Estudos do Bispo Ildo · Espírito Santo
Batismo com o Espírito e Dons
8 estudos
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A respeito dos dons espirituais+
5 lições sobre dons espirituais Preparadas por: Bispo José Ildo Swartele de Mello
Lição 1
" PNEUMÁTICA " – MINISTÉRIOS DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA Segunda-feira – UNIDADE NO CORPO DE CRISTO – Ef. 4 Terça-feira – 0 DEVIDO USO DE DONS ESPIRITUAIS – RM 12.3-8 Quarta-feira – 0 DOM PARA SERVIR – 1 Pe. 4.7-11 Quinta-feira – DIAKONIA – Lc. 10.40; 17:8; 22:26s; At.6.2 e Ef. 4.12 Sexta-feira – COMUNHÃO E HUMILDADE – Fl 2.1-11 Sábado – VIDA PLENA DO ESPÍRITO – CI 3.12-17 Para Estudar: 1 Cor. 12, 13 e 14.
TEXTO BÁSICO: "A respeito das coisas pertencentes ao Espírito, não quero, irmãos, que sejais ignorantes”.(I CORÍNTIOS 12: 1)
QUESTÕES INTRODUTÓRIAS PARA DISCUSSÃO E ESTUDO:
1. Quem é verdadeiramente espiritual?
2. Como é possível testar coisas e pessoas espirituais?
3. Pode a Igreja de Corinto servir de modelo de espiritualidade para nós? Por quê?
4. Em 1 Coríntios de 12 a 14 Paulo apresenta as respostas às questões referentes às coisas espirituais. Temos, portanto, as soluções, quais seriam, então, os problemas?
1 – A CIDADE DE CORINTO Das cidades gregas, a menos grega era por esse tempo a menos romana das colônias romanas. Era uma cidade em que gregos, latinos, sírios, asiáticos, egípcios e Judeus, compravam e vendiam, trabalhavam e folgavam, brigavam e se divertiam juntos, na cidade e nos seus portos, como em nenhuma outra parte da Grécia. Era um ponto de parada natural na rota de Roma para o Oriente. Corinto era populosa e próspera. Era um lugar muito cosmopolita e importante. Era moralmente corrupta e os seus habitantes eram profundamente propensos a satisfazer os seus desejos, fossem de que espécies fossem. Nas palavras de Von Dobschutz: "0 ideal dos Coríntios era o atrevido desenvolvimento do indivíduo. 0 negociante que conseguia lucro por todos e quaisquer meio, o amante de prazeres que se entregava a toda luxúria, o atleta acerado para todos os exercícios corporais e orgulhoso de sua força física, são os verdadeiros tipos coríntios, num mundo em que o homem não reconhecia nenhum superior e nenhuma lei, senão os seus desejos”.
2 – A IGREJA DE CORINTO A Igreja de Corinto atravessava inúmeras dificuldades: divisões, contendas, imoralidades (A igreja estava no mundo, como tinha de estar, mas o mundo estava na igreja, como não devia estar), carnalidades de toda espécie, heresias (alguns negavam a fé na ressurreição), ignorância e abuso dos dons espirituais, individualismo, presunção espiritual, orgulho, inveja, confusão e desordem nos cultos.
Os crentes de Corinto, de acordo com suas pretensões e seu espírito altivo, usavam os dons ou imitavam-nos em determinadas ocasiões, a fim de se exaltarem pessoalmente, e não a fim de glorificarem a Cristo. Não esperavam um pelo outro e nem respeitavam os próprios irmãos. Todos falavam ao mesmo tempo e faziam esforço para ocupar o centro do palco, onde se focalizava a atenção de todos. Em resumo, foi uma igreja que deu muita dor de cabeça ao Apóstolo Paulo.
3 – PNEUMÁTICA A) Paulo roga aos leitores no início da passagem (12:1), “A respeito de pneumática, não quero que sejais ignorantes”.O termo grego sublinhado define o tópico em consideração.
Em 1 Coríntios ele trata de uma série de assuntos, introduzidos pela observação feita em 7: 1, "Quanto ao que me escrevestes…" O assunto do casamento ‚ discutido em 7.1-24. Um tratamento corolário começa em 7.25: "Com respeito as virgens…" Um novo tópico introduzido em 8.1, usando uma fórmula similar: "No que se refere às coisas sacrificadas aos ¡dolos…”.
Outra consideração apresentada em 12.1, usando-se a mesma fórmula introdutória: "A respeito de pneumatika…" E o final (tratado brevemente)‚ introduzido em 16.1, usando-se novamente a fórmula: "Quanto à coleta para os santos…" Nesta carta, Paulo está tratando de uma série de variados assuntos que foram levantados pela correspondência mencionada em (7: 1) e pela comunicação recebida da igreja de Corinto (1:11). Cada tratamento ‚ coerente dentro de si, e discreto; o contexto circundante serve como pano de fundo. 0 tratamento de pneumática abrange os capítulos 12 a 14, estes trˆs capítulos funcionam como uma unidade, desenvolvendo um tópico comum.
B) 0 termo grego usado para identificar o tópico‚ usualmente traduzido: "dons espirituais".
Pneumática, contudo, mais inclusivo que charismata, que ‚ o termo escolhido quando se refere especificamente aos "dons" (ver 12.4, 3 1). A raiz do termo pneuma, que significa vento ou espírito. 0 resto do termo grego (tika)‚ desinência, como, por exemplo, em português "-tico" acrescentado ao radical "pneuma" tornar-se pneumático. 0 sentido da desinência ‚ semelhante ao português. 0 termo grego pneumática é neutro plural, referindo-se às coisas ou matérias que são características do Espírito ou pertencentes ao mesmo.
C) "A respeito das coisas pertencentes ao Espírito…". A discussão inclui dons, mas como parte de uma agenda mais ampla. 0 amor é central, como matéria de significação vital em qualquer consideração das "coisas pertencentes ao Espírito". É vital também a edificação da igreja, a ordem no culto e ministério. Esses não são dons espirituais em si, mas cruciais à obra do Espírito na igreja.
D) "Não quero que sejais ignorantes a respeito dessas coisas", declara Paulo. A ignorância espiritual, qualquer que seja (desinteresse, falta de estudo, confusão ou medo) deve ser eliminada da igreja. As conseqüências, inclusive anemia espiritual e ineficiência ministerial, são debilitantes. Pior ainda, ignorância gera ignorância (espiritual), da qual nascem diversas doutrinas erradas. Temos que estudar diligentemente as "coisas pertencentes ao Espírito". 0 nosso próprio bem-estar espiritual e o estabelecimento da nossa igreja dependem desse estudo.
CONCLUSÃO Esta lição é uma introdução a PNEUMÁTIKA, tema desenvolvido, de maneira brilhante, pelo apóstolo Paulo, nos capítulos 12 a 14. Em nenhum outro lugar da Bíblia se dá uma atenção Cio especial a este assunto de vital importância para vida da igreja, como aqui, nestes três capítulos, que por esta razão se revestem de inigualável importância para a compreensão das "coisas pertencentes ao Espírito".
É indispensável o conhecimento do contexto histórico, geográfico e social da cidade de Corinto, bem como das características e do perfil daquela igreja. E, a partir daí, tendo em mãos os escritos de Paulo, procurar reconstruir as circunstâncias que motivaram as "respostas" de Paulo nestes 3 capítulos, que estão perfeitamente conectados e formam uma unidade sobre o mesmo tema: – pneumática. E por isto não podem ser estudados como se fossem independentes um do outro.
0 que Paulo escreve a seguir visa instruir e trazer luz a um assunto de vital importância para a igreja, onde a ignorância pode levar a uma série de erros.
LIÇÃO 2 CHARISMATA – DONS DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – A Sabedoria do Espírito Santo – 1 Coríntios 2.6-16 Terça-feira – A unidade entre Cristo e o Espírito – 2 Cor. 3.17, 18 Quarta-feira – A missão do Espírito – Jo. 14.16-23, 26 Quinta-feira – 0 Espírito veio para dar testemunho de Cristo – Jo. 15.26 Sexta-feira – Veio para glorificar e anunciar a Cristo – Jo. 16.7-15 Sábado – Deus é soberano – 1 Tm. 6.15 e Ap. 1.5-8 PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 12: 1 -11 TEXTO BÁSICO: "Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo." (I Cor. 12.4).
INTRODUÇÃO QUESTÕES INTRODUTÓRIAS PARA DISCUSSÃO EM CLASSE 1. Os dons do Espírito são recompensas por um esforço feito?
2. Quais os propósitos dos dons espirituais?
3. Os coríntios davam proeminência a dons mais extraordinários, como o dom de línguas, em detrimento dos outros dons. Por quê? Quais eram as suas motivações? Quais foram as conseqüências desta atitude?
4. É correto pensar que o Espírito Santo leva a pessoa além daquilo que ela tem "meramente" em Jesus Cristo, ao invés de levar precisamente a Ele (v.3)? Ou, seria exato concluir que o Espírito leva os cristãos para cima e além da "maioria dos cristãos" e doutras pessoas, ao invés depara eles no serviço e no ministério?
5. Devemos nos sentir superiores, ou considerar outros superiores simplesmente baseados na posse deste ou daquele dom?
6. Em sua opinião, por que há diversidade de dons e serviços no ministério cristão?
1 – CHARISMATA A concepção paulina de “dons” é mais dinâmica do que o nosso uso moderno.
Nós temos essencialmente um só meio disponível de nos referir aos "dons” os quais qualificamos como "dons espirituais" ou "dons do Espírito". Paulo usa diversas descrições, as quais não só esclarecem o conceito bíblico, mas também nos ajudam a definir "dons".
0 termo chave, usado com referência específica aos dons espirituais, é charismata (12.4, 31; Rm. 12.6). 0 termo está na forma plural; o singular é " charis ma" (carisma). A raiz do termo, " charis ", é a palavra que no Novo Testamento significa "graça”. A conexão com graça é vital ao entendimento correto de dons espirituais, como se vê em Efésios 4.7: 'E a graça foi concedida a cada um…”E em Romanos 12.6, que semelhantemente apresenta uma "lista" de dons relacionando-os com graça: "tendo, porém, diferentes charismata segundo a charis que nos foi dada…" A desinência tem a nuança de algo dado. Assim, dons são descritos como diversas dádivas da graça, dádivas dadas a cada crente por Deus.
2 – OUTROS TERMOS Paulo também usa outros termos para descrever os dons, os quais são chamados "ministérios" ou "serviços" na igreja (12:5, 10, 11). Várias vezes (1 2:6, 11; Efésios 4.16), é usada a raiz grega da qual se deriva a palavra "energia". Esta é uma palavra composta (en-ergia), que significa "em-trabalhando". Ela descreve os dons espirituais como as operações de Deus nas pessoas individuais e através delas, Deus trabalhando dentro da sua igreja.
Finalmente, notamos a frase descritiva usada em 12.7, onde Paulo declara: "A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum (isto é, para edificação da igreja)."O verbo “sendo dado" está no presente, descrevendo ação contínua, não um evento singular; semelhantemente, "manifestação" tem substantivo como desinência que indica processo. Assim, os dons são definidos como os meios contínuos através dos quais Deus revela sua Pessoa e obra na igreja (ver 14: 24-25).
Um carisma ou graça é definido por Paulo, em primeiro lugar, como um "serviço" (diaconia, v.5). Não é, portanto, primariamente um privilégio espiritual para o indivíduo, para sua própria edificação, prazer, ou distinção. Como um serviço, a graça é dada em prol dos outros; está presente para o bem da igreja. Os variados serviços das graças-dons visam, todos eles "um fim proveitoso” segundo vimos acima.
3 – SENHORIO DE CRISTO No v.3, Paulo vê a obra característica do Espírito Santo na confissão inteligível e simples de que Jesus é Senhor. 0 Espírito leva os homens a atribuírem senhorio a Cristo. 0 que não significa que é impossível a um descrente dizer as palavras: “Jesus é o Senhor". Obviamente ele pode dizer isso com zombaria. Mas somente sob a influência do Espírito Santo aquelas palavras podem ser ditas de forma sincera e cheia de significado. É só através do Espírito que uma pessoa pode conhecer a Jesus como seu Senhor e Salvador.
Entre os textos para meditação diária estão: 2 Cor. 3.17,18; Jo 14.16-23, 26; Jo 15.26; Jo 16.7-15, que falam do ministério do Espírito Santo em relação a pessoa de Jesus Cristo. No primeiro capítulo de I Coríntios, Paulo fala sobre tudo aquilo que os coríntios já têm. Observe que tudo o que os coríntios já têm, o têm "em Cristo". Foi a preocupação de Paulo em todo o decurso das epístolas aos coríntios ver o Espírito na mais íntima conexão com o Senhor e, portanto, com Deus (2 Cor 13.15). Note que os vs. 4,5 e 6 nos ensinam a trindade: "0 Espírito é o mesmo…"; "… mas o Senhor (JESUS) é o mesmo."; "… mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. "Resumindo, o Espírito não veio para concorrer com Cristo, ou para ir além de Cristo, mas para conduzir a Cristo, exaltando a Cristo como Senhor.
4 – DIVERSIDADE Pauto nos ensina que: "os dons são diversos% "Há diversidade nos serviços" e há "diversidade nas realizações". Vimos que a obra central do Espírito é honrar a Jesus, e esta obra não é, em sentida algum, monótona ou de uma só forma. 0 Espírito é rico na variedade de suas manifestações, daí o tríplice emprego da palavra "diversidade”.
Há diferentes modos de servir sob a unção do Espírito, mas as diferenças não são importantes, pois o Senhor é o mesmo. Os dons são diferentes, mas isto não deve nos dividir, porque é um e o mesmo Deus que outorga os Charismata em toda a sua diversidade. Paulo está muito preocupado com a unidade da Igreja. Trataremos de um modo especial deste assunto na próxima lição. Em seguida, Paulo descreve uma lista de dons espirituais. Além desta lista existem outras em Romanos 12.6-8; 1 Cor. 12.28-30; Efésios 4.7, 8, 11-13 e 1 Pe 4.9-11. 0 professor ou o aluno pode estudar sobre cada um deles consultando bons comentários e dicionários bíblicos e comparando cada definição, "examinando tudo e retendo o que é bom".
Terminamos esta lição comentando brevemente o v.11: "Mas um e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as como lhe apraz, a cada um individualmente”. Ensinando, mais uma vez, que dons divergentes não visam a propósitos divinos divergentes, pois é o mesmo Espírito que dá todos estes dons. "A cada um individualmente” lembra-nos que Deus nos trata como indivíduos. Ele leva em consideração a nossa personalidade, nossas características e habilidades pessoais que "os são natas, como também nossa capacidade. (ver parábola dos talentos em Mt. 25). E, para finalizar, nos ensina que os dons não são outorgados segundo queremos. Não é segundo a à do homem, mas segundo a vontade do Espírito: Como lhe apraz. Os dons têm nítida relação com nossa posição no corpo de Cristo, isto é, com a nossa função ou ministério. Estão em conexão com as” boas obras as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef. 2: 10).
CONCLUSÃO A concepção bíblica de "dons" é mais rica e amplamente definida do que a nossa: a nossa parece muito limitada e estéril pela comparação (como ela se reflete dentro do vocabulário usado). Além do mais, a concepção bíblica é mais dinâmica. Nós falamos de 9, 12 ou 21 dons (o número varia), e os designamos às categorias específicas (estas também variam), de acordo com classe ou função ou um outro esquema (que também varia). Biblicamente, os dons são simplesmente um meio de descrever a obra de Deus dentro e através do seu povo.
Paulo ensina que a obra do Espírito é exaltar a Cristo como Senhor. E que o Espírito é rico e criativo em suas manifestações visando a edificação do corpo de Cristo, onde não há lugar para divisões e interesses mesquinhos.
LIÇÃO 3 " ECLESIA " – IGREJA EM FOCO MEDITAÇÃO DIÁRIA Segunda-feira – Somos um só corpo – 1 Cor. 10.16, 17.
Terça-feira – A Igreja – Corpo de Cristo – Ef. 1.22, 23.
Quarta-feira – Unidos pela cruz de Cristo – Ef. 2.11-22 Quinta-feira – Unidade do Espírito – Ef. 4.3-16 Sexta-feira – A fim de que todos sejam um – Jo 17.11-26 Sábado – Nada façais por partidarismo – Fl. 2.1-11 Para Estudar: 1 Coríntios 12.12-31 TEXTO BÁSICO: “Para que não haja – ia divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. – (I Co 12.25)”.
INTRODUÇÃO:
Quando esteve no Brasil, Dr. Bush, numa de suas mensagens, contou a seguinte ilustração: “Dois homens trabalhavam quebrando pedras na construção de um grande edifício. Foi feita a mesma pergunta a cada um deles: ‘0 que você está fazendo?’ 0 primeiro respondeu: ‘Ora, estou quebrando pedras’; mas o segundo respondeu: ‘Estou ajudando a construir um grande edifício!’”
PARA DISCUSSÃO E ESTUDO 1. Quais as lições práticas que podemos tirar da ilustração acima para a vida da igreja?
2. Qual a relação existente entre esta ilustração e o tema da aula de hoje?
3. Por que Paulo dedica um quarto do seu estudo sobre PNEUMATIKA à questão da unidade da igreja? (Os 20 versículos deste parágrafo correspondem à aproximadamente 1/4 dos 84 versículos dedicados a PNEUMATIKA).
4. Ciúmes, rivalidades, arrogância, pretensões, estrelismos, individualismo, menosprezo pelos dons considerados não tão interessantes, busca de satisfação pessoal, exaltação do "eu", e negligência para com os frutos do Espírito eram Características da igreja de Corinto. 0 que fazer para não incorrermos nos mesmos erros?
1 – ECLESIA 0 vocábulo grego " eclesia " significa, basicamente, "os chamados para fora", dando a entender um grupo distinto, selecionado e tirado para fora de algo, era empregado para indicar "assembléia", "reunião convocada pelo arauto", "assembléia legislativa". Portanto, a "assembléia" pode ser política, social ou religiosa. É usada para indicar a igreja cristã, um culto cristão, mas nunca o mero edifício das reuniões ou templo. E pode ser muito bem traduzida por: "CONGREGAÇÃO REUNIDA".
Grande parte da natureza espiritual da igreja pode ser percebida através dos seus títulos que são encontrados nos seguintes textos: Ef. 1.4, 22e 23; Ef. 3; Ef. 2.15, 19, 21 e 22; Ef. 5.26, 27; 2 Cor. 3.18; Rm 8.17, 29 e 30; Rm 7.1-6; Mc 2.19, 20; 2 Cor. 11.2; Mt 5.48.
0 ministério da igreja é, essencialmente, a continuação do ministério do próprio Senhor Jesus Cristo. A vontade de Deus é unir todas as coisas em redor de Cristo, harmoniosamente (ver Ef. 1.10). No seio da igreja, Deus demonstra como isso pode ser feito, através da unidade do Espírito (Ef. 4.3). E o trecho de Ef. 1.23, ensina-nos que Deus utilizar-se-á da igreja como um instrumento para realizar tal plano.
2 – A ECLESIA ESTÁ EM FOCO O termo grego ECLESIA ou igreja aparece por nove vezes em 1 Coríntios 14 (vs. 4, 5, 12, 19, 23, 28, 33, 34 e 35) e uma vez em 1 Coríntios 12.28. No parágrafo 12.12-31, Eclesia é definido como "0 CORPO DE CRISTO" (o vocábulo "corpo" aparece dezessete vezes neste trecho). Paulo defende que os dons espirituais só podem ser entendidos dentro do contexto da IGREJA. Os dons foram dados a cada um individualmente visando o bem comum, isto é, a edificação do CORPO DE CRISTO. A "IGREJA" está em foco.
3 – A ANALOGIA DO CORPO Intimamente entrelaçada com a consideração Paulina de "dons" está à realidade da igreja. Em 1 Cor. 12, Paulo toma o corpo humano como metáfora e elabora a sua aplicabilidade à igreja. Ele mostra que os dons espirituais, como os diferentes membros do corpo, são diversos em qualidade e função – mas cada um tem importante e necessária contribuição a fazer ao corpo inteiro. Todos são indispensáveis. Assim, os dons são individualizados, mas sempre ligados à igreja.
Os dons são divinamente dados, não primariamente para abençoar a vida do recipiente individual, mas para o benefício da igreja. 0 dom não é dado para nosso deleite pessoal ou para obtermos vantagens sobre os outros, mas para servimos aos demais crentes.
4 – UNIDADE E HARMONIA Os dons não são dados para divisão, mas para a unidade do corpo. A igreja de Corinto estava a ponto de dividir-se e rachar-se entre o "ESPIRITUAL" e o "CRISTÃO", como se os dois fossem distintos entre si. Paulo inicia esta carta aos coríntios fazendo uma forte exortação à unidade (1 Cor. 1: 10- 13) e, no capítulo 3. Paulo repreende a carnalidades, as divisões, ciúmes e contendas que havia entre eles. E, em 11.17-34, Paulo afirma estar informado de que há divisões e partidos entre os coríntios.
Observe que a palavra chave deste texto é "UM". Releia o texto mais uma vez e responda: Quantas vezes ela aparece?
Num corpo existem órgãos com mais ou menos destaque; mas estas diferenças no Corpo de Cristo são meramente funcionais, não são qualitativas nem espirituais. Nenhuma parte deve sentir-se inferior ou superior com base nos seus dons ou na sua posição dentro do corpo, porque Deus mesmo foi quem dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprove. (v. 18).
As diversas partes do corpo não estão em feroz concorrência entre si, mas sim, se completam harmoniosamente, por amor da totalidade, segundo a orientação da Cabeça.
Compare esta passagem com a de Ef. 4, onde também Paulo está tratando de Dons espirituais: "Suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz: Há um só corpo e um só Espírito… Um só Senhor… A graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo… E concedeu dons aos homens… Para encher todas as coisas… E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para… Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé”. Em 1 Cor. 12.25, o apóstolo fala do propósito de Deus ao dar dons aos membros da igreja. Confira.
Qual o resultado da ação do Espírito Santo na vida dos primeiros cristãos? (At. 2.44ss).
Em João 17.11, 21-23, Jesus orou para que fôssemos um, para que fôssemos aperfeiçoados em unidade. Só assim a igreja será bem sucedida em sua missão aqui no mundo.
V. 11 – "Um só e o mesmo Espírito” – sublinha a verdade de que os dons divergentes não visam a propósitos divinos divergentes. Os membros diferem, mas as suas diferenças não afetam o fato de que há uma unidade fundamental.
5 – CONFORME SEU SOBERANO PROPÓSITO V. 28 – Paulo ensina que no corpo natural Deus dispõe, estabelece as partes (vs. 18 e 24). O mesmo se dá com o corpo de Cristo. Não são as pessoas que escolhem se vão ser apóstolos, profetas… Ou… Etc, mas é Deus quem os estabelece na igreja. Paulo classifica estes vários dons para igreja em ordem de honra (comparar com a lista de Ef. 4: 11). É significativo que o dom de línguas, que os coríntios tinham em tão alta estima, seja mencionado por último.
Cada um de nós tem uma função, um ministério no Corpo de Cristo, aquelas "boas obras as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas" (Ef. 2.10).
Deus dará, a cada um individualmente, os dons necessários para que cada um possa estar capacitado par executar bem os seus serviços e ministérios já designados por Deus.
Vs. 15 e 16 – 0 pé pode muito bem ter ficado desalentado por sua incapacidade para exercer as complicadas funções da mão, mas "nem por isso deixa de ser do corpo". Os corpos precisam de pé como de mãos, de ouvidos como de olhos. Por melhor que sejam os olhos, o que seria do corpo se todos os seus; membros fossem olhos? Observe que Paulo coloca "0 TODO" no mais alto nível. Os membros não estão dispostos no corpo por acaso (vs. 6, 7, 11, 18, e 28).
Vs. 29 e 30 – Todas as perguntas destes dois versículos esperam um "NÃO" como resposta. 0 que nos ensina que nenhum dom em particular é destinado a todos os cristãos. Nem todos são apóstolos, nem todos profetizam, nem todos falam em línguas. Estes versículos são suficientes para provar que o dom de línguas não é o único sinal de que alguém foi batizado como Espírito Santo. Mesmo naquela época, nem todos os que eram batizados no Espírito Santo falavam em línguas. Os dons são dados como Deus quer, como lhe apraz e não como nós queremos.
CONCLUSÃO Paulo tratou dos membros mais humildes da igreja, que achavam que, por lhes faltarem dons espetaculares, poderiam ser postos fora do corpo. Tratou também da questão dos membros que, por possuírem dons de maior destaque, menosprezavam os seus irmãos menos dotados, chegando à soberba ao pensar que podiam funcionar bem, sem as "insignificantes" contribuições dos outros não tão "espirituais" e bem dotados quanto eles. Barcley afirmou: "Sempre que começamos a pensar em nossa importância pessoal na igreja, esvai-se a possibilidade de uma obra realmente cristã".
Os dons não são dados por acaso, a revelia ou conforme a nossa própria vontade, e nem visam à interesses mesquinhos e pessoais. Deus concedeu dons com o propósito de nos capacitar para os serviços, funções ou ministérios que Ele mesmo estabeleceu e designou para nós, visando a edificação e a unidade da Igreja.
Entendendo melhor a IGREJA será mais fácil compreender os dons espirituais, bem como o seu uso e propósito na igreja.
LIÇÃO 4 “ AGÁPE ” – O AMOR COMO O SUPREMO DOM DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – Uma dívida eterna – Rm 13.8-14 Terça-feira – 0 fruto do Espírito é amor – Gl. 5.23-26 Quarta-feira – 0 amor é derramado nos corações pelo Espírito – Rm. 5.5-8 Quinta-feira – A essência do Evangelho – I Jo 3.11-24 Sexta-feira – Deus é amor – I Jo 4.7-21 Sábado – Amor fraterno – Rm. 12.9-21 PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 13.1-13 TEXTO BÁSICO: "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.(I Cor. 13.1).
INTRODUÇÃO As aparências enganam. 0 ser humano é facilmente seduzido pela forma. A embalagem atrai e leva o homem a perder de vista o mais importante: "0 CONTEÚDO". Mas Deus não se deixa enganar. Ele vê o coração, o íntimo, os motivos. Os grandes feitos e o bom desempenho podem impressionar a muitos, mas o que conta diante de Deus é a pureza de intenção. Não é tanto o que fazemos, mas como fazemos, com que coração realizamos até mesmo as mais simples tarefas.
"Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei, porque o Senhor não vê como vê o homem. 0 homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração”.(1 Sm 16.7)
"E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente:" PARA ESTUDO E DEBATE 1. Por que, destes três capítulos destinados ao estudo das coisas pertencentes ao Espírito Santo, Paulo reserva um capítulo inteiro para a questão do amor?
2. E porque este capítulo se encontra localizado exatamente nomeio dos outros dois? Haveria algum motivo especial?
3. Com relação as coisas espirituais, qual foi a ênfase de Cristo e das epístolas apostólicas? E qual tem sido a ênfase nos nossos dias?
4. É possível a manifestação de dons espirituais sem o elemento básico da vida cristã, o amor?
5. Como distinguir entre o falso e o verdadeiro? É pelos seus dons que se conhece um homem genuinamente espiritual?
6. Como é o amor de Deus? Como atua ele? Como se evidencia ele entre nós?
1 – AGÁPE – O Dom maior AMOR – No grego, " AGÁPE ", derivação da forma verbal "AGAPAO ". Não se usava comumente antes do Novo Testamento, mas os cristãos se apossaram do termo e fizeram dele a sua palavra característica para amor. Enquanto que o melhor conceito de amor antes do Novo Testamento era o de amor pelo melhor ser que se conhece, os cristãos pensavam no amor como aquela qualidade demonstrada na cruz. É amor pelos totalmente indignos, amor que procede de um Deus que é amor. Amor prodigalizado a outros sem que se pense se eles são dignos para recebê-lo ou não. Provém antes da natureza daquele que ama, que de qualquer mérito do ser amado.
0 cristão que experimentou o amor de Deus por ele, embora ainda pecador, foi transformado pela experiência. Agora, em certa medida, vê os homens como Deus os vê. Ele os vê como objetos do amor de Deus, como aqueles por quem Cristo morreu. Conseqüentemente, a sua atitude para com eles é de amor, do " AGÁPE " que o leva a dar-se. Vem a praticar o amor que nada busca para si, mas somente o bem da pessoa amada. 0 amor é aquele elemento que dá sabor a todas as demais atividades e lhes empresta significação, sendo assim, o amor é o grande princípio Cristão de toda a ação e a base de toda demonstração de espiritual idade, pelo que o amor deve governar os dons espirituais, servindo de solo onde os dons sejam cultivados.
2. A SUPREMACIA DO AMOR
Amor é "o caminho sobremodo excelente". 0 centro do tratamento Paulino de coisas pertencentes ao Espírito é amor. Sem amor, "dons espirituais" oferecem pouco benefício à igreja e "línguas" se tomam disfuncionais.
Ágape é chave para harmonia, ordem e crescimento na igreja.
0 amor é mais importante do que qualquer dos dons, inclusive I Ínguas; na verdade, ele é mais importante do que qualquer combinação de dons, ou todos os dons juntos.
No capítulo doze, Paulo vinculou o pensamento da igreja acerca de coisas espirituais à graça; no capítulo treze, Paulo vincula as coisas espirituais ao amor. Nesse capítulo, Paulo ensina o modo segundo o qual as graças divinas discutidas no capítulo doze devem ser expressas humanamente. Nem o falar em línguas (13.1), nem a profundidade do saber (v.2), nem o sacrifício (v.3) são, por si só, nem substitutos para o amor cristão, nem sequer componentes necessários deste amor. 0 amor é uma graça mais básica e menos espetacular do que todas as demais. Sem ele, as graças cristãs são desgraçadas.
V.1 – Paulo ensina que falar em línguas (de qualquer espécie) sem o acompanhamento do amor, isto é, sem ter por finalidade a edificação da igreja, sem ter por propósito ajudar a outro, não passa de um ruído, que pode ter motivo a auto-glorificação. Aquele que não tem o amor de Deus a encher o seu coração é como um vagão vazio, que desce violentamente por uma colina; faz muito barulho porque nada tem dentro.
V.2 – São aqui frisados os dons da profecia, da sabedoria, do conhecimento e da fé. São dons pedagógicos, importantíssimos e maravilhosos, mas "se não tiver amor"… Observe que o dom importa menos do que a maneira de seu uso. Se o indivíduo que o possui, faz uso dele sem amor, nada será! Tenhamos por exemplos as experiências de Balaão e de Sansão, ambos possuíam dons sobrenaturais; porém, moralmente falando, eram homens degradados. E a derrota recaiu sobre ambos. Existem muitos que tem apenas o CHARIS MA, mas não tem o caráter.
V.3 – Aqui são aludidos os dons de "socorros". Até mesmo o indivíduo que se tome conhecido como muito humanitário, cujas obras sociais e de socorro sejam abundantes, se lhe falta a motivação apropriada do amor cristão, a preocupação sincera pelo alívio da miséria alheia, nada será ele. Pois é possível realizar todas estas obras visando a auto-exaltação e a vanglória. Sem amor, nem mesmo um sacrifício supremo obtém coisa alguma para aquele que o realiza. A dedicação suprema nada significa sem a motivação do amor.
3 – A NATUREZA DO AMOR Para entendermos corretamente 1 Coríntios 13, devemos conservar em mente o contexto dentro do qual a descrição do amor foi dada por Paulo: o contexto do problema referente às coisas espirituais na igreja de Corinto.
V.4 – "É paciente" – "Espera pelo tempo divino para a realização de seus propósitos graciosos e providenciais sem murmurar ou impacientar-se, suportando suas próprias fraquezas, bem como as fraquezas alheias, com santa e humilde submissão à vontade de Deus."(Adam Clark); – "É Benigno"- útil, gentil, prestativo, busca oportunidades para fazer o bem, cheio de bons frutos que vem do alto (ex. o bom samaritano). – "Não arde em ciúmes"- 0 amor não tem inveja. A inveja é um dos pecados mais mortais e destrutivos. Esta foi a causa do primeiro crime na história da humanidade. O amor não se deixa entristecer porque outra pessoa possui maior porção de bênçãos terrenas, intelectuais ou espirituais. Pois ama o próximo como a si mesmo. – "Não se ufana e nem se ensoberbece". Vanglória, auto-exaltação, fanfarronice, orgulho, pretensão, espírito altivo e desejo de ser estrela “, aparecer e estar no centro do palco" eram características de muitos em Corinto. 0 amor impede a pessoa de inflar-se com o senso de sua própria importância. (Pv. 16.18).
V.5 – "Não é inconveniente” – não é arrogante ou rude. 0 amor tem boas maneiras, é cheio de tato. 0 amor não deixa ninguém em situação embaraçosa, não faz ninguém passar vergonha. 0 amor é moderado, observa o verdadeiro decoro. 0 amor é reverente e ordeiro. – "Não procura os seus interesses" – 0 amor não procura as suas próprias coisas. Esta definição torna-se importante para a compreensão do capítulo 14, especialmente o quarto versículo. 0 amor não busca a sua própria vantagem.
Notemos no capítulo 12, o caráter tipo "DIAKONIA"(SERVIR AOS OUTROS) e "proveito para todos"das graças. Em suma, o amor não insiste nos seus próprios direitos. – "não se exaspera” – "não se ressente do mal” – Não se deixa provocar, não se irrita, não perde a compostura, não se amargura, não se lembra do mal. 0 amor perdoa, esquece e paga o mal com o bem.
V.6 – "Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”.
V.7 – "Tudo sofre” – 0 amor sustenta todo o sofrimento. Quando olhamos para a cruz, vemos o maior de todos os exemplos de como o amor pode suportar todo o sofrimento. – "Tudo crê"- Essas palavras não significam que OS Crentes devam ser crédulos, a ponto de serem enganados por charlatões e falsos profetas. No entanto, o amor acredita no lado melhor das pessoas e não procura expandir os seus defeitos, conforme procuram fazer os bisbilhoteiros. 0 amor encoraja o que há de melhor na outra pessoa. 0 amor permanece como amigo, e ama a despeito do que sabe a seu respeito; vê o seu potencial, encoraja-o a cumprir os seu ideal. – "Tudo espera"0 amor não se desespera. Está pronto para tudo. E se recusa a tomar o fracasso como final. É otimista. É como um soldado que, mesmo no grosso da batalha, não fraqueja, não se deixa vencer, sejam quais forem as dificuldades. – "0 amor tudo suporta".
4 – 0 FRUTO DO ESPÍRITO Em Gálatas 5.22, aprendemos que o fruto do Espírito Santo é: AMOR. Quando o Espírito Santo vem a nós o AMOR de Deus é derramado nos nossos corações (Rm 5.5).
Em 1 Cor. 12.28-30 Paulo ensina que nenhum dom em especial é inerente aos cristãos, isto é, nem todos os cristãos profetizam, nem todos são mestres… E assim por diante. Mas o mesmo não se dá no caso do AMOR, pois o amor é fruto, e o fruto é inerente à árvore. Todo cristão autêntico precisa e naturalmente produzirá os frutos do Espírito. "Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, Ele o corta; e todo o que dá fruto, limpa, para que produza mais fruto ainda”.(Jo 15.2).
0 amor é o sinal do cristão. "Pelo amor conhecido é o cristão". Jesus não ensinou: "Pelos seus dons os conhecereis”, mas sim: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt. 7.15-23). E segue: "Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor!' entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura, não ternos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade." Mc 11.12-14, a questão da figueira sem fruto. Quando Jesus examina uma árvore, Ele busca nela os seus frutos. Parece que não há desculpas para não frutificarmos.
A igreja dos coríntios é exemplo de que "dons” não é, necessariamente, sinônimo de “espiritual idade" (vida cheia do Santo Espírito de Deus). Vejamos: Em 1.7 – somos informados que aos coríntios não faltava dom algum. Dons eles Possuíam, mas em 1: 11; 11-4,16-18; 4:18; 5-1 a 13; 6:1, 5 a 11, 15 a 19; 10: 14, 21, 22; 11: 17 a 22 e 30; 15:33, 34, observamos o quanto eles eram carnais. E hoje em dia corremos o mesmo perigo de nos concentrarmos nos dons e nos esquecermos do fruto, que é o elementar.
É comum ouvirmos dizer: “Olha, vamos lá e assistir. Veja como aquela pessoa é espiritual’ Ela possui este ou aquele dom!… E incorre-se no mesmo erro de julgar ou de se Conhecer o grau de espiritualidade baseado em tal falsa premissa. Deixa-se enganar pela aparência”.
Dons podem até impressionar multidões, mas se não tiver amor… No dia do juízo final o que realmente importa é o amor. Tudo mais passará, mas o amor permanece para sempre. : “Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança…” (I Jo 4.17 e 18). Ainda sobre este tema, meditar em Jo 15, Mt 25.31-46.
CONCLUSÃO As virtudes do amor, com sua humildade, paciência, altruísmo e consideração devem ser o veículo das manifestações especiais do Espírito Santo no seio da igreja. Sem esta base, tudo é nada.
Nestes dois primeiros capítulos, Paulo também está preparando os coríntios para receberem de maneira positiva as firmes exortações, correções e orientações do capítulo 14. Que é o tema da nossa última lição.
LIÇÃO 5 GLOSSAI – O DOM DE LÍNGUAS MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – No dia de Pentecostes – Atos 2.1-47 Terça-feira – Culto racional – Rm. 12.1-2 Quarta-feira – Como usar os dons espirituais – Rm. 12.3-8 Quinta-feira – Julgar e provar as profecias – 1 Ts. 5: 19-21; I Jo 4.1 e Jr. 23.
Sexta-feira – Perigos Deut. 13.1-5 e Deut. 18.20-22 Sábado – Não buscar o que é seu, mas o que é dos outros – Ef. 2.4, 21.
PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 14.1-40 TEXTO BÁSICO: "0 que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetisa edifica a igreja”.(1 Cor. 14.4).
PARA ESTUDO E DEBATE 1. Como os dons espirituais devem ser expressos nas reuniões congregacionais?
2. Como conciliar: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” com as diretrizes estabelecidas por Paulo quanto à ordem de culto? (ver especialmente os versículos 19, 23, 26 a 33) Em outras palavras, liberdade de culto e necessidade de ordem no culto são conflitantes?
3. Por que o apóstolo diz que temos que julgar as profecias? Você acha isto importante para os nossos dias?
4. A questão: "0 que dirão os de fora?" deve nos preocupar? (v.23) (Ler com atenção 2 Cor. 6.3, que é um versículo muito importante para a compreensão deste tópico).
5. A preocupação do apóstolo Paulo é com o uso dos dons na igreja. Você lembra qual é a concepção neotestamentária do termo grego eclesia ? Então, como isto afeta nossa interpretação de 1 Cor. 14?
6. Quando Paulo menciona “línguas” entre os dons espirituais, está ele se referindo às línguas humanas estrangeiras ou às elocuções estáticas que são ininteligíveis?
7. Por que o dom de profecia é superior ao dom de línguas? Por que o que fala em línguas deve se calar se não houver quem interprete?
INTRODUÇÃO Línguas ( GLOSSAI) têm sido um meio entre muitos que Deus tem escolhido para se revelar. Não é o meio mais importante e, apesar de ser classificado por Paulo como o último dos dons (12:28), Paulo falou mais tempo sobre ele que sobre qualquer outro, pois, desde aqueles dias, este assunto tem sido mal entendido, com distorções na ênfase e na pratica deste dom nas igrejas, chegando a ser motivo de divisão. É para esclarecer dúvidas, corrigir erros e orientar à igreja de Corinto quanto ao uso dos dons espirituais, em particular o dom de línguas, que Paulo dedica um capítulo inteiro, com 40 versículos.
Existem diferentes interpretações com respeito à definição de línguas bíblicas. É difícil decidir entre elas. Uns resolveriam o problema insistindo que as línguas dos coríntios eram línguas estrangeiras, visto que as de Atos 2 o eram. Para outros, inclusive nossos estudiosos da Bíblia, parece patente que as línguas de 1 Coríntios 12-14 não eram línguas humanas inteligíveis.
Os argumentos baseados no texto gregos não resolvem o problema. 0 termo glossai (Iínguas; singular é glossa) é usado nos textos de Atos e Coríntios, mas não necessariamente no mesmo sentido. 0 contexto é essencial para a própria interpretação e tradução de cada uso de uma palavra, mesmo quando o termo grego fundamental é o mesmo.
É simplesmente incorreto assumir ou afirmar que, porque glossa descreve linguagem humana em Atos 2, onde quer que o termo seja usado ele significa o mesmo. Em Marcos 7.33, 35, o texto grego diz que Jesus tocou a " glossa " do mudo: a palavra aqui obviamente se refere a língua física; seria sem sentido traduzida: "língua (idioma)". Semelhantemente, em Lucas 1.54, Deus tocou a " glossa " de Zacarias: o sentido intentado é provavelmente "boca" e não idioma. Finalmente, em I Jo 3.18, nós somos exortados: "não amemos de palavra, nem de GLOSSA ” aqui a tradução “língua” pode ser usada, mas o sentido é comunicado melhor pela tradução usual, "discurso".
Da mesma maneira, devemos estudar contextualmente cada instância de " glossa " em Atos e Coríntios. Em alguns textos, o sentido exato não é claro: não podemos estar certos se as "línguas" em Atos 10 e 19 consistem em fala inteligível ou ininteligível. Em tais casos, dogmatismo (de qualquer lado, com a exclusão de outros pontos de vista) parece não só infundado, mas injustificado.
QUAL 0 SENTIDO DE GLOSSAI EM 1 COR. 12-14?
Como é de se esperar, os estudiosos diferem nas suas respostas, refletindo usualmente suas afiliações teológicas e eclesiásticas. Para um número crescente de variadas tradições, contudo, a seguinte conclusão parece assegurada: enquanto que as línguas de Atos 2 foram línguas estrangeiras inteligíveis, as " glossai " em I Cor. 12-14 consistem em elocuções humanamente ininteligíveis.
Esta conclusão está baseada nos dados específicos.
Pentecostes, como se acha relatado em Atos 2, foi um evento miraculoso. Naquele dia, quando o Espírito de Deus foi derramado, os discípulos falaram línguas ( glossai) que eles não entenderam. De outro lado, os ouvintes, um auditório misto de visitantes de muitos países diferentes, entenderam o que foi dito. Eles se maravilharam, todavia, que os discípulos – todos "galileus" – estavam falando para eles, "que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nasceu" (2.8). A palavra grega traduzida língua ali e em 2.6 é "dialect", descrevendo língua particular nativa dos ouvintes. A lista dos nomes de lugares identifica algumas das regiões geográficas específicas representadas. Todas as línguas dessas vastas regiões não eram evidentemente conhecidas aos discípulos galileus iletrados (At. 4.13). Não obstante, as " glossai " faladas foram inteligíveis aos ouvintes; nenhuma interpretação foi necessária.
A situação que Paulo descreve em 1 Coríntios 12-14 é completamente diferente. A mensagem falada em línguas era não só ininteligível àquele que falava que (ver 14.14), mas também aos ouvintes: Porque o que fala em língua não fala aos homens, mas a Deus… Ninguém (isto é, nenhum ser humano) o entende; porque em espírito fala mistérios. Porque tais elocuções são ininteligíveis, Paulo argumenta, sem interpretação, elas são sem sentido e não edificam a igreja durante suas reuniões.
0 fato de a "interpretação" ser considerada um dom espiritual faz crer que o dom espiritual de línguas mencionado em 1 Coríntios não era de idiomas conhecidos, que pudesse ser entendido por alguém em algum lugar do mundo.
Outra espécie de " glossai " pode estar sendo sugerida em 1 Coríntios 13.1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos…" Aqui Paulo muda para além das fronteiras da língua humana, para abranger outra esfera de comunicação. No contexto, a sua idéia é que, ainda que uma pessoa possa comunicar em muitas línguas humanas e também com o espírito de anjo… Sem amor, a fala resultaria somente em muito ruído.
Na lista dos "dons", deve-se notar que " glossai " está sempre no plural e acompanhado de "espécies de…" 0 grego que salienta este qualificador fornece o termo científico gênero. Usado em biologia, um gênero, é a subdivisão principal da família e incluiu uma ou mais espécies. Este é o sentido que este qualificador acrescenta a "línguas". Em essência, Paulo parece reconhecer diversas espécies de glossai, inclusive línguas humanas, mas também "celestes". Todas são de Deus, e dadas segundo a sua escolha.
COMPARAÇÃO ENTRE PROFECIA E LÍNGUAS Paulo estima os dons por sua capacidade de ajudar aos homens (Vs. 1 a 5).
À medida que Paulo usa para fazer esses juízos de valor está claramente identificada: 0 QUE EDIFICA A IGREJA?
0 que profetiza, fala aos homens, edificando, exortando e consolando “(v.3). 55”.
Está frase importante define a profecia. A "edificação" (oikodome) passa, então, a ser a chave para o entendimento desde capítulo(vv. 3, 4, 5, 12, 17, 26). Assim como Deus é a fonte das "graças" (cap.12), e assim como o amor é o modo delas (cap. 13), assim também a "edificação" é o alvo delas (cap. 14).
Paulo não negava que falar em línguas fosse um dom, mas nunca ensinou as igrejas a buscarem tal dom, mas recomendou com insistência a busca dos "melhores dons" no capítulo 12; do amor, no capítulo 13, e comparou o dom de profecia ao dom de línguas, no capítulo 14, provando a superioridade do primeiro, chegando a afirmar: "Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua." (v. 19). Pois quem fala em línguas não edifica a igreja, mas somente a si mesmo (v.4). E em 1 Cor. 13.5, aprendemos que o amor "não procura suas próprias coisas". Sendo assim, Paulo declara definitivamente: "visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para edificação da igreja" (v.12). Paulo deseja ver os dons espirituais tomar-se em serviço (cap. 12), o amor tomar o centro de nossas atenções (cap. 13), e a igreja ser edificada (cap. 14).
Enquanto o que fala em línguas edifica apenas a si mesmo, o que profetiza edifica a igreja. A profecia também serve para exortar (encorajar, fortalecer) e consolar os homens (v.3); também é um meio de transmitir revelações e doutrinas (v.6); a profecia faz "soar" aquele toque da mensagem cristã que leva o crente a preparar-se para a batalha espiritual (v. 8); a profecia é uma voz clara, em um mundo de vozes confusas (v. 10) e a profecia é uma maneira de ensinar (v. 31).
A inferioridade de "línguas" é manifesta, pois este dom não "dá proveito" aos ouvintes. Paulo diz que a fala ou é inteligível, ou não é nada mais do que falar ao ar (v. 9), pois tudo que se visa com um idioma, com uma linguagem é comunicar sentido a quem deve. A fala é um efetivo instrumento de comunicação, mas a fala que não for compreendida, não terá poder nenhum (v.11). Agora, se as "línguas" forem interpretadas, os ouvintes serão edificados, caso em que não há grande diferença da profecia.
"Se eu orar em línguas, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera." (v. 14 b). Não faz uso da mente, não acrescenta ao intelecto, ao conhecimento. Paulo não está argumentando em prol de um intelectualismo estéril, pois é certo que a vida cristã é bem mais do que exercício mental, há lugar para fervor e emoção, mas, como vemos no v. 15, a oração e o canto devem ser tais, que os adoradores possam envolver-se nelas integralmente, com a mente e com o espírito. (Obs.: Muitíssimas vezes as orações são elevadas numa espécie de jargão emocional, e os hinos são escolhidos com base em melodias atraentes, em vez de em sólida doutrina.)
"Não sejais meninos" (v.20) – Parai de ser meninos no entendimento. Na verdade, é característico da criança preferir o divertido ao útil, o brilhante ao sólido. E é isso que faziam os coríntios com o seu assinalado gosto pela "glossolalia" (glossolalia – falar em línguas). Portanto, "sêde homens amadurecidos." UMA CONSIDERAÇÃO EVANGELÍSTICA Numa reunião da igreja o efeito do falar em línguas sobre os de fora ou incrédulos é adverso. Diz o apóstolo Paulo que eles pensarão que os crentes estão loucos (v.23). Pois os coríntios tinham o costume de falarem línguas todos ao mesmo tempo. (Sobre este tópico, ler também 11 Cor 6.3) Paulo sempre se preocupou com a imagem da igreja diante dos de fora. Em Atos 2.47, vemos que a igreja primitiva contava com a simpatia de todo o povo em derredor, "enquanto isto, acrescentava-lhes o Senhor, dia-dia, os que iam sendo salvos." Não podemos perder de vista a nossa maior missão.
Obs: Parece haver uma contradição entre o v. 22 e os vs. 24e25. Mas é preciso levar em consideração o contexto do v. 22, que está baseado num texto do Antigo Testamento (Is 28.11, 12), onde os incrédulos são os que ouviram a palavra e a rejeitaram. Para eles, as "línguas" valem por um sinal do juízo de Deus sobrevindo a eles. Já em 24 e 25 se está pensando naqueles que nunca ouviram a palavra. Para estes, "línguas" não são mais que um sinal de loucura, mas a profecia os conduz a Deus.
QUESTÕES DE ORDEM E DECÊNCIA NA IGREJA A preocupação corolária é a ordem na igreja. Paulo não só considera a ordem como princípio dirigente – é a palavra com que ele conclui o tratamento extensivo deste assunto (ver 14.40) – mas sublinha-a pesadamente no parágrafo final. Já no capítulo 12, ele tem caracterizado a igreja como uma entidade unida, composta por Deus "para que não haja divisão"(12:25). Em 14.26-39, ele fala de modo particular sobre a aplicação deste princípio às reuniões da igreja. “Quando vos reunis” (v.26)
Há vários ingredientes no culto, mas a regra orientadora é "Seja tudo feito para edificação" (v.26). Limites são estabelecidos tanto para línguas (com interpretação) quanto para profecias (vs. 27 a 29) – "não mais que três" – "e isto sucessivamente" (v.27), nunca todos falando em línguas ao mesmo tempo (v.23), mas, sim, um após o outro e haja quem interprete. Mas e se não houver intérprete? Resposta: "fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus" (v.28). E com relação à profecia, é necessário que haja julgamento.”“.
"Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro " (v.30). E para os que dizem que não podem se controlar diante da ação do Espírito, Paulo rebate dizendo: "Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas; porque Deus não é Deus de confusão… " (vs. 32,33). Note-se, antes de tudo, que Paulo crê no domínio próprio e o defende (ver também vv. 28, 30 e 34). Isto é de se esperar, porque o fruto do Espírito é "… domínio próprio" (Gálatas 5.22). Para que o culto seja edificante e executado em ordem, é necessário que se possa ouvir enquanto alguém está falando (vv. 29, 31, 34, 35).
Uma congregação individual não é simplesmente livre para fazer o que bem entende. Paulo mostra sua exasperação com a congregação de Corinto quando ele pergunta: Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?"(1 4:36). Estas perguntas servem como um forte lembrete da interconexão da igreja. Finalmente, Paulo Naca a rolha", e exerce a plena autoridade do seu ofício apostólico: "as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor" (14:37). Esta palavra é dirigida ao que se pensa "espiritual" o qual é trazido fortemente sob a autoridade da liderança eclesiástica, ordenada por Deus.
JULGAR, PROVAR E DISCERNIR V.29 – "Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três e os outros julguem" (ver questões introdutórias a esta lição). A Bíblia é a Palavra de Deus e nenhuma mensagem profética pode ir contra os seus ensinos (Hb 1: 1-2; 2Trn 3.16, 11 Pe 1: 19-21 e Deut 29.29).
Devemos fazer como os cristãos de Beréia, que eram nobres no modo de receberem a Palavra: "examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram de fato assim." (At. 17.11).
E devemos atentar para os seguintes perigos: a) Deut 13: 1 -5 b) 1 Rs 13.1-30 0 Jr 23.13-40 A Bíblia diz que é nosso dever julgar, provar e discernir, portanto não sejamos acanhados ou negligentes neste ponto: 1 Tm 4: 1; 1 Jo. 4: 1; 1 Cor 14.29; Hb 5.13, 14: Hb 4.12-13; 1 Cor 2.15; 11 Cor 11: 13-15; At 5.1-11; Mt 7.15-20, Gálatas 1: 6-9 e 2Ts 2.1-3 CONCLUSÃO A Bíblia ensina sobre os dons espirituais e nenhum versículo, inclusive 1 Cor. 13: 10 pode ser usado para justificar ou prever o fim destes dons. Nesta passagem, a Segunda Vinda de Cristo está sob consideração como aquele acontecimento que terminaria os dons (o que se vê claramente em 1 Cor. 13.12). Mas a mesma Bíblia que nos fala sobre os dons espirituais também nos ensina "como" e "com que propósito" devem ser usados nas nossas reuniões congregacionais. Muitos, hoje em dia, têm desacreditado nos dons, devido às distorções e abusos com que eles estão sendo praticados. Se quisermos ser bíblicos, devemos obedecer às orientações, aos princípios e as diretrizes que o apóstolo Paulo claramente determinou para o uso dos dons na ECLESIA. Sabendo que não se trata de mandamento de um homem, mas de Deus (1 Cor. 14.37).
E nunca devemos nos esquecer que os dons são divinamente dados, não primariamente para abençoar a vida do recipiente individual, mas para o benefício da eclesia. Se a igreja deve ser edificada através do exercício dos diversos ministérios de todos os membros, tudo deve ser feito descentemente e com ordem" (14:40). "Porque Deus não é Deus de confusão, mas sim de paz" (14:33)' Neste capítulo, como nos anteriores, a preocupação de Paulo não é com o chamado uso privado dos dons. A inteira discussão focaliza o que acontece "na igreja" (na reunião dos crentes), como vemos em 14.19, 28 e 35. 0 valor de " glossai " na congregação é menosprezado, não ultimamente proibido (14:39), desde que haja intérprete: "E SE alguém falar em línguas, ou no caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete, mas não havendo intérprete, fique calado na igreja". (14:27 e 28a.), mas repetidamente desencorajado (ver todo o capítulo). 0 discurso inteligível é exaltado como muito mais útil e apropriado (v.19), porque a manifestação do Espírito é muito mais imediatamente evidente, não só à congregação dos crentes mas também aos descrentes (14:24, 25).
CONCLUSÃO GERAL NOSSOS VALORES PRIMORDIAIS COMO METODISTAS LIVRES 1. A CENTRALIDADE DE SANTIDADE. Nós estamos convencidos que santidade (definida como amor perfeito) é a visão integrante do Novo Testamento. Este amor se expressa em nosso relacionamento para com Deus e para com os próximos.
2. A UNIDADE DA IGREJA. Enquanto que a nossa igreja começou como um movimento reformista, nós não somos sismáticos. Nós valorizamos a unidade do corpo de Cristo, o bem comum. Nós ficamos magoados com desunião e contenda. Unidade é essencial para testemunho e missão.
3. BÍBLIOCENTRISMO. Somos cristãos bíblicos. Ficamos apreensivos com qualquer doutrina ou prática carente de apoio claro da Bíblia.
4. NOSSAS RAÍZES. Nós apreciamos a nossa tradição. Nós temos a versão em alterar o que é essencial à nossa identidade.
5. NOSSA MISSÃO. Nós cremos que estamos aqui para um propósito e esse propósito reflete fielmente o impulso central do Novo Testamento. Existimos para proclamar o perdão e a santidade para trazer os outros à comunhão do corpo de Cristo, e para equipar e enviá-los para fora como cristãos produtivos que dão testemunho. Esta convicção está no centro do nosso sistema e atividades institucionais.
A OBRA DO ESPÍRITO Com referência à obra do Espírito, o consenso entre os metodistas livres contém os seguintes elementos:
1. A santidade cristã tem ascendência sobre qualquer dom específico.
2. 0 testemunho do Espírito é interno e não é acompanhado necessariamente de qualquer manifestação particular. (Rm. 8.16)
3. Os dons espirituais são soberanamente distribuídos pelo Espírito Santo e dados com o propósito de edificar a igreja.
4. 0 fruto do Espírito, cuja essência é o amor santo, aparecerá em cada vida entregue a Deus.
5. 0 Espírito dá poder para vida vitoriosa.
6. 0 poder da obra do Espírito é evidenciada em vidas transformadas e serviço efetivo.
7. 0 propósito do Espírito é edificar a igreja em unidade.
LÍNGUAS E SANTIDADE Nós rejeitamos a sugestão de que qualquer um dos dons seja o sinal ou a evidência de que uma pessoa foi batizada com o Espírito Santo. Não concordamos com a posição que afirma que o dom de línguas é o sinal necessário da plenitude do Espírito Santo. Além do mais, questionamos, baseados em nosso entendimento, da Escritura, a proeminência geralmente dada, pelos pentecostais, à prática de falar em línguas.
Em nossa estimativa, a posição acima delineada coloca-nos no centro do que significa ser uma Igreja do Novo Testamento. Nós não descristianizamos os que não compartilham as mesmas convicções nossas em cada ponto. Pelo contrário, nós refletimos o grande coração de Wesley que disse, "Não destruamos a obra de Deus por opiniões ou palavras" (O caráter de um Metodista).
Os metodistas livres consideram que a doutrina do amor perfeito reflete o coração da vida cristã. 0 nosso fundador, Benjamim Titus Roberts, considerou esta doutrina da santidade cristã como "claramente ordenada na Palavra de Deus, e como constitutiva do real reforço e poder para o bem da Igreja de Cristo " (Cristão Fervoroso, 1, pp. 1, 5). Concordamos.
Portanto, recomendamos que:
1. Afirmemos os Parágrafos 122 e 308 do Livro de Disciplina; 2. Continuemos a insistir,como o fez o apóstolo Paulo, que oculto seja realizado em língua inteligível pelo povo e de desencorajar a prática ou a promoção de falar em línguas no culto público; e 3. Reafirmemos a prioridade de nossa missão de proclamar o perdão e santidade em Jesus Cristo. Unamo-nos para introduzir o Novo Dia debaixo de Deus.
BIBLIOGRAFIA Canon Leon – M.SC., M. TH., PH.D.. I Coríntios, Introdução e Sociedade Religiosa Edições Vida Nova e Associação Religiosa Editora Mundo Cristão – Terceira Edição, 1986. (São Paulo, SP, Brasil)
Champlin, Russel Norman -PH.D. – O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, I Coríntios 12-14 – Milenium Distribuidora Cultural Ltda.
Foulkes, Francis – Efésios, Introdução e Comentário – Associação Religiosa Edições Vida Nova e Associação Religiosa Editora Mundo Cristão. São Paulo, SP, Brasil – 1986 Bruce, F.F. – MA., D.D. – Romanos, Introdução e Comentário – Série Cultura Bíblica – Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão – São Paulo, SP, Brasil, Frederick Dale – Teologia do Espírito Santo – Sociedade Religiosa Edições Vida Nova – São Paulo, SP, Brasil, 1989 Graham Billy – 0 Espírito Santo (ativando o poder de Deus em sua vida) Edições Vida Nova – São Paulo, SP, Brasil, 1980.
Knight, John A, – 0 que a Bíblia Diz Acerca de Falar em Línguas – Casa Nazarena de Publicações – São Paulo, SP, Brasil, 1989 Mais estudos a respeito:
Pesquisa revela que uma grande porcentagem de pentecostais nunca falou em línguas Batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas Batizados com água e com fogo!
Batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas Quanto ao Batismo com o Espírito Santo e ao dom de línguas há grande controvérsia devido à ignorância que já era comum mesmo nos dias do Novo Testamento (1 Co 12.1). À luz da Bíblia, vamos primeiramente analisar o batismo com o Espírito Santo para depois estudarmos a questão do dom de línguas.
Sobre o Batismo com o Espírito Santo O Apóstolo Paulo ensina que há um só batismo cristão (Ef 4.5). Existiam outros batismos praticados por judeus na época do Novo Testamento, como o de João, mas que não se enquadram na categoria de batismo cristão. Não devemos confundir o batismo de João com o batismo cristão. A igreja cristã não pratica o batismo de João, mas apenas o único batismo cristão que é o do Senhor Jesus Cristo. De modo que os discípulos de João, quando aceitavam a Cristo, precisavam ser novamente batizados em nome do Senhor Jesus: “Então, Paulo perguntou: Em que, pois, fostes batizados? Responderam: No batismo de João. Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus” (At 19.3-5).
Quais seriam as diferanças entre o batismo de João e o de Jesus?
O Próprio João Batista chamou à atenção para algumas diferenças: "Eu vos batizo com água para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11). Isto nos faz lembrar de uma das frases que Jesus disse a Nicodemos: "… Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3.5). O elemento distintivo do batismo cristão é a "Promessa do Pai" (At 2.39), é o dom do Espírito Santo que regenera o homem (Tt 3.5), capacitando-o a viver a vida cristã e a ser testemunha de Cristo (At 1.8). Toda a vida cristã é mediada pelo Espírito, desde a conversão até a ressurreição. A obra do Espírito se faz presente muito antes de nossa percepção dela. É o Espírito Santo que nos convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e é o próprio Espírito que promove a regeneração (Jo 3), de modo que somos feitos novas criaturas habitadas e movidas pelo Espírito de Deus. Tito diz que nossa salvação é obra do Espírito Santo que foi derramado abundantemente sobre nós no momento de nossa regeneração: “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas por sua graça ele nos salvou, pelo lavar regenerador e purificador do Espírito Santo que ele derramou abundantemente sobre nós…” (Tt 3.5-6a) As virtudes cristãs são denominadas frutos do Espírito (Gl 5 e 6), pois sem Jesus nada podemos fazer (Jo 15.5).
Portanto, a vida cristã é uma vida gerada pelo Espírito para ser vivida no poder deste mesmo Espírito: "Se vivemos pelo Espírito, andemos também no Espírito". É pelo Espírito Santo que somos habilitados a reconhecer e confessar que Jesus é Senhor (1 Co 12.1), e é também nele que os cristão são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13). "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é dEle" (Rm 8.9). É o Espírito Santo que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16; Gl 4.5-6).
Para o Apóstolo Paulo, as expressões "estar em Cristo" e "estar no Espírito" são sinônimas (Rm 8.1,9,10). Ele também não vê nenhum problema em denominar o Espírito Santo de "Espírito de Deus" e de "Espírito de Cristo", isto no mesmo versículo (Rm 8.9). Sua concepção da trindade é bem desenvolvida. Não se pode separar Cristo do Espírito Santo. Pois o Espírito Santo e Jesus Cristo são simplesmente inseparáveis (Rm 8.9-10; 2 Co 3.17). Quem recebe a Jesus, recebe o Espírito Santo.
O batismo cristão é feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). A Bíblia ensina que os cristãos são templos do Espírito (1 Co 6.19). Jesus disse que os crentes não ficariam órfãos (Jo 14.18), Ele disse que estaria sempre com eles até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Jesus afirmou que o Pai e Ele viriam e fariam morada nos cristãos (Jo 14.23). Paulo ensina que isto se dá através do Espírito: “no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef 2.22). E Jesus cumpre a Sua promessa enviando o Consolador: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre conosco" (Jo 14.16).
Portanto, não existem dois batismos cristãos, um nas águas e outro com o Espírito. O batismo de Jesus inclui a ambos, ou seja, implica no lavar regenerador da água e do Espírito Santo (Tt 3.5). Não devemos também confundir o batismo com Espírito Santo com a plenitude do Espírito. Pois batismo só existe um (Ef 4.5) e a plenitude pode ser experimentada em diversas ocasiões da vida (Ef 5.18). Alguém pode facilmente cometer o equivoco de denominar de Batismo com Espirito Santo uma autêntica experiência de plenitude do Espírito tida num momento posterior a sua conversão, onde dons também podem ter sido comunicados. A mudança de nomenclatura não altera o valor da experiência, que permanece preciosa para o indivíduo.
Depois de Pentecostes, não encontramos nenhuma exortação para que cristãos busquem o batismo com Espírito Santo, mas encontramos algumas passagens que exortam os cristãos a se encherem do Espírito (Ef. 5.18; Gl 5.16; 1 Ts 5.19; Ef 4.30). Os apóstolos não exortavam os cristãos a buscarem o batismo com o Espírito Santo, pois era inconcebível a ideia da existência de um cristão sem o Espírito de Deus (Rm 8.9). O cristão é filho de Deus e não existe filiação parcial, pois a graça é total. Não há cristãos pela metade, mas completos, tornados justos pela obra de Jesus e incorporados na comunhão dos santos, desfrutando de todos as bênçãos e privilégios do Evangelho. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3)!
Sobre o dom de línguas “Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes”. (1 Co 12.1)
Não tem base bíblica os que ensinam que os dons do Espírito eram apenas para o período apostólico visando o estabelecimento da igreja, pois a Bíblia ensina que os dons existem para a expansão e edificação do Corpo de Cristo, como diz Paulo em 1 Coríntios 14.12: "Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja". E a edificação da igreja é um processo contínuo até a Segunda Vinda de Cristo.
Por outro lado, os pentecostais estão equivocados quando ensinam que o dom de línguas é o dom sinal do batismo com Espírito Santo, pois eles próprios não possuem os dons e sinais manifestados no dia de Pentecostes. Sim, não possuem os mesmos sinais do Pentecostes, pois no momento do derramamento do Espírito sobre os 120 cristãos que estavam reunidos no cenáculo, foi ouvido um som como de um vento impetuoso, foram vistas línguas como de fogo pousando sobre a cabeça de cada pessoa ali presente e, por fim, todos passaram a falar em outros idiomas, ou seja, em línguas estrangeiras, tanto que, ao saírem do cenáculo, tais idiomas foram compreendidos por pessoas provenientes de distintas partes do mundo.
No dia de Pentecostes, nasce a Igreja, falando todas as línguas para alcançar todos os povos, melhor que isto, todos os estrangeiros ali presentes entendiam a mensagem em sua própria língua materna, o que denota um fenômeno reverso daquele da Torre de Babel. Sinal dos Tempos! Sinal da vocação universal da Igreja. As nações originadas e dividas na maldição de Babel (Gn 11), são benditas através do descendente de Abrão (Gn 12), Jesus Cristo, o Rei das Nações, que promove entendimento, unidade e paz.
Portanto, estes 3 sinais existiram como um marco histórico do cumprimento da promessa do derramamento do Espírito e do nascimento da Igreja. Podemos afirmar que tais sinais foram e permanecem inéditos. Jamais se teve notícia de que tenham sido reproduzidos do modo como aconteceu em Pentecostes.
No entanto, em Atos 2, existe ainda outro grupo de discípulos, os 3 mil, que se converteram e que também foram batizados com o Espírito, mas nada é dito sobre terem falado em línguas, ou sobre ter sido ouvido um barulho como de um vento impetuoso, ou ainda sobre terem sido vistas labaredas de fogo pousando sobre as cabeças no momento do Batismo. Mas outros sinais são mencionados como características da presença e ação do Espírito Santo, tais como perseverança na sã doutrina, comunhão em amor, singeleza de coração e evangelização. Tais sinais, sim, devem estar presentes na vida cristã cheia do Espírito.
Existe também no Novo Testamento a referência a outra espécie de dom de línguas, distinta do fenômeno de Atos 2. Paulo menciona o dom de falar línguas estranhas, talvez angelicais (1 Co 13.1), que necessitam o dom espiritual de interpretação para serem compreendidas (1 Co 12-14). Mas Paulo é claro ao dizer que este dom de falar em línguas estranhas, assim como outros dons ali mencionados, não são para todos os crentes, ou seja, nem todos falam em outras línguas. Veja a série de perguntas retóricas que ele faz em 1 Coríntios 12.30: “Têm todos o dom de curar? Falam todos diversas línguas? Interpretam todos?” Obviamente que, para cada uma destas perguntas, a resposta é a mesma, ou seja, não! Não, nem todos tem o dom de curar. Não, nem todos falam em outras línguas. Não, nem todos tem o dom de interpretar Sendo assim, já que nem todos falam em línguas, como pode subsistir o ensino de que falar em línguas é o indispensável sinal do Batismo com o Espírito Santo?
No mesmo capítulo em que Paulo ensina que nem todos falam em línguas, ele também afirma que todos da igreja de Corinto, sem exceção, foram batizados em um só Espírito no Corpo de Cristo (1 Co 12.13). Todos foram batizados com o Espírito Santo, mas nem todos falaram em línguas (1 Co 12.30). Não deveria haver divisão na igreja por causa dos dons. Ninguém deve ser desprezado por não possuir determinado dom. E ninguém deve se sentir diminuído por não falar em línguas. Pois, não importa que dom a pessoa recebeu, porque o importante é saber que o mesmo Espírito é a fonte de todos os dons. “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). “Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?” (1 Co 12.15). “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (1Co 12.11).
No Pentecostes, cumprisse a promessa do Pai através do derramamento do Espírito sobre a Igreja. E é através do Espírito que alguém é batizado e inserido no Corpo de Cristo que é a Igreja (1Co 12.13). O batismo é ritual de iniciação. É apenas o começo e não o ápice de nossa caminhada cristã. No batismo no Espírito, nascemos para uma nova vida, e graças são comunicadas para que o crente possa viver em novidade de vida, expressando as virtudes de sua nova natureza. É o Espírito quem capacita o cristão a ser testemunha de Cristo. É através dos frutos Espírito que os cristãos são conhecidos (Mt 7.20) e não por qualquer dom em especial, pois a posse do mais extraordinário dos dons sem o fruto do amor não tem nenhum valor algum aos olhos de Deus (1 Co 13). Os falsos profetas não podem ser desmascarados se o critério de avaliação for a posse e o exercício dos dons, pois eles também parecem possuir muitos dons, como, por exemplo, o de profetizar. Jesus advertiu também dizendo: “Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22-23). Por isto também exorta o Apóstolo João: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4.1). E Paulo igualmente orienta a igreja, dizendo: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14.29). “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20). “Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores (Mt 7.15). “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas e farão tão grandes sinais e prodígios, que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mt 24.24). Portanto, devemos ser muito criteriosos, pois os falsos profetas espertamente se aproveitam da ignorância, da imprudência e da ingenuidade do povo de Deus.
Bispo Ildo Mello Desejando saber mais sobre o assunto, sugiro a leitura dos seguintes estudos:
5 Lições sobre os dons do Espírito Santo – http://escatologiacrista.blogspot.com.br/2008/12/dons-do-esprito.html Batizados com água e com fogo!
– http://escatologiacrista.blogspot.com.br/2011/04/batizados-com-agua-e-com-fogo.html
A Pneumatologia de John Wesley e os Dons Espirituais+
Introdução
John Wesley (1703–1791), o fundador do movimento metodista, desenvolveu uma teologia do Espírito Santo (“pneumatologia”) profundamente entrelaçada com sua visão da salvação e santidade cristã. Em meio ao Iluminismo do século XVIII e à influência do anglicanismo, Wesley abordou os dons espirituais (ou charismata) de forma distinta e equilibrada. Ele viveu num contexto em que muitos teólogos protestantes cessacionistas afirmavam que os milagres e dons extraordinários haviam cessado após a era apostólica, enquanto outros grupos alegavam revelações e manifestações que beiravam o fanatismo. Wesley navegou entre esses extremos: afirmou a continuidade da obra sobrenatural do Espírito em todos os tempos, ao mesmo tempo em que priorizou a santidade e a ordem, rejeitando abusos “entusiásticos”.
Este estudo examina a pneumatologia de John Wesley e sua visão dos dons espirituais a partir de fontes primárias (sermões, cartas, diários de Wesley) e fontes secundárias confiáveis (literatura metodista e estudos recentes). Inicialmente, situa-se Wesley em seu contexto histórico-teológico. Em seguida, analisa-se o desenvolvimento doutrinário de suas ideias sobre o Espírito Santo e os dons, incluindo o equilíbrio que Wesley faz entre dons “extraordinários” e os dons ou operações “ordinárias” do Espírito. O estudo prossegue com uma comparação entre a perspectiva wesleyana e outras tradições teológicas relevantes – incluindo o cessacionismo reformado clássico, a teologia pentecostal/carismática moderna e, quando pertinente, as visões católica e ortodoxa. Por fim, exploram-se as implicações práticas para a igreja contemporânea, considerando como as igrejas podem discernir os dons congregacionalmente, formar teologicamente pastores e fiéis sobre esses temas, e aplicar a “hermenêutica da santidade” de Wesley nos dias de hoje. Espera-se, assim, iluminar como Wesley entendia o Espírito Santo e os dons espirituais, e quais lições sua visão oferece para a prática e teologia cristã atual.
Contexto Histórico-Teológico de Wesley O cenário do século XVIII e o “entusiasmo”
John Wesley desenvolveu sua teologia em meio ao século XVIII, um período marcado de um lado pelo racionalismo iluminista e, de outro, por movimentos de renovação espiritual. Na Igreja da Inglaterra (anglicana) – da qual Wesley era clérigo – prevalecia uma atitude cautelosa, quando não cética, em relação a relatos de milagres e manifestações extraordinárias do Espírito. Alegações de profecias, curas ou línguas eram frequentemente rotuladas de “entusiasmo” – termo pejorativo na época, associado a fanatismo religioso e desequilíbrio emocional. Líderes e pensadores importantes advertiam contra “pretender dons extraordinários do Espírito Santo”. Por exemplo, o Bispo anglicano Joseph Butler, num encontro célebre em 1739, afirmou a Wesley: “ Senhor, fingir revelações e dons extraordinários do Espírito é algo horrendo ”. Wesley respondeu prontamente negando qualquer pretensão a dons extraordinários pessoais, dizendo que não reivindicava nada além do que “ todo cristão pode receber e deve esperar ” – ou seja, as graças e operações comuns do Espírito na salvação. Essa réplica ilustra a postura de Wesley: ele não se via como profeta milagreiro, mas também não aceitava a ideia de que o Espírito Santo estivesse ausente da vida da igreja.
Wesley encarou também opositores intelectuais do sobrenatural.
Conyers Middleton, um erudito influente, publicou em 1748 um tratado negando a ocorrência de milagres após o período apostólico. Middleton argumentava que os relatos dos Pais da Igreja sobre feitos milagrosos eram fraudulentos ou fruto de credulidade, e insinuava até que os próprios milagres de Cristo e dos apóstolos poderiam ser postos em dúvida. Wesley tomou para si o desafio de refutar Middleton. Em 1749, ele escreveu A Letter to the Rev. Dr. Conyers Middleton (Uma Carta ao Rev. Dr. Conyers Middleton), confrontando ponto por ponto o cessacionismo radical de Middleton. Wesley rejeitou com veemência a ideia de que “não houve milagres na Igreja primitiva” e que “todos os Pais da Igreja foram tolos ou impostores”. Ele via essa postura como uma ameaça à própria fé nos milagres bíblicos. Wesley, portanto, publicamente defendeu a continuidade dos milagres pós-bíblicos, ainda que reconhecendo a sua diminuição depois dos primeiros séculos (conforme veremos). Essa polêmica ilustra a tensão no período: de um lado, o deísmo racionalista e o ceticismo protestante desprezavam o sobrenatural; de outro, avivalistas como Wesley insistiam que Deus continuava a agir.
Influências teológicas e experiências pessoais Wesley foi teologicamente influenciado por diversas correntes. Como anglicano, ele prezava a herança dos Pais da Igreja (especialmente os primeiros séculos cristãos) e estava familiarizado tanto com a teologia ocidental (Agostinho) quanto com tradições orientais (ele valorizou, por exemplo, ideias de santificação próximas à noção ortodoxa de theosis, a deificação pela graça). Wesley leu sobre os milagres narrados por escritores antigos e medievais. Notavelmente, ele confessou ter ficado convencido de que muitos cristãos dos séculos II e III (por exemplo, os montanistas) realmente experimentaram os dons do Espírito. Em seu Journal (diário), na entrada de 15 de agosto de 1750, Wesley escreveu:
“Fiquei plenamente convencido do que há muito suspeitava: (1) que os montanistas, nos séculos II e III, foram cristãos genuínos e bíblicos; e (2) que a grande razão pela qual os dons miraculosos foram logo retirados não foi apenas que fé e santidade quase se perderam, mas que homens formais, frios e ortodoxos começaram já então a ridicularizar os dons que eles mesmos não possuíam, desacreditando-os como loucura ou embuste”. Essa declaração reveladora mostra Wesley criticando tanto a decadência espiritual interna da igreja quanto a hostilidade dos céticos “formalistas” como fatores para o declínio dos dons.
Outra influência importante foi o Pietismo e os Morávios. Wesley encontrou-se com os morávios (discípulos de Zinzendorf) durante sua viagem às colônias americanas e em Londres. Dos morávios, ele aprendeu sobre a ênfase na experiência do novo nascimento e no testemunho interior do Espírito. Embora os morávios não enfatizassem dons carismáticos espetaculares, eles cultivavam uma profunda vida no Espírito, o que confirmou em Wesley a convicção de que o cristão podia ter “sensações espirituais” reais da graça de Deus. A famosa experiência do “coração aquecido” de Wesley em Aldersgate (1738), quando sentiu-se interiormente assegurado do perdão de Deus, ilustra o tipo de vivência espiritual que ele considerava central – uma obra do Espírito Santo no íntimo, não necessariamente acompanhada de sinais externos milagrosos.
Contudo, o ministério prático de Wesley nos avivamentos frequentemente foi marcado por manifestações incomuns. Durante pregações ao ar livre e reuniões metodistas, havia relatos de pessoas caindo ao chão sob convicção, chorando convulsivamente, ou experimentando alegria exuberante. Wesley abordou esses fenômenos caso a caso, sem encorajá-los explicitamente, mas também sem rejeitá-los automaticamente. Ele os interpretava como possíveis efeitos do Espírito agindo nas consciências e corpos das pessoas. Além disso, registrou casos de cura em resposta à oração e até episódios de suposta libertação de espíritos malignos (exorcismos) em seus diários. Tais ocorrências levaram críticos a acusá-lo de incentivar “excessos”. Mas Wesley mantinha uma posição de equilíbrio: não promovia o sensacionalismo, tampouco sufocava o que poderia ser obra de Deus. Essa atitude mediadora refletia-se também em seus sermões e escritos doutrinários.
Em suma, Wesley desenvolveu sua pneumatologia num contexto onde precisava demarcar um caminho entre o ceticismo reformado clássico que desprezava os dons contínuos, e o entusiasmo extremo de alguns movimentos radicais. O pano de fundo do século XVIII – de frieza religiosa institucional de um lado e fervor avivalista de outro – formou a arena na qual Wesley formulou suas ideias sobre o Espírito Santo e Seus dons. A seguir, examinaremos como essas ideias se estruturaram doutrinariamente na obra de Wesley.
O Desenvolvimento Doutrinário: Wesley sobre o Espírito Santo e os Dons A pneumatologia de Wesley: Espírito Santo e salvação No coração da teologia de Wesley está a convicção de que toda a vida cristã é obra do Espírito Santo, desde o início até a perfeição. Sua pneumatologia é fortemente trinitária e orientada para a salvação (via salutis). Wesley entendia que as várias etapas da graça – graça preveniente, justificação/regeneração e santificação – são diferentes expressões da ação do Espírito de Deus na alma humana. Ele chegou a afirmar que “a teologia da graça é, de fato, uma teologia do Espírito Santo”, visto que é o Espírito quem aplica os méritos de Cristo em nós, vencendo nossa natureza pecaminosa e conformando-nos à imagem divina.
Um conceito central em Wesley é o “testemunho do Espírito”. Trata-se da certeza interior que o Espírito Santo dá ao crente de que ele é filho de Deus. Wesley pregava que esse testemunho direto do Espírito ao nosso espírito não era algo extraordinário ou restrito a alguns místicos, mas parte da “simples e autêntica cristandade” disponível a todos os nascidos de novo. Essa certeza é acompanhada pelos “frutos do Espírito”
(especialmente amor, alegria, paz, e santidade de vida). Assim, já vemos um padrão: Wesley considera normativo aquilo que é necessário para a salvação e santidade (por exemplo, arrependimento, novo nascimento, fruto do Espírito), e considera extraordinário o que não é essencial para esses propósitos, ainda que seja dado em alguns casos para edificação da Igreja.
Wesley também empregou a ideia de “sentidos espirituais” para explicar como o crente percebe as realidades divinas. Em seu tratado An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion, ele argumenta que, assim como possuímos cinco sentidos naturais para o mundo material, os regenerados recebem sentidos espirituais (pela habitação do Espírito) que os capacitam a experimentar a graça de Deus. Ele descreve a fé como “o olho da alma nascida de novo”, capaz de ver a luz de Cristo, e como “o ouvido da alma” para ouvir a voz de Deus. Essa epistemologia pneumática em Wesley mostra que experiência espiritual era componente legítimo de seu pensamento – um contraste marcante com a ênfase puramente racional de muitos de seus contemporâneos. No entanto, mesmo aqui Wesley manteve o foco soteriológico: os sentidos espirituais servem para receber e saber que Deus salva e santifica, não para buscar êxtases aleatórios. Ele enfatizou que “o testemunho do Espírito não é algo extraordinário ou ocasional, mas parte do cristianismo essencial”.
Portanto, Wesley definia claramente uma distinção entre a operação ordinária e a extraordinária do Espírito. A operação ordinária refere-se a tudo que pertence à salvação de qualquer crente (convicção de pecado, fé salvadora, novo nascimento, santificação, consolação do Espírito etc.), coisas que “são essenciais a todos os cristãos em todas as eras”. Já as manifestações extraordinárias – tais como milagres físicos e dons sobrenaturais (curas, profecias, línguas) – não são prometidas a todos nem indispensáveis à essência da vida cristã. Wesley repetidamente recusou-se a “confundir as operações extraordinárias com as ordinárias do Espírito”. Em sua visão, a maior obra do Espírito é a santificação e a renovação do coração, algo acessível a todos os fiéis, enquanto os dons miraculosos são dádivas específicas, concedidas “a alguns, em algumas épocas, conforme a sabedoria de Deus”.
Wesley e os dons extraordinários do Espírito Embora Wesley desse primazia à obra santificadora do Espírito, ele não era cessacionista. Pelo contrário, Wesley acreditava que os dons carismáticos mencionados no Novo Testamento continuaram a existir após a era apostólica – ainda que com menor frequência – e poderiam, em teoria, ocorrer em sua própria época. Em seu sermão 89 “O Caminho Sobremodo Excelente”
(1748, sobre 1Coríntios 12.31–13:13), Wesley reconhece abertamente os dons extraordinários do Espírito Santo concedidos à Igreja primitiva:
“tais como curar enfermos, profetizar (no sentido de predizer eventos futuros), falar em línguas estranhas nunca estudadas, e interpretar essas línguas por milagre”. Ele afirma que o apóstolo Paulo encorajou os cristãos de Corinto – especialmente os pregadores – a “cobiçar zelosamente esses melhores dons”, pois eles poderiam torná-los mais úteis no ministério. No entanto, Wesley logo destaca que Paulo ensina um “caminho mais excelente”, a saber, o caminho do amor, sem o qual os dons nada aproveitam. Essa ênfase paulina no amor ecoa fortemente na hermenêutica de Wesley: os dons, por mais desejáveis, são secundários em comparação com a caridade e a santidade de vida.
Importante observar é a análise histórica que Wesley faz nesse sermão sobre o desaparecimento (ou diminuição) dos dons milagrosos após os primeiros séculos. Ele declara:
“Não parece que esses dons extraordinários do Espírito Santo fossem comuns na Igreja por mais que dois ou três séculos. Raramente os ouvimos mencionados depois daquela época fatídica em que o imperador Constantino… encheu de riqueza, poder e honra os cristãos em geral e em particular o clero. Daí em diante, [os dons] quase totalmente cessaram; há pouquíssimos casos do tipo”. Ou seja, Wesley localiza a quase-cessação dos dons por volta da oficialização do cristianismo no Império Romano (séc. IV), conectando-a à corrupção da fé que veio com a institucionalização e riqueza. Ele rejeita explicitamente a explicação comum de que os dons cessaram porque “já não eram necessários quando o mundo se tornou cristão” – Wesley chama isso de “um erro deplorável; nem a vigésima parte do mundo era então cristã nem mesmo de nome”. Em vez disso, ele atribui a cessação à causa real:
“o amor de muitos – quase de todos os chamados cristãos – esfriou”. Os cristãos, diz Wesley, haviam “perdido o Espírito de Cristo” a tal ponto que, se o próprio Senhor examinasse a Igreja, dificilmente acharia fé verdadeira na terra.
Essa foi a causa real pela qual os dons extraordinários deixaram de se manifestar amplamente:
“os cristãos se tornaram pagãos de novo, e lhes restou apenas a forma morta [da religião]”.
Com essa análise, Wesley deixa claro que Deus não retirou arbitrariamente os dons – foi a igreja que se afastou da dinâmica espiritual necessária para recebê-los. Ele concorda até certo ponto com a sugestão de alguns Pais (como João Crisóstomo) de que a falta de fé e virtude na Igreja resultou na raridade de milagres. Assim, Wesley mantinha a possibilidade dos dons continuarem em qualquer época “até a restauração de todas as coisas” (isto é, até a consumação final), conforme escreveu em Principles of a Methodist Farther Explained: não há indicação bíblica de que os milagres seriam confinados aos tempos apostólicos ou a qualquer período específico.
Ao mesmo tempo, Wesley não encorajava uma busca frenética por manifestações miraculosas. Ele advertia contra confundir emoção religiosa ou supostos dons com a verdadeira obra do Espírito. Como pastor, Wesley frequentemente examinava relatos de milagres ou profecias com ceticismo santo, procurando evidências de autenticidade.
Um critério fundamental era o fruto espiritual: se uma suposta profecia ou cura resultasse em humildade, arrependimento, salvação de almas e maior santidade, Wesley a consideraria possivelmente genuína; mas se gerasse exibicionismo, orgulho espiritual ou desordem, ele a rotularia como “entusiasmo” equivocado. Ele chegou a dizer que “qualquer coisa além [do ordinário] que seja reivindicada apressadamente ou buscada principalmente é entusiasmo”. Em sua visão, um movimento autêntico do Espírito se discernia não por demonstrações de poder, mas pelo fruto de santidade que produzia. Wesley ensinava que o Espírito Santo poderia sim operar curas ou falar profeticamente, porém essas concessões extraordinárias visavam edificar a igreja e confirmar a mensagem do evangelho, não glorificar indivíduos. Além disso, não eram garantia de condição espiritual elevada – afinal, alguém podia ter dons milagrosos e ainda “ser miserável agora e na eternidade” se faltasse amor e retidão.
Essa postura teológica refletiu-se na prática de Wesley. Ele mesmo nunca reivindicou ter o “dom de curar” ou o “dom de profecia” permanente. Quando confrontado por autoridades acusando-o de se arrogar poderes apostólicos, Wesley foi firme em dizer:
“Não pretendo medida extraordinária alguma do Espírito. Nenhuma que não possa ser reclamada por todo ministro cristão… não reclamo dom extraordinário nenhum”. No caso citado pelo Bispo de Gloucester (William Warburton), que criticou Wesley por orar pelos doentes e estes serem curados, Wesley não negou os fatos, mas atribuiu tudo à providência de Deus ouvindo a oração, “ainda hoje respondendo além do curso ordinário da natureza”. Em outras palavras, Wesley reconhecia a realidade de milagres em seu ministério, mas os via como atos soberanos de Deus em resposta à fé, e não como poderes sob seu controle ou mérito pessoal. Ele evitava tanto a falsa modéstia de negar que milagres ocorreram quanto a vanglória de dizer que possuía tal dom.
Em resumo, John Wesley sustentava uma doutrina equilibrada sobre os dons espirituais: Eles não cessaram por decreto divino – a falta deles indica mais a tibieza da Igreja do que um fim da era do Espírito. Entretanto, os dons milagrosos são extraordinários, distribuídos conforme a vontade de Deus e não essenciais para a salvação individual. Wesley valorizou infinitamente mais a obra do Espírito que transforma o caráter (santificação) do que aquela que suspende as leis naturais. Ele ensinou sua congregação a “desejar ardentemente” tudo que Deus quisesse derramar para o bem comum, mas a trilhar acima de tudo o caminho excelente do amor. Esse entendimento nuançado permitiu a Wesley ser ao mesmo tempo um defensor da realidade dos dons espirituais e um guardião da sobriedade e ordem evangélica.
Comparações Teológicas com Outras Tradições As posições de Wesley sobre pneumatologia e dons espirituais podem ser melhor compreendidas quando colocadas em contraste com outras tradições cristãs relevantes. A seguir, comparamos a perspectiva wesleyana com: (a) o cessacionismo reformado clássico; (b) a teologia pentecostal/carismática moderna; e (c) brevemente, algumas perspectivas das igrejas católica e ortodoxa. Uma visão comparativa evidencia áreas de convergência e divergência, lançando luz sobre a originalidade de Wesley. A tabela abaixo resume alguns contrastes chave:
Aspecto John Wesley (Metodismo)
Trad. Reformada(Cessacionismo clássico)
Pentecostal/Carismática (Moderna)
Continuidade dos dons?
Acredita na continuidade teórica dos dons: milagres e carismas podem ocorrer em qualquer época, embora tenham se tornado raros por causa da frieza espiritual da Igreja.
Sustenta a cessação dos dons extraordinários após a era apostólica. Milagres serviram a fundação da Igreja e não são esperados como normais depois disso.
Afirma a plena continuidade e atualidade dos dons: milagres, línguas, profecias etc. fazem parte normal da vida da Igreja, sinais da obra presente do Espírito.
Propósito dos dons Confirmar e propagar o evangelho nos primórdios da Igreja; edificar a Igreja “para o bem comum” quando concedidos. Contudo, seu propósito é subsidiário à salvação e santidade (o mais excelente caminho do amor).
Confirmar a revelação e autoridade dos apóstolos no início da era cristã. Após estabelecer-se o cânon bíblico, os dons milagrosos teriam cumprido sua função e cessado. Milagres modernos são vistos com suspeita, atribuídos a fraude, engano ou zelo excessivo.
Capacitar a missão da Igreja e fortalecer a fé dos crentes. São vistos como manifestações do poder do Espírito que devem acompanhar a pregação e a vida devocional. Além de edificar, servem de sinais escatológicos (antecipo do Reino de Deus presente entre nós).
Ênfase principal da pneumatologia Obra interior do Espírito na salvação e santificação: arrependimento, novo nascimento, testemunho do Espírito e perfeição em amor são centrais e universais. Os dons extraordinários são reais, porém “não necessários para a santidade”.
Obra objetiva do Espírito através da Escritura e dos sacramentos (nas tradições reformadas magisteriais). Enfatiza-se regeneração e iluminação espiritual, mas muita ênfase em manifestações carismáticas é vista como distrativa ou perigosa. Busca-se uma espiritualidade sóbria, focada na Palavra.
Obra empoderadora do Espírito no crente após a conversão. Muitas correntes falam em “Batismo no Espírito Santo” como uma experiência distinta que reveste o crente de poder para testemunhar, geralmente evidenciada pelo dom de línguas ou outras manifestações. A espiritualidade valoriza experiências sensíveis com o Espírito tanto quanto (ou mais que) estruturas formais.
Atitude quanto a fenômenos espirituais “Aberto, mas cauteloso” – Wesley aceita a possibilidade de curas, profecias e outros milagres, especialmente em tempos de avivamento, mas exorta ao discernimento rigoroso. Manifestações devem ser avaliadas pelos frutos (santidade e amor gerados) e pela conformidade bíblica. Evita-se sensacionalismo e não se deve correr atrás de sinais por si só.
Geralmente cético ou crítico. Tendência a interpretar alegados milagres atuais como enganos ou coincidências providenciais em casos excepcionais. Qualquer pretensão a revelações fora da Bíblia é firmemente rejeitada como contrária ao princípio da suficiência das Escrituras. Ordem e decoro litúrgico são valorizados acima de espontaneidade emocional.
Muito receptiva e expectante. Encoraja-se ativamente a busca e prática dos dons (em obediência a 1Cor 14.1: “procurai com zelo os dons espirituais”). Cultos carismáticos incluem orações por cura, línguas, profecias direcionadas, etc., dentro de diretrizes (por exemplo, necessidade de intérprete de línguas). O risco de desordem é reconhecido, mas confia-se na orientação dinâmica do Espírito e na intervenção pastoral para correção, se necessário.
Autoridade e discernimento A autoridade final é a Escritura, lida à luz do “analogia da fé” que Wesley identifica com o amor e a santidade. Qualquer suposta revelação ou dom deve concordar com a Bíblia e com o caráter de Deus. Wesley confiava na comunidade (bandos e classes metodistas) e na liderança pastoral para julgar manifestações. Ele mesmo se submetia aos critérios bíblicos e rejeitava qualquer doutrina baseada apenas em revelação subjetiva.
Sola Scriptura: a Bíblia contém toda a revelação necessária; “as antigas formas de Deus revelar Sua vontade cessaram” (como afirma a Confissão de Westminster) após o período apostólico. Dessa forma, profecias atuais que pretendam guiar a Igreja não são reconhecidas. O discernimento concentra-se em garantir que o culto e a doutrina permaneçam fiéis à Escritura, evitando “novidades” carismáticas.
Afirma a Bíblia como padrão supremo, mas defende que o Espírito fala hoje de forma carismática, embora subordinada à Escritura. Há uma tensão entre liberdade do Espírito e estrutura: líderes carismáticos ensinam a julgar profecias e ensinos pela Bíblia, mas também incentivam os fiéis a ouvir “a voz do Espírito” em orientações pessoais. Igrejas pentecostais clássicas têm forte autoridade pastoral para regular práticas (por exemplo, decidindo quem pode falar em cultos), valorizando tanto a espontaneidade quanto a ordem carismática.
(Tabela: Comparação sintética entre a visão de Wesley e outras tradições quanto aos dons do Espírito.)
Wesley e o Cessacionismo Reformado Clássico A tradição reformada clássica, especialmente dentro do calvinismo, desenvolveu no período pós-Reforma a doutrina do cessacionismo – a crença de que certos dons miraculosos do Espírito (tais como línguas, profecias e curas sobrenaturais) cessaram com o fim da era dos apóstolos e a conclusão do cânon bíblico. Essa posição se consolidou em parte como reação às alegações de milagres na Igreja Católica medieval e contemporânea, que os reformadores viam como enganosos.
João Calvino, por exemplo, argumentou que os milagres serviram para dar lustre ao Evangelho enquanto este era novo e obscuro no mundo, assegurando sua confirmação divina; mas “é mais provável que foram prometidos apenas por um tempo”, tendo cessado quando não mais necessários para provar a doutrina. Calvino chegou a admitir que talvez o mundo tenha perdido os milagres por ingratidão, mas sustentou que o verdadeiro propósito das maravilhas era prover evidências suficientes na fundação do cristianismo. Ele conclui que “certamente vemos que o uso [dos milagres] cessou não muito depois [dos apóstolos], ou pelo menos tornou-se tão raro que nos autoriza a concluir que não seriam igualmente comuns em todas as épocas”. Assim, para Calvino e muitos teólogos reformados posteriores (como em parte os puritanos e, mais sistematicamente, B. B.
Warfield no século XIX), os dons extraordinários pertenceram à infância da Igreja. Após a completa revelação nas Escrituras, a Igreja deveria se guiar pela Palavra escrita, sem esperar contínuas manifestações espetaculares. Alegações de milagres posteriores foram frequentemente explicadas como fraudes humanas ou “imposturas de Satanás” para desviar os crédulos. Milagres reclamados por católicos medievais, por exemplo, Calvino tendia a descartar como “fábulas supersticiosas” ou enganos motivados por ambição. A Confissão de Westminster (1646) ecoa esse sentimento ao dizer que, tendo Deus revelado Sua vontade totalmente nas Escrituras, “aqueles antigos modos de revelar-Se ao Seu povo cessaram”. Em suma, o cessacionismo reformado via a era apostólica como única em termos carismáticos: os dons serviram para estabelecer a Igreja e autenticar a mensagem apostólica; cumprida essa função, eles encerraram-se providencialmente.
John Wesley diverge significativamente dessa visão reformada. Primeiramente, Wesley argumenta, como vimos, que não há base bíblica sólida para supor que Deus determinou um fim absoluto aos dons. Ele consideraria o cessacionismo estrito biblicamente infundado e historicamente incorreto. Citando a história, Wesley lembrava que nos séculos imediatamente posteriores aos apóstolos ainda houve relatos de dons espirituais na Igreja. De fato, ele se opôs frontalmente a Middleton (que ecoava a postura cessacionista) mostrando evidências de milagres no período dos Pais da Igreja e chamando de absurdo descartá-los a priori. Wesley concordaria que tais fenômenos tornaram-se raros, mas – ao contrário dos reformados – atribuiu isso não a um decreto divino de “fim dos dons”, e sim à falta de fé e amor da comunidade cristã (a “frieza do amor” e “falta de fé sobre a terra” de que ele fala).
Negar a possibilidade de milagres presentes, para Wesley, era quase um insulto ao poder e liberdade de Deus, além de um sintoma de incredulidade. Ele escreve que é um grande erro pensar que já não há necessidade dos dons; pelo contrário, a incredulidade é que impediu que continuassem.
Por outro lado, Wesley partilhava com a tradição reformada algumas preocupações. Ele também afirmava a suficiência das Escrituras como regra de fé – ou seja, não admitiria “novas revelações” doutrinárias que competissem com a Bíblia. Assim, ele rejeitava veementemente qualquer pretensão dos entusiastas de sua época de que tinham recebido verdades inéditas do Espírito. Em uma Farther Appeal to Men of Reason and Religion, Wesley concorda que o sinal seguro de ser guiado pelo Espírito não é reivindicar visões ou profecias, mas sim “uma completa mudança de mente e coração, levando a uma vida nova e santa”
– resposta idêntica, nota ele, à dada por um crítico (demonstrando sua concordância com critérios sóbrios de autenticidade espiritual). Nesse aspecto, Wesley e os reformados se unem: a evidência primária da obra de Deus é a santidade resultante, não a manifestação carismática em si.
Entretanto, em termos de atitude geral, Wesley manteve-se muito mais aberto que os reformados clássicos à possibilidade e à presença dos dons. Ele não ridicularizava relatos de cura ou línguas, desde que bem atestados e frutos de oração humilde. Ao contrário, achava que ridicularizar os dons – como muitos “homens formais e ortodoxos” fizeram – foi um dos fatores que extinguíram os dons no passado. Aqui há uma crítica implícita de Wesley aos próprios protestantes cessacionistas: sua atitude cética e sarcástica talvez continue “apagando o Espírito” (1Ts 5.19-20) na Igreja. Wesley preferia a postura de esperança expectante: encorajava os metodistas a estarem abertos a “tudo que Deus queira dar para o bem comum”, mesmo que não buscassem milagres pelo espetáculo. É emblemático que líderes metodistas americanos como Francis Asbury sonhavam que o metodismo permanecesse um movimento flexível e cheio do Espírito; Asbury via com bons olhos o fervor espontâneo – algo que, conforme historiadores, acabou florescendo no pentecostalismo posterior.
Resumindo, Wesley discorda do cessacionismo reformado ao afirmar a continuidade potencial dos dons e milagres até a atualidade, baseando-se na Escritura e nos primeiros séculos da Igreja. Ele concorda, porém, que os dons sem o Evangelho central nada são, e que qualquer prática espiritual deve ser julgada pela fidelidade bíblica. Wesley destaca o papel do Espírito na santificação e testemunho interior – ênfase menos presente no discurso reformado – e considera a ausência de dons mais como culpa humana do que como plano divino. Dessa maneira, Wesley posiciona-se historicamente como um mediador: defendeu a realidade das manifestações do Espírito contra o ceticismo calvinista e deísta, ao mesmo tempo em que contestou os abusos fanáticos de certos carismas, inclusive dentro do nascente metodismo, quando ocorriam desordens ou doutrinas estranhas. Essa mediação permitiu que o metodismo mantivesse tanto ortodoxia doutrinária quanto vitalidade espiritual.
Wesley e a Teologia Pentecostal/Carismática Moderna Não é raro ouvir que “John Wesley preparou o caminho para o pentecostalismo”. De fato, há um reconhecimento histórico de que o movimento pentecostal do século XX teve raízes no Movimento de Santidade do século XIX, o qual por sua vez descende do metodismo wesleyano. Vários dos primeiros líderes pentecostais vieram de igrejas metodistas ou santidade. Termos como “ pentecostal ” e a expressão “ batismo no Espírito Santo ” foram inicialmente empregados pelos próprios metodistas do século XIX, ainda que com significado distinto do que depois assumiram no pentecostalismo clássico. Por exemplo, o teólogo metodista John Fletcher de Madeley (um sucessor teológico de Wesley) descreveu a experiência da santificação plena como um “batismo no Espírito Santo em fogo purificador” – entendendo-o como segunda bênção de pureza. Os pentecostais do início do século XX herdaram essa noção de uma segunda experiência pós-conversão, porém a reinterpretaram como um batismo para recebimento de poder e dons (especialmente o dom de línguas como sinal inicial). Assim, há uma conexão inegável:
“não se pode falar de Pentecostalismo e Renovação Carismática à parte de suas raízes no metodismo”. Os metodistas “pentecostais” originais esperavam que Deus concedesse tudo o que estivesse prometido para edificação da Igreja, e as manifestações do Espírito realmente abundaram em vários avivamentos metodistas (especialmente nas camp meetings da América fronteiriça no século XIX). Tais manifestações incluíam curas milagrosas, sonhos e visões, tremores e êxtases – praticamente um prelúdio do que seriam os cultos pentecostais.
No entanto, ao comparar a teologia formulada de Wesley com a teologia pentecostal clássica, encontramos diferenças importantes de ênfase e compreensão:
• Diferente ênfase no “Batismo no Espírito Santo”: Wesley (e Fletcher) viam o “batismo no Espírito” como sinônimo da plena santificação – um derramamento de amor santo no coração do crente, purificando-o do pecado interior. Já a teologia pentecostal define o batismo no Espírito como um revestimento de poder para o serviço, usualmente acompanhado de evidências como falar em línguas. Para Wesley, o sinal da plenitude do Espírito era o amor perfeito e a vida irrepreensível, não uma manifestação específica como línguas. Ele até alertou que alguém poderia falar línguas ou profetizar e ainda carecer de amor verdadeiro – logo, faltaria o essencial. Os pentecostais concordam que o fruto do Espírito (amor) é vital, mas historicamente enfatizaram a glossolalia como evidência inicial do batismo no Espírito, algo que Wesley não ensinaria.
• Normatividade dos dons na igreja: Para o movimento pentecostal e carismático, exercitar os dons espirituais nas congregações é parte integral do culto e da vida comunitária. Busca-se ativamente a prática de 1Coríntios 12–14: cânticos espirituais, línguas e interpretação, profecias, orações de cura, etc. Wesley, por outro lado, não incorporou de forma explícita essas práticas nos cultos metodistas de sua época. Seus cultos seguiam em grande parte a liturgia anglicana, e as reuniões de classe focavam mais em testemunhos pessoais, confissão de pecados e aconselhamento espiritual do que em manifestações como línguas.
Línguas estranhas, especificamente, não eram algo buscado ou promovido pelos primeiros metodistas – tanto que não há registro significativo de glossolalia no metodismo do século XVIII. Wesley até menciona que em seu tempo as línguas não eram comumente vistas, mas isso ele atribuía à falta de espera ou reticência da igreja, não que fosse impossível ocorrer. Em contraste, no pentecostalismo, falar em línguas (como em Atos 2) tornou-se quase um distintivo identificador.
• Busca dos dons vs. ênfase na santidade: Wesley priorizava a busca da santidade (santificação) sobre a busca de dons. Ele interpretaria “procurai com zelo os melhores dons”
(1Co 12.31) como válido, mas subordinado ao “mostrarei um caminho mais excelente”
(o amor em 1Co 13). Carismáticos modernos frequentemente encorajam os fiéis a buscarem ativamente dons específicos (por ex., participar de conferências de cura, “escola de profetas”, etc.). Wesley provavelmente veria isso com cautela, temendo desviar o foco do essencial. Para ele, a plenitude do Espírito refletir-se-ia primariamente em vidas santas e em serviço humilde, não necessariamente em quantos milagres ocorrem. Isso não quer dizer que pentecostais desprezem a santidade – de fato, a tradição pentecostal clássica também advém da ênfase holiness e sustenta padrões morais elevados. Mas a teologia prática difere: Wesley estruturou metodicamente comunidades para crescerem em graça (classes, bandas, disciplina eclesiástica), enquanto igrejas carismáticas estruturam muito de sua vida ao redor de cultos de avivamento e momentos de ministração de dons.
• Hermêutica e doutrina do Espírito: Wesley, como vimos, advogava uma “hermenêutica da santidade”. Os pentecostais desenvolvem o que alguns chamam de “leitura anabatista-lucana”
– dando atenção especial ao livro de Atos como modelo para a igreja atual. Assim, histórias como o Pentecostes, a casa de Cornélio (At 10) e Éfeso (At 19) moldam a expectativa de experiências atuais. Wesley certamente pregou sobre Atos e cria na atualidade de tais eventos, mas ele interpretava os padrões bíblicos principalmente em função do que promove santidade. Por exemplo, ele lia o Pentecostes não tanto como repetível em línguas de fogo visíveis, mas como indicando a necessidade de cada crente ter seu “coração estranhamente aquecido” pelo Espírito (um Pentecostes interior). Já um pregador pentecostal enfatizaria os carismas exteriores como repetíveis. Dessa forma, a seleção e peso dos textos bíblicos diferem: Wesley se apoia fortemente em Romanos 8 (vida no Espírito, testemunho de adoção) e 1João (amor aperfeiçoado lança fora o medo) – textos de cunho ético e interior; os carismáticos destacam Joel 2/Atos 2 (derramamento do Espírito com profecia), 1Cor 12 (lista dos dons) e Marcos 16.17-18 (sinais que acompanharão os que crêem). Ambos aceitam todos esses textos, mas dão ênfases distintas no ensino e prática.
Em termos de resultado prático, Wesley poderia ser chamado de “carismático não-declarado”. Ele experimentou frequentemente obras extraordinárias do Espírito – há registros de cura física mediante oração, pessoas relatando visões ou profecias sob sua pregação, livramentos milagrosos em suas viagens, etc.. Wesley não negou esses fatos; pelo contrário, os documentou e agradeceu a Deus por eles. Nesse sentido, um historiador afirma que Wesley, “apesar de não reivindicar nem ensinar a normatividade dos dons extraordinários, frequentemente presenciou curas, libertações, profecias e até um questionável caso de ressuscitação de um morto”. A diferença é que Wesley não edificou sua teologia em torno dessas manifestações, enquanto o pentecostalismo as elevou a elemento central de sua identidade. Inclusive, Wesley veria perigo em qualquer movimento que definisse a si mesmo primeiramente pelos dons em vez da santidade. Ele argumentaria que “o Espírito Santo foi dado com um propósito mais excelente: produzir os frutos ordinários (santidade) essenciais a todos os cristãos”, e que isso deve ter precedência sobre os aspectos extraordinários.
Contudo, há grande afinidade espiritual entre Wesley e o pentecostalismo no reconhecimento de que o cristianismo é vivência do poder do Espírito. Ambos rejeitam uma religião meramente formal e intelectual. Historicamente, pode-se dizer que o DNA teológico de Wesley está presente no pentecostalismo – a sede por uma experiência real de Deus, a noção de uma segunda obra da graça (ainda que com entendimento diferente), o uso de linguagem de Pentecostes, e mesmo a ênfase na santidade moral que muitas igrejas pentecostais mantiveram em seu início. De fato, alguns metodistas carismáticos contemporâneos se autodenominam “metodicostais”
(methocostal), afirmando essa herança. Pesquisadores notam que “não se trata apenas de uma conexão histórica; há também uma conexão ontológica entre Wesley e o cristianismo carismático”, pois ambos compartilham a crença na atuação presente dos dons do Espírito na vida e ministério cristão.
Em conclusão desta comparação, Wesley pode ser visto nem como cessacionista, nem exatamente como “carismático” nos termos modernos, mas como um precursor equilibrado. Um autor o chamou de “quase carismático”: Wesley não ensinou que os dons milagrosos fossem normativos para todos os crentes, mas também não os excluiu; ele praticou uma abertura carismática (pela oração e fé) sem construir uma doutrina carismática sistemática. Essa postura pode servir de ponte entre evangélicos tradicionais e carismáticos, uma vez que afirma o sobrenatural sem perder de vista o telos central da vida cristã – a conformidade com Cristo em amor e santidade.
Perspectivas Católica e Ortodoxa sobre os Dons (e relevância para Wesley)
As tradições católica romana e ortodoxa oriental oferecem ainda outro ângulo de comparação, especialmente porque compartilham com Wesley certas ênfases (como a busca da santidade) e, ao mesmo tempo, diferem tanto do cessacionismo protestante quanto do pentecostalismo no modo de enquadrar as manifestações carismáticas.
Igreja Católica:
Historicamente, a Igreja Católica nunca adotou uma doutrina de cessacionismo explícita. Ao contrário, a teologia católica manteve a noção de charismata (dons gratuitos) dados pelo Espírito Santo em todas as eras para o benefício da Igreja. Por exemplo, São Tomás de Aquino no século XIII distinguiu entre gratia gratum faciens (graça que torna alguém agradável a Deus – essencialmente santificante) e gratia gratis data (graça dada gratuitamente para serviço, como dons de milagres, línguas, profecia). Esses últimos, segundo Tomás, podem ser concedidos a qualquer pessoa conforme a necessidade da Igreja, independentemente da condição moral perfeita do indivíduo, e não para proveito próprio mas para o bem comum. Assim, a teologia católica clássica deixou espaço para reconhecer milagres ao longo da história (especialmente associados a santos). De fato, processos de canonização exigem comprovação de milagres post-mortem atribuídos à intercessão do santo, atestando a crença de que Deus continua a operar sinais.
Contudo, após os abusos de movimentos como o montanismo no século II (considerado herético), a Igreja Católica adotou uma postura prudente e institucional no trato dos carismas. As supostas revelações privadas ou profecias deveriam submeter-se ao discernimento e aprovação das autoridades eclesiásticas. Os charismata foram vistos como presentes, mas em âmbito mais restrito – por exemplo, em mosteiros, na vida de santos místicos, ou em contextos missionários – não tanto como parte do culto regular de cada paróquia. Até meados do século XX, um católico médio vivenciava o sobrenatural principalmente através dos sacramentos (eucaristia, etc.) e eventualmente de eventos milagrosos pontuais (aparições marianas, curas em Lourdes, etc.), mas não esperaria falar em línguas numa missa dominical.
Isso mudou um pouco com o Concílio Vaticano II (1962-65) e a emergência da Renovação Carismática Católica (RCC) a partir de 1967. O Vaticano II, em Lumen Gentium 12, declarou enfaticamente:
“O Espírito Santo… distribui entre os fiéis de toda classe dons especiais [charismata], atribuindo-os a cada um conforme quer. Com esses dons Ele os torna aptos e prontos para assumir várias obras e encargos úteis para a renovação e maior expansão da Igreja… Esses carismas extraordinários, sejam os mais brilhantes sejam os mais simples e amplamente difundidos, devem ser recebidos com gratidão e consolação, pois são perfeitamente adequados e úteis às necessidades da Igreja”. Esta afirmação conciliar – que também cita 1Coríntios 12.7,11 – poderia ser subscrita por John Wesley sem hesitação.
Ela ecoa a ideia de Wesley de que o Espírito reparte dons como quer a todos os estados de vida, e que esses dons (notáveis ou simples) devem ser acolhidos com gratidão e usados para edificar a Igreja.
Após o Vaticano II, o próprio papa Paulo VI e especialmente João Paulo II e o atual papa Francisco encorajaram a redescoberta dos carismas. Francisco ensinou que “os carismas são dons dados a alguns para serem úteis a todos… não para benefício próprio, mas para a beleza e missão da Igreja”. Essa linguagem é semelhante ao que Wesley escrevera dois séculos antes sobre os dons dados “para o bem comum” (1Co 12.7) e não para vanglória pessoal. Assim, podemos dizer que a visão católica pós-Vaticano II e a de Wesley convergem notavelmente: ambos afirmam a presença contínua dos carismas e a necessidade de discernimento e gratidão ao Espírito por eles.
Uma diferença estaria na estrutura de discernimento. Na Igreja Católica, o discernimento dos carismas tende a ser mais centralizado: os bispos e o Magistério avaliam fenômenos (por exemplo, mensagens proféticas como Fátima ou eventos como a Renovação Carismática em si receberam análises teológicas e diretrizes oficiais). Wesley, operando numa dinâmica de movimento, confiou o discernimento primeiramente à liderança pastoral e comunitária local, sempre sob o crivo escriturístico. Mas interessante notar: Wesley demandava que qualquer exercício carismático fosse “interpretado à luz de nossa própria tradição” e integrado na ordem da Igreja. Isso lembra a exortação católica de que carismáticos leigos não devem agir à revelia, mas em união com seu clero e tradição. De fato, diretrizes da Igreja Metodista Unida afirmam:
“Carismáticos devem interpretar seus dons e experiências à luz de suas próprias tradições… quando isso não ocorre, surgem divisões”. Ou seja, tanto Wesley/Metodismo quanto a Igreja Católica enfatizam que os dons autênticos não causam cisão, antes se harmonizam com a doutrina e governo legítimo da Igreja (1Co 14.33,40).
Igrejas Ortodoxas:
A tradição ortodoxa compartilha com a católica a crença em milagres contínuos e dons espirituais, especialmente manifestos na vida ascética e sacramental. Os ortodoxos valorizam profundamente a ação do Espírito na theosis (deificação do crente), entendendo que todo o processo de santificação e iluminação é obra carismática do Espírito. Eles reverenciam relatos de santos que possuíram dons extraordinários, como dom da visão espiritual (insight profético), dom de curas, incorrupção de relíquias, etc. Contudo, similar à católica, a Ortodoxia historicamente não promoveu algo como reuniões de avivamento ou encorajamento generalizado para leigos falarem em línguas. Há alguns episódios de fervor carismático na história ortodoxa – por exemplo, grupos como os “ khlysts ” na Rússia czarista praticavam êxtases e profecias (foram considerados heréticos), e no século XX pequenas correntes ortodoxas envolveram-se na Renovação Carismática. Mas, mainstream, a Ortodoxia confia sobretudo na mística sacramental e no silêncio contemplativo (hesicasmo) como espaços da ação do Espírito, mais do que em manifestações pentecostais públicas.
Mesmo assim, na hagiografia ortodoxa abundam carismas: São Serafim de Sarov (séc. XIX) conversava com o Espírito Santo como com um amigo e alguns afirmam que ele brilhou de luz (dons visionários); muitos Starets (elders espirituais) eram consultados por possuírem dons de discernimento dos corações; há relatos de monges que oraram em línguas angélicas no êxtase da oração de Jesus, etc. Mas essas coisas ocorrem em contextos de altíssima santidade pessoal, nunca fora da busca da virtude. Dessa forma, os ortodoxos amarram intimamente carisma e santidade – um santo faz milagres porque está unido a Deus, tendo purificado as paixões. Wesley certamente aprovaria essa conexão. Ele mesmo afirmava que os dons desapareceram quando a santidade diminuiu, implicando que uma efusão renovada dos dons exigiria um retorno da devoção fervorosa ( “fé e virtude” como citou de Crisóstomo). Para Wesley, nenhum avivamento externo genuíno vem sem avivamento moral interno.
Assim, podemos dizer que Wesley está mais próximo das igrejas histórica-católica-ortodoxas do que de muitos contemporâneos protestantes de seu tempo no ponto de crer que milagres não pararam completamente. Ele inclusive sustentou a legitimidade de fenômenos católicos antigos que colegas protestantes ridicularizavam. Por outro lado, Wesley se alinharia com a ênfase oriental de que o alvo principal é a união com Deus em santidade, não os sinais. Sua “hermenêutica da santidade” casa-se com a visão oriental de que a presença do Espírito se manifesta primariamente na transformação do fiel em ikon (imagem viva) de Cristo. Os milagres exteriores são subprodutos que Deus concede em seu amor, mas não substituem a luta ascética e o crescimento ético.
Em síntese, Wesley compartilha com a tradição católico-ortodoxa a abertura à dimensão carismática contínua e o respeito por manifestações históricas do Espírito, ao mesmo tempo em que concorda na necessidade de discernimento comunitário e subordinação dos dons à caridade e à edificação eclesial. Ele diverge do cessacionismo reformado ao recusar limitar o Espírito a uma era passada, e diverge do pentecostalismo recente ao não fazer dos carismas um programa ou expectativa universal desvinculada da maturidade espiritual. Nisso tudo, Wesley representa uma via pneumatológica moderada e rica, que dialoga com diversos polos da tradição cristã.
Implicações e Aplicações Práticas para a Igreja Contemporânea Estudar a pneumatologia de John Wesley e sua visão dos dons espirituais não é apenas um exercício histórico; oferece também princípios valiosos para a vida e liderança cristã hoje. Destacam-se pelo menos três áreas de implicação prática: (1) as práticas de discernimento congregacional relacionadas aos dons e manifestações do Espírito; (2) o treinamento teológico e pastoral sobre os dons espirituais nas igrejas; e (3) a aplicação da hermenêutica da santidade de Wesley na leitura bíblica e na vivência dos dons nos dias atuais. Em cada área, as ideias de Wesley podem ajudar a Igreja contemporânea a buscar um caminho equilibrado – aberto ao mover do Espírito, mas centrado em sua missão primordial de produzir discípulos santos e amorosos.
Discernimento Congregacional dos Dons e Manifestações Wesley ensinou seus seguidores a não “apagar o Espírito” (cf. 1Ts 5.19) nem “desprezar as profecias”, mas ao mesmo tempo “provar todas as coisas e reter o bem” (1Ts 5.20-21). Esse equilíbrio continua essencial.
Como uma congregação local pode discernir autenticamente os dons e manifestações do Espírito?
Eis alguns pontos orientadores derivados da abordagem wesleyana:
• Priorizar os “frutos dignos de arrependimento”:
Wesley avaliava fenômenos espirituais pelo critério de frutos. Assim, uma igreja hoje, ao lidar com alguém reivindicando um dom (por exemplo, de profecia), deve observar o caráter e os efeitos produzidos. A profecia leva a comunidade a maior fidelidade, unidade e arrependimento? Uma suposta cura resulta em ações de graças humildes a Deus? Se sim, há bons indícios de autenticidade. Se, pelo contrário, a manifestação gera confusão, vanglória pessoal ou divisão, deve-se ter cautela ou mesmo corrigir/caridosamente refrear. Wesley disse que todo dom extraordinário deve ser julgado por seu “fim último” – promover a santidade. Igrejas podem formar grupos de discernimento espiritual (tal como conselhos ou equipes pastorais) que orem e reflitam sobre ocorrências à luz desses frutos.
• Fundamentar-se nas Escrituras e na Doutrina:
Wesley não permitia que nenhuma experiência reinterpretasse o evangelho. Do mesmo modo, comunidades hoje precisam firmar as bases bíblicas e doutrinárias do exercício dos dons. Por exemplo, 1Coríntios 12–14 deve ser bem ensinado: Paulo dá instruções claras de ordem (um fala de cada vez, haja interpretação de línguas, sujeitos os espíritos dos profetas etc.). Uma comunidade instruída nesses princípios terá parâmetros para julgar se algo está fora do escopo bíblico. Além disso, um entendimento teológico robusto (como o de Wesley) – que vincula os dons ao amor e ao serviço – pode ser ensinado aos membros, moldando a cultura congregacional para procurar os dons “com um propósito de edificação, não de espetáculo”. Em termos práticos, igrejas podem criar momentos de ensino e reflexão sobre experiências espirituais, integrando-as com a teologia clássica (assim evita-se o fenômeno sem fundamento).
• Cultivar uma atmosfera de oração e expectativa reverente:
Wesley advogava pedir a Deus tudo que Ele quisesse dar. Ele mesmo orava por enfermos e orientação divina esperando que Deus pudesse responder com poder. Portanto, igrejas devem orar com fé tanto pelas curas físicas quanto por sabedoria e dons de liderança, deixando o resultado a Deus. Ao mesmo tempo, a expectativa deve ser reverente e submissa – como Wesley dizia, buscar os dons não de forma apressada ou presunçosa, mas subordinada à vontade de Deus. Na prática, isso significa que o culto e as reuniões de oração deem espaço para orações espontâneas por situações de milagre, momentos de silêncio ouvindo o Espírito, sem, porém, cair em pressões emocionais ou manipulação para “forçar” um milagre. Uma dica é seguir Wesley ao sempre vincular oração por dons a clamor por santidade: por exemplo, antes de pedir um sinal externo, a congregação pede a Deus que purifique os corações – assim mantém-se a prioridade correta.
• Estruturas de prestação de contas e orientação:
Wesley implantou no metodismo primitivo um sistema de classes e bandas onde as pessoas compartilhavam livremente suas experiências espirituais e recebiam correção fraterna quando necessário. Hoje, igrejas locais podem se beneficiar de estruturar espaços seguros para membros partilharem possíveis mensagens proféticas, sonhos ou outros impulsos espirituais. Esses podem ser primeiramente testados em um grupo menor diante de líderes maduros, antes de serem trazidos publicamente. Isso evita que o culto dominical seja pego de surpresa por algo estranho sem avaliação. Também permite mentorear aqueles que manifestam dons – ensinando-os humildade e precisão. Tal prática reflete o conselho do próprio Wesley de que os metodistas carismáticos interpretem suas experiências à luz de sua tradição, para prevenir divisões e abusos.
• Não sufocar, nem supervalorizar as manifestações:
Inspirados em Wesley, líderes devem transmitir à congregação uma dupla mensagem: (1)
Deus pode sim agir de modo surpreendente e nós damos liberdade ao Espírito – portanto, não vamos zombar ou rejeitar algo apenas porque é incomum; (2)
Nosso foco, entretanto, permanece em Cristo e na santidade – não faremos dos sinais a medida primária da presença de Deus. Essa mentalidade evita os dois extremos. Por exemplo, se alguém tem uma palavra profética, a liderança a ouve atentamente (não despreza), mas depois pergunta: “Isto está de acordo com as Escrituras? Edifica? Testifica com o que Deus já tem falado?”. Agindo assim, a comunidade aprende que é amada e guiada pelo Espírito, mas também aprende maturidade para não ser “levada por todo vento” de espiritualidade.
Formação Teológica e Pastoral sobre os Dons Espirituais Nas últimas décadas, muitas denominações metodistas e tradicionais enfrentaram o desafio de lidar com membros e líderes influenciados pelo movimento carismático mundial.
Como formar teológica e pastoralmente ministros e leigos para uma abordagem saudável dos dons? A herança de Wesley oferece vários insights:
• Incluir a Pneumatologia de Wesley no currículo teológico:
Seminários e cursos teológicos das igrejas de tradição wesleyana devem resgatar o ensino de Wesley sobre o Espírito. Infelizmente, durante parte do século XX, alguns metodistas tornaram-se cessacionistas na prática, negligenciando Wesley. É crucial ensinar novos pastores o que Wesley escreveu em sermões como “O Caminho Mais Excelente” e suas cartas (por exemplo, a Wesley vs. Middleton). Isso daria aos ministros um fundamento histórico-teológico para abordar questões carismáticas de forma informada. Além disso, o exemplo de Wesley debatendo teólogos cessacionistas e, simultaneamente, corrigindo fanáticos, pode inspirar uma postura semelhante hoje: dialogar tanto com igrejas cessacionistas (por exemplo, batistas ou presbiterianas conservadoras) quanto com as intensamente carismáticas, oferecendo uma perspectiva equilibrada.
• Recuperar o conceito de “teologia prática do Espírito Santo”:
Wesley, nota-se, desenvolveu uma “teologia prática” do Espírito: não apenas teoria, mas métodos (daí “metodista”) para viver no Espírito. Pastores em treinamento podem aprender, por exemplo, a conduzir reuniões de oração no estilo de Wesley – que combinavam cânticos, orações espontâneas e compartilhamento de testemunhos, mantendo ordem e propósito edificante. Ensinar sobre os pequenos grupos wesleyanos (classes e bandas) também é formar líderes para discipular experiências carismáticas em contextos íntimos. Isso previne dois problemas: a falta total de abertura (que sufoca o Espírito) e o sensacionalismo público (que Wesley evitava).
• Doutrina da inteira santificação:
Wesley integrou dons e santidade sob a obra do mesmo Espírito. Assim, currículos pastorais devem enfatizar que busca dos dons sem santidade é vã, e, vice-versa, santidade autêntica frequentemente transborda em serviço dotado pelo Espírito. Um pastor bem formado deve ser capaz de pregar tanto sobre Galátas 5 (frutos do Espírito) quanto sobre 1Coríntios 12 (dons) mostrando que não há contradição: o mesmo Espírito concede ambos. Por exemplo, alunos de teologia poderiam estudar casos históricos – como avivamentos metodistas e pentecostais – analisando seus acertos e desvios à luz desse balanço.
• Orientação pastoral específica:
Pastores em campo frequentemente se deparam com situações concretas: alguém diz ter uma visão; um grupo quer começar um culto de oração por curas; membros jovens visitam uma igreja neopentecostal e voltam questionando por que sua igreja não fala em línguas. Wesley enfrentou paralelos em seu tempo. É útil treinar líderes para responderem sem medo nem desprezo. Se um fiel relata uma cura, o pastor pode agradecer a Deus publicamente e checar a veracidade discretamente (Wesley pedia atestados médicos quando possível). Se alguém deseja dons, o pastor pode orientá-lo a orar e buscar intimidade com Deus antes de tudo.
Acompanhamento e ensino contínuo são chaves. Wesley era incansável escrevendo cartas e panfletos para guiar seu rebanho nesses assuntos – os líderes de hoje podem usar sermões, estudos e até mídias sociais para educar sobre dons espirituais de modo bíblico e wesleyano.
• Aprender com a Renovação Carismática, mas manter identidade Wesleyana:
A Igreja Metodista e afins têm beneficiado-se de uma “injeção” de vigor carismático em alguns contextos, mas há também casos de tensões e divisões. Um conselho prático extraído de um documento metodista:
“Quando carismáticos metodistas adotam integralmente a linha pentecostal clássica, deixam de ser metodistas – pelo menos no sentido wesleyano”. Ou seja, faz-se necessário situar o movimento carismático dentro da teologia wesleyana. Treinamentos podem enfatizar pontos em que divergimos de algumas teologias carismáticas populares – por exemplo, prosperidade material não era sinal espiritual para Wesley; ou o Espírito não elimina a necessidade de Medicina (Wesley, apesar de crer em cura milagrosa, usava e ensinava remédios). Pastores informados poderão assim abraçar o que é bom (fervor missionário, expectativa de milagres) e corrigir o que não condiz com nossa tradição (autoritarismo de certos “ungidos”, antiintelectualismo, etc.). Uma frase do guia da UMC resume:
“Reconheçam que, entendidos adequadamente no contexto de nossa própria tradição, os dons carismáticos podem ser considerados como um vento fresco do Espírito”. Ou seja, integrados ao arcabouço wesleyano, os carismas renovam a igreja; fora dele, podem causar rompimentos.
Aplicando a “Hermenêutica da Santidade” de Wesley Hoje Por fim, uma contribuição única de Wesley é sua hermenêutica da santidade – a ideia de que interpretamos a Escritura e as experiências espirituais a partir do objetivo central de promover santidade de coração e vida. Aplicar essa lente hoje pode trazer equilíbrio nas práticas carismáticas e no ensino bíblico a elas relacionado:
• Interpretação bíblica centrada em amor e santidade:
Wesley famosamente dizia que a “analogia da fé”
(a linha mestra para entender a Bíblia) é que Deus quer nos salvar do pecado e nos encher de amor. Se os cristãos modernos lessem passagens sobre dons espirituais com essa chave, evitariam erros. Por exemplo, 1Coríntios 12–14 deve ser lido não como licença para perseguição de poder espiritual, mas em continuidade com 1Coríntios 13 – ou seja, os dons listados em 1Cor 12 só cumprem seu propósito se usados no amor descrito em 1Cor 13. Wesley enfatizou exatamente isso: amor é “mais excelente” que todos os dons, portanto qualquer interpretação que coloque os dons no centro, deslocando o amor, está errada. Hoje, pregadores e professores podem emular Wesley ao pregar sobre, digamos,
Joel 2.28-29
(“derramarei meu Espírito…”): eles destacariam que esse derramamento visa levar todos (filhos e filhas, servos e servas) a conhecerem ao Senhor (Joel 2.27) e viverem em sua presença – não apenas produzir fenômenos.
• Ler a história da Igreja com lentes de santidade:
Wesley lia os primeiros séculos e via os dons enquanto a Igreja se manteve fervorosa; via o declínio moral e notava a cessação. Isso sugere que quando a Igreja se renova em santidade, dons podem reaparecer. De fato, há quem observe que os dons do Espírito frequentemente voltaram à tona em períodos de avivamento e reforma moral (ex.: nos morávios, metodistas primitivos, pentecostais iniciais com seu forte compromisso de santidade). Assim, Wesley nos convidaria a buscar primeiramente reavivar o amor e a pureza na Igreja; então, os carismas seguirão como “sinais que acompanharão os que crêem”
– não como fim em si, mas como bênçãos adicionais. Igrejas atuais que almejam ver mais do sobrenatural talvez devessem focar em discipulado mais profundo, abandono de pecados, oração e jejum – e confiar que Deus “confirmará a Palavra com sinais” no tempo oportuno (Mc 16.20). Essa hermenêutica da santidade coloca a causa antes do efeito, evitando frustrações de buscar dons divorciados da vida consagrada.
• Ética e dons caminham juntos:
Wesley diria que a verdadeira presença do Espírito resulta tanto em poder quanto em ética. Aplicando isso: comunidades carismáticas deveriam ser as mais comprometidas com justiça, verdade e amor ao próximo, ou então suas línguas angelicais soam ocas (1Co 13.1). Pastores podem continuamente lembrar que não há contradição entre servir os pobres e buscar curas milagrosas – ambos são obra do mesmo Espírito de amor. A hermenêutica da santidade aplicada leva congregações a checar: nossas práticas de dons têm nos feito melhores cristãos ? Mais mansos, puros, misericordiosos? Se não, algo está fora de lugar. Wesley afirmaria que qualquer movimento do Espírito que não leve ao Sermão do Monte em ação não é plenamente do Espírito.
• Espiritualidade integral:
Por fim, aplicar a visão de Wesley significa buscar uma espiritualidade integral. Ele uniu a “espiritualidade entusiasta”
(experiência viva do Espírito) com a “espiritualidade prática”
(vida de santidade cotidiana). Para hoje, isso inspira crentes a não segmentarem sua fé. Um exemplo: alguém que desfruta de dons no culto (profetiza ou canta em línguas) deve ser encorajado a buscar a presença do Espírito também na paciência no trânsito, no perdão a quem ofende, na honestidade no trabalho. Wesley enfatizaria que a marca do batismo do Espírito é vista no comportamento transformado na segunda-feira tanto quanto nos êxtases de domingo. Pregações e ensinamentos devem conectar essas esferas, formando cristãos carismáticos que também sejam modelos de piedade prática – tal qual Wesley e seus metodistas eram conhecidos tanto por seus hinários de fogo quanto por visitarem prisões e socorrerem os pobres.
Conclusão
A jornada que empreendemos pelo pensamento de John Wesley revelou uma pneumatologia rica e equilibrada, na qual fervor espiritual e rigor teológico andam de mãos dadas. Wesley concebeu o Espírito Santo como a alma da vida cristã, Aquele que desperta os mortos em pecado, testemunha ao coração do crente sua salvação, o impele à santidade e, sim, por vezes opera milagres e sinais para a glória de Cristo.
Longe de ser cessacionista, Wesley argumentou biblica e historicamente a favor da continuidade dos dons espirituais na Igreja, atribuindo seu arrefecimento à perda do amor e da fé genuína entre os cristãos. Ao mesmo tempo, longe de ser um entusiasta irresponsável, ele situou os carismas em perspectiva: eles são dádivas subordinadas ao propósito maior de Deus de nos fazer santos e amorosos. Em sua própria vida e ministério, Wesley mostrou que é possível ser cheio do Espírito sem alardes; testemunhar curas e maravilhas sem perder a sobriedade; abraçar a “extraordinária” intervenção divina sem descuidar das “ordinárias” obras de graça no coração.
Comparado a outras tradições, Wesley aparece como um ponto de convergência: concorda com os reformados que nenhuma revelação ou poder pode contrapor-se às Escrituras e que o Evangelho não necessita de constante espetacularidade para avançar – basta a pregação fiel e a obra interna do Espírito; mas concorda também com pentecostais e católicos que é Deus quem determina os limites e tempos de Seus dons, e não devemos pôr Ele numa caixa teológica de inatividade. Wesley seria crítico tanto da incredulidade organizada quanto da credulidade indisciplinada. Seu legado aponta para uma Igreja que ora com fé por avivamento e dons, mas que sabe que o maior milagre é um pecador transformado em santo.
Para a igreja contemporânea, especialmente as de matriz wesleyana, as lições são claras. Retomar a teologia de Wesley sobre o Espírito pode oferecer uma terceira via entre o racionalismo frio e o emocionalismo vazio. Significa fomentar comunidades vibrantes no Espírito, porém sempre avaliando as experiências pelo crivo da Escritura, da razão iluminada e da tradição dos santos. Significa formar discípulos que busquem não apenas os dons do Espírito, mas sobretudo o Espírito dos dons – isto é, o caráter de Cristo que o Espírito Santo deseja imprimir em nós. Conforme Wesley insistia, a marca de um mover autêntico do Espírito não é a quantidade de êxtase, mas a colheita de frutos de justiça, paz e gozo em Deus.
Em última análise, John Wesley nos desafia a manter o foco no “ mais excelente caminho ” (1Co 12.31b). Se hoje a Igreja buscar com zelo esse caminho do amor santificador – tal como Wesley o entendeu e viveu – não precisa temer abrir-se aos dons carismáticos. Pois, então, qualquer manifestação do Espírito encontrará solo fértil e guardado pela humildade e caridade. A pneumatologia wesleyana nos lembra que o Espírito Santo é tanto fogo do avivamento quanto o sopro suave que santifica; tanto dom de línguas quanto palavra de fé operando pelo amor. Unir esses aspectos é o desafio e o privilégio diante de nós. E para isso, nas palavras do próprio Wesley, “que Deus nos dê corações dispostos a receber tudo que Ele julgue bom conceder, para utilidade comum, sem jamais esquecer que a única coisa essencial é termos em nós a mente que havia em Cristo – em suma, sermos santos como Ele é santo”.
Bibliografia:
Sermões de John Wesley, especialmente “The More Excellent Way”
(Sermão 89) e “Scriptural Christianity”.
The Works of John Wesley (Diários e Cartas), incluindo a Carta a Dr. Middleton (1749) e entradas de diário de 15/8/1750.
Zivadinovic, Dojcin.
“Wesley and Charisma: An Analysis of John Wesley’s View of Spiritual Gifts.”
Andrews University Seminary Student Journal 1.2 (2015): 53-71.
Firebrand Magazine.
“Wesley, the Almost Charismatic” (Artigo online).
Guidelines: The UMC and the Charismatic Movement (Documento da Igreja Metodista Unida, 2012).
Calvino, João.
Comentário de Marcos 16 e outras obras (sobre cessação dos dons).
Concílio Vaticano II.
Lumen Gentium, §4 e 12 (Dogm. Const. sobre a Igreja).
Oden, Thomas C.
John Wesley’s Scriptural Christianity (Zondervan, 1994).
Rack, Henry.
Reasonable Enthusiast: John Wesley and the Rise of Methodism (1989).
Collins, Kenneth J.
The Theology of John Wesley: Holy Love and the Shape of Grace (2007).
(As citações em inglês fornecidas no texto foram livremente traduzidas para o português pelo autor desta resposta, mantendo-se referências para conferência.)
Dons do Espírito Santo+
5 lições sobre dons espirituais Preparadas por: Bispo José Ildo Swartele de Mello
Lição 1
" PNEUMÁTICA " – MINISTÉRIOS DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA Segunda-feira – UNIDADE NO CORPO DE CRISTO – Ef. 4 Terça-feira – 0 DEVIDO USO DE DONS ESPIRITUAIS – RM 12.3-8 Quarta-feira – 0 DOM PARA SERVIR – 1 Pe. 4.7-11 Quinta-feira – DIAKONIA – Lc. 10.40; 17:8; 22:26s; At.6.2 e Ef. 4.12 Sexta-feira – COMUNHÃO E HUMILDADE – Fl 2.1-11 Sábado – VIDA PLENA DO ESPÍRITO – CI 3.12-17 Para Estudar: 1 Cor. 12, 13 e 14.
TEXTO BÁSICO: "A respeito das coisas pertencentes ao Espírito, não quero, irmãos, que sejais ignorantes”.(I CORÍNTIOS 12: 1)
QUESTÕES INTRODUTÓRIAS PARA DISCUSSÃO E ESTUDO:
1. Quem é verdadeiramente espiritual?
2. Como é possível testar coisas e pessoas espirituais?
3. Pode a Igreja de Corinto servir de modelo de espiritualidade para nós? Por quê?
4. Em 1 Coríntios de 12 a 14 Paulo apresenta as respostas às questões referentes às coisas espirituais. Temos, portanto, as soluções, quais seriam, então, os problemas?
1 – A CIDADE DE CORINTO Das cidades gregas, a menos grega era por esse tempo a menos romana das colônias romanas. Era uma cidade em que gregos, latinos, sírios, asiáticos, egípcios e Judeus, compravam e vendiam, trabalhavam e folgavam, brigavam e se divertiam juntos, na cidade e nos seus portos, como em nenhuma outra parte da Grécia. Era um ponto de parada natural na rota de Roma para o Oriente. Corinto era populosa e próspera. Era um lugar muito cosmopolita e importante. Era moralmente corrupta e os seus habitantes eram profundamente propensos a satisfazer os seus desejos, fossem de que espécies fossem. Nas palavras de Von Dobschutz: "0 ideal dos Coríntios era o atrevido desenvolvimento do indivíduo. 0 negociante que conseguia lucro por todos e quaisquer meio, o amante de prazeres que se entregava a toda luxúria, o atleta acerado para todos os exercícios corporais e orgulhoso de sua força física, são os verdadeiros tipos coríntios, num mundo em que o homem não reconhecia nenhum superior e nenhuma lei, senão os seus desejos”.
2 – A IGREJA DE CORINTO A Igreja de Corinto atravessava inúmeras dificuldades: divisões, contendas, imoralidades (A igreja estava no mundo, como tinha de estar, mas o mundo estava na igreja, como não devia estar), carnalidades de toda espécie, heresias (alguns negavam a fé na ressurreição), ignorância e abuso dos dons espirituais, individualismo, presunção espiritual, orgulho, inveja, confusão e desordem nos cultos.
Os crentes de Corinto, de acordo com suas pretensões e seu espírito altivo, usavam os dons ou imitavam-nos em determinadas ocasiões, a fim de se exaltarem pessoalmente, e não a fim de glorificarem a Cristo. Não esperavam um pelo outro e nem respeitavam os próprios irmãos. Todos falavam ao mesmo tempo e faziam esforço para ocupar o centro do palco, onde se focalizava a atenção de todos. Em resumo, foi uma igreja que deu muita dor de cabeça ao Apóstolo Paulo.
3 – PNEUMÁTICA A) Paulo roga aos leitores no início da passagem (12:1), “A respeito de pneumática, não quero que sejais ignorantes”.O termo grego sublinhado define o tópico em consideração.
Em 1 Coríntios ele trata de uma série de assuntos, introduzidos pela observação feita em 7: 1, "Quanto ao que me escrevestes…" O assunto do casamento ‚ discutido em 7.1-24. Um tratamento corolário começa em 7.25: "Com respeito as virgens…" Um novo tópico introduzido em 8.1, usando uma fórmula similar: "No que se refere às coisas sacrificadas aos ¡dolos…”.
Outra consideração apresentada em 12.1, usando-se a mesma fórmula introdutória: "A respeito de pneumatika…" E o final (tratado brevemente)‚ introduzido em 16.1, usando-se novamente a fórmula: "Quanto à coleta para os santos…" Nesta carta, Paulo está tratando de uma série de variados assuntos que foram levantados pela correspondência mencionada em (7: 1) e pela comunicação recebida da igreja de Corinto (1:11). Cada tratamento ‚ coerente dentro de si, e discreto; o contexto circundante serve como pano de fundo. 0 tratamento de pneumática abrange os capítulos 12 a 14, estes trˆs capítulos funcionam como uma unidade, desenvolvendo um tópico comum.
B) 0 termo grego usado para identificar o tópico‚ usualmente traduzido: "dons espirituais".
Pneumática, contudo, mais inclusivo que charismata, que ‚ o termo escolhido quando se refere especificamente aos "dons" (ver 12.4, 3 1). A raiz do termo pneuma, que significa vento ou espírito. 0 resto do termo grego (tika)‚ desinência, como, por exemplo, em português "-tico" acrescentado ao radical "pneuma" tornar-se pneumático. 0 sentido da desinência ‚ semelhante ao português. 0 termo grego pneumática é neutro plural, referindo-se às coisas ou matérias que são características do Espírito ou pertencentes ao mesmo.
C) "A respeito das coisas pertencentes ao Espírito…". A discussão inclui dons, mas como parte de uma agenda mais ampla. 0 amor é central, como matéria de significação vital em qualquer consideração das "coisas pertencentes ao Espírito". É vital também a edificação da igreja, a ordem no culto e ministério. Esses não são dons espirituais em si, mas cruciais à obra do Espírito na igreja.
D) "Não quero que sejais ignorantes a respeito dessas coisas", declara Paulo. A ignorância espiritual, qualquer que seja (desinteresse, falta de estudo, confusão ou medo) deve ser eliminada da igreja. As conseqüências, inclusive anemia espiritual e ineficiência ministerial, são debilitantes. Pior ainda, ignorância gera ignorância (espiritual), da qual nascem diversas doutrinas erradas. Temos que estudar diligentemente as "coisas pertencentes ao Espírito". 0 nosso próprio bem-estar espiritual e o estabelecimento da nossa igreja dependem desse estudo.
CONCLUSÃO Esta lição é uma introdução a PNEUMÁTIKA, tema desenvolvido, de maneira brilhante, pelo apóstolo Paulo, nos capítulos 12 a 14. Em nenhum outro lugar da Bíblia se dá uma atenção Cio especial a este assunto de vital importância para vida da igreja, como aqui, nestes três capítulos, que por esta razão se revestem de inigualável importância para a compreensão das "coisas pertencentes ao Espírito".
É indispensável o conhecimento do contexto histórico, geográfico e social da cidade de Corinto, bem como das características e do perfil daquela igreja. E, a partir daí, tendo em mãos os escritos de Paulo, procurar reconstruir as circunstâncias que motivaram as "respostas" de Paulo nestes 3 capítulos, que estão perfeitamente conectados e formam uma unidade sobre o mesmo tema: – pneumática. E por isto não podem ser estudados como se fossem independentes um do outro.
0 que Paulo escreve a seguir visa instruir e trazer luz a um assunto de vital importância para a igreja, onde a ignorância pode levar a uma série de erros.
LIÇÃO 2 CHARISMATA – DONS DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – A Sabedoria do Espírito Santo – 1 Coríntios 2.6-16 Terça-feira – A unidade entre Cristo e o Espírito – 2 Cor. 3.17, 18 Quarta-feira – A missão do Espírito – Jo. 14.16-23, 26 Quinta-feira – 0 Espírito veio para dar testemunho de Cristo – Jo. 15.26 Sexta-feira – Veio para glorificar e anunciar a Cristo – Jo. 16.7-15 Sábado – Deus é soberano – 1 Tm. 6.15 e Ap. 1.5-8 PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 12: 1 -11 TEXTO BÁSICO: "Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo." (I Cor. 12.4).
INTRODUÇÃO QUESTÕES INTRODUTÓRIAS PARA DISCUSSÃO EM CLASSE 1. Os dons do Espírito são recompensas por um esforço feito?
2. Quais os propósitos dos dons espirituais?
3. Os coríntios davam proeminência a dons mais extraordinários, como o dom de línguas, em detrimento dos outros dons. Por quê? Quais eram as suas motivações? Quais foram as conseqüências desta atitude?
4. É correto pensar que o Espírito Santo leva a pessoa além daquilo que ela tem "meramente" em Jesus Cristo, ao invés de levar precisamente a Ele (v.3)? Ou, seria exato concluir que o Espírito leva os cristãos para cima e além da "maioria dos cristãos" e doutras pessoas, ao invés depara eles no serviço e no ministério?
5. Devemos nos sentir superiores, ou considerar outros superiores simplesmente baseados na posse deste ou daquele dom?
6. Em sua opinião, por que há diversidade de dons e serviços no ministério cristão?
1 – CHARISMATA A concepção paulina de “dons” é mais dinâmica do que o nosso uso moderno.
Nós temos essencialmente um só meio disponível de nos referir aos "dons” os quais qualificamos como "dons espirituais" ou "dons do Espírito". Paulo usa diversas descrições, as quais não só esclarecem o conceito bíblico, mas também nos ajudam a definir "dons".
0 termo chave, usado com referência específica aos dons espirituais, é charismata (12.4, 31; Rm. 12.6). 0 termo está na forma plural; o singular é " charis ma" (carisma). A raiz do termo, " charis ", é a palavra que no Novo Testamento significa "graça”. A conexão com graça é vital ao entendimento correto de dons espirituais, como se vê em Efésios 4.7: 'E a graça foi concedida a cada um…”E em Romanos 12.6, que semelhantemente apresenta uma "lista" de dons relacionando-os com graça: "tendo, porém, diferentes charismata segundo a charis que nos foi dada…" A desinência tem a nuança de algo dado. Assim, dons são descritos como diversas dádivas da graça, dádivas dadas a cada crente por Deus.
2 – OUTROS TERMOS Paulo também usa outros termos para descrever os dons, os quais são chamados "ministérios" ou "serviços" na igreja (12:5, 10, 11). Várias vezes (1 2:6, 11; Efésios 4.16), é usada a raiz grega da qual se deriva a palavra "energia". Esta é uma palavra composta (en-ergia), que significa "em-trabalhando". Ela descreve os dons espirituais como as operações de Deus nas pessoas individuais e através delas, Deus trabalhando dentro da sua igreja.
Finalmente, notamos a frase descritiva usada em 12.7, onde Paulo declara: "A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito para o proveito comum (isto é, para edificação da igreja)."O verbo “sendo dado" está no presente, descrevendo ação contínua, não um evento singular; semelhantemente, "manifestação" tem substantivo como desinência que indica processo. Assim, os dons são definidos como os meios contínuos através dos quais Deus revela sua Pessoa e obra na igreja (ver 14: 24-25).
Um carisma ou graça é definido por Paulo, em primeiro lugar, como um "serviço" (diaconia, v.5). Não é, portanto, primariamente um privilégio espiritual para o indivíduo, para sua própria edificação, prazer, ou distinção. Como um serviço, a graça é dada em prol dos outros; está presente para o bem da igreja. Os variados serviços das graças-dons visam, todos eles "um fim proveitoso” segundo vimos acima.
3 – SENHORIO DE CRISTO No v.3, Paulo vê a obra característica do Espírito Santo na confissão inteligível e simples de que Jesus é Senhor. 0 Espírito leva os homens a atribuírem senhorio a Cristo. 0 que não significa que é impossível a um descrente dizer as palavras: “Jesus é o Senhor". Obviamente ele pode dizer isso com zombaria. Mas somente sob a influência do Espírito Santo aquelas palavras podem ser ditas de forma sincera e cheia de significado. É só através do Espírito que uma pessoa pode conhecer a Jesus como seu Senhor e Salvador.
Entre os textos para meditação diária estão: 2 Cor. 3.17,18; Jo 14.16-23, 26; Jo 15.26; Jo 16.7-15, que falam do ministério do Espírito Santo em relação a pessoa de Jesus Cristo. No primeiro capítulo de I Coríntios, Paulo fala sobre tudo aquilo que os coríntios já têm. Observe que tudo o que os coríntios já têm, o têm "em Cristo". Foi a preocupação de Paulo em todo o decurso das epístolas aos coríntios ver o Espírito na mais íntima conexão com o Senhor e, portanto, com Deus (2 Cor 13.15). Note que os vs. 4,5 e 6 nos ensinam a trindade: "0 Espírito é o mesmo…"; "… mas o Senhor (JESUS) é o mesmo."; "… mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. "Resumindo, o Espírito não veio para concorrer com Cristo, ou para ir além de Cristo, mas para conduzir a Cristo, exaltando a Cristo como Senhor.
4 – DIVERSIDADE Pauto nos ensina que: "os dons são diversos% "Há diversidade nos serviços" e há "diversidade nas realizações". Vimos que a obra central do Espírito é honrar a Jesus, e esta obra não é, em sentida algum, monótona ou de uma só forma. 0 Espírito é rico na variedade de suas manifestações, daí o tríplice emprego da palavra "diversidade”.
Há diferentes modos de servir sob a unção do Espírito, mas as diferenças não são importantes, pois o Senhor é o mesmo. Os dons são diferentes, mas isto não deve nos dividir, porque é um e o mesmo Deus que outorga os Charismata em toda a sua diversidade. Paulo está muito preocupado com a unidade da Igreja. Trataremos de um modo especial deste assunto na próxima lição. Em seguida, Paulo descreve uma lista de dons espirituais. Além desta lista existem outras em Romanos 12.6-8; 1 Cor. 12.28-30; Efésios 4.7, 8, 11-13 e 1 Pe 4.9-11. 0 professor ou o aluno pode estudar sobre cada um deles consultando bons comentários e dicionários bíblicos e comparando cada definição, "examinando tudo e retendo o que é bom".
Terminamos esta lição comentando brevemente o v.11: "Mas um e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as como lhe apraz, a cada um individualmente”. Ensinando, mais uma vez, que dons divergentes não visam a propósitos divinos divergentes, pois é o mesmo Espírito que dá todos estes dons. "A cada um individualmente” lembra-nos que Deus nos trata como indivíduos. Ele leva em consideração a nossa personalidade, nossas características e habilidades pessoais que "os são natas, como também nossa capacidade. (ver parábola dos talentos em Mt. 25). E, para finalizar, nos ensina que os dons não são outorgados segundo queremos. Não é segundo a à do homem, mas segundo a vontade do Espírito: Como lhe apraz. Os dons têm nítida relação com nossa posição no corpo de Cristo, isto é, com a nossa função ou ministério. Estão em conexão com as” boas obras as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas (Ef. 2: 10).
CONCLUSÃO A concepção bíblica de "dons" é mais rica e amplamente definida do que a nossa: a nossa parece muito limitada e estéril pela comparação (como ela se reflete dentro do vocabulário usado). Além do mais, a concepção bíblica é mais dinâmica. Nós falamos de 9, 12 ou 21 dons (o número varia), e os designamos às categorias específicas (estas também variam), de acordo com classe ou função ou um outro esquema (que também varia). Biblicamente, os dons são simplesmente um meio de descrever a obra de Deus dentro e através do seu povo.
Paulo ensina que a obra do Espírito é exaltar a Cristo como Senhor. E que o Espírito é rico e criativo em suas manifestações visando a edificação do corpo de Cristo, onde não há lugar para divisões e interesses mesquinhos.
LIÇÃO 3 " ECLESIA " – IGREJA EM FOCO MEDITAÇÃO DIÁRIA Segunda-feira – Somos um só corpo – 1 Cor. 10.16, 17.
Terça-feira – A Igreja – Corpo de Cristo – Ef. 1.22, 23.
Quarta-feira – Unidos pela cruz de Cristo – Ef. 2.11-22 Quinta-feira – Unidade do Espírito – Ef. 4.3-16 Sexta-feira – A fim de que todos sejam um – Jo 17.11-26 Sábado – Nada façais por partidarismo – Fl. 2.1-11 Para Estudar: 1 Coríntios 12.12-31 TEXTO BÁSICO: “Para que não haja – ia divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. – (I Co 12.25)”.
INTRODUÇÃO:
Quando esteve no Brasil, Dr. Bush, numa de suas mensagens, contou a seguinte ilustração: “Dois homens trabalhavam quebrando pedras na construção de um grande edifício. Foi feita a mesma pergunta a cada um deles: ‘0 que você está fazendo?’ 0 primeiro respondeu: ‘Ora, estou quebrando pedras’; mas o segundo respondeu: ‘Estou ajudando a construir um grande edifício!’”
PARA DISCUSSÃO E ESTUDO 1. Quais as lições práticas que podemos tirar da ilustração acima para a vida da igreja?
2. Qual a relação existente entre esta ilustração e o tema da aula de hoje?
3. Por que Paulo dedica um quarto do seu estudo sobre PNEUMATIKA à questão da unidade da igreja? (Os 20 versículos deste parágrafo correspondem à aproximadamente 1/4 dos 84 versículos dedicados a PNEUMATIKA).
4. Ciúmes, rivalidades, arrogância, pretensões, estrelismos, individualismo, menosprezo pelos dons considerados não tão interessantes, busca de satisfação pessoal, exaltação do "eu", e negligência para com os frutos do Espírito eram Características da igreja de Corinto. 0 que fazer para não incorrermos nos mesmos erros?
1 – ECLESIA 0 vocábulo grego " eclesia " significa, basicamente, "os chamados para fora", dando a entender um grupo distinto, selecionado e tirado para fora de algo, era empregado para indicar "assembléia", "reunião convocada pelo arauto", "assembléia legislativa". Portanto, a "assembléia" pode ser política, social ou religiosa. É usada para indicar a igreja cristã, um culto cristão, mas nunca o mero edifício das reuniões ou templo. E pode ser muito bem traduzida por: "CONGREGAÇÃO REUNIDA".
Grande parte da natureza espiritual da igreja pode ser percebida através dos seus títulos que são encontrados nos seguintes textos: Ef. 1.4, 22e 23; Ef. 3; Ef. 2.15, 19, 21 e 22; Ef. 5.26, 27; 2 Cor. 3.18; Rm 8.17, 29 e 30; Rm 7.1-6; Mc 2.19, 20; 2 Cor. 11.2; Mt 5.48.
0 ministério da igreja é, essencialmente, a continuação do ministério do próprio Senhor Jesus Cristo. A vontade de Deus é unir todas as coisas em redor de Cristo, harmoniosamente (ver Ef. 1.10). No seio da igreja, Deus demonstra como isso pode ser feito, através da unidade do Espírito (Ef. 4.3). E o trecho de Ef. 1.23, ensina-nos que Deus utilizar-se-á da igreja como um instrumento para realizar tal plano.
2 – A ECLESIA ESTÁ EM FOCO O termo grego ECLESIA ou igreja aparece por nove vezes em 1 Coríntios 14 (vs. 4, 5, 12, 19, 23, 28, 33, 34 e 35) e uma vez em 1 Coríntios 12.28. No parágrafo 12.12-31, Eclesia é definido como "0 CORPO DE CRISTO" (o vocábulo "corpo" aparece dezessete vezes neste trecho). Paulo defende que os dons espirituais só podem ser entendidos dentro do contexto da IGREJA. Os dons foram dados a cada um individualmente visando o bem comum, isto é, a edificação do CORPO DE CRISTO. A "IGREJA" está em foco.
3 – A ANALOGIA DO CORPO Intimamente entrelaçada com a consideração Paulina de "dons" está à realidade da igreja. Em 1 Cor. 12, Paulo toma o corpo humano como metáfora e elabora a sua aplicabilidade à igreja. Ele mostra que os dons espirituais, como os diferentes membros do corpo, são diversos em qualidade e função – mas cada um tem importante e necessária contribuição a fazer ao corpo inteiro. Todos são indispensáveis. Assim, os dons são individualizados, mas sempre ligados à igreja.
Os dons são divinamente dados, não primariamente para abençoar a vida do recipiente individual, mas para o benefício da igreja. 0 dom não é dado para nosso deleite pessoal ou para obtermos vantagens sobre os outros, mas para servimos aos demais crentes.
4 – UNIDADE E HARMONIA Os dons não são dados para divisão, mas para a unidade do corpo. A igreja de Corinto estava a ponto de dividir-se e rachar-se entre o "ESPIRITUAL" e o "CRISTÃO", como se os dois fossem distintos entre si. Paulo inicia esta carta aos coríntios fazendo uma forte exortação à unidade (1 Cor. 1: 10- 13) e, no capítulo 3. Paulo repreende a carnalidades, as divisões, ciúmes e contendas que havia entre eles. E, em 11.17-34, Paulo afirma estar informado de que há divisões e partidos entre os coríntios.
Observe que a palavra chave deste texto é "UM". Releia o texto mais uma vez e responda: Quantas vezes ela aparece?
Num corpo existem órgãos com mais ou menos destaque; mas estas diferenças no Corpo de Cristo são meramente funcionais, não são qualitativas nem espirituais. Nenhuma parte deve sentir-se inferior ou superior com base nos seus dons ou na sua posição dentro do corpo, porque Deus mesmo foi quem dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprove. (v. 18).
As diversas partes do corpo não estão em feroz concorrência entre si, mas sim, se completam harmoniosamente, por amor da totalidade, segundo a orientação da Cabeça.
Compare esta passagem com a de Ef. 4, onde também Paulo está tratando de Dons espirituais: "Suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz: Há um só corpo e um só Espírito… Um só Senhor… A graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo… E concedeu dons aos homens… Para encher todas as coisas… E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para… Com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé”. Em 1 Cor. 12.25, o apóstolo fala do propósito de Deus ao dar dons aos membros da igreja. Confira.
Qual o resultado da ação do Espírito Santo na vida dos primeiros cristãos? (At. 2.44ss).
Em João 17.11, 21-23, Jesus orou para que fôssemos um, para que fôssemos aperfeiçoados em unidade. Só assim a igreja será bem sucedida em sua missão aqui no mundo.
V. 11 – "Um só e o mesmo Espírito” – sublinha a verdade de que os dons divergentes não visam a propósitos divinos divergentes. Os membros diferem, mas as suas diferenças não afetam o fato de que há uma unidade fundamental.
5 – CONFORME SEU SOBERANO PROPÓSITO V. 28 – Paulo ensina que no corpo natural Deus dispõe, estabelece as partes (vs. 18 e 24). O mesmo se dá com o corpo de Cristo. Não são as pessoas que escolhem se vão ser apóstolos, profetas… Ou… Etc, mas é Deus quem os estabelece na igreja. Paulo classifica estes vários dons para igreja em ordem de honra (comparar com a lista de Ef. 4: 11). É significativo que o dom de línguas, que os coríntios tinham em tão alta estima, seja mencionado por último.
Cada um de nós tem uma função, um ministério no Corpo de Cristo, aquelas "boas obras as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas" (Ef. 2.10).
Deus dará, a cada um individualmente, os dons necessários para que cada um possa estar capacitado par executar bem os seus serviços e ministérios já designados por Deus.
Vs. 15 e 16 – 0 pé pode muito bem ter ficado desalentado por sua incapacidade para exercer as complicadas funções da mão, mas "nem por isso deixa de ser do corpo". Os corpos precisam de pé como de mãos, de ouvidos como de olhos. Por melhor que sejam os olhos, o que seria do corpo se todos os seus; membros fossem olhos? Observe que Paulo coloca "0 TODO" no mais alto nível. Os membros não estão dispostos no corpo por acaso (vs. 6, 7, 11, 18, e 28).
Vs. 29 e 30 – Todas as perguntas destes dois versículos esperam um "NÃO" como resposta. 0 que nos ensina que nenhum dom em particular é destinado a todos os cristãos. Nem todos são apóstolos, nem todos profetizam, nem todos falam em línguas. Estes versículos são suficientes para provar que o dom de línguas não é o único sinal de que alguém foi batizado como Espírito Santo. Mesmo naquela época, nem todos os que eram batizados no Espírito Santo falavam em línguas. Os dons são dados como Deus quer, como lhe apraz e não como nós queremos.
CONCLUSÃO Paulo tratou dos membros mais humildes da igreja, que achavam que, por lhes faltarem dons espetaculares, poderiam ser postos fora do corpo. Tratou também da questão dos membros que, por possuírem dons de maior destaque, menosprezavam os seus irmãos menos dotados, chegando à soberba ao pensar que podiam funcionar bem, sem as "insignificantes" contribuições dos outros não tão "espirituais" e bem dotados quanto eles. Barcley afirmou: "Sempre que começamos a pensar em nossa importância pessoal na igreja, esvai-se a possibilidade de uma obra realmente cristã".
Os dons não são dados por acaso, a revelia ou conforme a nossa própria vontade, e nem visam à interesses mesquinhos e pessoais. Deus concedeu dons com o propósito de nos capacitar para os serviços, funções ou ministérios que Ele mesmo estabeleceu e designou para nós, visando a edificação e a unidade da Igreja.
Entendendo melhor a IGREJA será mais fácil compreender os dons espirituais, bem como o seu uso e propósito na igreja.
LIÇÃO 4 “ AGÁPE ” – O AMOR COMO O SUPREMO DOM DO ESPÍRITO MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – Uma dívida eterna – Rm 13.8-14 Terça-feira – 0 fruto do Espírito é amor – Gl. 5.23-26 Quarta-feira – 0 amor é derramado nos corações pelo Espírito – Rm. 5.5-8 Quinta-feira – A essência do Evangelho – I Jo 3.11-24 Sexta-feira – Deus é amor – I Jo 4.7-21 Sábado – Amor fraterno – Rm. 12.9-21 PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 13.1-13 TEXTO BÁSICO: "Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine”.(I Cor. 13.1).
INTRODUÇÃO As aparências enganam. 0 ser humano é facilmente seduzido pela forma. A embalagem atrai e leva o homem a perder de vista o mais importante: "0 CONTEÚDO". Mas Deus não se deixa enganar. Ele vê o coração, o íntimo, os motivos. Os grandes feitos e o bom desempenho podem impressionar a muitos, mas o que conta diante de Deus é a pureza de intenção. Não é tanto o que fazemos, mas como fazemos, com que coração realizamos até mesmo as mais simples tarefas.
"Porém o Senhor disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei, porque o Senhor não vê como vê o homem. 0 homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração”.(1 Sm 16.7)
"E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente:" PARA ESTUDO E DEBATE 1. Por que, destes três capítulos destinados ao estudo das coisas pertencentes ao Espírito Santo, Paulo reserva um capítulo inteiro para a questão do amor?
2. E porque este capítulo se encontra localizado exatamente nomeio dos outros dois? Haveria algum motivo especial?
3. Com relação as coisas espirituais, qual foi a ênfase de Cristo e das epístolas apostólicas? E qual tem sido a ênfase nos nossos dias?
4. É possível a manifestação de dons espirituais sem o elemento básico da vida cristã, o amor?
5. Como distinguir entre o falso e o verdadeiro? É pelos seus dons que se conhece um homem genuinamente espiritual?
6. Como é o amor de Deus? Como atua ele? Como se evidencia ele entre nós?
1 – AGÁPE – O Dom maior AMOR – No grego, " AGÁPE ", derivação da forma verbal "AGAPAO ". Não se usava comumente antes do Novo Testamento, mas os cristãos se apossaram do termo e fizeram dele a sua palavra característica para amor. Enquanto que o melhor conceito de amor antes do Novo Testamento era o de amor pelo melhor ser que se conhece, os cristãos pensavam no amor como aquela qualidade demonstrada na cruz. É amor pelos totalmente indignos, amor que procede de um Deus que é amor. Amor prodigalizado a outros sem que se pense se eles são dignos para recebê-lo ou não. Provém antes da natureza daquele que ama, que de qualquer mérito do ser amado.
0 cristão que experimentou o amor de Deus por ele, embora ainda pecador, foi transformado pela experiência. Agora, em certa medida, vê os homens como Deus os vê. Ele os vê como objetos do amor de Deus, como aqueles por quem Cristo morreu. Conseqüentemente, a sua atitude para com eles é de amor, do " AGÁPE " que o leva a dar-se. Vem a praticar o amor que nada busca para si, mas somente o bem da pessoa amada. 0 amor é aquele elemento que dá sabor a todas as demais atividades e lhes empresta significação, sendo assim, o amor é o grande princípio Cristão de toda a ação e a base de toda demonstração de espiritual idade, pelo que o amor deve governar os dons espirituais, servindo de solo onde os dons sejam cultivados.
2. A SUPREMACIA DO AMOR
Amor é "o caminho sobremodo excelente". 0 centro do tratamento Paulino de coisas pertencentes ao Espírito é amor. Sem amor, "dons espirituais" oferecem pouco benefício à igreja e "línguas" se tomam disfuncionais.
Ágape é chave para harmonia, ordem e crescimento na igreja.
0 amor é mais importante do que qualquer dos dons, inclusive I Ínguas; na verdade, ele é mais importante do que qualquer combinação de dons, ou todos os dons juntos.
No capítulo doze, Paulo vinculou o pensamento da igreja acerca de coisas espirituais à graça; no capítulo treze, Paulo vincula as coisas espirituais ao amor. Nesse capítulo, Paulo ensina o modo segundo o qual as graças divinas discutidas no capítulo doze devem ser expressas humanamente. Nem o falar em línguas (13.1), nem a profundidade do saber (v.2), nem o sacrifício (v.3) são, por si só, nem substitutos para o amor cristão, nem sequer componentes necessários deste amor. 0 amor é uma graça mais básica e menos espetacular do que todas as demais. Sem ele, as graças cristãs são desgraçadas.
V.1 – Paulo ensina que falar em línguas (de qualquer espécie) sem o acompanhamento do amor, isto é, sem ter por finalidade a edificação da igreja, sem ter por propósito ajudar a outro, não passa de um ruído, que pode ter motivo a auto-glorificação. Aquele que não tem o amor de Deus a encher o seu coração é como um vagão vazio, que desce violentamente por uma colina; faz muito barulho porque nada tem dentro.
V.2 – São aqui frisados os dons da profecia, da sabedoria, do conhecimento e da fé. São dons pedagógicos, importantíssimos e maravilhosos, mas "se não tiver amor"… Observe que o dom importa menos do que a maneira de seu uso. Se o indivíduo que o possui, faz uso dele sem amor, nada será! Tenhamos por exemplos as experiências de Balaão e de Sansão, ambos possuíam dons sobrenaturais; porém, moralmente falando, eram homens degradados. E a derrota recaiu sobre ambos. Existem muitos que tem apenas o CHARIS MA, mas não tem o caráter.
V.3 – Aqui são aludidos os dons de "socorros". Até mesmo o indivíduo que se tome conhecido como muito humanitário, cujas obras sociais e de socorro sejam abundantes, se lhe falta a motivação apropriada do amor cristão, a preocupação sincera pelo alívio da miséria alheia, nada será ele. Pois é possível realizar todas estas obras visando a auto-exaltação e a vanglória. Sem amor, nem mesmo um sacrifício supremo obtém coisa alguma para aquele que o realiza. A dedicação suprema nada significa sem a motivação do amor.
3 – A NATUREZA DO AMOR Para entendermos corretamente 1 Coríntios 13, devemos conservar em mente o contexto dentro do qual a descrição do amor foi dada por Paulo: o contexto do problema referente às coisas espirituais na igreja de Corinto.
V.4 – "É paciente" – "Espera pelo tempo divino para a realização de seus propósitos graciosos e providenciais sem murmurar ou impacientar-se, suportando suas próprias fraquezas, bem como as fraquezas alheias, com santa e humilde submissão à vontade de Deus."(Adam Clark); – "É Benigno"- útil, gentil, prestativo, busca oportunidades para fazer o bem, cheio de bons frutos que vem do alto (ex. o bom samaritano). – "Não arde em ciúmes"- 0 amor não tem inveja. A inveja é um dos pecados mais mortais e destrutivos. Esta foi a causa do primeiro crime na história da humanidade. O amor não se deixa entristecer porque outra pessoa possui maior porção de bênçãos terrenas, intelectuais ou espirituais. Pois ama o próximo como a si mesmo. – "Não se ufana e nem se ensoberbece". Vanglória, auto-exaltação, fanfarronice, orgulho, pretensão, espírito altivo e desejo de ser estrela “, aparecer e estar no centro do palco" eram características de muitos em Corinto. 0 amor impede a pessoa de inflar-se com o senso de sua própria importância. (Pv. 16.18).
V.5 – "Não é inconveniente” – não é arrogante ou rude. 0 amor tem boas maneiras, é cheio de tato. 0 amor não deixa ninguém em situação embaraçosa, não faz ninguém passar vergonha. 0 amor é moderado, observa o verdadeiro decoro. 0 amor é reverente e ordeiro. – "Não procura os seus interesses" – 0 amor não procura as suas próprias coisas. Esta definição torna-se importante para a compreensão do capítulo 14, especialmente o quarto versículo. 0 amor não busca a sua própria vantagem.
Notemos no capítulo 12, o caráter tipo "DIAKONIA"(SERVIR AOS OUTROS) e "proveito para todos"das graças. Em suma, o amor não insiste nos seus próprios direitos. – "não se exaspera” – "não se ressente do mal” – Não se deixa provocar, não se irrita, não perde a compostura, não se amargura, não se lembra do mal. 0 amor perdoa, esquece e paga o mal com o bem.
V.6 – "Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”.
V.7 – "Tudo sofre” – 0 amor sustenta todo o sofrimento. Quando olhamos para a cruz, vemos o maior de todos os exemplos de como o amor pode suportar todo o sofrimento. – "Tudo crê"- Essas palavras não significam que OS Crentes devam ser crédulos, a ponto de serem enganados por charlatões e falsos profetas. No entanto, o amor acredita no lado melhor das pessoas e não procura expandir os seus defeitos, conforme procuram fazer os bisbilhoteiros. 0 amor encoraja o que há de melhor na outra pessoa. 0 amor permanece como amigo, e ama a despeito do que sabe a seu respeito; vê o seu potencial, encoraja-o a cumprir os seu ideal. – "Tudo espera"0 amor não se desespera. Está pronto para tudo. E se recusa a tomar o fracasso como final. É otimista. É como um soldado que, mesmo no grosso da batalha, não fraqueja, não se deixa vencer, sejam quais forem as dificuldades. – "0 amor tudo suporta".
4 – 0 FRUTO DO ESPÍRITO Em Gálatas 5.22, aprendemos que o fruto do Espírito Santo é: AMOR. Quando o Espírito Santo vem a nós o AMOR de Deus é derramado nos nossos corações (Rm 5.5).
Em 1 Cor. 12.28-30 Paulo ensina que nenhum dom em especial é inerente aos cristãos, isto é, nem todos os cristãos profetizam, nem todos são mestres… E assim por diante. Mas o mesmo não se dá no caso do AMOR, pois o amor é fruto, e o fruto é inerente à árvore. Todo cristão autêntico precisa e naturalmente produzirá os frutos do Espírito. "Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, Ele o corta; e todo o que dá fruto, limpa, para que produza mais fruto ainda”.(Jo 15.2).
0 amor é o sinal do cristão. "Pelo amor conhecido é o cristão". Jesus não ensinou: "Pelos seus dons os conhecereis”, mas sim: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt. 7.15-23). E segue: "Nem todo o que me diz: 'Senhor, Senhor!' entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! porventura, não ternos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então lhes direi explicitamente: Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade." Mc 11.12-14, a questão da figueira sem fruto. Quando Jesus examina uma árvore, Ele busca nela os seus frutos. Parece que não há desculpas para não frutificarmos.
A igreja dos coríntios é exemplo de que "dons” não é, necessariamente, sinônimo de “espiritual idade" (vida cheia do Santo Espírito de Deus). Vejamos: Em 1.7 – somos informados que aos coríntios não faltava dom algum. Dons eles Possuíam, mas em 1: 11; 11-4,16-18; 4:18; 5-1 a 13; 6:1, 5 a 11, 15 a 19; 10: 14, 21, 22; 11: 17 a 22 e 30; 15:33, 34, observamos o quanto eles eram carnais. E hoje em dia corremos o mesmo perigo de nos concentrarmos nos dons e nos esquecermos do fruto, que é o elementar.
É comum ouvirmos dizer: “Olha, vamos lá e assistir. Veja como aquela pessoa é espiritual’ Ela possui este ou aquele dom!… E incorre-se no mesmo erro de julgar ou de se Conhecer o grau de espiritualidade baseado em tal falsa premissa. Deixa-se enganar pela aparência”.
Dons podem até impressionar multidões, mas se não tiver amor… No dia do juízo final o que realmente importa é o amor. Tudo mais passará, mas o amor permanece para sempre. : “Nisto é em nós aperfeiçoado o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança…” (I Jo 4.17 e 18). Ainda sobre este tema, meditar em Jo 15, Mt 25.31-46.
CONCLUSÃO As virtudes do amor, com sua humildade, paciência, altruísmo e consideração devem ser o veículo das manifestações especiais do Espírito Santo no seio da igreja. Sem esta base, tudo é nada.
Nestes dois primeiros capítulos, Paulo também está preparando os coríntios para receberem de maneira positiva as firmes exortações, correções e orientações do capítulo 14. Que é o tema da nossa última lição.
LIÇÃO 5 GLOSSAI – O DOM DE LÍNGUAS MEDITAÇÃO DIÁRIA:
Segunda-feira – No dia de Pentecostes – Atos 2.1-47 Terça-feira – Culto racional – Rm. 12.1-2 Quarta-feira – Como usar os dons espirituais – Rm. 12.3-8 Quinta-feira – Julgar e provar as profecias – 1 Ts. 5: 19-21; I Jo 4.1 e Jr. 23.
Sexta-feira – Perigos Deut. 13.1-5 e Deut. 18.20-22 Sábado – Não buscar o que é seu, mas o que é dos outros – Ef. 2.4, 21.
PARA ESTUDAR: 1 Coríntios 14.1-40 TEXTO BÁSICO: "0 que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetisa edifica a igreja”.(1 Cor. 14.4).
PARA ESTUDO E DEBATE 1. Como os dons espirituais devem ser expressos nas reuniões congregacionais?
2. Como conciliar: "Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” com as diretrizes estabelecidas por Paulo quanto à ordem de culto? (ver especialmente os versículos 19, 23, 26 a 33) Em outras palavras, liberdade de culto e necessidade de ordem no culto são conflitantes?
3. Por que o apóstolo diz que temos que julgar as profecias? Você acha isto importante para os nossos dias?
4. A questão: "0 que dirão os de fora?" deve nos preocupar? (v.23) (Ler com atenção 2 Cor. 6.3, que é um versículo muito importante para a compreensão deste tópico).
5. A preocupação do apóstolo Paulo é com o uso dos dons na igreja. Você lembra qual é a concepção neotestamentária do termo grego eclesia ? Então, como isto afeta nossa interpretação de 1 Cor. 14?
6. Quando Paulo menciona “línguas” entre os dons espirituais, está ele se referindo às línguas humanas estrangeiras ou às elocuções estáticas que são ininteligíveis?
7. Por que o dom de profecia é superior ao dom de línguas? Por que o que fala em línguas deve se calar se não houver quem interprete?
INTRODUÇÃO Línguas ( GLOSSAI) têm sido um meio entre muitos que Deus tem escolhido para se revelar. Não é o meio mais importante e, apesar de ser classificado por Paulo como o último dos dons (12:28), Paulo falou mais tempo sobre ele que sobre qualquer outro, pois, desde aqueles dias, este assunto tem sido mal entendido, com distorções na ênfase e na pratica deste dom nas igrejas, chegando a ser motivo de divisão. É para esclarecer dúvidas, corrigir erros e orientar à igreja de Corinto quanto ao uso dos dons espirituais, em particular o dom de línguas, que Paulo dedica um capítulo inteiro, com 40 versículos.
Existem diferentes interpretações com respeito à definição de línguas bíblicas. É difícil decidir entre elas. Uns resolveriam o problema insistindo que as línguas dos coríntios eram línguas estrangeiras, visto que as de Atos 2 o eram. Para outros, inclusive nossos estudiosos da Bíblia, parece patente que as línguas de 1 Coríntios 12-14 não eram línguas humanas inteligíveis.
Os argumentos baseados no texto gregos não resolvem o problema. 0 termo glossai (Iínguas; singular é glossa) é usado nos textos de Atos e Coríntios, mas não necessariamente no mesmo sentido. 0 contexto é essencial para a própria interpretação e tradução de cada uso de uma palavra, mesmo quando o termo grego fundamental é o mesmo.
É simplesmente incorreto assumir ou afirmar que, porque glossa descreve linguagem humana em Atos 2, onde quer que o termo seja usado ele significa o mesmo. Em Marcos 7.33, 35, o texto grego diz que Jesus tocou a " glossa " do mudo: a palavra aqui obviamente se refere a língua física; seria sem sentido traduzida: "língua (idioma)". Semelhantemente, em Lucas 1.54, Deus tocou a " glossa " de Zacarias: o sentido intentado é provavelmente "boca" e não idioma. Finalmente, em I Jo 3.18, nós somos exortados: "não amemos de palavra, nem de GLOSSA ” aqui a tradução “língua” pode ser usada, mas o sentido é comunicado melhor pela tradução usual, "discurso".
Da mesma maneira, devemos estudar contextualmente cada instância de " glossa " em Atos e Coríntios. Em alguns textos, o sentido exato não é claro: não podemos estar certos se as "línguas" em Atos 10 e 19 consistem em fala inteligível ou ininteligível. Em tais casos, dogmatismo (de qualquer lado, com a exclusão de outros pontos de vista) parece não só infundado, mas injustificado.
QUAL 0 SENTIDO DE GLOSSAI EM 1 COR. 12-14?
Como é de se esperar, os estudiosos diferem nas suas respostas, refletindo usualmente suas afiliações teológicas e eclesiásticas. Para um número crescente de variadas tradições, contudo, a seguinte conclusão parece assegurada: enquanto que as línguas de Atos 2 foram línguas estrangeiras inteligíveis, as " glossai " em I Cor. 12-14 consistem em elocuções humanamente ininteligíveis.
Esta conclusão está baseada nos dados específicos.
Pentecostes, como se acha relatado em Atos 2, foi um evento miraculoso. Naquele dia, quando o Espírito de Deus foi derramado, os discípulos falaram línguas ( glossai) que eles não entenderam. De outro lado, os ouvintes, um auditório misto de visitantes de muitos países diferentes, entenderam o que foi dito. Eles se maravilharam, todavia, que os discípulos – todos "galileus" – estavam falando para eles, "que os ouvimos falar cada um na própria língua em que nasceu" (2.8). A palavra grega traduzida língua ali e em 2.6 é "dialect", descrevendo língua particular nativa dos ouvintes. A lista dos nomes de lugares identifica algumas das regiões geográficas específicas representadas. Todas as línguas dessas vastas regiões não eram evidentemente conhecidas aos discípulos galileus iletrados (At. 4.13). Não obstante, as " glossai " faladas foram inteligíveis aos ouvintes; nenhuma interpretação foi necessária.
A situação que Paulo descreve em 1 Coríntios 12-14 é completamente diferente. A mensagem falada em línguas era não só ininteligível àquele que falava que (ver 14.14), mas também aos ouvintes: Porque o que fala em língua não fala aos homens, mas a Deus… Ninguém (isto é, nenhum ser humano) o entende; porque em espírito fala mistérios. Porque tais elocuções são ininteligíveis, Paulo argumenta, sem interpretação, elas são sem sentido e não edificam a igreja durante suas reuniões.
0 fato de a "interpretação" ser considerada um dom espiritual faz crer que o dom espiritual de línguas mencionado em 1 Coríntios não era de idiomas conhecidos, que pudesse ser entendido por alguém em algum lugar do mundo.
Outra espécie de " glossai " pode estar sendo sugerida em 1 Coríntios 13.1: "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos…" Aqui Paulo muda para além das fronteiras da língua humana, para abranger outra esfera de comunicação. No contexto, a sua idéia é que, ainda que uma pessoa possa comunicar em muitas línguas humanas e também com o espírito de anjo… Sem amor, a fala resultaria somente em muito ruído.
Na lista dos "dons", deve-se notar que " glossai " está sempre no plural e acompanhado de "espécies de…" 0 grego que salienta este qualificador fornece o termo científico gênero. Usado em biologia, um gênero, é a subdivisão principal da família e incluiu uma ou mais espécies. Este é o sentido que este qualificador acrescenta a "línguas". Em essência, Paulo parece reconhecer diversas espécies de glossai, inclusive línguas humanas, mas também "celestes". Todas são de Deus, e dadas segundo a sua escolha.
COMPARAÇÃO ENTRE PROFECIA E LÍNGUAS Paulo estima os dons por sua capacidade de ajudar aos homens (Vs. 1 a 5).
À medida que Paulo usa para fazer esses juízos de valor está claramente identificada: 0 QUE EDIFICA A IGREJA?
0 que profetiza, fala aos homens, edificando, exortando e consolando “(v.3). 55”.
Está frase importante define a profecia. A "edificação" (oikodome) passa, então, a ser a chave para o entendimento desde capítulo(vv. 3, 4, 5, 12, 17, 26). Assim como Deus é a fonte das "graças" (cap.12), e assim como o amor é o modo delas (cap. 13), assim também a "edificação" é o alvo delas (cap. 14).
Paulo não negava que falar em línguas fosse um dom, mas nunca ensinou as igrejas a buscarem tal dom, mas recomendou com insistência a busca dos "melhores dons" no capítulo 12; do amor, no capítulo 13, e comparou o dom de profecia ao dom de línguas, no capítulo 14, provando a superioridade do primeiro, chegando a afirmar: "Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua." (v. 19). Pois quem fala em línguas não edifica a igreja, mas somente a si mesmo (v.4). E em 1 Cor. 13.5, aprendemos que o amor "não procura suas próprias coisas". Sendo assim, Paulo declara definitivamente: "visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para edificação da igreja" (v.12). Paulo deseja ver os dons espirituais tomar-se em serviço (cap. 12), o amor tomar o centro de nossas atenções (cap. 13), e a igreja ser edificada (cap. 14).
Enquanto o que fala em línguas edifica apenas a si mesmo, o que profetiza edifica a igreja. A profecia também serve para exortar (encorajar, fortalecer) e consolar os homens (v.3); também é um meio de transmitir revelações e doutrinas (v.6); a profecia faz "soar" aquele toque da mensagem cristã que leva o crente a preparar-se para a batalha espiritual (v. 8); a profecia é uma voz clara, em um mundo de vozes confusas (v. 10) e a profecia é uma maneira de ensinar (v. 31).
A inferioridade de "línguas" é manifesta, pois este dom não "dá proveito" aos ouvintes. Paulo diz que a fala ou é inteligível, ou não é nada mais do que falar ao ar (v. 9), pois tudo que se visa com um idioma, com uma linguagem é comunicar sentido a quem deve. A fala é um efetivo instrumento de comunicação, mas a fala que não for compreendida, não terá poder nenhum (v.11). Agora, se as "línguas" forem interpretadas, os ouvintes serão edificados, caso em que não há grande diferença da profecia.
"Se eu orar em línguas, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera." (v. 14 b). Não faz uso da mente, não acrescenta ao intelecto, ao conhecimento. Paulo não está argumentando em prol de um intelectualismo estéril, pois é certo que a vida cristã é bem mais do que exercício mental, há lugar para fervor e emoção, mas, como vemos no v. 15, a oração e o canto devem ser tais, que os adoradores possam envolver-se nelas integralmente, com a mente e com o espírito. (Obs.: Muitíssimas vezes as orações são elevadas numa espécie de jargão emocional, e os hinos são escolhidos com base em melodias atraentes, em vez de em sólida doutrina.)
"Não sejais meninos" (v.20) – Parai de ser meninos no entendimento. Na verdade, é característico da criança preferir o divertido ao útil, o brilhante ao sólido. E é isso que faziam os coríntios com o seu assinalado gosto pela "glossolalia" (glossolalia – falar em línguas). Portanto, "sêde homens amadurecidos." UMA CONSIDERAÇÃO EVANGELÍSTICA Numa reunião da igreja o efeito do falar em línguas sobre os de fora ou incrédulos é adverso. Diz o apóstolo Paulo que eles pensarão que os crentes estão loucos (v.23). Pois os coríntios tinham o costume de falarem línguas todos ao mesmo tempo. (Sobre este tópico, ler também 11 Cor 6.3) Paulo sempre se preocupou com a imagem da igreja diante dos de fora. Em Atos 2.47, vemos que a igreja primitiva contava com a simpatia de todo o povo em derredor, "enquanto isto, acrescentava-lhes o Senhor, dia-dia, os que iam sendo salvos." Não podemos perder de vista a nossa maior missão.
Obs: Parece haver uma contradição entre o v. 22 e os vs. 24e25. Mas é preciso levar em consideração o contexto do v. 22, que está baseado num texto do Antigo Testamento (Is 28.11, 12), onde os incrédulos são os que ouviram a palavra e a rejeitaram. Para eles, as "línguas" valem por um sinal do juízo de Deus sobrevindo a eles. Já em 24 e 25 se está pensando naqueles que nunca ouviram a palavra. Para estes, "línguas" não são mais que um sinal de loucura, mas a profecia os conduz a Deus.
QUESTÕES DE ORDEM E DECÊNCIA NA IGREJA A preocupação corolária é a ordem na igreja. Paulo não só considera a ordem como princípio dirigente – é a palavra com que ele conclui o tratamento extensivo deste assunto (ver 14.40) – mas sublinha-a pesadamente no parágrafo final. Já no capítulo 12, ele tem caracterizado a igreja como uma entidade unida, composta por Deus "para que não haja divisão"(12:25). Em 14.26-39, ele fala de modo particular sobre a aplicação deste princípio às reuniões da igreja. “Quando vos reunis” (v.26)
Há vários ingredientes no culto, mas a regra orientadora é "Seja tudo feito para edificação" (v.26). Limites são estabelecidos tanto para línguas (com interpretação) quanto para profecias (vs. 27 a 29) – "não mais que três" – "e isto sucessivamente" (v.27), nunca todos falando em línguas ao mesmo tempo (v.23), mas, sim, um após o outro e haja quem interprete. Mas e se não houver intérprete? Resposta: "fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus" (v.28). E com relação à profecia, é necessário que haja julgamento.”“.
"Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro " (v.30). E para os que dizem que não podem se controlar diante da ação do Espírito, Paulo rebate dizendo: "Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas; porque Deus não é Deus de confusão… " (vs. 32,33). Note-se, antes de tudo, que Paulo crê no domínio próprio e o defende (ver também vv. 28, 30 e 34). Isto é de se esperar, porque o fruto do Espírito é "… domínio próprio" (Gálatas 5.22). Para que o culto seja edificante e executado em ordem, é necessário que se possa ouvir enquanto alguém está falando (vv. 29, 31, 34, 35).
Uma congregação individual não é simplesmente livre para fazer o que bem entende. Paulo mostra sua exasperação com a congregação de Corinto quando ele pergunta: Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?"(1 4:36). Estas perguntas servem como um forte lembrete da interconexão da igreja. Finalmente, Paulo Naca a rolha", e exerce a plena autoridade do seu ofício apostólico: "as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor" (14:37). Esta palavra é dirigida ao que se pensa "espiritual" o qual é trazido fortemente sob a autoridade da liderança eclesiástica, ordenada por Deus.
JULGAR, PROVAR E DISCERNIR V.29 – "Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três e os outros julguem" (ver questões introdutórias a esta lição). A Bíblia é a Palavra de Deus e nenhuma mensagem profética pode ir contra os seus ensinos (Hb 1: 1-2; 2Trn 3.16, 11 Pe 1: 19-21 e Deut 29.29).
Devemos fazer como os cristãos de Beréia, que eram nobres no modo de receberem a Palavra: "examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram de fato assim." (At. 17.11).
E devemos atentar para os seguintes perigos: a) Deut 13: 1 -5 b) 1 Rs 13.1-30 0 Jr 23.13-40 A Bíblia diz que é nosso dever julgar, provar e discernir, portanto não sejamos acanhados ou negligentes neste ponto: 1 Tm 4: 1; 1 Jo. 4: 1; 1 Cor 14.29; Hb 5.13, 14: Hb 4.12-13; 1 Cor 2.15; 11 Cor 11: 13-15; At 5.1-11; Mt 7.15-20, Gálatas 1: 6-9 e 2Ts 2.1-3 CONCLUSÃO A Bíblia ensina sobre os dons espirituais e nenhum versículo, inclusive 1 Cor. 13: 10 pode ser usado para justificar ou prever o fim destes dons. Nesta passagem, a Segunda Vinda de Cristo está sob consideração como aquele acontecimento que terminaria os dons (o que se vê claramente em 1 Cor. 13.12). Mas a mesma Bíblia que nos fala sobre os dons espirituais também nos ensina "como" e "com que propósito" devem ser usados nas nossas reuniões congregacionais. Muitos, hoje em dia, têm desacreditado nos dons, devido às distorções e abusos com que eles estão sendo praticados. Se quisermos ser bíblicos, devemos obedecer às orientações, aos princípios e as diretrizes que o apóstolo Paulo claramente determinou para o uso dos dons na ECLESIA. Sabendo que não se trata de mandamento de um homem, mas de Deus (1 Cor. 14.37).
E nunca devemos nos esquecer que os dons são divinamente dados, não primariamente para abençoar a vida do recipiente individual, mas para o benefício da eclesia. Se a igreja deve ser edificada através do exercício dos diversos ministérios de todos os membros, tudo deve ser feito descentemente e com ordem" (14:40). "Porque Deus não é Deus de confusão, mas sim de paz" (14:33)' Neste capítulo, como nos anteriores, a preocupação de Paulo não é com o chamado uso privado dos dons. A inteira discussão focaliza o que acontece "na igreja" (na reunião dos crentes), como vemos em 14.19, 28 e 35. 0 valor de " glossai " na congregação é menosprezado, não ultimamente proibido (14:39), desde que haja intérprete: "E SE alguém falar em línguas, ou no caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete, mas não havendo intérprete, fique calado na igreja". (14:27 e 28a.), mas repetidamente desencorajado (ver todo o capítulo). 0 discurso inteligível é exaltado como muito mais útil e apropriado (v.19), porque a manifestação do Espírito é muito mais imediatamente evidente, não só à congregação dos crentes mas também aos descrentes (14:24, 25).
CONCLUSÃO GERAL NOSSOS VALORES PRIMORDIAIS COMO METODISTAS LIVRES 1. A CENTRALIDADE DE SANTIDADE. Nós estamos convencidos que santidade (definida como amor perfeito) é a visão integrante do Novo Testamento. Este amor se expressa em nosso relacionamento para com Deus e para com os próximos.
2. A UNIDADE DA IGREJA. Enquanto que a nossa igreja começou como um movimento reformista, nós não somos sismáticos. Nós valorizamos a unidade do corpo de Cristo, o bem comum. Nós ficamos magoados com desunião e contenda. Unidade é essencial para testemunho e missão.
3. BÍBLIOCENTRISMO. Somos cristãos bíblicos. Ficamos apreensivos com qualquer doutrina ou prática carente de apoio claro da Bíblia.
4. NOSSAS RAÍZES. Nós apreciamos a nossa tradição. Nós temos a versão em alterar o que é essencial à nossa identidade.
5. NOSSA MISSÃO. Nós cremos que estamos aqui para um propósito e esse propósito reflete fielmente o impulso central do Novo Testamento. Existimos para proclamar o perdão e a santidade para trazer os outros à comunhão do corpo de Cristo, e para equipar e enviá-los para fora como cristãos produtivos que dão testemunho. Esta convicção está no centro do nosso sistema e atividades institucionais.
A OBRA DO ESPÍRITO Com referência à obra do Espírito, o consenso entre os metodistas livres contém os seguintes elementos:
1. A santidade cristã tem ascendência sobre qualquer dom específico.
2. 0 testemunho do Espírito é interno e não é acompanhado necessariamente de qualquer manifestação particular. (Rm. 8.16)
3. Os dons espirituais são soberanamente distribuídos pelo Espírito Santo e dados com o propósito de edificar a igreja.
4. 0 fruto do Espírito, cuja essência é o amor santo, aparecerá em cada vida entregue a Deus.
5. 0 Espírito dá poder para vida vitoriosa.
6. 0 poder da obra do Espírito é evidenciada em vidas transformadas e serviço efetivo.
7. 0 propósito do Espírito é edificar a igreja em unidade.
LÍNGUAS E SANTIDADE Nós rejeitamos a sugestão de que qualquer um dos dons seja o sinal ou a evidência de que uma pessoa foi batizada com o Espírito Santo. Não concordamos com a posição que afirma que o dom de línguas é o sinal necessário da plenitude do Espírito Santo. Além do mais, questionamos, baseados em nosso entendimento, da Escritura, a proeminência geralmente dada, pelos pentecostais, à prática de falar em línguas.
Em nossa estimativa, a posição acima delineada coloca-nos no centro do que significa ser uma Igreja do Novo Testamento. Nós não descristianizamos os que não compartilham as mesmas convicções nossas em cada ponto. Pelo contrário, nós refletimos o grande coração de Wesley que disse, "Não destruamos a obra de Deus por opiniões ou palavras" (O caráter de um Metodista).
Os metodistas livres consideram que a doutrina do amor perfeito reflete o coração da vida cristã. 0 nosso fundador, Benjamim Titus Roberts, considerou esta doutrina da santidade cristã como "claramente ordenada na Palavra de Deus, e como constitutiva do real reforço e poder para o bem da Igreja de Cristo " (Cristão Fervoroso, 1, pp. 1, 5). Concordamos.
Portanto, recomendamos que:
1. Afirmemos os Parágrafos 122 e 308 do Livro de Disciplina; 2. Continuemos a insistir,como o fez o apóstolo Paulo, que oculto seja realizado em língua inteligível pelo povo e de desencorajar a prática ou a promoção de falar em línguas no culto público; e 3. Reafirmemos a prioridade de nossa missão de proclamar o perdão e santidade em Jesus Cristo. Unamo-nos para introduzir o Novo Dia debaixo de Deus.
BIBLIOGRAFIA Canon Leon – M.SC., M. TH., PH.D.. I Coríntios, Introdução e Sociedade Religiosa Edições Vida Nova e Associação Religiosa Editora Mundo Cristão – Terceira Edição, 1986. (São Paulo, SP, Brasil)
Champlin, Russel Norman -PH.D. – O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo, I Coríntios 12-14 – Milenium Distribuidora Cultural Ltda.
Foulkes, Francis – Efésios, Introdução e Comentário – Associação Religiosa Edições Vida Nova e Associação Religiosa Editora Mundo Cristão. São Paulo, SP, Brasil – 1986 Bruce, F.F. – MA., D.D. – Romanos, Introdução e Comentário – Série Cultura Bíblica – Edições Vida Nova e Editora Mundo Cristão – São Paulo, SP, Brasil, Frederick Dale – Teologia do Espírito Santo – Sociedade Religiosa Edições Vida Nova – São Paulo, SP, Brasil, 1989 Graham Billy – 0 Espírito Santo (ativando o poder de Deus em sua vida) Edições Vida Nova – São Paulo, SP, Brasil, 1980.
Knight, John A, – 0 que a Bíblia Diz Acerca de Falar em Línguas – Casa Nazarena de Publicações – São Paulo, SP, Brasil, 1989 Mais estudos a respeito:
Pesquisa revela que uma grande porcentagem de pentecostais nunca falou em línguas Batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas Batizados com água e com fogo!
Batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas+
Por Bispo José Ildo Swartele de Mello Quanto ao Batismo com o Espírito Santo e ao dom de línguas há grande controvérsia devido à ignorância que já era comum mesmo nos dias do Novo Testamento (1 Co 12.1). À luz da Bíblia, vamos primeiramente analisar o batismo com o Espírito Santo para depois estudarmos a questão do dom de línguas.
Sobre o Batismo com o Espírito Santo O Apóstolo Paulo ensina que há um só batismo cristão (Ef 4.5). Existiam outros batismos praticados por judeus na época do Novo Testamento, como o de João, mas que não se enquadram na categoria de batismo cristão. Não devemos confundir o batismo de João com o batismo cristão. A igreja cristã não pratica o batismo de João, mas apenas o único batismo cristão que é o do Senhor Jesus Cristo. De modo que os discípulos de João, quando aceitavam a Cristo, precisavam ser novamente batizados em nome do Senhor Jesus: “Então, Paulo perguntou: Em que, pois, fostes batizados? Responderam: No batismo de João. Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus. Eles, tendo ouvido isto, foram batizados em o nome do Senhor Jesus” (At 19.3-5).
Quais seriam as diferanças entre o batismo de João e o de Jesus?
O Próprio João Batista chamou à atenção para algumas diferenças: "Eu vos batizo com água para arrependimento; mas aquele que vem depois de mim é mais poderoso do que eu, cujas sandálias não sou digno de levar. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo" (Mt 3.11). Isto nos faz lembrar de uma das frases que Jesus disse a Nicodemos: "… Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus" (Jo 3.5). O elemento distintivo do batismo cristão é a "Promessa do Pai" (At 2.39), é o dom do Espírito Santo que regenera o homem (Tt 3.5), capacitando-o a viver a vida cristã e a ser testemunha de Cristo (At 1.8). Toda a vida cristã é mediada pelo Espírito, desde a conversão até a ressurreição. A obra do Espírito se faz presente muito antes de nossa percepção dela. É o Espírito Santo que nos convence do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8), e é o próprio Espírito que promove a regeneração (Jo 3), de modo que somos feitos novas criaturas habitadas e movidas pelo Espírito de Deus. Tito diz que nossa salvação é obra do Espírito Santo que foi derramado abundantemente sobre nós no momento de nossa regeneração: “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas por sua graça ele nos salvou, pelo lavar regenerador e purificador do Espírito Santo que ele derramou abundantemente sobre nós…” (Tt 3.5-6a) As virtudes cristãs são denominadas frutos do Espírito (Gl 5 e 6), pois sem Jesus nada podemos fazer (Jo 15.5).
Portanto, a vida cristã é uma vida gerada pelo Espírito para ser vivida no poder deste mesmo Espírito: "Se vivemos pelo Espírito, andemos também no Espírito". É pelo Espírito Santo que somos habilitados a reconhecer e confessar que Jesus é Senhor (1 Co 12.1), e é também nele que os cristão são batizados no corpo de Cristo (1 Co 12.13). "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, este tal não é dEle" (Rm 8.9). É o Espírito Santo que testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16; Gl 4.5-6).
Para o Apóstolo Paulo, as expressões "estar em Cristo" e "estar no Espírito" são sinônimas (Rm 8.1,9,10). Ele também não vê nenhum problema em denominar o Espírito Santo de "Espírito de Deus" e de "Espírito de Cristo", isto no mesmo versículo (Rm 8.9). Sua concepção da trindade é bem desenvolvida. Não se pode separar Cristo do Espírito Santo. Pois o Espírito Santo e Jesus Cristo são simplesmente inseparáveis (Rm 8.9-10; 2 Co 3.17). Quem recebe a Jesus, recebe o Espírito Santo.
O batismo cristão é feito "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28.19). A Bíblia ensina que os cristãos são templos do Espírito (1 Co 6.19). Jesus disse que os crentes não ficariam órfãos (Jo 14.18), Ele disse que estaria sempre com eles até a consumação dos séculos (Mt 28.20). Jesus afirmou que o Pai e Ele viriam e fariam morada nos cristãos (Jo 14.23). Paulo ensina que isto se dá através do Espírito: “no qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus no Espírito” (Ef 2.22). E Jesus cumpre a Sua promessa enviando o Consolador: "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre conosco" (Jo 14.16).
Portanto, não existem dois batismos cristãos, um nas águas e outro com o Espírito. O batismo de Jesus inclui a ambos, ou seja, implica no lavar regenerador da água e do Espírito Santo (Tt 3.5). Não devemos também confundir o batismo com Espírito Santo com a plenitude do Espírito. Pois batismo só existe um (Ef 4.5) e a plenitude pode ser experimentada em diversas ocasiões da vida (Ef 5.18). Alguém pode facilmente cometer o equivoco de denominar de Batismo com Espirito Santo uma autêntica experiência de plenitude do Espírito tida num momento posterior a sua conversão, onde dons também podem ter sido comunicados. A mudança de nomenclatura não altera o valor da experiência, que permanece preciosa para o indivíduo.
Depois de Pentecostes, não encontramos nenhuma exortação para que cristãos busquem o batismo com Espírito Santo, mas encontramos algumas passagens que exortam os cristãos a se encherem do Espírito (Ef. 5.18; Gl 5.16; 1 Ts 5.19; Ef 4.30). Os apóstolos não exortavam os cristãos a buscarem o batismo com o Espírito Santo, pois era inconcebível a ideia da existência de um cristão sem o Espírito de Deus (Rm 8.9). O cristão é filho de Deus e não existe filiação parcial, pois a graça é total. Não há cristãos pela metade, mas completos, tornados justos pela obra de Jesus e incorporados na comunhão dos santos, desfrutando de todos as bênçãos e privilégios do Evangelho. “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo (Ef 1.3)!
Sobre o dom de línguas “Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes”. (1 Co 12.1)
Não tem base bíblica os que ensinam que os dons do Espírito eram apenas para o período apostólico visando o estabelecimento da igreja, pois a Bíblia ensina que os dons existem para a expansão e edificação do Corpo de Cristo, como diz Paulo em 1 Coríntios 14.12: "Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja". E a edificação da igreja é um processo contínuo até a Segunda Vinda de Cristo.
Por outro lado, os pentecostais estão equivocados quando ensinam que o dom de línguas é o dom sinal do batismo com Espírito Santo, pois eles próprios não possuem os dons e sinais manifestados no dia de Pentecostes. Sim, não possuem os mesmos sinais do Pentecostes, pois no momento do derramamento do Espírito sobre os 120 cristãos que estavam reunidos no cenáculo, foi ouvido um som como de um vento impetuoso, foram vistas línguas como de fogo pousando sobre a cabeça de cada pessoa ali presente e, por fim, todos passaram a falar em outros idiomas, ou seja, em línguas estrangeiras, tanto que, ao saírem do cenáculo, tais idiomas foram compreendidos por pessoas provenientes de distintas partes do mundo.
No dia de Pentecostes, nasce a Igreja, falando todas as línguas para alcançar todos os povos, melhor que isto, todos os estrangeiros ali presentes entendiam a mensagem em sua própria língua materna, o que denota um fenômeno reverso daquele da Torre de Babel. Sinal dos Tempos! Sinal da vocação universal da Igreja. As nações originadas e dividas na maldição de Babel (Gn 11), são benditas através do descendente de Abrão (Gn 12), Jesus Cristo, o Rei das Nações, que promove entendimento, unidade e paz.
Portanto, estes 3 sinais existiram como um marco histórico do cumprimento da promessa do derramamento do Espírito e do nascimento da Igreja. Podemos afirmar que tais sinais foram e permanecem inéditos. Jamais se teve notícia de que tenham sido reproduzidos do modo como aconteceu em Pentecostes.
No entanto, em Atos 2, existe ainda outro grupo de discípulos, os 3 mil, que se converteram e que também foram batizados com o Espírito, mas nada é dito sobre terem falado em línguas, ou sobre ter sido ouvido um barulho como de um vento impetuoso, ou ainda sobre terem sido vistas labaredas de fogo pousando sobre as cabeças no momento do Batismo. Mas outros sinais são mencionados como características da presença e ação do Espírito Santo, tais como perseverança na sã doutrina, comunhão em amor, singeleza de coração e evangelização. Tais sinais, sim, devem estar presentes na vida cristã cheia do Espírito.
Existe também no Novo Testamento a referência a outra espécie de dom de línguas, distinta do fenômeno de Atos 2. Paulo menciona o dom de falar línguas estranhas, talvez angelicais (1 Co 13.1), que necessitam o dom espiritual de interpretação para serem compreendidas (1 Co 12-14). Mas Paulo é claro ao dizer que este dom de falar em línguas estranhas, assim como outros dons ali mencionados, não são para todos os crentes, ou seja, nem todos falam em outras línguas. Veja a série de perguntas retóricas que ele faz em 1 Coríntios 12.30: “Têm todos o dom de curar? Falam todos diversas línguas? Interpretam todos?” Obviamente que, para cada uma destas perguntas, a resposta é a mesma, ou seja, não! Não, nem todos tem o dom de curar. Não, nem todos falam em outras línguas. Não, nem todos tem o dom de interpretar Sendo assim, já que nem todos falam em línguas, como pode subsistir o ensino de que falar em línguas é o indispensável sinal do Batismo com o Espírito Santo?
No mesmo capítulo em que Paulo ensina que nem todos falam em línguas, ele também afirma que todos da igreja de Corinto, sem exceção, foram batizados em um só Espírito no Corpo de Cristo (1 Co 12.13). Todos foram batizados com o Espírito Santo, mas nem todos falaram em línguas (1 Co 12.30). Não deveria haver divisão na igreja por causa dos dons. Ninguém deve ser desprezado por não possuir determinado dom. E ninguém deve se sentir diminuído por não falar em línguas. Pois, não importa que dom a pessoa recebeu, porque o importante é saber que o mesmo Espírito é a fonte de todos os dons. “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). “Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?” (1 Co 12.15). “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (1Co 12.11).
No Pentecostes, cumprisse a promessa do Pai através do derramamento do Espírito sobre a Igreja. E é através do Espírito que alguém é batizado e inserido no Corpo de Cristo que é a Igreja (1Co 12.13). O batismo é ritual de iniciação. É apenas o começo e não o ápice de nossa caminhada cristã. No batismo no Espírito, nascemos para uma nova vida, e graças são comunicadas para que o crente possa viver em novidade de vida, expressando as virtudes de sua nova natureza. É o Espírito quem capacita o cristão a ser testemunha de Cristo. É através dos frutos Espírito que os cristãos são conhecidos (Mt 7.20) e não por qualquer dom em especial, pois a posse do mais extraordinário dos dons sem o fruto do amor não tem nenhum valor algum aos olhos de Deus (1 Co 13). Os falsos profetas não podem ser desmascarados se o critério de avaliação for a posse e o exercício dos dons, pois eles também parecem possuir muitos dons, como, por exemplo, o de profetizar. Jesus advertiu também dizendo: “Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E, então, lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22-23). Por isto também exorta o Apóstolo João: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo” (1 Jo 4.1). E Paulo igualmente orienta a igreja, dizendo: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem” (1Co 14.29). “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos” (1Co 14.20). “Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores (Mt 7.15). “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas e farão tão grandes sinais e prodígios, que, se possível fora, enganariam até os escolhidos” (Mt 24.24). Portanto, devemos ser muito criteriosos, pois os falsos profetas espertamente se aproveitam da ignorância, da imprudência e da ingenuidade do povo de Deus.
Desejando saber mais sobre o assunto, sugiro a leitura dos seguintes estudos:
Pesquisa revela que uma grande porcentagem de pentecostais nunca falou em línguas 5 Lições sobre os dons do Espírito Santo Batizados com água e com fogo!
John Wesley e os Dons Espirituais: Uma Análise Teológica Abrangente da Pneumatologia Wesleyana+
Introdução
A pneumatologia de John Wesley (1703-1791) representa uma das contribuições mais equilibradas e pastoralmente orientadas para a compreensão dos dons espirituais na história do cristianismo protestante. Posicionando-se entre o cessacionismo rígido de seus contemporâneos reformados e o entusiasmo desenfreado de alguns movimentos de avivamento, Wesley desenvolveu uma teologia dos dons espirituais que permanece influente até os dias atuais[1]. Sua abordagem integrava rigor bíblico, discernimento pastoral e abertura responsável às manifestações do Espírito Santo, estabelecendo critérios que continuam relevantes para as discussões contemporâneas sobre pneumatologia.
Contexto Histórico e Teológico O Cenário do Século XVIII Wesley ministrou em um período de intensa controvérsia sobre os dons espirituais. O protestantismo inglês do século XVIII era predominantemente cessacionista, influenciado pela ortodoxia reformada que via os dons extraordinários como limitados à era apostólica[2]. Simultaneamente, movimentos como o montanismo eram objeto de debate teológico, criando um ambiente de suspeita em relação a manifestações espirituais extraordinárias.
Wesley observou este contexto crítico, notando que “a grande razão pela qual os dons miraculosos foram tão cedo retirados, não foi apenas que a fé e a santidade estavam quase perdidas; mas que homens secos, formais e ortodoxos começaram já então a ridicularizar quaisquer dons que eles próprios não tivessem, e a desacreditar todos eles como loucura ou impostura”[5]. Esta observação revela sua percepção de que o cessacionismo não resultava de decisão divina, mas de incredulidade humana.
Influências Teológicas Formativas A pneumatologia wesleyana foi moldada por várias correntes teológicas. Sua formação anglicana forneceu estrutura litúrgica e sacramental, enquanto o pietismo alemão e o puritanismo inglês contribuíram com ênfase na experiência espiritual pessoal[3]. Wesley também foi influenciado pelos Pais da Igreja, particularmente na compreensão da continuidade dos dons espirituais através da história eclesiástica.
A Perspectiva Wesleyana sobre os Dons Espirituais Continuidade versus Cessação Wesley defendia inequivocamente a continuidade dos dons espirituais. Em sua correspondência com o erudito deísta Conyers Middleton, ele listou oito dons extraordinários que esperava ver revividos “em qualquer era que manifestasse verdadeira fé e amor”: “1. Expulsão de demônios; 2. Falar em novas línguas; 3. Escapar de perigos mortais; 4. Cura dos enfermos; 5. Profecia, predizendo o futuro; 6. Visões; 7. Sonhos divinos; e 8. Discernimento de espíritos”[2].
Esta posição contrastava marcadamente com o cessacionismo prevalente em sua época. Wesley argumentava que os dons não cessaram por decreto divino, mas devido ao declínio da fé e santidade na igreja. Como ele expressou: “Porque os cristãos se tornaram pagãos novamente, e tinham apenas uma forma morta restante”[2].
Dons Ordinários versus Extraordinários Wesley estabeleceu uma distinção fundamental entre dons ordinários e extraordinários do Espírito Santo. Os dons ordinários incluíam capacidades como música, pregação, ensino, serviço, sabedoria e aconselhamento – dons “comuns” concedidos aos cristãos[2]. Estes eram considerados normativos e disponíveis a todos os crentes.
Os dons extraordinários, por outro lado, incluíam manifestações sobrenaturais como cura, profecia, línguas e discernimento de espíritos. Wesley enfatizava que “nem todo mundo tinha esses dons, talvez um em mil”[4]. Crucialmente, ele nunca colocava “ênfase especial em nenhum dom particular”, estimando os dons ordinários “no mesmo nível de importância que os carismas mais dinâmicos e sobrenaturais”[2].
A Hermenêutica da Santidade Wesley desenvolveu o que pode ser denominado uma “hermenêutica da santidade” – um método de interpretar e discernir se uma crença ou prática deriva do trabalho ordinário ou normativo e essencial do Espírito[4]. Esta hermenêutica priorizava o trabalho salvífico do Espírito sobre a manifestação dos dons, diferindo dos carismáticos modernos que veem tanto a obra da salvação quanto os dons como normativos.
Para Wesley, “uma mudança completa e renovação da mente e do coração, e conduzir uma vida nova e santa” eram as medidas verdadeiras e normativas de ser conduzido pelo Espírito[4]. Os dons eram julgados pelos frutos que produziam, não o contrário.
Critérios de Discernimento O Quadrilátero Wesleyano Wesley estabeleceu quatro critérios fundamentais para discernimento espiritual, posteriormente sistematizados como o “Quadrilátero Wesleyano”[1][6]:
Escritura
: Fundamento primário e infalível para testar qualquer manifestação espiritual Tradição: A experiência histórica da igreja cristã como referência Razão: Análise racional e lógica das manifestações Experiência: A experiência pessoal de Deus, sempre submetida aos outros três critérios Este framework fornecia uma abordagem integrada ao discernimento, evitando tanto o racionalismo árido quanto o subjetivismo desenfreado.
Teste dos Frutos Wesley aplicava rigorosamente o teste bíblico dos frutos (Mateus 7.16). Em seu sermão sobre o Sermão do Monte, ele estabeleceu critérios específicos para identificar falsos profetas:
“Para saber se alguém que fala em nome de Deus é falso ou verdadeiro profeta, é fácil observar, primeiro: Quais são os frutos de sua doutrina quanto a eles mesmos? Que efeito teve em suas vidas? São santos e irrepreensíveis em todas as coisas? Segundo, qual é o fruto de seu ensino naqueles que os ouvem?”[7][9]
Wesley enfatizava que “um falso profeta produz frutos maus ‘sempre, e necessariamente'”[7]. Esta constância no produzir frutos negativos era um sinal claro de falsidade profética.
Conformidade Bíblica e Ordem Wesley insistia na conformidade absoluta com as Escrituras. Em seu sermão “A Natureza do Entusiasmo”, ele alertava contra “experiências sem base bíblica”[1]. Para Wesley, a Palavra de Deus era a “norma infalível” para avaliar todas as manifestações espirituais.
Baseado em 1 Coríntios 14.40, Wesley também insistia que manifestações genuínas sempre respeitam “decência e ordem”[1]. Caos, desordem ou manifestações que perturbam a harmonia da congregação eram sinais de questionamento.
Manifestações Específicas dos Dons Dom de Profecia Wesley reconhecia múltiplos aspectos do dom profético. Em suas notas sobre 1 Coríntios, ele identificava dois usos principais: edificação comunitária e predição do futuro[2]. O primeiro servia para “fortalecer e encorajar a comunidade”, enquanto o segundo era “benéfico para toda a comunidade”.
Wesley mantinha cautela em relação às profecias preditivas, especialmente aquelas relacionadas ao fim dos tempos. Quando George Bell ensinou em 1762 que o milênio estava chegando e o mundo terminaria, Wesley “rapidamente ofereceu sua correção”[1]. Esta atitude demonstra seu equilíbrio entre abertura aos dons genuínos e ceticismo saudável em relação a predições sensacionalistas.
Discernimento de Espíritos Wesley definia o discernimento de espíritos como “a capacidade de conhecer se as pessoas têm espírito reto, dons naturais ou sobrenaturais para ofícios na igreja, e se aqueles que professam falar por inspiração falam de um espírito divino, natural ou diabólico”[2].
Este dom era visto como “intimamente relacionado ao dom da sabedoria, mas com ênfase particular na capacidade de reconhecer e expor falsos ensinamentos e espíritos enganadores”[1]. Wesley acreditava que aqueles dotados deste dom eram capazes de “testar os espíritos, discernindo se eram de Deus ou do diabo, e expor falsos mestres e falsos profetas”.
Cura e Milagres Embora Wesley defendesse a continuidade dos dons de cura, ele mantinha uma postura cautelosa e prática. Ele não reivindicava possuir dons extraordinários pessoalmente, atribuindo healings observados à “providência de Deus” que “agora ouve e responde à oração, mesmo além do curso ordinário da natureza”[4].
Wesley “naturalizava” alguns aspectos dos dons de cura, mostrando “algum nível de admissão de seu fracasso na área de orar pela cura e de seu recurso aos médicos”[8]. Esta honestidade pastoral demonstra sua abordagem equilibrada entre fé sobrenatural e responsabilidade prática.
Advertências Contra o Entusiasmo Definição de Entusiasmo Em seu sermão “A Natureza do Entusiasmo”, Wesley definiu entusiasmo como “imaginar que você é alguém que não é”[1][4]. Esta definição era aplicada de várias maneiras:
– Pessoas que imaginam possuir dons sobrenaturais que na verdade não possuem – Aqueles que esperam “entender as Escrituras sem lê-las e meditar sobre elas” – Indivíduos que buscam “o fim sem usar os meios” estabelecidos por Deus Orientações Práticas Wesley ofereceu diretrizes específicas para evitar o fanatismo religioso[1]:
– Necessidade de compreender claramente o termo “entusiasmo” antes de rotular alguém – Importância de não julgar sem evidências sólidas – Encorajamento à autoavaliação e humildade espiritual – Advertência contra imaginar possuir dons divinos que não se tem – Uso diligente dos meios estabelecidos por Deus para objetivos espirituais Equilíbrio nas Revelações Wesley mantinha posição equilibrada sobre revelações extraordinárias, advertindo: “Não confie em visões e sonhos; em impressões súbitas, ou impulsos fortes de qualquer tipo. Lembre-se, não é por estes que você deve conhecer qual é a vontade de Deus em qualquer ocasião particular; mas aplicando a regra simples das Escrituras, com a ajuda da experiência e razão, e a assistência ordinária do Espírito de Deus”[2].
Implicações Pastorais Exercício dos Dons com Humildade Wesley enfatizava que “aqueles que possuíssem este dom deveriam usá-lo para edificar a igreja e servir aos outros, ao invés de promover a si mesmos ou se envolver em argumentos divisivos”[1]. A humildade e o amor eram fundamentais no exercício apropriado do discernimento.
Julgamento Comunitário Wesley promovia o “discernimento congregacional” onde manifestações eram julgadas à luz das Escrituras[1]. Este princípio refletia sua compreensão de que os dons espirituais eram dados para o bem comum e deveriam ser avaliados coletivamente pela comunidade de fé.
Priorização da Santificação Para Wesley, os dons espirituais serviam ao propósito maior da santificação. Como observado por estudiosos, “os dons são julgados pelo fruto do qual brotam e o fruto que produzem. Em última análise, o fruto e não os dons são um reflexo do verdadeiro crescimento e maturidade espiritual”[4].
Discernimento Espiritual Pessoal Wesley demonstrava em seu próprio ministério um discernimento espiritual notável. Como observado por contemporâneos, “seu discernimento espiritual não podia ser considerado menos que terrível. Ele parecia ver o interior das almas dos homens e colocava seu dedo sobre o pecado oculto, o medo inconfessado”[1].
Relevância Contemporânea Contribuições Duradouras A pneumatologia wesleyana oferece contribuições significativas para debates contemporâneos sobre dons espirituais:
1. Integração de Rigor e Abertura: Wesley demonstra como manter abertura aos dons sem abandonar critérios bíblicos rigorosos 2. Ênfase na Santidade: Sua hermenêutica da santidade oferece correção tanto ao cessacionismo árido quanto ao pentecostalismo desequilibrado 3. Discernimento Comunitário: O modelo de julgamento congregacional fornece alternativa ao individualismo carismático 4. Equilíbrio Pastoral: Sua abordagem oferece sabedoria para líderes navegando questões pneumatológicas complexas Desafios Modernos A perspectiva wesleyana permanece relevante para desafios contemporâneos como:
– Profecia nas Redes Sociais: Os critérios de Wesley para testar profecias são especialmente pertinentes na era digital[1]
– Abusos Espirituais: Suas advertências contra o uso manipulativo dos dons continuam vitais – Formação de Discernidores: Sua ênfase no treinamento congregacional para discernimento oferece modelo prático
Conclusão
A pneumatologia de John Wesley representa uma síntese madura entre abertura aos dons espirituais e discernimento bíblico responsável. Sua abordagem evita tanto o cessacionismo que nega a obra contínua do Espírito quanto o entusiasmo desenfreado que despreza critérios bíblicos. Wesley desenvolveu um framework teológico que honra a soberania do Espírito Santo enquanto protege a igreja contra abusos e falsificações.
A hermenêutica da santidade wesleyana, o Quadrilátero como método de discernimento, e a ênfase no julgamento comunitário oferecem recursos valiosos para a igreja contemporânea. Particularmente significativa é sua integração dos dons espirituais dentro do processo mais amplo de santificação, evitando a tendência de tratá-los como fins em si mesmos.
A relevância duradoura da pneumatologia wesleyana reside em sua capacidade de manter tensão criativa entre elementos aparentemente contraditórios: sobrenaturalismo e racionalidade, experiência e escritura, dons extraordinários e crescimento ordinário em santidade. Esta síntese oferece à igreja contemporânea um modelo equilibrado para navegar as complexidades dos dons espirituais no século XXI.
Como Wesley mesmo demonstrou em seu ministério, a verdadeira maturidade pneumatológica não se manifesta na busca por manifestações espetaculares, mas no desenvolvimento de discernimento espiritual que reconhece e cultiva a autêntica obra do Espírito Santo para a edificação da igreja e a glória de Deus. Este legado permanece como uma das contribuições mais significativas do metodismo para a teologia cristã global.
Notas e Fontes [1] file-1.docx https://ppl-ai-file-upload.s3.amazonaws.com/web/direct-files/attachments/40767022/dbace8d2-2e9e-497a-ba28-ae0696af3ade/file-1.docx [2] [PDF] An Analysis of John Wesley’s View of Spiritual Gifts https://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1011&context=aussj [3] John Wesley’s Doctrine of the Holy Spirit – wesleyscholar.com https://wesleyscholar.com/john-wesleys-doctrine-of-the-holy-spirit/ [4] Wesley, the Almost Charismatic – Firebrand Magazine https://firebrandmag.com/articles/wesley-the-almost-charismatic [5] Have Miraculous Gifts Ceased? – Wesley’s View – Seth Tan https://sethtan.wordpress.com/2017/02/26/miraculous-gifts-wesleys-view/ [6] Discernment, Wesley-style | Teresa Blythe – Patheos https://www.patheos.com/blogs/spiritualdirection101/2012/08/discernment-wesley-style/ [7] John Wesley’s Sermon “Upon Our Lord’s Sermon on the Mount… https://kevinmwatson.com/2020/11/24/john-wesleys-sermon-upon-our-lords-sermon-on-the-mount-discourse-the-twelfth-a-brief-summary/ [8] John Wesley on Miraculous Gifts (1 Corinthians 12-14) – Sermon Index https://www.sermonindex.net/modules/newbb/viewtopic.php?topic_id=58158&forum=45 [9] The test of a false prophet – John Meunier – WordPress.com https://johnmeunier.wordpress.com/2018/08/15/the-test-of-a-false-prophet/ [10] 6. Wesley on the Work of the Holy Spirit – Dr Ken Baker https://tithebarn.wordpress.com/2024/08/24/6-wesley-on-the-work-of-the-holy-spirit/ [11] John Wesley and the Spirit of God -A Reasonable Charismatic? https://www.metrevive.uk/Articles/523087/A_Reasonable_Charismatic.aspx [12] Seven Ways John Wesley Preached about the Holy Spirit https://peopleneedjesus.net/2017/05/30/seven-ways-john-wesley-preached-about-the-holy-spirit/ [13] The Holy Spirit and the Life of the Church – AFTE https://johnwesleyfellows.org/perspectives/the-holy-spirit-and-the-life-of-the-church/ [14] The Unifying Power of Spiritual Gifts – Religious Studies Center https://rsc.byu.edu/shedding-light-new-testament/unifying-power-spiritual-gifts [15] The Wesleyan Way of Discipleship https://www.bwcumc.org/resources/who-are-we/the-wesleyan-way-of-discipleship/ [16] Understanding the Spiritual Gift of Discerning of Spirits https://myspiritualgifts.com/spiritual-gifts/administration/ [17] [PDF] Discerning spiritual gifts – nsc-chariscenter.org https://www.nsc-chariscenter.org/wp-content/uploads/PT/2pt26n2.pdf [18] Sermon 141 – On the Holy Spirit – The Wesley Center Online https://wesley.nnu.edu/john-wesley/the-sermons-of-john-wesley-1872-edition/sermon-141-on-the-holy-spirit/ [19] Continuation or Cessation of Spiritual Gifts – SWINDON CHURCH https://swindonchurch.org/2024/06/29/continuation-or-cessation-of-spiritual-gifts/ [20] John Wesley on giving | ResourceUMC https://www.resourceumc.org/en/content/john-wesley-on-giving [21] What is continuationism? What is a continuationist? | GotQuestions.org https://www.gotquestions.org/continuationism.html [22] The Counterfeits of the Holy Spirit – The Sisterhood Hub https://thesisterhoodhub.com/2024/12/06/the-counterfeits-of-the-holy-spirit-recognizing-true-spiritual-authority-in-jesus-words/ [23] John Wesley Saw Some Crazy Miracles! – Destiny Image https://www.destinyimage.com/blog/tony-cooke-john-wesely-experienced-incredible-holy-spirit-manifestations [24] Miracles Are for Today! A Refutation of Cessationism https://wesleygospel.com/2018/12/11/miracles-are-for-today-a-refutation-of-b-b-warfields-cessationism/ [25] Upon our Lord’s Sermon on the Mount https://www.ccel.org/ccel/wesley/sermons.v.xxiv.html
O Dom de Profecia: Perspectivas Católicas, Reformadas, Batistas, Metodistas e Pentecostais+
Introdução
O dom de profecia, central no Novo Testamento, é apresentado como instrumento para edificação, exortação e consolação da igreja (1Co 14.3). Seu entendimento e prática variam entre as principais tradições cristãs. A seguir, traça-se um panorama histórico-teológico, começando pela tradição católica, passando pela reformada/cessacionista, batista, metodista e pentecostal.
1. Perspectiva Católica Romana
A Igreja Católica ensina que a Revelação pública se encerrou com a morte do último apóstolo, conforme o Catecismo da Igreja Católica (§§66-67). Profecias posteriores são denominadas “revelações privadas”, as quais “não podem aperfeiçoar ou corrigir” o depósito da fé e não obrigam o fiel à sua aceitação (§67). O discernimento dessas experiências cabe ao magistério e à autoridade episcopal. O Concílio Vaticano II (Lumen gentium 12) reconhece que o Espírito distribui carismas úteis à Igreja, sempre sob discernimento e submissão ao magistério. A carta Iuvenescit Ecclesia (2016) destaca a “co-essencialidade” entre dons hierárquicos e carismáticos. Tomás de Aquino define profecia como “ciência recebida sobrenaturalmente para benefício da Igreja” (S.Th. II-II, q.171-174), admitindo previsões futuras, mas sempre condicionadas à soberania divina.
2. Perspectiva Reformada/Cessacionista
A tradição reformada clássica sustenta que os dons revelacionais, como profecia, cessaram com o fechamento do cânon e o fim da era apostólica. Os principais argumentos são:
Cessação com o “perfeito”: 1Co 13.8-10 é interpretado como referência ao fechamento do cânon ou à maturidade da igreja (Gaffin, 1979; MacArthur, 2013).
Função fundacional de apóstolos e profetas: Ef 2.20 fundamenta a ideia de que, após o estabelecimento do fundamento apostólico, não há mais necessidade de profetas inspiracionais (Warfield, Counterfeit Miracles, 1918).
Suficiência das Escrituras: 2Tm 3.16-17 é visto como suficiente para toda doutrina e prática, tornando desnecessárias novas revelações carismáticas.
Cessacionistas admitem que Deus guia e fala hoje por meio da pregação fiel e aplicação das Escrituras, mas rejeitam revelações extra-canônicas como normativas para a fé.
3. Posição Batista
Entre os batistas, há diversidade significativa. Muitos batistas históricos e tradicionais tendem ao cessacionismo moderado, alinhando-se à tradição reformada quanto à função fundacional de apóstolos e profetas (Ef 2.20) e à suficiência das Escrituras (2Tm 3.16-17). No entanto, o Baptist Faith & Message 2000 (BFM 2000), principal declaração doutrinária batista, não faz afirmação explícita sobre cessação ou continuidade dos dons, permitindo diversidade de prática congregacional. Assim, existem igrejas batistas que aceitam a possibilidade de manifestações carismáticas, enquanto outras as rejeitam. Em todos os casos, qualquer alegação de profecia é julgada à luz da Escritura e da comunidade, e não pode contradizer o ensino bíblico.
4. Perspectiva Metodista
A tradição Wesleyana, marcada pelo legado de John Wesley e pelo movimento de santidade, valoriza a atuação do Espírito Santo e reconhece a atualidade dos dons espirituais, incluindo a profecia, desde que praticados com discernimento, humildade e fidelidade bíblica. O metodismo oferece orientações pastorais claras e equilibradas para o uso do dom de profecia, que podem ser resumidas nos seguintes princípios:
Inspirando-se em textos como Mateus 7.15-20, Deuteronômio 13.1-5 e Jeremias 23.16-17, a tradição metodista alerta para a necessidade de discernimento, avaliando profetas e profecias pelos frutos de sua vida, fidelidade à Palavra e impacto sobre a comunidade.
Os dons espirituais são reconhecidos como presentes do Espírito, mas não são sinônimo de maturidade. A igreja de Corinto, embora rica em dons, foi chamada de carnal por Paulo (1Co 3.1). O amor e o fruto do Espírito (Gl 5.22-23) são critérios essenciais para avaliar a autenticidade de qualquer manifestação profética. John Wesley, em seu sermão “A Natureza do Entusiasmo”, enfatiza a importância de distinguir entre a verdadeira inspiração do Espírito e impressões subjetivas, recomendando o uso da razão, experiência e Escritura no discernimento.
Toda profecia deve ser submetida à Palavra de Deus (2Tm 3.16; Is 8.20) e ao discernimento da liderança espiritual da igreja (Hb 13.17; 1Co 14.29-40), que é responsável por garantir ordem, decência e autenticidade das manifestações carismáticas.
Integridade, humildade e santidade de vida (Ef 4.22-24) são requisitos para quem exerce o dom de profecia.
Profecias verdadeiras glorificam a Deus, edificam e fortalecem a fé da comunidade (1Co 14.3).
O metodismo valoriza o dom de discernimento de espíritos (1Jo 4.1-3; At 17.11; 1Co 12.10), incentivando a igreja a examinar cuidadosamente toda profecia, rejeitando o erro e acolhendo o que é bom.
A busca por santidade e vida de oração (1Pe 1.15-16) é vista como essencial para quem deseja operar no dom de profecia.
A liderança pastoral deve ensinar que o dom de profecia é importante, mas evitar que profetas recebam importância indevida, prevenindo abusos e personalismos (1Co 14.1, 5, 24, 31, 39).
O propósito do dom de profecia é edificar, exortar e consolar, promovendo unidade, amor e fruto do Espírito (1Co 14.3-4, 12).
Wesley via a rarefação dos dons na igreja como resultado da frieza espiritual, não como cessação definitiva do Espírito.
Assim, a igreja metodista busca uma prática equilibrada, bíblica e edificante do dom de profecia, aliando abertura ao sobrenatural com responsabilidade pastoral e submissão à Palavra.
5. Perspectiva Pentecostal
O pentecostalismo, surgido no início do século XX em contexto metodista de santidade, defende a continuidade de todos os dons espirituais, incluindo a profecia, como manifestações atuais do Espírito Santo para edificação da igreja. Entre os pentecostais:
Natureza dinâmica: A profecia é vista como comunicação sobrenatural, sujeita ao discernimento comunitário e nunca pode contradizer as Escrituras.
Função de Edificação: O dom visa encorajar, edificar e consolar a igreja, não para manipular decisões pessoais ou prever catástrofes.
Rejeição de abusos: Profecias que promovem medo, manipulação ou contradição à Bíblia são rejeitadas.
6. Fundamentos Bíblicos do Dom de Profecia
No Antigo Testamento, profetas falavam com autoridade infalível (“assim diz o Senhor”), e o erro era punido com morte (Dt 18.20-22; Jr 1.4-9). No Novo Testamento, a autoridade normativa da revelação é transferida aos apóstolos (Ef 2.20). A profecia neotestamentária visa edificação, exortação e consolação (1Co 14.3) e deve ser julgada pela comunidade (1Co 14.29). Wayne Grudem distingue a profecia do NT como “não canônica”, sujeita a erro humano e avaliação (Grudem, 2020).
7. Profecia x Revelação
No contexto bíblico, revelação (apokalypsis) refere-se ao ato divino de tornar algo oculto conhecido ao ser humano; profecia, por sua vez, é o relato humano dessa revelação, comunicando à igreja aquilo que Deus manifestou pelo Espírito. Nem toda revelação envolve previsão de eventos futuros: em 1 Coríntios 14, Paulo destaca que a profecia pode expor os segredos do coração dos ouvintes, de modo que até mesmo um incrédulo, ao ouvir a profecia, terá seus pensamentos revelados e reconhecerá a presença de Deus entre os fiéis (1Co 14.24-25). Assim, a profecia atua não apenas como anúncio do futuro, mas também como instrumento de discernimento espiritual e de confrontação pessoal, promovendo convicção, edificação e adoração comunitária.
8. Profecia, Revelação e Previsão do Futuro
Profecia x Revelação: Revelação é o ato divino de tornar algo conhecido; profecia é o relato humano dessa revelação. Nem toda revelação envolve previsão de eventos futuros.
Previsão futura no NT: Exemplos incluem Ágabo prevendo fome (At 11.28) e a prisão de Paulo (At 21.10-11).
Condicionalidade: Muitas previsões são condicionais, como em Jonas 3.4 e Atos 27.24-32.
Critérios de teste: Fidelidade doutrinária (Dt 13.1-5), fruto moral e cumprimento literal quando se trata de previsão específica.
9. Princípios Pastorais para Hoje
Discernimento e vigilância: Seguindo o exemplo metodista, é fundamental advertir contra falsos profetas, julgar profecias à luz da Escritura e avaliar os frutos na vida do profeta (Mt 7.15-20; 1Jo 4.1-3; At 17.11).
Submissão à Escritura: A Bíblia é a única regra infalível de fé e prática (2Tm 3.16-17).
Julgamento comunitário: Profecias devem ser avaliadas pelo presbitério e pela igreja (1Co 14.29).
Propósito edificativo: Toda manifestação visa fortalecer, consolar e exortar (1Co 14.3).
Humildade e prudência: Reconhecer a limitação humana e evitar linguagem que iguale profecia à Escritura.
Ordem e responsabilidade: “Tudo com decência e ordem” (1Co 14.40); abusos devem ser corrigidos.
Santidade e oração: A busca por santidade e vida de oração é essencial para quem deseja operar no dom de profecia (1Pe 1.15-16).
10. Conclusão
Apesar das diferenças, católicos, reformados, batistas, metodistas e pentecostais concordam que a Bíblia é o critério supremo e que a profecia, quando legítima, aponta para Cristo e edifica a igreja. Compreender as nuances históricas e teológicas de cada tradição, e adotar princípios pastorais como os destacados pelo metodismo, promove um uso equilibrado, humilde e responsável dos dons espirituais.
Referências Bibliográficas Essenciais ARRINGTON, F. L.; STRONSTAD, R. (eds.). Comentário Bíblico Pentecostal do Novo Testamento. 2 v. Rio de Janeiro: CPAD, 2003.
BÍBLIA SAGRADA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.
GAFFIN, R. B. Perspectives on Pentecost. Phillipsburg: P&R, 1979.
GRUDEM, W. O Dom de Profecia no Novo Testamento e Hoje. 3. ed. Natal: Carisma, 2020.
MACARTHUR, J. Strange Fire. Nashville: Thomas Nelson, 2013.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Loyola, 2000. §§66-67.
CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium 12.
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Iuvenescit Ecclesia, 2016.
AQUINO, T. Summa Theologiae II-II, q.171-174. Disponível em: newadvent.org.
WESLEY, J. Sermões. CD-ROM. São Paulo: Editeo, 2006.
WARFIELD, B. B. Counterfeit Miracles. New York: Charles Scribner’s Sons, 1918.
MELLO, José Ildo Swartele de. Orientações para o Uso do Dom de Profecia. 2023. https://escatologiacrista.blogspot.com/2023/09/orientacoes-para-o-uso-do-dom-de.html
Orientações para o Uso do Dom de Profecia+
Amados irmãos e irmãs metodistas livres, Que a graça e a paz de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo se multipliquem em suas vidas. Com base nos princípios bíblicos e em nossa tradição wesleyana, desejamos oferecer orientações claras para o uso do dom de profecia em nossas igrejas. Este dom é precioso, mas também requer discernimento e responsabilidade.
1. A Advertência Bíblica sobre Falsos Profetas
(Mateus 7.15-20; Deuteronômio 13.1-5 e Jeremias 23.16-17):
As Escrituras, tanto no Antigo como no Novo Testamento, afirmam o dom de profecia, mas também nos alertam sobre os perigos dos falsos profetas. Em Mateus 7.15-20, Jesus nos adverte sobre os falsos profetas que se disfarçam de ovelhas, mas são lobos vorazes. Ele nos ensina a discernir esses falsos mestres pelos frutos de suas vidas e ensinamentos. Deuteronômio 13.1-5 adverte que até mesmo aqueles que realizam milagres não devem ser seguidos se suas palavras nos afastarem de Deus. Jeremias 23.16-17 nos alerta sobre profetas que proferem falsos sonhos e enganos.
2. Caráter Cristão e Continuidade dos Dons Espirituais
(1 Coríntios 12.4-11, 1 Coríntios 3.1, Gálatas 5.22-23, 1 Coríntios 13.1-3):
Acreditamos na continuidade dos dons espirituais, mas é vital lembrar que os dons não são sinônimos de espiritualidade. Isso fica evidente quando observamos a situação da igreja de Corinto, que possuía todos os dons, no entanto, Paulo os chama de carnais e imaturos. O apóstolo enfatiza que o caráter de justiça e amor, juntamente com a maturidade espiritual, são fundamentais. Pois, como Paulo declara em sua carta aos Coríntios, os dons, sem o amor, não têm valor algum diante de Deus.
Em seu Sermão “A Natureza do Entusiasmo”, John Wesley reconhece a influência real do Espírito de Deus na vida dos crentes, mas também observa que muitos confundem essa influência com suas próprias ideias e impulsos, levando a excessos e comportamentos fanáticos. Ele enfatiza a importância de buscar a vontade de Deus por meio da razão, da experiência e da aplicação das Escrituras, em vez de depender de sonhos, visões ou impressões subjetivas. Ele reconhece que o Espírito Santo pode auxiliar os crentes durante o processo de discernimento, trazendo à mente circunstâncias relevantes, destacando convicções e proporcionando paz interior.
3. Submissão à Palavra de Deus
(2 Timóteo 3.16, Isaías 8.20):
Toda profecia deve ser submetida à Palavra de Deus. A Bíblia é nossa base e autoridade suprema. Isaías declara que, se alguém não fala de acordo com a lei e o testemunho, não há luz nele. Qualquer profecia que contradiga a Palavra de Deus não é inspirada pelo Espírito Santo.
4. Submissão à Liderança Espiritual
(Hebreus 13.17; Efésios 4.11-12; 1 Timóteo 5.17; 1 Coríntios 14.29-40):
Toda profecia deve ser submetida à liderança espiritual da igreja. A liderança é responsável por discernir e confirmar a autenticidade das profecias e pela ordem e decência do culto.
5. Manifestação do Caráter Cristão
(Efésios 4.22-24):
Aqueles que operam no dom de profecia devem refletir o caráter de Deus. A integridade e a santidade de vida são essenciais.
6. Glorificação de Deus e Edificação
(1 Coríntios 14.3):
Toda profecia verdadeira glorifica a Deus e testemunha de Jesus Cristo. Deve contribuir para o crescimento espiritual e o fortalecimento da fé.
7. Julgar as Profecias e Pôr à Prova os Profetas
(1 João 4.1-3, Apocalipse 2.2, 1 Coríntios 12.10, Atos 17.11):
Devemos julgar as profecias e por à prova os espíritos para saber se de fato procedem de Deus. Jesus elogia a igreja de Éfeso por sua atenção em desmascarar falsos apóstolos, destacando a importância do discernimento espiritual dentro da comunidade cristã. Devemos ser vigilantes e capazes de discernir entre aqueles que genuinamente representam a verdade de Cristo e aqueles que são falsos mestres. O dom de discernimento de espíritos é vital para avaliar profecias. Os bereianos são elogiados por examinar cuidadosamente as Escrituras para verificar se o ensino de Paulo estava em conformidade com a Palavra de Deus. Isso ilustra a atitude prudente que os cristãos devem adotar ao receberem ensinamentos ou profecias.
8. Vida de Santidade e Oração (1 Pedro 1.15-16)
Uma busca contínua pela santidade e uma vida de oração são essenciais para quem opera no dom de profecia. Uma vida santificada é mais receptiva à voz de Deus.
9. Orientação Pastoral
(1 Coríntios 14.1; 5; 24; 31; 39; 15:4):
A liderança pastoral deve ensinar a Igreja que o dom de profecia pode ter um espaço importante na Igreja, mas evitar que pessoas que profetizam recebam importância indevida, como se fossem gurus ou pitonisas.
10. Propósito Primordial do Dom de Profecia
(1 Coríntios 14.3, 1 Coríntios 14.4, 1 Coríntios 14.12):
Lembremos que o propósito primordial do dom de profecia é edificar, exortar e consolar, promovendo a edificação do corpo de Cristo e não destruição, unidade e não divisão. Portanto, todas as mensagens proféticas devem ser dadas com amor, alegria, paz e em conformidade com o fruto do Espírito.
Conclusão:
Reafirmamos o compromisso da Igreja Metodista Livre do Brasil em buscar uma vida cristã sólida, fundamentada na Palavra de Deus, na santidade de vida e na edificação mútua. Pedimos a todos os membros e líderes que busquem discernimento espiritual e que sejam vigilantes contra falsas doutrinas e enganos, à medida que utilizam e avaliam o dom de profecia para a edificação do corpo de Cristo.
Que a graça e a sabedoria de Deus nos guiem enquanto continuamos a servir ao Senhor e à sua igreja.
Em Cristo, Bispo José Ildo Swartele de Mello Bispo Daniel Abe Superintendentes dos Concílio Regionais do:
Centro-oeste: Marinho Soares Filho e Peterson Albuquerque Nunes Nordeste: Rosimeire Araújo dos Santos e João da Paz CONLESTE: Nilson Campos, Marie de Oliveira e Milton Aquino CONOR: Eduardo Adriano e Rozinaldo Leopoldino da Silva CONSULPA: Rodrigo Rodrigues Lima e Delma Lima Souza
Pesquisa revela que uma grande porcentagem de pentecostais nunca falou em línguas+
Pesquisa realizada em 10 países pelo Washington-based Pew Forum on Religion and Public Life revela que uma grande porcentagem de pentecostais nunca falou em línguas. Na tabela abaixo, temos o resultado da pesquisa por cada país, cuja pergunta era com qual frequência as pessoas falavam em línguas, sendo que o primeiro resultado mostra a porcentagem daqueles que falam em línguas regularmente e a última coluna apresenta a porcentagem daqueles que nunca falaram em línguas entre pentecostais e carismáticos. No Brasil, por exemplo, 50% dos pentecostais jamais falaram em línguas e entre os carismáticos a porcentagem é impressionantemente maior: 84%!
Spirit and Power: A 10-Country Survey of Pentecostals – Página 17 http://www.pewforum.org/Christian/Evangelical-Protestant-Churches/Spirit-and-Power.aspx Esta pesquisa apenas confirma o ensino do Apóstolo Paulo de que o dom de línguas não é um dom oferecido a todos os crentes. "Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo" (1 Co 12.4). Paulo pergunta: "Falam todos em outras línguas?" (1 Co 12.30). A resposta obviamente é não, pois esta pergunta está atrelada a uma série de perguntas retóricas cuja resposta para cada uma delas é também um sonoro "não"! (1 Co 12.29-30).
No mesmo capítulo em que Paulo ensina que nem todos falam em línguas, ele também afirma que todos da igreja de Corinto, sem exceção, foram batizados em um só Espírito no Corpo de Cristo (1 Co 12.13). Todos foram batizados com o Espírito Santo, mas nem todos falaram em línguas (1 Co 12.30). Não deveria haver divisão na igreja por causa dos dons. Ninguém deve ser desprezado por não possuir determinado dom. E ninguém deve se sentir diminuído por não falar em línguas. Pois, não importa que dom a pessoa recebeu, porque o importante é saber que o mesmo Espírito é a fonte de todos os dons. “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Co 12.4). “Se o pé disser: Porque não sou mão, não sou do corpo; não será por isso do corpo?” (1 Co 12.15). “Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente” (1Co 12.11).
No dia de Pentecostes, existe dois grupos de pessoas que receberam o Dom do Espírito. O primeiro grupo é composto pelos 120 discípulos que estavam orando no cenáculo, sobre eles veio o Espírito Santo que se manifestou através de 3 sinais maravilhosos que jamais foram repetidos: 1) foi ouvido um som como de um vento impetuoso, 2) foram vistas línguas como de fogo pousando sobre a cabeça de cada pessoa ali presente e, 3) todos passaram a falar em outros idiomas, ou seja, em línguas estrangeiras, tanto que, ao saírem do cenáculo, tais idiomas foram compreendidos por pessoas provenientes de distintas partes do mundo. Há ainda outro grupo de discípulos, os 3 mil, que se converteram e que também foram batizados com o Espírito, mas nada é dito sobre terem falado em línguas, ou sobre ter sido ouvido um barulho como de um vento impetuoso, ou ainda sobre terem sido vistas labaredas de fogo pousando sobre as cabeças no momento do Batismo. Mas outros sinais são mencionados como características da presença e ação do Espírito Santo, tais como perseverança na sã doutrina, comunhão em amor, singeleza de coração e evangelização. Tais sinais, sim, devem estar presentes na vida cristã cheia do Espírito (At 2.42.47).
É errado concluir que o dom de línguas seja o dom sinal do batismo com Espírito Santo baseado no Livro de Atos que é um livro histórico e não doutrinário. A experiência de um ou outro não deve ser tomada como uma norma para todos os demais.
Quando em Atos lemos que pessoas falaram em línguas no momento de seu batismo com o Espírito Santo, deve-se observar tratarem-se sempre de grupos novos que precisaram de uma manifestação desta natureza para que viessem a ser reconhecidos como cristãos pelos apóstolos e demais líderes da igreja que, naquele período, em sua totalidade, eram judeus e não possuíam ainda um conceito claro do caráter universal da Igreja. Por esta razão, foi que Felipe, o diácono, não batizou os samaritanos convertidos, mas mandou chamar os apóstolos para que eles pudessem testificar com seu próprios olhos que o Espírito do Senhor estava regenerando também os samaritanos. O mesmo se deu com Pedro na casa de Cornélio, o romano. Deus precisou ser bem incisivo para que Pedro superasse todos os seus preconceitos contra os gentios, e fosse visitar a casa de um romano como Cornélio. Lembremos também que Pedro teve que se explicar muito diante dos demais apóstolos que o inquiriram a respeito de um fato tão inusitado e contrário a lei judaica. O fato de Cornélio ter falado em línguas serviu como argumento favorável de que o Evangelho era também para os gentios!
Algo ainda a ser considerado é que cristãos valorosos, que demonstraram sinais evidentes da plenitude do Espírito Santo, jamais falaram em línguas, entre eles: Lutero, Knox, Calvino, John Wesley, George Whitefield, Charles Haddon Spurgeon, Dwight L. Moody, John R. Rice, Jack Hyles, F.B. Meyer's, Reuben Archer Torrey, Billy Sunday e Billy Graham. Como disse Jesus: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7.20). Pelos frutos e não pelos dons.
Bispo José Ildo Swartele de Mello Desejando saber mais sobre o assunto, sugiro a leitura dos seguintes estudos, que podem ser encontrados nos links abaixo:
Batismo com o Espírito Santo e o dom de línguas 5 Lições sobre os dons do Espírito Santo Batizados com água e com fogo!