois o que nós aguardando é “a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo” (Tt 2.12; ver também Cl 3.4 e 1 Pe 5.4; 1 Jo 3.2; Mt 16.27; 25.31; 1 Co 4.5; 1 Tm 4.1; Jd 14,15; 1 Co 1.7; 2Ts 1.7,8).
Além disto, nenhuma das três palavras gregas usadas no Novo Testamento para descrever a Segunda Vinda de Cristo favorece a idéia de um arrebatamento secreto, pois todas apontam para algo visível e manifesto: parousia, apokalypsis e epiphaneia.
O pré-tribulacionismo: Uma doutrina recente sem fundamentos bíblicos ou apoio nos escritos da Igreja Primitiva O pré-tribulacionismo é uma doutrina relativamente recente que não encontra respaldo nos escritos da Igreja Primitiva. Não há registros de apoio a essa perspectiva em textos dos primeiros séculos, nem em escritos posteriores, até 1830, quando Darby formulou a teoria, provavelmente tomando por base uma visão de Margaret McDonald, uma profetiza da Igreja Católica Carismática. Pelo contrário, diversos textos antigos corroboram que o ensino original do cristianismo previa que a Igreja enfrentaria a Grande Tribulação. George E. Ladd, após estudar o período patrístico, afirmou: “Cada pai da Igreja que trata do assunto prevê que a Igreja sofrerá às mãos do Anticristo”
[2].
Até mesmo Walvoord, destacado representante do dispensacionalismo, reconheceu que o "pré-tribulacionismo", isto é, uma vinda de Cristo antes da Grande Tribulação da Igreja, não é explicitamente ensinado nas Escrituras [3]. Ladd complementa essa visão, destacando que a verdadeira esperança cristã não é um evento secreto, mas o aparecimento visível da glória de Deus no retorno de Cristo (Tt 2.13), e a revelação ao mundo de Jesus como Senhor, quando Ele vier com os anjos do Seu poder (2Ts 1.7).
Conclusão
Portanto, não há fundamentos bíblicos que apoiem a ideia de que a Igreja será isenta da Grande Tribulação. Pelo contrário, diversos textos bíblicos evidenciam que a Igreja enfrentará esse período desafiador. A análise histórica até o surgimento do dispensacionalismo em 1830 apresenta uma perspectiva claramente pós-tribulacionista, sem qualquer registro nos quase dois mil anos de história da Igreja que endosse a visão pré-tribulacionista de um arrebatamento secreto para eximir a Igreja da Grande Tribulação.
Dessa forma, concluímos que a Igreja não apenas passará pela Grande Tribulação, mas em muitos lugares e em diversos momentos, já tem vivenciado aspectos dela. Além disso, Apocalipse 20 descreve a soltura de Satanás, que promoverá um grande levante contra a Igreja no último capítulo da era presente. Essa intensa ofensiva satânica contra os discípulos de Cristo nos últimos tempos é reforçada por Apocalipse 12.12, que adverte: “ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta”.
Adicionalmente, 2 Tessalonicenses 1 e 2 descrevem a perseguição que a Igreja enfrentará e a vinda do Senhor para destruir o homem da iniquidade e todos os que perseguem a Igreja. Essas passagens, juntamente com todas as demais mencionadas neste estudo, reiteram que a Igreja estará presente durante os momentos críticos da história humana, testemunhando e enfrentando as forças da iniquidade até o triunfal retorno de Cristo.
[1]
Erickson, J. Millard – Opções Contemporâneas Na Escatologia – Ed. Vida Nova – 1a ed. SP, 1982, p. 126.
[2]
Ladd, George, “A teologia do Novo Testamento”, JUERP, 1993, p. 513).
[3]
J. Walvoord, The Rapture Question (1957) ,p. 148, Apud Ladd, George “Teologia do Novo Testamento. JUERP, 1993, p. 514.
Conclusões sobre Questões Tribulacionistas+
Por José Ildo Swartele de Mello
O que ficou demonstrado sobre o pré-tribulacionismo
No tratamento que demos as questões tribulacionistas, concluímos que o pré-tribulacionismo se baseia numa interpretação ultraliteralista das Escrituras que faz uma dicotomia rígida e absoluta entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento, chegando a ponto de concluir que a Igreja é um parêntese no plano de Deus, que não foi previsto nas Escrituras do Antigo Testamento. Procuramos, no entanto, demonstrar que o Novo Testamento vê as profecias do Antigo Testamento encontrando seu cumprimento em Cristo e sua Igreja. Pois a Igreja Cristã foi edificada sobre o fundamento dos profetas e dos apóstolos judeus (Ef 2.14-16). Ela não constitui um segundo povo de Deus. Deus tem apenas um povo (Jo 10.16; Ef 2.14-16). Os gentios crentes foram enxertados na mesma “Oliveira”, tomando parte na mesma raiz e tronco do hebreu Abraão (Rm 11.16-18). Não existindo, portanto, um plano de salvação distinto para Israel. A esperança futura para Israel é aceitar o Evangelho de Cristo, sendo novamente reconduzido à mesma e única Árvore, a Oliveira, da qual fazem parte judeus e gentios crentes, o Corpo de Cristo, que é a Igreja, onde não há mais lugar para distinções entre judeus e gentios, pois, em Cristo foi derrubada a parede de separação.
Vimos também que não existe nenhuma base bíblica para ensinar que a Igreja não passará pela Grande Tribulação. No entanto, como demonstrado, existem dezenas de textos que ensinam que a Igreja passa pela Grande Tribulação. Todos os registros históricos até o advento do dispensacionalismo (1830) revelam um ponto de vista pós-tribulacionista, não existindo sequer um único texto neste longo período de quase dois mil anos de história da Igreja que registre a idéia pré-tribulacionista de um arrebatamento secreto para livrar a Igreja da Grande Tribulação. E vimos também que os textos usados pelos dispensacionalistas para ensinar a natureza iminente da Vinda de Cristo não podem ser interpretados neste sentido, visto que estes mesmos textos não poderiam ter sido interpretados neste sentido por seus primitivos destinatários. Concluímos que a Segunda Vinda de Cristo será um evento único e visível, em que ele virá sobre as nuvens dos céus com poder e glória; momento este em que se dará o arrebatamento da Igreja, que, como foi demonstrado, não tem nada de secreto. A única coisa que se mantém em segredo é a questão relacionada ao dia e a hora em que Cristo regressará. O que serve também para refutar aqueles conceitos mid-tribulacionistas que coincidem com os do pré-tribulacionismo, a saber, arrebatamento secreto e Segunda Vinda em Duas fases. Concordamos com o a distinção que o Mid-tribulacionista faz entre “ira de Deus” e “perseguição da Besta” e concordamos que a Bíblia ensina que seremos protegidos da ira de Deus (1 Ts 1.9-10; 5.9; Rm 5.9), mas não existe razão para crer que tal proteção se dará através de um arrebatamento, pois Deus não precisou arrebatar o povo de Israel do Egito quando enviou as pragas. Deus protegeu o seu povo dentro da esfera de perigo. Ensinar que a Igreja será arrebatada juntamente com o Espírito Santo reduz tanto o papel da Igreja quanto o papel do Espírito Santo na história da redenção da humanidade, além de produzir escapismo.
E demonstramos também que não existe nada no texto de Daniel que indique algo como um intervalo ou paralisação do relógio profético. Vimos que tais profecias de Daniel são hoje mais história, do que profecias apocalípticas a respeito de dias ainda futuros, pois a Grande Tribulação de caráter judaico com a queda de Jerusalém, profanação e destruição do templo pelo abominável da destruição de que falou o profeta Daniel, General Tito, cumprindo a profecia de Daniel e a do próprio Jesus em Mt 23 e 24. O que não significa dizer que não mais haverá Grande Tribulação, pois após a queda de Jerusalém, temos os escritos de João que falam a respeito de uma Grande Tribulação de caráter cristão que já estava em andamento naquela época, algo não mais circunscrito a Jerusalém, mas de âmbito universal, não mais como um juízo de Deus em relação a infidelidade do povo de Israel como o foi no caso da primeira e da segunda queda de Jerusalém nos anos 586 AC e 70 DC, respectivamente, mas neste caso, agora, seria uma Grande Tribulação produzida pelo ódio dos inimigos de Jesus e de sua Igreja (Ap 6.9s e 7.9s). O apóstolo João não falava apenas de um anticristo, mas de vários, dizendo que, já em seu tempo, muitos anticristos haviam surgido (1 Jo 2.18; 4.3; 2 Jo 1.7). Interessante observar que não há nenhuma menção ao anticristo no livro de Apocalipse. Existe apenas 4 menções ao(s) anticristo(s) nas duas primeiras Epístolas de João como uma clara referências aos hereges gnósticos cristãos que negavam que Cristo veio em carne.
Por que o arrebatamento secreto não se sustenta
Se o pré-tribulacionismo estivesse com razão ao ensinar que a Igreja será arrebatada antes do surgimento do anticristo, seríamos forçados a concluir, por exemplo, que o próprio João não foi arrebatado com a Igreja, pois João reconhecia a presença e a atividade do anticristo em seus dias.
Paulo afirma que a batalha entre as forças do Homem da Iniquidade e as forças da Igreja de Cristo irá perdurar até o Dia do Senhor, quando ele destruirá o Homem da Iniquidade com o sopro de sua boca (2 Ts 2.8).
Conclusão
Sendo assim, concluímos que a Igreja não só passará pela Grande Tribulação como já passou e, em muitos lugares e sentidos, tem passado por ela. E, baseados em Ap 20, podemos também concluir que haverá uma feroz investida satânica contra os discípulos de Cristo no final dos tempos, o que concorda também com o texto de Ap 12.12, que diz “ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta”. Ainda sobre as 70 Semanas de Daniel, concluímos que Jesus veio como Rei de Israel e estabeleceu a nova aliança que fora profetizada por Jeremias. Jesus foi e é a única esperança de Israel. Na sua primeira vinda, Cristo cumpriu todos os seis objetivos da visão das 70 Semanas de Daniel. A Segunda Vinda de Cristo não será o início da septuagésima semana de Daniel, mas, sim, a consumação final.
2 Tessalonicenses 2. É base para o pré ou o pós tribulacionismo?+
2 Tessalonicenses 2 é base para o pré-tribulacionismo?
Com base em uma leitura cuidadosa, contextual e integrada das cartas paulinas aos Tessalonicenses — considerando aspectos lexicais, teológicos e históricos — podemos afirmar com segurança que 2 Tessalonicenses 2 não apoia o pré-tribulacionismo. Pelo contrário, refuta claramente essa interpretação, mostrando que a Igreja ainda estará presente durante a apostasia e a revelação do Anticristo.
1. A unidade entre a Parusia e a reunião dos santos (2Ts 2.1)
“Quanto à vinda (parousia) de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião (episynagōgē) com ele…" Paulo menciona dois aspectos de um mesmo evento escatológico: a volta gloriosa de Cristo (Parusia) e o ajuntamento dos crentes com Ele (arrebatamento).
Essa linguagem remete diretamente a 1 Tessalonicenses 4.15–17, onde ocorre a ressurreição dos mortos em Cristo e o arrebatamento dos vivos, juntos para encontrar o Senhor nos ares. Não há qualquer indício de uma vinda em duas etapas ou de um arrebatamento secreto anterior.
Além disso, o mesmo termo grego episynagōgē, traduzido por “reunião” em 2Ts 2.1, também aparece em Mateus 24.31, onde Jesus afirma que, por ocasião de sua vinda visível e gloriosa — que abalará céus e terra (Mt 24.29-30) — Ele enviará seus anjos com grande som de trombeta para reunir os seus escolhidos dos quatro ventos. Trata-se, portanto, do mesmo evento: o arrebatamento que ocorre no Dia do Senhor, na manifestação pública de Cristo, e não antes dela.
Conclusão: a reunião com Cristo ocorre na Parusia, não antes dela.
2. A falsa ideia de que o "Dia do Senhor" já havia chegado (2Ts 2.2)
Os tessalonicenses estavam perturbados não por medo de perder o arrebatamento, mas pela ideia errada de que o Dia do Senhor já havia chegado. Paulo, então, esclarece:
"Ninguém de modo nenhum os engane, porque isso não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja revelado o homem da iniquidade…" (2Ts 2.3)
Antes da Parusia e da reunião com Cristo, dois eventos devem ocorrer:
A apostasia (rebelião contra Deus); A revelação do Anticristo (homem da iniquidade).
Se a igreja estivesse ausente, Paulo teria simplesmente dito: "Vocês não estarão aqui". Mas ele os prepara para enfrentar esses sinais.
3. Apostasia não é o arrebatamento
O termo grego apostasia significa abandono ou revolta, e jamais significa partida física no grego bíblico ou clássico. Exemplos:
At 21.21: abandono da Lei; 1Tm 4.1: apostatar da fé; Jr 2.19 LXX: infidelidade de Israel.
Conclusão: interpretar "apostasia" como arrebatamento é forçar o texto, invertendo a ordem dos eventos apresentada por Paulo.
4. O Anticristo é revelado
antes da Parusia (2Ts 2.3–8)
O homem da iniquidade:
Se opõe a Deus; Se exalta acima de tudo o que se chama Deus; Se assenta no templo de Deus; Opera sinais e enganos.
"Então será revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro da sua boca e destruirá pela manifestação da sua vinda." (2Ts 2.8)
Conclusão:
O Anticristo ainda estará ativo no mundo quando Cristo vier em glória. Portanto, o arrebatamento é simultâneo ou posterior, e não anterior, à manifestação do Anticristo.
5. O "restritor" (katechon) não é o arrebatamento nem o Espírito Santo O pré-tribulacionismo alega que o "restritor" é o Espírito Santo sendo retirado com a igreja. Isso é improvável por vários motivos:
O Espírito Santo é onipresente e não pode ser retirado do mundo; O texto não fala de "arrebatamento", mas de algo sendo "removido do caminho" (ek mesou genetai); Os Pais da Igreja entendiam o katechon como o Império Romano ou a ordem civil que impedia o surgimento da anarquia; Outros sugerem o arcanjo Miguel (cf. Dn 10; Ap 12.7).
Conclusão:
A retirada do restritor é o que permite a revelação do Anticristo, não o arrebatamento da Igreja.
6. A postura pastoral de Paulo contraria o pré-tribulacionismo Se Paulo cresse que a Igreja seria arrebatada antes da tribulação, ele diria: "Vocês não passarão por isso". Em vez disso, ele:
Ensina os sinais a serem observados; Convida os crentes a permanecerem firmes (2Ts 2.15); Consola com a esperança na vinda de Cristo (2Ts 2.16–17).
A expectativa apostólica é de uma igreja vigilante e perseverante, não ausente.
7. O Dia do Senhor: evento, não período
O pré-tribulacionismo transforma o "Dia do Senhor" num período de sete anos (a tribulação), mas Paulo o apresenta como um evento singular, escatológico e definitivo:
1Ts 5.2: Vem como ladrão à noite; 2Ts 1.7-10: Dia da manifestação gloriosa, juízo dos ímpios e glorificação dos santos; 2Ts 2.2: É associado à Parusia e à nossa reunião com Cristo.
Conclusão: o Dia do Senhor é o clímax escatológico, não um período prolongado ou dividido em fases.
8. A reunião com Cristo é o arrebatamento (2Ts 2.1)
A palavra episynagōgē é usada em Hb 10.25 (assembleia) e Mt 24.31 (reunião dos eleitos pelos anjos), descrevendo o ajuntamento final dos salvos.
Esse evento coincide com:
A Parusia (2Ts 2.1); A ressurreição e arrebatamento (1Ts 4.16-17); A vinda em glória (Mt 24.30-31).
9. Conclusão: escatologia paulina é unificada e pastoral
Ponto chave Pré-tribulacionismo Paulo (1–2 Tessalonicenses)
Parusia + arrebatamento Dois eventos distintos Um único evento glorioso Apostasia Arrebatamento Rebelião contra Deus Restritor Espírito Santo + Igreja Ordem civil / Miguel Dia do Senhor Período de tribulação Evento escatológico final Anticristo Após arrebatamento Revelado antes da Parusia Encorajamento pastoral "Vocês não estarão aqui" "Permaneçam firmes" Portanto, 2 Tessalonicenses 2 não sustenta o pré-tribulacionismo, mas o contradiz com clareza.
“Permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas.” (2Ts 2.15)
“E assim estaremos para sempre com o Senhor.” (1Ts 4.17)
As Duas Grandes Tribulações Descritas na Bíblia+
As Duas Grandes Tribulações das Escrituras Sagradas A Grande Tribulação em Mateus 24 (70 d.C.) e a Grande Tribulação Universal em Apocalipse Este estudo tem o objetivo de esclarecer biblicamente a distinção entre duas tribulações mencionadas nas Escrituras: a primeira, histórica e local, ocorrida sobre Jerusalém no ano 70 d.C., e a segunda, futura e universal, relatada no livro de Apocalipse, caracterizada pela perseguição contra a Igreja de Cristo.
1. A Profecia de Jesus sobre Jerusalém
Texto-chave:
“Pois haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá.” (Mt 24.21)
Jesus profetizou explicitamente uma grande tribulação diretamente ligada à destruição de Jerusalém, em cumprimento às 70 semanas de Daniel (cf. Dn 9.24-27). Este evento constituiu-se num juízo divino sobre Israel devido à rejeição do Messias. Jesus lamentou profundamente tal rejeição:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!… Eis que a vossa casa vos ficará deserta.” (Mt 23.37-38)
Essa "casa deserta" refere-se claramente ao Templo e à cidade santa, indicando o fim da era judaica centrada no culto do Templo (cf. Mt 24.1-2; Lc 21.5-6, 20-24).
Jesus anunciou que Jerusalém seria destruída e os judeus dispersos entre as nações, com a cidade sendo pisada pelos gentios até se completarem os tempos deles (cf. Lc 21.24). Tais eventos cumpriram precisamente as profecias de Daniel sobre a destruição causada pela rejeição e morte do Ungido (cf. Dn 9.26).
2. Cumprimento na Geração do Século I
Texto-chave:
“Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam.” (Mt 24.34)
Jesus deixa claro que a manifestação do "Abominável da Desolação" (cf. Dn 9.27; 11:31; 12:11; Mt 24.15), bem como a grande tribulação decorrente disso, culminando na destruição da cidade e do Templo, ocorreriam ainda na geração dos seus ouvintes (cf. Mt 24.2,15,21,34).
Historicamente, essa profecia foi literalmente cumprida no ano 70 d.C., quando o general romano Tito cercou, sitiou e destruiu Jerusalém. Este evento está amplamente documentado pelo historiador Flávio Josefo no livro Guerras Judaicas (Livro VI), que narra detalhadamente a destruição do Templo e a grande mortandade decorrente.
3. O "Abominável da Desolação" e a Ordem de Fuga
Textos-chave:
“Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo… então, os que estiverem na Judeia, fujam para os montes.” (Mt 24.15-16)
“Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos… então os que estiverem na Judeia fujam para os montes…” (Lc 21.20-21)
Jesus identificou o sinal claro para os seus discípulos escaparem: quando Jerusalém fosse cercada pelos exércitos romanos, deveriam fugir imediatamente. Esta instrução reforça o caráter local e histórico desse juízo sobre Jerusalém, permitindo uma fuga literal e física, demonstrando que não se tratava de um sofrimento inevitável para os cristãos daquela época.
4. Contraste com a Grande Tribulação Universal em Apocalipse Texto-chave:
“Estes são os que vêm da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” (Ap 7.14)
A "grande tribulação" de Apocalipse difere radicalmente daquela de Mateus 24. Aqui, não há referência a Jerusalém nem juízo divino sobre Israel. Trata-se, antes, de uma perseguição global promovida pelos poderes malignos contra a Igreja, composta por cristãos de "todas as nações, tribos, povos e línguas" (cf. Ap 7.9-14; 13:7). Neste cenário, não há possibilidade de fuga geográfica, pois a perseguição é universal, inevitável e resulta no martírio dos fiéis a Cristo.
5. A Besta, a Perseguição Final e o Juízo de Deus
Textos-chave:
“Então será revelado o iníquo… o Senhor Jesus o matará com o sopro de sua boca…” (2Ts 2.8)
“Foi-lhe permitido fazer guerra aos santos e vencê-los… autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação.” (Ap 13.7)
Esses textos apontam para uma perseguição global liderada pela Besta contra a Igreja, culminando no retorno de Cristo, quando ele julgará definitivamente os poderes hostis que perseguiram os santos (cf. Ap 19.11-21; Ap 12.17).
6. Resumo das Duas Tribulações
Tribulação de Jerusalém (70 d.C.):
Natureza:
Juízo divino sobre Israel por rejeitar os profetas e o próprio Messias (Mt 23.34-38; Lc 13.34-35; Dn 9.24-27).
Localização:
Jerusalém e Judeia (Mt 24.16-18; Lc 21.20-21).
Conduta:
Jesus disse que os cristãos deveriam fugir para escapar fisicamente desta Grande Tribulação. (Mt 24.15-16; Lc 21.20-21).
Cumprimento:
Naquela geração, conforme profetizado por Jesus (Mt 24.34). Cumprido historicamente no ano 70 d.C., confirmado por relatos históricos de Flávio Josefo.
Grande Tribulação Universal (Apocalipse):
Natureza:
Perseguição global contra todos os cristãos por causa do seu testemunho fiel a Cristo (Ap 7.9-14; 13:7-10).
Localização:
Mundial, abrangendo todas as nações, povos, tribos e línguas (Ap 7.9; 13:7).
Conduta:
Não há fuga possível; os cristãos são perseguidos até a morte, chamados à fidelidade até o martírio (Ap 2.10; Ap 7.9; Ap 13.7-10; Ap 20.4).
Cumprimento:
Futuro, culminando no retorno de Cristo e no juízo definitivo sobre os perseguidores (2Ts 2.8; Ap 19.11-21).
Questões Tribulacionistas – Introdução+
Por 19 séculos de história da Igreja, todos os cristãos, de todas as confissões cristãs, sem nenhuma exceção, eram pós-tribulacionistas, crendo que a Igreja passaria pela Grande Tribulação, e crendo também que a Segunda Vinda de Cristo seria um evento único, visível, que incluía o arrebatamento da Igreja. Já o pré-tribulacionismo surgiu pela primeira vez na história em meados do século XIX com o surgimento do movimento conhecido como dispensacionalismo, que surgiu na Grã Bretanha, através do grupo denominado Irmãos de Plymouth, liderado por John Nelson Darby (1800-1882), que, entre outras coisas, cria e pregava que a Igreja não passaria pela Grande Tribulação e que a Segunda Vinda de Cristo se daria em duas fases: sendo a primeira secreta e invisível para o mundo, restrita ao arrebatamento da Igreja com a remoção do Espírito Santo da face da Terra, depois se seguiria a Grande Tribulação de 7 anos de duração, período em que se daria a conversão de Israel, vindo, depois disto, a segunda fase da Segunda Vinda de Cristo, de modo visível, de maneira gloriosa. Existe também uma versão intermediária denominada mid-tribulacionismo, que combina elementos do pós-tribulacionismo ao afirmar que a Igreja passará pela Grande Tribulação, juntamente com elementos do pré-tribulacionismo, quando ensina que a Segunda Vinda do Senhor se dará em duas fases, sendo que a primeira seria no meio do período da Grande Tribulação. Pois para eles a Igreja sofre a Grande Tribulação promovida pela perseguição do anticristo, mas escapa, através de um arrebatamento da Ira de Deus que, segundo eles entendem, se abaterá sobre a terra na segunda metade da Grande Tribulação.
Neste capítulo, estarei me concentrando em refutar as bases dos argumentos pré-tribulacionistas, por se tratar do ponto de vista predominante no seio da Igreja evangélica latino-americana e por entender também que, à medida que eu for demonstrando a debilidade bíblica do pré-tribulacionismo, estarei também dando uma resposta aos mid-tribulacionistas. Veja abaixo um quadro comparativo entre os três pontos de vista que preparei com intuito de facilitar o entendimento deste debate por parte daqueles que talvez não estejam assim tão familiarizados com o tema:
Tabela comparativa: as três posições tribulacionistas
| Pós-tribulacionismo | Pré-tribulacionismo | Mid-tribulacionismo | |
|---|---|---|---|
| Momento da Segunda Vinda | Após a Grande Tribulação | Antes da Grande Tribulação | No meio da Grande Tribulação |
| A Igreja e a Grande Tribulação | Passa pela Grande Tribulação | Não passa pela Grande Tribulação | Passa, mas é removida antes do derramamento da ira de Deus |
| Arrebatamento | Não é secreto | É secreto | É secreto |
| Fases da Segunda Vinda | Fase única, que inclui o arrebatamento (ambos após a Grande Tribulação) | Duas fases: (1) arrebatamento, antes da Grande Tribulação; (2) vinda manifesta a todos, depois | Duas fases: (1) arrebatamento, no meio da Grande Tribulação (Ap 11.15-18); (2) vinda manifesta, depois |
| Sinais | Sinais antecedem a Segunda Vinda | Vinda iminente; nenhum sinal necessariamente a antecede | Sinais antecedem a Segunda Vinda |
| História da posição | Remonta aos tempos da Igreja primitiva | Origem recente: meados do século XIX, com Darby (dispensacionalismo) | A mais recente de todas: início do século XX |
O caminho da refutação
A seguir passarei a refutar as bases do pré-tribulacionismo, que se baseia numa interpretação literalista das Escrituras que faz uma dicotomia rígida e absoluta entre o Israel do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento, chegando a ponto de concluir que a Igreja é um parêntese no plano de Deus e imprevisto nas Escrituras do Antigo Testamento. O que tem implicações para o conceito do Reino de Deus e da Missão da Igreja, pois os dispensacionalistas entendem que, se Israel tivesse aceitado o Reino oferecido pelo Messias, Jesus teria restaurado e ampliado o Reino político de Israel à semelhança do reinado de Davi, mas com a rejeição, o relógio dos registros das realizações proféticas é paralisado, os cumprimentos proféticos ficam suspensos, o Reino fica adiado até a Segunda Vinda de Cristo, e a Igreja surge como um parêntese neste intervalo da “partida” de Deus com Israel. Partida esta que teria seu reinício com o arrebatamento da Igreja e a remoção do Espírito Santo, que abriria portas para o aparecimento do anticristo e a inauguração de uma nova dispensação, que eles denominam de dispensação da Grande Tribulação. Tudo isto baseado principalmente na crença de que Deus tem dois povos: Israel e a Igreja. Tendo dois planos e destinos distintos, um para cada um de seus dois povos.
Quem ou o que detém a manifestação do Anticristo?+
Questão: Quem ou o que detém a manifestação do Anticristo?
Nesse texto de 2 Tessalonicenses, capítulo 2 (2 Ts 2.6-7), é interessante que o apóstolo Paulo coloca assim: “Vocês não lembram que eu costumava lhes dizer essas coisas quando ainda estava com vocês? E agora vocês sabem o que o detém…”. Aqui, ele não comunica explicitamente o que é, pois os tessalonicenses já tinham essa informação. Isso nos leva a um território um tanto desconhecido para nós, já que eles receberam ensinamentos diretos de Paulo que não estão registrados na carta.
A ideia de que o Espírito Santo é o detentor é propagada pelos pré-tribulacionistas. O problema com essa visão é a noção de “retirada” do Espírito Santo. Como retirar Aquele que é onipresente (Sl 139.7-8)? Além disso, se a Igreja (que é o Corpo de Cristo) e o Espírito fossem removidos, contra quem o Anticristo se oporia? Ele é “anticristo”, mas sem adversários, ele seria anti o que?
Especulação com base bíblica:
A maior probabilidade é que o detentor seja o arcanjo Miguel. Em Daniel 10.13, Miguel auxilia o anjo Gabriel contra o “príncipe da Pérsia” (entidade espiritual maligna). Em Daniel 12.1, Miguel é chamado de “o grande príncipe que protege o povo de Deus”. Em Apocalipse 12.7-9, ele lidera a batalha celestial contra Satanás, expulsando-o do céu. Isso alinha-se com a ideia de um “restritor” ativo contra o mal.
Apoio extrabíblico (fontes secundárias):
* 1 Enoque e 2 Enoque (textos apócrifos) destacam Miguel como restritor das forças caóticas. Embora não canônicos, influenciaram o pensamento judaico-cristão do primeiro século.
Conclusão:
Embora especulativo, o arcabouço bíblico e histórico aponta para Miguel como aquele que detém a manifestação do Iníquo, respaldado por sua atuação em Daniel e no Apocalipse.
O “homem da iniquidade” de 2 Tessalonicenses 2.3+
O "homem da iniquidade" de 2 Tessalonicenses 2.3 certamente não é o anticristo porque os únicos quatro versículos que falam do anticristo ou dos anticristos os descrevem como falsos profetas cristãos gnósticos, adeptos do docetismo que negavam que Jesus havia vindo em carne. (1Jo 2.18; 1Jo 2.22; 1Jo 4.3 e 2Jo 7).
Ainda que não possamos apontar com certeza, é possível que o "homem da iniquidade" seja a "Besta" mencionada no livro de Apocalipse, no caso, o Imperador Nero. Existem 3 referencias no capítulo 2 de 2 Tessalonicenses que indicam que tal sujeito estava por perto na época em que Paulo escreveu a carta: 1) "o que o detém", 2) "já opera" e 3) "aquele que agora o detém".
Paulo ao escrever aos tessalonicenses, dizendo: "sabeis o que o detém", indica que eles tinham conhecimento de quem se tratava e que tinha a ver com os acontecimentos contemporâneos a eles. Sabemos que Paulo foi condenado a morte por volta do ano 68 dC, portanto, os seus últimos anos de vida foram vividos na época em que Nero era o imperador. E não se tem notícia de nenhum governante tão iníquo quanto Nero, que matou muitos membros de sua familia, até mesmo sua esposa grávida com vários chutes, incendiou Roma e culpou os cristãos. Perseguiu, torturou e matou milhares de cristãos e obrigava que as pessoas o adorassem como se fora Deus. João Crisóstomo e Agostinho afirmaram que o homem da iniquidade havia sido Nero.