Estudos do Bispo Ildo · Reino de Deus e Missão
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Por que os discípulos, depois de presenciarem duas multiplicações de pães, ainda se afligiam por não terem pão no barco? Por que Jesus curou um cego em duas etapas, sendo que poderia tê-lo curado com uma só palavra? Como Pedro pôde fazer a maior confissão de fé dos Evangelhos e, minutos depois, ser chamado de Satanás? E o que um mendigo cego, sentado à beira do caminho de Jericó, tem a nos ensinar sobre ser discípulo de Cristo? Estas perguntas encontram resposta quando lemos Marcos 8 como aquilo que ele é: a sala de aula de Jesus, o coração do processo de formação de discípulos.
O Evangelho de Marcos é o mais conciso dos quatro: direto, objetivo e cheio de histórias, podendo ser lido em uma única sentada. Logo no capítulo 1 encontramos aquele bendito chamado: “Venham comigo, e eu farei de vocês pescadores de gente” (Mc 1.17). E, chegando ao capítulo final, lemos a ordem de envio: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15). Entre esses dois extremos, o “Vinde” e o “Ide”, está todo o processo de formação de discípulos: cerca de três anos e meio de convivência, ensino e prática missionária, nos quais Jesus trabalhou intensamente para transformar pescadores de peixes em pescadores de gente.
Note bem: não foi de uma vez só; foi um caminho. E isto já é a primeira lição do estudo. Ninguém se torna discípulo maduro no dia da conversão, assim como ninguém se forma médico no dia da matrícula. O discipulado é processo, e Marcos estruturou o seu Evangelho para mostrar exatamente isso. Bem no meio do livro, o capítulo 8 concentra, num único dia, os elementos fundamentais desta escola: a compaixão que supre, a correção da incredulidade, a visão que amadurece em dois toques, as duas perguntas que definem a fé, a confissão e o tropeço de Pedro e o chamado à cruz. Um dia inteiro com Jesus. Imagine o impacto disso.
Há ainda um detalhe da arquitetura de Marcos que ilumina tudo o que vem a seguir. A grande seção do discipulado, em que Jesus ensina no caminho para Jerusalém, é emoldurada por duas curas de cegos: o cego de Betsaida, curado em dois toques (Mc 8.22-26), e o cego Bartimeu, curado à saída de Jericó (Mc 10.46-52). Não é coincidência. Marcos está nos dizendo que o tema central desta seção é aprender a enxergar: enxergar quem Jesus é, enxergar o caminho da cruz e enxergar, com os olhos dele, o mundo que ele veio salvar.
O capítulo abre com a segunda multiplicação de pães e peixes. Isso, por si só, já ensina: milagres grandes podem se repetir; Deus não está limitado a agir uma única vez. A multidão estava com Jesus havia três dias num lugar deserto, ouvindo a sua voz, sem murmurar nem reclamar de fome (Mc 8.2). Isto é notável, quase um milagre silencioso: três dias de jejum forçado e nenhuma murmuração. A Palavra os alimentava mais do que o pão, pois “nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4).
Mas observe quem toma a iniciativa. Ninguém pediu nada. Foi Jesus quem percebeu a necessidade e disse: “Tenho compaixão desta multidão… Se eu os mandar para casa em jejum, vão desfalecer pelo caminho; e alguns deles vieram de longe” (Mc 8.2-3). Ele viu o sacrifício de quem veio de longe, valorizou este esforço e providenciou o milagre a partir de sete pães e alguns peixinhos, e todos comeram e se fartaram, sobrando ainda sete cestos cheios (Mc 8.5-8). Assim é o nosso Senhor: ele vê o que ninguém vê. Viu a oferta da viúva pobre que ninguém notou (Mc 12.41-44), conhece a palavra antes que chegue à nossa língua (Sl 139.4) e é “socorro bem presente na angústia” (Sl 46.1). Por isso Paulo pode nos exortar: “Sejam firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o trabalho de vocês não é em vão” (1 Co 15.58). Deus vê o nosso esforço, e a sua compaixão supre o que a nossa dedicação não alcança.
Logo em seguida, os fariseus exigem um sinal do céu, mesmo depois de tantos milagres (Mc 8.11-12). Há pessoas que, por mais sinais que vejam, permanecem incrédulas (Mt 12.38-39), porque o problema delas não está nos olhos, mas no coração. Jesus suspira profundamente no espírito e embarca com os discípulos para a outra margem. E no barco acontece a cena que seria cômica se não fosse tão parecida conosco: eles se esqueceram de levar pão, restou um único pão para todos, e começa a discussão sobre quem esqueceu (Mc 8.14, 16).
Jesus então os adverte: “Cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes” (Mc 8.15). O fermento é aquilo que, em pequena quantidade, leveda a massa toda: a incredulidade dos fariseus, que viam milagres e pediam sinais, podia contaminar também os discípulos. E a repreensão vem sem anestesia: “Por que vocês estão discutindo sobre não terem pão? Ainda não compreendem nem entendem? Vocês têm o coração endurecido? Tendo olhos, não veem?” (Mc 8.17-18). Em seguida, Jesus aplica o remédio da memória: “Quando parti os cinco pães para os cinco mil, quantos cestos cheios de pedaços vocês recolheram?” Doze. “E quando parti os sete pães para os quatro mil?” Sete (Mc 8.19-20). E conclui: “Vocês ainda não entendem?” (Mc 8.21).
Aqui está uma das lições mais práticas do capítulo: os milagres de Jesus têm função pedagógica. Eles não existem apenas para resolver a crise do momento, mas para ensinar quem ele é e em quem devemos confiar na crise seguinte. A ansiedade diante do pão que falta é, no fundo, um problema de memória: esquecemos os cestos que sobraram. O discípulo maduro cultiva a memória das misericórdias de Deus, como Israel era exortado a fazer (Dt 8.2-3; Sl 103.2), e enfrenta a crise de hoje lembrando-se da provisão de ontem.
Ao chegar a Betsaida, trazem a Jesus um cego. E aqui temos algo único: é o único milagre de cura registrado em duas etapas. No primeiro toque, o homem passa a ver de forma turva: “Vejo os homens, porque, como árvores, os vejo andando” (Mc 8.24). No segundo toque, passa a ver tudo claramente, ainda de longe (Mc 8.25). Jesus poderia tê-lo curado com uma palavra, como fez tantas vezes. Por que dois toques?
A resposta está na posição do milagre. Ele vem imediatamente depois de Jesus perguntar aos discípulos: “Tendo olhos, não veem?” (Mc 8.18), e imediatamente antes da confissão ainda imperfeita de Pedro. O milagre físico é uma parábola encenada da condição espiritual dos discípulos: eles já haviam recebido um primeiro toque, já viam mais do que antes, já haviam deixado tudo para seguir a Jesus, mas ainda enxergavam de modo embaçado, confundindo o Messias sofredor com um rei de glória imediata. A visão espiritual, como a deles, amadurece por etapas. Quantos de nós não estamos exatamente aí: já tocados por Cristo, já fora da escuridão, mas ainda vendo homens como árvores que andam? A boa notícia é que Jesus não abandona a obra no primeiro toque. Aquele que começou a boa obra há de completá-la (Fp 1.6). Às vezes, o que mais precisamos pedir é um segundo toque.
No caminho para Cesareia de Filipe, Jesus faz a primeira pergunta: “Quem os homens dizem que eu sou?” (Mc 8.27). A resposta revela a visão da multidão: João Batista, Elias, um dos profetas (Mc 8.28). Era uma visão elogiosa, mas turva; viam algo de muito bom em Jesus, mas não viam o Filho de Deus. E esta continua sendo a visão do mundo até hoje: Jesus como grande mestre, como revolucionário, como exemplo moral. Tudo verdadeiro, tudo insuficiente.
Então vem a segunda pergunta, aquela da qual ninguém escapa: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8.29). Pedro responde: “Tu és o Cristo” (Mc 8.29), e Mateus registra o complemento: “o Filho do Deus vivo” (Mt 16.16), bem como a declaração de Jesus de que não foi carne nem sangue que lhe revelou isso, mas o Pai que está nos céus (Mt 16.17). Eis a maior de todas as confissões: reconhecer Jesus não apenas como profeta, mas como o Messias, o Filho de Deus (Jo 1.14; 20.31). Nenhuma pesquisa de opinião salva ninguém; a fé que salva é sempre resposta em primeira pessoa. A pergunta de Jesus não é “o que a sua igreja diz de mim?”, nem “o que os seus pais dizem de mim?”, mas “quem você diz que eu sou?”.
Feita a confissão, Jesus começa a ensinar abertamente que “era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e, depois de três dias, ressuscitasse” (Mc 8.31). E Pedro, o mesmo que acabara de confessar, chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo (Mc 8.32). É como se dissesse: nada de sofrimento, nada de morte, nada de cruz, só vitória. A resposta de Jesus é a repreensão mais dura dos Evangelhos: “Para trás de mim, Satanás! Porque você não pensa nas coisas de Deus, e sim nas dos homens” (Mc 8.33). A dureza se explica: Pedro repetia, sem saber, a tentação do deserto, quando o diabo ofereceu a Jesus glória sem cruz (Mt 4.1-11). O mesmo Pedro alternava altos e baixos, visão e cegueira; a sua visão de Cristo era real, mas ainda de primeiro toque. Só depois da ressurreição os seus olhos foram plenamente abertos para o lugar da cruz no ministério do Messias.
E então Jesus, chamando a multidão com os discípulos, estende o chamado a todos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho vai salvá-la. Pois que adianta alguém ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.34-36). Há, portanto, duas cruzes neste capítulo: a cruz de Cristo, que só ele podia carregar, na qual foi consumada a nossa redenção; e a cruz do discípulo, que ninguém pode carregar por nós: a renúncia diária de si mesmo para viver sob o senhorio de Jesus (Lc 9.23; Gl 2.20). Satanás continua operando hoje onde operou em Pedro: cegando o entendimento de seguidores de Jesus para que pensem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas “se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os seres humanos” (1 Co 15.19). O sofrimento pelo Reino não é acidente de percurso; é graça concedida: “a vocês foi dada a graça de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele” (Fp 1.29).
Ao meditar neste chamado radical, me vem à memória Fernando Pessoa. O poeta português cantou os grandes feitos das navegações e perguntou pelo seu preço: “Quantas noivas ficaram por casar para que fosses nosso, ó mar!”. E respondeu: “Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor”. Um povo pequeno realizou feitos enormes porque houve quem pagasse o preço: noivas sem casar, famílias separadas, sonhos deixados na praia. Noutro poema, sobre D. Sebastião, Pessoa vai mais longe: “Louco, sim, louco, porque quis grandeza qual a Sorte a não dá”; e arremata que, sem a loucura de viver por um propósito maior, o homem é “cadáver adiado que procria”. Sem um ideal que valha a vida, apenas existimos até morrer.
Aqui, porém, está a diferença essencial. Os portugueses lutaram por mares, impérios e glórias temporais; Jesus nos chama a um ideal eterno. Eles atravessaram oceanos para conquistar terras; Jesus nos chama a negar a nós mesmos para herdar o Reino de Deus. Eles buscaram impérios que passaram; Jesus nos chama a participar de um Reino que jamais passará (Dn 7.14; Hb 12.28). Se homens foram capazes de tamanha renúncia por glória humana, quanto mais nós, por amor daquele que nos amou primeiro e se entregou por nós (1 Jo 4.19; Gl 2.20)? Seguir a Cristo é assumir esta loucura santa: sair do conforto, deixar o areal firme e lançar-se ao mar da fé, não por poder, glória ou fama, mas por vida eterna. Aos olhos do mundo, loucura; para nós, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens” (1 Co 1.18, 25).
A seção do caminho, que começou com o cego de Betsaida, termina com outro cego: Bartimeu, à saída de Jericó, quando Jesus rumava para Jerusalém, para a sua Páscoa. Marcos o destaca de propósito. Bartimeu é o último convertido mencionado no Evangelho, e os últimos serão os primeiros; é o primeiro curado cujo nome é registrado; e é o primeiro a proclamar Jesus publicamente como Messias, clamando “Jesus, Filho de Davi!” (Mc 10.47). O homem que era desprezado por todos foi honrado na Bíblia com a menção do seu nome. Miserável e cego, ele enxergava melhor do que todos ao seu redor, e por isso é o melhor paradigma de discípulo no Evangelho de Marcos. Observe o que ele enxerga.
Ele enxerga a própria necessidade. Estava cego, arruinado, reduzido a mendigar, fora da cidade, assentado à beira do caminho (Mc 10.46), carregando ainda o estigma de quem era tido como maldito. Como se aprende nos Alcoólicos Anônimos, o primeiro passo de qualquer libertação é enxergar o próprio problema; o fariseu de Lc 18.11-12 não foi justificado porque não via necessidade alguma. Ele enxerga Cristo como a solução e clama a ele sem cerimônia. Ele enxerga que não possui méritos: não pede o que merece, clama por misericórdia: “Filho de Davi, tem compaixão de mim!” (Mc 10.47). Ele enxerga quem Jesus é, pois “Filho de Davi” é confissão messiânica (2 Sm 7.12-16; Is 11.1), feita por um cego que nunca viu um milagre. E enxerga com tal convicção que não desiste diante dos obstáculos: muitos o repreendiam para que se calasse, e ele clamava ainda mais (Mc 10.48). Aqueles discípulos, advertidos pouco antes sobre o perigo de se tornarem pedra de tropeço para os pequeninos (Mc 9.42), agora mandavam calar um mendigo; a cegueira espiritual não estava nos olhos de Bartimeu. Jesus quer mudar a nossa visão e a nossa atitude em relação aos miseráveis: felizes os amigos que, como os do paralítico, aproximam os necessitados de Jesus em vez de afastá-los (Mc 2.3-5).
Então Jesus parou (Mc 10.49). O Rei, a caminho da sua cruz, para por causa de um mendigo. E, na sua bondade, concede aos discípulos a oportunidade de se redimirem: “Chamem-no”. Agora os que mandavam calar dizem: “Coragem! Levante-se! Ele está chamando você” (Mc 10.49). Bartimeu dá ouvidos ao chamado prontamente: lança de si a capa, levanta-se de um salto e vai ter com Jesus (Mc 10.50). A capa era provavelmente o seu único bem, estendida para recolher esmolas; ele a abandona sem hesitar, em contraste frontal com o jovem rico, que foi embora triste porque tinha muitos bens (Mc 10.22). E ora: à pergunta “O que você quer que eu faça?”, responde com simplicidade: “Mestre, eu quero ver de novo” (Mc 10.51). Por trás deste pedido havia fé nas promessas: os profetas anunciaram que, em vindo o Messias, “se abrirão os olhos dos cegos” (Is 35.5; ver Is 29.18-19), e a cura de cegos é justamente o milagre sem paralelo registrado no Antigo Testamento, reservado como assinatura do Messias (Jo 9.32). Sem ter visto, creu; e a lição permanece: a questão não é tanto o tamanho da fé, mas a fé depositada na pessoa certa. “A sua fé o salvou” (Mc 10.52).
E o desfecho é a moldura perfeita da seção: “Imediatamente ele recuperou a visão e foi seguindo Jesus pelo caminho” (Mc 10.52). Curado, Bartimeu não foi embora viver a vida à sua maneira. Não está mais sentado à beira do caminho, mas de pé, andando no Caminho, e há muita vida e ânimo nesse andar. O jovem rico saiu triste, afastando-se de Jesus; Bartimeu segue cheio de alegria, subindo com Jesus para Jerusalém. Em resumo, Bartimeu enxerga a Cristo, ouve a Cristo, fala com Cristo e anda com Cristo. Como queremos que termine a nossa história: como a do jovem rico ou como a de Bartimeu?
Primeira: cultive a memória dos cestos que sobraram. Diante da crise de hoje, faça o exercício que Jesus fez com os discípulos no barco: lembre-se, de modo concreto e nomeado, das provisões passadas de Deus na sua vida, e ore a partir delas (Sl 103.2). Segunda: peça o segundo toque. Não se conforme com uma visão turva de Cristo; peça a Deus que abra os seus olhos para vê-lo como ele é, e não como gostaríamos que fosse (Ef 1.17-18). Talvez a melhor oração que possamos fazer hoje seja a de Bartimeu: “Senhor, eu quero ver”. Terceira: responda você mesmo à segunda pergunta. Quem é Jesus para você: um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer aspirações terrenas, ou o Cristo, o Filho do Deus vivo, o Senhor da sua vida? Quarta: tome a sua cruz com alegria, e não com lamento. A renúncia cristã não é masoquismo; é a troca consciente do que não podemos reter pelo que não podemos perder. Quinta: seja a voz que chama, e não a que manda calar. Há Bartimeus à beira dos nossos caminhos, pessoas que a igreja esqueceu e negligenciou; a nossa vocação é dizer-lhes: “Coragem! Levante-se! Ele está chamando você”.
1. Como você vê a Cristo? Quem é ele para você, na prática do seu dia a dia, e não apenas na doutrina que você professa?
2. Em que situações recentes você agiu como os discípulos no barco, esquecendo os “cestos que sobraram”? O que ajudaria você a cultivar a memória das provisões de Deus?
3. Que áreas da sua visão espiritual ainda estão “turvas”, precisando de um segundo toque de Jesus?
4. Você já ouviu o chamado de Jesus de uma maneira nova em sua própria vida? O que este chamado tem exigido de você?
5. Qual é a diferença entre a cruz de Cristo e a cruz do discípulo? O que significa, concretamente, tomar a sua cruz nesta semana?
6. Você consegue pensar em pessoas que a igreja esqueceu e negligenciou, como Bartimeu à beira do caminho? Como você pode ser a voz de Jesus chamando essas pessoas a segui-lo como Senhor e Salvador?
Marcos 8 nos apresenta dois chamados, o “Vinde após mim” (Mc 1.17) que nos alcança e o “Ide por todo o mundo” (Mc 16.15) que nos envia; dois toques, um para começar a ver e outro para enxergar com clareza (Mc 8.22-25); e duas cruzes, a de Cristo, que nos salva, e a nossa, que nos conforma a ele (Mc 8.34). Minha posição, ao fim deste estudo, é a que procurei sustentar em cada seção: o discipulado é processo, e não evento. Entre a conversão e a maturidade há uma escola inteira, com aulas de compaixão, correções amorosas, segundas chances e segundos toques. Por isso, ninguém deve se desesperar por ainda ver homens como árvores que andam, nem se acomodar como se a visão turva fosse o destino final. Jesus não nos dá apenas um título de cristão; ele nos coloca sob o seu senhorio para vivermos a missão, e completa a obra que começou (Fp 1.6). Sigamos, pois, o caminho de Bartimeu e não o do jovem rico: enxergar a Cristo, ouvir a Cristo, falar com Cristo e andar com Cristo, ajudando outros a segui-lo também. “Pois que adianta alguém ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mc 8.36). Com Pedro, confessamos: “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras de vida eterna” (Jo 6.68).
Bispo José Ildo Swartele de Mello
Os versos de Fernando Pessoa citados na seção 8 pertencem aos poemas “Mar Português” e “D. Sebastião, Rei de Portugal”, do livro Mensagem (1934), em domínio público.
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A reunião de cristãos em pequenos grupos para comunhão, cuidado mútuo, estudo bíblico e oração com intuito de promover o crescimento espiritual de seus participantes e a evangelização de parentes e amigos.
Wesley preocupou-se com estruturas, buscou estruturas para evangelizar as massas e também para promover a santidade e o crescimento espiritual dos convertidos. Wesley pesquisou entre moravianos e pietistas. A questão chave para a edificação de uma Igreja com uma comunhão saudável que vive, nutre e reflete os valores do Reino de Deus foi, no movimento Wesleyano, o sistema de classes ou pequenos grupos de discipulado e santificação. O pequeno grupo é importante, pois transmite fé e não apenas conhecimento. Aprendemos muito mais através do convívio do que através da leitura. O poder da cultura é maior do que a força de nossa cosmovisão. O que significa que não adianta mudar nossa consciência, pois sozinha a consciência tende a sucumbir à cultura. E as células são o melhor ambiente para o desenvolvimento da cultura cristã, onde são nutridos os valores cristãos através da vivência comunitária dos princípios do Reino de Deus.
Não se deve desprezar o valor precioso papel destes pequenos grupos de apoio e cuidados mútuos, que promovem um ambiente acolhedor, solidário e favorável, para o desenvolvimento da cultura e dos valores do Reino de Deus, através também de uma série e salutar ordem disciplinar, com exortação em amor, oração em favor uns dos outros e estímulos mútuos para o desenvolvimento do caráter cristão pessoal e comunitário. O movimento wesleyano demonstrou o valor imprescindível de estruturas normativas para disciplina e missão, algo como um pacto de membros e supervisão dentro do grupo e de disciplina e supervisão do grupo e seus líderes ao grupo mais amplo da Igreja.
As reuniões em grupos pequenos são também o melhor espaço para o exercício de dons e ministérios, favorecendo, assim, a formação e a multiplicação de novos líderes, células e igrejas.
A Reforma protestante ergueu a bandeira em defesa do sacerdócio universal de todos os crentes, mas foi no movimento wesleyano que vimos isto se dar na prática. Wesley, durante seu ministério, chegou à conclusão de que os leigos poderiam e deveriam exercer o ministério sacerdotal. Isto foi fundamental para o crescimento quantitativo e qualitativo do movimento wesleyano e para o sucesso de sua missão. Pois, para que a Igreja possa exercer sua missão de modo integral, é indispensável que a missão seja entendida como ministério de cada crente e não fique restrita a uma elite de obreiros ordenados.
A missão da Igreja, portanto, não deve ser encarada como privilégio de um pequeno grupo de ministros ordenados ou como algo destinado para aqueles que recebem um chamado para o campo missionário no exterior. O cristão é missionário por excelência, onde quer que esteja, e não um cliente dos produtos da fé. Todos os membros da Igreja, sem exceção, por terem sido integrados no corpo, receberam dons e ministérios. A função dos líderes maduros da Igreja é equipar homens e mulheres para a missão da Igreja no mundo. Pois a Igreja não existe como um fim em si mesma, mas existe para servir a Deus no mundo na proclamação e expansão do Evangelho do Reino de Deus, por palavras e boas obras, o que implica a participação ativa e construtiva de cada cristão, homens e mulheres, jovens e idosos, cultos e incultos, pobres e ricos…
Tendo a célula um caráter bem comunitário e participativo, a função do líder é a de facilitador. Ele não precisa ser um exímio pregador e nem muito carismático, pois o seu papel não é o de centralizar as ações, mas o de facilitar a participação de todos. Para tanto, basta que seja um bom crente, consciente do valor dos grupos pequenos para a cura e o bem estar da alma humana. Assumindo o sério compromisso de devotar tempo e esforços para a constituição e continuidade do grupo. É muito importante também que seja uma pessoa ensinável e leal a Deus e a liderança da igreja, sempre disposta a aprimorar-se para melhor servir.
A figura do anfitrião é vital para o sucesso da célula. Os donos da casa não devem se sentir na obrigação de prepararem lanche para os participantes das reuniões. O líder deve deixar claro que esta não é uma obrigação deles. De fato, a questão do lanche nem é um requisito essencial para a realização da célula. Mas, se o grupo fizer questão de um lanche, deve organizar-se de tal maneira a não onerar o anfitrião. Tal medida visa também encorajar que mais pessoas abram a porta de suas casas para as reuniões das células.
As células são excelentes para promover a comunhão e a edificação espiritual de seus participantes, como também para evangelizar os que estão separados de Deus e de Sua Igreja. Os sem igreja costumam ter mais simpatia por participar de uma reunião em uma casa do que em uma igreja. O ambiente aconchegante do lar e da célula favorecem a amizade e o entrosamento do visitante. Devemos convidar vizinhos, amigos e parentes para participarem das células. Devemos também acolher bem a todos os que visitam os cultos e programações da igreja. Eles merecem uma atenção especial de nossa parte para que se sintam amados e bem recebidos na igreja. Devemos facilitar a integração destes visitantes com os demais membros da igreja. Devemos fazer amizade com eles, ajudando-os a se enturmarem com outros membros da igreja. Devemos também aproveitar a oportunidade para convidá-los a participarem das células, observando que pessoas da mesma faixa etária tem mais facilidade de entrosamento.
Existe sempre o perigo da Koinonite, que é fazer da comunhão um fim em si mesma. Jesus conviveu por 3 anos com seus discípulos. E foi muito duro para eles quando Jesus disse que havia chegado o momento de partir. Os discípulos tornaram-se crentes maduros, e agora estavam aptos para formarem e liderarem novos grupos de cristãos. Tal separação foi vital para a multiplicação de novas células e igrejas.
Não percamos jamais a visão missionária das células! Células saudáveis devem crescer, formar novos líderes e se multiplicarem. Líderes multiplicam líderes, células multiplicam células, e igrejas multiplicam igrejas. "Crescei e multiplicai-vos" (Gn 1.28 cf. Mt 28.18-20).
Cada reunião das células deve possuir uma estrutura simples com duração de cerca de uma hora, composta por 3 blocos de aproximadamente de 20 minutos cada:
O primeiro destina-se ao compartilhamento; (período em que as pessoas testemunham a respeito de seu desenvolvimento espiritual, vitórias, derrotas e desafios).
O segundo ao estudo bíblico; (que deve ser baseado no sermão do domingo anterior. Não deve ser uma repetição do sermão e nem um palestra sobre o assunto. O dirigente deve atuar como um facilitador do debate em torno da mensagem. Deve ler o texto básico e apresentar um rápido resumo do que foi pregado, para depois ouvir o que as pessoas tem a dizer a respeito, levantando questões sobre como é que a mensagem tem afetado suas vidas. Ele não tem a obrigação de responder a questões difíceis. Estas devem ser encaminhadas aos pastores da igreja).
E o terceiro e último é a oração.
(Momento de carregarmos os fardos uns dos outros. Dependendo do tamanho do grupo, é aconselhável que haja uma divisão em grupos de 3 pessoas para que todos tenham tempo de compartilhar suas necessidades e orarem uns pelos outros).
Bispo José Ildo Swartele de Mello
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Em 29 minutos, falo sobre o primeiro e o último chamado de Jesus, que se encontram respectivamente no primeiro e último capítulos do Evangelho de Marcos. Evangelho este que mostra como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens. O capítulo 8, que fica exatamente no meio do livro, de modo emblemático, apresenta um dia intenso de atividades, como um claro exemplo deste processo de discipulado. O número dois é recorrente, apontando para o processo pedagógico:
Dois Chamados (o primeiro e o último) e o processo de discipulado entre um e o outro!
Duas Multiplicações de Pães. Que lições?
Dois Milagres em Marcos 8. Qual a relação entre eles?
Dois Toques de Jesus foram necessários para a cura do cego. Por quê?
Duas Perguntas que Jesus fez aos seus discípulos Duas falas de Pedro (uma espiritual e a outra carnal)
Duas repreensões de Jesus aos seus discípulos. A falta de fé e confiança e as ambições desta vida (Quando Pedro ainda era adepto da teologia da prosperidade).
E As Duas Cruzes (A de Cristo e a que pertence a cada discípulo).
Como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens?
Processo de discipulado que vai do "Vinde a mim" até o "ide".
Mensagem que preguei na imel de Pinheiros do concílio nikkei no último domingo de Maio de 12.
Sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
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O que Jesus quis dizer com a frase abaixo, que é tão difícil de entender?
“E, desde os dias de João Batista até agora, se faz violência ao Reino dos céus, e pela força se apoderam dele.” (Mateus 11.12)
Violência aqui não significa violência contra os adversários, pois Jesus nos ensinou a dar a outra face e a amar até mesmo os nossos inimigos. Não significa também a violência dos inimigos contra o Reino de Deus, porque em Lucas 16.16, temos uma declaração semelhante, onde tal interpretação não seria possível, pois ali se lê: “A Lei e os Profetas vigoraram até João; desde esse tempo, vem sendo anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.” (Lc 16.16). O pensamento parece ser: "… apenas o homem em quem a violência da devoção supera e derrota a violência da perseguição entrará finalmente no Reino dos Céus“. O que é capaz de negar-se a si mesmo, carregar sua cruz, que prioriza o Reino e é capaz de deixar as redes, e que luta por entrar pela porta estreita; não tendo dois senhores, não amando as riquezas, não sendo avarento, não amando e seguindo apegado as coisas e valores deste mundo passageiro é que entrará no Reino de Deus. Ou seja, Jesus está se referindo às pessoas que o seguiam ativamente, fazendo de tudo para apropriar-se do reino, pagando o preço do discipulado, negando-se a si mesmo, deixando tudo para seguir o Senhor, desprendendo-se de tudo para apropria-se da pedra de inestimável valor, ou seja, elas não ficam simplesmente esperando que o reino venha até elas. Trata-se aqui da violência contra os apetites carnais, contra o egoísmo e todas as obras da carne. “Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado.” (1Co 9.27 AA ). “Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te convém que se perca um dos teus membros, e não seja todo o teu corpo lançado no inferno.” (Mt 5.29).
A porta do Reino dos Céus é estreita: “E alguém lhe perguntou: Senhor, são poucos os que são salvos? Respondeu-lhes: Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não poderão. (Lc 13.23–24 AA). (onde o verbo ἀγωνίζομαι traduzido por “esforçar” significa "lutar”).
Nenhuma obra, sacrifício ou esforço humano é capaz de nos garantir a salvação, mas, uma vez alcançados por tão grande e gratuita salvação, somos chamados e capacitados a sermos suas testemunhas aqui neste mundo, vivendo de modo digno do Evangelho, produzindo os frutos dignos de arrependimento, as boas obras que promovem a glória de Deus.
A graça salvadora não apaga a responsabilidade humana. “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos, no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.11–12).
No primeiro capítulo de sua segunda epístola, Apóstolo Pedro diz que recebemos gratuitamente todas as condições para vivermos à altura de nossa vocação e que compete a cada cristão esforçar-se diligentemente para o seu desenvolvimento espiritual, para não se tornarem inativos e nem infrutíferos, “pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”. (2Pe 1.11).
Portanto, cuidado com a graça barata que promove a ideia de um Deus que dá tudo e que não exige nada. Bonhoeffer disse que "A graça barata é a pregação do perdão sem arrependimento, é o batismo sem a disciplina de uma congregação, é a Ceia do Senhor sem confissão dos pecados, é a absolvição sem confissão pessoal. A graça barata é a graça sem discipulado, a graça sem a cruz, a graça sem Jesus Cristo vivo, encarnado… Essa graça é sobretudo preciosa por ter sido preciosa para Deus, por ter custado a Deus a vida de seu Filho – ‘vocês foram comprados por preço’ – e porque não pode ser barato para nós aquilo que custou caro para Deus.”
Quem ama mais ou menos, tem fé mais ou menos, ora mais ou menos, se engaja na obra de Deus mais ou menos, obedece a Deus mais ou menos, levando a vida cristã no banho Maria, corre o risco de estar enquadrado na categoria dos cristãos mornos que serão vomitados da boca do Senhor se não se arrependerem (Ap 3.16).
Os que gostam de levar a vida em banho Maria, deveriam atentar para o refrão da canção Maria, Maria de Milton Nascimento: “Mas é preciso ter força. É preciso ter raça. É preciso ter gana sempre!”
Qual o valor que temos dado ao Evangelho que nos salva? Temos buscado o Reino de Deus como a prioridade máxima de nossas vidas? Qual tem sido a temperatura da nossa fé, amor e devoção a Cristo e sua Igreja?
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No primeiro domingo do ano de 1980 eu entreguei minha vida a Jesus. Não que eu não fosse um cristão até então, pois eu lia a Bíblia e orava cotidianamente, o problema é que eu seguia a Cristo à distância, semelhante a Pedro por ocasião da prisão de Jesus (Lc 22.52). Quem segue a Jesus de longe acaba caindo em muitas tentações, chegando a ponto de até mesmo negar que conhece a Jesus (Lc 22.56-61).
Eu cria em Cristo, mas não me entregava a ele de corpo e alma. Eu o seguia à minha maneira, mantendo uma distância segura para preservar minha pele, meus sonhos, meus planos, meus alvos, meus prazeres, enfim, meu ego, pois eu queria continuar sendo o regente inconteste da minha existência.
Naquela oportunidade eu também mantinha distância da Igreja. Embora eu soubesse que Jesus havia instituído a Igreja e delegado a ela a incumbência de dar sequencia a sua grande missão, tal consciencia foi diminuindo com o passar do tempo, de modo que eu fui largando mão da Igreja, me esquecendo de que ser batizado em Jesus é também ser batizado no Corpo de Cristo que é a Igreja (1 Co 12.13). Então, eu fui desenvolvendo um jeito peculiar de ser cristão, um estilo individualista, apartado da igreja, como um ilha está separada do continente. De maneira que a minha situação era bem pior que a de Pedro. Pois o erro de Pedro foi ter seguido a Jesus de longe naquele fatídico dia, o que não era o costume dele, pois Pedro estava sempre seguindo a Jesus de perto e também fazia parte do grupo mais seleto de seguidores de Cristo. Embora a igreja esteja cheia de imperfeições, a Bíblia ensina que Jesus "amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra" (Ef 5.25-26). Em vez de ficarmos do lado de fora, criticando a igreja por conta dos iscariotes que há nela, devemos nos unir a Cristo, aos pedros, joãos e tiagos que sinceramente trabalham em favor do aperfeiçoamento da igreja, pois ela cumpre um papel vital no plano de Deus para este mundo.
Então, eu precisava despertar para o fato de que não podia continuar negando a Cristo e a sua Igreja. Eu precisava assumir o meu cristianismo. Eu precisava negar a mim mesmo para poder carregar a minha própria cruz. Eu precisava confiar em Cristo a ponto de entregar a minha alma, minha vida e meu futuro em suas mãos. Eu precisa abandonar o meu estilo de seguir a Jesus, para segui-lo à sua maneira e não à minha. Eu precisava confessar que estava amando mais a mim mesmo do que a Deus. Eu precisava também reconhecer que o estava negando quando não o confessava publicamente como Senhor da minha vida até mesmo por motivo de vergonha da opinião dos outros ou porque não queria me identificar com ele para seguir vivendo à vontade com meus pecados.
Foi aí que eu decidi seguir a Jesus de perto! Decidi ser discípulo de verdade e não apenas um mero crente ou cristão. Eu assumi um compromisso com Jesus e com a Sua Igreja. Comecei a frequentar a Igreja, mais que isto, eu me tornei parte da Igreja de Cristo! Fiz um pacto com Deus, passando a levar a sério o meu batismo. Ou seja, eu passei a viver o meu batismo cristão. Foi aí também que eu experimentei uma libertação! Jesus tomou o fardo do pecado que estava sobre as minhas costas! Que alívio! Eu experimentei o céu na terra! Uma alegria indizível! A certeza de que estava perdoado e de que minha vida e futuro estavam nas mãos do ser mais poderoso e bondoso de todo o Universo. Jesus se tornou o meu melhor amigo. Eu abri a porta do meu coração para ele habitar (Ap 3.20). Eu reconheci que ele é o legítimo Rei e me submeti alegre e confiadamente ao seu senhorio!
Lá se vão 33 anos de experiência tendo Jesus como comandante da minha vida e posso afirmar que aquela foi a decisão que mudou o curso da minha história para melhor em todos os sentidos. Desde então, eu tenho provado do cuidado bondoso de Deus e desfrutado da companhia real e transformadora de Cristo. Vale a pena entregar a vida a ele. Se ainda não o fez, comece o ano tomando a decisão que mudará o rumo de sua vida terrena e eterna.
Um abençoadíssimo 2013 na presença de Jesus!
Bispo Ildo Mello
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Como foi que Jesus transformou pescadores comuns em pescadores de homens?
Processo de discipulado que vai do "Vinde a mim" até o "ide".
Mensagem que preguei na imel de Pinheiros do concílio nikkei no último domingo de Maio de 12.
Sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
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Mensagem do Bispo Ildo Mello no quadragésimo aniversário da imel de Vila Moraes sobre a necessidade de discernimento espiritual baseado em Marcos 8, que começa relatando o milagre da Segunda Multiplicação de Pães e Peixes.
Mesmo após este segundo milagre, os discípulos voltam a ficar ansiosos e discutem diante de uma nova crise de ausência de pães. Jesus os repreende, dizendo que eles tinham olhos mas não enxergavam. Parece que não haviam aprendido nenhuma lição com os milagres anteriores.
Na seqüência, Jesus cura um cego em duas etapas. Em um primeiro toque, o cego volta a enxergar, mas sua visão é confusa. Foi necessário um segundo toque para que o cego voltasse a enxergar perfeitamente. Este parece ser um retrato da evolução espiritual dos discípulos, que pelo contato com Cristo já havia saído da escuridão, mas que ainda careciam de crescimento para poderem enxergar perfeitamente.
O mesmo acontece com os atuais seguidores de Jesus que custam a aprenderem a confiar em Deus e cuja fé se mostra por vezes inoperante diante dos desafios da vida. Nossa visão do Cristo se revela pequena e turvada.
Depois, de repreendê-los, Jesus pergunta qual é a opinião da multidão a respeito dele, ou seja, Jesus quer saber como é que o povo o enxerga. Respondendo a pergunta, os discípulos dizem que o povo via Jesus como um grande profeta. Viam algo de muito bom nele, mas não o viam ainda como o Filho de Deus enviado ao mundo.
Então, Jesus faz uma segunda pergunta, querendo agora saber como é que os seus próprios discípulos o enxergavam. Pedro, movido pelo Espírito Santo, responde dizendo: "Tu és o Cristo!". Eis aí uma visão clara de que Jesus é o Messias prometido, o poderoso Filho de Deus que veio para reinar sobre tudo. Mas o discernimento de Pedro ainda era incompleto, pois quando Jesus passa a discorrer sobre a necessidade do Cristo padecer e morrer, Pedro, reage negativamente, como que dizendo, "vira esta boca pra lá", "tá amarrado", "rejeita esta palavra", "nada de sofrimento", "nada de morte", "nada de cruz", "só vitória".
Jesus repreende duramente a Pedro, dizendo: "arreda Satanás, pois cogitas unicamente das coisas desta vida e não das coisas de Deus". Satanás continua operando hoje cegando o entendimento de muitos seguidores de Jesus, levando-os a pensarem em Deus apenas em termos do aqui e agora. Mas, "se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens" (1 Coríntios 15.19).
João no capítulo 6 de seu Evangelho relata que a multidão quis coroar a Jesus como Rei após a primeira multiplicação de pães, mas Jesus recusou tal glória, dizendo que eles só o exaltavam por causa do pão.
Na ocasião, Jesus fez um claro discurso a respeito do propósito de sua vinda, cujo reino não é deste mundo e cuja recompensa se encontra nos céus. O resultado foi que a multidão o abandonou por completo. Jesus, volta-se para os seus discípulos mais chegados e pergunta: "E vocês também não querem ir embora?". Ao que Pedro responde: "Para onde iremos nós, pois só tu tens as palavras de vida eterna!".
Pedro alternava altos e baixos. Visão e cegueira espiritual. Somente após a ressurreição de Jesus, foi que seus olhos foram plenamente iluminados para a realidade da cruz no ministério do Cristo. Jesus encerra a conversa, registrada no capítulo 8 de Marcos, destacando que seus seguidores devem também seguir o caminho da cruz. Devemos buscar o pão que não perece, devemos buscar as coisas que são lá do alto, onde Cristo habita, não acumulando tesouros corrosivos na terra, mas tesouros imperecíveis nos céus. Não devemos amar o mundo, pois o mundo passa, mas aquele que faz a vontade de Deus, permanece para sempre. Nem só de pão vive o homem, pois a vida é muito mais que comida e prosperidade. E só Jesus tem as palavras de vida eterna! O que Jesus significa para você? Um sábio, um profeta, um gênio da lâmpada que existe para satisfazer nossas aspirações terrenas? Como é que você o vê?
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“Ao saírem, encontraram um cireneu, chamado Simão, a quem obrigaram a carregar-lhe a cruz.”
(Mt 27.32).
Aquele que jamais caiu em pecado, carregou o peso da culpa dos pecados do mundo inteiro. “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro… ” (Is 53.6–7).
Neste caminho para o matadouro, após ser cruelmente açoitado, mal conseguia suportar o peso da imensa cruz que carregava, chegando a tombar algumas vezes. O Filho de Deus se humilhou a ponto de cair com a cara no chão e de rastejar a caminho da morte. Tudo por amor a todos nós. Tal atitude denuncia toda espécie de orgulho humano! Os soldados romanos forçaram um cirineu chamado Simão a ajudar a carregar a cruz de Cristo.
Enquanto Jesus sofria por todos, os seus discípulos mais chegados, que no passado foram chamados a carregarem a cruz (Mt 16.24), o abandonaram, de modo que Jesus acabou sendo socorrido por um estrangeiro que por ali passava. O que nos faz lembrar da Parábola do Bom Samaritano (Lc 10.30-37). Os soldados não estavam sendo necessariamente bondosos com Cristo, o mais provável é que eles agiram assim para que Cristo não morresse no caminho a fim de que pudesse sofrer ainda mais na cruz.
Simão, o cirineu, havia saído do Norte da África para celebrar a Páscoa em Jerusalém, e, no caminho, acabou se deparando com o verdadeiro Cordeiro Pascal que tira o pecado do mundo. Ele recebeu a graça de não apenas crer, mas também de padecer por Cristo. Jesus morrerá pelos pecados de todos, incluindo os de cirineu, mas todos somos chamados a carregar a cruz. O Apóstolo Pedro disse que participar dos sofrimentos de Cristo é um grande privilégio e motivo de alegria: “alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).
Simão, que a princípio foi forçado a carregar a cruz, tornou-se espontaneamente um seguidor de Cristo disposto a seguir carregando a sua própria cruz. E sabemos que seu filho Rufo foi um destacado cooperador de Paulo (Rm 16.13; Mc 15.21).
“Então, disse Jesus a seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me.” Mt 16.24).
Bispo Ildo Mello