Estudos do Bispo Ildo · Reino de Deus e Missão
Discipulado
8 estudos
← Voltar a Reino de Deus e Missão
Clique no título para abrir o texto completo.
Do “Vinde” ao “Ide”: A Escola de Discípulos em Marcos 8+
Este sermão percorre o arco do discipulado no Evangelho de Marcos: do “Vinde após mim”
(Mc 1.17) ao “Ide por todo o mundo”
(Mc 16.15). No centro do livro,
Marcos 8
funciona como sala de aula de Jesus: compaixão que supre (segunda multiplicação dos pães), correção da incredulidade (fermento que turva a visão), cura em dois toques (visão que amadurece), duas perguntas que definem a fé (“Quem dizem que eu sou?… e vós, quem dizeis que eu sou?”), a confissão e o tropeço de Pedro, e o chamado à dupla cruz: a de Cristo e a do discípulo. A tese é simples e exigente: discipulado é processo, memória de “cestos sobrando”, correção amorosa e renúncia com alegria. Jesus não nos dá apenas um título; coloca-nos sob o seu Senhorio para vivermos a missão.
Sermão em Marcos 8 — Dois Chamados, Dois Toques e Duas Cruzes: Do “Vinde”ao “Ide” – Processo de Discipulado.
Por Bispo Ildo Mello Convido você a abrir a Bíblia no Evangelho de Marcos, capítulo 8. O Evangelho de Marcos é o mais conciso dos quatro evangelhos — direto, objetivo e cheio de histórias. Logo no capítulo 1, temos aquele bendito chamado de Deus aos seus discípulos:
“Vinde após mim, e eu farei de vocês pescadores de homens” (Mc 1.17).
Ao longo dos 16 capítulos, Marcos mostra como Jesus trabalhou intensamente para transformar pescadores de peixes em pescadores de homens — um processo gradual de discipulado. Não foi “numa atacada só”; foi um caminho de convivência, ensino e transformação.
Chegando ao capítulo final, lemos:
“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15).
Entre esses dois extremos — “Vinde” e “Ide” — está todo o processo de formação de discípulos. Foram cerca de três anos e meio de convivência, ensino e prática missionária.
Esse Evangelho pode ser lido em uma única sentada: são apenas 16 capítulos. E bem no meio, o capítulo 8 é emblemático. Ele concentra, num único dia, elementos fundamentais do discipulado de Jesus. Um dia inteiro com Jesus— imagine o impacto disso!
1. A Segunda Multiplicação de Pães — Milagre e Cuidado O capítulo 8 começa com a segunda multiplicação dos pães e peixes (Mc 8.1–10). Isso mostra que milagres grandes podem se repetir; Deus não está limitado a agir uma única vez.
A multidão já estava com Jesus há três dias em um lugar deserto, ouvindo sua voz, sem murmurar ou reclamar de fome (Mc 8.2). Isso é notável — talvez até um milagre silencioso: três dias de fome e nenhuma murmuração.
“Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).
A Palavra os alimentava mais do que o pão. Quando estamos cheios de entusiasmo espiritual, muitas vezes esquecemos até de comer.
Jesus, porém, percebeu que eles estavam famintos e disse:
“Se eu os mandar para casa sem comer, desfalecerão pelo caminho” (Mc 8.3).
Ele viu que muitos vieram de longe, valorizou o sacrifício deles e providenciou o milagre.
“Portanto, meus amados irmãos, sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é vão” (1Co 15.58).
Deus vê o nosso esforço. Assim como viu a oferta da viúva pobre (Mc 12.41–44), Ele vê cada gesto de fé e dedicação.
“Antes que a palavra me chegue à língua, tu, Senhor, já a conheces toda” (Sl 139.4).
“Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl 46.1).
A multiplicação partiu de sete pães e alguns peixinhos (Mc 8.5–7), e todos comeram e se fartaram, sobrando sete cestos cheios (Mc 8.8).
2. Esquecimento e Incredulidade dos Discípulos Logo em seguida, eles embarcam para outra margem, mas esquecem de levar pão (Mc 8.13–14). Apenas um pãozinho restou para doze homens. A discussão começa: “Quem esqueceu o pão?”
Jesus os repreende:
“Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem percebem? Têm o coração endurecido?” (Mc 8.17).
Os fariseus também tinham acabado de exigir um sinal, mesmo depois de verem milagres (Mc 8.11–12). Jesus alerta:
“Cuidado com o fermento dos fariseus” (Mc 8.15).
Há pessoas que, por mais sinais que vejam, permanecem incrédulas (cf. Mt 12.38–39).
Jesus relembra:
“Quando repartiu cinco pães entre cinco mil, quantos cestos vocês recolheram?” — “Doze” — “E quando repartiu sete pães entre quatro mil, quantos cestos sobraram?” — “Sete” (Mc 8.19–20).
Os milagres de Jesus têm função pedagógica — eles ensinam quem Ele é e em quem devemos confiar.
3. O Cego de Betsaida — Dois Toques Ao chegar a Betsaida, Jesus encontra um cego (Mc 8.22–26). Curiosamente, este é o único milagre de cura em dois estágios: primeiro, Jesus toca e o homem vê de forma turva, “como árvores que andam” (Mc 8.24). Depois, um segundo toque o faz ver claramente (Mc 8.25).
Pouco antes, Jesus havia perguntado aos discípulos:
“Ainda não percebem nem compreendem? Têm olhos e não veem?” (Mc 8.17–18).
O milagre físico do cego reflete a realidade espiritual dos discípulos: eles já tinham recebido um primeiro toque — já viam mais do que antes —, mas ainda não enxergavam plenamente.
Às vezes, também precisamos de um segundo toque de Jesus para enxergar com clareza espiritual.
4. Duas Perguntas de Jesus — Confissão de Pedro Depois disso, Jesus pergunta aos discípulos:
“Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8.27).
Eles respondem: “Alguns dizem que és João Batista; outros, Elias; e outros, um dos profetas” (Mc 8.28). A multidão via Jesus com bons olhos, mas de forma ainda imperfeita.
Então Jesus pergunta:
“E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8.29).
Pedro responde:
“Tu és o Cristo” (Mc 8.29).
Nos evangelhos paralelos, acrescenta-se: “o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16).
Jesus declara:
“Não foi carne nem sangue que te revelaram isso, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16.17).
Essa é a maior de todas as confissões de fé: reconhecer Jesus não apenas como profeta, mas como o Messias, o Filho de Deus (Jo 1.14; Jo 20.31).
5. A Cruz de Cristo e a Cruz do Discípulo Após essa confissão, Jesus revela:
“O Filho do Homem precisa sofrer muitas coisas, ser rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, ser morto e, depois de três dias, ressuscitar” (Mc 8.31).
Pedro, influenciado por expectativas humanas de glória imediata, tenta repreender Jesus (Mc 8.32). Mas Jesus o repreende com firmeza:
“Arreda, Satanás! Porque você não cogita das coisas de Deus, e sim das dos homens” (Mc 8.33).
Jesus havia enfrentado essa mesma tentação no deserto, quando o diabo lhe ofereceu glória sem cruz (Mt 4.1–11). Mas o caminho do Reino passa inevitavelmente pela cruz.
O apóstolo Paulo reforça:
“Se esperamos em Cristo só para esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19).
“Porque a vocês foi concedida a graça de sofrer por Cristo” (Fp 1.29).
Então Jesus estende o chamado a todos:
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.34–36).
6. O Custo do Discipulado — O Chamado Radical de Cristo Nesse ponto, me vem à memória Fernando Pessoa.
Fernando Pessoa, poeta português, tem muitos poemas que falam sobre ideais grandiosos, coragem e sacrifício. Em um de seus poemas mais conhecidos, ele escreve:
“Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso mar?
Valeu a pena.
Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Porque quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor.”
O que ele está dizendo é que todo ideal exige sacrifício. O povo português, um país pequeno, foi capaz de grandes feitos: conquistou terras, dobrou o Cabo da Boa Esperança, navegou por mares desconhecidos. Para isso, muita coisa foi deixada para trás: noivas ficaram sem casar, sonhos foram sacrificados, famílias foram separadas. Havia um preço para conquistar o mar.
Em outro poema — sobre Dom Sebastião, também conhecido como Quinto Império — Pessoa escreve:
“Louco, sim, louco porque quis grandeza.
Qual a sorte a não dar?
Não coube em mim minha certeza.
Por isso, onde o areal está, ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura outros que me aturem como o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem, mais do que a besta sadia, cadáver adiado que procria.”
Essa poesia fala da coragem de abandonar a terra firme — o areal — e se lançar ao mar, movido por um ideal maior. Pessoa diz que, sem essa “loucura santa”, sem viver por um propósito mais alto, o ser humano se torna apenas “um cadáver adiado que procria”.
Mas aqui está a diferença essencial:
👉 Os portugueses lutaram por mares e glórias temporais, mas Jesus nos chama a seguir um ideal eterno.
“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).
“Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36).
O ideal português foi grandioso, mas o ideal cristão é infinitamente superior. Eles atravessaram oceanos para conquistar terras; Jesus nos chama a negar a nós mesmos para herdar o Reino de Deus. Eles buscaram impérios passageiros; Jesus nos chama a participar de um Reino que jamais passará. Eles lutaram por glória humana; Jesus nos chama para a glória eterna.
Seguir a Cristo, portanto, é assumir essa “loucura santa” — sair do conforto, deixar o “areal firme” e lançar-se no mar da fé, confiando no Senhor. Não por poder, glória ou fama, mas por vida eterna.
Conclusão
O capítulo 8 de Marcos nos apresenta dois chamados — “Vinde após mim” (Mc 1.17) e “Ide por todo o mundo” (Mc 16.15); dois toques — um para começar a ver e outro para enxergar claramente (Mc 8.22–25); e duas cruzes — a de Cristo e a nossa (Mc 8.34).
Seguir Jesus significa ver com clareza espiritual crescente, confessar quem Ele realmente é e carregar a cruz com fidelidade.
“De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36).
“Só tu tens as palavras de vida eterna” (Jo 6.68).
A Importância das Células+
Células – o que são?
A reunião de cristãos em pequenos grupos para comunhão, cuidado mútuo, estudo bíblico e oração com intuito de promover o crescimento espiritual de seus participantes e a evangelização de parentes e amigos.
Importância Wesley preocupou-se com estruturas, buscou estruturas para evangelizar as massas e também para promover a santidade e o crescimento espiritual dos convertidos. Wesley pesquisou entre moravianos e pietistas. A questão chave para a edificação de uma Igreja com uma comunhão saudável que vive, nutre e reflete os valores do Reino de Deus foi, no movimento Wesleyano, o sistema de classes ou pequenos grupos de discipulado e santificação. O pequeno grupo é importante, pois transmite fé e não apenas conhecimento. Aprendemos muito mais através do convívio do que através da leitura. O poder da cultura é maior do que a força de nossa cosmovisão. O que significa que não adianta mudar nossa consciência, pois sozinha a consciência tende a sucumbir à cultura. E as células são o melhor ambiente para o desenvolvimento da cultura cristã, onde são nutridos os valores cristãos através da vivência comunitária dos princípios do Reino de Deus.
Não se deve desprezar o valor precioso papel destes pequenos grupos de apoio e cuidados mútuos, que promovem um ambiente acolhedor, solidário e favorável, para o desenvolvimento da cultura e dos valores do Reino de Deus, através também de uma série e salutar ordem disciplinar, com exortação em amor, oração em favor uns dos outros e estímulos mútuos para o desenvolvimento do caráter cristão pessoal e comunitário. O movimento wesleyano demonstrou o valor imprescindível de estruturas normativas para disciplina e missão, algo como um pacto de membros e supervisão dentro do grupo e de disciplina e supervisão do grupo e seus líderes ao grupo mais amplo da Igreja.
Líderes Leigos As reuniões em grupos pequenos são também o melhor espaço para o exercício de dons e ministérios, favorecendo, assim, a formação e a multiplicação de novos líderes, células e igrejas.
A Reforma protestante ergueu a bandeira em defesa do sacerdócio universal de todos os crentes, mas foi no movimento wesleyano que vimos isto se dar na prática. Wesley, durante seu ministério, chegou à conclusão de que os leigos poderiam e deveriam exercer o ministério sacerdotal. Isto foi fundamental para o crescimento quantitativo e qualitativo do movimento wesleyano e para o sucesso de sua missão. Pois, para que a Igreja possa exercer sua missão de modo integral, é indispensável que a missão seja entendida como ministério de cada crente e não fique restrita a uma elite de obreiros ordenados.
A missão da Igreja, portanto, não deve ser encarada como privilégio de um pequeno grupo de ministros ordenados ou como algo destinado para aqueles que recebem um chamado para o campo missionário no exterior. O cristão é missionário por excelência, onde quer que esteja, e não um cliente dos produtos da fé. Todos os membros da Igreja, sem exceção, por terem sido integrados no corpo, receberam dons e ministérios. A função dos líderes maduros da Igreja é equipar homens e mulheres para a missão da Igreja no mundo. Pois a Igreja não existe como um fim em si mesma, mas existe para servir a Deus no mundo na proclamação e expansão do Evangelho do Reino de Deus, por palavras e boas obras, o que implica a participação ativa e construtiva de cada cristão, homens e mulheres, jovens e idosos, cultos e incultos, pobres e ricos…
O Papel do Líder Tendo a célula um caráter bem comunitário e participativo, a função do líder é a de facilitador. Ele não precisa ser um exímio pregador e nem muito carismático, pois o seu papel não é o de centralizar as ações, mas o de facilitar a participação de todos. Para tanto, basta que seja um bom crente, consciente do valor dos grupos pequenos para a cura e o bem estar da alma humana. Assumindo o sério compromisso de devotar tempo e esforços para a constituição e continuidade do grupo. É muito importante também que seja uma pessoa ensinável e leal a Deus e a liderança da igreja, sempre disposta a aprimorar-se para melhor servir.
O papel do Anfitrião A figura do anfitrião é vital para o sucesso da célula. Os donos da casa não devem se sentir na obrigação de prepararem lanche para os participantes das reuniões. O líder deve deixar claro que esta não é uma obrigação deles. De fato, a questão do lanche nem é um requisito essencial para a realização da célula. Mas, se o grupo fizer questão de um lanche, deve organizar-se de tal maneira a não onerar o anfitrião. Tal medida visa também encorajar que mais pessoas abram a porta de suas casas para as reuniões das células.
Discipulado e Evangelização As células são excelentes para promover a comunhão e a edificação espiritual de seus participantes, como também para evangelizar os que estão separados de Deus e de Sua Igreja. Os sem igreja costumam ter mais simpatia por participar de uma reunião em uma casa do que em uma igreja. O ambiente aconchegante do lar e da célula favorecem a amizade e o entrosamento do visitante. Devemos convidar vizinhos, amigos e parentes para participarem das células. Devemos também acolher bem a todos os que visitam os cultos e programações da igreja. Eles merecem uma atenção especial de nossa parte para que se sintam amados e bem recebidos na igreja. Devemos facilitar a integração destes visitantes com os demais membros da igreja. Devemos fazer amizade com eles, ajudando-os a se enturmarem com outros membros da igreja. Devemos também aproveitar a oportunidade para convidá-los a participarem das células, observando que pessoas da mesma faixa etária tem mais facilidade de entrosamento.
O Perigo da Koinonite Existe sempre o perigo da Koinonite, que é fazer da comunhão um fim em si mesma. Jesus conviveu por 3 anos com seus discípulos. E foi muito duro para eles quando Jesus disse que havia chegado o momento de partir. Os discípulos tornaram-se crentes maduros, e agora estavam aptos para formarem e liderarem novos grupos de cristãos. Tal separação foi vital para a multiplicação de novas células e igrejas.
Formando e Multiplicando Líderes, Células e Igrejas Não percamos jamais a visão missionária das células! Células saudáveis devem crescer, formar novos líderes e se multiplicarem. Líderes multiplicam líderes, células multiplicam células, e igrejas multiplicam igrejas. "Crescei e multiplicai-vos" (Gn 1.28 cf. Mt 28.18-20).
Estrutura Simples Cada reunião das células deve possuir uma estrutura simples com duração de cerca de uma hora, composta por 3 blocos de aproximadamente de 20 minutos cada:
O primeiro destina-se ao compartilhamento; (período em que as pessoas testemunham a respeito de seu desenvolvimento espiritual, vitórias, derrotas e desafios).
O segundo ao estudo bíblico; (que deve ser baseado no sermão do domingo anterior. Não deve ser uma repetição do sermão e nem um palestra sobre o assunto. O dirigente deve atuar como um facilitador do debate em torno da mensagem. Deve ler o texto básico e apresentar um rápido resumo do que foi pregado, para depois ouvir o que as pessoas tem a dizer a respeito, levantando questões sobre como é que a mensagem tem afetado suas vidas. Ele não tem a obrigação de responder a questões difíceis. Estas devem ser encaminhadas aos pastores da igreja).
E o terceiro e último é a oração.
(Momento de carregarmos os fardos uns dos outros. Dependendo do tamanho do grupo, é aconselhável que haja uma divisão em grupos de 3 pessoas para que todos tenham tempo de compartilhar suas necessidades e orarem uns pelos outros).
Bispo José Ildo Swartele de Mello
Os Dois Chamados e o Processo de Discipulado+
Em 29 minutos, falo sobre o primeiro e o último chamado de Jesus, que se encontram respectivamente no primeiro e último capítulos do Evangelho de Marcos. Evangelho este que mostra como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens. O capítulo 8, que fica exatamente no meio do livro, de modo emblemático, apresenta um dia intenso de atividades, como um claro exemplo deste processo de discipulado. O número dois é recorrente, apontando para o processo pedagógico:
Dois Chamados (o primeiro e o último) e o processo de discipulado entre um e o outro!
Duas Multiplicações de Pães. Que lições?
Dois Milagres em Marcos 8. Qual a relação entre eles?
Dois Toques de Jesus foram necessários para a cura do cego. Por quê?
Duas Perguntas que Jesus fez aos seus discípulos Duas falas de Pedro (uma espiritual e a outra carnal)
Duas repreensões de Jesus aos seus discípulos. A falta de fé e confiança e as ambições desta vida (Quando Pedro ainda era adepto da teologia da prosperidade).
E As Duas Cruzes (A de Cristo e a que pertence a cada discípulo).
——– Os Dois Chamados Como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens?
Processo de discipulado que vai do "Vinde a mim" até o "ide".
Mensagem que preguei na imel de Pinheiros do concílio nikkei no último domingo de Maio de 12.
Sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
O que significa fazer violência ao reino e se apoderar dele pela força?+
O que Jesus quis dizer com a frase abaixo, que é tão difícil de entender?
“E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao Reino dos céus, e pela força se apoderam dele.” (Mateus 11.12)
Violência aqui não significa violência contra os adversários, pois Jesus nos ensinou a dar a outra face e a amar até mesmo os nossos inimigos. Não significa também a violência dos inimigos contra o Reino de Deus, porque em Lucas 16.16, temos uma declaração semelhante, onde tal interpretação não seria possível, pois ali se lê: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.” (Lc 16.16). O pensamento parece ser: "… apenas o homem em quem a violência da devoção supera e derrota a violência da perseguição entrará finalmente no Reino dos Céus“. O que é capaz de negar-se a si mesmo, carregar sua cruz, que prioriza o Reino e é capaz de deixar as redes, e que luta por entrar pela porta estreita; não tendo dois senhores, não amando as riquezas, não sendo avarento, não amando e seguindo apegado as coisas e valores deste mundo passageiro é que entrará no Reino de Deus. Ou seja, Jesus está se referindo às pessoas que o seguiam ativamente, fazendo de tudo para apropriar-se do reino, pagando o preço do discipulado, negando-se a si mesmo, deixando tudo para seguir o Senhor, desprendendo-se de tudo para apropria-se da pedra de inestimável valor, ou seja, elas não ficam simplesmente esperando que o reino venha até elas. Trata-se aqui da violência contra os apetites carnais, contra o egoísmo e todas as obras da carne. “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (1Co 9.27 AA ). “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.” (Mt 5.29).
A porta do Reino dos Céus é estreita: “E alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. (Lc 13.23–24 AA). (onde o verbo ἀγωνίζομαι traduzido por “esforçar” significa "lutar”).
Nenhuma obra, sacrifício ou esforço humano é capaz de nos garantir a salvação, mas, uma vez alcançados por tão grande e gratuita salvação, somos chamados e capacitados a sermos suas testemunhas aqui neste mundo, vivendo de modo digno do Evangelho, produzindo os frutos dignos de arrependimento, as boas obras que promovem a glória de Deus.
A graça salvadora não apaga a responsabilidade humana. “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.11–12).
No primeiro capítulo de sua segunda epístola, Apóstolo Pedro diz que recebemos gratuitamente todas as condições para vivermos à altura de nossa vocação e que compete a cada cristão esforçar-se diligentemente para o seu desenvolvimento espiritual, para não se tornarem inativos e nem infrutíferos, “pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. (2Pe 1.11).
Portanto, cuidado com a graça barata que promove a ideia de um Deus que dá tudo e que não exige nada. Bonhoeffer disse que "A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado… Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – ‘vocês foram comprados por preço’ – e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus.”
Quem ama mais ou menos, tem fé mais ou menos, ora mais ou menos, se engaja na obra de Deus mais ou menos, obedece a Deus mais ou menos, levando a vida cristã no banho Maria, corre o risco de estar enquadrado na categoria dos cristãos mornos que serão vomitados da boca do Senhor se não se arrependerem (Ap 3.16).
Os que gostam de levar a vida em banho Maria, deveriam atentar para o refrão da canção Maria, Maria de Milton Nascimento: “Mas é preciso ter força. É preciso ter raça. É preciso ter gana sempre!”
Qual o valor que temos dado ao Evangelho que nos salva? Temos buscado o Reino de Deus como a prioridade máxima de nossas vidas? Qual tem sido a temperatura da nossa fé, amor e devoção a Cristo e sua Igreja?
Como começar bem o ano+
No primeiro domingo do ano de 1980 eu entreguei minha vida a Jesus. Não que eu não fosse um cristão até então, pois eu lia a Bíblia e orava cotidianamente, o problema é que eu seguia a Cristo à distância, semelhante a Pedro por ocasião da prisão de Jesus (Lc 22.52). Quem segue a Jesus de longe acaba caindo em muitas tentações, chegando a ponto de até mesmo negar que conhece a Jesus (Lc 22.56-61).
Eu cria em Cristo, mas não me entregava a ele de corpo e alma. Eu o seguia à minha maneira, mantendo uma distância segura para preservar minha pele, meus sonhos, meus planos, meus alvos, meus prazeres, enfim, meu ego, pois eu queria continuar sendo o regente inconteste da minha existência.
Naquela oportunidade eu também mantinha distância da Igreja. Embora eu soubesse que Jesus havia instituído a Igreja e delegado a ela a incumbência de dar sequencia a sua grande missão, tal consciencia foi diminuindo com o passar do tempo, de modo que eu fui largando mão da Igreja, me esquecendo de que ser batizado em Jesus é também ser batizado no Corpo de Cristo que é a Igreja (1 Co 12.13). Então, eu fui desenvolvendo um jeito peculiar de ser cristão, um estilo individualista, apartado da igreja, como um ilha está separada do continente. De maneira que a minha situação era bem pior que a de Pedro. Pois o erro de Pedro foi ter seguido a Jesus de longe naquele fatídico dia, o que não era o costume dele, pois Pedro estava sempre seguindo a Jesus de perto e também fazia parte do grupo mais seleto de seguidores de Cristo. Embora a igreja esteja cheia de imperfeições, a Bíblia ensina que Jesus "amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra" (Ef 5.25-26). Em vez de ficarmos do lado de fora, criticando a igreja por conta dos iscariotes que há nela, devemos nos unir a Cristo, aos pedros, joãos e tiagos que sinceramente trabalham em favor do aperfeiçoamento da igreja, pois ela cumpre um papel vital no plano de Deus para este mundo.
Então, eu precisava despertar para o fato de que não podia continuar negando a Cristo e a sua Igreja. Eu precisava assumir o meu cristianismo. Eu precisava negar a mim mesmo para poder carregar a minha própria cruz. Eu precisava confiar em Cristo a ponto de entregar a minha alma, minha vida e meu futuro em suas mãos. Eu precisa abandonar o meu estilo de seguir a Jesus, para segui-lo à sua maneira e não à minha. Eu precisava confessar que estava amando mais a mim mesmo do que a Deus. Eu precisava também reconhecer que o estava negando quando não o confessava publicamente como Senhor da minha vida até mesmo por motivo de vergonha da opinião dos outros ou porque não queria me identificar com ele para seguir vivendo à vontade com meus pecados.
Foi aí que eu decidi seguir a Jesus de perto! Decidi ser discípulo de verdade e não apenas um mero crente ou cristão. Eu assumi um compromisso com Jesus e com a Sua Igreja. Comecei a frequentar a Igreja, mais que isto, eu me tornei parte da Igreja de Cristo! Fiz um pacto com Deus, passando a levar a sério o meu batismo. Ou seja, eu passei a viver o meu batismo cristão. Foi aí também que eu experimentei uma libertação! Jesus tomou o fardo do pecado que estava sobre as minhas costas! Que alívio! Eu experimentei o céu na terra! Uma alegria indizível! A certeza de que estava perdoado e de que minha vida e futuro estavam nas mãos do ser mais poderoso e bondoso de todo o Universo. Jesus se tornou o meu melhor amigo. Eu abri a porta do meu coração para ele habitar (Ap 3.20). Eu reconheci que ele é o legítimo Rei e me submeti alegre e confiadamente ao seu senhorio!
Lá se vão 33 anos de experiência tendo Jesus como comandante da minha vida e posso afirmar que aquela foi a decisão que mudou o curso da minha história para melhor em todos os sentidos. Desde então, eu tenho provado do cuidado bondoso de Deus e desfrutado da companhia real e transformadora de Cristo. Vale a pena entregar a vida a ele. Se ainda não o fez, comece o ano tomando a decisão que mudará o rumo de sua vida terrena e eterna.
Um abençoadíssimo 2013 na presença de Jesus!
Bispo Ildo Mello
O Processo de Discipulado no Evangelho de Marcos+
Como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens?
Processo de discipulado que vai do "Vinde a mim" até o "ide".
Mensagem que preguei na imel de Pinheiros do concílio nikkei no último domingo de Maio de 12.
Sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
O Segundo Toque!+
Mensagem do Bispo Ildo Mello no quadragésimo aniversário da imel de Vila Moraes sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
Simão, o cirineu!+
“Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz.”
(Mt 27.32).
Aquele que jamais caiu em pecado, carregou o peso da culpa dos pecados do mundo inteiro. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro… ” (Is 53.6–7).
Neste caminho para o matadouro, após ser cruelmente açoitado, mal conseguia suportar o peso da imensa cruz que carregava, chegando a tombar algumas vezes. O Filho de Deus se humilhou a ponto de cair com a cara no chão e de rastejar a caminho da morte. Tudo por amor a todos nós. Tal atitude denuncia toda espécie de orgulho humano! Os soldados romanos forçaram um cirineu chamado Simão a ajudar a carregar a cruz de Cristo.
Enquanto Jesus sofria por todos, os seus discípulos mais chegados, que no passado foram chamados a carregarem a cruz (Mt 16.24), o abandonaram, de modo que Jesus acabou sendo socorrido por um estrangeiro que por ali passava. O que nos faz lembrar da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37). Os soldados não estavam sendo necessariamente bondosos com Cristo, o mais provável é que eles agiram assim para que Cristo não morresse no caminho a fim de que pudesse sofrer ainda mais na cruz.
Simão, o cirineu, havia saído do Norte da África para celebrar a Páscoa em Jerusalém, e, no caminho, acabou se deparando com o verdadeiro Cordeiro Pascal que tira o pecado do mundo. Ele recebeu a graça de não apenas crer, mas também de padecer por Cristo. Jesus morrerá pelos pecados de todos, incluindo os de cirineu, mas todos somos chamados a carregar a cruz. O Apóstolo Pedro disse que participar dos sofrimentos de Cristo é um grande privilégio e motivo de alegria: “alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).
Simão, que a princípio foi forçado a carregar a cruz, tornou-se espontaneamente um seguidor de Cristo disposto a seguir carregando a sua própria cruz. E sabemos que seu filho Rufo foi um destacado cooperador de Paulo (Rm 16.13; Mc 15.21).
“Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” Mt 16.24).
Bispo Ildo Mello